quarta-feira, 22 de julho de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / II — Achado

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     II — Achado

             Mário continuava a morar no casarão Gorbeau, sem se importar nem fazer reparo em nenhum dos outros moradores.
     Para bem dizer, nessa época, os únicos moradores do casarão eram ele e os tais Jondra e, a quem o jovem uma ocasião pagara o aluguer, sem, todavia, nunca ter falado nem com o homem, nem com a mulher, nem com as filhas. Os outros inquilinos tinham mudado ou morrido, ou sido expulsos por não pagarem.
     Num dia desse Inverno, na tarde do qual o Sol se mostrara, sem por isso deixar de infundir menos receios, pois estava-se a 2 de Fevereiro, dia da antiga festa de Candelária, cujo sol traiçoeiro, precursor de um frio de seis semanas, inspirou a Matheus Laenberg estes dois versos, que com justiça se tornaram clássicos:
Qu’il luise ou qu’il luiserne, 
L’ours rentre en sa caverne.
     
     Mário acabava de sair da sua caverna, ao cair da tarde. Era a hora do jantar, pois o rapaz vira-se na necessidade de continuar o seu antigo costume de jantar. Oh, fraquezas das paixões ideais!
     Acabava de transpor o limiar da porta que mame Bougon naquele momento andava a varrer, proferindo este memorável monólogo: 

— Hoje em dia que coisa deixa de estar cara? Nada. Está tudo pela hora da morte. A única coisa barata são os trabalhos deste mundo. Mas para que servem os trabalhos deste mundo? Para nada!

     Mário caminhava vagarosamente pelo boulevard, dirigindo-se para a barreira, a fim de tomar para a rua de S. Jacques, pensativo e de olhos fitos no chão, quando de súbito por entre a névoa sentiu um encontrão; voltou-se e viu duas jovens esfarrapadas, uma alta e magra, a outra mais baixa, que passaram rapidamente, esbaforidas, assustadas e -como quem foge, e que, ao passarem, como o não viram, tinham esbarrado com ele. Por entre o crepúsculo, Mário distinguiu-lhes os lívidos rostos, as cabeças descobertas, os cabelos soltos, as esfarrapadas saias e os pés descalços. Iam correndo e falando uma com a outra, e a mais alta dizia à sua companheira, em voz que se ouvia: 

— O caso é que os partazanas por um triz me não deitam o gatazio! Toma que te dou eu!.

     E a outra respondia. 

— Eu bem os vi, mas apenas lhes deitei o luzio, por aqui me sirvo!

     Através desta sinistra gíria, Mário entendeu que os gendarmes ou os cabos estiveram quase a apanhar aquelas duas crianças e que elas lhes tinham fugido. As duas raparigas embrenharam-se por baixo das árvores do boulevard, de onde o jovem vinha, e onde durante alguns instantes desenharam na escuridão uma espécie de vaga brancura que se desfez; e Mário, que parara um momento, dispôs-se a seguir para o seu destino.
     Ia, porém, a continuar o seu caminho, quando, olhando para o chão, avistou um embrulho pardo. Baixou-se e pegou nele. Era uma espécie de sobrescrito que parecia conter papéis. 

— Foram decerto aquelas infelizes que deixaram cair isto! — disse ele.

     Voltou atrás, chamou, porém não as tornou a ver; julgando, pois, que já iriam longe, meteu o embrulho no bolso e foi jantar.
     No caminho viu numa álea da rua de Mouffetard um caixão de um anjinho coberto com um pano preto, colocado em cima de três cadeiras e alumiado por uma vela. Voltaram-lhe então à lembrança as duas raparigas do anoitecer. 

— Pobres mães! — disse ele consigo. — Ainda há para vós coisa mais triste do que verdes morrer vossos filhos; é vê-los viver mal!

     Depois, estas sombras, que variavam a sua tristeza, saíram-lhe do pensamento e ele voltou às suas habituais preocupações. Principiou a pensar nos seus seis meses de amor e ventura, ao ar livre e à luz do meio-dia, debaixo das belas árvores do Luxemburgo. 

— Como se tornou sombria a minha vida! — dizia ele a sós consigo. — Ainda me aparecem as jovens, porém dantes eram anjos, agora são gaviões depenados!

continua na página 548...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - II — Achado
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

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