quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / VII — Estratégia e tática

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     VII — Estratégia e tática

             Ia Mário a descer do seu improvisado observatório, com o coração confrangido pelo que vira, quando um ruído o atraiu e o fez permanecer no seu lugar.
     Acabava de abrir-se de chofre a porta da mansarda e de assomar no seu limiar a filha mais velha. Trazia calçados uns grandes sapatos de homem, cheios de lama, que lhe salpicava os tornozelos, e pendente dos ombros uma manta esfarrapada, que Mário não lhe vira uma hora antes, porque decerto a tinha deixado à entrada da porta para inspirar mais compaixão, tornando-a a cobrir depois que saiu. Entrou, fechou a porta, parou para tomar a respiração, porque vinha esbaforida, e em seguida exclamou, com expressão de triunfo e alegria:

— Ele aí vem!

     O pai voltou os olhos, a mulher voltou a cabeça, a irmã mais nova não se mexeu.

— Quem? — perguntou o pai. 
— O tal senhor. 
— O filantropo? 
— Sim, senhor. 
— Da igreja de S. Jacques? 
— Sim, senhor. 
— O velho? 
— Sim, senhor. 
— E vem aí? 
— Não tarda 
— Sabes isso com certeza? 
— Com toda a certeza. 
— Realmente ele vem aí? 
— Vem, sim, senhor; vem de carruagem. 
— De carruagem! É Rothschild!

     O homem levantou-se.

— Como sabes tu isso com certeza? Como é que, se ele vem de carruagem, tu chegas primeiro do que ele? Disseste-lhe ao menos tu bem onde nós moramos? Disseste-lhe bem que era na última porta, ao fim do corredor, do lado direito? Se ele se engana! Então encontraste-o na igreja? Ele leu a minha carta? E que disse? 
— Devagar, devagar — exclamou a jovem. — Como vais a galope, paizinho! Aí vai como foi: Entrei na igreja e pesquei-o logo no lugar do costume; fiz-lhe uma cortesia, entreguei-lhe a carta, ele leu-a e perguntou-me: «Onde moras, minha filha?» Eu disse lhe: «Eu vou com o senhor para lhe ensinar o caminho». E vai ele disse-me: «Nada, diz me antes onde moras, porque, como minha filha tem de sair a fazer algumas compras, eu vou alugar uma carruagem e chegarei a tua casa ao mesmo tempo que tu». Disse-lhe então onde morávamos, mas quando lhe disse, parece que ele ficou assim admirado, sem saber o que havia de responder, até que por fim disse: «É o mesmo, irei». No fim da missa vi-o sair da igreja com a filha e meteram-se ambos num carro. Mas eu disse-lhe bem que a nossa porta era a última ao fim do corredor, do lado direito. 
— Mas como sabes tu que ele vem? 
— Porque avistei agora mesmo o carro, que vinha ao princípio da rua do Petit Banquier. 
— Como sabes tu que o carro era o mesmo? 
— Ora! Porque tomei sentido no número. 
— E que número é? 
— 440. 
— Bem, és uma rapariga esperta!

     A filha olhou ousadamente para o pai e acrescentou, mostrando-lhe os sapatos que trazia nos pés: 

— Pois serei uma rapariga esperta, mas o que eu digo é que não torno a calçar estes sapatos e que os não quero: primeiro por causa da saúde, segundo por causa da limpeza. Cá para mim não há coisa que mais me agrade do que umas chinelas jus tinhas ao pé, que façam gji, gji, gji quando a gente vai a andar. De outro modo antes quero andar descalça. 
— Tens razão — respondeu o pai num tom de brandura que contrastava com a indocilidade da jovem — mas é que assim não te deixavam entrar nas igrejas. Os pobres não têm remédio senão andar descalços. Na casa de Deus não se entra descalço! — disse ele com azedume. E em seguida acrescentou, voltando ao objeto que naquela ocasião o preocupava: — Mas tu sabes com certeza que ele vem aí? 
— E não tarda cá muitos minutos.

     O homem levantou-se. O seu rosto como que se tinha iluminado. 

— Mulher! — exclamou ele. — Bem ouviste que vem aí o filantropo, por isso apaga o lume.

     A mulher, de estupefata que ficara, não se moveu. Jondrette, com a agilidade de um saltimbanco, pegou num cântaro esbotenado que estava em cima do fogão e despejou a água nos tições.
     E, dirigindo-se em seguida para a sua filha mais velha, disse: 

— Tu arromba a cadeira, anda!

     A filha, porém, não percebeu. Ele pegou então na cadeira e arrombou-a, assentando-lhe o pé em cheio no meio da palhinha, de modo que ficou com a perna metida no rombo. 

— Está frio, rapariga? — perguntou ele, tirando a perna do buraco da cadeira 
— Muito! Está a nevar com toda a força!

     O pai voltou-se então para a filha mais nova, que estava sentada na cama ao pé da janela, e gritou-lhe com voz de trovão: 

— Já abaixo da cama, sua perdida! Nunca há de prestar senão para comer! Quebre já um vidro!

     A criança saltou abaixo da cama a tremer. 

— Quebre já um vidro — tornou ele.

     A criança, porém, ainda ficou vacilante. 

— Tu não ouves? — repetiu o pai. — Eu disse-te que quebrasses um vidro!

     A filha, levada da obediência do medo, pôs-se em bicos de pés e deu um murro num vidro, que quebrou, caindo com grande estrondo, 

— Está bem! — disse o pai.

     Jondrette estava com aspecto severo e agastado. O seu olhar percorria todos os cantos da mansarda.
     Dir-se-ia um general fazendo os últimos preparativos no instante em que vai principiar a batalha.
     A mulher, que ainda não tinha proferido uma só palavra, levantou o corpo e perguntou com voz lenta e surda, como se as palavras lhe saíssem geladas dos lábios: 

— Filho, tu que queres fazer? 
— Mete-te na cama! — respondeu o homem.

     A entoação com que ele disse isto não admitia réplica. A mulher obedeceu, portanto, atirando-se com todo o peso do corpo para cima de uma das camas.
     Ao mesmo tempo gritou, ouvindo soluçar a um canto: 

— Que vem a ser isso?

     A filha mais nova, sem sair do canto onde Se tinha acocorado, mostrou a mão ensanguentada. Ao quebrar o vidro, cortara-se e fora sentar-se ao pé da cama de sua mãe, chorando em silêncio.
     A mulher levantou-se então e exclamou: 

— Vês o que fazem as tuas tolices? Fizeste com que a pequena se cortasse, ao quebrar o vidro! 
— Melhor! — disse o homem. — Isso já eu esperava. 
— O quê, melhor? — tornou a mulher. 
— Pouca bulha! — replicou ele. — Suprimo a liberdade de imprensa!

     Em seguida rasgou a camisa de mulher que trazia vestida, tirou-lhe uma tira, com que à pressa envolveu o dedo em que a filha se cortara, e, feito isto, disse, olhando com satisfação para a camisa rasgada: 

— E até a camisa! Tudo se ajusta!

     Pelo vidro quebrado, através do qual se via cair a neve lá fora, penetrava uma corrente de ar frigidíssimo e o nevoeiro exterior, que se dilatava pelo quarto como uma nuvem de algodão espalhada por dedos invisíveis. O frio prometido no dia antecedente pelo sol da Candelária efetivamente viera.
     O homem circunvagou a vista em volta de si, como para se certificar que não esquecia coisa alguma. Pegou numa pá velha e deitou uma pouca de cinza sobre os tições molhados de modo que ficassem completamente escondidos.
     Depois levantou-se e disse, encostando-se ao fogão: 

— Agora pode vir o filantropo quando quiser, que nós estamos prontos para o receber.

continua na página 563...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - VII — Estratégia e tática
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

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