volume V
A Prisioneira
continuando...
continuando...
Até os vestidos que lhe comprava, o iate de que lhe falara, os peignoirs de Fortuny, tudo isso,
tendo nesta submissão de Albertine não a sua compensação, mas o seu complemento, surgia-me como
outros tantos privilégios que eu exercia; pois os deveres e os encargos de um senhor fazem parte de sua
dominação e a definem e provam, tanto quanto os seus direitos. E esses direitos que ela me reconhecia
dava precisamente à meus encargos o seu verdadeiro caráter: eu tinha uma mulher à minha disposição, a
qual, ao primeiro recado que lhe enviasse de improviso, mandava-me telefonar, com deferência, que
voltava, que se deixava reconduzir logo. Eu era mais senhor do que julgava. Mais senhor, isto é, mais
escravo. Eu já não tinha nenhuma impaciência de ver Albertine. A certeza de que ela estava fazendo
compras com Françoise, que regressaria com ela num momento próximo que eu de bom grado
prorrogaria, iluminava como um astro radioso e pacífico um tempo que agora eu gostaria muito mais de
passar sozinho. O amor por Albertine fizera erguer-me e me preparar para sair, mas me impediria de
desfrutar a minha saída. Imaginava que, nesse domingo, operariazinhas, midinettes e cocotes iam
passear no Bois. E com essas palavras, "midinettes", "operariazinhas" (como já me ocorrera muitas vezes
com um nome próprio, um nome de moça lido no noticiário de um baile), com a imagem de um corpete
branco, de uma saia curta, pois atrás disso eu punha uma criatura desconhecida e que poderia me amar,
eu criava sozinho mulheres desejáveis, e dizia comigo: "Como devem ser gostosas!" Mas de que me
serviriam que o fossem, visto que eu não saía só?
Aproveitando o fato de que ainda estava sozinho, e entrecerrando as cortinas para que o sol não
me impedisse de ler as notas, sentei-me ao piano e abri ao acaso a Sonata de Vinteuil que ali estava
posta, e comecei a tocar porque, estando ainda meio distante a chegada de Albertine, mas em
compensação sendo segura, eu dispunha de tempo e de paz de espírito. Banhado na espera, cheio de
segurança pelo seu retorno na companhia de Françoise e de confiança em sua docilidade, como na
beatitude de uma luz interior tão reaquecedora como a de fora, eu podia dispor do meu pensamento,
desprendê-lo de Albertine, aplicá-lo à Sonata. Mesmo nesta, não me empenhei em reparar o quanto a
combinação do motivo voluptuoso e do motivo ansioso respondia agora mais ao meu amor por Albertine,
do qual o ciúme estivera por tão longo tempo ausente que eu havia podido confessar a Swann a minha
ignorância de tal sentimento. Não, tomando a Sonata de um outro ponto de vista, encarando-a em si
mesma como sendo a obra de um grande artista, eu era conduzido pelo fluxo sonoro em direção aos dias
de Combray. Não quero dizer de Montjouvain e do lado de Méséglise, mas dos passeios pelos lados de
Guermantes -quando eu próprio desejara ser artista. Abandonando de fato tal ambição, renunciara eu a
alguma coisa real? Poderia a vida consolar-me da arte, haveria na arte uma realidade mais profunda em
que nossa personalidade verdadeira encontrasse uma expressão que não lhe conferem as ações da
vida? Todo grande artista parece de fato de tal modo diverso dos outros, e tanto nos dá aquela sensação
de individualidade que em vão buscamos na existência cotidiana! No momento em que eu pensava nisto,
um compasso da Sonata me impressionou, compasso que aliás eu conhecia bem; mas às vezes a
atenção ilumina diversamente coisas já conhecidas no entanto há muito, e nas quais assinalamos o que
nunca tínhamos percebido nelas. Tocando esse compasso, e conquanto Vinteuil estivesse exprimindo ali
um sonho que deveria permanecer de todo estranho a Wagner, não pude evitar murmurar: "Tristão!"-com
o sorriso que tem um amigo da família ao encontrar algo do avô numa entonação, num gesto do neto que
não o conheceu. E como então se olha uma fotografia que permite precisar a semelhança, instalei na
estante, por sobre a Sonata de Vinteuil, a partitura de Tristão, do qual tocavam, justamente naquela tarde,
alguns trechos no Concert Lamoureux. Na minha admiração pelo mestre de Bayreuth, eu não tinha
nenhum dos escrúpulos daqueles, como Nietzsche, a quem o dever lhes dita que fujam, na arte como na
vida, da beleza que os provoca, repudiando Tristão como renegam Parsifal e, por ascetismo espiritual, de
mortificação em mortificação, chegam, seguindo o mais sangrento dos caminhos da cruz, a elevar-se ao
puro conhecimento e à adoração perfeita do Postilhão de Longjumeau. [Ópera-cômica de Adolphe Adam
(1803-1856). (N. do T)]. Eu percebia tudo o que a obra de Wagner tem de real, revendo esses temas
insistentes e fugazes que visitam um ato, afastando-se apenas para retornar, e às vezes distantes,
entorpecidos, quase desligados, são, em outros momentos, mesmo sempre continuando vagos, tão
próximos e prementes, tão internos, tão orgânicos, tão viscerais, que se diria serem a retomada menos de
um motivo que de uma nevralgia.
A música, bem diferente nisto da companhia de Albertine, ajudava-me a descer ao fundo de mim
mesmo, e a descobrir aí coisas novas: a variedade que eu em vão buscara na vida, na viagem, cuja
nostalgia no entanto me era dada por esse fluxo sonoro que fazia morrer a meu lado suas ondas
ensolaradas. Dupla diversidade. Como o espectro exterioriza para nós a composição da luz, do mesmo
modo a harmonia de um Wagner e a cor de um Elstir nos permitem conhecer aquela essência qualitativa
das sensações de outrem, onde o amor por outra criatura não nos faz penetrar. Além disso, diversidade
no seio da própria obra, pelo único meio que há de ser realmente diverso: reunir várias individualidades.
Onde um músico qualquer julgaria estar pintando um escudeiro, ou um cavaleiro, ainda quando os fizesse
cantar a mesma música, Wagner, ao contrário, coloca, sob cada denominação, uma realidade diferente e,
cada vez que seu escudeiro aparece, trata-se de uma figura particular, a um tempo simplista e
complicada, que, com um entrechoque de linhas radiante e feudal, inscreve-se na imensidade sonora.
Decorre daí a plenitude de uma música de fato repleta de tantas músicas, cada uma das quais é um ser.
Um ser ou a impressão que nos dá um aspecto momentâneo da natureza. Mesmo aquilo que é mais
independente do sentimento que ela nos faz experimentar, conserva sua realidade exterior e inteiramente
definida, o canto de um pássaro, o som da trompa de um caçador, a canção tocada por um pastor na sua
flauta de cana, recortam no horizonte a sua silhueta sonora. Por certo Wagner ia fazê-la mais próxima,
aproveitar-se dela, colocá-la numa orquestra, submetê-las às mais altas ideias musicais, todavia
respeitando sua originalidade primitiva como um fabricante de arcas respeita as fibras, a essência
particular da madeira que esculpe.
Mas apesar da riqueza dessas obras em que a contemplação da natureza tem seu lugar ao lado
da ação, ao lado de indivíduos que não são mais que nomes de personagens, mesmo assim eu
imaginava o quanto essa obras participam do caráter de ser - ainda que maravilhosamente - sempre
incompletas, que é o caráter de todas as grandes obras do século XIX, cujos maiores escritores deixaram
em seus livros a marca de sua personalidade, mas, observando-se enquanto trabalhavam, como se
fossem a um tempo o operário e o juiz, extraíram dessa autocontemplação uma beleza nova, exterior e
superior à obra, impondo-lhe retroativamente uma unidade, uma grandeza que ela não possui. Sem nos
determos naquele que viu em seus romances, depois de concluídos, uma Comédia Humana, nem
naqueles que a poemas ou ensaios inconjuntos denominaram A Lenda dos Séculos e A Bíblia da
Humanidade, não podemos, no entanto, dizer que este último encarna tão bem o século XIX, que as
maiores belezas de Michelet devemos procurá-las menos na sua própria obra que nas atitudes que ele
assume em face da mesma, não na sua História da França ou na sua História da Revolução, mas em
seus prefácios a esses dois livros? Prefácios, ou seja, páginas escritas depois dos livros, onde ele os
examina, e às quais convém acrescentar, aqui e ali, algumas frases, começando de hábito por um "Devo
dizê-lo?" que não é uma cautela de sábio, mas uma cadência de músico. O outro músico, o que me
deslumbrava no momento, Wagner, tirando de suas gavetas um trecho delicioso para fazê-lo entrar como
tema retrospectivamente necessário em uma obra na qual não pensava no momento em que a
compusera e, depois, tendo composto uma primeira ópera mitológica, depois uma segunda, depois ainda
outras, e de súbito percebendo que acabava de fazer uma Tetralogia, deve ter sentido um pouco da
mesma embriaguez de Balzac, quando este, lançando às suas obras um olhar a um tempo de um
estranho e de um pai, achando neste romance a pureza de Rafael, neste outro a simplicidade do
Evangelho, reparou bruscamente, ao lançar sobre eles uma iluminação retrospectiva, que ficariam mais
belos reunidos num ciclo em que as mesmas personagens reaparecessem e acrescentou à sua obra,
nesse ajustamento, uma pincelada, a derradeira e a mais sublime. Unidade ulterior, não artificial.
Senão seria reduzida a pó como tantas sistematizações de escritores medíocres que, com grande
reforço de títulos e subtítulos, desejam parecer que se deram ao esforço de perseguir um só e
transcendente desígnio. Não fictícia, talvez mais real até por ser ulterior, por ter nascido de um momento
de entusiasmo em que é descoberta entre pedaços que só precisam se unir, unidade que se ignorava,
portanto vital e não lógica, que não proscreveu a variedade nem ressecou a execução. Ela é (mas
aplicando-se desta vez ao conjunto) como determinado trecho composto à parte, nasceu de uma
inspiração, não exigida pelo desenvolvimento artificial de uma tese, e que vem integrar-se a resto. Antes
do grande movimento de orquestra que precede a volta de Isolda, foi à própria obra que atraiu para si a
ária meio esquecida da flauta de um pastor.
E, sem dúvida, assim como a progressão da orquestra, ao aproximar-se da nave, apodera-se
dessas notas da flauta, transforma-as, associa-as à sua embriaguez, quebra o seu ritmo, aclara-lhes a
tonalidade, acelera-lhes o movimento, multiplica-lhes a instrumentação, assim o próprio Wagner, sem
dúvida, alegrou-se ao descobrir em sua memória a ária do pastor, agregou-a à sua obra, deu-lhe todo seu
significado. De resto, semelhante alegria não o abandona jamais. Seja qual for a tristeza do poeta, ela é
consolada nele, superada - quer dizer, infelizmente um pouco destruída pela alegria do fabricante. Mas
então, tanto quanto pela identidade que eu havia notado há pouco entre a frase de Vinteuil e a de
Wagner, sentia-me perturbado por essa habilidade vulcânica. Seria essa habilidade que confere, nos
grandes artistas, a ilusão de uma originalidade intrínseca, irredutível, aparentemente um reflexo dê uma
realidade mais que humana, e de fato o produto de um labor industrioso?
Se a arte não passa disto, não é mais real do que a vida, e eu não tinha que lastimar o fato de não
ser artista. Continuava a tocar Tristão. Separado de Wagner pelo tabique sonoro, ouvia-o exultar,
convidar-me a partilhar da sua alegria, ouvia redobrar o riso imortalmente jovem e as marteladas de
Siegfried, em quem, aliás, mais maravilhosamente marcadas eram tais frases, a habilidade técnica do
operário só servindo para fazê-las mais livremente deixar a terra, pássaros idênticos não ao cisne de
Lohengrin, mas àquele aeroplano que eu vira, em Balbec, mudar sua energia em elevação, planar acima
das ondas e perder-se no céu. Talvez, como as aves que mais alto sobem, que voam mais depressa, têm
uma asa mais possante, fossem necessários aparelhos realmente materiais para explorar o infinito,
desses cento e vinte cavalos marca Mistério, nos quais entretanto, por mais alto que se voe, é-se um
tanto impedido de desfrutar o silêncio dos espaços devido ao potente ronco do motor!
Não sei por que o curso de meus devaneios, que até aqui havia seguido as recordações da
música, desviou-se para aqueles que foram, em nossa época, os melhores executantes, e entre os quais,
superestimando-o um pouco, eu situava Morel. E logo o meu pensamento fez um brusco desvio e foi
sobre o caráter de Morel, e certas singularidades desse caráter, que me pus a devanear. Aliás, isto podia
acrescentar-se mas não se confundir com a neurastenia que o atormentava-, Morel tinha o hábito de falar
de sua vida, mas dando um retrato tão sombrio dela que era difícil distinguir alguma coisa. Por exemplo,
colocava-se à inteira disposição do Sr. de Charlus, com a condição de ter as noites livres, pois desejava
poder seguir o curso de álgebra depois do jantar. O Sr. de Charlus dava licença, mas pedia para vê-lo
depois.
- Impossível, é uma velha pintura italiana-(este gracejo não faz qualquer sentido transcrito assim;
mas o Sr. de Charlus fizera Morel ler A Educação Sentimental, em cujo penúltimo capítulo Fréderic
Moreau diz esta frase; e, assim, Morel, de brincadeira, nunca dizia a palavra "impossível" sem fazê-la
seguir por estas: "é uma velha pintura italiana") -, o curso dura muitas vezes até bem tarde e já é um
grande incômodo para o professor, que naturalmente ficaria melindrado...
- Mas não há necessidade de curso, álgebra não é como a natação, nem mesmo como o inglês,
isto se aprende muito bem num livro - replicava o Sr. de Charlus, tendo logo adivinhado nesse curso de
álgebra uma dessas imagens em que não se podia destrinçar nada. Talvez se tratasse da cópula com
uma mulher, ou, se Morel procurava ganhar dinheiro por meios suspeitos e estivesse de combinação com
a polícia secreta, de uma operação com agentes de segurança, ou, quem sabe, pior ainda, a espera de
um gigolô de quem se poderá precisar num bordel.
- Bem mais facilmente até pelos livros - respondia Morel ao Sr. de Charlus-, pois não se
compreende nada num curso de álgebra.
- Então por que não a estudas de preferência lá em casa, onde tens de fato todo o conforto? -poderia ter respondido o Sr. de Charlus; evitou, porém, dizê-lo, sabendo que, imediatamente,
conservando apenas o mesmo caráter de necessidade para reservar as horas da noite, o curso de
álgebra se mudaria numa aula obrigatória de dança ou de desenho. No que o Sr. de Charlus pôde
perceber que se enganava, ao menos em parte: Morel, muitas vezes, na casa do barão, ocupava-se em
resolver equações. O Sr. de Charlus objetava que a álgebra não podia servir em nada a um violinista.
Morel retrucava que era uma distração para passar o tempo e combater a neurastenia. É claro que o Sr.
de Charlus poderia procurar saber o que eram na verdade aquelas misteriosas e fatais aulas de álgebra,
só ministradas à noite. Mas o Sr. de Charlus estava envolvido demais nas obrigações da sociedade para
se ocupar em deslindar o emaranhado das ocupações de Morel.
As visitas feitas ou recebidas, o tempo passado no círculo, os jantares na cidade e as noites no teatro impediam-no de pensar nisso, bem como naquela malvadez, a um tempo violenta e sorrateira, que Morel, dizia-se, fazia ao mesmo tempo brilhar e dissimular nos ambientes sucessivos, nas diferentes cidades por onde passara, e onde só falavam dele com um arrepio, baixando a voz, e sem coragem de contar coisa alguma. Infelizmente, foi a uma dessas explosões de nervosismo maldoso que tive ocasião de assistir naquele dia, quando, tendo deixado o piano, desci ao pátio para ir ao encontro de Albertine que ainda não tinha chegado. Passando em frente à loja de Jupien, onde Morel e aquela que eu julgava vir a ser em breve sua mulher estavam sozinhos, ouvi Morel gritando com toda a força, o que fazia sair dele uma entonação que não lhe conhecia, rude, habitualmente recalcada, e estranhíssima. As palavras não o eram menos, erradas do ponto de vista da língua francesa, mas ele conhecia tudo imperfeitamente.
As visitas feitas ou recebidas, o tempo passado no círculo, os jantares na cidade e as noites no teatro impediam-no de pensar nisso, bem como naquela malvadez, a um tempo violenta e sorrateira, que Morel, dizia-se, fazia ao mesmo tempo brilhar e dissimular nos ambientes sucessivos, nas diferentes cidades por onde passara, e onde só falavam dele com um arrepio, baixando a voz, e sem coragem de contar coisa alguma. Infelizmente, foi a uma dessas explosões de nervosismo maldoso que tive ocasião de assistir naquele dia, quando, tendo deixado o piano, desci ao pátio para ir ao encontro de Albertine que ainda não tinha chegado. Passando em frente à loja de Jupien, onde Morel e aquela que eu julgava vir a ser em breve sua mulher estavam sozinhos, ouvi Morel gritando com toda a força, o que fazia sair dele uma entonação que não lhe conhecia, rude, habitualmente recalcada, e estranhíssima. As palavras não o eram menos, erradas do ponto de vista da língua francesa, mas ele conhecia tudo imperfeitamente.
- Saia já daqui; sua grandessíssima puta, grandessíssima puta, grandessíssima puta- repetia ele à
pobre moça, que certamente no começo não entendera o que ele queria dizer; e depois, trêmula e digna,
permanecia imóvel diante dele. - Já lhe disse para sumir daqui, grandessíssima puta, grandessíssima
puta, vá procurar o seu tio para que eu lhe diga o que você é, sua puta. -
Justo naquele momento a voz de Jupien; que regressava conversando com um amigo, fez-se
ouvir no pátio, e, como eu sabia que Morel era um tremendo poltrão, achei inútil juntar minhas forças à de
Jupien e seu amigo, que num instante estariam dentro da loja, e voltei a subir, para evitar Morel, que,
embora tivesse tanto desejado que chamassem Jupien (provavelmente para aterrorizar e dominar a moça
com uma chantagem sem qualquer fundamento), apressou-se a sair logo que ouviu sua voz no pátio. As
palavras reproduzidas não são nada, nem explicariam o bater do coração com que subi.
Tais cenas a que assistimos na vida encontram um elemento de força incalculável no que os
militares denominam, em matéria de ofensiva, a vantagem da surpresa, e, por maior que fosse a minha
sensação de suave tranquilidade por saber que Albertine, em vez de ficar no Trocadero, ia voltar para
junto de mim, nem por isso ressoava menos nos ouvidos o acento daquelas palavras dez vezes
repetidas: "grandessíssima puta, grandessíssima puta", que tinham me perturbado tanto.
Pouco a pouco minha agitação se acalmou. Albertine ia chegar. Eu a ouviria bater à porta dentro
de um instante. Sentia que minha vida não era mais a mesma como poderia ter sido; e que ter assim uma
mulher com a qual muito naturalmente, quando estivesse de volta, deveria sair, para cujo embelezamento
iam ser cada vez mais desviadas as forças e a atividade do meu ser, fazia de mim como que uma haste
acrescida, mas vergada ao peso do fruto opulento pelo qual passam todas as suas reservas.
Contrastando com a ansiedade que eu experimentara uma hora antes, o sossego que me causava o
regresso de Albertine era mais vasto do que o que eu sentira de manhã, antes de sua partida.
Antecipando o futuro, de que a docilidade de minha amiga me tornava mais ou menos senhor, mais
resistente, como que repleto e estabilizado pela presença iminente, importuna, inevitável e doce, era o
sossego (dispensando-nos de buscar a felicidade em nós mesmos) que nasce de um sentimento familiar
e de uma ventura doméstica: foi isso ainda, não menos que o sentimento que me trouxera tanta paz
enquanto eu esperava Albertine, o que experimentei a seguir, passeando com ela. Ela tirou a luva por um
momento, fosse para tocar a minha mão, fosse para me deslumbrar, deixando-me ver no seu dedo
mindinho, ao lado daquele que recebera da Sra. Bontemps, um anel onde se estendia a larga e líqüida
toalha de uma clara folha de rubis:
- Um novo anel, Albertine? Sua tia é tão generosa!
- Não, este não veio da minha tia - disse ela, rindo. - Eu mesma é que o comprei, visto que, graças
a você, posso fazer grandes economias. Nem mesmo sei a quem pertenceu. Um viajante que não tinha
dinheiro o deixou para o dono de um hotel onde estive em Mans. O homem não sabia o que fazer dele e
o teria vendido bem abaixo do seu valor. Mas ainda assim era muito caro. Agora que, graças a você, eu
me torno uma dama elegante, mandei lhe perguntar se ele o possuía ainda. E aí está.
- Tanto anel, Albertine. Onde vai pôr o que lhe vou dar? Em todo caso, este é muito bonito; não
consigo distinguir os lavores em torno aos rubis, dir-se-ia uma cabeça humana fazendo caretas. Mas não
tenho boa vista.
- Mesmo que a tivesse, não adiantaria muito. Eu também não distingo nada.
Antigamente, muitas vezes me ocorrera, ao ler um volume de memórias ou um romance, em que
um homem sempre sai com uma mulher, merendam juntos, desejar poder fazer o mesmo. Às vezes
julgara consegui-lo, por exemplo, levando comigo a amante de Saint-Loup, indo jantar com ela. Mas
debalde eu invocava a ideia de que, naquele momento, representava bem a personagem que havia
invejado no romance, essa ideia me convencia de que eu devia ter satisfação ao lado de Rachel e,
todavia, não me proporcionava.
É que, de cada vez que desejamos imitar alguma coisa, esquecemos que essa coisa foi produzida
não pela vontade de imitar, mas por uma força inconsciente, também real. Mas essa impressão particular
que não pudera me dar todo o meu desejo de sentir um prazer delicado ao passear com Rachel, eis que
agora o sentia sem o ter procurado de forma alguma, mas por motivos completamente diversos, sinceros,
profundos para citar um exemplo - porque meu ciúme impedia-me de estar longe de Albertine e, no
momento em que eu podia sair, de deixá-la passear sem mim. Só o sentia agora porque o conhecimento
é, não das coisas exteriores que desejamos observar, mas das sensações involuntárias; porque outrora
uma mulher, por mais tempo que estivesse no mesmo carro que eu, não estava na realidade junto a mim,
enquanto não a recriasse ali, a todo instante, uma necessidade dela como eu a tinha de Albertine,
enquanto a carícia constante do meu olhar não lhe devolvesse permanentemente as cores que exigem
ser perpetuamente refrescadas, enquanto os sentidos, mesmo apaziguados, mas que se recordam, não
pusessem sob aquelas cores o sabor e a consistência, enquanto, unido aos sentidos e à imaginação que
os exalta, o ciúme não mantivesse tal mulher em equilíbrio junto a mim por uma atração compensada, tão
poderosa como a lei da gravidade.
Nosso carro descia depressa pelos bulevares, pelas avenidas, cujos palacetes enfileirados, rósea
congelação de sol e de frio, recordavam-me as visitas à casa da Sra. Swann, docemente iluminadas
pelos crisântemos a esperada hora dos lampiões. Eu mal tinha tempo de avistar, tão separado delas atrás
do vidro do automóvel como o teria estado atrás da janela do meu quarto, uma jovem caixeira da casa de
frutas, uma moça da leiteria de pé diante da porta, iluminada pelo lindo dia como uma heroína que meu
desejo bastava para empenhar em peripécias deliciosas, no limiar de um romance que eu nunca haveria
de conhecer. Pois eu não podia pedir a Albertine que parássemos, e já não eram mais visíveis as moças,
de quem meus olhos mal distinguiram as feições e mal puderam acariciar a frescura no louro vapor em
que elas se banhavam. A emoção de que me sentia possuído ao avistar a filha de um comerciante de
vinhos ou uma lavadeira conversando na rua era a emoção que se tem ao reconhecer as Deusas. Desde
que o Olimpo já não existe, seus habitantes vivem na terra. E, quando, ao compor um quadro mitológico,
os pintores fizeram posar, como Vênus ou Ceres, moças do povo que exerciam os ofícios mais vulgares,
bem longe de cometer um sacrilégio, não fizeram mais que acrescentar-lhes, restituir-lhes a qualidade e
os atributos divinos de que se achavam despojadas.
- Como lhe pareceu o Trocadero, louquinha?
- Estou muito contente de o ter deixado para passear com você. É de Davioud, creio.
- Mas como a minha pequena Albertine é instruída! De fato, é de Davioud, mas eu o tinha
esquecido.
- Enquanto você dormia li seus livros, grande preguiçoso. Como monumento, é bem feio, não
acha?
- Menina, você está mudando com tamanha rapidez e se torna de tal modo inteligente (é verdade,
mas, além disso, gostava que ela tivesse a satisfação, à falta de outras, de pensar que pelo menos o
tempo que passava em minha casa não era totalmente perdido), que lhe diria, quando necessário,
algumas coisas que em geral seriam consideradas falsas e que correspondem a uma verdade que estou
procurando. - Você sabe o que é o impressionismo?
- Sei.
- Pois bem, veja o que pretendo dizer: lembra-se da igreja de Marcouville I'Orgueilleuse, que Elstir
não apreciava porque era nova? Será que ele não está um tanto em contradição com o seu próprio
impressionismo, quando retira assim esses monumentos da impressão global em que estão situados,
leva-os para fora da luz onde estão dissolvidos e examina o seu valor intrínseco feito um arqueólogo?
Quando pinta, por acaso um hospital, uma escola ou um cartaz numa parede não têm o mesmo valor que
uma catedral inestimável que está perto, numa imagem indivisível? Lembre-se de como a fachada estava
queimada pelo sol, como o relevo daqueles santos de Marcouville sobrenadavam na luz. Que importa que
um monumento seja novo, se parece velho? E mesmo que não pareça! O que os velhos bairros têm de
poético foi extraído até a última gota, porém certas casas recentemente construídas para pequenos
burgueses endinheirados, nos bairros novos, onde a pedra muito branca mostra ter sido preparada há
pouco, não rompem elas o ar tórrido do meio-dia em julho, à hora em que os comerciantes voltam para o
almoço no subúrbio, com um grito tão ácido como o odor das cerejas, antes que a refeição seja servida
na sala de jantar penumbrosa, onde os prismas de vidro para descanso das facas projetam focos
multicores tão belos como os vitrais de Chartres?
- Como você é delicioso de ouvir! Se algum dia eu me tornar inteligente, será graças a você.
- Por que, num dia bonito, desviar os olhos do Trocadero cujas torres em forma de pescoço de
girafa fazem pensar na cartuxa de Pavia?
- Ele me lembrou também, dominando da mesma forma do alto da colina, uma reprodução de
Mantegna que você possui, creio que é São Sebastião, onde existe ao fundo uma cidade em anfiteatro e
onde se poderia jurar que fica o Trocadero.
- Você observa bem! Mas como é que viu a reprodução de Mantegna? Você é surpreendente.
Tínhamos chegado aos bairros mais populares, e a ereção de uma Vênus ancilar atrás de cada balcão fazia dele uma espécie de altar suburbano ao pé do qual eu gostaria de passar a minha vida. Como se faz às vésperas de uma morte prematura, eu recapitulava os prazeres de que me privava o ponto final que Albertine punha na minha liberdade. Em Passy, foi no próprio leito da rua, por causa do tráfego congestionado, que as moças, abraçadas pela cintura, deslumbraram-me com seu sorriso. Não tive tempo de o perceber muito bem, mas era pouco provável que o superestimasse; de fato, em qualquer multidão, em qualquer multidão de gente jovem, não é raro que se encontre a efígie de um nobre perfil. De modo que essas balbúrdias populares dos dias de festa são para o indivíduo voluptuoso tão preciosas como, para o arqueólogo, a desordem de uma terra onde uma escavação faz surgir medalhas antigas. Chegamos ao Bois. Eu pensava que, se Albertine não tivesse vindo comigo, poderia naquele instante, no Circo do Champs-Élysées, ouvir a tempestade wagneriana fazer gemer todos os instrumentos de corda da orquestra, atrair para si como leve espuma a ária da flauta que eu havia tocado há pouco, fazê-la voar, petrificá-la, deformá-la, dividi-la, arrastá-la num turbilhão crescente. Pelo menos, desejei que o nosso passeio fosse curto e que voltássemos cedo, pois, sem nada falar a Albertine, eu decidira ir à noite à casa dos Verdurin. Tinham-me ultimamente enviado um convite que eu jogara na cesta, como a todos os anteriores. Mas resolvera reconsiderar aquela noite, pois queria tentar saber que tipo de pessoas Albertine poderia esperar encontrar de tarde na casa deles. Para falar a verdade, eu chegara com Albertine àquele momento em que (se tudo continua como está, se as coisas se passam normalmente) uma mulher só serve para nós como transição para outra mulher. Ela ainda nos fala ao coração, mas muito pouco; temos pressa de ir encontrar desconhecidas todas as noites, e sobretudo desconhecidas que ela conhece, e que poderão nos contar a vida dela. Com efeito, já possuímos e esgotamos tudo o que ela consentiu em nos entregar de si mesma. Sua vida é ainda ela mesma, mas justamente a parte que não conhecemos, as coisas sobre as quais interrogamos em vão e que poderemos ouvir de lábios novos.
Tínhamos chegado aos bairros mais populares, e a ereção de uma Vênus ancilar atrás de cada balcão fazia dele uma espécie de altar suburbano ao pé do qual eu gostaria de passar a minha vida. Como se faz às vésperas de uma morte prematura, eu recapitulava os prazeres de que me privava o ponto final que Albertine punha na minha liberdade. Em Passy, foi no próprio leito da rua, por causa do tráfego congestionado, que as moças, abraçadas pela cintura, deslumbraram-me com seu sorriso. Não tive tempo de o perceber muito bem, mas era pouco provável que o superestimasse; de fato, em qualquer multidão, em qualquer multidão de gente jovem, não é raro que se encontre a efígie de um nobre perfil. De modo que essas balbúrdias populares dos dias de festa são para o indivíduo voluptuoso tão preciosas como, para o arqueólogo, a desordem de uma terra onde uma escavação faz surgir medalhas antigas. Chegamos ao Bois. Eu pensava que, se Albertine não tivesse vindo comigo, poderia naquele instante, no Circo do Champs-Élysées, ouvir a tempestade wagneriana fazer gemer todos os instrumentos de corda da orquestra, atrair para si como leve espuma a ária da flauta que eu havia tocado há pouco, fazê-la voar, petrificá-la, deformá-la, dividi-la, arrastá-la num turbilhão crescente. Pelo menos, desejei que o nosso passeio fosse curto e que voltássemos cedo, pois, sem nada falar a Albertine, eu decidira ir à noite à casa dos Verdurin. Tinham-me ultimamente enviado um convite que eu jogara na cesta, como a todos os anteriores. Mas resolvera reconsiderar aquela noite, pois queria tentar saber que tipo de pessoas Albertine poderia esperar encontrar de tarde na casa deles. Para falar a verdade, eu chegara com Albertine àquele momento em que (se tudo continua como está, se as coisas se passam normalmente) uma mulher só serve para nós como transição para outra mulher. Ela ainda nos fala ao coração, mas muito pouco; temos pressa de ir encontrar desconhecidas todas as noites, e sobretudo desconhecidas que ela conhece, e que poderão nos contar a vida dela. Com efeito, já possuímos e esgotamos tudo o que ela consentiu em nos entregar de si mesma. Sua vida é ainda ela mesma, mas justamente a parte que não conhecemos, as coisas sobre as quais interrogamos em vão e que poderemos ouvir de lábios novos.
continua na página 70...
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Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
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A Prisioneira (Prefácio)A Prisioneira (Compreendi que duas horas queria dizer três horas)
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