A ORDEM
Ordem. Cavalo. Flecha.
Na história dos mongóis chama a atenção a estrita e original
relação existente entre ordem, cavalo e flecha. Nesta relação
podemos ver a razão principal do aumento súbito e repentino
do poder deles. Uma análise desta relação é indispensável e
será tentada aqui em rápidas palavras.
A ordem, como sabemos, deriva biologicamente da ordem
de fuga. O cavalo — como todos os demais animais ungulados
que se assemelham a ele — foi adaptado durante toda sua história a esta fuga; seria possível até mesmo afirmar que sua própria finalidade era a fuga. Ele sempre viveu em manadas e estas
manadas estavam acostumadas a fugir em conjunto. A ordem
para isto lhes era dada pelos perigosos animais de presas que
pretendiam tirar-lhes a vida. A fuga de massa passou a ser
uma de suas experiências mais frequentes e como que uma
característica natural dos cavalos. Quando o perigo passa, ou
quando eles acreditam que o perigo tenha passado, retomam
sua despreocupada vida gregária, onde cada um faz o que lhe
agrada.
O homem que se apoderou do cavalo, que o domesticou,
forma uma nova unidade com ele. O mesmo homem aprendeu
uma série de procedimentos que podem ser considerados como
ordens. Alguns destes procedimentos são constituídos por sons;
em sua maioria, porém, são formados por movimentos bastante
determinados de pressão e de tração que transmitem ao cavalo a vontade do cavaleiro. O cavalo compreende os impulsos
da vontade do cavaleiro e obedece a eles. Entre os povos de
cavaleiros, o cavalo é tão necessário e tão familiar ao seu senhor que se formou entre eles uma relação inteiramente pessoal, uma submissão de uma intimidade que não é possível
normalmente.
A distância física que normalmente existe entre quem manda e quem obedece, e também entre o dono e o seu cachorro, por exemplo, deixa de existir neste caso. É o corpo do
cavaleiro que transmite as indicações ao corpo do cavalo. O
espaço de comando reduz-se a um mínimo. Os aspectos distantes, estranhos, vagos, que pertencem ao caráter original da
ordem, desaparecem. A ordem neste caso é domesticada de
maneira muito especial; um novo agente se introduziu na
história das relações entre as criaturas: a cavalgadura; o servidor sobre o qual o dono se assenta, o servidor que está
exposto ao peso físico do dono e que cede a cada pressão do
seu corpo. Como repercute esta relação com o cavalo sobre o exer
cício de comando do cavaleiro? É preciso notar, em primeiro
lugar, que o cavaleiro tem a possibilidade de transmitir ao seu
cavalo as ordens que recebe de um superior. A meta que lhe
é fixada, ele não a alcança correndo pessoalmente em sua
direção; ele transmite ao seu cavalo a ordem de chegar até lá.
Uma vez que isto ocorre de imediato, ele não mantém em si
o aguilhão desta ordem. Ele evita isso pela transmissão da
ordem ao seu cavalo. A limitação específica de liberdade que
esta ordem lhe teria ocasionado escapa-lhe antes mesmo de ele
ter a oportunidade de senti-la de fato. Quanto mais rapidamente
ele realiza seu encargo, quanto mais depressa montar, quanto
mais depressa cavalgar, tanto menor será o aguilhão que irá
permanecer nele. A arte propriamente dita destes cavaleiros,
quando reveste o caráter militar, consiste no fato de eles serem
capazes de adestrar uma massa muito maior de receptores de
ordens, aos quais transmitem sem demora tudo o que eles próprios receberam de cima.
A organização militar dos mongóis possuía uma disciplina especialmente rígida. Aos povos que eles atacaram e que foram forçados à submissão, e que tinham oportunidade de observá-los mais detalhadamente, esta disciplina parecia ser o que de mais surpreendente e severo jamais tinham visto. Fossem eles persas, árabes ou chineses, russos, húngaros ou os monges franciscanos que chegaram até lá como embaixadores do papa, a todos era igualmente incompreensível que seres humanos pudessem obedecer de maneira tão incondicional. Esta disciplina era suportada com facilidade pelos mongóis (ou tártaros, como frequentemente eram chamados) porque a parte deste povo que realmente arcava com o peso principal eram os cavalos.
A organização militar dos mongóis possuía uma disciplina especialmente rígida. Aos povos que eles atacaram e que foram forçados à submissão, e que tinham oportunidade de observá-los mais detalhadamente, esta disciplina parecia ser o que de mais surpreendente e severo jamais tinham visto. Fossem eles persas, árabes ou chineses, russos, húngaros ou os monges franciscanos que chegaram até lá como embaixadores do papa, a todos era igualmente incompreensível que seres humanos pudessem obedecer de maneira tão incondicional. Esta disciplina era suportada com facilidade pelos mongóis (ou tártaros, como frequentemente eram chamados) porque a parte deste povo que realmente arcava com o peso principal eram os cavalos.
Crianças pequenas de dois ou três anos de idade já eram
colocadas sobre o dorso de um cavalo para aprenderem a montar. Já mencionamos que, na primeira fase da educação de uma
criança, ela é literalmente crivada de aguilhões-ordens. Principalmente pela mãe, desde muito cedo e de muito perto, mas
também pelo pai, mais tarde e a uma distância maior, e por
qualquer pessoa encarregada de sua educação. Na prática, qual
quer pessoa adulta ou de idade maior que esteja em contato
com a criança não se cansa de sobrecarregá-la com determinações, ordens e proibições. Desde cedo vão se acumulando na
criança todos os tipos de aguilhões; são eles que se transformarão posteriormente nas coerções e coações de sua vida, forçando-a a procurar outras criaturas nas quais possa desfazer-se
dos seus aguilhões. Sua existência se transforma numa aventura de procurar livrar-se desses aguilhões, sem saber por que
comete esta ou aquela ação inexplicável, por que estabelece esta
ou aquela relação aparentemente absurda.
A criança mongol que aprende a cavalgar tão cedo tem
portanto, em comparação às crianças de culturas sedentárias e
superiores, uma liberdade de tipo muito particular. Assim que
ela passa a entender de cavalos, pode transmitir a estes tudo
o que lhe for ordenado. Desde muito cedo esta criança se livra
dos aguilhões que — em medida muito menor — também
pertencem à sua educação. O cavalo faz o que a criança deseja,
muito antes que o faça qualquer outra pessoa. Essa criança se
habitua a tal obediência, e assim vive mais aliviada; mais
tarde, porém, exigirá da pessoa por ela subjugada o mesmo
tipo de comportamento, ou seja, uma submissão física de natureza absoluta.
A esta relação — de importância decisiva para o exercício do comando — entre o homem e o cavalo, acrescenta-se em segundo lugar para os mongóis o significado da flecha. Ela é a réplica exata da ordem primordial, não domesticada.
A esta relação — de importância decisiva para o exercício do comando — entre o homem e o cavalo, acrescenta-se em segundo lugar para os mongóis o significado da flecha. Ela é a réplica exata da ordem primordial, não domesticada.
A flecha é hostil, sua finalidade é matar. Ela atravessa em linha reta uma grande distância. É preciso esquivar-se dela.
Quem não o consegue, perece; a flecha fica cravada nele. É
possível extraí-la mas, mesmo que ela não se quebre, sempre
deixa uma ferida. (Existem alguns relatos a respeito de feri
mentos causados por flechas na História Secreta dos Mongóis.)
O número de flechas que se pode disparar é ilimitado; a flecha
é a arma principal dos mongóis. Elas matam à distância; mas também matam em movimento, a partir do dorso de um cavalo.
Já observamos que toda ordem, desde sua origem biológica, leva acoplada uma sentença de morte. Quem não foge é
atingido. Quem é atingido é destroçado.
Entre os mongóis a ordem manteve o seu caráter de sentença de morte em grau muito mais elevado. Eles matam homens como se fossem animais. Matar é sua terceira natureza, do mesma forma que cavalgar é a segunda.
Entre os mongóis a ordem manteve o seu caráter de sentença de morte em grau muito mais elevado. Eles matam homens como se fossem animais. Matar é sua terceira natureza, do mesma forma que cavalgar é a segunda.
Suas matanças de seres humanos se assemelham muito às
suas caçadas de animais. Quando não estão em guerra, vão à
caça; suas manobras são as caçadas. Eles devem ter ficado
altamente assombrados quando, no decorrer de suas vastas
expedições de conquistas, encontraram budistas e cristãos, cujos
sacerdotes lhes falavam a respeito do valor especial de toda
espécie de vida. Um contraste maior dificilmente pode ter
existido: os mestres da ordem pura, que a encarnam por
instinto, se encontram com aqueles que por meio de sua religião a querem enfraquecer ou modificar a ponto de perder
suas características letais, transformando-a em algo humano.
continua na página 179...
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Leia também:
Massa e Poder - A Ordem: Ordem. Cavalo. Flecha.
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."
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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?
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