quarta-feira, 8 de julho de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - Patron-Minette / IV — Composição da quadrilha

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sétimo — Patron-Minette

     IV — Composição da quadrilha

             Estes quatro bandidos juntos formavam uma espécie de Proteu, serpenteando por entre a polícia e forcejando por escapar às indiscretas vistas de Vidocq «sob diversa figura, árvore, chama, fonte», emprestando-se mutuamente os nomes e a lábia, escondendo-se na própria sombra, caixas de segredos e asilos uns dos outros, desfazendo as suas personalidades como quem tira um nariz postiço num baile de máscaras, às vezes simplificando-se a ponto de se tornarem num só, outras multiplicando-se a ponto do próprio Ooco-Lacouor os tomar por uma multidão. 
     Estes quatro homens não eram quatro homens, eram uma espécie de misterioso ladrão com quatro cabeças operando sobre Paris em ponto grande; eram o monstruoso pólipo do mal habitando a cripta da sociedade.
     Em consequência das suas ramificações e da rede subjacente das suas relações, Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse tinham a empresa geral das ciladas do departamento do Sena. Praticavam no transeunte o golpe de Estado inferior. Os descobridores de ideias neste gênero, os homens de imaginação noturna, dirigiam-se a eles para a execução. Fornecia-se aos quatro gatunos a lona e eles encarregavam-se de pôr o espetáculo em cena. Estavam sempre em circunstâncias de poder prestar um pessoal proporcional e conveniente a todos os atentados em que se tornasse necessário um empuxão de ombros e que fossem bastante lucrativos. A qualquer crime que andasse à busca de braços, eles alugavam-lhe cúmplices. Tinham uma companhia de atores de trevas à disposição de todas as tragédias de cavernas.
     De ordinário, reuniam-se ao anoitecer, hora do seu despontar nas steppes próximas à Salpêtrière, e aí conferenciavam sobre o emprego que dariam às doze horas de trevas que tinham diante de si.
     Patron-Minette, eis o nome que na Circulação subterrânea davam à associação destes quatro homens. Na antiga e extravagante linguagem popular, que vai gradualmente decaindo, Patron-Minette significa a manhã, assim como entre cão e lobo significa a noite. A denominação de Patron-Minette derivava, provavelmente, da hora a que terminava a sua missão, sendo a madrugada o momento da desaparição dos fantasmas e da separação dos bandidos. Estes quatro homens eram conhecidos sob esta rubrica. Quando o presidente do tribunal criminal foi à prisão interrogar Lacenaire sobre certo crime que ele negava, perguntou-lhe: «Quem fez isto?» Ao que Lacenaire deu a seguinte resposta enigmática para o magistrado, mas clara para a polícia:

— Talvez fosse Patron-Minette.

     Às vezes adivinha-se uma peça pelo enunciado dos personagens; do mesmo modo pode quase apreciar-se uma quadrilha pela lista dos bandidos. Eis as denominações dos principais filiados da associação Patron-Minette, denominações que sobrevivem nas memórias especiais:

Panchaud, ou Printanier ou Bigrenaille. 
Brujon (havia uma dinas a de Brujon, de que não nos damos por desobrigados de dizer alguma coisa).
Boulatruelle, o cantoneiro, de quem já nesta história fizemos menção. 
Laveuve. 
Finistère. 
Homero-Hogu, negro. 
Mardisoir. 
Dépêche. 
Fauntleroy, conhecido por Ramalheteira. 
Glorieux, forçado solto. 
Barrecarosse, conhecido por senhor Dupont. 
Lesplanade-du-Sud. 
Poussagrive. 
Carmagnolet. 
Kruideniers, conhecido por Bizarro. 
Mangedentelle. 
Les-pieds-en-air. 
Demi-liard, ou DeuxnMilliarids. 
Etc., etc.

     Omitimos outros, que não são dos piores. Estes nomes têm figuras. Não exprimem somente criaturas, mas espécies. Cada um destes nomes corresponde a uma variedade destes disformes tortulhos do subterrâneo da civilização.
     Estas criaturas, pouco pródigas dos seus rostos, não eram das que se veem pelas ruas. De dia, fatigados das noites ferozes que passavam, dormiam umas vezes nos fornos de cal, outras nas pedreiras abandonadas de Montmartre, ou Montrouge, e às vezes até nos canos. Metiam-se debaixo da terra.
     Que é feito de tais homens? Ainda existem e existiram sempre. Fala deles Horácio: Ambubaiarum collegia, pharmacopolee, mendice, mimes; e enquanto a sociedade for o que é, eles serão o que são. Sob o escuro teto das suas covas, renascem sempre da transudação social. Voltam, espectros sempre idênticos, apenas com a diferença de não usarem os mesmos nomes nem existirem dentro das mesmas peles.
     Extirpam-se os indivíduos, mas subsiste a tribo.
     As suas faculdades são sempre as mesmas. Desde o truão ao vadio, conserva-se pura a raça. Estes homens adivinham as bolsas nas algibeiras, farejam os relógios nos bolsos. O ouro e a prata para eles têm cheiro. Há burgueses simples de quem quase se pode dizer que têm cara de se deixarem roubar, estes homens seguem-nos pacientemente. Ao passar algum estrangeiro ou provinciano, sentem estremecimentos de aranha.
     Mete medo encontrar estes homens ou somente avistá-los à meia-noite em algum boulevard deserto. Não parecem homens, mas formas feitas de nevoeiro vivo; dir-se-ia que fazem montão com as trevas, que não são distintos delas, que não têm outra alma senão a escuridão, e que só momentaneamente e com o fim de viver alguns minutos de uma vida monstruosa é que eles se desagregam das trevas.
     Que é preciso para fazer esvaecer estas larvas? Luz. Luz a jorros. Nem um só morcego resiste ao clarão da aurora: Iluminai, portanto, o subterrâneo da sociedade.

continua na página 546...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - IV — Composição da quadrilha
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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