volume V
A Prisioneira
continuando...
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Às vezes a escrita em que eu decifrava as mentiras de Albertine, sem ser ideográfica, necessitava simplesmente ser lida às avessas; foi assim que naquela noite ela me lançara com ar negligente esta mensagem destinada a passar quase despercebida:
- É possível que amanhã eu vá à casa dos Verdurin, não sei absolutamente se irei,
não tenho muita vontade. -
Anagrama infantil desta confissão: "Amanhã irei à casa dos Verdurin, é absolutamente certo, pois
dou muita importância a isso." Esta aparente hesitação significava uma vontade resolvida e tinha por
finalidade diminuir a importância da visita pelo fato de me anuncia-la. Albertine sempre usava o tom dúbio
para as resoluções irrevogáveis. A minha não o era menos: eu trabalharia para que a visita à Sra.
Verdurin não se realizasse. Muitas vezes, o ciúme não passa de uma necessidade inquieta de tirania
aplicada às coisas do amor. Sem dúvida eu herdara de meu pai esse brusco desejo arbitrário de ameaçar
as criaturas que eu mais amava nas esperanças em que se embalavam com uma segurança que eu
queria mostrar-lhes ser ilusória; quando eu via que Albertine havia combinado, à minha revelia, ocultando
de mim, o plano de um passeio que eu teria feito tudo no mundo para torna-lo mais fácil e mais agradável
se ela me houvesse confidenciado, eu dizia com negligência, para fazê-la tremer, que esperava sair
nesse dia.
Pus-me a sugerir a Albertine outros objetivos de passeio que teriam tornado impossível a visita
aos Verdurin, em palavras carregadas de uma fingida indiferença sob a qual eu tentava disfarçar meu
nervosismo. Mas ela já a havia despistado. E meu sentimento encontrava nela a força elétrica de uma
vontade oposta que o repelia com vivacidade; nos olhos de Albertine, eu via essa força soltar suas
faíscas. De resto, de que adiantava cuidar do que diziam as pupilas naquele instante? Como é que eu
não havia percebido há muito que os olhos de Albertine pertenciam à família dos que (mesmo numa
pessoa medíocre) parecem feitos de vários pedaços, por causa de todos os lugares onde ele deseja
encontrar-se e ocultar que quer achar-se nesse dia? Olhos, por mentira sempre imóveis e passivos, mas
dinâmicos, mensuráveis pelos metros e quilômetros que é preciso transpor para chegar ao local do
encontro marcado, implacavelmente marcado, olhos que sorriem menos ainda ao prazer que os seduz do
que se aureolam da tristeza e do desânimo de que talvez existam obstáculos para ir a esse encontro.
Entre nossas próprias mãos, tais seres são criaturas em fuga. Para compreender as emoções que
causam e que outros seres até mais belos não causam, e preciso calcular que eles estão, não imóveis,
mas em movimento, e acrescentar à sua pessoa um sinal correspondente ao que em física é o sinal que
indica velocidade.
Se perturbamos o seu dia, eles nos confessam o prazer que nos tinham ocultado: "Queria tanto ir
tomar chá às cinco horas com tal pessoa amiga!" Pois bem, se seis meses depois acabamos conhecendo
a pessoa em questão, saberemos que nunca a moça, cujos projetos transtornáramos, e que, apanhada
em flagrante nos confessara, para que a deixássemos livre, o chá que assim tomava com uma pessoa
querida todos os dias à hora em que não a víamos, saberemos que essa pessoa nunca a recebeu, que
elas jamais tomaram chá juntas, que a moça dizia viver muito presa exatamente por nossa culpa.
Assim, a pessoa com quem ela confessara que ia tomar chá, com quem ela suplicara que a
deixássemos tomar chá, essa pessoa, razão confessada pela necessidade, não era aquela mas outra, e
não se tratava de chá mas de outra coisa! Outra coisa, o quê? Uma outra, quem? Ai de nós, os olhos
fragmentados, tristes, partindo para longe, talvez permitissem medir as distâncias, mas não indicam as
direções. Estende-se o campo infinito das possibilidades e se, por acaso, o real se apresentava diante de
nós, estaria de tal modo tão fora dos possíveis que, num súbito aturdimento, cairíamos para trás, indo
bater contra essa parede inesperada. O movimento e a fuga verificados nem sequer são indispensáveis,
basta que os induzamos. Ela nos havia prometido uma carta, estávamos tranquilos, já não a amávamos.
A carta não chegou, nenhum correio a trouxe, "que se passa?", a ansiedade renasce e com ela o amor.
São principalmente tais seres que nos inspiram o amor, para nosso tormento. Pois cada nova ansiedade
que sentimos por causa deles, rouba-lhes aos nossos olhos um pouco de sua personalidade. Estávamos
resignados ao sofrimento, crendo amar fora de nós, e nos damos conta de que nosso amor é uma função
da nossa tristeza, que nosso amor é talvez nossa tristeza, e que o objeto dele só em parte diminuta é a
moça de cabeleira negra. Mas enfim, são principalmente tais seres que nos inspiram o amor. Na maioria
das vezes, o amor não tem por objeto um corpo, a não ser quando nele se fundem uma emoção, o medo
de perdê-lo, a incerteza de reencontrá-lo. Ora, esse tipo de ansiedade tem muita afinidade pelos corpos.
Ela acrescenta-lhes uma qualidade que ultrapassa a própria beleza, o que é um dos motivos por que
vemos homens, indiferentes às mulheres mais belas, amarem apaixonadamente algumas que nos
parecem feias. A essas criaturas, a essas criaturas de fuga, sua natureza e a nossa inquietação
emprestam asas. E até junto a nós o seu olhar parece dizer que vão alçar voo. A prova dessa beleza, que
excede a beleza acrescentada pelas asas, é que, muitas vezes, para nós, uma mesma criatura é
sucessivamente alada e sem asas. Basta recearmos perdê-la para esquecermos todas as outras. Certos
de conservá-la, comparamo-la a essas outras, que logo preferimos a ela. E, como essas emoções e
certezas podem alternar-se de uma semana para outra, uma criatura pode, numa semana, ver
sacrificarem-lhe tudo o que lhe agradava, na semana seguinte ser sacrificada, e assim por diante durante
muito tempo. O que seria incompreensível, se não soubéssemos pela experiência que todo homem tem
de ter em sua vida, ao menos uma vez, deixado de amar, esquecido uma mulher, o pouco em si mesma
que é uma criatura quando já não o é mais, ou não é ainda permeável às nossas emoções. E ficamos
bem entendidos que o que dizemos dessas criaturas de fuga é igualmente verdadeiro para as criaturas
em prisão, mulheres cativas que julgamos jamais poder possuir. Desse modo, os homens detestam as
alcoviteiras, pois elas facilitam a fuga, fazem brilhar a tentação; mas, se amam uma mulher enclausurada,
procuram de bom grado as alcoviteiras para fazê-las saírem de sua prisão e conduzi-las a eles. O motivo
pelo qual as uniões com mulheres raptadas são menos duradouras que outras, é que o medo de não
chegarmos a obtê-las ou a inquietação de vê-las fugir compõe todo o nosso amor e que, uma vez
roubadas a seu marido, arrancadas a seu teatro, curadas da tentação de nos abandonar, numa palavra,
dissociadas de nossa emoção, seja qual for, elas são apenas elas próprias, ou seja, quase nada e, tão
longamente cobiçadas, são logo abandonadas por aquele mesmo que tanto temera ser abandonado por
elas.
Eu disse: "Mas como é que não adivinhei?" Mas não o adivinhara desde o primeiro dia em
Balbec? Não adivinhara em Albertine uma dessas meninas sob cujo envoltório carnal palpitam mais
criaturas ocultas, já não digo que num baralho ainda na caixa, que numa catedral fechada ou num teatro
antes que entremos, porém mais do que na multidão imensa e renovada? Não apenas tantas criaturas,
mas o desejo, a lembrança voluptuosa, a busca inquieta por tantas criaturas. Em Balbec, eu não ficara
perturbado, pois nem sequer supusera que um dia haveria de seguir pistas mesmo falsas. Não importa,
para mim aquilo dera a Albertine a plenitude de um ser cheio até as bordas pela superposição de tantas
criaturas, de tantos desejos e de lembranças voluptuosas de criaturas. E agora que ela me dissera um
dia:
- Srta. Vinteuil -, eu desejaria, não arrancar-lhe o vestido para ver seu corpo, mas, através do
corpo, ver toda a sua agenda de recordações e de seus próximos e ardentes encontros marcados.
Como as coisas provavelmente mais insignificantes assumem de repente um valor extraordinário
quando uma criatura a quem amamos (ou a quem só falta aquela duplicidade para que a amemos) as
esconde! Em si mesmo, o sofrimento não nos causa obrigatoriamente sentimentos de amor ou ódio pela
pessoa que o provocou: um cirurgião que nos causa dor nos deixa indiferente. Mas uma mulher que nos
afirmou durante algum tempo que éramos tudo para ela, sem que ela própria fosse tudo para nós, uma
mulher que temos prazer em ver, beijar, em ter sobre os nossos joelhos, muito admirados ficamos ao
descobrir, por uma súbita resistência, que não dispomos dela.
A decepção acorda então às vezes em nós a lembrança esquecida de uma velha angústia, que no
entanto sabemos não ter sido provocada por essa mulher, mas por outras cujas traições se escalonam
sobre o nosso passado. E, além disso, como se tem a coragem de desejar viver, como se pode fazer um
movimento para se preservar da morte num mundo em que o amor só é causado pela mentira e consiste
apenas em nossa aspiração de ver acalmadas nossas dores pela criatura que nos fez sofrer? Para sair
do acabrunhamento que sentimos ao descobrir essa mentira e essa resistência, há o triste remédio de
procurar agir, contra a vontade dela, com a ajuda de pessoas que sentimos serem mais ligadas à sua
vida do que nós próprios, sobre aquela que nos resiste e nos mente, usar de astúcia nós também, fazer
nos detestar. Mas o sofrimento de um tal amor é desses que invencivelmente levam o enfermo a
procurar, numa mudança de posição, um bem-estar enganoso. Tais meios de ação não nos faltam, ai de
nós! E o horror desses amores, que somente a inquietude gerou, decorre de que viramos e reviramos
sem cessar dentro em nós frases insignificantes; sem contar que raramente as criaturas pelas quais os
sentimos nos agradam fisicamente de maneira completa, visto que não é o nosso gosto deliberado, mas o
acaso de um minuto de angústia, minuto indefinidamente prolongado pela nossa fraqueza de caráter, a
qual refaz todas as noites as experiências e se rebaixa aos calmantes, que fez a escolha por nós.
Sem dúvida o meu amor por Albertine não era o mais miserável daqueles até onde, por falta de vontade, a gente pode decair, pois não era inteiramente platônico; ela concedia-me satisfações carnais, e além disso era inteligente. Porém tudo isto era supérfluo. O que me ocupava o espírito não era o que ela pudesse dizer de inteligente, mas certa frase que acordava em mim uma dúvida sobre seus atos. Eu tentava me lembrar se ela dissera isto ou aquilo, com que ar, em que momento, em resposta a que palavras, reconstituir toda a cena de seu diálogo comigo, em que momento ela quisera ir à casa dos Verdurin, que palavra minha dera o ar contrariado a seu rosto. Se se tratasse do mais importante acontecimento, eu não teria me dado a tanto trabalho para restabelecer a verdade, para lhe recompor a atmosfera e o colorido exatos. Tais inquietudes, é evidente, depois de terem atingido um grau em que nos são insuportáveis, conseguimos por vezes acalmá-las de todo por uma noite. A festa a que deve comparecer a amiga que amamos, e sobre cuja verdadeira natureza o nosso espírito vinha trabalhando há dias, somos também convidados a ela; nossa amiga só tem olhos e palavras para nós, levamo-la de volta para casa, e conhecemos então, dissipadas as inquietações, um sossego tão completo, tão reparador, como o que se observa por vezes no sono profundo que ocorre após as longas caminhadas. Mas, na maioria das vezes, apenas mudamos de inquietação. Uma das palavras da frase que devia nos acalmar põe nossas suspeitas em outra pista. E sem dúvida um repouso desses merece que o paguemos bem caro. Mas não teria sido mais simples não comprarmos nós mesmos, voluntariamente, a ansiedade, e mais caro ainda? Além disso, sabemos muito bem que, por mais profundos possam ser esses desafogos momentâneos, a inquietação ainda assim será mais forte. Muitas vezes até, ela é renovada pela frase cujo fim era nos trazer repouso. As exigências do nosso ciúme e a cegueira da nossa credulidade são maiores do que o podia imaginar a mulher que amamos. Quando, espontaneamente, ela nos jura que determinado homem só é um amigo, deixa-nos transtornados ao nos informar coisa de que não suspeitávamos que para ela tratava-se de um amigo. Enquanto nos conta, para mostrar sua sinceridade, de que modo eles tomaram juntos o chá naquela mesma tarde, a cada palavra que ela diz, o invisível, o insuspeitado adquire forma à nossa frente. Ela confessa que ele lhe pediu que se tornasse sua amante e nós sofremos o martírio de que ela tenha podido ouvir as suas propostas. Recusou-as, diz ela. Mas dali a pouco, lembrando-nos de seu relato, nós nos indagaremos se a recusa é de fato verdadeira, pois entre as diversas coisas que ela nos disse há aquela ausência de nexo lógico e necessário que, mais do que os fatos contados, é o sinal da verdade. E, além disso, ela usou daquela terrível entonação desdenhosa:
Sem dúvida o meu amor por Albertine não era o mais miserável daqueles até onde, por falta de vontade, a gente pode decair, pois não era inteiramente platônico; ela concedia-me satisfações carnais, e além disso era inteligente. Porém tudo isto era supérfluo. O que me ocupava o espírito não era o que ela pudesse dizer de inteligente, mas certa frase que acordava em mim uma dúvida sobre seus atos. Eu tentava me lembrar se ela dissera isto ou aquilo, com que ar, em que momento, em resposta a que palavras, reconstituir toda a cena de seu diálogo comigo, em que momento ela quisera ir à casa dos Verdurin, que palavra minha dera o ar contrariado a seu rosto. Se se tratasse do mais importante acontecimento, eu não teria me dado a tanto trabalho para restabelecer a verdade, para lhe recompor a atmosfera e o colorido exatos. Tais inquietudes, é evidente, depois de terem atingido um grau em que nos são insuportáveis, conseguimos por vezes acalmá-las de todo por uma noite. A festa a que deve comparecer a amiga que amamos, e sobre cuja verdadeira natureza o nosso espírito vinha trabalhando há dias, somos também convidados a ela; nossa amiga só tem olhos e palavras para nós, levamo-la de volta para casa, e conhecemos então, dissipadas as inquietações, um sossego tão completo, tão reparador, como o que se observa por vezes no sono profundo que ocorre após as longas caminhadas. Mas, na maioria das vezes, apenas mudamos de inquietação. Uma das palavras da frase que devia nos acalmar põe nossas suspeitas em outra pista. E sem dúvida um repouso desses merece que o paguemos bem caro. Mas não teria sido mais simples não comprarmos nós mesmos, voluntariamente, a ansiedade, e mais caro ainda? Além disso, sabemos muito bem que, por mais profundos possam ser esses desafogos momentâneos, a inquietação ainda assim será mais forte. Muitas vezes até, ela é renovada pela frase cujo fim era nos trazer repouso. As exigências do nosso ciúme e a cegueira da nossa credulidade são maiores do que o podia imaginar a mulher que amamos. Quando, espontaneamente, ela nos jura que determinado homem só é um amigo, deixa-nos transtornados ao nos informar coisa de que não suspeitávamos que para ela tratava-se de um amigo. Enquanto nos conta, para mostrar sua sinceridade, de que modo eles tomaram juntos o chá naquela mesma tarde, a cada palavra que ela diz, o invisível, o insuspeitado adquire forma à nossa frente. Ela confessa que ele lhe pediu que se tornasse sua amante e nós sofremos o martírio de que ela tenha podido ouvir as suas propostas. Recusou-as, diz ela. Mas dali a pouco, lembrando-nos de seu relato, nós nos indagaremos se a recusa é de fato verdadeira, pois entre as diversas coisas que ela nos disse há aquela ausência de nexo lógico e necessário que, mais do que os fatos contados, é o sinal da verdade. E, além disso, ela usou daquela terrível entonação desdenhosa:
- Eu lhe disse não, - de modo categórico que se encontra em todas as classes da sociedade
quando uma mulher mente. Cumpre no entanto agradecer-lhe por haver recusado, encorajá-la pela nossa
bondade a continuar no futuro a nos fazer confidências tão cruéis. Quando muito, fazemos uma objeção:
- Mas se ele já fizera propostas, por que aceitou tomar chá em sua companhia?
- Para que ele não se aborrecesse comigo nem dissesse que eu não fora amável.- E não temos
coragem de lhe dizer que, se recusasse, teria sido talvez mais amável conosco.
Aliás, Albertine me assustava declarando que eu tinha razão de dizer, para não prejudicá-la, que
não era seu amante, pois na verdade, acrescentava, "o fato é que você não o é". Com efeito, eu talvez
não fosse inteiramente seu amante, mas então seria necessário pensar que todas as coisas que fazíamos
juntos, será que ela também as fazia com todos os homens de quem me jurava não ter sido amante?
Querer conhecer a todo custo o que Albertine pensava, o que ela via, o que ela amava - como era estranho
que eu sacrificasse tudo a tal necessidade, pois havia experimentado a mesma necessidade de saber, a
respeito de Gilberte, nomes próprios e fatos que hoje me eram tão indiferentes! Eu percebia muito bem
que em si mesmas as ações de Albertine já não tinham interesse. É curioso que um primeiro amor, se,
pela fragilidade que deixa em nosso coração, abre caminho aos amores seguintes, não nos dê, ao menos
pela identidade mesma dos sintomas e das dores, a maneira de curá-los. Além disso, há necessidade de
se conhecer um fato? Pois, de um modo geral, não conhecemos logo a própria mentira e discrição dessas
mulheres que têm algo a esconder? Existe aí alguma possibilidade de erro? Elas acham que é uma
virtude ficarem caladas, ao passo que gostaríamos tanto de fazê-las falar. E sentimos que elas afirmaram
a seu cúmplice:- Nunca digo nada. Não é por mim que se há de saber alguma coisa, eu nunca digo nada.
Damos a nossa fortuna, a nossa vida, por uma criatura, e no entanto sabemos muito bem que,
com dez anos de intervalo, mais cedo ou mais tarde, negaríamos a essa criatura tal fortuna, preferiríamos
conservar a vida. Pois já então essa criatura estaria desligada de nós, sozinha, isto é, seria nula. O que
nos une às criaturas são essas mil raízes, esses fios inumeráveis que formam as lembranças do sarau da
véspera, as esperanças da vesperal do dia seguinte; é essa trama contínua de hábitos de que não
podemos nos livrar. Da mesma forma que existem os avarentos que economizam por generosidade, nós
somos pródigos que gastamos por avareza, e é menos a uma criatura que sacrificamos nossa vida, do
que a tudo o que ela pôde prender a si mesma de nossas horas, de nossos dias, daquilo em comparação
do que a nossa vida ainda não vivida, a vida relativamente futura, nos parece uma vida mais longínqua,
mais desligada, menos íntima e menos nossa. Necessário seria desfazermo-nos desses laços que de fato
têm muito mais importância que a pessoa, mas cujo efeito é criar em nós deveres momentâneos para
com ela, deveres que nos levam a não ter coragem de deixá-la por medo de sermos mal interpretados, ao
passo que mais tarde ousaríamos, pois, livre de nós, ela não seria mais nós e a verdade é que só criamos
deveres para nós mesmos (ainda que estes possam, por uma aparente contradição, nos levar ao
suicídio).
continua na página 40...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)A Prisioneira (Para retornar às jovens passante)
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