segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (X. Os dois juntos)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
X
OS DOIS JUNTOS
 
     Aliócha saiu da casa de seu pai mais abatido e mais acabrunhado do que à sua chegada. Suas idéias eram fragmentárias, confusas; ele próprio se dava conta de que temia reuni-las, tirar uma conclusão geral das contradições dolorosas de que se compusera aquele dia. Experimentava um sentimento vizinho do desespero, o que jamais lhe acontecera. Uma questão dominava as outras, fatal e insolúvel: que aconteceria a seu pai e Dimítri em presença daquela mulher terrível? Vira-os engalfinhados. O único verdadeiramente infeliz era seu irmão Dimítri; a fatalidade o tocaiava. Outros encontravam-se misturados a tudo isso e talvez mais do que parecia antes a Aliócha. Era enigmático. Ivã dera os primeiros passos para ele, esperados desde muito tempo, e agora sentia ele certa apreensão. Outra coisa estranha: enquanto antes ia à casa de Catarina Ivânovna numa extraordinária perturbação, nenhuma sentia agora; apressava-se mesmo, como se esperasse dela uma indicação. No entanto, o recado era ainda mais penoso de dar: a questão dos 3 000 rublos estava liquidada e Dimítri, sentindo-se definitivamente desonrado, cairia cada vez mais baixo. Além disso, devia Aliócha narrar a Catarina Ivânovna a cena que acabava de desenrolar-se em casa de seu pai.
     Eram 7 horas e a noite estava a cair, quando Aliócha chegou à casa de Catarina Ivânovna, que morava num prédio vasto e confortável da Rua Grande. Sabia que ela vivia com duas tias. Uma, a tia de sua irmã Agáfia Ivânovna, era aquela pessoa silenciosa que tomara conta dela depois que saíra do internato. A outra era uma senhora de Moscou, bastante digna, mas sem fortuna. Sabia-se que as duas senhoras se submetiam em tudo a Catarina Ivânovna e só permaneciam em sua companhia para manter o decoro. Catarina Ivânovna só dependia de sua benfeitora, a generala, cuja saúde a retinha em Moscou e a quem estava ela obrigada a dar, duas vezes por semana, notícias suas pormenorizadas. Quando Aliócha, no vestíbulo, fez-se anunciar pela arrumadeira que lhe abrira a porta, sabia-se já no salão de sua chegada, evidentemente (talvez o tivessem visto pela janela); o fato é que ele ouviu rumor, passos precipitados ressoaram com um frufru de vestidos, duas ou três mulheres teriam saído correndo. Aliócha achou estranho que sua chegada produzisse tal agitação. Fizeram-no entrar logo para o saião, uma grande peça mobiliada com elegância, que nada tinha de provinciana, Muitos canapés, divas, poltronas, mesas e centros; quadros nas paredes, vasos e lâminas, um molho de flores, havendo mesmo um aquário, perto da janela. O crepúsculo ensombrecia a sala. Aliócha avistou em cima dum canapé uma mantilha de seda abandonada, e sobre a mesa, em frente, duas xícaras onde restava chocolate, biscoitos, uma taça de cristal com passas de uvas, outra com bombons. Vendo aquela refeição, adivinhou Aliócha que havia convidados e franziu o cenho. Mas logo o reposteiro se ergueu e Catarina Ivânovna entrou a passos rápidos, estendendo-lhe as duas mãos com alegre sorriso. Ao mesmo tempo, uma criada trouxe e colocou em cima da mesa duas velas acesas.

— Louvado seja Deus, ei-lo afinal! Rezei a Deus o dia inteiro para que você viesse! Sente-se.

     A beleza de Catarina Ivânovna já havia impressionado Aliócha três semanas antes, quando Dimítri o levara à casa dela para apresentá-lo, porque ela desejava muito conhecê-lo. Não haviam conversado por ocasião daquela entrevista. Pensando que Aliócha estava muito acanhado, Catarina Ivânovna quis pô-lo à vontade e conversou todo o tempo com Dimítri. Aliócha mantivera-se em silêncio, mas observara muitas coisas. Impressionaram-no o porte nobre, a desenvoltura altiva, a segurança da orgulhosa moça. Seus grandes olhos negros e brilhantes pareceram-lhe em perfeita harmonia com a palidez mate de seu rosto oval. Mas seus olhos, seus lábios encantadores, por mais capazes que fossem de excitar o amor de seu irmão, não poderiam talvez retê-lo por muito tempo. Foi quase franco com Dimítri, quando este, após a visita, insistiu, rogando-lhe que não ocultasse a impressão que lhe causara sua noiva. 

— Serás feliz com ela, mas talvez não uma felicidade calma.
— Meu irmão, mulheres como essa permanecem iguais a si mesmas, não se resignam diante do destino. De modo que pensas que não a amarei sempre?
— Não, tu a amarás sempre, é possível, mas não serás talvez sempre feliz com ela... 

     Aliócha exprimira sua opinião corando aborrecido por ter, para ceder aos rogos de seu irmão, formulado ideias tão "tolas", porque sua opinião lhe parecera a ele próprio bastante tola, logo que fora emitida. Tivera vergonha de haver-se exprimido tão categoricamente a respeito de uma mulher. Sua surpresa foi tanto maior sentindo, ao primeiro olhar lançado agora sobre Catarina Ivânovna, que se tinha talvez enganado então no seu julgamento. Desta vez o rosto da moça irradiava uma bondade ingênua e uma sinceridade ardente. Da "altivez e orgulho" de então, que haviam impressionado tanto Aliócha, não restava senão uma nobre energia, uma confiança serena e forte em si mesma. Ao primeiro olhar, às primeiras palavras, compreendeu Aliócha que o trágico de sua situação a respeito do homem a quem ela tanto amava não lhe escapava e que, talvez, já soubesse de tudo. E no entanto, malgrado isso, seu rosto radiante exprimia a fé no futuro. Aliócha sentiu-se culpado perante ela, vencido e cativo ao mesmo tempo. Além disso, observou, às suas primeiras palavras, que se encontrava ela numa violenta agitação, talvez insólita nela, e que confinava mesmo com a exaltação. 

— Eu o esperava, porque é só de você, agora, que posso saber toda a verdade.
— Vim... — gaguejou Aliócha — eu... ele me enviou.
— Ah! ele o enviou? Está bem. Pressentia isso. Agora, sei tudo, tudo — disse Catarina Ivânovna, com os olhos cintilantes. — Espere, Alieksiéi Fiódorovitch, vou dizer-lhe por que desejava tanto vê-lo. Sei muito mais do que você mesmo; não são notícias que reclamo de você. Quero saber de sua derradeira impressão sobre Dimítri, quero que você me conte o mais francamente, o mais grosseiramente que puder (oh! não se acanhe!), o que pensa dele agora e de sua situação depois da entrevista de vocês, hoje. Valerá isto talvez melhor que uma explicação entre nós dois, uma vez que não quer ele mais vir ver-me. Compreendeu o que espero de você? Agora, por qual motivo o enviou? Fale francamente, não mastigue as palavras... 
— Encarregou-me de... saudá-la, de dizer-lhe que não viria mais e de saudá-la... 
— Saudar? Disse assim, foi assim que se exprimiu?
— Sim. 
— Talvez se haja enganado, por acaso, e não empregou a palavra devida. 
— Não, insistiu precisamente para que eu lhe repetisse essa palavra "saudar". Recomendou-a três vezes.   
     O sangue subiu ao rosto de Catarina Ivânovna.

— Ajude-me, Alieksiéi Fiódorovitch, tenho agora necessidade de você. Eis o que penso, diga me se tenho ou não razão: se ele o tivesse encarregado de saudar-me, ligeiramente, sem insistir na transmissão da palavra, sem sublinhá-la, tudo estaria acabado. Mas se se apoiou particularmente neste termo, se lhe ordenou expressamente que me transmitisse essa "saudação", é que estava superexcitado, fora de si talvez. A decisão que tomou terá espantado a ele próprio! Não me deixou com segurança, precipitou se ladeira abaixo. O sublinhamento dessa palavra tem o sentido de uma bravata...
— É isto, é isto — afirmou Aliócha. — Tenho a mesma impressão.
— Neste caso, nem tudo está perdido! Está ele apenas desesperado, posso ainda salvá-lo. Não lhe falou ele de dinheiro, de 3.000 rublos? 
— Não somente me falou deles, mas é talvez isso que mais o acabrunha. Disse que nada mais lhe importa agora, agora que perdeu sua honra — respondeu Aliócha, que se sentia renascer para a esperança e entrevia a possibilidade de salvar seu irmão. — Mas sabe... de que dinheiro se trata? — acrescentou ele, e de repente calou-se.
— Desde muito tempo que o sei e com certeza. Telegrafei para Moscou, onde nada tinham recebido. Ele não remeteu o dinheiro, mas eu me calei. Soube na última semana como estava ele necessitado... Só tenho um fito em tudo isto: é que ele saiba a quem se dirigir e onde encontrar a amizade mais fiel. Mas não quer ele crer que seu mais fiel amigo sou eu; só considera a mulher, em mim. Atormentei-me a semana inteira: como fazer para que ele não core diante de mim por ter gasto esses 3 000 rublos? Que se envergonhe ele diante de todos e se envergonhe de si mesmo, mas não diante de mim! Como ignora ele até agora tudo quanto posso suportar por ele? Como pode ele me desconhecer, depois de tudo quanto se passou? Quero salvá-lo para sempre. Que deixe de ver em mim sua noiva! E teme pela sua honra para comigo? Mas não receia abrir-se a você, Alieksiéi Fiódorovitch. Por que não mereci ainda sua confiança?

     Pronunciou estas derradeiras palavras com os olhos cheios de lágrimas.

— Devo relatar-lhe — disse Aliócha, com voz trêmula — a cena que acaba de ter ele com seu pai.

     E contou tudo: como Dimítri o havia mandado pedir dinheiro, depois irrompera na casa, batera em Fiódor Pávlovitch e, na ocasião, recomendara com insistência a Aliócha que viesse "saudá-la". — Ele foi à casa daquela mulher... — acrescentou Aliócha, em voz baixa. 
— Pensa que não suportarei sua ligação com aquela mulher? Ele também o pensa, mas não casará com ela. — Soltou uma risadinha nervosa. — Será que um Karamázov pode queimar-se com um ardor eterno? É um entusiasmo passageiro, não é amor. Ele não casará com ela, porque ela não o quererá — disse, com o mesmo riso estranho.
— Ele se casará talvez com ela — disse tristemente Aliócha, de olhos baixos. 
— Ele não se casará com ela, afirmo-lhe! Aquela moça é um anjo! Sabia-o? Sabia-o? — exclamou Catarina Ivânovna, com um calor extraordinário. — Ê a mais fantástica das criaturas. É sedutora, decerto mas tem um caráter nobre e bom. Por que me olha desse jeito, Alieksiéi Fiódorovitch? Talvez minhas palavras lhe causem espanto, talvez não me acredite. Agrafiena Alieksándrovna, meu anjo — exclamou ela, de súbito, com os olhos voltados para a peça vizinha —, venha cá, este gentil rapaz está ao corrente de todos os nossos negócios, apareça, pois!
— Só esperava seu chamado — disse uma voz doce e até mesmo melíflua. 

     O resposteiro ergueu-se e... Grúchenhka em pessoa, risonha, alegre, caminhou para a mesa. Aliócha sentiu uma comoção. Os olhos fixos nela, não podia desviá-los de seu rosto. Ei-la, aquela mulher temível, "aquele monstro", como a chamara seu irmão Ivã meia hora antes. No entanto, tinha ele diante de si a criatura mais vulgar, mais simples à primeira vista, uma mulher encantadora e boa, bonita, decerto, mas parecendo-se com todas as mulheres bonitas "comuns". Na verdade, era até mesmo bela, bastante bela, uma beleza russa, a que suscita tantas paixões. De estatura bastante elevada, sem igualar, no entanto, a de Catarina Ivânovna (que era muito alta), forte, com movimentos mansos e silenciosos, como que enlanguecidos numa doçura de acordo com sua voz. Adiantou-se, não como Catarina Ivânovna, mas com um passo firme e seguro, embora silencioso. Não fazia quase ruído ao andar. Deixou-se cair numa poltrona, com um rumor leve de seu elegante vestido de seda preta, cobriu friorentamente com um xale de lã seu pescoço branco como neve e seus largos ombros. Tinha 22 anos e seu rosto indicava essa idade. Sua pela era muito branca, com um matiz de reflexos rosa-pálido, o oval do rosto um tanto largo, o maxilar inferior um pouco saliente. O lábio superior era delgado, o inferior, que avançava, duas vezes mais forte e túmido. Uma magnífica cabeleira castanha muito abundante, supercílios escuros, admiráveis olhos dum cinzento azulado de longos cílios: o mais indiferente, o mais distraído dos homens, perdido na multidão, passeando, não teria deixado de parar diante daquele rosto e de recordá-lo por muito tempo. O que mais impressionava Aliócha era sua expressão infantil e ingênua. Tinha ela um olhar e alegria de criança, aproximara-se da mesa verdadeiramente alvoroçada, como se esperasse alguma coisa, curiosa e impaciente. Seu olhar alegrava a alma, sentia-o Aliócha. Havia ainda nela algo de que não teria ele podido ou sabido dar conta, mas que sentia talvez inconscientemente, aquela languidez de movimentos, aquela ligeireza felina de seu corpo, no entanto, vigoroso e gordo. Seu xale desenhava espáduas cheias, um firme busto de mulher jovem. Aquele corpo prometia talvez as formas da Vênus de Milo, mas já em proporções um tanto exageradas, adivinhava-se. Conhecedores da beleza russa, ao examinar Grúchenhka, teriam predito com certeza que, ao aproximar-se dos trinta anos, aquela beleza tão fresca ainda perderia sua harmonia, alterar-se-ia, o rosto se empastaria; rugas se formariam rapidamente na testa e em redor dos olhos; a tez murcharia, avermehar-se-ia talvez; numa palavra, era a beleza do diabo, beleza efêmera, tão frequente na mulher russa. Aliócha, bem entendido, não pensava nisso, mas, embora sob o encanto, perguntava a si mesmo com mal-estar e como a contragosto: por que arrasta ela assim as palavras e não pode falar naturalmente? Grúchenhka achava decerto bonito aquele rotacismo e aquelas entonações cantantes. Não era senão um hábito de mau gosto, índice de uma educação inferior, duma falsa noção das conveniências. No entanto, aquela fala afetada parecia a Aliócha quase incompatível com aquela expressão ingênua e radiosa, aquele brilho dos olhos ridentes duma alegria de bebê. Catarina Ivânovna fizera-a sentar-se em frente de Aliócha e beijara várias vezes com entusiasmo seus lábios sorridentes. Parecia apaixonada por ela.  
— Vemo-nos pela primeira vez, Alieksiéi Fiódorovitch — disse ela, encantada.  — Queria conhecê-la, vê-la, ir à casa dela; ela mesma, porém, veio ao meu primeiro chamado. Estava certa de que arranjaríamos tudo! Meu coração pressentia-o... Tinham-me rogado que desistisse desse passo, mas previa-lhe o resultado e não me enganei. Grúchenhka explicou-me todas as suas intenções; veio como um anjo bom trazer-me a paz e a alegria...
— Você não me desdenhou, cara senhorita — disse Grúchenhka, com uma voz arrastada e seu doce sorriso.
— Evite dizer-me tais palavras, encantadora mágica! Desdenhá-la? Vou beijar mais uma vez seu lindo lábio. Tem o ar de estar intumescido, pois vou torná-lo mais intumescido ainda... Veja como ri. Alieksiéi Fiódorovitch, é uma alegria para o coração olhar esse anjo... 

     Aliócha corava e estremecia ligeiramente. 

— Você está-me mimando, cara senhorita, mas não mereço talvez suas carícias. 
— Não as merece! — exclamou com o mesmo calor Catarina Ivânovna. — Saiba, Alieksiéi Fiódorovitch, que temos aí uma cabeça fantasista, independente, mas um coração altivo, oh! muito altivo! É nobre e generosa, Alieksiéi Fiódorovitch, sabia-o? Era apenas infeliz, pronta inteiramente a sacrificar-se a um homem talvez indigno ou leviano. Havia um oficial a quem amava, deu-lhe tudo, há muito tempo isso, cinco anos, e ele a esqueceu, casou-se. Tendo ficado viúvo, escreveu, está a caminho, é a ele somente, fique sabendo, que ama e sempre amou! Ele chega, e Grúchenhka será de novo feliz, depois de ter sofrido durante cinco anos. Que se lhe pode censurar? Quem pode gabar-se de ter-lhe conquistado as belas graças? Aquele velho negociante impotente, mas era antes um pai, um amigo, um protetor; encontrou-a desesperada, atormentada, abandonada... Porque queria ela afogar-se, aquele velho a salvou, salvou-a1
— Você me defende demais, cara senhorita, vai um pouco longe demais — disse de novo, arrastadamente, Grúchenhka.
 — Eu a defendo? Cabe a mim defendê la, ousaríamos nós defendê-la? Grúchenhka, meu anjo, dê-me sua mão. Olhe essa mãozinha rechonchuda, essa deliciosa mãozinha. Alieksiéi Fiódorovitch: está. vendo-a? Foi ela que me trouxe a felicidade, que me ressuscitou, vou beijá-la dos dois lados... assim, assim!

     Beijou três vezes, como que arrebatada, a mão verdadeiramente encantadora, talvez demasiado rechonchuda, de Grúchenhka. Esta, com um riso nervoso e sonoro, consentia na carícia; mirava a "cara senhorita" e tinha prazer com aquilo... "Ela talvez se exalte demasiado", pensou Aliócha. Corou, seu coração não estava tranquilo. 

— Quer fazer-me corar, cara senhorita, beijando assim minha mão diante de Alieksiéi Fiódorovitch. 
— Mas foi minha intenção fazê-la corar? — proferiu Catarina Ivânovna um pouco admirada. — Ah! minha cara, como me compreende mal! 
— Mas talvez não me compreenda tampouco, cara senhorita. Sou talvez pior do que pareço. Tenho coração mau, sou caprichosa. Foi somente para zombar do pobre Dimítri Fiódorovitch que o conquistei.
 — Mas agora você o salvará, prometeu-o. Far-lhe-á compreender, revelar-lhe-á que desde muito tempo ama outro pronto a desposá-la...
— Mas não, não lhe prometi nada de semelhante. Foi você quem disse tudo isso e não eu.
— Compreendi-a mal então — declarou Catarina Ivânovna, que baixou a voz e empalideceu ligeiramente. — Você prometeu...
— Ah! não, angélica senhorita, não lhe prometi nada — interrompeu-a Grúchenhka, com a mesma expressão alegre, tranquila, inocente. — Veja, digna senhorita, como sou má e voluntariosa. O que me agrada, faço-o; ainda há pouco talvez lhe haja feito uma promessa, e agora digo a mim mesma: se Mítia viesse a agradar-me de novo, porque já um vez me agradou quase uma hora, talvez vá dizer-lhe que fique morando comigo a partir de hoje... Veja como sou inconstante...  
— Ainda há pouco falava você de maneira totalmente diversa... — murmurou Catarina Ivânovna.
— Sim, ainda há pouco! Mas tenho o coração terno, sou tola! Basta pensar em tudo quanto ele sofreu por mim; se, de volta para minha casa, tiver piedade dele, que acontecerá? 
— Eu não esperava...
— Oh! senhorita, quanto é boa e nobre comparada comigo! E talvez, agora, vai deixar de amar-me vendo meu caráter. Dê-me sua bonita mão, angélica senhorita — pediu ela, tomando com respeito a mão de Catarina Ivânovna. — Vou beijar sua mão, cara senhorita, como fez você à minha. Deu-me três beijos, deveria dar-lhe bem uns trezentos para ficar quite. Assim será, e depois, seja o que Deus quiser: talvez seja sua escrava e haverei de querer comprazê-la em tudo quanto Deus queira, sem convenção alguma nem promessas. Dê-me sua mão, sua linda mão, cara senhorita, bela entre todas! 

     Levou docemente aquela mão a seus lábios, com o fito estranho de "saldar a conta" dos beijos recebidos. Catarina Ivânovna não retirou sua mão. Havia escutado com tímida esperança a derradeira promessa de Gruchenhka, por mais estranhamente expressa que tivesse sido, de "comprazê-la em tudo"; olhava-a com ansiedade bem dentro dos olhos; via ali a mesma expressão ingênua e confiante, a mesma jovialidade serena... "Ela é talvez demasiado ingênua!", disse a si mesma Catarina Ivânovna, num clarão de esperança. Entretanto Gruchenhka, encantada com aquela "linda mãozinha", levava-a lentamente aos lábios. Ia quase tocar-lhe quando a reteve para refletir.

— Sabe, meu anjo — disse ela, arrastadamente, com sua voz mais melíflua —, feitas as contas, não lhe beijarei a mão. — e soltou uma risadinha alegre. 
— Como queira... Que tem? — estremeceu Catarina Ivânovna.
— Lembre-se disso: você beijou minha mão, mas eu não beijei a sua.

     Um clarão brilhou nos seus olhos. Fitava com obstinação Catarina Ivânovna.

— Insolente! — exclamou esta, que começava a compreender. 

     Levantou-se vivamente, tomada de cólera. Sem se apressar, Gruchenhka fez o mesmo.  

— Vou contar a Mítia que você beijou minha mão, mas que eu não quis beijar a sua. Isto vai fazê-lo rir.
— Fora daqui, canalha!
— Ah! que vergonha! É indecente de sua parte empregar tais pala- vras, cara senhorita. 
— Fora daqui, fêmea vendida! — vociferou Catarina Ivânovna. Todo o seu rosto convulsionado tremia. — Vendida, seja. Você mesma, mocinha, saía à noite à busca de dinheiro entre rapazes, traficando seus encantos; sei de tudo.

      Catarina Ivânovna lançou um grito, quis atirar-se contra ela, mas Aliócha reteve-a com todas as suas forças.

— Não se mova, nem uma palavra! Não lhe responda, ela partirá agora mesmo! 

     As duas parentas de Catarina Ivânovna e a arrumadeira acorreram ao seu grito. Precipitaram-se para ela. 

— Está bem! Vou-me embora — declarou Gruchenhka, tomando sua mantilha de cima do diva. — Aliócha, meu bem, acompanha-me! 
— Vá-se o mais depressa possível — implorou Aliócha, de mãos juntas.
— Aliócha querido, acompanha-me. De caminho, dir-te-ei uma palavra, algo de muito gentil! Foi por ti, Aliócha, que representei essa cena. Vem, meu caro, não lamentarás ter vindo. 

     Aliócha voltou-se, torcendo as mãos. Gruchenhka saiu rindo, sonoramente. Catarina Ivânovna teve um ataque de nervos; soluçava, espasmos sufocavam-na. Todos se mostravam solícitos em torno dela.

— Eu a havia prevenido — disse-lhe a mais velha das tias — e desaconselhado tal passo... você é demasiado viva... pode-se arriscar tal coisa? Você não conhece essas criaturas e dizem dessa que é a pior de todas... Você só faz o que lhe dá na cabeça!
— É uma teoriza! — vociferou Catarina Ivânovna. — Por que me reteve, Alieksiéi Fiódorovitch? Ter-lhe-ia batido, batido... Estava incapaz de conter-me diante de Alieksiéi, talvez mesmo não o quisesse.
— Merecia ser chicoteada em público, pela mão do carrasco.

     Alieksiéi aproximou-se da porta. 

— Oh! meu Deus! — exclamou Catarina Ivânovna, juntando as mãos. — Mas ele! Pôde ser tão desleal, tão inumano?! Por que foi ele que contou àquela criatura o que se passou naquele dia fatal e para sempre maldito! "Você ia traficar seus encantos, cara senhorita!" Ela sabe! Seu irmão é um canalha, Alieksiéi Fiódorovitch! - Aliócha quis dizer alguma coisa, mas não encontrou uma palavra sequer; seu coração cerrava-se a ponto de doer-lhe. — Vá-se embora, Alieksiéi Fiódorovitch! Tenho vergonha, é horrível! Amanhã... Rogo-lhe, de joelhos, venha amanhã. Não me julgue, perdoe- me, não sei de que sou capaz!  

     Aliócha saiu cambaleante. Teria querido também chorar; de repente a criada alcançou-o.

— A senhorita esqueceu-se de entregar-lhe esta carta da Senhora Khokhlakova; estava com ela desde o jantar. 

     Aliócha pegou o pequeno envelope cor-de-rosa e meteu-o quase inconscientemente no bolso.
  
continua na página 219...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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