sábado, 19 de setembro de 2026

Ilíada: Homero (Canto VI.b - O encontro de Heitor com Andrômaca)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto VI - O encontro de Heitor com Andrômaca
 
“O exército Troiano começa a se curvar diante das forças Gregas. Heitor vai, pelo conselho de Heleno, pedir à sua mãe que invoque a proteção de Atena para que ela retire Diomedes da guerra. Diomedes encontra-se com Glauco, e reconhecem que são descendentes de famílias amigas. Os heróis trocam armas. As mulheres Troianas seguem em procissão até o Templo de Palas Atena. Heitor exorta Páris a retornar ao combate, e procura, então, sua esposa, Andrômaca, e a encontra perto das Portas Ceias.”
continuando...

grato fruíam, ao lado de suas esposas legítimas. 
Foi nessa altura que a mãe amorosa ao encontro lhe veio, 
que acompanhava até a casa a mais bela das filhas, Laódice. 
Toma-lhe a mão e, falando, lhe diz as seguintes palavras: 
   “Filho, a que vens até aqui? Por que causa deixaste o combate? 
Sim, certamente é mui grande a pressão dos malditos Acaios 
contra a cidade sagrada. Por isso, teu peito te trouxe, 
para que do alto da Acrópole a Zeus as mãos ambas alçasses. 
Para, aqui, um pouco, que vinho mais doce que o mel vou buscar-te, 
para que libes a Zeus e às demais divindades eternas, 

e tuas forças restaures, também, pós haveres bebido. 
Tônico é o vinho, excelente, para o homem no extremo das forças, 
tal como te achas, de tanto lutar em defesa da pátria.” 
   Disse-lhe Heitor em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Mãe veneranda, não tragas a doce bebida; receio 
que os fortes braços me enerve, vindo eu a perder toda a força. 
A reverência me impede de vinho ofertar a Zeus grande 
com mãos impuras. É impróprio, assim, sujo de poeira e de sangue, 
preces alçar ao que nuvens cumula no Olimpo vastíssimo. 
Com muito incenso, no entanto, dirige-te ao templo de Palas,

a predadora, depois de as matronas haveres reunido. 
Toma do manto maior que na régia bem-feita encontrares, 
o de mais fino lavor e que ao peito mais caro te seja, 
e sobre os joelhos de Atena o coloca, de belos cabelos. 
Mais: doze vacas promete imolar no interior do santuário, 
ainda indomadas, apenas de um ano, sendo ela benigna 
para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos, 
longe mantendo dos muros sagrados de Troia o Tidida, 
suscitador poderoso do Medo guerreiro selvagem. 
Ao templo, pois, te dirige, de Palas Atena indomável,

enquanto eu vou à procura de Páris, a fim de incitá-lo 
para o combate, se ouvidos me der. Ah, se a terra se abrisse 
subitamente! Um fautor de desgraças nascer fez o Olimpo 
para o magnânimo Príamo, os filhos e o povo Troiano.      
Se concedido me fosse assistir-lhe à descida para o Hades, 
esquecer-se-ia minha alma, por certo, dos males presentes.”¹
Disse; ela, então, para casa voltou, tendo às servas dado ordens 
que as venerandas matronas, por toda a cidade, chamassem. 
Ao aposento flagrante baixou, logo após, onde peplos 
inumeráveis se achavam de grande brancura, tecidos

pelas mulheres Sidônias. O divo Alexandre os trouxera 
da populosa Sidão, justamente no tempo em que Helena, 
de nobilíssimo pai, por caminhos extensos raptara. 
Hécabe um desses tomou para a Palas Atena ofertá-lo, 
o mais bonito e maior, que se achava por baixo de todos, 
de brilho igual ao dos astros e enfeites de fino trabalho. 
Pelas matronas seguida, a caminho se pôs, sem demora. 
Logo que o templo de Atena alcançaram, no burgo elevado, 
Teano formosa, nascida do claro Cisseu, lhe abre as portas, 
filha e consorte do forte Antenor, domador de cavalos.

Sacerdotisa a elegeram, de Palas Atena, os Troianos. 
Todas a Palas elevam as mãos e, bradando, suplicam. 
Tendo tomado do peplo, Teano, de faces formosas, 
foi colocá-lo nos joelhos de Atena, de belos cabelos, 
e, em prece ardente, implorou à nascida de Zeus poderoso: 
   “Ó venerável Atena, defesa de nossa cidade, 
quebra do forte Diomedes a lança, ou o derruba tu própria 
das Portas Ceias em frente, de bruços no solo fecundo, 
que doze vacas ao templo, sem mora, viremos trazer-te, 
ainda indomadas, apenas de um ano, se fores benigna

para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos!” 
   Não foi a súplica, entanto, por Palas Atena acolhida. 
Enquanto à filha de Zeus poderoso elas todas oravam, 
encaminhava-se Heitor ao palácio do divo Alexandre, 
belo de ver, que ele próprio construíra com a ajuda de artífices 
de fama excelsa, os melhores da terra abençoada de Troia. 
Estes, o tálamo e a sala elevaram, e o pátio espaçoso, 
perto dos paços de Príamo e Heitor, no ponto alto da Acrópole. 
Entra o guerreiro, a Zeus caro, no belo palácio, levando 
a forte lança na mão, de onze cúbitos, com reluzente

extremidade de bronze firmada por círculo de ouro. 
Acha a Alexandre no tálamo, atento no exame das armas 
de primorosa feitura, a apalpar o arco forte e brunido. 
A Argiva Helena se achava a seu lado, no meio das servas, 
a dirigir os trabalhos que todas, cuidosas, faziam. 
Vendo-o, com termos violentos, Heitor o censura, dizendo: 
   “Recomendáveis não são, ó infelizes, esses teus sentimentos. 
Fora dos muros, o povo perece na crua peleja. 
Por tua causa, acendeu-se esta guerra, que em volta de Troia 
arde, sem pausa nenhuma. Tu próprio, quiçá, te indignaras,

caso encontrasses alguém que fugisse à defesa da pátria. 
Vamos; se não, logo, logo, há de a chama inimiga atingir-nos.” 
   Páris, de formas divinas, lhe disse, em resposta, o seguinte: 
“É justo, Heitor, o que dizes; contrário à razão não me falas. 
Por isso vou contestar-te, pedindo que ouvido me prestes. 
Certo, não foi achar-me agastado com os Troas, que ao tálamo 
me recolhi, mas por causa da dor que me o peito angustia. 
Neste momento, com doces palavras, a cara consorte 
me aconselhava a voltar para a luta. Eu, também, já pensara 
que é bem melhor desse modo. A vitória tem suas mudanças.

Por uns instantes espera que as armas de guerra eu envergue; 
ou melhor, vai; que em teus passos já sigo, esperando alcançar-te.” 
   Nada lhe disse, em resposta, o guerreiro do casco ondulante. 
Vira-se Helena para esse, com termos afáveis, e fala: 
   “Caro cunhado da pobre que apenas desgraças espalha! 
Fora melhor, bem melhor, que, no dia em que a luz vi do mundo, 
arrebatado me houvesse de casa terrível procela, 
para nos montes lançar-me, ou nas ondas do mar ressoante,
que me teriam tragado, evitando esta grande catástrofe. 
Mas já que os deuses quiseram que tudo, desta arte, se desse,

fosse-me, então, destinado marido melhor, que as censuras 
dos companheiros sentisse e a desonra daí decorrente. 
Este, porém, nunca teve firmeza, nem nunca há de tê-la. 
Por isso mesmo, estou certa, há de os frutos colher dentro em breve. 
Mas entra, um instante sequer, e repousa sobre esta cadeira, 
caro cunhado, que mais do que todos suportas o peso 
das consequências de minha cegueira e da culpa de Páris. 
Triste destino Zeus grande nos deu, para que nos celebrem, 
nas gerações porvindoiras, os cantos excelsos dos vates.” 
   Disse-lhe Heitor, em resposta, o guerreiro do casco ondulante:

 “Não é possível, Helena, aceitar-te o convite amigável, 
pois o meu peito me incita a correr em ajuda dos nossos, 
que já se encontram, por certo, impacientes com a minha demora. 
A este, porém, manda-o logo, ou se apresse, espontâneo, a vestir-se, 
para que possa alcançar-me ainda dentro dos muros de Troia, 
enquanto a casa, de bela feitura, dirijo-me para 
mais uma vez ver os criados, a esposa dileta e o filhinho. 
É, por sem dúvida, incerto se possa voltar a revê-los, 
ou se por mão dos Aquivos os deuses à Morte me entregam.” 
   Tendo assim dito, afastou-se, a agitar o penacho do casco.

 Pouco depois alcançava o palácio de bela feitura; 
mas não achou no interior do aposento a formosa consorte, 
que, juntamente com o filho e uma serva de manto vistoso, 
no alto da torre se fora postar, a chorar aflitíssima. 
Não tendo Heitor no palácio encontrado a impecável Andrômaca, 
para a saída retorna, apressado, e às escravas pergunta: 
   “Toda a verdade, donzelas, dizei-me, sem nada ocultar-me: 
para onde foi a senhora, se dentro de casa não se acha? 
Foi, porventura, em visita às cunhadas de peplos formosos, 
ou, com as outras Troianas, ao templo de Palas Atena,

onde procuram a deusa tremenda aplacar com pedidos?” 
   A despenseira, solícita, disse-lhe, então, em resposta: 
“Já que me mandas, Heitor, informar-te de toda a verdade, 
nem em visita se encontra às cunhadas de peplos formosos, 
nem, com as outras Troianas, no templo de Palas Atena, 
onde procurem a deusa tremenda aplacar com pedidos. 
Foi, sim, à torre altanada, depois de saber que os Troianos 
cedem terreno ante a força maior dos guerreiros Acaios. 
Fora de si, para os muros correu, onde, agora, se encontra, 
como uma louca; o menino pela ama, também, foi levado.”

A essas palavras da serva, Heitor sai, novamente, de casa, 
a desandar o caminho de bela feitura, apressado. 
Quando, depois de correr pela grande cidade, alcançara 
as Portas Ceias, por onde devia passar para o campo, 
sai-lhe ao encontro, a correr, a consorte de dote copioso, 
a nobre filha de Eecião, o guerreiro magnânimo, Andrômaca, 
o grande Eecião, que o palácio construíra no Placo selvoso 
e comandava os Cilícios em Tebas, chamada a Hipoplácia. 
A filha a Heitor, como esposa, entregara, o guerreiro arnesado. 
Esta, ao encontro lhe veio, seguida de uma ama solícita,

a qual nos braços trazia o filhinho de Heitor, ainda infante, 
só comparável à vista inefável de um astro fulgente. 
O nome, Heitor, de Escamândrio, lhe pôs; mas as outras pessoas, 
o de Astianacte, que o pai era o amparo dos muros de Troia. 
Ao ver o filho, o guerreiro sorriu, sem dizer coisa alguma. 
Pôs-se-lhe ao lado a impecável Andrômaca, em pranto desfeita; 
toma-lhe a mão e, falando, lhe diz as seguintes palavras: 
   “Tua coragem te perde, cruel! Não te apiadas, ao menos, 
de teu filhinho inocente, ou de minha desdita, ficando 
cedo viúva de ti quando os feros Aqueus te matarem?

A ti, somente, eles visam. Bem mais vantajoso me fora 
que, antes de vir a perder-te, se abrisse o chão duro. Nenhuma 
outra esperança me resta, colhendo-te o negro Destino. 
Dores, somente; nem pai ora tenho nem mãe veneranda. 
Foi por Aquiles divino meu pai da existência privado, 
quando a cidade imponente dos homens Cilícios destruiu, 
Tebas, de portas muito altas. Aquiles a Eecião tira a vida, 
sem despojá-lo das armas, contudo; a consciência o impediu. 
Tendo-o queimado na pira com as armas de fino trabalho, 
um monumento lhe fez erigir, que as Oréades, logo,

de olmos vistosos cercaram, as filhas de Zeus poderoso. 
Meus sete irmãos, que comigo viviam em nosso palácio, 
em um só dia baixaram para o Hades de aspecto sombrio, 
o divo Aquiles, de rápidos pés, a eles todos deu morte, 
quando guardavam bois tardos e ovelhas de velo argentino. 
A minha mãe, tão somente, senhora do Placo selvoso, 
que para aqui ele trouxe, com seus opulentos haveres, 
deu liberdade, depois de exigir um vultoso resgate; 
ela, no entanto, por Ártemis foi no palácio frechada. 
És para mim, caro Heitor, assim pai como mãe veneranda,

és meu irmão, de igual modo, e marido na idade florente. 
Tem, pois, piedade de mim; fica um pouco na torre; não queiras 
órfão o filho deixar, nem viúva a consorte querida. 
Junto da grande figueira coloca mais gente, onde há acesso, 
para a cidade, mais fácil, que o muro permite escalada. 
Já por três vezes tentaram subi-lo os heróis mais valentes 
da companhia dos fortes Ajazes, dos claros Atridas, 
de Idomeneu valoroso e do forte e preclaro Tidida, 
ou por conselho de algum sabedor do fatal vaticínio,
ou pela própria coragem a assim proceder impelidos.”

Disse-lhe Heitor em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Tudo isso, esposa, também me preocupa; mas quanta vergonha 
dos outros homens e, assim, das Troianas de peplos compridos, 
eu sentiria se, infame, fugisse às pelejas cruentas. 
Isso meu peito proíbe, ensinando-me a ser valoroso 
e a combater sempre à frente dos fortes guerreiros de Troia, 
para mor lustre da glória paterna e de meu próprio nome. 
O coração claramente mo diz e a razão mo confirma: 
dia virá em que Troia sagrada será destruída, 
bem como Príamo e o povo do velho monarca lanceiro.

Menos, porém, me acabrunha o destino que aos Teucros espera, 
ou mesmo o de Hécabe, ou a sorte que a Príamo está reservada, 
e a meus irmãos numerosos, que, embora valentes, na poeira 
hão de jogados ficar, sob os golpes de imigos ferozes, 
que imaginar-te arrastada por um desses duros Aquivos 
de vestes brônzeas, em prantos, sem nada dos dias felizes. 
Às ordens de outra mulher hás de, em Argos, tecer belos panos,
ou te verás obrigada a trazer, de Hipereia ou Messeida, 
água, bem contra a vontade, agravada por doestos pesados. 
E, porventura, dirá quem te vir humilhada chorando:

‘Eis aí a esposa de Heitor, o guerreiro mais forte e galhardo, 
quando, ao redor das muralhas de Troia, incessante era a luta.’ 
Isso dirão, aumentando-te a dor de não teres esposo, 
o homem capaz de livrar-te dos dias do vil cativeiro. 
É preferível que a terra fecunda meu corpo recubra, 
a ter de ouvir-te os lamentos, ao seres levada de rastos.” 
   Disse, e estendeu para o filho as mãos ambas, visando a abraçá-lo. 
Mas teve medo a criança do aspecto do pai; e, gritando, 
ao seio da ama acolheu-se, de bela cintura. Estranhara 
o inusitado fulgor do elmo aêneo de grande cimeira,

pelo galhardo e oscilante penacho de crina encimado. 
O pai e a mãe veneranda, a um só tempo, sorriram, de gozo. 
O refulgente elmo, então, da cabeça tirou o guerreiro, 
pondo-o, cuidoso, depois, ao seu lado, na terra fecunda. 
E, logo, o filho nos braços tomando, depois de beijá-lo, 
a Zeus e a todos os deuses eternos suplica, fervente: 
   “Zeus poderoso, e vós outros, ó deuses eternos do Olimpo, 
que venha a ser o meu filho como eu, distinguido entre os Teucros, 
de igual vigor, e que em Ílio, depois, venha a ter o comando. 
E que, ao voltar dos combates alguém diga, ao vê-lo: ‘É mais

ainda, que o pai!’ Possa a mãe veneranda à sua vista alegrar-se 
pós ter matado o inimigo, pesado de espólios cruentos!” 
   Disse, e nos braços da esposa dileta depõe o filhinho. 
Ela, afetuosa, o acolheu e o afagou no fragrante regaço, 
rindo, entre lágrimas. Mui comovido ante o quadro, o guerreiro, 
acariciando-a com a mão, lhe dirige as seguintes palavras: 
   “Minha tolinha, por que, desse modo, afliges tua alma? 
Homem nenhum poderá, contra o Fado, mandar-me para o Hades, 
pois quero crer que a ninguém é possível fugir ao destino, 
desde que nasça, seja ele um guerreiro de prol ou sem préstimo.

Para tua casa recolhe-te e cuida dos próprios lavores, 
roca e tear, assim como às criadas transmite tuas ordens, 
para que tudo executem, que aos homens que em Troia nasceram, 
mormente a mim, está afeto pensar quanto à guerra concerne.” 
   O elmo de equino penacho depois retomou o guerreiro. 
Para o palácio retorna, entrementes, a esposa, virando-se 
a cada passo, a verter, pela estrada, amaríssimo pranto. 
Quando chegou ao palácio de bela feitura do insigne 
e incontrastável guerreiro, cercada se viu pelas servas, 
que prorromperam, também, a chorar, quando aflita a enxergaram.

 Na própria casa de Heitor, ainda vivo, por morto o choravam, 
pois esperança não tinham de que ele voltar conseguisse 
salvo das mãos dos Aquivos, à fúria da guerra escapando. 
   Páris, também, não ficou muito tempo na estância elevada, 
mas, tendo as armas de bronze vestido, de fino trabalho, 
corta, apressado, a cidade, nos rápidos pés confiado. 
Como galopa um cavalo habituado no estábulo, quando 
pode do laço escapar e, fogoso, a planície atravessa 
para ir banhar-se, impaciente, na bela corrente do rio, 
cheio de orgulho, soleva a cabeça; por sobre as espáduas

bate-lhe a crina, agitada; consciente da própria beleza, 
levam-no os pés para o prado, onde os outros cavalos se reúnem: 
Páris, o filho de Príamo, assim, desce do alto da Acrópole 
da sacra Pérgamo, envolto em couraça que a vista ofuscava. 
Vem exultante; seus rápidos pés o conduzem em pouco 
tempo aonde Heitor se encontrava, o divino guerreiro, que tinha 
precisamente deixado o local em que à esposa falara. 
Foi o primeiro a falar Alexandre, de formas divinas: 
   “Mano, bem vejo que muito te fiz esperar, quando tinhas 
tão grande pressa; não fui diligente, conforme o ordenaste.”

Disse-lhe Heitor, em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Páris, nenhuma pessoa de espírito justo pudera 
desconhecer teu valor nos combates, porque és corajoso. 
Mas, voluntário, te escusas; não queres lutar. Isto o peito 
muito me punge, quando ouço as censuras que soem fazer-te 
os picadores Troianos, que tanto por ti têm sofrido. 
Mas, por agora, sigamos; que disso, depois, cuidaremos, 
quando Zeus pai consentir que ofertemos a grande cratera 
da liberdade aos eternos, nos nossos palácios bem-feitos, 
quando dos muros de Troia expulsarmos os fortes Aquivos.”² 

continua página 198...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto V.d / Canto VI.a / Canto VI.b /                      
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1} Aqui outro momento extraordinário da Ilíada: Heitor falando com sua mãe, Hécuba, antes de ir ao encontro de Páris. É uma cena cheia de religiosidade, tensão e frustração. 
*    O que está acontecendo na cena: Heitor retorna à cidade durante a batalha e encontra sua mãe, Hécuba, que lhe oferece vinho para revigorar as forças. Ele recusa — e a recusa é significativa:
Vinho enfraquece os braços, diz ele, e um guerreiro não pode perder vigor.
- Além disso, não é correto oferecer libações a Zeus com as mãos sujas de sangue e poeira. Heitor demonstra respeito religioso e autocontrole.
     Em vez disso, ele pede que Hécuba vá ao templo de Atena, levando as mulheres da cidade para suplicar proteção.
 *    O pedido ritual de Heitor, ele instrui sua mãe a:
- reunir as matronas troianas;
- escolher o manto mais belo e precioso do palácio;
- colocá-lo sobre os joelhos da deusa Atena;
- prometer o sacrifício de doze novilhas de um ano, ainda indomadas.
     O objetivo é claro: implorar que Atena afaste Diomedes, o “Tidida”, que naquele canto está devastando os troianos com força quase sobre-humana. Esse detalhe é importante: Heitor reconhece que Diomedes é, naquele momento, o maior perigo no campo de batalha.
*     A frustração com Páris
     Depois de orientar sua mãe, Heitor diz que irá atrás de Páris, para fazê-lo voltar ao combate. E aqui surge o tom mais humano e amargo da passagem:
Ah, se a terra se abrisse subitamente! Um 
fautor de desgraças nascer fez o Olimpo para 
o magnânimo Príamo, os filhos e o povo 
troiano.”
     Heitor expressa sua exasperação: Páris é visto como a causa da guerra, um peso para a família e para a cidade. Ele deseja, quase desesperadamente, que Páris desapareça — e confessa que isso o faria esquecer todos os males presentes. É um dos momentos em que Heitor revela sua profundidade emocional: ele é o defensor de Troia, mas carrega o fardo das escolhas de outros.
*     Por que esse trecho é tão importante?
1. Mostra o caráter de Heitor: disciplinado, religioso, responsável, consciente da gravidade da guerra.
2. Revela a fragilidade de Troia: a cidade depende da proteção divina e sofre com a irresponsabilidade de Páris.
3. Constrói o clima para o encontro com Andrômaca, que virá logo depois — um dos momentos mais tocantes da Ilíada.
4. Expõe a tensão entre dever e família, tema central do canto VI.

[2] Aqui a continuação perfeita do episódio entre Heitor e Páris — e este trecho é especialmente rico para análise, porque mostra o contraste entre os dois irmãos e aprofunda o drama moral da Ilíada
*     O diálogo entre Heitor e Páris: coragem, vergonha e esperança
1. Páris fala primeiro — e tenta justificar-se (Páris, “de formas divinas”, começa reconhecendo que demorou e que não cumpriu o que Heitor lhe pediu. É uma fala suave, quase resignada, que tenta atenuar sua falta de prontidão.)
     Esse detalhe é importante: Páris não é covarde no sentido físico — ele luta bem quando quer — mas é irresponsável, volúvel, incapaz de assumir o peso das consequências de seus atos.
2. A resposta de Heitor: elogio e reprovação ao mesmo tempo
     Heitor responde com uma mistura de verdade e dor:
- Ele admite que ninguém de espírito justo negaria o valor de Páris no combate.
- Mas logo acrescenta: Páris evita lutar voluntariamente, e isso “punge” seu peito.
     Heitor sofre não apenas pela guerra, mas pela vergonha que Páris traz à família e à cidade. Os “picadores troianos” — os cidadãos comuns — murmuram contra Páris, e Heitor sente o peso dessas críticas. Esse é um dos momentos mais humanos do poema: Heitor ama o irmão, mas não consegue esconder sua frustração.
3. A promessa de futuro — quando Troia expulsar os aqueus
     Heitor tenta encerrar o assunto, porque a urgência da guerra não permite longas discussões. Ele diz:
Por agora, sigamos; que disso, depois, 
cuidaremos.”
     E então imagina um futuro idealizado:
- Zeus permitirá que os troianos ofereçam a “cratera da liberdade” aos deuses.
- Eles celebrarão nos palácios bem-feitos.
- Os aqueus serão expulsos dos muros de Troia.
     Esse momento é profundamente irônico: Heitor fala com esperança, mas o leitor sabe que Troia jamais verá essa celebração. A frase revela sua , sua honra, mas também sua tragédia.
*     Por que este trecho é tão significativo?
1. Constrói o contraste entre os irmãos:
     - Heitor: dever, disciplina, responsabilidade.
     - Páris: beleza, talento, mas falta de compromisso.
2. Mostra a tensão interna de Troia:
     A guerra não é apenas contra os aqueus — é também contra a desordem moral dentro da própria cidade.
3. Revela a liderança de Heitor:
     Ele não humilha Páris; ele o chama à luta, tentando preservar a unidade.
4. Antecipação trágica:
     A esperança de expulsar os aqueus é uma sombra do destino inevitável de Troia
.


Ilíada, de Homero - Canto VI




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