O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes
SEGUNDA PARTE
HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA
42. As dimensões do infanticídio industrial
Quando nascia o século XX, Alexander von Humboldt
calculou o valor da produção manufatureira do México em
uns sete ou oito milhões de pesos, a maior parte
correspondente a manufaturas têxteis. Os estabelecimentos
especializados elaboravam panos, tecidos de algodão e
linho; mais de 200 teares ocupavam, em Querétaro, 1.500
operários, e em Puebla trabalhavam 1.200 tecedores de
algodão
[1]. No Peru, os toscos produtos da colônia nunca
alcançaram a perfeição dos tecidos indígenas anteriores à
chegada de Pizarro, “mas em compensação, sua
importância econômica foi muito grande”
[2]. A indústria
repousava sobre o trabalho forçado dos índios,
encarcerados em seus locais de trabalho desde o clarear do
dia até tarde da noite. A independência aniquilou o precário
desenvolvimento alcançado. Em Ayacucho, Cacamorsa,
Tarma, os trabalhos eram de considerável magnitude. O
povoado inteiro de Pacaicasa, hoje morto, “formava um só e
vasto estabelecimento de teares com mais de mil
operários”, diz Romero em sua obra; Paucarcolla, que
abastecia de cobertores de lã uma vasta região, está
desaparecendo “e atualmente não existe ali nem uma só
fábrica”
[3]. No Chile, uma das mais distantes possessões
espanholas, o isolamento favoreceu o desenvolvimento de
uma atividade industrial incipiente desde a alvorada do
período colonial. Havia fiações, tecelagens, curtumes; as
cordas chilenas proviam todos os navios do Mar do Sul;
fabricavam-se artigos de metal, desde alambiques e
canhões até joias, baixelas finas e relógios. Construíam-se
embarcações e veículos
[4].
Também no Brasil os
estabelecimentos têxteis e metalúrgicos, que vinham
ensaiando seus modestos primeiros passos desde o século
XVIII, foram arrasados pelas importações estrangeiras.
Essas duas atividades manufatureiras tinham conseguido
progredir
consideravelmente apesar dos obstáculos
impostos pelo pacto colonial com Lisboa, mas desde 1807 a
monarquia portuguesa instalada no Rio de Janeiro era
apenas um joguete nas mãos britânicas, e o poder de
Londres tinha outra força. “Até a abertura dos portos”, diz
Caio Prado Júnior, “as deficiências do comércio português
funcionavam como barreira protetora de uma pequena
indústria local; pobre indústria artesanal, é verdade, mas
assim mesmo suficiente para satisfazer uma parte do
consumo interno. Essa pequena indústria não vai sobreviver
à livre concorrência estrangeira, nem mesmo nos produtos
mais insignificantes.”
[5]
[1] HUMOLDT, Alexander von. Ensayo sobre el reino de la Nueva España.
México, 1944.
[2] ROMERO, Emilio. Historia económica del Perú. buenos Aires, 1949.
[3] Ibid.
[4] RAMÍREZ NECOCHEA, Hernán. Antecedentes económicos de la
independencia de Chile. Santiago de Chile, 1959.
[5] PRADO JÚNIOR, Caio. Historia económica del Brasil. Buenos Aires, 1960.
A Bolívia era o centro têxtil mais importante do vice-reinado rio-platense. Em Cochabamba, no fim do século,
havia 80 mil pessoas dedicadas à fabricação de lenços de
algodão, panos diversos e toalhas, segundo o testemunho
do intendente Francisco de Viedma. Em Oruro e La Paz
também tinham surgido estabelecimentos que, junto com
os de Cochabamba, ofereciam mantas, ponchos e baetas
muito resistentes à população, às tropas de linha do
exército e às guarnições da fronteira. De Mojos, Chiquitos e
Guarayos provinham finíssimos tecidos de linho e de
algodão, chapéus de palha, vicunha ou carneiro, e charutos
de folha. “Todas essas indústrias desapareceram com a
concorrência de artigos similares estrangeiros”, constatava,
sem grande tristeza, um volume dedicado à Bolívia no
primeiro centenário de sua independência.
[6]
[6] THE UNIVERSITY SOCIETY. Bolivia en el primer centenario de su
independencia. La Paz, 1925.
O litoral da Argentina era a região mais atrasada e
menos povoada do país, antes que a independência
deslocasse para Buenos Aires, em prejuízo das províncias
mediterrâneas, o centro de gravidade da vida econômica e
política. No princípio do século XIX, apenas a décima parte
da população argentina residia em Buenos Aires, Santa Fé e
Entre Ríos
[7]. Com ritmo lento e através de meios
rudimentares desenvolvera-se uma indústria nativa nas
regiões do centro e do norte, enquanto no litoral, segundo
dizia em 1795 o procurador Larramendi, não existia
“nenhuma arte nem manufatura”. Em Tucumán e Santiago
del
Estero,
que
atualmente
são
poços
de
subdesenvolvimento, floresciam as oficinas têxteis, que
fabricavam ponchos de três classes distintas, e em outros
estabelecimentos
produziam-se
excelentes
carroças,
charutos, cigarros, couros e solas. Em Catamarca, lenços de
todos os tipos, tecidos finos, baetilhas de algodão preto
para uso dos clérigos; Córdoba fabricava mais de 70 mil
ponchos, vinte mil cobertores e 40 mil varas de baeta por
ano, sapatos e artigos de couro, cinchas e chicotes, tapetes
e cordovãos. Os curtumes e as correarias mais importantes
estavam em Corrientes. Eram famosos os finos arreios de
Salta. Mendoza produzia entre 2 e 3 milhões de litros de
vinho por ano, em nada inferiores aos de Andaluzia, e San
Juan destilava 350 mil litros anuais de aguardente. Mendoza
e San Juan formavam “a garganta do comércio” entre o
Atlântico e o Pacífico na América do Sul.
[8]
[7] ALEN LISCANO, Luis C. Imperialismo y comercio libre. buenos Aires, 1963.
[8] SANTOS MARTÍNEZ, Pedro. Las industrias durante el virreinato (177-1810). Buenos Aires, 1969.
[9] LEVENE, Ricardo. Introducción a Documentos para la historia argentina,
1919. In: Obras completas. Buenos Aires, 1962.
[10] PARISH, Woodbine. Buenos Aires y las provincias del Río de la Plata. Buenos Aires, 1958.
[11] SCHILLING, Paulo. Brasil para extranjeros. Montevideo, 1966.
[12] MANCHESTER, Alan K. British preeminence in Brazil: its rise and decline.
Chapel Hill, North Carolina, 1933.
[13] FURTADO, Celso. Formación económica del Brasil. México; Buenos Aires,
1959.
[14] NORMANO, J. F. Evolução econômica do Brasil. São Paulo, 1934.
Em meados do século, um viajante sueco chegou a
Valparaíso e foi testemunha da dissipação e da ostentação
que a liberdade de comércio facilitava ao Chile. Ele
escreveu: “A única forma de se mostrar superior é
submeter-se aos ditames das revistas da moda de Paris, ao
fraque preto e todos os acessórios que lhe correspondem
(...). A senhora compra um elegante chapéu que a faz
sentir-se uma consumada parisiense, enquanto o marido
coloca um duro e alto gravatão e se considera no pináculo
da cultura europeia”
[15]. Três ou quatro casas inglesas
tinham açambarcado o mercado do cobre chileno, e
manejavam os preços segundo os interesses das fundições
de Swansea, Liverpool e Cardiff. Em 1838, o cônsul-geral da
Inglaterra informava ao seu governo sobre o “prodigioso
incremento” das exportações do cobre, que era
transportado “principalmente, se não completamente, em
barcos britânicos ou a serviço de britânicos”
[16]. Os
comerciantes ingleses monopolizavam o comércio em
Santiago e Valparaíso, e o Chile, em ordem de importância
para os produtos ingleses, era o segundo mercado latino
americano.
[15] EYHAUT, Gustavo. Raíces contemporáneas de América Latina. Buenos
Aires, 1964.
[16] RAMÍREZ NECOCHEA, Hernán. Historia del imperialismo en Chile. Santiago
do Chile, 1960.
Os grandes portos da América Latina, escalas de
trânsito das riquezas extraídas do solo e do subsolo
destinadas a longínquos centros de poder, consolidavam-se
como instrumentos de conquista e dominação contra os
países aos quais pertenciam, e eram os drenos por onde se
escoava a renda nacional. Os portos e as capitais queriam
se parecer com Paris ou Londres, e na retaguarda tinham o
deserto.
continua na página 288...
____________________
Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Do rio, os navios de guerra britânicos saudavam a independência (1)
Segunda Parte: As dimensões do infanticídio industrial (2)
_____________________________
o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ?
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?
Nenhum comentário:
Postar um comentário