sexta-feira, 3 de julho de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: As dimensões do infanticídio industrial (2)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     42. As dimensões do infanticídio industrial
          Quando nascia o século XX, Alexander von Humboldt calculou o valor da produção manufatureira do México em uns sete ou oito milhões de pesos, a maior parte correspondente a manufaturas têxteis. Os estabelecimentos especializados elaboravam panos, tecidos de algodão e linho; mais de 200 teares ocupavam, em Querétaro, 1.500 operários, e em Puebla trabalhavam 1.200 tecedores de algodão [1]. No Peru, os toscos produtos da colônia nunca alcançaram a perfeição dos tecidos indígenas anteriores à chegada de Pizarro, “mas em compensação, sua importância econômica foi muito grande” [2]. A indústria repousava sobre o trabalho forçado dos índios, encarcerados em seus locais de trabalho desde o clarear do dia até tarde da noite. A independência aniquilou o precário desenvolvimento alcançado. Em Ayacucho, Cacamorsa, Tarma, os trabalhos eram de considerável magnitude. O povoado inteiro de Pacaicasa, hoje morto, “formava um só e vasto estabelecimento de teares com mais de mil operários”, diz Romero em sua obra; Paucarcolla, que abastecia de cobertores de lã uma vasta região, está desaparecendo “e atualmente não existe ali nem uma só fábrica” [3]. No Chile, uma das mais distantes possessões espanholas, o isolamento favoreceu o desenvolvimento de uma atividade industrial incipiente desde a alvorada do período colonial. Havia fiações, tecelagens, curtumes; as cordas chilenas proviam todos os navios do Mar do Sul; fabricavam-se artigos de metal, desde alambiques e canhões até joias, baixelas finas e relógios. Construíam-se embarcações e veículos [4]. Também no Brasil os estabelecimentos têxteis e metalúrgicos, que vinham ensaiando seus modestos primeiros passos desde o século XVIII, foram arrasados pelas importações estrangeiras. Essas duas atividades manufatureiras tinham conseguido progredir consideravelmente apesar dos obstáculos impostos pelo pacto colonial com Lisboa, mas desde 1807 a monarquia portuguesa instalada no Rio de Janeiro era apenas um joguete nas mãos britânicas, e o poder de Londres tinha outra força. “Até a abertura dos portos”, diz Caio Prado Júnior, “as deficiências do comércio português funcionavam como barreira protetora de uma pequena indústria local; pobre indústria artesanal, é verdade, mas assim mesmo suficiente para satisfazer uma parte do consumo interno. Essa pequena indústria não vai sobreviver à livre concorrência estrangeira, nem mesmo nos produtos mais insignificantes.” [5]

[1] HUMOLDT, Alexander von. Ensayo sobre el reino de la Nueva España. México, 1944.
[2] ROMERO, Emilio. Historia económica del Perú. buenos Aires, 1949.
[3] Ibid.
[4] RAMÍREZ NECOCHEA, Hernán. Antecedentes económicos de la independencia de Chile. Santiago de Chile, 1959.
[5] PRADO JÚNIOR, Caio. Historia económica del Brasil. Buenos Aires, 1960. 

     A Bolívia era o centro têxtil mais importante do vice-reinado rio-platense. Em Cochabamba, no fim do século, havia 80 mil pessoas dedicadas à fabricação de lenços de algodão, panos diversos e toalhas, segundo o testemunho do intendente Francisco de Viedma. Em Oruro e La Paz também tinham surgido estabelecimentos que, junto com os de Cochabamba, ofereciam mantas, ponchos e baetas muito resistentes à população, às tropas de linha do exército e às guarnições da fronteira. De Mojos, Chiquitos e Guarayos provinham finíssimos tecidos de linho e de algodão, chapéus de palha, vicunha ou carneiro, e charutos de folha. “Todas essas indústrias desapareceram com a concorrência de artigos similares estrangeiros”, constatava, sem grande tristeza, um volume dedicado à Bolívia no primeiro centenário de sua independência. [6]

[6] THE UNIVERSITY SOCIETY. Bolivia en el primer centenario de su independencia. La Paz, 1925.

     O litoral da Argentina era a região mais atrasada e menos povoada do país, antes que a independência deslocasse para Buenos Aires, em prejuízo das províncias mediterrâneas, o centro de gravidade da vida econômica e política. No princípio do século XIX, apenas a décima parte da população argentina residia em Buenos Aires, Santa Fé e Entre Ríos [7]. Com ritmo lento e através de meios rudimentares desenvolvera-se uma indústria nativa nas regiões do centro e do norte, enquanto no litoral, segundo dizia em 1795 o procurador Larramendi, não existia “nenhuma arte nem manufatura”. Em Tucumán e Santiago del Estero, que atualmente são poços de subdesenvolvimento, floresciam as oficinas têxteis, que fabricavam ponchos de três classes distintas, e em outros estabelecimentos produziam-se excelentes carroças, charutos, cigarros, couros e solas. Em Catamarca, lenços de todos os tipos, tecidos finos, baetilhas de algodão preto para uso dos clérigos; Córdoba fabricava mais de 70 mil ponchos, vinte mil cobertores e 40 mil varas de baeta por ano, sapatos e artigos de couro, cinchas e chicotes, tapetes e cordovãos. Os curtumes e as correarias mais importantes estavam em Corrientes. Eram famosos os finos arreios de Salta. Mendoza produzia entre 2 e 3 milhões de litros de vinho por ano, em nada inferiores aos de Andaluzia, e San Juan destilava 350 mil litros anuais de aguardente. Mendoza e San Juan formavam “a garganta do comércio” entre o Atlântico e o Pacífico na América do Sul. [8]

[7] ALEN LISCANO, Luis C. Imperialismo y comercio libre. buenos Aires, 1963.
[8] SANTOS MARTÍNEZ, Pedro. Las industrias durante el virreinato (177-1810). Buenos Aires, 1969.

     Os agentes comerciais de Manchester, Glasgow e Liverpool percorreram a Argentina e copiaram os modelos dos ponchos santiaguinos e cordoveses e dos artigos de couro de Corrientes, além dos estribos de madeira “ao uso do país”. Os ponchos argentinos valiam sete pesos, os de Yorkshire, três. A indústria têxtil mais desenvolvida do mundo triunfava a galope contra as tecelagens nativas, e outro tanto ocorria com a produção de botas, esporas, relhos, freios e até pregos para ferraduras. A miséria assolou as províncias do interior argentino, que prontamente se insurgiram contra a ditadura do porto de Buenos Aires. Os principais mercadores (Escalada, Belgrano, Pueyrredón, Vieytes, Las Heras, Cerviño) haviam empolgado o poder que fora arrebatado à Espanha [9] e o comércio lhes oferecia a possibilidade de comprar sedas e facas inglesas, panos de Louviers, tecidos finos de Flandres, sabres suíços, gim holandês, presunto de Westfalia e charutos de Hamburgo. Em troca, a Argentina exportava couro, sebo, ossos, carne salgada, e os pecuaristas da província de Buenos Aires aumentavam seus mercados graças ao livre comércio. O cônsul inglês no Prata, Woodbine Parish, descrevia em 1837 para um gordo gaúcho dos pampas: “Todas as peças da tua roupa e, exceto o que for de couro, tudo o que está ao teu redor: há alguma coisa que não seja inglesa? Se tua mulher tem uma saia, há dez possibilidade contra uma que tenha sido fabricada em Manchester. A chaleira e a panela em que vocês cozinham, a louça em que comem todos os dias, a faca, as esporas, o freio, o poncho que agasalha, todos são artigos trazidos da Inglaterra” [10]. A Argentina trazia da Inglaterra até as pedras das calçadas. Aproximadamente na mesma época, James Watson Webb, embaixador dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, relatava: “Em todas as fazendas do Brasil, os amos e seus escravos se vestem com manufaturas do trabalho livre, e nove décimos desses produtos são ingleses. A Inglaterra provê o capital necessário para os melhoramentos internos do Brasil e fabrica todos os utensílios de uso corrente, da enxada para cima, e quase todos os artigos de luxo ou de uso prático, desde o alfinete ao mais caro vestido. A cerâmica inglesa, os artigos ingleses de vidro, ferro e madeira são tão comuns quanto os panos de lã e tecidos de algodão. A Grã- Bretanha fornece ao Brasil seus barcos a vapor e a vela, faz o calçamento e arruma as ruas, ilumina com gás as cidades, constrói as ferrovias, explora suas minas, é o seu banqueiro, estende seus fios telegráficos, faz o transporte postal, constrói seus móveis, motores, vagões (...)” [11]. A euforia da livre importação enlouquecia os mercadores dos portos; naqueles anos, o Brasil recebia também ataúdes, já forrados e prontos para receber os mortos, selas de montaria, candelabros de cristal, caçarolas e até patins para gelo, de uso mais do que improvável nas ardentes costas do trópico; também carteiras, embora ainda não existisse no Brasil o papel-moeda, e uma quantidade inexplicável de instrumentos de matemática [12]. O Tratado de Comércio e Navegação assinado em 1810 atribuía à importação de produtos ingleses uma tarifa menor do que a aplicada aos produtos portugueses, e seu texto tinha sido tão precariamente traduzido que a palavra policy, por exemplo, em português passou a significar polícia em vez de política [13]. Os ingleses gozavam no Brasil do direito de justiça especial, que os subtraía da jurisdição da justiça nacional: o Brasil era “um membro não oficial do império econômico da Grã- Bretanha”. [14]

[9] LEVENE, Ricardo. Introducción a Documentos para la historia argentina, 1919. In: Obras completas. Buenos Aires, 1962.
[10] PARISH, Woodbine. Buenos Aires y las provincias del Río de la Plata. Buenos Aires, 1958.
[11] SCHILLING, Paulo. Brasil para extranjeros. Montevideo, 1966.
[12] MANCHESTER, Alan K. British preeminence in Brazil: its rise and decline. Chapel Hill, North Carolina, 1933.
[13] FURTADO, Celso. Formación económica del Brasil. México; Buenos Aires, 1959.
[14] NORMANO, J. F. Evolução econômica do Brasil. São Paulo, 1934.

     Em meados do século, um viajante sueco chegou a Valparaíso e foi testemunha da dissipação e da ostentação que a liberdade de comércio facilitava ao Chile. Ele escreveu: “A única forma de se mostrar superior é submeter-se aos ditames das revistas da moda de Paris, ao fraque preto e todos os acessórios que lhe correspondem (...). A senhora compra um elegante chapéu que a faz sentir-se uma consumada parisiense, enquanto o marido coloca um duro e alto gravatão e se considera no pináculo da cultura europeia” [15]. Três ou quatro casas inglesas tinham açambarcado o mercado do cobre chileno, e manejavam os preços segundo os interesses das fundições de Swansea, Liverpool e Cardiff. Em 1838, o cônsul-geral da Inglaterra informava ao seu governo sobre o “prodigioso incremento” das exportações do cobre, que era transportado “principalmente, se não completamente, em barcos britânicos ou a serviço de britânicos” [16]. Os comerciantes ingleses monopolizavam o comércio em Santiago e Valparaíso, e o Chile, em ordem de importância para os produtos ingleses, era o segundo mercado latino americano.

[15] EYHAUT, Gustavo. Raíces contemporáneas de América Latina. Buenos Aires, 1964.
[16] RAMÍREZ NECOCHEA, Hernán. Historia del imperialismo en Chile. Santiago do Chile, 1960.

     Os grandes portos da América Latina, escalas de trânsito das riquezas extraídas do solo e do subsolo destinadas a longínquos centros de poder, consolidavam-se como instrumentos de conquista e dominação contra os países aos quais pertenciam, e eram os drenos por onde se escoava a renda nacional. Os portos e as capitais queriam se parecer com Paris ou Londres, e na retaguarda tinham o deserto.

continua na página 288...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Do rio, os navios de guerra britânicos saudavam a independência (1)
Segunda Parte: As dimensões do infanticídio industrial (2)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

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