Terceira Parte - Mário
Estes quatro homens não eram quatro homens, eram uma espécie de misterioso
ladrão com quatro cabeças operando sobre Paris em ponto grande; eram o monstruoso
pólipo do mal habitando a cripta da sociedade.Livro Sétimo — Patron-Minette
IV — Composição da quadrilha
Estes quatro bandidos juntos formavam uma espécie de Proteu, serpenteando por
entre a polícia e forcejando por escapar às indiscretas vistas de Vidocq «sob diversa
figura, árvore, chama, fonte», emprestando-se mutuamente os nomes e a lábia,
escondendo-se na própria sombra, caixas de segredos e asilos uns dos outros,
desfazendo as suas personalidades como quem tira um nariz postiço num baile de
máscaras, às vezes simplificando-se a ponto de se tornarem num só, outras
multiplicando-se a ponto do próprio Ooco-Lacouor os tomar por uma multidão.
Em consequência das suas ramificações e da rede subjacente das suas relações, Babet,
Gueulemer, Claquesous e Montparnasse tinham a empresa geral das ciladas do
departamento do Sena. Praticavam no transeunte o golpe de Estado inferior. Os
descobridores de ideias neste gênero, os homens de imaginação noturna, dirigiam-se a
eles para a execução. Fornecia-se aos quatro gatunos a lona e eles encarregavam-se de
pôr o espetáculo em cena. Estavam sempre em circunstâncias de poder prestar um
pessoal proporcional e conveniente a todos os atentados em que se tornasse necessário
um empuxão de ombros e que fossem bastante lucrativos. A qualquer crime que
andasse à busca de braços, eles alugavam-lhe cúmplices. Tinham uma companhia de
atores de trevas à disposição de todas as tragédias de cavernas.
De ordinário, reuniam-se ao anoitecer, hora do seu despontar nas steppes próximas à
Salpêtrière, e aí conferenciavam sobre o emprego que dariam às doze horas de trevas
que tinham diante de si.
Patron-Minette, eis o nome que na Circulação subterrânea davam à associação destes
quatro homens. Na antiga e extravagante linguagem popular, que vai gradualmente
decaindo, Patron-Minette significa a manhã, assim como entre cão e lobo significa a noite.
A denominação de Patron-Minette derivava, provavelmente, da hora a que terminava a
sua missão, sendo a madrugada o momento da desaparição dos fantasmas e da
separação dos bandidos. Estes quatro homens eram conhecidos sob esta rubrica.
Quando o presidente do tribunal criminal foi à prisão interrogar Lacenaire sobre certo
crime que ele negava, perguntou-lhe: «Quem fez isto?» Ao que Lacenaire deu a seguinte
resposta enigmática para o magistrado, mas clara para a polícia:
— Talvez fosse Patron-Minette.
Às vezes adivinha-se uma peça pelo enunciado dos personagens; do mesmo modo
pode quase apreciar-se uma quadrilha pela lista dos bandidos. Eis as denominações dos
principais filiados da associação Patron-Minette, denominações que sobrevivem nas
memórias especiais:
Panchaud, ou Printanier ou Bigrenaille.Brujon (havia uma dinas a de Brujon, de que não nos damos por desobrigados de dizer alguma coisa).Boulatruelle, o cantoneiro, de quem já nesta história fizemos menção.Laveuve.Finistère.Homero-Hogu, negro.Mardisoir.Dépêche.Fauntleroy, conhecido por Ramalheteira.Glorieux, forçado solto.Barrecarosse, conhecido por senhor Dupont.Lesplanade-du-Sud.Poussagrive.Carmagnolet.Kruideniers, conhecido por Bizarro.Mangedentelle.Les-pieds-en-air.Demi-liard, ou DeuxnMilliarids.Etc., etc.
Omitimos outros, que não são dos piores. Estes nomes têm figuras. Não exprimem somente criaturas, mas espécies. Cada um destes nomes corresponde a uma variedade destes disformes tortulhos do subterrâneo da civilização.
Estas criaturas, pouco pródigas dos seus rostos, não eram das que se veem pelas ruas.
De dia, fatigados das noites ferozes que passavam, dormiam umas vezes nos fornos de
cal, outras nas pedreiras abandonadas de Montmartre, ou Montrouge, e às vezes até nos
canos. Metiam-se debaixo da terra.
Que é feito de tais homens? Ainda existem e existiram sempre. Fala deles Horácio:
Ambubaiarum collegia, pharmacopolee, mendice, mimes; e enquanto a sociedade for o
que é, eles serão o que são. Sob o escuro teto das suas covas, renascem sempre da
transudação social. Voltam, espectros sempre idênticos, apenas com a diferença de não
usarem os mesmos nomes nem existirem dentro das mesmas peles.
Extirpam-se os indivíduos, mas subsiste a tribo.
As suas faculdades são sempre as mesmas. Desde o truão ao vadio, conserva-se pura a
raça. Estes homens adivinham as bolsas nas algibeiras, farejam os relógios nos bolsos. O
ouro e a prata para eles têm cheiro. Há burgueses simples de quem quase se pode dizer
que têm cara de se deixarem roubar, estes homens seguem-nos pacientemente. Ao
passar algum estrangeiro ou provinciano, sentem estremecimentos de aranha.
Mete medo encontrar estes homens ou somente avistá-los à meia-noite em algum
boulevard deserto. Não parecem homens, mas formas feitas de nevoeiro vivo; dir-se-ia
que fazem montão com as trevas, que não são distintos delas, que não têm outra alma
senão a escuridão, e que só momentaneamente e com o fim de viver alguns minutos de
uma vida monstruosa é que eles se desagregam das trevas.
Que é preciso para fazer esvaecer estas larvas? Luz. Luz a jorros. Nem um só morcego resiste ao clarão da aurora: Iluminai, portanto, o subterrâneo da sociedade.
Que é preciso para fazer esvaecer estas larvas? Luz. Luz a jorros. Nem um só morcego resiste ao clarão da aurora: Iluminai, portanto, o subterrâneo da sociedade.
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - IV — Composição da quadrilha
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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