Fiódor Dostoiévski
PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
X
OS DOIS JUNTOS
Aliócha saiu da casa de seu pai mais abatido e mais
acabrunhado do que à sua chegada. Suas idéias
eram fragmentárias, confusas; ele próprio se dava
conta de que temia reuni-las, tirar uma conclusão
geral das contradições dolorosas de que se
compusera
aquele
dia.
Experimentava
um
sentimento vizinho do desespero, o que jamais lhe
acontecera. Uma questão dominava as outras, fatal
e insolúvel: que aconteceria a seu pai e
Dimítri em presença daquela mulher terrível? Vira-os
engalfinhados. O
único verdadeiramente infeliz era seu irmão Dimítri;
a fatalidade o tocaiava. Outros encontravam-se
misturados a tudo isso e talvez mais do que parecia
antes a Aliócha. Era enigmático. Ivã dera os
primeiros passos para ele, esperados desde muito
tempo, e agora sentia ele certa apreensão. Outra
coisa estranha: enquanto antes ia à casa de Catarina
Ivânovna
numa
extraordinária
perturbação,
nenhuma sentia agora; apressava-se mesmo, como
se esperasse dela uma indicação. No entanto, o
recado era ainda mais penoso de dar: a questão dos
3 000 rublos estava liquidada e Dimítri, sentindo-se
definitivamente desonrado, cairia cada vez mais
baixo. Além disso, devia Aliócha narrar a Catarina
Ivânovna a cena que acabava de desenrolar-se em
casa de seu pai.
Eram 7 horas e a noite estava a cair, quando Aliócha
chegou à casa de Catarina Ivânovna, que morava
num prédio vasto e confortável da Rua Grande.
Sabia que ela vivia com duas tias. Uma, a tia de sua
irmã Agáfia Ivânovna, era aquela pessoa silenciosa
que tomara conta dela depois que saíra do internato.
A outra era uma senhora de Moscou, bastante digna,
mas sem fortuna. Sabia-se que as duas senhoras se
submetiam em tudo a Catarina Ivânovna e só
permaneciam em sua companhia para manter o
decoro. Catarina Ivânovna só dependia de sua
benfeitora, a generala, cuja saúde a retinha em
Moscou e a quem estava ela obrigada a dar, duas
vezes por semana, notícias suas pormenorizadas.
Quando Aliócha, no vestíbulo, fez-se anunciar pela
arrumadeira que lhe abrira a porta, sabia-se já no
salão de sua chegada, evidentemente (talvez o
tivessem visto pela janela); o fato é que ele ouviu
rumor, passos precipitados ressoaram com um frufru
de vestidos, duas ou três mulheres teriam saído
correndo. Aliócha achou estranho que sua chegada
produzisse tal agitação. Fizeram-no entrar logo para
o saião, uma grande peça mobiliada com elegância,
que nada tinha de provinciana, Muitos canapés,
divas, poltronas, mesas e centros; quadros nas
paredes, vasos e lâminas, um molho de flores,
havendo mesmo um aquário, perto da janela. O
crepúsculo ensombrecia a sala. Aliócha avistou em
cima dum canapé uma mantilha de seda
abandonada, e sobre a mesa, em frente, duas
xícaras onde restava chocolate, biscoitos, uma taça
de cristal com passas de uvas, outra com bombons.
Vendo aquela refeição, adivinhou Aliócha que havia
convidados e franziu o cenho. Mas logo o reposteiro
se ergueu e Catarina Ivânovna entrou a passos
rápidos, estendendo-lhe as duas mãos com alegre
sorriso. Ao mesmo tempo, uma criada trouxe e
colocou em
cima da mesa duas velas acesas.
— Louvado seja Deus, ei-lo afinal! Rezei a Deus o dia
inteiro para que você viesse! Sente-se.
A
beleza
de
Catarina
Ivânovna já havia
impressionado Aliócha três semanas antes, quando
Dimítri o levara à casa dela para apresentá-lo,
porque ela desejava muito conhecê-lo. Não haviam
conversado por ocasião daquela entrevista.
Pensando que Aliócha estava muito acanhado,
Catarina Ivânovna quis pô-lo à vontade e conversou
todo o tempo com Dimítri. Aliócha mantivera-se em
silêncio,
mas
observara
muitas
coisas.
Impressionaram-no o porte nobre, a desenvoltura
altiva, a segurança da orgulhosa moça. Seus
grandes olhos negros e brilhantes pareceram-lhe em
perfeita harmonia com a palidez mate de seu rosto
oval. Mas seus olhos, seus lábios encantadores, por
mais capazes que fossem de excitar o amor de seu
irmão, não poderiam talvez retê-lo por muito tempo.
Foi quase franco com Dimítri, quando este, após a
visita, insistiu, rogando-lhe que não ocultasse a
impressão que lhe causara sua noiva.
—
Meu irmão, mulheres como essa permanecem iguais
a si mesmas, não se resignam diante do destino. De
modo que pensas que não a amarei sempre?
— Não, tu a amarás sempre, é possível, mas não
serás talvez sempre feliz com ela...
Aliócha exprimira sua opinião corando aborrecido
por ter, para ceder aos rogos de seu irmão,
formulado ideias tão "tolas", porque sua opinião lhe
parecera a ele próprio bastante tola, logo que fora
emitida. Tivera vergonha de haver-se exprimido tão
categoricamente a respeito de uma mulher. Sua
surpresa foi tanto maior sentindo, ao primeiro olhar
lançado agora sobre Catarina Ivânovna, que se tinha
talvez enganado então no seu julgamento. Desta vez
o rosto da moça irradiava uma bondade ingênua e
uma sinceridade ardente. Da "altivez e orgulho" de
então, que haviam impressionado tanto Aliócha, não
restava senão uma nobre energia, uma confiança
serena e forte em si mesma. Ao primeiro olhar, às
primeiras palavras, compreendeu Aliócha que o
trágico de sua situação a respeito do homem a quem
ela tanto amava não lhe escapava e que, talvez, já
soubesse de tudo. E no entanto, malgrado isso, seu
rosto radiante exprimia a fé no futuro. Aliócha
sentiu-se culpado perante ela,
vencido e cativo ao mesmo tempo. Além disso,
observou, às suas
primeiras palavras, que se encontrava ela numa
violenta agitação, talvez insólita nela, e que
confinava mesmo com a exaltação.
— Eu o
esperava, porque é só de você, agora, que posso
saber toda a verdade.
— Vim... — gaguejou Aliócha — eu... ele me enviou.
— Ah! ele o enviou? Está bem. Pressentia isso.
Agora, sei tudo, tudo — disse Catarina Ivânovna,
com os olhos cintilantes. — Espere, Alieksiéi
Fiódorovitch, vou dizer-lhe por que desejava tanto
vê-lo. Sei muito mais do que você mesmo; não são
notícias que reclamo de você. Quero saber de sua
derradeira impressão sobre Dimítri, quero que você
me
conte
o
mais
francamente,
o
mais
grosseiramente que puder (oh! não se acanhe!), o
que pensa dele agora e de sua situação depois da
entrevista de vocês, hoje. Valerá isto talvez melhor
que uma explicação entre nós dois, uma vez que não
quer ele mais vir ver-me. Compreendeu o que espero
de você? Agora, por qual motivo o enviou? Fale
francamente, não mastigue as palavras...
— Encarregou-me de... saudá-la, de dizer-lhe que
não viria mais e de saudá-la...
— Saudar? Disse assim, foi assim que se exprimiu?
— Sim.
— Talvez se haja enganado, por acaso, e não
empregou a palavra devida.
— Não, insistiu precisamente para que eu lhe
repetisse essa palavra "saudar". Recomendou-a
três vezes.
O sangue subiu ao rosto de Catarina
Ivânovna.
— Ajude-me, Alieksiéi Fiódorovitch, tenho
agora necessidade de você. Eis o que penso, diga
me se tenho ou não razão: se ele o tivesse
encarregado de saudar-me, ligeiramente, sem
insistir na transmissão da palavra, sem sublinhá-la,
tudo estaria acabado. Mas se se apoiou particularmente
neste
termo,
se
lhe
ordenou
expressamente que me transmitisse essa
"saudação", é que estava superexcitado, fora de si
talvez. A decisão que tomou terá espantado a ele
próprio! Não me deixou com segurança, precipitou
se ladeira abaixo. O sublinhamento dessa palavra
tem o sentido de uma bravata...
— É isto, é isto — afirmou Aliócha. — Tenho a mesma
impressão.
— Neste caso, nem tudo está perdido! Está ele
apenas desesperado, posso ainda salvá-lo. Não lhe
falou ele de dinheiro, de 3.000 rublos?
— Não
somente me falou deles, mas é talvez isso que mais
o acabrunha. Disse que nada mais lhe importa
agora, agora que perdeu sua honra — respondeu
Aliócha, que se sentia renascer para a esperança e
entrevia a possibilidade de salvar seu irmão. — Mas
sabe... de que dinheiro se trata? — acrescentou ele,
e de repente calou-se.
— Desde muito tempo que o
sei e com certeza. Telegrafei para Moscou, onde
nada tinham recebido. Ele não remeteu o dinheiro,
mas eu me calei. Soube na última semana como
estava ele necessitado... Só tenho um fito em tudo
isto: é que ele saiba a quem se dirigir e onde
encontrar a amizade mais fiel. Mas não quer ele crer
que seu mais fiel amigo sou eu; só considera a
mulher, em mim. Atormentei-me a semana inteira:
como fazer para que ele não core diante de mim por
ter gasto esses 3 000 rublos? Que se envergonhe ele
diante de todos e se envergonhe de si mesmo, mas
não diante de mim! Como ignora ele até agora tudo
quanto posso suportar por ele? Como pode ele me
desconhecer, depois de tudo quanto se passou?
Quero salvá-lo para sempre. Que deixe de ver em
mim sua noiva! E teme pela sua honra para comigo?
Mas não receia abrir-se a você, Alieksiéi Fiódorovitch. Por que não mereci ainda sua confiança?
Pronunciou estas derradeiras palavras com os olhos
cheios de lágrimas.
— Devo relatar-lhe — disse Aliócha, com voz trêmula
— a cena que acaba de ter ele com seu pai.
E
contou tudo: como Dimítri o havia mandado pedir
dinheiro, depois irrompera na casa, batera em Fiódor
Pávlovitch e, na ocasião, recomendara com
insistência a Aliócha que viesse "saudá-la". — Ele foi
à casa daquela mulher... — acrescentou Aliócha, em
voz baixa.
— Pensa que não suportarei sua ligação com aquela
mulher? Ele também o pensa, mas não casará com
ela. — Soltou uma risadinha nervosa. — Será que um
Karamázov pode queimar-se com um ardor eterno? É
um entusiasmo passageiro, não é amor. Ele não
casará com ela, porque ela não o quererá — disse,
com o mesmo riso estranho.
— Ele se casará talvez
com ela — disse tristemente Aliócha, de olhos
baixos.
— Ele não se casará com ela, afirmo-lhe! Aquela
moça é um anjo!
Sabia-o? Sabia-o? — exclamou Catarina Ivânovna,
com um calor extraordinário. — Ê a mais fantástica
das criaturas. É sedutora, decerto mas tem um
caráter nobre e bom. Por que me olha desse jeito,
Alieksiéi Fiódorovitch? Talvez minhas palavras lhe
causem espanto, talvez não me acredite. Agrafiena
Alieksándrovna, meu anjo — exclamou ela, de
súbito, com os olhos voltados para a peça vizinha —,
venha cá, este gentil rapaz está ao corrente de todos
os nossos negócios, apareça, pois!
— Só esperava
seu chamado — disse uma voz doce e até mesmo
melíflua.
O resposteiro ergueu-se e... Grúchenhka em pessoa,
risonha, alegre, caminhou para a mesa. Aliócha
sentiu uma comoção. Os olhos fixos nela, não podia
desviá-los de seu rosto. Ei-la, aquela mulher temível,
"aquele monstro", como a chamara seu irmão Ivã
meia hora antes. No entanto, tinha ele diante de si a
criatura mais vulgar, mais simples à primeira vista,
uma mulher encantadora e boa, bonita, decerto,
mas parecendo-se com todas as mulheres bonitas
"comuns". Na verdade, era até mesmo bela,
bastante bela, uma beleza russa, a que suscita
tantas paixões. De estatura bastante elevada, sem
igualar, no entanto, a de Catarina Ivânovna (que era
muito alta), forte, com movimentos mansos e
silenciosos, como que enlanguecidos numa doçura
de acordo com sua voz. Adiantou-se, não como
Catarina Ivânovna, mas com um passo firme e
seguro, embora silencioso. Não fazia quase ruído ao
andar. Deixou-se cair numa poltrona, com um rumor
leve de seu elegante vestido de seda preta, cobriu
friorentamente com um xale de lã seu pescoço
branco como neve e seus largos ombros. Tinha 22
anos e seu rosto indicava essa idade. Sua pela era
muito branca, com um matiz de reflexos rosa-pálido,
o oval do rosto um tanto largo, o maxilar inferior um
pouco saliente. O lábio superior era delgado, o
inferior, que avançava, duas vezes mais forte e
túmido. Uma magnífica cabeleira castanha muito
abundante, supercílios escuros, admiráveis olhos
dum cinzento azulado de longos cílios: o mais
indiferente, o mais distraído dos homens, perdido na
multidão, passeando, não teria deixado de parar
diante daquele rosto e de recordá-lo por muito
tempo. O que mais impressionava Aliócha era sua
expressão infantil e ingênua. Tinha ela um olhar e
alegria
de
criança,
aproximara-se da mesa
verdadeiramente alvoroçada, como se esperasse
alguma coisa, curiosa e impaciente. Seu olhar
alegrava a alma, sentia-o Aliócha. Havia ainda nela
algo de que não teria ele podido ou sabido dar
conta, mas que sentia
talvez inconscientemente, aquela languidez de
movimentos, aquela
ligeireza felina de seu corpo, no entanto, vigoroso e
gordo. Seu xale desenhava espáduas cheias, um
firme busto de mulher jovem. Aquele corpo prometia
talvez as formas da Vênus de Milo, mas já em
proporções um tanto exageradas, adivinhava-se.
Conhecedores da beleza russa, ao examinar
Grúchenhka, teriam predito com certeza que, ao
aproximar-se dos trinta anos, aquela beleza tão
fresca ainda perderia sua harmonia, alterar-se-ia, o
rosto
se
empastaria; rugas se formariam
rapidamente na testa e em redor dos olhos; a tez
murcharia, avermehar-se-ia talvez; numa palavra,
era a beleza do diabo, beleza efêmera, tão frequente
na mulher russa. Aliócha, bem entendido, não
pensava nisso, mas, embora sob o encanto,
perguntava a si mesmo com mal-estar e como a
contragosto: por que arrasta ela assim as palavras e
não pode falar naturalmente? Grúchenhka achava
decerto bonito aquele rotacismo e aquelas
entonações cantantes. Não era senão um hábito de
mau gosto, índice de uma educação inferior, duma
falsa noção das conveniências. No entanto, aquela
fala afetada parecia a Aliócha quase incompatível
com aquela expressão ingênua e radiosa, aquele
brilho dos olhos ridentes duma alegria de bebê.
Catarina Ivânovna fizera-a sentar-se em frente de
Aliócha e beijara várias vezes com entusiasmo seus
lábios sorridentes. Parecia apaixonada por ela.
— Vemo-nos pela primeira vez, Alieksiéi Fiódorovitch — disse ela, encantada. — Queria conhecê-la, vê-la, ir à casa dela; ela mesma, porém, veio ao meu primeiro chamado. Estava certa de que arranjaríamos tudo! Meu coração pressentia-o... Tinham-me rogado que desistisse desse passo, mas previa-lhe o resultado e não me enganei. Grúchenhka explicou-me todas as suas intenções; veio como um anjo bom trazer-me a paz e a alegria...
— Vemo-nos pela primeira vez, Alieksiéi Fiódorovitch — disse ela, encantada. — Queria conhecê-la, vê-la, ir à casa dela; ela mesma, porém, veio ao meu primeiro chamado. Estava certa de que arranjaríamos tudo! Meu coração pressentia-o... Tinham-me rogado que desistisse desse passo, mas previa-lhe o resultado e não me enganei. Grúchenhka explicou-me todas as suas intenções; veio como um anjo bom trazer-me a paz e a alegria...
— Você não me desdenhou, cara senhorita — disse
Grúchenhka, com uma voz arrastada e seu doce
sorriso.
— Evite dizer-me tais palavras, encantadora
mágica! Desdenhá-la? Vou beijar mais uma vez seu
lindo lábio. Tem o ar de estar intumescido, pois vou
torná-lo mais intumescido ainda... Veja como ri.
Alieksiéi Fiódorovitch, é uma alegria para o coração
olhar esse anjo...
Aliócha corava e estremecia
ligeiramente.
— Você está-me mimando, cara
senhorita, mas não mereço talvez suas carícias.
— Não as merece! — exclamou com o mesmo calor
Catarina
Ivânovna. — Saiba, Alieksiéi Fiódorovitch, que temos
aí uma cabeça fantasista, independente, mas um
coração altivo, oh! muito altivo! É nobre e generosa,
Alieksiéi Fiódorovitch, sabia-o? Era apenas infeliz,
pronta inteiramente a sacrificar-se a um homem
talvez indigno ou leviano. Havia um oficial a quem
amava, deu-lhe tudo, há muito tempo isso, cinco
anos, e ele a esqueceu, casou-se. Tendo ficado
viúvo, escreveu, está a caminho, é a ele somente,
fique sabendo, que ama e sempre amou! Ele chega,
e Grúchenhka será de novo feliz, depois de ter
sofrido durante cinco anos. Que se lhe pode
censurar?
Quem pode gabar-se de ter-lhe
conquistado as belas graças? Aquele velho
negociante impotente, mas era antes um pai, um
amigo, um protetor; encontrou-a desesperada,
atormentada, abandonada... Porque queria ela
afogar-se, aquele velho a salvou, salvou-a1
— Você
me defende demais, cara senhorita, vai um pouco
longe demais — disse de novo, arrastadamente,
Grúchenhka.
— Eu a defendo? Cabe a mim defendê
la, ousaríamos nós defendê-la? Grúchenhka, meu
anjo,
dê-me sua mão. Olhe essa mãozinha
rechonchuda, essa deliciosa mãozinha. Alieksiéi
Fiódorovitch: está. vendo-a? Foi ela que me trouxe a
felicidade, que me ressuscitou, vou beijá-la dos dois
lados... assim, assim!
Beijou três vezes, como que arrebatada, a mão
verdadeiramente encantadora, talvez demasiado
rechonchuda, de Grúchenhka. Esta, com um riso
nervoso e sonoro, consentia na carícia; mirava a
"cara senhorita" e tinha prazer com aquilo... "Ela
talvez se exalte demasiado", pensou Aliócha. Corou,
seu coração não estava tranquilo.
— Quer fazer-me
corar, cara senhorita, beijando assim minha mão
diante de Alieksiéi Fiódorovitch.
— Mas foi minha intenção fazê-la corar? — proferiu
Catarina Ivânovna um pouco admirada. — Ah! minha
cara, como me compreende mal!
— Mas talvez não me compreenda tampouco, cara
senhorita. Sou talvez pior do que pareço. Tenho
coração mau, sou caprichosa. Foi somente para
zombar do pobre Dimítri Fiódorovitch que o
conquistei.
— Mas agora você o salvará, prometeu-o.
Far-lhe-á compreender, revelar-lhe-á que desde
muito tempo ama outro pronto a desposá-la...
— Mas não, não lhe prometi nada de semelhante. Foi
você quem
disse tudo isso e não eu.
— Compreendi-a mal então — declarou Catarina
Ivânovna, que baixou a voz e empalideceu
ligeiramente. — Você prometeu...
— Ah! não,
angélica senhorita, não lhe prometi nada —
interrompeu-a Grúchenhka, com a mesma
expressão alegre, tranquila, inocente. — Veja, digna
senhorita, como sou má e voluntariosa. O que me
agrada, faço-o; ainda há pouco talvez lhe haja feito
uma promessa, e agora digo a mim mesma: se Mítia
viesse a agradar-me de novo, porque já um vez me
agradou quase uma hora, talvez vá dizer-lhe que
fique morando comigo a partir de hoje... Veja como
sou inconstante...
— Ainda há pouco falava você de
maneira totalmente diversa... — murmurou Catarina
Ivânovna.
— Sim, ainda há pouco! Mas tenho o coração terno,
sou tola! Basta pensar em tudo quanto ele sofreu
por mim; se, de volta para minha casa, tiver piedade
dele, que acontecerá?
— Eu não esperava...
— Oh! senhorita, quanto é boa e nobre comparada
comigo! E talvez, agora, vai deixar de amar-me
vendo meu caráter. Dê-me sua bonita mão, angélica
senhorita — pediu ela, tomando com respeito a mão
de Catarina Ivânovna. — Vou beijar sua mão, cara
senhorita, como fez você à minha. Deu-me três
beijos, deveria dar-lhe bem uns trezentos para ficar
quite. Assim será, e depois, seja o que Deus quiser:
talvez seja sua escrava e haverei de querer
comprazê-la em tudo quanto Deus queira, sem
convenção alguma nem promessas. Dê-me sua mão,
sua linda mão, cara senhorita, bela entre todas!
Levou docemente aquela mão a seus lábios, com o
fito estranho de "saldar a conta" dos beijos
recebidos. Catarina Ivânovna não retirou sua mão.
Havia escutado com tímida esperança a derradeira
promessa de Gruchenhka, por mais estranhamente
expressa que tivesse sido, de "comprazê-la em
tudo"; olhava-a com ansiedade bem dentro dos
olhos; via ali a mesma expressão ingênua e
confiante, a mesma jovialidade serena... "Ela é
talvez demasiado ingênua!", disse a si mesma
Catarina Ivânovna, num clarão de esperança.
Entretanto Gruchenhka, encantada com aquela
"linda mãozinha", levava-a lentamente aos lábios. Ia
quase tocar-lhe quando a reteve para refletir.
— Sabe, meu anjo — disse ela, arrastadamente, com
sua voz mais
melíflua —, feitas as contas, não lhe beijarei a mão.
— e soltou uma risadinha alegre.
— Como queira... Que tem? — estremeceu Catarina
Ivânovna.
— Lembre-se disso: você beijou minha
mão, mas eu não beijei a sua.
Um clarão brilhou nos
seus olhos. Fitava com obstinação Catarina
Ivânovna.
— Insolente! — exclamou esta, que começava a
compreender.
Levantou-se vivamente, tomada de
cólera. Sem se apressar, Gruchenhka fez o mesmo.
— Vou contar a Mítia que você beijou minha mão,
mas que eu não quis beijar a sua. Isto vai fazê-lo rir.
— Fora daqui, canalha!
— Ah! que vergonha! É indecente de sua parte
empregar tais pala- vras, cara senhorita.
— Fora daqui, fêmea vendida! — vociferou Catarina
Ivânovna. Todo o seu rosto convulsionado tremia. — Vendida, seja. Você mesma, mocinha, saía à noite
à busca de dinheiro entre rapazes, traficando seus
encantos; sei de tudo.
Catarina Ivânovna lançou um
grito, quis atirar-se contra ela, mas Aliócha reteve-a
com todas as suas forças.
— Não se mova, nem uma
palavra! Não lhe responda, ela partirá agora mesmo!
As duas parentas de Catarina Ivânovna e a
arrumadeira acorreram ao seu grito. Precipitaram-se
para ela.
— Está bem! Vou-me embora — declarou
Gruchenhka, tomando sua mantilha de cima do diva.
— Aliócha, meu bem, acompanha-me!
— Vá-se o
mais depressa possível — implorou Aliócha, de mãos
juntas.
— Aliócha querido, acompanha-me. De caminho, dir-te-ei uma palavra, algo de muito gentil! Foi por ti,
Aliócha, que representei essa cena. Vem, meu caro,
não lamentarás ter vindo.
Aliócha voltou-se, torcendo as mãos. Gruchenhka
saiu rindo, sonoramente.
Catarina Ivânovna teve um ataque de nervos;
soluçava,
espasmos sufocavam-na. Todos se
mostravam solícitos em torno dela.
— Eu a havia
prevenido — disse-lhe a mais velha das tias — e
desaconselhado tal passo... você é demasiado viva...
pode-se arriscar tal coisa? Você não conhece essas
criaturas e dizem dessa que é a pior de todas... Você
só faz o que lhe dá na cabeça!
— É uma teoriza! —
vociferou Catarina Ivânovna. — Por que me reteve,
Alieksiéi Fiódorovitch? Ter-lhe-ia batido, batido...
Estava incapaz de conter-me diante de Alieksiéi,
talvez mesmo não o quisesse.
— Merecia ser chicoteada em público, pela mão do
carrasco.
Alieksiéi aproximou-se da porta.
— Oh! meu Deus! — exclamou Catarina Ivânovna,
juntando as mãos. — Mas ele! Pôde ser tão desleal,
tão inumano?! Por que foi ele que contou àquela
criatura o que se passou naquele dia fatal e para
sempre maldito! "Você ia traficar seus encantos,
cara senhorita!" Ela sabe! Seu irmão é um canalha,
Alieksiéi Fiódorovitch! - Aliócha quis dizer alguma
coisa, mas não encontrou uma palavra sequer; seu
coração cerrava-se a ponto de doer-lhe. — Vá-se
embora, Alieksiéi Fiódorovitch! Tenho vergonha, é
horrível! Amanhã... Rogo-lhe, de joelhos, venha
amanhã. Não me julgue, perdoe- me, não sei de que
sou capaz!
Aliócha saiu cambaleante. Teria querido também
chorar; de repente a criada alcançou-o.
— A senhorita esqueceu-se de entregar-lhe esta
carta da Senhora Khokhlakova; estava com ela
desde o jantar.
Aliócha pegou o pequeno envelope
cor-de-rosa e meteu-o quase inconscientemente no
bolso.
continua na página 219...
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Leia também:
Livro 1
Livro 2
Livro 3
IV. Confissão de um coração ardente - anedotas / V. Confissão de um coração ardente e desbocado / VI. Smierdiákov /
VII. Uma controvérsia / VIII. Saboreando o conhaque / IX. Os sensuais / X. Os dois juntos / XI. Outra reputação perdida /
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Leia também:
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Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.
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