Terceira Parte - Mário
Quando o homem chega às últimas extremidades, chega ao mesmo tempo aos últimos
recursos. Desgraçados dos entes sem defesa que o cercam! O trabalho, o salário, o pão, o
lume, o ânimo, a boa vontade, tudo lhe falta ao mesmo tempo. A luz moral apaga-se no
interior; no meio destas sombras encontra o homem a fraqueza da mulher e a da
criança, e amolda-as violentamente às ignomínias.Livro Oitavo — O mau pobre
V — O Judas da providência
Havia cinco anos que Mário vivia na pobreza, rodeado de privações e mesmo de
penúria, mas só então descobriu que nunca conhecera a verdadeira miséria. Acabava de
a ver. Era aquela larva que lhe passara por diante dos olhos. É que, com efeito, quem
nunca viu senão a miséria do homem não viu nada, precisa ver a miséria da mulher;
quem nunca viu senão a miséria da mulher, não viu nada, precisa ver a miséria da
criança.
Então todos os horrores se tornam possíveis. O desespero é rodeado por frágeis
tabiques, que dão todos para o vício ou para o crime.
A saúde, a mocidade, a honra, as santas e severas delicadezas da carne ainda nova, o
coração, a virgindade, o pudor, essa epiderme da alma, são sinistramente manejados
pela apalpadela que busca recursos, que encontra o opróbrio e que acomoda com ele.
Pais, mães, filhos, irmãos, irmãs, homens, mulheres, raparigas, aderem e agregam-se
quase como uma formação mineral, nesta nebulosa promiscuidade de sexos, de
parentescos, de idades, de infâmias e de inocências. Agacham-se, encostados uns aos
outros, numa espécie de destino-pocilga. É lentamente o modo porque se olham
reciprocamente Desventurados! Como estão pálidos! Como tremem de frio! Parece que
habitam em planeta muito mais distante do Sol do que nós.
Aquela rapariga foi para Mário uma espécie de enviado das trevas. Revelou-lhe
completamente o lado hediondo da noite.
Mário quase se repreendeu das preocupações de sonho e paixão que o tinham
impedido até aquele dia de lançar os olhos para os seus vizinhos. Ter-lhes pago a renda
da casa, fora uma coisa maquinal, que qualquer pessoa teria feito, mas ele, Mário, devia
ter feito mais. O quê! Por estar apenas separado por uma parede daqueles entes
abandonados, que viviam às apalpadelas no meio da escuridão, e separado do resto dos
viventes, roçava por eles, era de certo modo o último elo do género humano, que eles
tocavam, sentia-os viver, ou antes, agonizar, junto de si, e não lhes dava a mínima
atenção! Todos os dias, a todos os instantes, ouvia-lhes os passos, sentia-os andar de
um lado para o outro, ouvia-os falar através da parede e não aplicava o ouvido! As
palavras que proferiam continham gemidos, e ele nem mesmo os escutava! O seu
pensamento estava noutra parte, sonhava com brilhos impossíveis, com amores aéreos,
com loucuras, e entretanto, havia criaturas humanas, seus irmãos em Jesus Cristo, seus
irmãos pelo povo, que agonizavam a seu lado! Agonizavam inutilmente! Ele chegava a
fazer parte da sua desgraça, agravava-a mesmo! Por que se vessem outro vizinho
menos quimero e mais atento, um homem vulgar e caritativo, teria sido evidentemente
notada a sua indigência, os seus sinais de miséria teriam sido percebidos e haveria talvez
já muito tempo que teriam sido recolhidos e salvos! Pareciam decerto, muito
depravados, muito corrompidos e aviltados, mesmo muito odiosos; mas são muito raros
os que caíram sem se enlamear; e depois há um ponto em que os desventurados e os
infames se amalgamam e confundem numa só palavra, na palavra fatal miseráveis; de
quem é a culpa? E depois, não deve ser tanto maior a caridade quanto mais profunda é
a perdição?
Enquanto Mário moralizava por este modo, porque havia ocasiões em que, como
todos os corações verdadeiramente honestos, se tornava pedagogo de si mesmo, e
ralhava consigo mais do que merecia, olhava para a parede que o separava dos
Jondrette, como se pudesse atravessá-la com o seu olhar piedoso, para reanimar aqueles
desgraçados.
A parede era um simples tabique delgadíssimo, que, como se viu, deixava
perfeitamente distinguir o ruído dos passos e as vozes. Era preciso andar sempre
abstrato, como Mário, para o não ter ainda notado. A parede não era forrada com o
mais insignificante papel, nem do lado dos Jondrette, nem do de Mário; estava em osso.
Mário, sem quase ter a consciência do que fazia, examinava o tabique; às vezes a
distração examina, observa e escuta como faria a atenção.
De repente levantou-se: acabava de descobrir no alto da parede, junto do teto, um
buraco. A cal e a areia que devia ter preenchido aquele vácuo, caíra, decerto; e subindo
se à cômoda, podia-se ver por aquela abertura a pocilga dos Jondrette. Aquele buraco
era como que um Judas. É permitido observar traiçoeiramente o infortúnio com o fim de
o socorrer. «Também sempre hei-de ver que casta de gente é esta», disse para consigo,
«e até que ponto chega a sua miséria»
E, ao mesmo tempo que dizia isto, subiu para cima da cômoda, aproximou um dos
olhos junto ao buraco e pôs-se a espreitar.
Literatura Fundamental - Victor Hugo - Maria Lúcia Dias Mendes
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - V — O Judas da providência
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
Literatura Fundamental - Victor Hugo - Maria Lúcia Dias Mendes
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