terça-feira, 15 de setembro de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Ordem. Cavalo. Flecha.

Elias Canetti

A ORDEM

     Ordem. Cavalo. Flecha.

          Na história dos mongóis chama a atenção a estrita e original relação existente entre ordem, cavalo e flecha. Nesta relação podemos ver a razão principal do aumento súbito e repentino do poder deles. Uma análise desta relação é indispensável e será tentada aqui em rápidas palavras.
     A ordem, como sabemos, deriva biologicamente da ordem de fuga. O cavalo — como todos os demais animais ungulados que se assemelham a ele — foi adaptado durante toda sua história a esta fuga; seria possível até mesmo afirmar que sua própria finalidade era a fuga. Ele sempre viveu em manadas e estas manadas estavam acostumadas a fugir em conjunto. A ordem para isto lhes era dada pelos perigosos animais de presas que pretendiam tirar-lhes a vida. A fuga de massa passou a ser uma de suas experiências mais frequentes e como que uma característica natural dos cavalos. Quando o perigo passa, ou quando eles acreditam que o perigo tenha passado, retomam sua despreocupada vida gregária, onde cada um faz o que lhe agrada.
     O homem que se apoderou do cavalo, que o domesticou, forma uma nova unidade com ele. O mesmo homem aprendeu uma série de procedimentos que podem ser considerados como ordens. Alguns destes procedimentos são constituídos por sons; em sua maioria, porém, são formados por movimentos bastante determinados de pressão e de tração que transmitem ao cavalo a vontade do cavaleiro. O cavalo compreende os impulsos da vontade do cavaleiro e obedece a eles. Entre os povos de cavaleiros, o cavalo é tão necessário e tão familiar ao seu senhor que se formou entre eles uma relação inteiramente pessoal, uma submissão de uma intimidade que não é possível normalmente.
     A distância física que normalmente existe entre quem manda e quem obedece, e também entre o dono e o seu cachorro, por exemplo, deixa de existir neste caso. É o corpo do cavaleiro que transmite as indicações ao corpo do cavalo. O espaço de comando reduz-se a um mínimo. Os aspectos distantes, estranhos, vagos, que pertencem ao caráter original da ordem, desaparecem. A ordem neste caso é domesticada de maneira muito especial; um novo agente se introduziu na história das relações entre as criaturas: a cavalgadura; o servidor sobre o qual o dono se assenta, o servidor que está exposto ao peso físico do dono e que cede a cada pressão do seu corpo.
     Como repercute esta relação com o cavalo sobre o exer cício de comando do cavaleiro? É preciso notar, em primeiro lugar, que o cavaleiro tem a possibilidade de transmitir ao seu cavalo as ordens que recebe de um superior. A meta que lhe é fixada, ele não a alcança correndo pessoalmente em sua direção; ele transmite ao seu cavalo a ordem de chegar até lá. Uma vez que isto ocorre de imediato, ele não mantém em si o aguilhão desta ordem. Ele evita isso pela transmissão da ordem ao seu cavalo. A limitação específica de liberdade que esta ordem lhe teria ocasionado escapa-lhe antes mesmo de ele ter a oportunidade de senti-la de fato. Quanto mais rapidamente ele realiza seu encargo, quanto mais depressa montar, quanto mais depressa cavalgar, tanto menor será o aguilhão que irá permanecer nele. A arte propriamente dita destes cavaleiros, quando reveste o caráter militar, consiste no fato de eles serem capazes de adestrar uma massa muito maior de receptores de ordens, aos quais transmitem sem demora tudo o que eles próprios receberam de cima.
     A organização militar dos mongóis possuía uma disciplina especialmente rígida. Aos povos que eles atacaram e que foram forçados à submissão, e que tinham oportunidade de observá-los mais detalhadamente, esta disciplina parecia ser o que de mais surpreendente e severo jamais tinham visto. Fossem eles persas, árabes ou chineses, russos, húngaros ou os monges franciscanos que chegaram até lá como embaixadores do papa, a todos era igualmente incompreensível que seres humanos pudessem obedecer de maneira tão incondicional. Esta disciplina era suportada com facilidade pelos mongóis (ou tártaros, como frequentemente eram chamados) porque a parte deste povo que realmente arcava com o peso principal eram os cavalos.
     Crianças pequenas de dois ou três anos de idade já eram colocadas sobre o dorso de um cavalo para aprenderem a montar. Já mencionamos que, na primeira fase da educação de uma criança, ela é literalmente crivada de aguilhões-ordens. Principalmente pela mãe, desde muito cedo e de muito perto, mas também pelo pai, mais tarde e a uma distância maior, e por qualquer pessoa encarregada de sua educação. Na prática, qual quer pessoa adulta ou de idade maior que esteja em contato com a criança não se cansa de sobrecarregá-la com determinações, ordens e proibições. Desde cedo vão se acumulando na criança todos os tipos de aguilhões; são eles que se transformarão posteriormente nas coerções e coações de sua vida, forçando-a a procurar outras criaturas nas quais possa desfazer-se dos seus aguilhões. Sua existência se transforma numa aventura de procurar livrar-se desses aguilhões, sem saber por que comete esta ou aquela ação inexplicável, por que estabelece esta ou aquela relação aparentemente absurda.
     A criança mongol que aprende a cavalgar tão cedo tem portanto, em comparação às crianças de culturas sedentárias e superiores, uma liberdade de tipo muito particular. Assim que ela passa a entender de cavalos, pode transmitir a estes tudo o que lhe for ordenado. Desde muito cedo esta criança se livra dos aguilhões que — em medida muito menor — também pertencem à sua educação. O cavalo faz o que a criança deseja, muito antes que o faça qualquer outra pessoa. Essa criança se habitua a tal obediência, e assim vive mais aliviada; mais tarde, porém, exigirá da pessoa por ela subjugada o mesmo tipo de comportamento, ou seja, uma submissão física de natureza absoluta.
     A esta relação — de importância decisiva para o exercício do comando — entre o homem e o cavalo, acrescenta-se em segundo lugar para os mongóis o significado da flecha. Ela é a réplica exata da ordem primordial, não domesticada.
     A flecha é hostil, sua finalidade é matar. Ela atravessa em linha reta uma grande distância. É preciso esquivar-se dela. Quem não o consegue, perece; a flecha fica cravada nele. É possível extraí-la mas, mesmo que ela não se quebre, sempre deixa uma ferida. (Existem alguns relatos a respeito de feri mentos causados por flechas na História Secreta dos Mongóis.) O número de flechas que se pode disparar é ilimitado; a flecha é a arma principal dos mongóis. Elas matam à distância; mas também matam em movimento, a partir do dorso de um cavalo.
     Já observamos que toda ordem, desde sua origem biológica, leva acoplada uma sentença de morte. Quem não foge é atingido. Quem é atingido é destroçado.
     Entre os mongóis a ordem manteve o seu caráter de sentença de morte em grau muito mais elevado. Eles matam homens como se fossem animais. Matar é sua terceira natureza, do mesma forma que cavalgar é a segunda.
     Suas matanças de seres humanos se assemelham muito às suas caçadas de animais. Quando não estão em guerra, vão à caça; suas manobras são as caçadas. Eles devem ter ficado altamente assombrados quando, no decorrer de suas vastas expedições de conquistas, encontraram budistas e cristãos, cujos sacerdotes lhes falavam a respeito do valor especial de toda espécie de vida. Um contraste maior dificilmente pode ter existido: os mestres da ordem pura, que a encarnam por instinto, se encontram com aqueles que por meio de sua religião a querem enfraquecer ou modificar a ponto de perder suas características letais, transformando-a em algo humano.

continua na página 179...
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?

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