quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / V — O Judas da providência

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     V — O Judas da providência

             Havia cinco anos que Mário vivia na pobreza, rodeado de privações e mesmo de penúria, mas só então descobriu que nunca conhecera a verdadeira miséria. Acabava de a ver. Era aquela larva que lhe passara por diante dos olhos. É que, com efeito, quem nunca viu senão a miséria do homem não viu nada, precisa ver a miséria da mulher; quem nunca viu senão a miséria da mulher, não viu nada, precisa ver a miséria da criança.
     Quando o homem chega às últimas extremidades, chega ao mesmo tempo aos últimos recursos. Desgraçados dos entes sem defesa que o cercam! O trabalho, o salário, o pão, o lume, o ânimo, a boa vontade, tudo lhe falta ao mesmo tempo. A luz moral apaga-se no interior; no meio destas sombras encontra o homem a fraqueza da mulher e a da criança, e amolda-as violentamente às ignomínias.
     Então todos os horrores se tornam possíveis. O desespero é rodeado por frágeis tabiques, que dão todos para o vício ou para o crime.
     A saúde, a mocidade, a honra, as santas e severas delicadezas da carne ainda nova, o coração, a virgindade, o pudor, essa epiderme da alma, são sinistramente manejados pela apalpadela que busca recursos, que encontra o opróbrio e que acomoda com ele. Pais, mães, filhos, irmãos, irmãs, homens, mulheres, raparigas, aderem e agregam-se quase como uma formação mineral, nesta nebulosa promiscuidade de sexos, de parentescos, de idades, de infâmias e de inocências. Agacham-se, encostados uns aos outros, numa espécie de destino-pocilga. É lentamente o modo porque se olham reciprocamente Desventurados! Como estão pálidos! Como tremem de frio! Parece que habitam em planeta muito mais distante do Sol do que nós.
     Aquela rapariga foi para Mário uma espécie de enviado das trevas. Revelou-lhe completamente o lado hediondo da noite.
     Mário quase se repreendeu das preocupações de sonho e paixão que o tinham impedido até aquele dia de lançar os olhos para os seus vizinhos. Ter-lhes pago a renda da casa, fora uma coisa maquinal, que qualquer pessoa teria feito, mas ele, Mário, devia ter feito mais. O quê! Por estar apenas separado por uma parede daqueles entes abandonados, que viviam às apalpadelas no meio da escuridão, e separado do resto dos viventes, roçava por eles, era de certo modo o último elo do género humano, que eles tocavam, sentia-os viver, ou antes, agonizar, junto de si, e não lhes dava a mínima atenção! Todos os dias, a todos os instantes, ouvia-lhes os passos, sentia-os andar de um lado para o outro, ouvia-os falar através da parede e não aplicava o ouvido! As palavras que proferiam continham gemidos, e ele nem mesmo os escutava! O seu pensamento estava noutra parte, sonhava com brilhos impossíveis, com amores aéreos, com loucuras, e entretanto, havia criaturas humanas, seus irmãos em Jesus Cristo, seus irmãos pelo povo, que agonizavam a seu lado! Agonizavam inutilmente! Ele chegava a fazer parte da sua desgraça, agravava-a mesmo! Por que se vessem outro vizinho menos quimero e mais atento, um homem vulgar e caritativo, teria sido evidentemente notada a sua indigência, os seus sinais de miséria teriam sido percebidos e haveria talvez já muito tempo que teriam sido recolhidos e salvos! Pareciam decerto, muito depravados, muito corrompidos e aviltados, mesmo muito odiosos; mas são muito raros os que caíram sem se enlamear; e depois há um ponto em que os desventurados e os infames se amalgamam e confundem numa só palavra, na palavra fatal miseráveis; de quem é a culpa? E depois, não deve ser tanto maior a caridade quanto mais profunda é a perdição?
     Enquanto Mário moralizava por este modo, porque havia ocasiões em que, como todos os corações verdadeiramente honestos, se tornava pedagogo de si mesmo, e ralhava consigo mais do que merecia, olhava para a parede que o separava dos Jondrette, como se pudesse atravessá-la com o seu olhar piedoso, para reanimar aqueles desgraçados.
     A parede era um simples tabique delgadíssimo, que, como se viu, deixava perfeitamente distinguir o ruído dos passos e as vozes. Era preciso andar sempre abstrato, como Mário, para o não ter ainda notado. A parede não era forrada com o mais insignificante papel, nem do lado dos Jondrette, nem do de Mário; estava em osso. Mário, sem quase ter a consciência do que fazia, examinava o tabique; às vezes a distração examina, observa e escuta como faria a atenção.
     De repente levantou-se: acabava de descobrir no alto da parede, junto do teto, um buraco. A cal e a areia que devia ter preenchido aquele vácuo, caíra, decerto; e subindo se à cômoda, podia-se ver por aquela abertura a pocilga dos Jondrette. Aquele buraco era como que um Judas. É permitido observar traiçoeiramente o infortúnio com o fim de o socorrer. «Também sempre hei-de ver que casta de gente é esta», disse para consigo, «e até que ponto chega a sua miséria»
     E, ao mesmo tempo que dizia isto, subiu para cima da cômoda, aproximou um dos olhos junto ao buraco e pôs-se a espreitar.

continua na página 555...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - V — O Judas da providência
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira


Literatura Fundamental - Victor Hugo - Maria Lúcia Dias Mendes




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