sábado, 19 de setembro de 2026

Ilíada: Homero (Canto VI.a - O encontro de Heitor com Andrômaca)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto VI - O encontro de Heitor com Andrômaca
 
“O exército Troiano começa a se curvar diante das forças Gregas. Heitor vai, pelo conselho de Heleno, pedir à sua mãe que invoque a proteção de Atena para que ela retire Diomedes da guerra. Diomedes encontra-se com Glauco, e reconhecem que são descendentes de famílias amigas. Os heróis trocam armas. As mulheres Troianas seguem em procissão até o Templo de Palas Atena. Heitor exorta Páris a retornar ao combate, e procura, então, sua esposa, Andrômaca, e a encontra perto das Portas Ceias.”

   Ficam sozinhos na luta os Troianos e os Dânaos grevados, 
recrudescendo na vasta planície a terrível batalha. 
Uns contra os outros, as lanças de bronze os guerreiros atiram, 
entre a corrente do Xanto divino e do belo Simoente. 
   Primeiramente, o baluarte dos Gregos, Ajaz Telamônio, 
rompe a falange dos Troas, abrindo uma luz para os sócios,
com derrubar o melhor dos guerreiros chegados da Trácia, 
o destemido e membrudo Acamante, nascido de Eussoro. 
Na crista do elmo ondulante certeira pancada lhe assesta,

indo encravar-se na testa do herói a hasta longa de bronze, 
atravessando-lhe os ossos; as trevas os olhos lhe envolvem. 
Mata Diomedes, de voz retumbante, o admirável Axilo, 
filho do forte Teutrante, que tinha em Arisbe a morada 
bem-construída e opulenta; por todos era ele estimado, 
pois para todos sua casa, na beira da estrada, era franca. 
Mas nenhum desses amigos lhe veio servir de anteparo, 
para livrá-lo da Morte; Diomedes a vida tirou-lhe 
e ao próprio pajem Calésio que, então, dirigia os cavalos,
na qualidade de auriga; ambos eles à terra baixaram.

Priva das armas brilhantes Euríalo a dois, Dreso e Oféltio, 
indo, depois, contra Pédaso e Esepo que, outrora, uma náiade, 
Abarbareia, gerou do formoso pastor Bucolionte, 
de Laomedonte divino o mais velho dos filhos, embora 
de nascimento sem brilho, provindo de amores furtivos. 
Quando cuidava das belas ovelhas, à náiade uniu-se, 
de quem, ali concebidos, dois gêmeos famosos nasceram. 
Mas o vigor lhes dissolve dos joelhos e membros o filho 
de Mecisteu, que dos ombros as armas, também, lhes retira. 
A morte a Astíalo deu Polipetes, guerreiro ardoroso;

com sua lança de bronze Odisseu tira a vida a Pedites, 
nado em Percote; Aretáone divo por Teucro foi morto; 
foi pela lança brilhante de Antíloco, o moço Nestórida, 
Áblero morto; Agamémnone a Elato, também, prostra exânime 
o qual em Pédaso excelsa morava, nas margens do rio 
Sátnio, de bela corrente, ao fugir, foi por Lito alcançado 
Fílaco; as armas Eurípilo toma do escuro Melântio. 
   Por Menelau gritador foi Adrasto com vida apanhado; 
desobedientes ao freio, corriam no plaino os cavalos, 
os quais levaram o carro recurvo a chocar contra um galho

de tamargueira, o que fez que o timão se partisse; assustados, 
para a cidade os cavalos retornam, no rasto dos outros. 
Cai o guerreiro de bruços, bem junto da roda do carro, 
indo de boca no chão; logo perto se achou dele o louro 
filho de Atreu, Menelau, com sua lança de sombra comprida. 
Passa-lhe os braços à volta dos joelhos Adrasto e suplica: 
   “Ó Menelau, não me mates; aceita resgate condigno. 
Em seu palácio, meu pai acumula preciosos tesouros, 
bem trabalhados objetos de ferro, e ouro e bronze abundantes. 
Meu genitor te dará, de boamente, um resgate elevado,

quando souber que me encontro com vida nas naus dos Aquivos.”¹
   Isso disse ele, abalando, sem dúvida, o peito do Atrida, 
que já inclinado se achava a entregá-lo a um dos servos, que o fosse 
para os navios velozes levar, quando o Atrida Agamémnone 
chega, apressado, e o impediu, com dizer-lhe, em voz alta, o seguinte: 
   “Ó Menelau compassivo, por que para os homens te mostras 
tão sem vigor? Belas coisas, de fato, em tua casa fizeram 
esses Troianos! Por isso da Morte escapar não deixemos 
quantos às mãos nos caírem, sendo homens, embora ainda se achem 
no próprio ventre materno. Que todos pereçam bem longe

de Ílio destruída, sem túmulo algum, nem memória, deixarem.” 
   Essas palavras do herói, de fatais e prudentes conceitos, f
azem que o peito mudasse do irmão, que, com o braço, repele 
o suplicante. Este foi pelo forte guerreiro Agamémnone 
no baixo-ventre ferido, caindo de costas; o Atrida 
sobe-lhe em cima do peito, arrancando a hasta longa de freixo. 
   Em altas vozes Nestor os guerreiros Argivos exorta: 
“Dânaos guerreiros, amigos diletos, discípulos de Ares! 
Nenhum se deixe ficar para trás, tendo em vista, somente, 
presas valiosas levar para as naves de casco anegrado.

Ora, inimigos maternos; depois, com vagar, na planície 
procurareis os cadáveres, para das armas despi-los.” 
   Por esse modo incitava o furor e a coragem de todos. 
E, porventura, os Troianos teriam para Ílio fugido, 
sob a pressão dos Acaios valentes, em franco desânimo, 
se para Eneias e Heitor não tivesse falado nesta hora 
o nobre filho de Príamo, Heleno, excelente adivinho: 
   “Em vós, Eneias e Heitor, os Troianos e os Lícios confiam 
os mais pesados trabalhos da guerra, por terdes em tudo 
a iniciativa, não só nos combates, também nos conselhos.

Ora, detende-vos para correr as fileiras e os nossos 
homens conter ante as portas, se não todos eles aos braços 
se atirarão das mulheres, objetos de mofa do imigo. 
Mas, uma vez as falanges em ordem, de novo, e inflamadas, 
procuraremos, também, contra os Dânaos lutar aqui mesmo, 
ainda que muito cansados, que o aperto é, de fato, imperioso. 
Para a cidade, depois, Heitor corre, e instruções leva logo 
à nossa mãe, que, sem perda de tempo, as matronas reúna 
no alto da rocha, onde o templo se encontra de Palas Atena. 
Pós ter franqueado com a chave o recesso sagrado do templo,

tome no manto maior que na régia bem-feita se encontra, 
o de mais fino lavor e que ao peito mais caro lhe seja, 
e sobre os joelhos de Atena, de belos cabelos, deponha. 
Mais: doze vacas prometa imolar no interior do santuário 
ainda indomadas, apenas de um ano, sendo ela benigna 
para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos, 
longe mantendo dos muros sagrados de Troia o Tidida, 
suscitador poderoso do Medo, selvagem guerreiro, 
o qual, afirmou-o, é o mais forte de todos os homens Acaios. 
Tanto pavor nem de Aquiles sentimos, senhor de guerreiros,

filho, segundo se diz, de uma deusa. Porém tanta é a fúria 
deste, que fora estultícia a um dos nossos querer enfrentá-lo.” 
   Obedeceu, logo, Heitor ao conselho que Heleno lhe dera. 
Rapidamente do carro pulou, sem que as armas soltasse, 
e, duas lanças brandindo, correu as fileiras do exército, 
a concitar para a luta os guerreiros; a pugna se instaura. 
Voltam agora os Troianos, de novo, a enfrentar aos Aquivos 
que, por sua vez, retrocedem; cessou desse modo a matança. 
Imaginaram que algum dos eternos do Céu se atirara 
para ajudar os Troianos, que insólito ardor manifestam.

Em altos brados Heitor se dirige aos guerreiros Troianos: 
   “Vós, corajosos Troianos e aliados de fama excelente! 
Sede homens, caros amigos, e força mostrai impetuosa, 
enquanto vou à cidade falar aos anciões do conselho 
e a nossas caras esposas, que preces aos deuses elevem, 
a todos eles perfeita hecatombe ofertar prometendo.” 
   Tendo assim dito, afastou-se, a agitar o penacho do casco. 
Nos calcanhares e no alto da nuca o debrum lhe batia, 
de couro preto, que à volta se achava do escudo de umbigo. 
   Glauco, nascido de Hipóloco, e o grande e valente Tidida,

cheios de ardor, se avistaram no meio do teatro da luta, 
e, caminhando um para o outro, afinal frente a frente ficaram. 
Disse Diomedes, de voz retumbante, falando primeiro: 
“Homem de grande valor, de que estirpe mortal te originas? 
Ainda não tive ocasião de te ver nas batalhas, que aos homens 
glória concedem; no entanto, os demais, em coragem, superas, 
pois vens, agora, enfrentar a minha lança de sombra comprida. 
Os que se medem comigo são filhos de pais sem ventura. 
Mas, se um dos deuses tu fores, que moram no Olimpo vastíssimo, 
sabe que contra os eternos não quero em combate medir-me.

Nem mesmo o filho de Driante, Licurgo valente, mui longa 
vida alcançou, por haver contra os deuses celestes lutado. 
Ébrio, uma vez, de Dioniso ele as amas, violento, repele 
do sacro monte de Nisa. Tomadas de medo indizível, 
quando o homicida Licurgo, contra elas, brandiu a aguilhada, 
os tirsos jogam no chão. Aterrado, nas ondas marinhas 
corre Dioniso a lançar-se, onde, trêmulo, Tétis ao seio 
o recolheu, que assaz medo sentia do herói com seus gritos. 
Mas, depois disso, contra ele irritaram-se os deuses felizes, t
endo-o cegado Zeus Crônida. A vida bem curta ele teve,

por se ter feito odioso aos eternos que moram no Olimpo. 
Por isso tudo, não quero lutar contra os deuses beatos. 
Mas se, contrário, és humano e te nutres dos frutos da terra, 
chega-te, e logo hás de ver-te, por certo, no extremo funesto.” 
   Disse-lhe, então, em resposta o preclaro rebento de Hipóloco: 
“Grande Tidida, por que saber queres a minha ascendência? 
As gerações dos mortais assemelham-se às folhas das árvores, 
que, umas, os ventos atiram no solo, sem vida; outras, brotam 
na primavera, de novo, por toda a floresta viçosa. 
Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira.

Já que desejas, porém, conhecer meus avós, vou dizer-te 
qual seja a minha progênie, por muitos, decerto, sabida. 
No centro de Argos, nutriz de cavalos, os muros se elevam 
de Éfira, sob o comando do mais astucioso dos homens, 
Sísifo, de Éolo filho; de Sísifo Glauco proveio. 
Belerofonte, o admirável, de Glauco a existência recebe. 
Deram-lhe os deuses beleza e vigor varonil aliado 
a gênio afável. Mas Preto, insidioso, da pátria o repele, 
pois tinha mais influência do que ele entre os homens Argivos, 
por os haver submetido ao seu cetro o nascido de Crono.

A diva Anteia, consorte de Preto, em desejos ardia 
de, às escondidas, unir-se-lhe, sem ter, contudo, abalado 
Belerofonte prudente, de castos e leais pensamentos. 
Vira-se, então, para o esposo, e, falseando a verdade, lhe disse: 
‘Ou tira a vida de Belerofonte, ou consente em morreres. 
Preto, por ter querido ele obrigar-me a um ilícito amplexo.’ 
A essas palavras, o rei foi tomado de cólera ingente. 
Não quis da vida privá-lo, por ter, em verdade, receio; 
mas para a Lícia o enviou, tendo escrito uns sinais mui funestos 
em duas tábuas fechadas, que ao sogro mandou que entregasse,

para que viesse a morrer, visto morte os sinais inculcarem. 
Em companhia dos deuses, se pôs a caminho o guerreiro. 
Quando, porém, alcançou a corrente do Xanto, na Lícia, 
foi pelo rei do amplo reino, por modo benigno, acolhido. 
Em nove dias matou nove bois, que aos celestes oferta: 
mas, quando, ao décimo, a Aurora de dedos de rosa surgiu, 
fez-lhe perguntas, de ver os sinais desejoso mostrando-se 
que de seu genro, da parte de Preto, lhe tinha trazido. 
Logo, porém, que o sentido aventou dos fatais caracteres, 
primeiramente, a incumbência lhe deu de extinguir a Quimera

originária, não de homens mortais, mas de estirpe divina: 
era, na frente, leão; drago, atrás, e, no meio, quimera, 
que borbotões horrorosos de fogo lançava das fauces. 
Certo do amparo dos deuses, sozinho, ele o monstro aniquila. 
Teve, depois, de lutar contra os Sólimos fortes, sozinho, 
seu mais terrível encontro, segundo ele próprio o dizia. 
Como terceira incumbência, destruiu as viris Amazonas. 
Outra perfídia contra ele, ao voltar, o hospedeiro excogita: 
tendo escolhido os melhores guerreiros da Lícia vastíssima, 
numa emboscada os postou; não reviu nenhum deles a pátria;

Belerofonte, o impecável, a todos privou da existência. 
Reconhecendo, afinal, que um dos deuses o tinha gerado, 
soube retê-lo no reino, fazendo-o casar com a filha 
e dividindo com ele a honraria e o poder da realeza. 
Deram-lhe os Lícios, também, um pedaço excelente de terra, 
própria, igualmente, para uso do arado e cultivo de frutas. 
Três filhos teve da esposa o magnânimo Belerofonte; 
foram: Hipóloco, Isandro e Laodâmia gentil e formosa. 
A esta se uniu, em conúbio amoroso, Zeus grande e prudente, 
tendo gerado ao guerreiro esforçado, o divino Sarpédone.

Mas, quando, alfim, se tornara também, pelos deuses, odiado, 
e pelos campos Aleios famosos vagava sozinho, a alma por dentro
a roer e a fugir do convívio dos homens, 
Ares, o deus insaciável, a Isandro privou da existência 
em um combate com os Sólimos fortes, de fama excelente. 
Ártemis, das rédeas de ouro, zangada, matou a Laodâmia. 
Enquanto a mim, tenho orgulho de filho chamar-me de Hipóloco, 
que me mandou para Troia sagrada, insistindo comigo 
para ser sempre o primeiro e de todos os mais distinguir-me, 
sem desonrar a linhagem dos nossos, que sempre entre os fortes

de Éfira foram contados, bem como na Lícia vastíssima. 
Esse o meu sangue, essa a estirpe, que só de nomear me envaideço.” 
   Isso disse ele; alegrou-se Diomedes, de voz retumbante; 
finca a hasta brônzea na terra, de heróis a nutriz generosa, 
e, com palavras afáveis, saudou o pastor de guerreiros: 
   “Hóspede és meu desde o tempo de nossos avós, vejo-o agora. 
Por vinte dias seguidos Eneu, o divino, agasalho 
deu em seu belo palácio ao magnânimo Belerofonte, 
tendo ambos dons hospedais, de subido valor permutado. 
Foi o penhor da amizade de Eneu cinturão purpurino;

Belerofonte lhe deu uma copa, adornada com alça, 
de ouro, que em casa deixei quando tive de vir para Troia. 
Quanto a Tideu, não me lembro, pois era criança quando ele 
foi para Tebas e o exército Acaio ficou destruído. 
Por essa antiga amizade, és meu hóspede em Argos, ao passo 
que me farás grato hospício se um dia eu chegar até a Lícia. 
Cumpre, portanto, que, em meio da pugna, um ao outro poupemos. 
Para matar, não me faltam Troianos excelsos e aliados, quem 
quer que um deus me conceda, ou quem chegue a alcançar na carreira; 
sobram-te Aqueus, outrossim, para a muitos privares da vida.

Ora troquemos as armas, porque possam todos os outros 
reconhecer que nós dois nos gloriamos da avita amizade.”²
   Ambos dos carros desceram, depois de assim terem falado, 
e, logo, apertos de mão, como prova de afeto, trocaram. 
Foi quando o Crônida Zeus o juízo de Glauco conturba, 
por ter querido trocar com Diomedes as armas que tinha, 
ouro por bronze, o valor de cem bois pelo preço de nove. 
   Às Portas Ceias Heitor, entrementes, e à faia chegando, 
pelas esposas e filhas dos Teucros se viu circundado, 
que pelos seus perguntavam, ansiosas, por filhos e manos,

primos e esposos. Heitor recomenda que aos deuses orassem, 
em procissão; mas a muitos já havia a desgraça atingido. 
Logo depois, alcançou o palácio mui belo de Príamo, 
todo ladeado de pórticos feitos de pedras lavradas. 
Nele cinquenta aposentos se viam, de mármore polido, 
todos contíguos, nos quais, numerosos, os filhos de Príamo 
do grato sono fruíam ao lado de suas esposas. 
Do lado oposto do pátio, de frente para estes, havia 
doze aposentos, também, para as filhas, de mármore polido, 
todos contíguos. Os genros de Príamo, ali, do repouso

continua página 180...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto V.d / Canto VI.a / Canto VI.b /                      
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1A cena é um trecho do momento em que Adrasto, um dos troianos, é capturado vivo por Menelau, irmão de Agamêmnon. 
    O que acontece na cena:
Adrasto é derrubado do carro quando seus cavalos, em pânico, chocam o veículo contra um galho de tamargueira. O timão se parte, os animais fogem de volta para a cidade, e o guerreiro cai de bruços no chão, indefeso.
Menelau, o “louro filho de Atreu”, se aproxima com a lança. Adrasto, percebendo que não tem como lutar, agarra os joelhos de Menelau — gesto clássico de súplica na tradição grega — e implora por sua vida.
Ele oferece resgate: seu pai possui grandes riquezas e pagará generosamente se souber que o filho está vivo entre os aqueus.
     Significado literário do episódio:
O gesto de suplicar pelos joelhos é um símbolo forte de submissão e pedido de misericórdia na cultura grega.
- Adrasto tenta escapar da morte apelando ao código de honra dos guerreiros, que muitas vezes aceitavam resgates.
- A cena prepara o conflito moral entre Menelau, inclinado a poupar o suplicante, e Agamêmnon, que logo adiante exigirá que nenhum troiano seja poupado — um dos momentos que mostram a brutalidade crescente da guerra.

[2] Aqui outro momento belíssimo da Ilíada: o encontro entre Diomedes e Glauco, quando dois guerreiros, prestes a lutar, descobrem que seus avós foram hóspedes e amigos — e, por isso, não devem se enfrentar. É um dos episódios mais humanos e simbólicos de todo o poema.
     O sentido da cena: a amizade antiga que suspende a guerra
O trecho pertence ao famoso episódio da xenia — a hospitalidade sagrada entre famílias — que une Diomedes (aqueu) e Glauco (lício). Eles se encontram no campo de batalha, prontos para lutar, mas antes trocam palavras sobre suas origens.
     O que Glauco revela: Glauco conta que seu avô, Belerofonte, foi recebido por Eneu, avô de Diomedes. Durante essa estadia:
- Eneu ofereceu a Belerofonte um cinturão púrpura como presente de hospitalidade.
- Belerofonte retribuiu com uma taça de ouro com alça, que Diomedes diz ter deixado em casa ao partir para Troia.
     Esses presentes eram o selo de uma amizade hereditária, transmitida de geração em geração.
     Glauco conclui:
Por essa antiga amizade, és meu hóspede em 
           Argos, e eu serei teu hóspede na Lícia.”
     Ou seja: mesmo em lados opostos da guerra, eles pertencem a uma mesma rede de respeito e obrigação moral.
     A decisão: não lutar entre si - Glauco propõe que ambos evitem ferir um ao outro no combate, pois há muitos outros inimigos disponíveis. É uma forma de preservar a honra sem quebrar o vínculo ancestral. Ele então sugere o gesto simbólico:
“Ora troquemos as armas, para que todos 
reconheçam que nos gloriamos da avita amizade.”
     Esse ato — trocar armaduras — é um sinal público de que a amizade entre suas casas é mais antiga e mais forte que a guerra presente.
     Por que esse episódio é tão famoso?
1. Humaniza a guerra: mostra que, mesmo em meio à carnificina, há memória, tradição e respeito.
2. Ilustra a força da xenia: um valor sagrado que ultrapassa fronteiras e conflitos.
3. Cria um contraste dramático: dois guerreiros que deveriam se matar escolhem a paz por causa de seus antepassados.
4. Tem um detalhe irônico (que aparece logo depois no poema): Zeus faz Glauco perder o juízo e ele troca sua armadura de ouro pela de bronze de Diomedes — um negócio terrível, lembrado até hoje como símbolo de ingenuidade.

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