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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Tchekhov - A linguaruda

Alguns melhores contos


“Meu objetivo é matar dois pássaros com um tiro: descrever a vida de modo veraz e mostrar o quanto essa vida se desvia da norma. Norma desconhecida por mim, como é desconhecida por todos nós”
Anton Tchekhov

A linguaruda

     Natália Mikailovna, senhora garbosa e ainda jovem, chegou pelo trem de Jalta, onde passara o verão. Depois, durante o jantar falou sem parar, descrevendo as belezas daquela região. O marido, feliz com o retorno da esposa, a observava com os olhos cheios de ternura, ante a excitação dela, limitando-se apenas a fazer algumas perguntas esporádicas.

– Ouvi dizer que a vida lá está muito cara… observou ele.
– Cara? Como vou dizer? Não é tão cara quanto dizem. Eu tinha com a Júlia Petrovna, um bom apartamento, bem confortável, por vinte rublos por dia. Precisa saber se controlar. Se vai se fazer um passeio aos montes, por exemplo ao Al-Ptri, se gasta mais… O cavalo, o guia… Tudo isso encarece, e muito… Mas, querido, que belos montes! Tu não imaginas como são altos! Mil vezes mais altos que a igreja… E em cima, neve! Nada mais do que neve… Embaixo, pedras, apenas… Ah, que beleza…
– A respeito disso, durante a sua ausência, fiquei preocupado quando li a respeito das crueldades praticadas pelos guias… Não é verdade que são perversos? 

     Natália fez uma careta e balançou a cabeça, negativamente.

– São como todos os tártaros – respondeu ela. – Além disso, só os vi de longe, uma ou duas vezes… Falaram a esse respeito, mas não dei muita importância… Sempre senti aversão aos circassianos, aos gregos, aos mouros…
– Parece me que são uns espertalhões…
– Pode ser… Mas tem algumas sem vergonhas que…

     Seu semblante se transtornou e ela chegou a se levantar, como se visse o diabo. Encarou o marido com os olhos dilatados:

– Vasitchka! Tu não imaginas quantas mulheres levianas há no mundo! Que imoralidade! E não de classe baixa ou mesmo média, não! Aristocratas da alta!… Eu não acreditava no que via! Nunca mais vou esquecer! Só quem não tem princípios pode chegar a esse ponto…  nem me atrevo a contar! Veja só a Júlia Petrovna, minha companheira de viagem… Tem um marido tão bom, dois filhos, considerada da melhor sociedade… Quer passar por uma santa, mas sabes o que fazia? Tu não vais acreditar! Mas que fique entre nós… Me dás a palavra de honra que não dirás a ninguém!?
– Ora, que ideia! Vou contar para quem?
– Bom, vou confiar em ti!

     Recostou-se na cadeira, aguçou o olhar e começou:

– Imagine! Um dia, Júlia Petrovna saiu a cavalo para um passeio pelos montes. Era um dia lindo e ela saiu na frente com o seu guia. Eu ia atrás. Cerca de dois ou três quilômetros do vilarejo, ela soltou um grito, levando as mãos ao peito. Se o tártaro não a agarrasse ela teria caído e poderia ter se machucado com gravidade… Corri para junto dela com o meu guia, para ver o que tinha acontecido e ela me respondeu que se sentia mal, que parecia que ia morrer. Imagine só! Assustada eu tentei convencê-la a voltar. Ela choramingava que não podia, que estava para morrer. Me disse até que se desse um passo a mais iria morrer! Choramingava dizendo que sentia vertigens. Então pediu a mim e a Suleiman que fôssemos apanhar um remédio que ela tinha no nosso apartamento…
– Espera aí, querida – interrompeu o marido. – Há pouco me dizias que não tinha visto os tártaros senão ao longe e me vens com esse Saleiman que a acompanhava?
– Não me venha com asneiras! – rompeu a esposa em reclamar. – Abomino essas suspeitas! Não suporto isso! É um absurdo!
– Não estou suspeitando de nada, mas porque mentir? Tu passeavas com os guias tártaros… porque esconder?
– Quando queres, és impossível! – protestou ela indignada. – Estás com ciúmes de Sulieman! É isso! Mas queria ver como irias ao monte sem guia! Ah! Queria ver mesmo! Se não conheces aquela região e seus costumes e dificuldades, faria melhor se calasse! Escute e aprenda! Lá não se pode dar um passo sem guia.
– É natural!
– Me faze o favor de deixar esses sorrisinhos bobos! Não sou uma Júlia qualquer para aguentá-los. Não quero passar por santa, mas não me permitiria certas coisas… Será que não vês que Mametkul passava o tempo todo com a Júlia? Comigo não! Quando dava onze horas eu já dizia: “Suleiman, estás liberado!” e o meu tartarosinho ia-se embora… Eu o tratava com muita serenidade e assim mesmo, às vezes vinha falar de dinheiro e gastos extras, mas logo eu me eximia do que não estava combinado. Han! Han! Sabes, Vasitchka? Ele tinha uns olhos negros como o carvão, uma carinha morena, uma graciosa cara de tártaro… Han! Han! Mas eu o tratava com muita firmeza!
– Imagino que sim… – murmurou o esposo, entretido com as bolinhas de pão.
– Estás maluco, Vasitchka? Completamente louco? Já sei o que estás pensando! Conheço a tua cabeça! Mas te asseguro que quando estávamos passeando não se conversava nunca! Íamos, por exemplo, nos montes ou na cascata de Ucha-Su e eu ordenava ao Suleiman que ficasse atrás. Entende? E o pobrezinho tinha que ir atrás mesmo! Não o deixava esquecer-se que ele era um tártaro e eu a esposa de um conselheiro de Estado! Han! Han!

     Ela deu uma gargalhada meio forçada e fez uma cara de assustada logo em seguida:

– Mas a Júlia! Hum! Esta Júlia! A gente pode fazer uma travessura, distrair-se! Porque não? Precisamos aliviar um pouco a tensão e a frivolidade da vida mundana, penso eu! Temos que nos divertir, mas nos conter dos excessos, para poder exigir que nos respeitem. Fazer escândalos? Ah! Isso não! Mas imagina que ela estava com ciúmes de mim! Que tolice! Uma vez Mametkul chegou e ela não estava. Então o fiz entrar e conversamos um tempo. São muito interessantes esses tártaros… A tarde passou sem percebermos. De repente chega Júlia, como uma tempestade! Brigou comigo e com Mametkul, armando uma cena horrível! Isto, Vasitchka, eu não aceito…

     Com um “hum” muito eloquente, ela franze as sobrancelhas e girou pela sala com passos firmes.

– Então, pelo que vejo, te distraíste bem! – disse o marido sorrindo.
– Que estúpido! Já sei tudo o que estás pensando! Tens sempre ideias maliciosas! Mas daqui para frente, já sei que não te contarei nada! Nada mesmo!

     E calou-se, com uma cara de arrependida.

Fim

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Leia também:
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Tchekhov - O inimigo

O inimigo


Anton Tchekhov

O inimigo

     A noite desceu há muito sobre a paisagem de neve, uma noite escura e profunda, que envolve seres e coisas no silêncio e na paz. Àquela hora, talvez somente Varka esteja ainda acordada, debruçada sobre o berço onde o menino não quer dormir. Varka tem apenas treze anos, é pouco mais que menina, e seus olhos sonolentos são tristes e vagos. Agora impulsiona suavemente o berço e canta baixinho, com voz branda, uma canção de ninar. “Dorme, menino bonito, que o bicho vem pegar…” Uma lamparina verde, acesa junto ao ícone, enche o quarto com sua luz fraca e incerta; peças de roupa, pendidas de uma corda que atravessa o compartimento, flutuam de leve. A luz projeta no teto um grande círculo verde, as sombras das peças de roupa se agitam como se fossem sacudidas pelo vento, e tremem inquietas sobre a estufa, sobre Varka e sobre o berço.
     Tudo assume um aspecto carregado e denso como a noite, a atmosfera cheira a fel. O menino chora, está rouco de tanto gritar, mas continua chorando sempre, com todas as suas forças. Varka tem um sono terrível, seus olhos se cerram apesar de todos os esforços; e ela acha que o menino jamais se acalmará. Por mais esforço que faça, sente que as pálpebras se ligam, começa a cabecear, tonta, muito tonta. Pode apenas mover os lábios. Dentro dela cresce uma impressão estranha, parece-lhe que o rosto é de madeira e que a cabeça é pequena, como a de um alfinete. “Dorme, menino bonito…” Sua voz é apenas perceptível, um cicio trêmulo na noite profunda. Ouve-se agora o canto monótono de um grilo escondido em qualquer greta da estufa. No quarto ao lado roncam o mestre, e o aprendiz Afanas; o berço geme, tristíssimo.
     Todos esses ruídos se misturam com a voz suave de Varka, produzindo uma doce música, boa para fazer dormir. Mas Varka não pode deitar-se, nem sequer pode encostar-se, pois sabe que, se dormir, os patrões a pegam, talvez lhe batam. Por isso aquela música acalentadora deixa-a desesperada, aumenta o sono terrível que a subjuga. Quando poderá estender-se no chão e dormir, dormir profundamente, dormir e não acordar nunca mais?
     A lamparina está a ponto de apagar-se, a chama tênue oscila incerta. O círculo verde do teto e as sombras continuam a agitar-se ante os olhos semicerrados de Varka, em sua cabeça meio adormecida nascem sonhos vagos e fantásticos. Através dos sonhos ela vê nuvens negras correndo no céu, nuvens que choram aos gritos, como crianças de peito. O vento, porém, varre todas as nuvens, e Varka pode ver agora um caminho largo e cheio de lodo, por onde passam coches, pessoas com sacos às costas e sombras, muitas sombras. Num e noutro lado do caminho existem bosques cobertos de neve. Subitamente os caminhantes e as sombras se estendem sobre o solo lodoso. Muito espantada, Varka pergunta então:

– Por que é que vocês fazem isso?
– Para dormir! – dizem todos. Queremos dormir!

     E dormem tranquilamente, a sono solto, indiferentes e calmos. Varka observa o ritmo das respirações, o arfar suave dos peitos desnudos, e sente uma vontade imensa de chorar.
     De repente percebe que muitos corvos, pousados no fio do telégrafo, fazem tudo para despertá-los. “Dorme, menino bonito…” Entre os sonhos a voz de Varka é mais débil ainda.
     Pouco depois sonha que está em casa de seu pai, uma casa velha e escura, isolada e muito triste. Seu pai chamava-se Efim Stepanov, já morreu há muito tempo, mas ela o sente agora revolvendo-se no chão. Não pode vê-lo, mas ouve os seus gemidos prolongados, profundos gemidos de dor. Sofre muito, atacado de uma doença que ela desconhece, e nem sequer pode falar. Contorce se e range os dentes.
     A mãe de Varka saiu correndo, rumo à casa senhorial, para dizer que o marido está morrendo, e ainda não voltou. Por que estaria ela demorando tanto? Foi há muito tempo, já devia ter chegado.
     Varka está encostada na estufa, continua sonhando e ouvindo o pai ranger os dentes. De repente, dentro daquele sonho ruim, ela ouve o trotar de cavalos, sente pessoas que se aproximam. Da casa senhorial enviaram um médico ainda moço para ver o agonizante. Entra em silêncio. Varka não consegue vê-lo na obscuridade, mas ouve a sua tosse e o ranger da chave fechando a porta.

– Acenda a luz – diz ele, por fim.

     Efim Stepanov range os dentes em resposta e a mãe de Varka anda de um lado para outro no quarto escuro, à procura de velas. Depois de um longo silêncio o doutor tira uma do bolso e acende-a.
     As faces do doente estão roxas, as pupilas brilham intensamente e os olhares parecem fundir-se estranhamente agudos no doutor e nas paredes.

– Que é isso, homem? – pergunta o médico inclinando-se sobre ele. – Há muito tempo que está doente?
– Chegou na hora, doutor – respondeu Efim Stepanov penosamente. – Não tenho ilusões.
– Não diga tolices. Você vai ver como fica bom.
– Obrigado, doutor. Eu sei, porém, que não há remédio. Quando a morte diz “aqui estou”, é inútil lutar contra ela.

     O médico olha demoradamente o velho e declara:

– Já não posso fazer nada. É preciso levá-lo ao hospital para ser operado imediatamente. Ainda que seja tarde, não importa. Darei um bilhete para o diretor e ele receberá você. Mas sem perda de tempo!
– Doutor, como havemos de levá-lo? – pergunta a mãe. – Não temos cavalos.

     O médico olha-a um instante e depois diz:

– Não tem importância. Explicarei isso lá na casa senhorial e eles mandarão um.

     O médico se vai, a vela se apaga, e de novo se ouve o ranger de dentes do moribundo.
     Meia hora depois um coche para à porta e em seguida se distancia conduzindo Efim para o hospital.
     Passa enfim a noite e sai o sol, a manhã clara e bonita se abre nos campos de neve, tudo parece alegre e vivo, mas na verdade Varka está triste. Sua mãe foi ao hospital ver como passa o marido e ainda não voltou. Varka olha a paisagem através da janela meio carcomida, contempla a extensão de neve, o coração se confrange a solidão pesa sobre ela como um mau agouro. Um menino chora, uma canção suave quebra a paz de neve, e Varka, sem saber por que, julga que é a sua própria voz que canta.
     Agora vê na distância o vulto negro de sua mãe na larga faixa branca, uma pequena mancha que vem crescendo para ela. Entra em casa persignando-se.

– Acabaram de operá-lo, mas ele morreu! Deus o tenha no céu. O doutor disse que a operação foi feita demasiado tarde.

     Varka sai de casa e se dirige para o bosque, ao longe. Cresce dentro dela um profundo sentimento de dor e de mágoa, a terra lhe parece vazia e grande demais para ela sozinha. Ainda sem saber como, o corpo dolorido, os pés terrivelmente frios a enterrarem-se na neve. Talvez nunca chegue ao bosque, a distância aumenta cada vez mais…
     Nesse momento do sonho, em que ela se sente horrivelmente abandonada, recebe uma tremenda pancada na nuca, um soco que a faz dobrar para a frente, por cima do berço. Acorda e vê com terror a cara tirânica do patrão, que grita:

– Peste! O menino chorando e tu dormindo!

     O patrão ainda lhe puxa as orelhas com força brutal, deixa-a humilde e atônita e sai indiferente ao seu sofrimento. Agora ela sacode a cabeça com força, para afugentar o sono irresistível, e põe-se de novo a embalar o berço, cantando com voz afogada.
     O círculo verde do teto e as sombras produzem um efeito letal sobre Varka. Um minuto depois que o patrão sal ela volta a dormir, começa outra vez a sonhar – e o largo caminho cheio de lodo se estende a perder de vista, uma infinidade de gente dorme sobre a terra úmida. Ela também quer deitar-se, mas sua mãe caminha ao lado e não deixa. Varka não pode dormir, ambas se dirigem a uma grande cidade em busca de trabalho. De repente a mãe olha a multidão, para e estende a mão, pedindo:

– Uma esmolinha, pelo amor de Deus! Compadecei-vos de nós, bons cristãos!

     Mas uma voz bem conhecida de Varka ressoa desmanchando os fragmentos do sonho, partindo a visão que lhe resta da mãe.

– Dá-me o menino! Outra vez dormindo, peste!

     Ela se levanta bruscamente, olha em torno e toma pé na realidade; não há caminho nem caminhantes, nem a mãe está junto dela. Só vê a patroa, que veio dar de mamar ao menino, empurrando-a sem piedade, os olhos vermelhos de rancor.
     Enquanto o menino mama, ela espera de pé, pacientemente, meio tonta, esforçando-se para não dormir diante da patroa.
     O espaço começa a azular-se atrás dos vitrais, o círculo verde do teto e as sombras vão empalidecendo, desmaiando nas paredes, a manhã vem surgindo maravilhosamente branca.
     A patroa acaba de amamentar o menino, esconde o seio e abotoa a camisa. Volta-se para Varka berrando:

– Toma o menino! Não sei o que está acontecendo. Sempre chorando, chorando!

     Ela estende os braços, deita a criança no berço e embala-o. O círculo verde e as sombras, menos perceptíveis a cada instante, já não exercem nenhuma influência sobre Varka, que já não os percebe. Apesar disso, entretanto, ela tem sono, um sono terrível, e sua necessidade de dormir é imperiosa, irresistível. Apoia a cabeça na borda do berço e deixa o corpo embalar-se, acompanhando o movimento rítmico, que provoca um ruído seco e monótono, como um gemido. Os olhos estão quase a fechar-se, mas ela ouve a voz da patroa, gritando do outro lado da porta:

– Varka! acende a estufa!

     Já é dia, vai começar agora o trabalho mais exaustivo e penoso. Ela deixa o berço, corre à estufa. Anima-se um pouco, acha mais fácil resistir ao sono andando do que assentada. A névoa que envolvia sua cabeça vai-se dissipando.

– Varka! prepara o samovar! – grita a patroa.

     As ordens não cessam, são muitas e confundem-na.

– Varka, limpa as botinas do patrão!

     Enquanto limpa as botinas, pensa que seria delicioso meter a cabeça num daqueles sapatões e dormir um tempo enorme. Subitamente a botina que estava limpando cresce, parece tomar um espaço enorme, côncava e macia, boa para recostar o corpo. E Varka deixa a escova escorregar da mão lentamente, põe-se a dormir.
     Um minuto apenas, e acorda sobressaltada, faz um grande esforço, sacode a cabeça, abre os olhos o mais que pode.

– Varka! Vai lavar a escada! Está tão suja que sinto vergonha quando o padre sobe por ela.

     Varka lava a escada, varre os quartos, acende depois outra estufa, anda pela casa num vaivém interminável. São tantos os afazeres que ela não tem um momento livre. O que lhe parece mais penoso é ficar de pé, imóvel, diante da mesa da cozinha, descascando batatas. A cabeça se inclina, sem que lhe seja possível evitá-lo, e chega quase a tocar a mesa. As batatas tomam formas fantásticas, suas mãos já não podem sustentá-las. Mas não pode deixar-se vencer pelo sono, tem de reagir sempre, abrir muito os olhos. Ali está a patroa, gorda e má, indiferente ao seu suplício. Há momentos em que a invade um violento desejo de estender-se no chão e dormir, dormir, dormir.
     Transcorre o dia igual aos demais, sempre o trabalho excessivo, as ordens infindáveis, os cílios prestes a ligarem-se pesados, o grande esforço para não dormir e os gritos da patroa.
     Enfim chega a noite e Varka olha as trevas através da janela, sente aquela mesma impressão estranha de que seu rosto é de madeira. Sorri de modo estúpido, completamente sem motivo. As trevas alagam seus olhos, fazem renascer na sua alma a esperança de poder dormir.
     Há uma visita naquela noite, movimentos diferentes, vozes confusas.

– Varka, acende o samovar!

     O samovar é pequeno, e para que todos possam tomar chá, é necessário acendê-lo muitas vezes. Servido o chá, Varka fica de pé a pequena distância, aguardando outras ordens, os olhos fixos nos visitantes.

“Varka, serve a vodca! Varka, onde está isso? Varka, limpa um arenque!”

     Finalmente a visita se vai, apagam-se as luzes, os patrões se recolhem. E ela ouve a última ordem:

– Varka, pega o menino.

     Novamente o quarto, a atmosfera carregada, o cheiro de fel. O grilo canta escondido numa greta qualquer da estufa, o círculo verde do teto e as sombras voltam a agitar-se ante os seus olhos meios cerrados, deixando–lhe a cabeça enevoada. “Dorme, menino bonito…”
     A mesma voz sonolenta de Varka, aquela voz triste e arrastada, abafada pelos gritos do menino que chora como um condenado, a ponto de perder o fôlego.
     Meio adormecida, ela sonha de novo com o caminho largo e enlodado, com sua mãe; sente confusamente a figura do pai moribundo crescer. A realidade lhe foge, desfaz-se a presença de tudo que a cerca. Só sabe que alguma coisa a paralisa e pesa sobre seu corpo cansado, impedindo-a de viver. Faz um esforço supremo e abre os olhos assombrados para a noite, indagando de si mesma que força, que potência é essa, tão estranha e tão grande, que a faz sofrer dessa maneira, que a paralisa e não a deixa dormir. Mas não compreende nada, nenhuma ideia precisa lhe acode. Já sem forças, trêmula e abatida, olha o círculo verde e as sombras.
     Exatamente nesse momento o menino chora, e seu grito repercute no coração de Varka, enche-lhe a cabeça cansada, como uma súbita revelação. Durante um segundo ela se interroga e faz a descoberta. “Esse é o inimigo que não me deixa viver. O inimigo é o menino.” Põe-se a rir, acha estranho não ter compreendido isso até agora, a ideia lhe parece clara e simples. “O inimigo é o menino.” Completamente absorvida por esse pensamento, levanta-se e, sempre sorrindo, dá alguns passos pelo quarto. Sente uma grande alegria ao pensar que em breve se libertará do menino inimigo. É só matá-lo, e depois poderá dormir o tempo que quiser, tranquilamente.
     Rindo muito, cada vez mais calma, Varka dobra o corpo, pisca os olhos maliciosamente e se aproxima do berço, pisando de leve. Inclina-se sobre o menino, qualquer coisa de trágico empresa uma extrema naturalidade aos seus gestos. Tudo lhe parece agora simples, objetivo – uma sensação de leveza em todos os seus movimentos. As mãos ágeis apalpam o pequeno corpo, sobem até a garganta, e vão apertando, apertando, entrelaçadas, como elos de aço. O menino torna-se azul, contorce-se num rápido e último movimento de desespero, depois estremece apenas, o corpinho frágil e distendido se aquieta para sempre. Está morto.
     Então Varka se estende no soalho, alegre e imensamente feliz, a alma alagada de uma doce sensação de liberdade. E submerge-se num grande sono, profundo e sem sonhos.

Fim
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Leia também:
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.

domingo, 23 de agosto de 2026

Tchekhov - O bilhete premiado

 O bilhete premiado


Anton Tchekhov

O bilhete premiado

     Ivan Dmítritch, homem remediado que vivia com a família na base de uns 1200 rublos por ano, muito satisfeito com seu destino, certa noite, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal.

– Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje – disse sua mulher tirando a mesa. – Dê uma espiada para ver se saiu o resultado do sorteio.
– Saiu – respondeu Ivan Dmítritch -, mas você não penhorou seu bilhete?
– Não. Paguei os juros na terça.
– Qual é o número?
– A série é 9499, bilhete 26.
– Então… Vejamos… 9499 e 26.

     Ivan Dmítritch não acreditava na sorte da loteria e em outra ocasião jamais se daria ao trabalho de verificar a lista. Agora, porém, que não tinha nada para fazer e o jornal estava bem debaixo de seu nariz, percorreu com o dedo de cima para baixo Os números da série. E não é que logo de cara, como que para zombar de sua descrença, já no alto da segunda coluna apareceu de repente, diante de seus olhos, o numero 9499! Sem conferir o número do bilhete nem verificar se tinha lido certo, deixou cair rapidamente o jornal no colo e como se alguém lhe tivesse derramado água na barriga, sentiu um friozinho agradável no fundo do estômago. Era urna sensação de coceira terrível e deliciosa ao mesmo tempo.

– Macha – disse com voz surda -, o 9499 está aqui. A mulher olhou para seu rosto surpreso, assustado, e compreendeu que o marido não estava brincando. 
– 9499? – Perguntou ela, empalidecendo e deixando cair na mesa a toalha dobrada.
– Sim, sim… Está, de verdade!
– E o número do bilhete?
– É mesmo! Ainda falta o número do bilhete. Mas tenha paciência… espere. Então, que tal? De qualquer modo o número de nossa série está, hem? De qualquer modo, entendeu?…

     Ivan Dmítritch olhou para a mulher e sorriu num sorriso largo e apalermado como uma criança a qual tivessem mostrado alguma coisa brilhante. A mulher também sorria. Sentia o mesmo prazer que o marido por ele ter lido somente a série e não ter tido pressa em saber do número do feliz bilhete. É tão angustiante consumir-se e espicaçar-se na esperança de uma felicidade possível!

– A nossa série está – disse Ivan Dmítritch depois de um longo silêncio. – Significa que existe uma possibilidade de termos ganho. Apenas uma possibilidade, mas, apesar de tudo, ela existe!
– Está bem, mas agora, olhe.
– Espere. Ainda teremos tempo a vontade para nos desiludir. Se está na segunda coluna de cima, quer dizer que o prêmio é de 75 mil. Isso não é dinheiro, é uma força, um capital! E se de repente eu olhar para a lista e lá estiver o número 26? Hem? Escute, e se tivermos ganho de verdade?

     Os cônjuges começaram a dar risada e a olhar demoradamente um para o outro, sem falar nada. A possibilidade da ventura deixara-os obnubilados, e eles não conseguiam sequer sonhar, dizer para que precisavam daqueles 75 mil, o que comprariam, para onde iriam. Imaginavam apenas Os números 9499 e 75 mil, desenhavam-nos em sua imaginação, mas a ideia da felicidade, que estava tão próxima, parecia não lhes passar pela cabeça.
     Ivan Dmítritch andou algumas vezes de um lado para outro com o jornal nas mãos e só quando a primeira impressão se acalmou é que, aos poucos, começou a sonhar.

– E se tivermos ganho? – disse. – Seria uma vida nova, uma catástrofe! O bilhete é seu, claro, mas se fosse meu, antes de mais nada, naturalmente eu compraria algum imóvel, algo como uma propriedade, no valor de, digamos, 25 mil; deixaria uns 10 mil para despesas extras: mobília nova… uma viagem… pagamento de dívidas e assim por diante. Os 40 mil restantes colocaria no banco, para render juros…
– Realmente, uma propriedade seria ótimo – disse a mulher sentando-se e deixando cair os braços no colo. Nalgum canto, na região de Tula ou de Orlóv… Em primeiro lugar, não seria preciso alugar nenhuma casa de campo e, em segundo, não deixa de ser uma renda.

     E na imaginação dele começaram a se aglomerar imagens, uma mais poética e aprazível que a outra. E em cada uma delas ele se via satisfeito, tranquilo, saudável e chegou a sentir um calorzinho agradável, um calorzão, mesmo! Lá está ele, depois de ter comido uma sopa de legumes fria como o gelo, de barriga para cima na areia quente, na beira do rio ou no jardim mesmo, embaixo de uma tília… Faz calor… O filho e a filha rastejam perto dele, rolam na areia ou caçam algum bichinho na relva. Cochila docemente sem pensar em nada e sente com todo o corpo o que significa não ter de ir ao serviço nem hoje, nem amanhã, nem depois. E quando cansar de ficar deitado, pode ir ver cortar o feno, ou ir ao bosque, colher cogumelos, ou então ficar observando como os camponeses pescam os peixes com o arrastão.
     Ao pôr do sol, pega um pano, um sabonete e esgueira-se na casa de banho, onde se despe devagarzinho, passa um tempão alisando o peito nu com as palmas das mãos e finalmente cai n’água. Na água, Os peixinhos se agitam em volta das bolhas turvas de sabão e as plantas aquáticas balançam na corrente. Depois do banho, um chá com creme e rosquinhas doces… À noite, um passeio ou uma partida de uíste com os vizinhos.

– Sim, seria bom comprar uma propriedade – diz a mulher, também sonhando. Lê-se em seu rosto que está encantada com os próprios pensamentos.

     Ivan Dmítritch imagina o outono chuvoso, as noites frias, o veranico. Nessa época é preciso andar um tempão pelo jardim, pela horta, pela margem do rio até sentir bem o frio e depois beber um copo cheinho de vodka junto com cogumelos salgados ou um pepino em salmoura e pronto – tomar outro trago. As crianças vêm correndo da horta, trazendo cenoura e nabo. Sente-se o cheiro fresco da terra… Depois, estirar-se no sofá e folhear uma revista qualquer, sem pressa, até que o sono chegue. Cobrir o rosto com a revista, desabotoar o colete e entregar-se…
     Após o veranico o tempo é fechado, ruim. Chove dia e noite. As árvores despidas choram, o vento é úmido e frio. Os cachorros, os cavalos, as galinhas – não há quem não esteja molhado, melancólico, encolhido. Não se tem por onde passear; sair de casa, nem falar! Passa-se o dia inteiro andando de um canto para outro e olhando tristemente pelas janelas embaçadas. Que coisa enfadonha!
     Ivan Dmítritch parou e olhou para a mulher.

– Sabe de uma coisa, Macha, eu iria é para o estrangeiro.

     E ficou pensando como seria bom viajar para o estrangeiro, cruzar o oceano profundo e ir para algum lugar no sul da França, para a Itália… Para a Índia!

– Eu também iria para o estrangeiro correndo – disse a mulher. – Mas olhe o número do bilhete!
– Espere! Daqui a pouco...

     Andou pelo quarto e continuou a pensar. E se a mulher fosse realmente para o estrangeiro? Viajar é bom sozinho, ou em companhia de mulheres despreocupadas, sem compromisso, que vivem o momento presente, e não com aquelas que ficam o tempo todo pensando e falando em crianças, suspirando, tremendo com medo de gastar um copeque que seja. Ivan Dmítritch imaginou sua mulher no vagão, cheia de embrulhos, cestas, pacotes: suspira e queixa-se que a viagem lhe deu dor de cabeça, que gastou muito dinheiro. É preciso correr na estação atrás de água quente, sanduíches, água potável. Almoçar ela não pode, custa caro…

“Tenho certeza que ela iria controlar cada copeque”, pensou ele, olhando para a mulher. “O bilhete é dela, não é meu! E pra que ela precisa ir para o estrangeiro! O que é que lhe falta ver lá de importante? Já sei. Ficará fechada o tempo todo no hotel e não me deixará desgrudar dela um só momento.”

     E pela primeira vez em sua vida reparou que a mulher tinha envelhecido, ficara feia e cheirava a cozinha, enquanto ele ainda era moço, saudável, viçoso, bom para se casar uma segunda vez.

“Claro, tudo isso é bobagem, é besteira”, pensou. “Mas… para que iria ela ao estrangeiro? O que ela aproveitaria lá? Mas iria mesmo… Imagino. Para ela Nápoles ou Klin iriam ser a mesma coisa. Ficaria me atormentando e eu dependeria dela. Tenho certeza de que na hora em que recebesse o dinheiro, iria trancá-lo a sete chaves, como faz o mulherio… Iria escondê-lo de mim… Aos parentes dela tudo, mas para mim, contaria cada copeque.

     Ivan Dmítritch ficou pensando na parentela. Logo que todos esses irmãozinhos, irmãzinhas, titias, titios soubessem do ganho, viriam se arrastando, bancando os mendigos, sorrindo untuosamente, bajulando. Eta gentinha sórdida! Se lhe oferecem a mão, pegam o braço. Se não lhe oferecem, amaldiçoam, rogam pragas, desejam todo tipo de desgraça.
     Ivan Dmítritch lembrou-se de seus parentes e seus rostos, que ele sempre olhara com indiferença, pareciam lhe agora odiosos, repulsivos.

“São uns canalhas”, ele pensou.

     E o rosto da mulher começou também a parecer-lhe odioso, repulsivo. Em seu íntimo começou a ferver um ressentimento contra ela e ele pensou com alegria perversa: “Não entende nada de dinheiro, por isso é avarenta. Se ganhasse, mal me daria cem rublos, e o resto iria direto para o cofre”.
     Já olhava agora para a mulher com ódio e não mais com um sorriso. Ela também olhava para ele com maldade e com ódio. Ela tinha seus próprios sonhos dourados, seus pianos, suas ideias e sabia perfeitamente no que estava pensando o marido. Sabia que seria o primeiro a avançar no que ela teria ganho.

“É bom sonhar por conta dos outros!”, dizia o olhar dela. “Não, você não conseguirá!”.

     O marido compreendeu seu olhar: o ódio ferveu-lhe no peito e para decepcionar sua mulher e fazer-lhe mal olhou rápido na quarta página do jornal e anunciou solene:

– Série 9499, bilhete 46! Não 26!

     A esperança e o ódio desapareceram ambos de repente e, no mesmo instante, Ivan Dmítritch e sua mulher acharam os aposentos escuros, pequenos e abafados, e o jantar que tinham acabado de comer pesado e insosso, e as noites longas e enfadonhas.

– Só o diabo sabe – disse Ivan Dmítritch, começando a implicar.
– Por todo lado que eu pise, só há papéis, migalhas, casquinhas, sei lá. Será que nunca varreram esses quartos! Terei de ir embora de casa, o diabo que me carregue. Vou sair e me enforcar na primeira árvore.

Fim
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Leia também:
A dama do cachorrinho (III) / A dama do cachorrinho (IV) / O bilhete premiado / O inimigo /       .     
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tchekhov - A dama do cachorrinho (IV)

 A dama do cachorrinho e outras histórias


Anton Tchekhov


A dama do cachorrinho

IV

     Ana Sierguéievna passou a viajar a Moscou, para vê-lo. Cada dois, três meses, saía de S., dizendo ao marido que ia consultar um professor de Medicina sobre sua doença de senhora, e o marido acreditava e não acreditava ao mesmo tempo. Em Moscou, hospedava-se no "Bazar Eslavo" e, logo após sua chegada, mandava um recado a Gurov, por um homem de chapéu vermelho. Gurov ia vê-la e ninguém em Moscou sabia disso.
     Certa manhã de inverno, ele estava indo assim a seu encontro (o criado que lhe fora levar o recado na véspera, ao anoitecer, não o encontrara). A filha caminhava ao lado, pois ele quisera levá-la ao colégio, que ficava a caminho. Caía uma neve graúda, molhada.

- Temos três graus acima de zero e, no entanto, cai neve - dizia Gurov à filha. - Mas este calor existe somente na superfície da terra, nas camadas superiores da atmosfera há uma temperatura bem inferior.
- Papai, e por que não há trovões no inverno?

     Explicou-lhe isso também. Enquanto falava, pensava em que estava indo para uma entrevista de amor e que nem viva alma sabia disso e, provavelmente, jamais o saberia. Tinha duas vidas: uma, aparente, que viam e conheciam todos os que o queriam, repassada de verdade e de mentiras convencionais, completamente semelhante às vidas de seus conhecidos e amigos, e outra que decorria em segredo. E por um estranho, talvez casual, acúmulo de circunstâncias, tudo o que era para ele importante, interessante, indispensável, aquilo em que ele era sincero e não enganava a si mesmo, o que constituía o cerne de sua vida, ocorria às ocultas dos demais, enquanto tudo o que formava a sua mentira, a membrana exterior, em que se escondia, para ocultar a verdade, como, por exemplo, seu trabalho no banco, as discussões no clube, a "raça inferior", a ida com a mulher aos espetáculos comemorativos, tudo isso era aparente. E julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, e sempre supunha que em cada homem decorre, sob o manto do mistério, como sob o manto da noite, a sua vida autêntica e mais interessante. Cada existência individual baseia-se no mistério e talvez seja, em parte, esta a razão por que o homem culto se afana tão nervosamente para ver respeitado o mistério individual.
     Tendo acompanhado a filha ao colégio, Gurov dirigiu-se ao "Bazar Eslavo". Tirou a peliça, subiu a escada e bateu mansamente na porta. Ana Sierguéievna, que estava com o vestido cinzento da predileção de Gurov, esperava-o desde a tarde anterior, estava cansada da viagem e da espera. Pálida, olhou-o sem sorrir e, mal ele entrou no quarto, ela se atirou a seu peito. O beijo que se deram foi prolongado, como se não se tivessem visto uns dois anos.

- Bem, como vai a tua vida lá?- perguntou ele. Que há de novo?
- Espere, vou dizer daqui :a pouco... Não posso.

     Ela não podia falar, devido às lágrimas. Virou a cabeça e apertou o lenço contra os olhos.
     
"Bem, que chore um pouco; enquanto isso, vou ficar sentado aí", pensou ele e sentou-se numa poltrona.

     Depois, tocou a campainha e mandou trazer chá. Enquanto o tomava, ela continuava de pé, a cabeça voltada para a janela... Chorava de emoção, da consciência angustiosa de que a vida deles dispusera-se de modo tão triste; viam-se apenas em segredo, escondiam-se das pessoas, como ladrões! Não estava destruída a vida de ambos?

- Ora, basta!- disse Gurov.

     Era evidente, para ele, que aquele amor não acabaria logo. Ana Sierguéievna afeiçoava-se a ele com intensidade crescente, adorava-o e seria inconcebível dizer-lhe que tudo aquilo deveria ter fim, um dia; aliás, ela nem acreditaria nisso.
     Aproximou-se dela, segurou-lhe os ombros, para acarinhá-la e gracejar um pouco e, naquele momento, viu-se no espelho.
     A cabeça dele já estava começando a ficar grisalha. Pareceu-lhe estranho que, nos últimos anos, tivesse envelhecido tanto e ficado mais feio. Os ombros, em que haviam pousado as mãos dele, eram cálidos e estremeciam. Compadeceu-se daquela vida, que era ainda tão tépida e bonita, mas que, provavelmente, estava próxima de empalidecer e fanar-se, como a vida dele. Por que ela o amava assim? Ele sempre parecera às mulheres uma pessoa diferente daquela que era na realidade e elas amavam nele não a sua própria pessoa, mas um homem criado pela imaginação e que elas procuravam sequiosamente na vida; depois, percebido o engano, continuavam, todavia, a amá-lo. E nenhuma delas fora feliz com ele. O tempo passava, Gurov travava relações, unia-se a mulheres, separava-se delas, mas nenhuma vez amara, aquilo podia ser tudo, menos amor.
     E somente agora, quando sua cabeça já estava grisalha, ele amava devidamente, verdadeiramente, pela primeira vez na vida.
     Ana Sierguéievna e ele amavam-se como gente próxima e querida, como marido e mulher, como dois ternos amigos. Parecia-lhes que o próprio fado destinara-os um ao outro e era incompreensível por que ele estava casado e ela também. Lembravam dois pássaros de arribação, macho e fêmea, caçados e obrigados a viver em gaiolas separadas. Perdoaram um ao outro tudo aquilo de que se envergonhavam em seu passado, perdoavam-se tudo no presente e sentiam que aquele amor os transformara.
     Anteriormente, nos momentos de tristeza, ele procurara consolar-se com toda espécie de reflexões, mas agora afastava-as, sentia uma profunda compaixão, queria ser sincero, carinhoso...

- Basta, minha boa, menina. - dizia ele - Chorou e chega... Vamos agora conversar, ver se nos ocorre alguma ideia.
- Corno? Como?- perguntava ela, pondo as mãos à cabeça. - Como?

     Tinham a impressão de que mais um pouco encontrariam a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.

(1899)
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Leia também:
A dama do cachorrinho (III) / A dama do cachorrinho (IV) / O bilhete premiado /     .     

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.

domingo, 2 de agosto de 2026

Tchekhov - A dama do cachorrinho (III)

 A dama do cachorrinho e outras histórias


Anton Tchekhov


A dama do cachorrinho

III

     Em casa, em Moscou, tudo já havia adquirido um aspecto hibernal. Acendiam-se as estufas e, de manhã, quando as crianças preparavam-se para ir ao ginásio e tomavam chá, estava tão escuro que a babá, acendia, por algum tempo, as luzes. Começou o frio. Quando cai a primeira neve, no primeiro dia de passeio de trenó, é aprazível ver a terra branca, os telhados brancos, respira-se suave e docemente e, nessa hora, lembram-se os anos de juventude. As velhas tílias e bétulas, alvas de geada, têm uma expressão benevolente, estão mais próximas do coração que os ciprestes e palmeiras, e, junto delas, não se quer mais pensar no mar e nas montanhas.
     Gurov era moscovita. Regressando a Moscou num dia bom; frio, vestindo a peliça e as luvas de inverno, passeando pela Pietrovka e ouvindo sábado à noite o som dos sinos, aquela viagem que fizera havia pouco e os lugares que vira perderam para ele todo encanto. Mergulhou pouco a pouco na vida moscovita, lia já, sequiosamente, três jornais por dia e afirmava não ler jornais moscovitas por uma questão de princípio. Sentia-se já atraído pelos restaurantes, pelos clubes, pelos jantares festivos, pelas homenagens a alguém, e já ficava lisonjeado pelo fato de ser visitado por advogados e artistas famosos e porque, no clube dos médicos, jogava baralho com um catedrático. Era já capaz de comer toda uma porção de sielianka com frituras¹...

[1] Sielianka é uma sopa densa de carne ou peixe, geralmente muito temperada.

     Passara um mês, mais ou menos, e, Ana Sierguéievna, tinha a impressão, cobrir-se-ia de bruma em sua memória, e somente de raro em raro aparecer-lhe-ia, em sonho, com seu tocante sorriso, tal como outras apareciam. No entanto, decorreu mais de um mês, chegaram os rigores do inverno, mas tudo permanecia nítido na memória, como se, a separação com Ana Sierguéievna tivesse sido na véspera. E as recordações tornavam-se cada vez mais intensas. Quer lhe chegassem ao escritório, em meio à quietude do anoitecer, as vozes das crianças, que preparavam a lição, quer ouvisse um órgão ou uma canção no restaurante, quer ainda uivasse o vento na lareira, tudo ressuscitava, de repente, em sua memória: o que sucedera no quebra-mar, o amanhecer com aquela névoa sobre as montanhas, o navio chegando de Feodóssia, os beijos. Passava muito tempo caminhando pelo quarto e recordando, sorria e, depois, as lembranças transformavam-se em sonhos e o passado misturava-se, em sua imaginação, ao que viria ainda. Não sonhava mais com Ana Sierguéievna, ela o acompanhava por toda parte, como uma sombra, e vigiava-o. Fechando os olhos, via-a e ela parecia mais bonita, mais jovem, mais terna do que fora realmente; e ele próprio aparecia melhor do que tinha sido naqueles dias em Ialta. Ao anoitecer, ela o espreitava de dentro do armário de livros, da lareira, do canto da sala, ele ouvia sua respiração, o frufru carinhoso de suas roupas. Na rua, acompanhava mulheres com o olhar, procurando alguma que a ela se assemelhasse...
     Começara a oprimi-lo um desejo intenso de partilhar com alguém suas recordações. Mas, em casa, não se podia falar, de seu amor e, fora, não havia com quem. Não ia fazê-lo com os moradores do prédio ou no banco em que trabalhava. Além disso, falar do quê? Amara ele então? Havia, porventura, algo belo, poético, edificante ou simplesmente interessante, em suas relações com Ana Sierguéievna? Tonava-se necessário conversar, de modo indefinido, sobre amor, sobre mulheres, e ninguém adivinhava do que se tratava, e somente sua mulher movia as sobrancelhas escuras, dizendo:

- Não fica nada bem a você, Dimítri, o papel de fátuo.

     Certa vez, à noite, saindo do clube dos médicos, em companhia de um funcionário, seu parceiro no jogo, não se conteve e disse:

- Se soubesse que mulher encantadora eu conheci em Ialta!

     O funcionário sentou-se no trenó e partiu, mas, de repente, voltou-se e chamou-o:

- Dmítri Dmítritch!
- Que é?
- Você tinha razão: o esturjão não estava de todo fresco!

     Aquelas palavras, tão comuns, deixaram Gurov indignado, sem que soubesse por que, pareceram-lhe humilhantes, impuras. Que selvagens costumes, que rostos! Que noites estultas, que dias desinteressantes, anódinos! O jogo desenfreado, a gula, a bebedeira, as imutáveis conversas sobre o mesmo assunto. As ocupações desnecessárias e as conversas invariáveis ocupavam a melhor parte dó tempo, as melhores energias e, por fim, sobrava apenas uma vida absurda, sem asas, uma mixórdia qualquer, da qual não se podia fugir, como se se estivesse num manicômio ou numa prisão!
     Ficou a noite toda sem dormir, indignando-se, e passou o dia seguinte com dor de cabeça. Nas noites que se seguiram, dormiu mal também, ficava sentado na cama, pensando, ou andava de um canto a outro do quarto. Aborrecia-se com as crianças, com o banco, não tinha vontade de ir a lugar algum, de falar em coisa alguma.
     Nos feriados de dezembro, preparou-se para viajar. Disse à mulher que ia a Petersburgo, a fim de pedir certos favores de pessoas influentes, para um jovem, mas viajou para S. Para quê? Ele mesmo não sabia ao certo. Tinha vontade de ver Ana Sierguéievna, falar com ela, ajeitar uma entrevista, se possível.
     Chegou a S. de manhã e alugou o melhor quarto do hotel; o assoalho estava ali inteiramente forrado com pano cinzento, de uniforme militar; sobre a mesa, havia um tinteiro, pardo de poeira, ornado de um cavaleiro que perdera a cabeça e mantinha levantado um braço com chapéu. O porteiro deu-lhe as necessárias informações: Von Dideritz morava na rua Staro-Gontchárnaia, em casa própria; era perto do hotel, ele vivia com fartura, possuía cavalos, todos o conheciam na cidade. O porteiro pronunciava: "Dridiritz".
     Gurov caminhou, sem se apressar, para a Staro-Gontchárnaia e procurou a casa. Bem em frente, estendia-se um muro cinzento, comprido, coberto de pregos.

"Qualquer um teria vontade de fugir de um muro assim", pensou Gurov, olhando ora para as janelas, ora para o muro.

     Calculava: não era dia de expediente, e o marido estaria provavelmente em casa. Além disso, seria falta de tato entrar e deixá-la perturbada. Se mandasse um bilhete,. este poderia cair nas mãos do marido e então tudo estaria perdido. O melhor seria confiar-se ao acaso. E ele passou muito tempo andando pela rua e junto ao muro, esperando aquele acaso. Viu atravessar o portão um mendigo, que foi assaltado por cachorros; passada uma hora, ouviu tocar o piano, mas os sons chegavam lhe fracos, pouco nítidos. Provavelmente, era Ana Sierguéievna quem tocava. De repente, abriu-se a porta principal e por ela saiu uma velha, acompanhada pelo lulu branco, que ele conhecia. Gurov quis chamar o cachorro, mas, de súbito, começou a bater-lhe precipitadamente o coração e, perturbado, não conseguiu lembrar o nome do lulu.
     Ficou andando; odiava com intensidade crescente o muro cinzento e pensava já, com irritação, que Ana Sierguéievna esquecera-o e talvez já se divertisse com outro, o que seria muito natural na condição de mulher jovem, obrigada a ver, de manhã à noite, aquele maldito muro. Voltou para o quarto do hotel e passou muito tempo sentado no divã, sem saber o que fazer; jantou, depois dormiu bastante.

"Quanta estupidez e nervosismo", pensou, acordando e olhando para as janelas escuras, pois anoitecera. "Dormi não sei para quê. E o que vou fazer de noite?"

     Estava sentado na cama, com um cobertor barato, cinzento, que parecia de hospital, e zombava de si mesmo, com despeito:

"Aí tem você a dama do cachorrinho Aí tem você uma aventura. .. Por isso mesmo, fique sentado aí."

     Ainda de manhã, na estação, havia-lhe saltado aos olhos um cartaz, de letras muito graúdas, anunciando a estreia de "Gueixa". Lembrou-se disso e foi ao teatro.

"É bem possível que ela costume frequentar as estreias", pensou.

     O teatro estava cheio. Como sempre acontece nos teatros de província, havia uma névoa pairando sobre os lustres, a galeria inquietava-se ruidosamente. Antes de começar o espetáculo, os elegantes locais ficavam de pé, na primeira fila, as mãos atrás. No camarote do governador, estava sentada, na frente, a filha deste, de boá, enquanto o próprio governador ocultava-se modestamente atrás de uma cortina, deixando aparecer apenas as mãos. O pano de cena balançava-se, os músicos da orquestra passaram muito tempo afinando os instrumentos. Enquanto os espectadores entravam e ocupavam os lugares, Gurov ficou procurando ansiosamente com os olhos.
     Ana Sierguéievna entrou também. Sentou-se na terceira fila e, quando Gurov olhou, sentiu apertar-se o coração e compreendeu com nitidez que não existia, agora, para ele, em todo o mundo, pessoa mais próxima, querida e importante. Aquela pequena mulher, perdida no meio da multidão provinciana, que não se distinguia das demais e tinha nas mãos um lorgnon vulgar, enchia-lhe agora a vida, era sua aflição e sua alegria, a única felicidade que almejava. Ao som da orquestra ordinária, dos péssimos violinos locais, ele pensava em como ela era bonita. Pensava e sonhava.
     Entrou com Ana Sierguéievna e sentou-se a seu lado um homem moço, de suíças pequenas, muito alto um tanto curvado. A cada passo, balançava a cabeça e parecia estar cumprimentando incessantemente alguém. Era provavelmente o marido, que ela, num acesso de amargura, chamara, lá em Ialta, de lacaio. Com efeito, havia em seu vulto alongado, nas suíças, na calva pequena, algo modesto e servil, sorria com doçura e, na lapela, fulgia-lhe uma douta insígnia, que parecia também uma chapinha de lacaio.
     No primeiro intervalo, o marido foi fumar, ela permaneceu sentada. Gurov, que estava também na plateia, aproximou-se dela e disse, com voz trêmula e um sorriso forçado:

- Boa noite.

     Ela o olhou e empalideceu, depois tornou a olhá-lo apavorada, sem acreditar no que via, e apertou fortemente nas mãos, ao mesmo tempo, o leque e o lorgnon, lutando, sem dúvida, consigo mesma para não desmaiar. Permaneceram calados. Ela estava sentada, ele, de pé, assustado com a perturbação dela e não ousando sentar-se ao lado. Os violinos e a flauta, que estavam sendo afinados pelos músicos, começaram a cantar, veio uma sensação de medo, tinham a impressão de que em todos os camarotes havia gente olhando para eles. Mas, eis que ela se levantou e caminhou depressa para a saída; Gurov acompanhou-a. Caminharam sem destino. por corredores e escadas, ora acima, ora abaixo, e aos seus olhos perpassou gente com uniformes de juiz, de estudante; de funcionário, todos com as respectivas insígnias. Apareciam senhoras, peliças em cabides, soprava um vento encanado, repassado do cheiro de tabaco. E Gurov, que tinha o coração batendo precipitadamente, pensou:

"Oh, meu Deus! Para que essa gente, essa orquestra..."

     Naquele momento, lembrou-se de repente de como, certa noite, numa estação de estrada de ferro, tendo acompanhado Ana Sierguéievna ao trem, dissera a si mesmo que tudo estava terminado e que não se tornariam a ver jamais. Mas, como estava longe ainda o fim de tudo!
     Ela deteve-se numa escada estreita e sombria? perto da inscrição: "Entrada para o anfiteatro".

- Como você me assustou!- disse, respirando pesada mente e ainda pálida, atordoada.- Oh, como me assustou! Estou meio morta. Para que veio até aqui? Para quê?
-  Mas, compreenda, Ana, compreenda...- disse ele a meia voz e apressadamente.- Eu lhe imploro, compreenda...

     Ela o olhava com expressão de medo, de súplica, de amor, olhava-o fixamente, para reter com mais intensidade na memória os traços de seu rosto.

-  Sofro tanto! - prosseguiu ela, sem o ouvir. Todo esse tempo, só pensei em você, só vivi com esse pensamento. Ao mesmo tempo, tinha vontade de esquecer, esquecer, mas, para que, para que foi que você veio?

     Mais em cima, entre dois lances de escada, havia dois ginasianos fumando e olhando para baixo, mas Gurov não se importava com coisa alguma, atraiu para si Ana Sierguéievna e pôs-se a beijar-lhe o rosto, as faces, as mãos.

- Que está fazendo, que está fazendo?- disse ela horrorizada, afastando-o. - Perdemos a cabeça. Vá embora hoje mesmo, neste mesmo instante... Peço-lhe por tudo o que há de sagrado, imploro-lhe... Vem gente aí!

     Alguém estava subindo a escada.

- Você deve ir..- prosseguiu Ana Sierguéievna, num murmúrio. Está ouvindo, Dmítri Dmítritch? Vou visitá-lo em Moscou. Nunca fui feliz, mas agora sou infeliz e jamais, jamais terei felicidade! Não me obrigue, então, a sofrer mais ainda. Juro-lhe que irei a Moscou. E agora, separemo-nos! Meu querido, meu bom, meu amado, separemo-nos.

     Ela apertou-lhe a mão e começou a descer rapidamente a escada, voltando a cada momento a cabeça, e em seus olhos percebia-se que, realmente, não era feliz... Gurov permaneceu algum tempo parado, ouvindo seus passos; depois, procurou o cabide e saiu do teatro.

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Leia também:
A dama do cachorrinho (III) / A dama do cachorrinho (IV).     

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

sábado, 18 de julho de 2026

Tchekhov - A dama do cachorrinho (II)

 A dama do cachorrinho e outras histórias


Anton Tchekhov


A dama do cachorrinho

II

     Fazia uma semana que a conhecia. Era dia feriado. Dentro de casa, o ar estava sufocante e, na rua, o vento arrastava a poeira em turbilhão e arrancava os chapéus. Dava sede o dia inteiro, e Gurov entrava com frequência no pavilhão, oferecendo a Ana Sierguéievna ora água com xarope, ora sorvete. Ficava-se sem saber onde se meter.
     Ao anoitecer, depois que o tempo amainou um pouco, foram até o quebra-mar, para assistir à chegada de um navio. Havia muita gente passeando no cais; reunira-se um grupe, com flores, para esperar alguém. Distinguiam-se nitidamente duas particularidades da bem vestida gente de Ialta: as senhoras de idade trajavam-se como jovens e havia muitos generais.
     Em virtude do mar agitado; o navio chegou tarde, quando o sol já se havia posto, e, antes de encostar ao cais, ficou, por muito tempo, fazendo manobra. Ana Sierguéievna olhava por um lorgnon para o navio e para os passageiros, como se estivesse à procura de gente conhecida, e seus olhos fulguravam quando se dirigia a Gurov. Falava muito, fazia perguntas entrecortadas, e ela própria esquecia imediatamente o que havia perguntado. Acabou perdendo o lorgnon.
     A multidão bem vestida estava se dissolvendo, não se distinguiam mais os rostos, o vento amainara de todo, mas Gurov e Ana Sierguéievna permaneciam parados, como se esperassem a descida de mais alguém do navio. Ela estava já silenciosa, cheirando flores, sem olhar para Gurov.

- O tempo melhorou - disse ele.- Aonde iremos agora? Vamos tomar um carro?

     Ela não respondeu.
     Ele a olhou então fixamente e, de súbito, abraçou-a e beijou-lhe os lábios; foi envolvido pelo perfume e pela umidade das flores e, no mesmo instante, espiou assustado em redor, para certificar-se de que ninguém os vira.

- Vamos a sua casa...- disse em voz baixa.
 
     E caminharam depressa.
     O ambiente do quarto dela era sufocante e cheirava a perfumes, que havia, comprado numa loja japonesa. Olhando-a agora, Gurov pensou: "Quantos encontros diferentes acontecem na vida!", O passado deixara-lhe a lembrança de mulheres despreocupadas, benevolentes, alegres de amor, e que lhe eram agradecidas pela felicidade, embora muito breve, que lhes proporcionava; de outras, como, por exemplo, sua mulher, que amavam sem sinceridade, com palavras supérfluas, afetadamente, com histeria, com, uma expressão que parecia significar não ser aquilo amor, nem paixão, mas algo mais significativo; e ainda de outras duas ou três, muito bonitas, frias, em cujo rosto aparecia, de repente, uma expressão rapace, um desejo insistente de tirar, arrancar da vida mais do que esta pode dar, e eram mulheres que não estavam mais na primeira juventude, birrentas, voluntariosas, pouco inteligentes; quando Gurov tornava-se indiferente a elas, sua beleza passava a despertar nele ódio e julgava, ver escamas no rendado de suas roupas brancas.
     Mas ali persistia a falta de coragem, uma angulosidade de juventude inexperiente, um sentimento de timidez; e havia ainda uma sensação de perturbação, como se alguém tivesse, de repente, batido na porta. Ana Sierguéievna, esta dama do cachorrinho, encarou o que sucedera de um modo particular, muito seriamente, como se fosse a sua perdição; assim parecia, e era estranho e fora de propósito. Murcharam-Ihe os traços e os cabelos compridos penderam-lhe triste mente dos lados do rosto; ficou pensativa, em atitude desolada, como a pecadora de um quadro antigo.

- Isto não está bem- disse ela.- Você, agora, é o primeiro a não me estimar.

     No quarto, havia uma melancia sobre a mesa. Gurov cortou um pedaço e começou a comê-lo, sem se apressar. Decorreu pelo menos meia hora em silêncio.
     Ana Sierguéievna estava tocante, emanava dela a pureza de uma mulher correta, ingênua, que vivera pouco. A vela solitária, que ardia sobre a mesa, mal lhe iluminava o rosto, mas se via que estava sofrendo.

- Por que é que eu poderia deixar de estimá-la? perguntou Gurov.- Você mesma não sabe o que diz.
- Que Deus me perdoe!- disse ela e seus olhos marejaram-se.- Isto é horrível. 
- Você parece que está se justificando.
- Com que vou me justificar? Sou uma mulher má, ignóbil, desprezo-me e nem penso em me defender. Não enganei o marido, mas a mim mesma. E não foi somente agora, mas há muito que me engano. Meu marido talvez seja um homem bom, honesto, mas é um lacaio! Não sei direito o que faz na repartição e como cumpre as obrigações, mas sei somente que é um lacaio. Quando me casei com ele, tinha vinte anos, torturava-me a curiosidade, eu queria encontrar algo melhor. Dizia-me: "Existe, afinal, uma outra vida". Tinha vontade de viver! Viver e viver ainda... Abrasou-me a curiosidade... você não 'compreende isto, mas, juro por Deus, eu não me possuía mais, algo me sucedia, ninguém me poderia deter. Disse ao marido que estava doente e vim para cá. . . E, aqui, estava sempre andando como que atordoada, como uma louca. . . e eis que me tornei uma mulher infame, vulgar, e qualquer um pode me desprezar.

     Gurov já estava se aborrecendo de ouvir aquilo, irritava-o aquele tom ingênuo, aquele arrependimento tão inesperado e fora de propósito. Não fossem as lágrimas nos olhos e poder-se-ia pensar que ela estava brincando ou desempenhando um papel.

- Não compreendo - disse ele suavemente. - O que é que você quer? 

     Ela escondeu o rosto em seu peito e apertou-se contra ele.

- Acredite, acredite em mim, eu lhe imploro... Amo uma vida honesta, pura, o pecado me repugna, eu mesma não sei o que faço. A gente do povo diz: o diabo tentou. E eu posso também dizer agora, a meu respeito, que o diabo me tentou.
- Basta, basta... - balbuciou ele.

     Olhava-a nos olhos imóveis, assustados, beijava-a, falava-lhe com ternura, e ela, aos poucos, acalmou-se e voltou-lhe a alegria. Puseram-se a rir.
     Depois, quando saíram, não havia viva alma à beira-mar. A cidade com seu ciprestes parecia completamente morta, mas o mar ainda fazia ruído e batia contra a margem. Uma barcaça balançava-se sobre as ondas e tremeluzia nela, sonolenta, uma pequena lanterna. 
     Encontraram um carro de aluguel e foram a Oreanda.

- Ainda há pouco, soube no vestíbulo o teu sobrenome: na portaria está escrito "Von Dideritz"- disse Gurov. Teu marido é alemão?
- Não, parece que tinha um avô alemão, mas ele próprio é ortodoxo. 

     Em Oreanda, ficaram sentados num banco, perto da igreja, olhando em silêncio o mar. Ialta mal se via através da névoa matinal, nuvens brancas permaneciam imóveis, junto aos cumes das montanhas. A folhagem não se movia sobre as árvores, gritavam cigarras, e o som monótono, abafado, do mar, que chegava de baixo, falava de descanso, do sono eterno que nos aguarda. Assim tumultuara lá embaixo, quando ainda não existiam Ialta, nem Oreanda; o mesmo ruído faz agora e fará, do mesmo modo indiferente e abafado, quando não existirmos mais. E nessa permanência, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, oculta-se talvez o fundamento de nossa eterna salvação, do incessante movimento de vida sobre a terra, da perfeição imorredoura. Sentado ao lado da jovem mulher, que, ao alvorecer, parecia tão bonita, acalmado e embevecido face ao ambiente encantado, face ao mar, às montanhas, às nuvens, ao amplo céu, Gurov pensava em como, na realidade, se se refletir direito sobre isto, tudo é belo neste mundo, tudo, com exceção do que nós mesmos pensamos e fazemos, quando nos esquecemos dos objetivos elevados da existência e de nossa própria dignidade humana.
     Acercou-se deles um homem, provavelmente um guarda, olhou-os e se afastou. E este pormenor pareceu igualmente misterioso e belo. Viu-se chegar de Feodóssia um navio, iluminado pela aurora e já de luzes apagadas. 

- A erva está coberta de orvalho- disse Ana Sierguéievna, depois de um silêncio.
- Sim. É tempo de ir para casa. 

     Regressaram à cidade.
     Depois, encontravam-se sempre ao meio-dia, à beira-mar, almoçavam juntos, jantavam, passeavam, encantavam-se com o mar. Ela queixava-se de insônia e de que o coração lhe batia de modo alarmante, fazia-lhe sempre as mesmas perguntas, perturbada ora pelo ciúme, ora pelo temor de que ele não a estimasse o suficiente. E muitas vezes, no parque ou em algum jardinzinho público, quando não havia ninguém nas proximidades, ele a atraía de repente para si e beijava-a apaixonado, Aquele ócio. completo, aqueles beijos em pleno dia, repassados do temor de serem surpreendidos, o calor, a maresia e o perpassar incessante de gente ociosa, bem vestida e nutrida, pareceram havê-la transformado completamente. Dizia a Ana Sierguéievna como ela era bonita e tentadora, demonstrava uma impaciência apaixonada, não a deixava por um momento. Ela ficava frequentemente pensativa, pedindo-lhe sempre para confessar que não a estimava, não a amava um pouco sequer, e que via nela simplesmente uma mulher vulgar. Quase sempre, quando já estava adiantado o anoitecer, iam para fora da cidade, para Oreanda ou para a cachoeira. Os passeios eram sempre bem sucedidos, deixando invariavelmente impressões magníficas, grandiosas.
     Esperavam a vinda do mando. Mas chegou dele uma carta, em que informava estar com a vista dolorida e implorava à mulher que regressasse o quanto antes. Ana Sierguéievna apressou-se a voltar.

- É bom que eu parta - disse ela a Gurov.- É próprio destino.

     Partiu de carro e ele a acompanhou. Viajaram um dia inteiro. No vagão do trem-correio, ao soar o segundo sinal, ela disse:

- Deixe que olhe para você mais uma vez. .. uma vez mais... Assim.

     Não chorava, mas estava triste, parecia doente, e tremia-lhe o rosto... 

- Vou pensar em você... lembrar - disse ela. - Fique com Deus. Não guarde má lembrança de mim. É uma despedida para sempre, tem que ser assim, pois nem nos devíamos ter encontrado. Bem, vá com Deus.

     O trem partiu veloz, suas luzes desapareceram e, instantes depois, não se ouvia mais qualquer ruído, como se tudo se tivesse combinado propositalmente, para fazer cessar o quando antes aquele doce alheamento, aquela loucura. Sozinho na plataforma da estação, e olhando para a negra distância, Gutov ficou ouvindo o canto dos grilos e a zoada dos fios telegráficos, com a sensação de haver acordado somente naquele instante. Pensava que em sua vida ocorrera mais uma aventura, um episódio, que também terminara, deixando apenas uma recordação... Estava comovido, triste, e sentia um ligeiro arrependimento. Aquela mulher jovem, que não veria mais, não fora feliz com ele. Tinha sido com ela afável, afetuoso, mas, apesar de tudo, em seu modo de tratá-la, no tom de sua voz e nos carinhos que lhe fizera transparecia a sombra de uma ligeira ironia, o sentimento algo rude de uma superioridade de homem feliz, que, além do mais, tinha quase o dobro de idade. Durante todo o tempo, ela o chamara de bondoso, extraordinário, superior. Certamente, Gurov aparecia-lhe como alguém diferente do que era na realidade; por conseguinte enganava-a sem querer...
     Na estação, já cheirava a outono, a noite estava fresca.

"É tempo de partir também para o norte - pensou Gurov, saindo da plataforma. "É tempo!"

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Leia também:

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

sábado, 11 de julho de 2026

Tchekhov - A dama do cachorrinho (I)

 A dama do cachorrinho e outras histórias


Anton Tchekhov


A dama do cachorrinho

I

     Dizia-se que havia aparecido à beira-mar uma nova personagem: uma senhora com cachorrinho. Dmítri Dmítritch Gurov, que já passara em Ialta duas semanas e habituara-se àquela vida, começou a interessar-se também por caras novas. Sentado no pavilhão de Verne, viu passar à beira-mar uma jovem senhora, de mediana estatura, loura, de boina. Corria atrás dela um lulu branco.
     Mais tarde, encontrou-a diversas vezes ao dia, no parque e nos jardinzinhos públicos. Passeava sozinha, sempre com a  mesma boina e acompanhada do lulu branco. Ninguém sabia quem era e chamavam tia simplesmente: a dama do cachorrinho.

"Se está aqui, sem marido e sem conhecidos", calculou Gurov, "não seria mal travar relações com ela".

     Embora com menos de quarenta anos, ele tinha já uma filha de doze e dois filhos no ginásio. Haviam-no casado cedo, quando cursava ainda o segundo ano da universidade, e agora sua mulher parecia vez e meia mais velha que ele. Era uma mulher alta, de sobrancelhas escuras e porte rígido, importante, grave e "pensante", como ela mesma se chamava. Lia muito, escrevia carta simplificando a ortografia, chamava o marido de Dimítri em lugar de Dmítri, e ele, secretamente, considerava-a pouco inteligente, tacanha, deselegante, temia-a e não gostava de ficar em casa. Havia muito que passara a traí-la, fazia-o com frequência e, provavelmente por este motivo, referia-se quase sempre mal às mulheres; quando, em sua presença, falavam nelas, exclamava:

- Raça inferior!

     Parecia-lhe que fora suficientemente instruído por sua amarga experiência, para chamá-las como lhe aprouvesse, mas, apesar de tudo, não poderia passar dois dias sem a "raça inferior". Aborrecia-se em companhia de homens e mostrava-se frio, pouco loquaz, mas, encontrando-se no meio de mulheres, sentia-se despreocupado e sabia do que falar e como se portar; era-lhe, mesmo, fácil calar-se em companhia delas. Em seu aspecto exterior, em seu gênio, em toda a sua personalidade, havia algo atraente, imperceptível, que predispunha as mulheres a seu favor, que as atraía; ele sabia disso e, por sua vez, sentia-se impelido para elas.
     Uma experiência variada, realmente amarga, ensinara-lhe, havia muito, que toda aproximação, a qual constitui a princípio uma variação tão agradável na vida e apresenta-se como uma aventura ligeira e aprazível, converte-se invariavelmente, em se tratando de pessoas corretas, especialmente moscovitas, indecisas e pouco dinâmicas, num verdadeiro, problema,. extraordinariamente complexo, e a situação, por fim, torna-se . verdadeiramente difícil. Mas, a cada novo encontro com uma mulher interessante, essa experiência escapava-lhe da memória, vinha-lhe uma vontade de viver, e tudo parecia simples e divertido.
     Eis que certa vez, à noitinha, estava jantando no jardim, e a senhora de boina aproximou-se, em passo lento, para ocupar a mesa vizinha. A expressão de seu rosto, o andar, a roupa, o tipo de penteado, diziam-lhe que ela era de boa sociedade, casada, estava em Ialta pela primeira vez, sozinha, e que se aborrecia. Havia muita mentira nas histórias que corriam sobre a depravação dos costumes locais, ele desprezava aquelas histórias e sabia que, geralmente, eram inventadas por gente que gostaria de pecar se soubesse fazê-lo, mas, quando a senhora sentou-se à mesa que ficava a três passos da sua, ele se lembrou daquelas histórias sobre fáceis conquistas e passeios na montanha, e tomou dele a ideia tentadora de uma ligação fulminante, de um romance com uma mulher desconhecida, da qual não se conhece o nome, nem o sobrenome.
     Chamou carinhosamente o lulu e, quando este se aproximou, ameaçou-o com o dedo. O lulu rosnou. Gurov tornou a ameaçá-lo.
     A senhora olhou para ele e baixou os olhos.

- Não morde - disse ela e corou.
- Posso dar-lhe um osso?- e, quando ela assentiu com a cabeça, ele perguntou afavelmente: - A senhora chegou a Ialta há muito tempo?
- Há uns cinco dias.
- E eu já estou completando aqui a segunda semana. 

     Seguiu-se um silêncio.

- O tempo passa depressa e, no entanto, a gente se aborrece, tanto aqui! - disse ela, sem olhar o interlocutor.
- É apenas uma convenção dizer que aqui é aborrecido. Um habitante de Biélev ou de Jizdra vive em sua terra e não se aborrece, mas, chegando aqui, repete: "Ah; que cacete! Ah, que poeira!". Pode-se pensar que chegou de Granada.

     Ela riu. Continuaram a comer em silêncio, como desconhecidos. Depois do jantar, porém, caminharam lado a lado e iniciou-se, entre eles, uma conversa ligeira, brincalhona, de gente livre, satisfeita consigo, e à qual fosse indiferente aonde ir e do que falar. Ficaram passeando e conversaram sobre o modo estranho, pelo qual estava iluminado o mar: a água tinha uma cor lilás, macia e tépida, e sobre ela a lua deitava uma faixa dourada. Falavam em como o ar ficava sufocante, após um dia de calor. Gurov contou que era moscovita, formado em Filologia, mas que trabalhava num banco; noutros tempos, preparara-se para cantar num teatro particular de ópera, mas desistira; possuía em Moscou duas casas... Por sua vez, soube dela que fora criada em Petersburg, mas casara-se na cidade de S., onde residia havia dois anos, que passaria ainda em Ialta cerca de um mês e que era provável vir buscá-la o marido, que também queria descansar. Não sabia explicar direito em que repartição, ele trabalhava, e ela mesma achava engraçado esse fato. Gurov soube, ainda, que ela se chamava Ana Sierguéievna.
     Voltando para o quarto, pensou nela e em que, no dia seguinte; certamente haveria de encontrá-la. Deitando-se para dormir, lembrou-se de que, ainda há tão pouco tempo, ela estivera no colégio, estudara como agora a filha dele, lembrou-se também de quanta irresolução e angulosidade havia ainda em seu riso, em seu modo de falar com um desconhecido; provavelmente, era a primeira vez que se encontrava sozinha, em tais circunstâncias, seguida e contemplada, e que alguém lhe dirigia a palavra, com um objetivo secreto que ela não podia deixar de adivinhar. Lembrou-se também de seu pescoço esguio, frágil, de seus bonitos olhos cinzentos.

"Apesar de tudo, há nela qualquer coisa que inspira pena"; pensou, adormecendo.

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Leia também:
A morte do funcionário / O enxoval / Aniúta / A dama do cachorrinho (I) / A dama do cachorrinho (II) /     

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

domingo, 5 de julho de 2026

Tchekhov - Aniúta

A dama do cachorrinho e outras histórias

Anton Tchekhov


Aniúta

     No mais barato dos quartinhos mobiliados do “Lissabon”¹, o estudante do terceiro ano de medicina Stepan Klotchkov decorava com afinco a matéria do curso, andando de um lado para o outro. De tanto decorar, sem uma pausa para descanso, sua garganta ficou seca e gotas de suor brotaram na sua testa.

[1] Uma entre várias casas de cômodos que havia na época, onde se alugavam quartos mobiliados. (N.T.)

     Junto à janela, que tinha os cantos dos vidros cobertos de arabescos de gelo, estava sentada sua inquilina Aniúta, uma moça morena, pequenina, magrinha, de uns 25 anos, muito pálida, com tímidos olhos acinzentados. Inclinada para frente, ela bordava com linha vermelha a gola de uma camisa masculina. O trabalho era urgente... O relógio do corredor bateu duas horas da tarde, e o quartinho ainda não tinha sido arrumado. Um cobertor embolado, travesseiros atirados aqui e ali, livros, roupas, uma grande bacia suja cheia de água com sabão onde boiavam pontas de cigarro, lixo no chão – dava a impressão de que havia um monte de coisas amarfanhadas atiradas de propósito...

– O pulmão direito é formado por três partes... – recitou Klotchkov. – Os limites! A parte superior, na parede anterior do tórax, abrange até quatro ou cinco costelas; na superfície lateral, até a quarta costela... atrás, até a spina scapulae²...

[2] Termo de anatomia em latim: espinha da escápula ou da omoplata. (N.T.)

     Em um esforço para imaginar o que acabara de ler, Klotchkov levantou os olhos para o teto. Não conseguindo uma imagem clara, começou a apalpar em si mesmo, através do colete, as costelas superiores.

– Estas costelas parecem teclas de piano – disse ele. – Para não errar na contagem, é indispensável acostumar-se com elas. Será necessário estudar no esqueleto e em pessoas vivas... Venha cá, Aniúta, deixe eu me orientar.

     Aniúta largou o bordado, tirou a blusa e endireitou o corpo. Klotchkov sentou-se na frente dela, franziu o cenho e começou a contar as costelas.

– Hum... Não sinto a primeira costela... Ela fica atrás da clavícula... Esta aqui deve ser a segunda costela... É isso... E esta é a terceira... Esta é a quarta... Hum... É isso. Por que está se encolhendo?
– Os dedos do senhor estão frios!
– Ora, ora, não vai morrer disso, não fique se remexendo. Então, esta é a terceira costela, e esta é a quarta. Você é magricela, mas quase não se consegue apalpar as costelas... Esta é a segunda, esta é a terceira... Não, assim fica confuso e não se tem uma visão clara... É necessário desenhar... Onde está meu carvão?

     Klotchkov pegou o pedaço de carvão e riscou no peito de Aniúta algumas linhas paralelas, correspondentes às costelas.

– Formidável! Claro como a palma da minha mão... Bem, agora podemos dar batidinhas. Fique em pé!

     Aniúta levantou-se e ergueu o queixo. Klotchkov ficou tão absorvido dando pancadinhas que não notou que os lábios, o nariz e os dedos da moça estavam azuis de frio. Aniúta tremia e receava que, se notasse seu tremor, o estudante desistisse de desenhar com o carvão e depois não fizesse uma boa prova.– Agora está tudo claro – disse Klotchkov, parando de bater.

– Fique aí sentada e não apague o carvão enquanto eu decoro mais umas coisinhas.

     E o estudante pôs-se novamente a caminhar e a memorizar a matéria. Aniúta, com listas pretas no peito, como se estivesse tatuada, ficou sentada, encolhida de frio e pensando. Em geral, ela falava muito pouco, estava sempre calada e pensava, pensava...
     Nos seis ou sete anos em que perambulou por quartos mobiliados, como o de Klotchkov, ela conhecera uns cinco rapazes. Agora todos eles haviam terminado seus cursos, ficaram importantes e, naturalmente, como pessoas da sociedade, há muito a esqueceram. Um deles mora em Paris, dois são médicos, o quarto é um pintor, e o quinto, dizem, já é até catedrático. Klotchkov é o sexto... Em breve ele também terminará seu curso, ficará importante. Sem dúvida, o futuro será maravilhoso, e provavelmente Klotchkov será um grande homem, mas o presente é muito ruim: Klotchkov não tem tabaco nem chá, e restaram quatro pedacinhos de açúcar. Ela precisava terminar o quanto antes o bordado, levar para a mulher que o havia encomendado e depois comprar tabaco e chá com os vinte e cinco copeques que ia receber.

– Posso entrar? – ouviu-se atrás da porta.

     Aniúta atirou rapidamente um xale de lã sobre os ombros. Entrou o pintor Fetíssov.

– Vim lhe fazer um pedido – começou ele, dirigindo-se a Klotchkov com um olhar feroz por baixo dos cabelos que lhe caíam na testa. – Faça-me um favor: me empreste sua maravilhosa donzela por umas duas horinhas! Estou pintando um quadro e sem um modelo vivo, entende, é completamente impossível!
– Ah, com prazer! – concordou Klotchkov. – Vá, Aniúta.
– O que eu já não vi lá! – murmurou Aniúta.
– Ah, deixa disso! A pessoa está pedindo pelo bem da arte, e não para alguma bobagem. Por que não ajudar, se você pode?

     Aniúta pôs-se a vestir a roupa.

– O que está pintando? – perguntou Klotchkov ao pintor.
– Psiquê. O tema é bom, mas não estou conseguindo, tenho de mudar o tempo todo de modelo. Ontem pintei com uma que tinha os pés azuis. Perguntei: “Por que seus pés estão azuis?” É porque as meias soltam tinta”, disse ela. E você continua a decorar! É feliz, tem paciência para isso.
– A medicina é uma coisa que sem decoreba não dá.
– Hum... Desculpe, Klotchkov, mas você vive numa terrível imundície... Só Deus sabe como você vive!
– Quer saber como? Não posso viver de outro modo... Meu pai só me manda doze rublos por mês, e com esse dinheiro é impossível viver decentemente.
– Bem, isso é verdade... – disse o pintor, fazendo uma careta de nojo. – Mas mesmo assim é possível viver um pouco melhor... Um homem culto tem obrigação de ter estética. Não é verdade? Mas isto aqui, só o diabo entende. A cama não está arrumada, água suja, lixo... mingau de ontem no prato... eca!
– É verdade – disse o estudante, confuso –, mas Aniúta hoje não teve tempo de arrumar. Ficou ocupada o dia inteiro.

     Depois que Aniúta e o pintor saíram, Klotchkov deitou-se no divã e voltou à memorização. Sem querer, adormeceu. Meia hora depois, ao acordar, apoiou a cabeça nas mãos e afundou-se em pensamentos sombrios. Lembrou-se das palavras do pintor sobre a necessidade do homem culto de viver com estética, e, de fato, o ambiente do seu quarto agora lhe pareceu nojento, repulsivo. Parecia imaginar com o olho da razão o seu futuro – ele atendendo os pacientes no seu consultório, tomando chá numa grande sala de jantar, em companhia de uma esposa da boa sociedade – e ali, aquela bacia de água suja com pontas de cigarro dava uma impressão incrivelmente asquerosa. Aniúta já lhe parecia uma pessoa feia, sem elegância, digna de pena... Então ele tomou a resolução de separar-se dela imediatamente, custasse o que custasse.
     Quando Aniúta voltou do quarto do pintor e começou a tirar o casaco, ele se levantou e lhe disse seriamente:

– É o seguinte, minha querida... Sente-se e ouça. Precisamos nos separar! Em suma, não quero mais viver com você.

     Aniúta chegara do quarto do pintor completamente exausta, esgotada. Seu rosto, em consequência da longa imobilidade na pose, tinha ficado mais magro e cavado, o queixo estava mais pontudo. Ela não respondeu às palavras do estudante e seus lábios apenas tremeram.

– Concorde que cedo ou tarde teríamos de nos separar, de um jeito ou de outro – disse o estudante de medicina. – Você é boa, generosa e não é boba; você entenderá...

     Aniúta vestiu novamente o casaco, em silêncio embrulhou o bordado num papel, ajuntou as linhas e agulhas; procurou o embrulhinho com os quatro pedaços de açúcar na janela e colocou sobre a mesa ao lado dos livros. 

– Isto é o seu... açúcar... – disse ela baixinho, virando-se de costas para esconder as lágrimas.
– Ora, por que está chorando? – perguntou Klotchkov.

     Embaraçado, ele deu uns passos pelo quarto e disse:

– Mas como você é estranha... Você mesma sabe que temos de nos separar. Não vamos viver a vida toda juntos.

      Ela já tinha reunido todas as suas trouxinhas e se pusera de frente para ele, para se despedir, quando ele teve pena dela.

“Será que ela não poderia ficar aqui mais uma semana?”, pensou. “É isso mesmo, que fique mais um pouco, e daqui a uma semana eu a mando embora.”

     E, aborrecido por não ter personalidade, gritou com ela em tom severo:

– Então, o que está fazendo aí em pé! Se é para sair, saia, mas se não quer, tire o casaco e fique! Fique!

     Calada, Aniúta tirou o casaco devagar, depois assoou o nariz, também sem fazer barulho, suspirou e silenciosamente se dirigiu para a sua posição habitual: no tamborete junto à janela.
     O estudante pegou o livro e novamente se pôs a andar de um lado para o outro.

– O pulmão esquerdo é composto de três partes... – memorizava. – A parte superior, na parede anterior do tórax, abrange até quatro ou cinco costelas...

     E, no corredor, alguém gritou a plenos pulmões:

– Grigóri! O samovar³!

[3] Utensílio russo de uso doméstico, constituído de pequena caldeira provida de um tubo central no qual se colocam brasas para ferver e manter quente a água para o chá.
Fevereiro de 1886. 

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Leia também:
A morte do funcionário / O enxoval / Aniúta / A dama do cachorrinho (I) /    

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".