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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tchekhov - A dama do cachorrinho (IV)

 A dama do cachorrinho e outras histórias


Anton Tchekhov


A dama do cachorrinho

IV

     Ana Sierguéievna passou a viajar a Moscou, para vê-lo. Cada dois, três meses, saía de S., dizendo ao marido que ia consultar um professor de Medicina sobre sua doença de senhora, e o marido acreditava e não acreditava ao mesmo tempo. Em Moscou, hospedava-se no "Bazar Eslavo" e, logo após sua chegada, mandava um recado a Gurov, por um homem de chapéu vermelho. Gurov ia vê-la e ninguém em Moscou sabia disso.
     Certa manhã de inverno, ele estava indo assim a seu encontro (o criado que lhe fora levar o recado na véspera, ao anoitecer, não o encontrara). A filha caminhava ao lado, pois ele quisera levá-la ao colégio, que ficava a caminho. Caía uma neve graúda, molhada.

- Temos três graus acima de zero e, no entanto, cai neve - dizia Gurov à filha. - Mas este calor existe somente na superfície da terra, nas camadas superiores da atmosfera há uma temperatura bem inferior.
- Papai, e por que não há trovões no inverno?

     Explicou-lhe isso também. Enquanto falava, pensava em que estava indo para uma entrevista de amor e que nem viva alma sabia disso e, provavelmente, jamais o saberia. Tinha duas vidas: uma, aparente, que viam e conheciam todos os que o queriam, repassada de verdade e de mentiras convencionais, completamente semelhante às vidas de seus conhecidos e amigos, e outra que decorria em segredo. E por um estranho, talvez casual, acúmulo de circunstâncias, tudo o que era para ele importante, interessante, indispensável, aquilo em que ele era sincero e não enganava a si mesmo, o que constituía o cerne de sua vida, ocorria às ocultas dos demais, enquanto tudo o que formava a sua mentira, a membrana exterior, em que se escondia, para ocultar a verdade, como, por exemplo, seu trabalho no banco, as discussões no clube, a "raça inferior", a ida com a mulher aos espetáculos comemorativos, tudo isso era aparente. E julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, e sempre supunha que em cada homem decorre, sob o manto do mistério, como sob o manto da noite, a sua vida autêntica e mais interessante. Cada existência individual baseia-se no mistério e talvez seja, em parte, esta a razão por que o homem culto se afana tão nervosamente para ver respeitado o mistério individual.
     Tendo acompanhado a filha ao colégio, Gurov dirigiu-se ao "Bazar Eslavo". Tirou a peliça, subiu a escada e bateu mansamente na porta. Ana Sierguéievna, que estava com o vestido cinzento da predileção de Gurov, esperava-o desde a tarde anterior, estava cansada da viagem e da espera. Pálida, olhou-o sem sorrir e, mal ele entrou no quarto, ela se atirou a seu peito. O beijo que se deram foi prolongado, como se não se tivessem visto uns dois anos.

- Bem, como vai a tua vida lá?- perguntou ele. Que há de novo?
- Espere, vou dizer daqui :a pouco... Não posso.

     Ela não podia falar, devido às lágrimas. Virou a cabeça e apertou o lenço contra os olhos.
     
"Bem, que chore um pouco; enquanto isso, vou ficar sentado aí", pensou ele e sentou-se numa poltrona.

     Depois, tocou a campainha e mandou trazer chá. Enquanto o tomava, ela continuava de pé, a cabeça voltada para a janela... Chorava de emoção, da consciência angustiosa de que a vida deles dispusera-se de modo tão triste; viam-se apenas em segredo, escondiam-se das pessoas, como ladrões! Não estava destruída a vida de ambos?

- Ora, basta!- disse Gurov.

     Era evidente, para ele, que aquele amor não acabaria logo. Ana Sierguéievna afeiçoava-se a ele com intensidade crescente, adorava-o e seria inconcebível dizer-lhe que tudo aquilo deveria ter fim, um dia; aliás, ela nem acreditaria nisso.
     Aproximou-se dela, segurou-lhe os ombros, para acarinhá-la e gracejar um pouco e, naquele momento, viu-se no espelho.
     A cabeça dele já estava começando a ficar grisalha. Pareceu-lhe estranho que, nos últimos anos, tivesse envelhecido tanto e ficado mais feio. Os ombros, em que haviam pousado as mãos dele, eram cálidos e estremeciam. Compadeceu-se daquela vida, que era ainda tão tépida e bonita, mas que, provavelmente, estava próxima de empalidecer e fanar-se, como a vida dele. Por que ela o amava assim? Ele sempre parecera às mulheres uma pessoa diferente daquela que era na realidade e elas amavam nele não a sua própria pessoa, mas um homem criado pela imaginação e que elas procuravam sequiosamente na vida; depois, percebido o engano, continuavam, todavia, a amá-lo. E nenhuma delas fora feliz com ele. O tempo passava, Gurov travava relações, unia-se a mulheres, separava-se delas, mas nenhuma vez amara, aquilo podia ser tudo, menos amor.
     E somente agora, quando sua cabeça já estava grisalha, ele amava devidamente, verdadeiramente, pela primeira vez na vida.
     Ana Sierguéievna e ele amavam-se como gente próxima e querida, como marido e mulher, como dois ternos amigos. Parecia-lhes que o próprio fado destinara-os um ao outro e era incompreensível por que ele estava casado e ela também. Lembravam dois pássaros de arribação, macho e fêmea, caçados e obrigados a viver em gaiolas separadas. Perdoaram um ao outro tudo aquilo de que se envergonhavam em seu passado, perdoavam-se tudo no presente e sentiam que aquele amor os transformara.
     Anteriormente, nos momentos de tristeza, ele procurara consolar-se com toda espécie de reflexões, mas agora afastava-as, sentia uma profunda compaixão, queria ser sincero, carinhoso...

- Basta, minha boa, menina. - dizia ele - Chorou e chega... Vamos agora conversar, ver se nos ocorre alguma ideia.
- Corno? Como?- perguntava ela, pondo as mãos à cabeça. - Como?

     Tinham a impressão de que mais um pouco encontrariam a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.

(1899)
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Leia também:
A dama do cachorrinho (III) / A dama do cachorrinho (IV) / O bilhete premiado /     .     

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.

domingo, 2 de agosto de 2026

Tchekhov - A dama do cachorrinho (III)

 A dama do cachorrinho e outras histórias


Anton Tchekhov


A dama do cachorrinho

III

     Em casa, em Moscou, tudo já havia adquirido um aspecto hibernal. Acendiam-se as estufas e, de manhã, quando as crianças preparavam-se para ir ao ginásio e tomavam chá, estava tão escuro que a babá, acendia, por algum tempo, as luzes. Começou o frio. Quando cai a primeira neve, no primeiro dia de passeio de trenó, é aprazível ver a terra branca, os telhados brancos, respira-se suave e docemente e, nessa hora, lembram-se os anos de juventude. As velhas tílias e bétulas, alvas de geada, têm uma expressão benevolente, estão mais próximas do coração que os ciprestes e palmeiras, e, junto delas, não se quer mais pensar no mar e nas montanhas.
     Gurov era moscovita. Regressando a Moscou num dia bom; frio, vestindo a peliça e as luvas de inverno, passeando pela Pietrovka e ouvindo sábado à noite o som dos sinos, aquela viagem que fizera havia pouco e os lugares que vira perderam para ele todo encanto. Mergulhou pouco a pouco na vida moscovita, lia já, sequiosamente, três jornais por dia e afirmava não ler jornais moscovitas por uma questão de princípio. Sentia-se já atraído pelos restaurantes, pelos clubes, pelos jantares festivos, pelas homenagens a alguém, e já ficava lisonjeado pelo fato de ser visitado por advogados e artistas famosos e porque, no clube dos médicos, jogava baralho com um catedrático. Era já capaz de comer toda uma porção de sielianka com frituras¹...

[1] Sielianka é uma sopa densa de carne ou peixe, geralmente muito temperada.

     Passara um mês, mais ou menos, e, Ana Sierguéievna, tinha a impressão, cobrir-se-ia de bruma em sua memória, e somente de raro em raro aparecer-lhe-ia, em sonho, com seu tocante sorriso, tal como outras apareciam. No entanto, decorreu mais de um mês, chegaram os rigores do inverno, mas tudo permanecia nítido na memória, como se, a separação com Ana Sierguéievna tivesse sido na véspera. E as recordações tornavam-se cada vez mais intensas. Quer lhe chegassem ao escritório, em meio à quietude do anoitecer, as vozes das crianças, que preparavam a lição, quer ouvisse um órgão ou uma canção no restaurante, quer ainda uivasse o vento na lareira, tudo ressuscitava, de repente, em sua memória: o que sucedera no quebra-mar, o amanhecer com aquela névoa sobre as montanhas, o navio chegando de Feodóssia, os beijos. Passava muito tempo caminhando pelo quarto e recordando, sorria e, depois, as lembranças transformavam-se em sonhos e o passado misturava-se, em sua imaginação, ao que viria ainda. Não sonhava mais com Ana Sierguéievna, ela o acompanhava por toda parte, como uma sombra, e vigiava-o. Fechando os olhos, via-a e ela parecia mais bonita, mais jovem, mais terna do que fora realmente; e ele próprio aparecia melhor do que tinha sido naqueles dias em Ialta. Ao anoitecer, ela o espreitava de dentro do armário de livros, da lareira, do canto da sala, ele ouvia sua respiração, o frufru carinhoso de suas roupas. Na rua, acompanhava mulheres com o olhar, procurando alguma que a ela se assemelhasse...
     Começara a oprimi-lo um desejo intenso de partilhar com alguém suas recordações. Mas, em casa, não se podia falar, de seu amor e, fora, não havia com quem. Não ia fazê-lo com os moradores do prédio ou no banco em que trabalhava. Além disso, falar do quê? Amara ele então? Havia, porventura, algo belo, poético, edificante ou simplesmente interessante, em suas relações com Ana Sierguéievna? Tonava-se necessário conversar, de modo indefinido, sobre amor, sobre mulheres, e ninguém adivinhava do que se tratava, e somente sua mulher movia as sobrancelhas escuras, dizendo:

- Não fica nada bem a você, Dimítri, o papel de fátuo.

     Certa vez, à noite, saindo do clube dos médicos, em companhia de um funcionário, seu parceiro no jogo, não se conteve e disse:

- Se soubesse que mulher encantadora eu conheci em Ialta!

     O funcionário sentou-se no trenó e partiu, mas, de repente, voltou-se e chamou-o:

- Dmítri Dmítritch!
- Que é?
- Você tinha razão: o esturjão não estava de todo fresco!

     Aquelas palavras, tão comuns, deixaram Gurov indignado, sem que soubesse por que, pareceram-lhe humilhantes, impuras. Que selvagens costumes, que rostos! Que noites estultas, que dias desinteressantes, anódinos! O jogo desenfreado, a gula, a bebedeira, as imutáveis conversas sobre o mesmo assunto. As ocupações desnecessárias e as conversas invariáveis ocupavam a melhor parte dó tempo, as melhores energias e, por fim, sobrava apenas uma vida absurda, sem asas, uma mixórdia qualquer, da qual não se podia fugir, como se se estivesse num manicômio ou numa prisão!
     Ficou a noite toda sem dormir, indignando-se, e passou o dia seguinte com dor de cabeça. Nas noites que se seguiram, dormiu mal também, ficava sentado na cama, pensando, ou andava de um canto a outro do quarto. Aborrecia-se com as crianças, com o banco, não tinha vontade de ir a lugar algum, de falar em coisa alguma.
     Nos feriados de dezembro, preparou-se para viajar. Disse à mulher que ia a Petersburgo, a fim de pedir certos favores de pessoas influentes, para um jovem, mas viajou para S. Para quê? Ele mesmo não sabia ao certo. Tinha vontade de ver Ana Sierguéievna, falar com ela, ajeitar uma entrevista, se possível.
     Chegou a S. de manhã e alugou o melhor quarto do hotel; o assoalho estava ali inteiramente forrado com pano cinzento, de uniforme militar; sobre a mesa, havia um tinteiro, pardo de poeira, ornado de um cavaleiro que perdera a cabeça e mantinha levantado um braço com chapéu. O porteiro deu-lhe as necessárias informações: Von Dideritz morava na rua Staro-Gontchárnaia, em casa própria; era perto do hotel, ele vivia com fartura, possuía cavalos, todos o conheciam na cidade. O porteiro pronunciava: "Dridiritz".
     Gurov caminhou, sem se apressar, para a Staro-Gontchárnaia e procurou a casa. Bem em frente, estendia-se um muro cinzento, comprido, coberto de pregos.

"Qualquer um teria vontade de fugir de um muro assim", pensou Gurov, olhando ora para as janelas, ora para o muro.

     Calculava: não era dia de expediente, e o marido estaria provavelmente em casa. Além disso, seria falta de tato entrar e deixá-la perturbada. Se mandasse um bilhete,. este poderia cair nas mãos do marido e então tudo estaria perdido. O melhor seria confiar-se ao acaso. E ele passou muito tempo andando pela rua e junto ao muro, esperando aquele acaso. Viu atravessar o portão um mendigo, que foi assaltado por cachorros; passada uma hora, ouviu tocar o piano, mas os sons chegavam lhe fracos, pouco nítidos. Provavelmente, era Ana Sierguéievna quem tocava. De repente, abriu-se a porta principal e por ela saiu uma velha, acompanhada pelo lulu branco, que ele conhecia. Gurov quis chamar o cachorro, mas, de súbito, começou a bater-lhe precipitadamente o coração e, perturbado, não conseguiu lembrar o nome do lulu.
     Ficou andando; odiava com intensidade crescente o muro cinzento e pensava já, com irritação, que Ana Sierguéievna esquecera-o e talvez já se divertisse com outro, o que seria muito natural na condição de mulher jovem, obrigada a ver, de manhã à noite, aquele maldito muro. Voltou para o quarto do hotel e passou muito tempo sentado no divã, sem saber o que fazer; jantou, depois dormiu bastante.

"Quanta estupidez e nervosismo", pensou, acordando e olhando para as janelas escuras, pois anoitecera. "Dormi não sei para quê. E o que vou fazer de noite?"

     Estava sentado na cama, com um cobertor barato, cinzento, que parecia de hospital, e zombava de si mesmo, com despeito:

"Aí tem você a dama do cachorrinho Aí tem você uma aventura. .. Por isso mesmo, fique sentado aí."

     Ainda de manhã, na estação, havia-lhe saltado aos olhos um cartaz, de letras muito graúdas, anunciando a estreia de "Gueixa". Lembrou-se disso e foi ao teatro.

"É bem possível que ela costume frequentar as estreias", pensou.

     O teatro estava cheio. Como sempre acontece nos teatros de província, havia uma névoa pairando sobre os lustres, a galeria inquietava-se ruidosamente. Antes de começar o espetáculo, os elegantes locais ficavam de pé, na primeira fila, as mãos atrás. No camarote do governador, estava sentada, na frente, a filha deste, de boá, enquanto o próprio governador ocultava-se modestamente atrás de uma cortina, deixando aparecer apenas as mãos. O pano de cena balançava-se, os músicos da orquestra passaram muito tempo afinando os instrumentos. Enquanto os espectadores entravam e ocupavam os lugares, Gurov ficou procurando ansiosamente com os olhos.
     Ana Sierguéievna entrou também. Sentou-se na terceira fila e, quando Gurov olhou, sentiu apertar-se o coração e compreendeu com nitidez que não existia, agora, para ele, em todo o mundo, pessoa mais próxima, querida e importante. Aquela pequena mulher, perdida no meio da multidão provinciana, que não se distinguia das demais e tinha nas mãos um lorgnon vulgar, enchia-lhe agora a vida, era sua aflição e sua alegria, a única felicidade que almejava. Ao som da orquestra ordinária, dos péssimos violinos locais, ele pensava em como ela era bonita. Pensava e sonhava.
     Entrou com Ana Sierguéievna e sentou-se a seu lado um homem moço, de suíças pequenas, muito alto um tanto curvado. A cada passo, balançava a cabeça e parecia estar cumprimentando incessantemente alguém. Era provavelmente o marido, que ela, num acesso de amargura, chamara, lá em Ialta, de lacaio. Com efeito, havia em seu vulto alongado, nas suíças, na calva pequena, algo modesto e servil, sorria com doçura e, na lapela, fulgia-lhe uma douta insígnia, que parecia também uma chapinha de lacaio.
     No primeiro intervalo, o marido foi fumar, ela permaneceu sentada. Gurov, que estava também na plateia, aproximou-se dela e disse, com voz trêmula e um sorriso forçado:

- Boa noite.

     Ela o olhou e empalideceu, depois tornou a olhá-lo apavorada, sem acreditar no que via, e apertou fortemente nas mãos, ao mesmo tempo, o leque e o lorgnon, lutando, sem dúvida, consigo mesma para não desmaiar. Permaneceram calados. Ela estava sentada, ele, de pé, assustado com a perturbação dela e não ousando sentar-se ao lado. Os violinos e a flauta, que estavam sendo afinados pelos músicos, começaram a cantar, veio uma sensação de medo, tinham a impressão de que em todos os camarotes havia gente olhando para eles. Mas, eis que ela se levantou e caminhou depressa para a saída; Gurov acompanhou-a. Caminharam sem destino. por corredores e escadas, ora acima, ora abaixo, e aos seus olhos perpassou gente com uniformes de juiz, de estudante; de funcionário, todos com as respectivas insígnias. Apareciam senhoras, peliças em cabides, soprava um vento encanado, repassado do cheiro de tabaco. E Gurov, que tinha o coração batendo precipitadamente, pensou:

"Oh, meu Deus! Para que essa gente, essa orquestra..."

     Naquele momento, lembrou-se de repente de como, certa noite, numa estação de estrada de ferro, tendo acompanhado Ana Sierguéievna ao trem, dissera a si mesmo que tudo estava terminado e que não se tornariam a ver jamais. Mas, como estava longe ainda o fim de tudo!
     Ela deteve-se numa escada estreita e sombria? perto da inscrição: "Entrada para o anfiteatro".

- Como você me assustou!- disse, respirando pesada mente e ainda pálida, atordoada.- Oh, como me assustou! Estou meio morta. Para que veio até aqui? Para quê?
-  Mas, compreenda, Ana, compreenda...- disse ele a meia voz e apressadamente.- Eu lhe imploro, compreenda...

     Ela o olhava com expressão de medo, de súplica, de amor, olhava-o fixamente, para reter com mais intensidade na memória os traços de seu rosto.

-  Sofro tanto! - prosseguiu ela, sem o ouvir. Todo esse tempo, só pensei em você, só vivi com esse pensamento. Ao mesmo tempo, tinha vontade de esquecer, esquecer, mas, para que, para que foi que você veio?

     Mais em cima, entre dois lances de escada, havia dois ginasianos fumando e olhando para baixo, mas Gurov não se importava com coisa alguma, atraiu para si Ana Sierguéievna e pôs-se a beijar-lhe o rosto, as faces, as mãos.

- Que está fazendo, que está fazendo?- disse ela horrorizada, afastando-o. - Perdemos a cabeça. Vá embora hoje mesmo, neste mesmo instante... Peço-lhe por tudo o que há de sagrado, imploro-lhe... Vem gente aí!

     Alguém estava subindo a escada.

- Você deve ir..- prosseguiu Ana Sierguéievna, num murmúrio. Está ouvindo, Dmítri Dmítritch? Vou visitá-lo em Moscou. Nunca fui feliz, mas agora sou infeliz e jamais, jamais terei felicidade! Não me obrigue, então, a sofrer mais ainda. Juro-lhe que irei a Moscou. E agora, separemo-nos! Meu querido, meu bom, meu amado, separemo-nos.

     Ela apertou-lhe a mão e começou a descer rapidamente a escada, voltando a cada momento a cabeça, e em seus olhos percebia-se que, realmente, não era feliz... Gurov permaneceu algum tempo parado, ouvindo seus passos; depois, procurou o cabide e saiu do teatro.

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Leia também:
A dama do cachorrinho (III) / A dama do cachorrinho (IV).     

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

sábado, 18 de julho de 2026

Tchekhov - A dama do cachorrinho (II)

 A dama do cachorrinho e outras histórias


Anton Tchekhov


A dama do cachorrinho

II

     Fazia uma semana que a conhecia. Era dia feriado. Dentro de casa, o ar estava sufocante e, na rua, o vento arrastava a poeira em turbilhão e arrancava os chapéus. Dava sede o dia inteiro, e Gurov entrava com frequência no pavilhão, oferecendo a Ana Sierguéievna ora água com xarope, ora sorvete. Ficava-se sem saber onde se meter.
     Ao anoitecer, depois que o tempo amainou um pouco, foram até o quebra-mar, para assistir à chegada de um navio. Havia muita gente passeando no cais; reunira-se um grupe, com flores, para esperar alguém. Distinguiam-se nitidamente duas particularidades da bem vestida gente de Ialta: as senhoras de idade trajavam-se como jovens e havia muitos generais.
     Em virtude do mar agitado; o navio chegou tarde, quando o sol já se havia posto, e, antes de encostar ao cais, ficou, por muito tempo, fazendo manobra. Ana Sierguéievna olhava por um lorgnon para o navio e para os passageiros, como se estivesse à procura de gente conhecida, e seus olhos fulguravam quando se dirigia a Gurov. Falava muito, fazia perguntas entrecortadas, e ela própria esquecia imediatamente o que havia perguntado. Acabou perdendo o lorgnon.
     A multidão bem vestida estava se dissolvendo, não se distinguiam mais os rostos, o vento amainara de todo, mas Gurov e Ana Sierguéievna permaneciam parados, como se esperassem a descida de mais alguém do navio. Ela estava já silenciosa, cheirando flores, sem olhar para Gurov.

- O tempo melhorou - disse ele.- Aonde iremos agora? Vamos tomar um carro?

     Ela não respondeu.
     Ele a olhou então fixamente e, de súbito, abraçou-a e beijou-lhe os lábios; foi envolvido pelo perfume e pela umidade das flores e, no mesmo instante, espiou assustado em redor, para certificar-se de que ninguém os vira.

- Vamos a sua casa...- disse em voz baixa.
 
     E caminharam depressa.
     O ambiente do quarto dela era sufocante e cheirava a perfumes, que havia, comprado numa loja japonesa. Olhando-a agora, Gurov pensou: "Quantos encontros diferentes acontecem na vida!", O passado deixara-lhe a lembrança de mulheres despreocupadas, benevolentes, alegres de amor, e que lhe eram agradecidas pela felicidade, embora muito breve, que lhes proporcionava; de outras, como, por exemplo, sua mulher, que amavam sem sinceridade, com palavras supérfluas, afetadamente, com histeria, com, uma expressão que parecia significar não ser aquilo amor, nem paixão, mas algo mais significativo; e ainda de outras duas ou três, muito bonitas, frias, em cujo rosto aparecia, de repente, uma expressão rapace, um desejo insistente de tirar, arrancar da vida mais do que esta pode dar, e eram mulheres que não estavam mais na primeira juventude, birrentas, voluntariosas, pouco inteligentes; quando Gurov tornava-se indiferente a elas, sua beleza passava a despertar nele ódio e julgava, ver escamas no rendado de suas roupas brancas.
     Mas ali persistia a falta de coragem, uma angulosidade de juventude inexperiente, um sentimento de timidez; e havia ainda uma sensação de perturbação, como se alguém tivesse, de repente, batido na porta. Ana Sierguéievna, esta dama do cachorrinho, encarou o que sucedera de um modo particular, muito seriamente, como se fosse a sua perdição; assim parecia, e era estranho e fora de propósito. Murcharam-Ihe os traços e os cabelos compridos penderam-lhe triste mente dos lados do rosto; ficou pensativa, em atitude desolada, como a pecadora de um quadro antigo.

- Isto não está bem- disse ela.- Você, agora, é o primeiro a não me estimar.

     No quarto, havia uma melancia sobre a mesa. Gurov cortou um pedaço e começou a comê-lo, sem se apressar. Decorreu pelo menos meia hora em silêncio.
     Ana Sierguéievna estava tocante, emanava dela a pureza de uma mulher correta, ingênua, que vivera pouco. A vela solitária, que ardia sobre a mesa, mal lhe iluminava o rosto, mas se via que estava sofrendo.

- Por que é que eu poderia deixar de estimá-la? perguntou Gurov.- Você mesma não sabe o que diz.
- Que Deus me perdoe!- disse ela e seus olhos marejaram-se.- Isto é horrível. 
- Você parece que está se justificando.
- Com que vou me justificar? Sou uma mulher má, ignóbil, desprezo-me e nem penso em me defender. Não enganei o marido, mas a mim mesma. E não foi somente agora, mas há muito que me engano. Meu marido talvez seja um homem bom, honesto, mas é um lacaio! Não sei direito o que faz na repartição e como cumpre as obrigações, mas sei somente que é um lacaio. Quando me casei com ele, tinha vinte anos, torturava-me a curiosidade, eu queria encontrar algo melhor. Dizia-me: "Existe, afinal, uma outra vida". Tinha vontade de viver! Viver e viver ainda... Abrasou-me a curiosidade... você não 'compreende isto, mas, juro por Deus, eu não me possuía mais, algo me sucedia, ninguém me poderia deter. Disse ao marido que estava doente e vim para cá. . . E, aqui, estava sempre andando como que atordoada, como uma louca. . . e eis que me tornei uma mulher infame, vulgar, e qualquer um pode me desprezar.

     Gurov já estava se aborrecendo de ouvir aquilo, irritava-o aquele tom ingênuo, aquele arrependimento tão inesperado e fora de propósito. Não fossem as lágrimas nos olhos e poder-se-ia pensar que ela estava brincando ou desempenhando um papel.

- Não compreendo - disse ele suavemente. - O que é que você quer? 

     Ela escondeu o rosto em seu peito e apertou-se contra ele.

- Acredite, acredite em mim, eu lhe imploro... Amo uma vida honesta, pura, o pecado me repugna, eu mesma não sei o que faço. A gente do povo diz: o diabo tentou. E eu posso também dizer agora, a meu respeito, que o diabo me tentou.
- Basta, basta... - balbuciou ele.

     Olhava-a nos olhos imóveis, assustados, beijava-a, falava-lhe com ternura, e ela, aos poucos, acalmou-se e voltou-lhe a alegria. Puseram-se a rir.
     Depois, quando saíram, não havia viva alma à beira-mar. A cidade com seu ciprestes parecia completamente morta, mas o mar ainda fazia ruído e batia contra a margem. Uma barcaça balançava-se sobre as ondas e tremeluzia nela, sonolenta, uma pequena lanterna. 
     Encontraram um carro de aluguel e foram a Oreanda.

- Ainda há pouco, soube no vestíbulo o teu sobrenome: na portaria está escrito "Von Dideritz"- disse Gurov. Teu marido é alemão?
- Não, parece que tinha um avô alemão, mas ele próprio é ortodoxo. 

     Em Oreanda, ficaram sentados num banco, perto da igreja, olhando em silêncio o mar. Ialta mal se via através da névoa matinal, nuvens brancas permaneciam imóveis, junto aos cumes das montanhas. A folhagem não se movia sobre as árvores, gritavam cigarras, e o som monótono, abafado, do mar, que chegava de baixo, falava de descanso, do sono eterno que nos aguarda. Assim tumultuara lá embaixo, quando ainda não existiam Ialta, nem Oreanda; o mesmo ruído faz agora e fará, do mesmo modo indiferente e abafado, quando não existirmos mais. E nessa permanência, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, oculta-se talvez o fundamento de nossa eterna salvação, do incessante movimento de vida sobre a terra, da perfeição imorredoura. Sentado ao lado da jovem mulher, que, ao alvorecer, parecia tão bonita, acalmado e embevecido face ao ambiente encantado, face ao mar, às montanhas, às nuvens, ao amplo céu, Gurov pensava em como, na realidade, se se refletir direito sobre isto, tudo é belo neste mundo, tudo, com exceção do que nós mesmos pensamos e fazemos, quando nos esquecemos dos objetivos elevados da existência e de nossa própria dignidade humana.
     Acercou-se deles um homem, provavelmente um guarda, olhou-os e se afastou. E este pormenor pareceu igualmente misterioso e belo. Viu-se chegar de Feodóssia um navio, iluminado pela aurora e já de luzes apagadas. 

- A erva está coberta de orvalho- disse Ana Sierguéievna, depois de um silêncio.
- Sim. É tempo de ir para casa. 

     Regressaram à cidade.
     Depois, encontravam-se sempre ao meio-dia, à beira-mar, almoçavam juntos, jantavam, passeavam, encantavam-se com o mar. Ela queixava-se de insônia e de que o coração lhe batia de modo alarmante, fazia-lhe sempre as mesmas perguntas, perturbada ora pelo ciúme, ora pelo temor de que ele não a estimasse o suficiente. E muitas vezes, no parque ou em algum jardinzinho público, quando não havia ninguém nas proximidades, ele a atraía de repente para si e beijava-a apaixonado, Aquele ócio. completo, aqueles beijos em pleno dia, repassados do temor de serem surpreendidos, o calor, a maresia e o perpassar incessante de gente ociosa, bem vestida e nutrida, pareceram havê-la transformado completamente. Dizia a Ana Sierguéievna como ela era bonita e tentadora, demonstrava uma impaciência apaixonada, não a deixava por um momento. Ela ficava frequentemente pensativa, pedindo-lhe sempre para confessar que não a estimava, não a amava um pouco sequer, e que via nela simplesmente uma mulher vulgar. Quase sempre, quando já estava adiantado o anoitecer, iam para fora da cidade, para Oreanda ou para a cachoeira. Os passeios eram sempre bem sucedidos, deixando invariavelmente impressões magníficas, grandiosas.
     Esperavam a vinda do mando. Mas chegou dele uma carta, em que informava estar com a vista dolorida e implorava à mulher que regressasse o quanto antes. Ana Sierguéievna apressou-se a voltar.

- É bom que eu parta - disse ela a Gurov.- É próprio destino.

     Partiu de carro e ele a acompanhou. Viajaram um dia inteiro. No vagão do trem-correio, ao soar o segundo sinal, ela disse:

- Deixe que olhe para você mais uma vez. .. uma vez mais... Assim.

     Não chorava, mas estava triste, parecia doente, e tremia-lhe o rosto... 

- Vou pensar em você... lembrar - disse ela. - Fique com Deus. Não guarde má lembrança de mim. É uma despedida para sempre, tem que ser assim, pois nem nos devíamos ter encontrado. Bem, vá com Deus.

     O trem partiu veloz, suas luzes desapareceram e, instantes depois, não se ouvia mais qualquer ruído, como se tudo se tivesse combinado propositalmente, para fazer cessar o quando antes aquele doce alheamento, aquela loucura. Sozinho na plataforma da estação, e olhando para a negra distância, Gutov ficou ouvindo o canto dos grilos e a zoada dos fios telegráficos, com a sensação de haver acordado somente naquele instante. Pensava que em sua vida ocorrera mais uma aventura, um episódio, que também terminara, deixando apenas uma recordação... Estava comovido, triste, e sentia um ligeiro arrependimento. Aquela mulher jovem, que não veria mais, não fora feliz com ele. Tinha sido com ela afável, afetuoso, mas, apesar de tudo, em seu modo de tratá-la, no tom de sua voz e nos carinhos que lhe fizera transparecia a sombra de uma ligeira ironia, o sentimento algo rude de uma superioridade de homem feliz, que, além do mais, tinha quase o dobro de idade. Durante todo o tempo, ela o chamara de bondoso, extraordinário, superior. Certamente, Gurov aparecia-lhe como alguém diferente do que era na realidade; por conseguinte enganava-a sem querer...
     Na estação, já cheirava a outono, a noite estava fresca.

"É tempo de partir também para o norte - pensou Gurov, saindo da plataforma. "É tempo!"

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Leia também:

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

sábado, 11 de julho de 2026

Tchekhov - A dama do cachorrinho (I)

 A dama do cachorrinho e outras histórias


Anton Tchekhov


A dama do cachorrinho

I

     Dizia-se que havia aparecido à beira-mar uma nova personagem: uma senhora com cachorrinho. Dmítri Dmítritch Gurov, que já passara em Ialta duas semanas e habituara-se àquela vida, começou a interessar-se também por caras novas. Sentado no pavilhão de Verne, viu passar à beira-mar uma jovem senhora, de mediana estatura, loura, de boina. Corria atrás dela um lulu branco.
     Mais tarde, encontrou-a diversas vezes ao dia, no parque e nos jardinzinhos públicos. Passeava sozinha, sempre com a  mesma boina e acompanhada do lulu branco. Ninguém sabia quem era e chamavam tia simplesmente: a dama do cachorrinho.

"Se está aqui, sem marido e sem conhecidos", calculou Gurov, "não seria mal travar relações com ela".

     Embora com menos de quarenta anos, ele tinha já uma filha de doze e dois filhos no ginásio. Haviam-no casado cedo, quando cursava ainda o segundo ano da universidade, e agora sua mulher parecia vez e meia mais velha que ele. Era uma mulher alta, de sobrancelhas escuras e porte rígido, importante, grave e "pensante", como ela mesma se chamava. Lia muito, escrevia carta simplificando a ortografia, chamava o marido de Dimítri em lugar de Dmítri, e ele, secretamente, considerava-a pouco inteligente, tacanha, deselegante, temia-a e não gostava de ficar em casa. Havia muito que passara a traí-la, fazia-o com frequência e, provavelmente por este motivo, referia-se quase sempre mal às mulheres; quando, em sua presença, falavam nelas, exclamava:

- Raça inferior!

     Parecia-lhe que fora suficientemente instruído por sua amarga experiência, para chamá-las como lhe aprouvesse, mas, apesar de tudo, não poderia passar dois dias sem a "raça inferior". Aborrecia-se em companhia de homens e mostrava-se frio, pouco loquaz, mas, encontrando-se no meio de mulheres, sentia-se despreocupado e sabia do que falar e como se portar; era-lhe, mesmo, fácil calar-se em companhia delas. Em seu aspecto exterior, em seu gênio, em toda a sua personalidade, havia algo atraente, imperceptível, que predispunha as mulheres a seu favor, que as atraía; ele sabia disso e, por sua vez, sentia-se impelido para elas.
     Uma experiência variada, realmente amarga, ensinara-lhe, havia muito, que toda aproximação, a qual constitui a princípio uma variação tão agradável na vida e apresenta-se como uma aventura ligeira e aprazível, converte-se invariavelmente, em se tratando de pessoas corretas, especialmente moscovitas, indecisas e pouco dinâmicas, num verdadeiro, problema,. extraordinariamente complexo, e a situação, por fim, torna-se . verdadeiramente difícil. Mas, a cada novo encontro com uma mulher interessante, essa experiência escapava-lhe da memória, vinha-lhe uma vontade de viver, e tudo parecia simples e divertido.
     Eis que certa vez, à noitinha, estava jantando no jardim, e a senhora de boina aproximou-se, em passo lento, para ocupar a mesa vizinha. A expressão de seu rosto, o andar, a roupa, o tipo de penteado, diziam-lhe que ela era de boa sociedade, casada, estava em Ialta pela primeira vez, sozinha, e que se aborrecia. Havia muita mentira nas histórias que corriam sobre a depravação dos costumes locais, ele desprezava aquelas histórias e sabia que, geralmente, eram inventadas por gente que gostaria de pecar se soubesse fazê-lo, mas, quando a senhora sentou-se à mesa que ficava a três passos da sua, ele se lembrou daquelas histórias sobre fáceis conquistas e passeios na montanha, e tomou dele a ideia tentadora de uma ligação fulminante, de um romance com uma mulher desconhecida, da qual não se conhece o nome, nem o sobrenome.
     Chamou carinhosamente o lulu e, quando este se aproximou, ameaçou-o com o dedo. O lulu rosnou. Gurov tornou a ameaçá-lo.
     A senhora olhou para ele e baixou os olhos.

- Não morde - disse ela e corou.
- Posso dar-lhe um osso?- e, quando ela assentiu com a cabeça, ele perguntou afavelmente: - A senhora chegou a Ialta há muito tempo?
- Há uns cinco dias.
- E eu já estou completando aqui a segunda semana. 

     Seguiu-se um silêncio.

- O tempo passa depressa e, no entanto, a gente se aborrece, tanto aqui! - disse ela, sem olhar o interlocutor.
- É apenas uma convenção dizer que aqui é aborrecido. Um habitante de Biélev ou de Jizdra vive em sua terra e não se aborrece, mas, chegando aqui, repete: "Ah; que cacete! Ah, que poeira!". Pode-se pensar que chegou de Granada.

     Ela riu. Continuaram a comer em silêncio, como desconhecidos. Depois do jantar, porém, caminharam lado a lado e iniciou-se, entre eles, uma conversa ligeira, brincalhona, de gente livre, satisfeita consigo, e à qual fosse indiferente aonde ir e do que falar. Ficaram passeando e conversaram sobre o modo estranho, pelo qual estava iluminado o mar: a água tinha uma cor lilás, macia e tépida, e sobre ela a lua deitava uma faixa dourada. Falavam em como o ar ficava sufocante, após um dia de calor. Gurov contou que era moscovita, formado em Filologia, mas que trabalhava num banco; noutros tempos, preparara-se para cantar num teatro particular de ópera, mas desistira; possuía em Moscou duas casas... Por sua vez, soube dela que fora criada em Petersburg, mas casara-se na cidade de S., onde residia havia dois anos, que passaria ainda em Ialta cerca de um mês e que era provável vir buscá-la o marido, que também queria descansar. Não sabia explicar direito em que repartição, ele trabalhava, e ela mesma achava engraçado esse fato. Gurov soube, ainda, que ela se chamava Ana Sierguéievna.
     Voltando para o quarto, pensou nela e em que, no dia seguinte; certamente haveria de encontrá-la. Deitando-se para dormir, lembrou-se de que, ainda há tão pouco tempo, ela estivera no colégio, estudara como agora a filha dele, lembrou-se também de quanta irresolução e angulosidade havia ainda em seu riso, em seu modo de falar com um desconhecido; provavelmente, era a primeira vez que se encontrava sozinha, em tais circunstâncias, seguida e contemplada, e que alguém lhe dirigia a palavra, com um objetivo secreto que ela não podia deixar de adivinhar. Lembrou-se também de seu pescoço esguio, frágil, de seus bonitos olhos cinzentos.

"Apesar de tudo, há nela qualquer coisa que inspira pena"; pensou, adormecendo.

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Leia também:
A morte do funcionário / O enxoval / Aniúta / A dama do cachorrinho (I) / A dama do cachorrinho (II) /     

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

domingo, 5 de julho de 2026

Tchekhov - Aniúta

A dama do cachorrinho e outras histórias

Anton Tchekhov


Aniúta

     No mais barato dos quartinhos mobiliados do “Lissabon”¹, o estudante do terceiro ano de medicina Stepan Klotchkov decorava com afinco a matéria do curso, andando de um lado para o outro. De tanto decorar, sem uma pausa para descanso, sua garganta ficou seca e gotas de suor brotaram na sua testa.

[1] Uma entre várias casas de cômodos que havia na época, onde se alugavam quartos mobiliados. (N.T.)

     Junto à janela, que tinha os cantos dos vidros cobertos de arabescos de gelo, estava sentada sua inquilina Aniúta, uma moça morena, pequenina, magrinha, de uns 25 anos, muito pálida, com tímidos olhos acinzentados. Inclinada para frente, ela bordava com linha vermelha a gola de uma camisa masculina. O trabalho era urgente... O relógio do corredor bateu duas horas da tarde, e o quartinho ainda não tinha sido arrumado. Um cobertor embolado, travesseiros atirados aqui e ali, livros, roupas, uma grande bacia suja cheia de água com sabão onde boiavam pontas de cigarro, lixo no chão – dava a impressão de que havia um monte de coisas amarfanhadas atiradas de propósito...

– O pulmão direito é formado por três partes... – recitou Klotchkov. – Os limites! A parte superior, na parede anterior do tórax, abrange até quatro ou cinco costelas; na superfície lateral, até a quarta costela... atrás, até a spina scapulae²...

[2] Termo de anatomia em latim: espinha da escápula ou da omoplata. (N.T.)

     Em um esforço para imaginar o que acabara de ler, Klotchkov levantou os olhos para o teto. Não conseguindo uma imagem clara, começou a apalpar em si mesmo, através do colete, as costelas superiores.

– Estas costelas parecem teclas de piano – disse ele. – Para não errar na contagem, é indispensável acostumar-se com elas. Será necessário estudar no esqueleto e em pessoas vivas... Venha cá, Aniúta, deixe eu me orientar.

     Aniúta largou o bordado, tirou a blusa e endireitou o corpo. Klotchkov sentou-se na frente dela, franziu o cenho e começou a contar as costelas.

– Hum... Não sinto a primeira costela... Ela fica atrás da clavícula... Esta aqui deve ser a segunda costela... É isso... E esta é a terceira... Esta é a quarta... Hum... É isso. Por que está se encolhendo?
– Os dedos do senhor estão frios!
– Ora, ora, não vai morrer disso, não fique se remexendo. Então, esta é a terceira costela, e esta é a quarta. Você é magricela, mas quase não se consegue apalpar as costelas... Esta é a segunda, esta é a terceira... Não, assim fica confuso e não se tem uma visão clara... É necessário desenhar... Onde está meu carvão?

     Klotchkov pegou o pedaço de carvão e riscou no peito de Aniúta algumas linhas paralelas, correspondentes às costelas.

– Formidável! Claro como a palma da minha mão... Bem, agora podemos dar batidinhas. Fique em pé!

     Aniúta levantou-se e ergueu o queixo. Klotchkov ficou tão absorvido dando pancadinhas que não notou que os lábios, o nariz e os dedos da moça estavam azuis de frio. Aniúta tremia e receava que, se notasse seu tremor, o estudante desistisse de desenhar com o carvão e depois não fizesse uma boa prova.– Agora está tudo claro – disse Klotchkov, parando de bater.

– Fique aí sentada e não apague o carvão enquanto eu decoro mais umas coisinhas.

     E o estudante pôs-se novamente a caminhar e a memorizar a matéria. Aniúta, com listas pretas no peito, como se estivesse tatuada, ficou sentada, encolhida de frio e pensando. Em geral, ela falava muito pouco, estava sempre calada e pensava, pensava...
     Nos seis ou sete anos em que perambulou por quartos mobiliados, como o de Klotchkov, ela conhecera uns cinco rapazes. Agora todos eles haviam terminado seus cursos, ficaram importantes e, naturalmente, como pessoas da sociedade, há muito a esqueceram. Um deles mora em Paris, dois são médicos, o quarto é um pintor, e o quinto, dizem, já é até catedrático. Klotchkov é o sexto... Em breve ele também terminará seu curso, ficará importante. Sem dúvida, o futuro será maravilhoso, e provavelmente Klotchkov será um grande homem, mas o presente é muito ruim: Klotchkov não tem tabaco nem chá, e restaram quatro pedacinhos de açúcar. Ela precisava terminar o quanto antes o bordado, levar para a mulher que o havia encomendado e depois comprar tabaco e chá com os vinte e cinco copeques que ia receber.

– Posso entrar? – ouviu-se atrás da porta.

     Aniúta atirou rapidamente um xale de lã sobre os ombros. Entrou o pintor Fetíssov.

– Vim lhe fazer um pedido – começou ele, dirigindo-se a Klotchkov com um olhar feroz por baixo dos cabelos que lhe caíam na testa. – Faça-me um favor: me empreste sua maravilhosa donzela por umas duas horinhas! Estou pintando um quadro e sem um modelo vivo, entende, é completamente impossível!
– Ah, com prazer! – concordou Klotchkov. – Vá, Aniúta.
– O que eu já não vi lá! – murmurou Aniúta.
– Ah, deixa disso! A pessoa está pedindo pelo bem da arte, e não para alguma bobagem. Por que não ajudar, se você pode?

     Aniúta pôs-se a vestir a roupa.

– O que está pintando? – perguntou Klotchkov ao pintor.
– Psiquê. O tema é bom, mas não estou conseguindo, tenho de mudar o tempo todo de modelo. Ontem pintei com uma que tinha os pés azuis. Perguntei: “Por que seus pés estão azuis?” É porque as meias soltam tinta”, disse ela. E você continua a decorar! É feliz, tem paciência para isso.
– A medicina é uma coisa que sem decoreba não dá.
– Hum... Desculpe, Klotchkov, mas você vive numa terrível imundície... Só Deus sabe como você vive!
– Quer saber como? Não posso viver de outro modo... Meu pai só me manda doze rublos por mês, e com esse dinheiro é impossível viver decentemente.
– Bem, isso é verdade... – disse o pintor, fazendo uma careta de nojo. – Mas mesmo assim é possível viver um pouco melhor... Um homem culto tem obrigação de ter estética. Não é verdade? Mas isto aqui, só o diabo entende. A cama não está arrumada, água suja, lixo... mingau de ontem no prato... eca!
– É verdade – disse o estudante, confuso –, mas Aniúta hoje não teve tempo de arrumar. Ficou ocupada o dia inteiro.

     Depois que Aniúta e o pintor saíram, Klotchkov deitou-se no divã e voltou à memorização. Sem querer, adormeceu. Meia hora depois, ao acordar, apoiou a cabeça nas mãos e afundou-se em pensamentos sombrios. Lembrou-se das palavras do pintor sobre a necessidade do homem culto de viver com estética, e, de fato, o ambiente do seu quarto agora lhe pareceu nojento, repulsivo. Parecia imaginar com o olho da razão o seu futuro – ele atendendo os pacientes no seu consultório, tomando chá numa grande sala de jantar, em companhia de uma esposa da boa sociedade – e ali, aquela bacia de água suja com pontas de cigarro dava uma impressão incrivelmente asquerosa. Aniúta já lhe parecia uma pessoa feia, sem elegância, digna de pena... Então ele tomou a resolução de separar-se dela imediatamente, custasse o que custasse.
     Quando Aniúta voltou do quarto do pintor e começou a tirar o casaco, ele se levantou e lhe disse seriamente:

– É o seguinte, minha querida... Sente-se e ouça. Precisamos nos separar! Em suma, não quero mais viver com você.

     Aniúta chegara do quarto do pintor completamente exausta, esgotada. Seu rosto, em consequência da longa imobilidade na pose, tinha ficado mais magro e cavado, o queixo estava mais pontudo. Ela não respondeu às palavras do estudante e seus lábios apenas tremeram.

– Concorde que cedo ou tarde teríamos de nos separar, de um jeito ou de outro – disse o estudante de medicina. – Você é boa, generosa e não é boba; você entenderá...

     Aniúta vestiu novamente o casaco, em silêncio embrulhou o bordado num papel, ajuntou as linhas e agulhas; procurou o embrulhinho com os quatro pedaços de açúcar na janela e colocou sobre a mesa ao lado dos livros. 

– Isto é o seu... açúcar... – disse ela baixinho, virando-se de costas para esconder as lágrimas.
– Ora, por que está chorando? – perguntou Klotchkov.

     Embaraçado, ele deu uns passos pelo quarto e disse:

– Mas como você é estranha... Você mesma sabe que temos de nos separar. Não vamos viver a vida toda juntos.

      Ela já tinha reunido todas as suas trouxinhas e se pusera de frente para ele, para se despedir, quando ele teve pena dela.

“Será que ela não poderia ficar aqui mais uma semana?”, pensou. “É isso mesmo, que fique mais um pouco, e daqui a uma semana eu a mando embora.”

     E, aborrecido por não ter personalidade, gritou com ela em tom severo:

– Então, o que está fazendo aí em pé! Se é para sair, saia, mas se não quer, tire o casaco e fique! Fique!

     Calada, Aniúta tirou o casaco devagar, depois assoou o nariz, também sem fazer barulho, suspirou e silenciosamente se dirigiu para a sua posição habitual: no tamborete junto à janela.
     O estudante pegou o livro e novamente se pôs a andar de um lado para o outro.

– O pulmão esquerdo é composto de três partes... – memorizava. – A parte superior, na parede anterior do tórax, abrange até quatro ou cinco costelas...

     E, no corredor, alguém gritou a plenos pulmões:

– Grigóri! O samovar³!

[3] Utensílio russo de uso doméstico, constituído de pequena caldeira provida de um tubo central no qual se colocam brasas para ferver e manter quente a água para o chá.
Fevereiro de 1886. 

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Leia também:
A morte do funcionário / O enxoval / Aniúta / A dama do cachorrinho (I) /    

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

terça-feira, 30 de junho de 2026

Tchekhov - O enxoval

A dama do cachorrinho e outras histórias

Anton Tchekhov


O enxoval

     Na minha vida, vi muitas casas, grandes e pequenas, de pedra e de madeira, velhas e novas. Mas uma em particular gravou-se na minha memória. Essa, aliás, não é uma casa, é uma casinha. Uma casinha de um andar, com três janelas, terrivelmente parecida com uma velhinha pequena, corcunda e de touca. É rebocada e pintada de branco, coberta de telhas, com uma chaminé semidestruída. Está mergulhada na folhagem verde de amoreiras, acácias e álamos, plantados ali pelos avós e bisavós dos atuais proprietários. A casa não é visível atrás dessa verdura. A propósito, essa massa verde não a impede de ser uma casa urbana. Seu largo pátio está enfileirado, lado a lado, com outros pátios, também largos e verdes, formando a rua Moskóvskaia. Ninguém jamais passa de carro por essa rua, e é raro alguém andar a pé por ela.
     As persianas dessa casinha estão sempre fechadas: os moradores não necessitam de luz. A luz é dispensável para eles. As janelas nunca se abrem, porque os habitantes da casinha não gostam de ar fresco. Pessoas que vivem permanentemente entre amoreiras, acácias e bardanas são indiferentes à natureza. Somente aos veranistas das casas de campo é que Deus deu a capacidade de compreender a beleza da natureza; já o restante da humanidade atola-se em profunda ignorância. As pessoas não valorizam o que possuem. “Não conservamos o que é nosso” – costuma-se dizer. Mais do que isso: nós não amamos aquilo que é nosso. Em torno da casinha, há um paraíso terrestre, verde, cheio de pássaros alegres; já dentro da casinha, um horror! No verão, é tórrido e abafado; no inverno, quente como uma sauna, com um ar viciado e um enorme tédio...
     A primeira vez que visitei essa casinha foi há muito tempo, e eu tinha uma incumbência: viera para transmitir os cumprimentos do dono da casa, coronel Tchikamássov, a sua esposa e a sua filha. Lembro-me perfeitamente dessa minha primeira visita, e não poderia ser diferente.
     Imagine uma mulherzinha sem traquejo social, de uns quarenta anos, que olha para você com espanto e pavor no momento em que você passa do vestíbulo para a sala. Você é um “estranho”, uma visita, “um jovem rapaz” – e isso já é suficiente para despertar espanto e pavor. Você não tem na mão nem maça, nem machado, nem revólver; você está sorrindo amistosamente, mas é recebido com ansiedade.

– A quem eu tenho a honra e a satisfação de receber? – pergunta com voz trêmula a senhora de meia-idade, que você identifica como a senhora Tchikamássova. 

     Você diz o seu nome e explica o motivo de sua vinda. O pavor e o espanto são substituídos por um “ah!” estridente e alegre, acompanhado de um revirar de olhos. Esse “ah”, como um eco, é transmitido do vestíbulo para a sala de visitas, da sala de visitas para a sala de jantar e desta para a cozinha... assim chegando até a adega. Em pouco tempo, toda a casinha se enche de muitos tipos de “ah”, alegres e variados. Cinco minutos depois, você já está sentado na sala de jantar, num grande divã, macio e quente, ouvindo toda a rua Moskóvskaia exclamar “ah”.
     Sentia-se um cheiro de pó para traças e de uns sapatos novos, de pele de cabra, que estavam sobre a cadeira ao lado, enrolados num lenço. Nas janelas havia gerânios e retalhos de musselina. Nos retalhos, um monte de moscas de barriga cheia. Na parede pendia o retrato de um arcipreste, pintado a óleo, coberto por um vidro com um cantinho quebrado. Partindo do arcipreste, começava uma fileira de antepassados com fisionomias amarelo-limão, parecendo ciganos. Sobre a mesa estavam um dedal, um novelo de linha e um pé de meia não totalmente tecido; no chão havia moldes e uma blusinha preta com linhas de um colorido vivo. No quarto ao lado, duas velhinhas assustadas e apressadas apanhavam do chão moldes e retalhos...

– Está uma desordem terrível aqui, nos desculpe! – disse Tchikamássova.

     Ela conversava comigo e olhava confusa para a porta, atrás da qual as senhoras estavam catando os moldes. A porta, também de modo confuso, ora se entreabria, ora se fechava.

– O que você quer? – disse Tchikamássova em direção à porta.
Où est mon cravatte, lequel mon père m’avait envoyé de Koursk¹? perguntou de trás da porta uma voz feminina. 

[1] Onde está minha gravata, aquela que meu pai me mandou de Kursk?

Ah, est ce que, Marie, que²... Ah, será possível? Nous avons donc chez nous un homme très peu connu par nous³... Pergunte à Lukéria...

[2] Ah, Marie, é isso mesmo?
[3] Temos aqui um homem que nos é muito pouco conhecido.

“Mas como nós falamos bem francês!” – li nos olhos de Tchikamássova, que estava corada de satisfação.

     Logo depois, a porta se abriu e eu vi uma donzela alta e magra, de uns dezenove anos, com um vestido longo de musselina e um cinto dourado, do qual, me recordo, pendia um leque de madrepérola. Ela entrou, sentou-se e enrubesceu. Inicialmente enrubesceu seu nariz comprido, um pouquinho bexiguento; dali, o rubor caminhou para os olhos e, de lá, para as têmporas.

– Esta é a minha filha! – disse Tchikamássova com voz cantada. – E este, Mánetchka, é o jovem que...

     Eu me apresentei e expressei meu espanto pela enorme quantidade de moldes. Mãe e filha baixaram os olhos.

– No dia da Ascensão houve aqui uma feira – disse a mãe. – Nós sempre compramos uma grande quantidade de tecidos na feira, e depois passamos o ano inteiro costurando, até a próxima feira. Nunca entregamos a costura para outros fazerem. Meu Piotr Semiônytch não ganha muito e não podemos nos permitir luxos. Temos de costurar nós mesmas.
– Mas quem aqui usa tal quantidade de roupas? Pois vocês são só duas.
– Ah... Será que isso se pode usar? Não é para usar. Isso é o enxoval!
– Ah, maman, o que está dizendo! – disse a filha, corando. – Este senhor vai de fato pensar que... Eu nunca me casarei! Nunca!

     Ela disse isso, mas na palavra “casarei” seus olhinhos brilharam.
     Trouxeram chá, torradas, geleia, manteiga, depois serviram framboesas com creme. Às sete da noite, houve um jantar composto de seis pratos, e durante o jantar eu ouvi um bocejo alto no quarto ao lado. Olhei espantado para a porta: um bocejo assim só pode ser de homem.

– É o irmão de Piotr Semiônytch, Iegor Semiônytch... – esclareceu Tchikamássova, notando meu espanto. – Ele mora conosco desde o ano passado. Desculpe-o, ele não pode aparecer para o senhor. É meio selvagem... Fica confuso na presença de estranhos. Pretende ir para um mosteiro... Alguém o ofendeu no trabalho... E agora, por causa da mágoa...

     Depois do jantar, Tchikamássova mostrou uma epitrakhil, que Iegor Semiônytch bordara pessoalmente para dar de presente à igreja. Por um instante, Mánetchka despiu-se de sua timidez e mostrou-me uma bolsa para tabaco que ela havia bordado para o seu paizinho. Quando demonstrei estar surpreso com o seu trabalho, ela ficou toda vermelha e cochichou algo no ouvido da mãe. Esta ficou exultante e me propôs ir com ela ao depósito, onde vi uns cinco baús grandes e uma infinidade de caixas e baús pequenos.

– Isto... é o enxoval! – sussurrou a mãe. – Nós mesmas confeccionamos.

     Depois de ver esses sombrios baús, comecei a me despedir das hospitaleiras proprietárias. Exigiram que eu desse minha palavra de que voltaria algum dia.
     Tive oportunidade de cumprir o que prometera uns sete anos depois da minha primeira visita, quando fui enviado àquela cidadezinha como perito em um caso judiciário. Ao entrar na casinha, já minha conhecida, ouvi os mesmos “ah!”... Elas me reconheceram... Como não haveria de ser? Minha primeira visita fora um grande acontecimento na vida delas e, onde acontece pouca coisa, isso se recorda durante muito tempo... Quando entrei na sala de visitas, a mãe, ainda mais gorda e já com cabelos grisalhos, arrastava-se pelo chão e cortava um tecido azul-escuro; a filha estava sentada no divã, bordando. Os mesmos moldes, o mesmo cheiro de pó para traças, o mesmo retrato com o cantinho quebrado. Contudo, ocorreram mudanças. Ao lado do retrato do arcipreste, pendia o retrato de Piotr Semiônytch, e as duas senhoras estavam de luto. Piotr Semiônytch havia morrido uma semana depois de sua promoção a general.
     Começaram as recordações... A viúva do general derramou algumas lágrimas.

– É uma tristeza enorme para nós! – disse ela. – Piotr Semiônytch – o senhor conhece? – Já não está mais conosco. Eu e ela estamos órfãs e temos de cuidar de nós mesmas. Mas Iegor Semiônytch está vivo, e não podemos falar nada de bom sobre ele. Não o aceitaram no mosteiro, porque... bebe demais. E agora está bebendo ainda mais, de tristeza. Estou pensando em ir me queixar ao decano da nobreza. Imagine o senhor que várias vezes ele abriu os baús, pegou peças do enxoval de Mánetchka e deu para os romeiros. Aos poucos ele esvaziou dois baús! Se continuar assim, minha Mánetchka vai ficar completamente sem dote...
– Que a senhora está dizendo, maman! – disse Mánetchka embaraçada. – Só Deus sabe o que esse senhor vai pensar... Eu nunca, nunca vou me casar!

     Mánetchka olhou inspirada e com esperança para o teto, pelo visto não acreditando no que dizia.
     Pelo vestíbulo esgueirou-se uma pequena figura masculina, com uma calva profunda, casaco marrom e galochas em vez de botas, provocando um leve rumor, como um rato.

“Deve ser Iegor Semiônytch” – pensei.

     Dei uma olhada na mãe e na filha: ambas haviam envelhecido muito, estavam macilentas. A cabeça da mãe cobria-se de prata, a filha desbotara, murchara, e parecia que a mãe era mais velha do que a filha uns cinco anos no máximo.

– Pretendo ir procurar o decano da nobreza – disse a velha, esquecendo-se de que já havia dito isso. – Quero fazer uma queixa! Iegor Semiônytch tira tudo que confeccionamos e doa não sei a quem para salvar sua alma. Minha Mánetchka ficou sem seu enxoval!

     Mánetchka corou, mas dessa vez não disse nada.

– Será preciso fazer tudo de novo, mas Deus sabe que não somos ricaças, de modo algum! Nós duas estamos órfãs!
– Estamos órfãs! – repetiu Mánetchka.

     No ano passado, o destino novamente me atirou naquela casinha que eu conhecia. Entrei na sala de visitas e vi a velha Tchikamássova toda de preto, com crepes na roupa, sentada no divã, costurando algo. Ao seu lado estava um velhinho de casaco marrom e de galochas em vez de botas. Ao me ver, o velhinho levantou-se de um salto e correu para fora da sala... Em resposta ao meu cumprimento, a velhinha sorriu e disse:

Je suis charmée de vous revoir, monsieur4.

[4] É com grande prazer que o vejo novamente, senhor.

– O que a senhora está costurando? – perguntei, passado algum tempo.
– Uma camisa. Eu faço e levo para o padre esconder, senão Iegor Semiônytch carrega. Agora dou tudo para o padre esconder – disse ela, sussurrando.

     E, dando uma olhada para o retrato da filha sobre a mesa próxima, suspirou e disse:

– Como vê, estamos órfãos!

     Mas onde está a filha? Onde está Mánetchka? Não perguntei; não queria interrogar a velhinha vestida de luto profundo. Durante o tempo todo que passei na casinha, e também quando já estava de saída, Mánetchka não apareceu, e nem ao menos ouvi sua voz, ou seus passos leves, tímidos... Tudo ficou claro. Saí com um peso no coração...

Agosto de 1883.
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Leia também:
A morte do funcionário / O enxoval / Aniúta /    

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Tchekhov - A morte do funcionário

A dama do cachorrinho e outras histórias

Anton Tchekhov


Uma breve resenha...





A morte do funcionário

     Em uma noite esplêndida, o não menos esplêndido funcionário encarregado de seção Ivan Dmítritch Tcherviakov[1] estava sentado na segunda fileira do teatro e assistia pelo binóculo à apresentação de Os sinos de Corneville. [2] Olhava e se sentia no auge da bem-aventurança. Mas, de repente... Nas narrativas, encontra-se com frequência esse “mas, de repente”. Os autores estão certos: a vida é tão cheia de acontecimentos inesperados! De repente, seu rosto enrugou, os olhos reviraram, sua respiração parou... Ele afastou o binóculo dos olhos, inclinou-se para a frente e... atchim!!! Espirrou, como vocês perceberam. Não se proíbe a ninguém e em parte alguma de espirrar. Camponeses e chefes de polícia espirram, e às vezes até conselheiros secretos espirram. Todo mundo espirra. Tcherviakov não ficou nem um pouco embaraçado; enxugou-se com o lenço e, sendo um homem educado, olhou em volta para ver se havia incomodado alguém com seu espirro. Mas então foi inevitável que ficasse atrapalhado. Ele viu que um velhinho, sentado à sua frente, na primeira fileira, enxugava cuidadosamente a careca e o pescoço com a luva e resmungava alguma coisa. Tcherviakov reconheceu no velhinho o general civil[3] Bryzjálov, funcionário do departamento de viação.

“Eu cuspi nele!” – pensou Tcherviakov. – “Não é meu chefe, é de outro departamento, mas mesmo assim é embaraçoso. Tenho de pedir desculpas.”

     Tcherviakov deu uma tossidinha, inclinou o tronco para frente e sussurrou no ouvido do general:

– Perdoe-me, Excelência, eu espirrei no senhor... Foi sem querer...
– Não foi nada, não foi nada...
– Pelo amor de Deus, me perdoe. Pois... eu não queria!
– Ah, sente-se, por favor! Deixe-me ouvir a cena

     Tcherviakov ficou confuso, sorriu com ar apalermado e olhou para o palco. Ele assistia à peça, mas já não sentia a mesma bem-aventurança. A preocupação começou a torturá-lo. No intervalo, aproximou-se de Bryzjálov, ficou andando por perto dele e, vencendo a timidez, balbuciou:

– Eu espirrei no senhor, Excelência... Perdoe-me... Eu... não tinha a intenção...
– Ah, já chega... Eu já esqueci, mas o senhor continua a falar no assunto! disse o general, mexendo com impaciência o lábio inferior.

“Ele diz que esqueceu, mas tem maldade no olhar” – pensou Tcherviakov, olhando desconfiado para o general. – “E não quer conversa. Era importante explicar para ele que não tive nenhuma intenção... que é uma lei da natureza, senão pode pensar que eu quis cuspir nele. Pode não pensar agora, mas depois vai pensar!...”

     Chegando em casa, Tcherviakov contou à mulher sua grosseria. Mas lhe pareceu que ela reagiu de modo muito leviano ao ocorrido. Apenas levou um susto, porém depois, quando soube que Bryzjálov não era do departamento do marido, sossegou.

– Apesar de tudo, vá procurá-lo e peça desculpas – disse ela. – Senão ele vai pensar que você não sabe se comportar em público.
– Mas aí é que está! Eu me desculpei, mas ele agiu de modo estranho... Não disse nem uma palavra que prestasse. E não houve tempo para conversarmos.

     No dia seguinte, Tcherviakov vestiu seu novo uniforme de serviço, cortou o cabelo e foi procurar Bryzjálov para se explicar. Ao entrar na antessala, viu ali muitos solicitantes e entre eles o próprio general, que já tinha começado o atendimento. Após interrogar alguns solicitantes, o general levantou os olhos para Tcherviakov.

– Ontem, no “Arcádia”, se Vossa Excelência se recorda – começou a expor o encarregado de seção –, eu dei um espirro e... sem querer, respingou... Peço desc...
– Quanta bobagem... Só Deus sabe o que é isso! O senhor, o que deseja? disse o general, dirigindo-se ao próximo solicitante. 

“Não quer conversar!” – pensou Tcherviakov, empalidecendo. – “Significa que está com raiva... Não, isso não pode ficar assim... Hei de lhe explicar...”

     Quando o general terminou o atendimento ao último solicitante e se dirigiu às dependências internas, Tcherviakov foi atrás dele e começou a balbuciar:

– Excelência! Se ouso incomodá-lo, é precisamente pelo sentimento de arrependimento, posso lhe assegurar!... Não fiz de propósito, o senhor sabe disso!

     O general fez uma expressão de choro e um gesto de pouco caso com a mão.

– O senhor simplesmente está zombando de mim, cavalheiro! – disse ele, sumindo atrás da porta.

“Onde ele viu zombaria?” – pensou Tcherviakov. – “Não houve zombaria nenhuma! É um general, mas não consegue compreender! Se é assim, não vou mais me desculpar com esse fanfarrão! Que vá para o diabo! Vou lhe escrever uma carta, mas não o procuro mais! Juro, nunca mais!”

     Esses eram os pensamentos de Tcherviakov enquanto ia para casa. Mas a carta para o general ele não escreveu. Pensou, pensou e não conseguiu redigi-la. Foi necessário ir pessoalmente se explicar no dia seguinte.

– Ontem vim incomodá-lo – balbuciou Tcherviakov, quando o general o olhou interrogativamente –, não para zombar de Vossa Excelência, como se dignou a afirmar. Eu estava pedindo desculpas porque espirrei e atirei respingos... e nunca pensei em zombar. Ousaria eu fazer uma zombaria? Se isso acontecer, significa que não haverá mais nenhum respeito para com as pessoas...
– Fora daqui! – vociferou o general, já azul e tremendo.
– O que, senhor? – sussurrou Tcherviakov, entorpecido de pavor.
– Fora daqui! – repetiu o general, sapateando.

     Algo rebentou dentro da barriga de Tcherviakov. Sem conseguir ver nem ouvir nada, ele recuou até a porta, saiu para a rua e foi embora arrastando se. Chegou maquinalmente em casa, deitou-se no divã sem tirar o uniforme e... morreu.

Julho de 1883.


Anton Tchekhov - com Elena Vássina




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Leia também:
A morte do funcionário / O enxoval /  

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".