contos e poesia no butekudu baitasar.
a humanidade solidária e amorosa construída com todos incluídos num outro mundo possível, por la vida... siempre!
li nas redes sociais: "se tua religião te faz odiar pessoas por qualquer razão, procura frequentar um buteku e paga os mesmos 10% ao garçom!", enfim... "descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer."
Dos jovens, sem contar a filha mais velha da condessa (com quatro anos mais que Natacha e que se considerava pessoa grande), e a
filha da visitante, só Nicolau e a sobrinha Sônia continuavam na sala. Sônia era uma moreninha franzina, de olhar doce, com longos
cílios a sombreá-lo. Uma grande trança preta lhe fazia duas vezes a volta da cabeça, e a pele, sobretudo a do pescoço e dos braços,
finos, mas fortes e graciosos, tinha uma tonalidade amarelada. Pela harmonia dos movimentos, finura e graça dos membros e pelos
modos um pouco artificiais e comedidos, lembrava uma linda gatinha ainda não formada, mas destinada a ser uma bela gata.
Evidentemente ela achava de bom-tom mostrar, pelo sorriso, que tomava parte na conversação comum, mas seus olhos sombreados
fitavam o primo que partia para o exército com uma expressão tão apaixonada que seu sorriso não podia enganar a ninguém. Era
visível que a gatinha só sentara para pular ainda com mais força e brincar com o primo assim que saíssem da sala como Boris e
Natacha.
— Pois é isso, ma chère — disse o velho conde dirigindo-se à visitante e mostrando seu filho
Nicolau. — Está aí, seu amigo Boris foi promovido a oficial e, por amizade, não quer separar-se
dele. Deixa a Universidade, deixa-me só, a mim, um velho, para prestar o serviço militar, ma chère.
Sua nomeação na diretoria dos arquivos já estava pronta. Eis a amizade, hein?
— Mas dizem que foi declarada a guerra — disse a visitante.
— Sim, dizem isso há muito tempo — respondeu o conde —, falam, falam, e depois as coisas
continuam no mesmo. Ma chère, eis a amizade — repetiu.
— Entrou para os hussardos.
A visitante, não sabendo o que dizer, sacudia a cabeça.
— Não é por amizade! — exclamou Nicolau, defendendo-se com calor, como se tivesse sido
miseravelmente caluniado. — Não é, absolutamente, por amizade, mas porque sinto inclinação pela
carreira das armas. — E voltou-se para a prima e para a filha da visitante, que o aprovavam com um
sorriso.
— Schubert, o comandante do regimento dos hussardos de Pavlograd, janta conosco hoje. Estava
aqui em licença e leva-o com ele. Que fazer! — disse o conde, erguendo os ombros e falando num
tom desprendido dessa história que lhe causava verdadeiro pesar.
— Se não quiser que eu vá, já lhe disse, papai, ficarei. Mas estou certo que não presto para nada
fora do serviço militar. Não sou nem diplomata nem funcionário. Não posso esconder meus
pensamentos — acrescentou, olhando Sônia e a filha da visitante, com a faceirice dos moços de sua
idade.
A gatinha, fixando-o, parecia pronta, a cada segundo, a brincar e mostrar sua natureza felina.
— Está bem, está bem! — disse o velho conde. — Ele sempre se exalta. Esse Bonaparte virou a
cabeça de todo o mundo, todos pensam tornar-se como ele: de segundo-tenente a imperador. Que
Deus permita… — acrescentou, sem notar o sorriso de mofa da visitante.
Os adultos começaram a falar em Bonaparte. Júlia, a filha da princesa Kariaguina, dirigiu-se ao
jovem Rostov.
— Foi uma pena você não ter ido à festa dos Arkharov quinta-feira. — E num sorriso terno: —
Sua falta aborreceu-me.
Lisonjeado, o rapaz aproximou-se dela com um sorriso faceiro, iniciando um tête-à-tête, sem
perceber que Sônia, muito vermelha, esforçava-se para não demonstrar o mal que lhe fazia e para
manter o sorriso. Numa pausa voltou-se para ela e só então viu o olhar magoado e apaixonado que o
fixava; mal retendo as lágrimas e com um sorriso equívoco, Sônia deixou a sala. Toda a animação
de Nicolau desapareceu. Esperou a primeira oportunidade e, com uma expressão inquieta, saiu à
procura da prima.
— Como se descobrem facilmente os segredos dos moços! — disse Ana Mikhailovna, seguindo
Nicolau com o olhar. — Primos, vizinhanças perigosas — acrescentou.
— Sim — disse a condessa, mas o raio de luz que entrara na sala com a mocidade havia
desaparecido. E como respondendo a uma pergunta que ninguém fizera mas que a preocupava
incessantemente: — Quantos sofrimentos e inquietações foi necessário enfrentar pelo prazer de vê
los agora! E, mesmo agora, o receio é maior que a alegria. Sempre se tem medo… E é exatamente
nessa idade que os perigos são maiores para as meninas e rapazes.
— Tudo depende da educação — disse a visitante.
— Sim, a senhora tem razão. Até aqui, graças a Deus, tenho sido sempre amiga de meus filhos e
eles depositam em mim a mais absoluta confiança — disse a condessa, perpetuando o erro de
muitos pais que não creem que seus filhos tenham segredos para eles.
— Sei que sempre serei a primeira confidente de minhas filhas e que se Nikolenka, pelo seu
temperamento arrebatado, viesse a cometer qualquer falta (inevitável num rapaz), nunca seria como
a desses jovens de São Petersburgo.
— Sim, são muito boas crianças, muito boas — repetiu o conde que resolvia todas as questões
complicadas achando todo o mundo bom. — Pois aí está! Quer ser hussardo, o que fazer, ma chère!
— E que criatura encantadora sua filhinha — disse a visitante —, que vivacidade!
— Sim, vivacidade — repetiu o conde. — Saiu a mim. E que voz! Embora seja minha filha, devo
dizer a verdade: será cantora, será uma nova Salamoni. Temos um professor italiano para que
estude.
— Mas não será muito cedo? Dizem que não é bom para a voz começar a estudar nessa idade.
— Não, não é cedo demais — respondeu o conde. — E, afinal, nossas mães não casaram com
doze, treze anos?
— Está apaixonada por Boris! Hein! O que acham? — disse a condessa, olhando a mãe do jovem
oficial e sorrindo docemente. Depois voltando ao pensamento que a preocupava, continuou: —
Veja, se eu a controlasse mais severamente, se a refreasse… Deus sabe o que seriam capazes de
fazer às escondidas… (a condessa pensava que eles seriam capazes de beijar-se). E, agora, sei cada
uma das palavras que eles se dizem. Ela mesma, todas as noites, conta-me tudo. Talvez eu a mime
um pouco, mas é melhor. A mais velha foi educada com mais severidade.
— É, eu não fui educada assim — disse, sorrindo, a linda condessa Vera. Ao contrário do que se
vê em geral, o sorriso não lhe embelezava o rosto, que se tornava desnatural e desagradável. No
entanto, Vera era bonita, nada tola, instruída e bem-educada; tinha voz agradável e o que disse era
sensato e correto. Mas, coisa estranha, todos, a visitante e a condessa, a olharam como admiradas de
ela ter dito isso, e sentiram-se constrangidas.
— É sempre assim com os mais velhos; a gente quer fazer coisas extraordinárias — disse a
visitante.
— Por que esconder, ma chère, a condessa quis fazer de Vera uma coisa extraordinária — disse o
conde. — Pois bem! Não deixa de ser uma ótima criatura — acrescentou, piscando o olho a Vera
com ar de aprovação.
As visitas levantaram-se, e ao sair prometeram vir jantar.
— Que modos! Achei que não iriam embora! — disse a condessa depois de reconduzi-las.
Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos.
Fez-se silêncio. A condessa olhava a princesa com um sorriso agradável, mas sem esconder a satisfação de vê-la partir. A filha da
visitante arranjava o vestido e olhava a mãe interrogativamente, quando, de súbito, ouviu-se no cômodo vizinho um burburinho como
de pessoas correndo, depois um barulho de cadeira virada, e irrompeu na sala uma menina de treze anos. Parou no meio do aposento,
escondendo qualquer coisa na sua saiazinha curta de musselina. Via-se que era por acaso e por não ter calculado o impulso que
chegara tão longe. Quase imediatamente apareceram na porta um estudante de gola púrpura, um oficial da guarda, uma jovem de
quinze anos e um garotinho de cardigã, gordo, de expressão alegre e vermelha.
O conde levantou-se e, bamboleando-se todo, abriu os braços prendendo a menina.
— Ah! Peguei-a! — gritou ele rindo.— É tua festa hoje, ma chère, tua festa.
— Minha querida, tudo tem a sua hora — disse a condessa, fingindo severidade. — Tu a mimas,
Élie — acrescentou, dirigindo-se ao marido.
— Olá, querida, eu te parabenizo. Que criança maravilhosa! — disse a visitante dirigindo-se à
mãe.
A meninazinha tinha os olhos pretos, boca grande, parecia meio feia, mas era de uma vivacidade
sem igual. O movimento dos ombros, que apareciam nus por causa do decote, denunciava que ela
estava correndo. Os cabelos pretos em cachos levantados caíam-lhe nas costas. Os braços eram
finos e nus, e as calças de renda caíam sobre as pernas, e calçava sapatos abertos. Estava nessa idade
deliciosa em que a menina não é mais uma criança e a criança ainda não é moça. Escapando do pai,
correu para a mãe e, sem preocupar-se com seu ar severo, escondeu o rosto vermelho na mantilha de
renda da condessa para rir mais à vontade. Ria de qualquer coisa e, toda ofegante, falava da boneca
que tirou de baixo da saia.
— Está vendo?… a boneca… Mimi… veja. — E Natacha, não podendo mais falar, caiu no colo
da mãe num ataque de riso tão alto e tão sonoro que todos, até a majestosa visitante, tiveram que rir.
— Muito bem, agora vai com teu monstro! — disse a mãe, fingindo que a repelia. — É a mais
moça — explicou a condessa.
Natacha levantou um momento a cabeça da mantilha de renda de tua mãe, olhou a visitante de
cabeça baixa ainda com as lágrimas do riso, e novamente escondeu o rosto.
Forçada a assistir a essa cena de família, a visitante julgou delicado tomar parte.
— Diga-me, minha querida — dirigia-se a Natacha —, qual é seu parentesco com essa Mimi?
Sua filha, provavelmente.
O tom indulgente e essa pergunta infantil da visitante não agradaram a Natacha. Não respondeu
nada e fitou a princesa com ar sério.
Nesse momento, toda a jovem geração: Boris, oficial, filho da princesa Ana Mikhailovna;
Nicolau, estudante e filho mais velho da condessa; Sônia, uma sobrinha do conde, de quinze anos; e
o pequeno Petrucha, o filho mais moço, reuniram-se na sala, esforçando-se visivelmente para
manter dentro dos limites da boa educação a animação e a alegria que se podiam ver em cada um de
seus movimentos. Era evidente que no cômodo vizinho, de onde tinham vindo com tanta
precipitação, os assuntos eram mais alegres que os disse me disse da sala principal, e que falavam
mais do que sobre a sociedade, o tempo e a condessa Apraxine. De quando em vez se entreolhavam
e a grande custo continham o riso.
Os dois rapazes, o estudante e o oficial, eram da mesma idade, amigos de infância, ambos
bonitos, mas de beleza diferente. Boris era alto, louro, rosto calmo de traços finos e regulares.
Nicolau, não muito alto, tinha os cabelos crespos e uma fisionomia franca. No lábio superior
apontava um pequeno buço preto, e todo o semblante exprimia animação e entusiasmo.
Nicolau corou desde que entrou na sala; via-se que ele não sabia o que dizer. Boris, ao contrário,
logo dominou-se e, tranquilamente, fazendo pilhéria, contou que conhecera Mimi-boneca quando
ainda era jovem, antes de partir o nariz, e que, nesses últimos cinco anos, ela quebrara a cabeça e
envelhecera. Contou isso fitando Natacha. Esta virou o rosto, olhou o irmãozinho mais moço, que,
de olhos fechados, ria baixinho. Não podendo mais conter-se, deu um pulo e fugiu da sala o mais
ligeiro que pôde. Boris não ria.
— Parece que a senhora já quer ir, mamãe? É preciso um carro — disse Boris com um sorriso
para a mãe.
— Sim, manda atrelar — respondeu a princesa, sorrindo.
Boris saiu devagar nos passos de Natacha. Petrucha correu furioso atrás deles; parecia descontente por ter sido incomodado em seus
afazeres.
Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos.
O príncipe Vassili, cumprindo a promessa que fizera à princesa Drubetzkaia, no sarau de Ana Pavlovna, intercedera por seu filho
único. Encaminharam o pedido ao imperador, e Boris, excepcionalmente, fora nomeado segundo-tenente da guarda, no regimento
Semenovski. Mas, apesar de todas as solicitações e arranjos de Ana Mikhailovna, não foi nomeado ajudante de ordens, nem entrou
para o Estado-Maior de Kutuzov. Pouco depois da festa de Ana Pavlovna, Ana Mikhailovna voltou a Moscou e foi diretamente para
casa dos Rostov, ricos parentes seus, onde sempre se hospedava e onde fora criado seu adorado Borenka. Este, recentemente
promovido a segundo-tenente de infantaria, passava agora para a guarda. A guarda havia deixado Petersburgo no dia 10 de agosto e o
rapaz ficara em Moscou para mandar fazer o uniforme, devendo alcançá-la na estrada de Radzivilov. Na casa dos Rostov era o dia da
festa das duas Natálias: mãe e filha mais moça. Desde antes do meio-dia, as berlindas chegavam e desfilavam sem cessar, trazendo
visitantes para o palácio da condessa Rostov, conhecido em toda Moscou e localizado à rua Povarskaia, para felicitá-las. A condessa e
sua bonita filha mais velha recebiam no salão os visitantes, que se sucediam continuamente.
A condessa era uma mulher de quarenta e cinco anos, tipo oriental, rosto magro, e visivelmente
fatigada pelos doze filhos que dera ao marido. Os movimentos vagarosos e a voz cansada, devido à
falta de forças, lhe davam um ar imponente que inspirava respeito. A princesa Ana Mikhailovna
Drubetzkaia também se achava lá, e, como pessoa de casa, auxiliava a receber os visitantes e a
entreter a conversação.
Julgando desnecessário participar da recepção, os filhos estavam nos outros cômodos. O conde ia
ao encontro dos convidados e, ao acompanhá-los à porta, convidava a todos para jantar.
— Eu lhe agradeço muito, ma chère ou mon cher (dizia ma chère ou mon cher sem nenhuma
distinção, sem a menor diferença, quer as pessoas fossem de nível superior ou inferior ao seu), eu
lhe agradeço muito em meu nome e no de minhas queridas cuja festa celebramos hoje. Mas venha
para jantar. Não me ofenda, mon cher. Eu a convido cordialmente em nome de toda família, ma
chère.
Dizia essas mesmas palavras a todos sem exceção e sem alterar nada, com a mesma expressão no
rosto bem nutrido, alegre e rigorosamente barbeado, com o mesmo aperto de mão e os mesmos
cumprimentos breves, repetidos. Tendo reconduzido o visitante, o conde voltava àquele ou àquela
que ainda se achasse na sala, aproximava uma poltrona e, com o ar de um homem que sabe e gosta
de rir, com as mãos nos joelhos abria galhardamente as pernas, e balançando o corpo, com
importância, fazia predições sobre o tempo, sobre saúde, ora em russo ora, ousadamente, no seu
péssimo francês. Apesar do cansaço, mas firme no cumprimento do dever, alisando os raros cabelos
já grisalhos, reconduzia mais um visitante, convidando-o para jantar. Às vezes, ao voltar do
vestíbulo, passava pelo jardim de inverno e pela copa para ir à grande sala de paredes de mármore
onde preparavam uma mesa de oitenta talheres; olhando para os criados que traziam as pratas e as
porcelanas, punham as mesas e desdobravam as toalhas adamascadas, chamava Dmitri
Vassilievitch, um mordomo de origem nobre que se ocupava de todos os seus negócios, e lhe dizia:
— Então, Mitenka, toma cuidado para que tudo esteja em ordem. Está bem, está bem… — E
pensava, olhando com prazer a enorme mesa que acabara de ser estendida. — O principal é o
serviço. Sim, sim, sim… — E, com um suspiro de satisfação, voltava novamente para a sala.
— Maria Lvovna Kariaguina e sua filha — anunciou com voz grave o lacaio da condessa,
aparecendo na porta da grande sala.
A condessa refletiu, saboreando uma pitada de fumo da tabaqueira de ouro ornada com o retrato
do marido.
— As visitas me cansaram — disse ela. — Está bem, vou recebê-la, mas será a última. Ela é
muito pernóstica. Mande entrar — disse ao lacaio com uma voz triste, como se tivesse dito: “Pois
bem, essa dará cabo de mim!”
Uma senhora, grande, forte, de aspecto altivo e uma moça de rosto redondo e sempre sorridente,
entraram na sala num farfalhar de saias.
“Querida condessa, há quanto tempo… esteve de cama, a pobrezinha… no baile dos
Razumovski… e a condessa Apraxine… fiquei tão contente…”, ouvia-se um murmúrio de vozes de
mulher interrompendo-se umas às outras e confundindo-se com o rumor dos vestidos e das cadeiras.
Começou, então, uma dessas conversações nas quais se espera apenas uma pausa para levantar-se
num ruído de saias e dizer: “Estou encantada: a saúde de mamãe… e a condessa Apraxine…” e
novamente, num ruído de saias, passar para o vestíbulo, vestir a peliça ou o casacão e sair. A
conversa girava em torno da grande nova do dia, a doença do conde Bezukhov, o riquíssimo e belo
ancião, sobrevivente da época de Catarina, e sobre Pierre, seu filho natural, que se portara tão mal
na recepção de Ana Pavlovna Scherer.
— Lastimo muito o pobre conde — disse a visitante. — Com a saúde já tão fraca, não resistirá a
esse desgosto.
— Mas o que houve? — perguntou a condessa, como se ignorasse do que falava sua
interlocutora, apesar de já lhe terem contado umas quinze vezes a causa da dor do conde Bezukhov.
— Eis aí a educação moderna!
— No exterior, o rapaz estava entregue a si próprio, e agora, em Petersburgo, fez tais horrores,
segundo dizem, que foi expulso pela polícia.
— Realmente! — exclamou a condessa.
— Escolheu mal os amigos — interveio a princesa Ana Mikhailovna. — O filho do príncipe
Vassili, ele e um tal Dolokhov fizeram o diabo, ao que contam. Todos dois foram castigados.
Dolokhov perdeu a patente, voltando a ser soldado, e o filho de Bezukhov foi mandado para
Moscou. Quanto a Anatole Kuriaguine… o pai abafou a história, mas, apesar disso, foi expulso de
Petersburgo.
— Mas o que fizeram? — perguntou a condessa.
— São verdadeiros bandidos, sobretudo Dolokhov — disse a visitante.
— É o filho de Maria Ivanovna Dolokhova, uma senhora tão respeitável! Eis aí! Imagine que os
três pegaram um urso, puseram-no num carro e foram para a casa de umas artistas. A polícia chegou
para acalmá-los e eles pegaram o inspetor, amarraram-no de costas no urso e atiraram este no
Moika; o animal nadou com o policial no lombo.
— Ma chère, eu desejaria ver a cara desse inspetor — exclamou o conde, retorcendo-se de tanto
rir.
— Ah! que horror! Que graça acha nisso, conde?
Mas as senhoras também riam, ainda que tentassem disfarçar.
— Fizeram o impossível para salvar o infeliz — continuou a visitante. — E é o filho do conde
Kiril Vladimirovitch Bezukhov que assim se diverte tão inteligentemente! — acrescentou. — E
diziam que ele era tão bem-educado e talentoso. Eis no que dá a educação no exterior. Espero que
aqui, apesar de sua fortuna, ninguém o receba. Quiseram me apresentá-lo, mas recusei
categoricamente, tenho filhas.
— Por que diz que esse rapaz é tão rico? — perguntou a condessa, se inclinando para a senhora
Karaguine e dando as costas para as moças, que logo fingiram não estar ouvindo. — Ele só tem
filhos ilegítimos. Parece que Pierre… também é filho ilegítimo
A visitante fez um gesto com a mão.
— Creio que ele tem vinte filhos assim.
A princesa Ana Mikhailovna tomava parte na conversa, no desejo evidente de mostrar suas
relações e seus conhecimentos das coisas do mundo.
— O que há é o seguinte — explicou em voz baixa e grave: — A reputação do conde Kiril
Vladimirovitch é conhecida… Ele não sabe mais o número dos filhos que tem, mas esse Pierre
sempre foi o favorito.
— Como o velho ainda estava bonito o ano passado! — disse a condessa. — Nunca vi homem
mais lindo.
— Agora está muito mudado — disse Ana Mikhailovna. — Então, como ia dizendo — continuou
—, pelo lado da mulher, o príncipe Vassili é o herdeiro direto de todos os bens, mas o pai gostava
muito de Pierre, preocupou-se com sua educação e escreveu ao imperador… de sorte que ninguém
sabe, por sua morte (está tão doente que isso pode acontecer a qualquer momento e Lorrain chegou
de Petersburgo), quem receberá essa enorme fortuna, se Pierre ou o príncipe Vassili. Quarenta mil
almas e milhões de rublos. Sei muito bem, pelo próprio príncipe Vassili. E Kiril Vladimirovitch é
também meu parente pelo seu lado materno; é o padrinho de Boris — acrescentou como se não
desse a menor importância a esse fato.
— O príncipe Vassili chegou ontem a Moscou. Disseram-me que anda inspecionando —
informou a visitante.
— Sim, mas entre nós — fez a princesa —, isso é um pretexto. Sabendo do estado do príncipe
Kiril Vladimirovitch, veio vê-lo.
— No entanto, ma chère, foi uma boa história — disse o conde. E, percebendo que a visitante não
o escutava, dirigiu-se às moças. — Eu só imagino a cara do inspetor.
E, mostrando como o infeliz deveria ter agitado os braços, irrompeu num riso sonoro e profundo
que lhe sacudiu todo o corpo, como costumam rir os homens que sempre comeram bem e sobretudo
beberam melhor.
— Muito bem, espero que voltem para jantar — disse ele.
Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos.
No cômodo vizinho ouviu-se o farfalhar de um vestido. Como se acordasse naquele instante e sacudindo-se todo, o príncipe André
retomou a expressão que manteve na festa de Ana Pavlovna. Pierre tirou os pés do divã.
A princesa entrou. Havia retirado seu traje de noite e estava agora com um vestido caseiro, mas
sempre fresca e elegante. Seu marido levantou-se e, polidamente, ofereceu-lhe uma poltrona.
— Muitas vezes pergunto a mim mesma — disse em francês, como sempre, fazendo barulho ao
sentar-se na poltrona — por que Annette não casou. Como vocês homens são tolos, não casando
com ela. Perdoem-me, mas vocês não compreendem as mulheres. E que discutidor está me saindo o
senhor Pierre!
— Sim, e até com seu marido sempre discuto. Não compreendo por que ele quer ir para a guerra
— disse Pierre, dirigindo-se à princesa, sem os salamaleques habituais nas relações entre um rapaz e
uma moça.
A princesa teve um sobressalto.
Era evidente que as palavras de Pierre a tocavam em cheio.
— Aí está! Sempre digo a mesma coisa. Não compreendo por que os homens não podem viver
sem guerra! Por que, nós, mulheres, não queremos nada, não temos necessidade de nada? Pois bem,
sirva de juiz. Eu lhe digo sempre… aqui, é ajudante de ordens do tio, tem uma brilhante situação,
todos o conhecem e apreciam muito. Um dia desses, na casa dos Apraxine, ouvi uma senhora dizer:
“Então é esse o famoso príncipe André? Vejam só!” — Riu. — É bem recebido em toda a parte,
poderá, muito facilmente, vir a ser ajudante de ordens do imperador. Você sabe que o tzar falou
muito gentilmente com ele. Annette e eu achamos que será muito fácil arranjar isso. O que acha?
Pierre olhou o príncipe André e, vendo que esse assunto desagradava o amigo, não respondeu
nada.
— Quando embarca? — perguntou.
— Ah! não me fale nessa partida, não me fale. Nem quero ouvir falar nisso — disse a princesa no
mesmo tom caprichoso com que falara com o príncipe Hippolyte, mas que, evidentemente, destoava
num ambiente familiar do qual Pierre era considerado íntimo. — Hoje, pensando que devo
interromper todas essas relações que me são caras… E depois, tu sabes, André? — Olhava para o
marido com os olhos arregalados. — Tenho medo, tenho medo — segredou estremecendo.
O marido, como se só então tivesse percebido que além dele e Pierre havia mais alguém na sala,
de forma delicada, mas fria, perguntou-lhe:
— De que tens medo, Lisa? Não posso compreender…
— Está aí como são egoístas vocês homens, todos, todos, uns egoístas. Deixa-me
espontaneamente, sabe Deus por quê, e quer encerrar-me sozinha no campo.
— Com meu pai e minha irmã, não te esqueças — disse suavemente o príncipe André.
— Dá no mesmo. Sem meus amigos, não deixarei de estar só… e depois não quer que eu tenha
medo.
Choramingava e sua boca entreaberta já não tinha a expressão sorridente, mas a de um
animalzinho assustado.
Calou-se como se julgasse inconveniente falar em sua gravidez na frente de Pierre, pois esse era o
motivo real da discussão.
— Não compreendo de que tens medo — disse o príncipe André lentamente, fitando-a com
insistência.
Gesticulando desesperadamente, a princesa corou.
— Não, André, eu digo estás tão mudado, tão mudado…
— Teu médico recomendou-te ir cedo para a cama — disse o príncipe André. — Creio que deves
recolher-te.
A princesa não respondeu, mas de súbito seu beicinho começou a tremer; o príncipe levantou-se,
dando de ombros, e começou a andar pela sala.
Pierre, muito admirado, olhava ingenuamente, ora o príncipe, ora a princesa; fez um movimento
para levantar-se, mas, refletindo, continuou sentado.
— Não faz mal que o senhor Pierre esteja presente! — retrucou a princesinha, fazendo uma cara
de choro. — Há muito tempo que queria perguntar por que mudaste tanto comigo, André? O que foi
que eu fiz? Vais para a guerra e não tens pena de mim, por quê?
— Lisa! — limitou-se a dizer o príncipe André, e nessa palavra havia, ao mesmo tempo, um
pedido, uma ameaça e, principalmente, a certeza de que ela lamentaria por aquelas palavras. Mas
Lisa continuou rapidamente:
— Tu me tratas como uma doente ou uma criança. Eu bem o percebo. Não eras assim há seis
meses!
— Lisa! Peço que não continues — disse o príncipe num tom ainda mais expressivo.
Pierre, cada vez mais comovido com essa cena, aproximou-se da princesa. Parecia não poder
suportar a visão das lágrimas, e ele próprio estava prestes a chorar.
— Acalme-se, princesa. Asseguro-lhe que tudo isso pode parecer… Eu sei… porque… porque…
Mas perdoe-me, sou um estranho… Não, acalme-se… eu já vou.
O príncipe André deteve-o com um gesto.
— Espera, Pierre, a princesa é muito boa e não há de querer privar-me do prazer de tua
companhia.
— Não, ele só pensa em si — exclamou a princesa, não retendo mais as lágrimas de cólera.
— Lisa! — cortou secamente o príncipe André, levantando a voz para mostrar que sua paciência
estava esgotada.
Subitamente a expressão de animalzinho feroz deu lugar a uma expressão tímida, apavorada e
recolhida. Seus lindos olhos fitavam timidamente o marido de baixo para cima, como um
cachorrinho com o rabo entre as pernas.
— Mon Dieu, mon Dieu! — disse a princesa, erguendo as dobras do vestido; aproximou-se do
marido e beijou-o na testa.
— Boa noite, Lisa! — fez o príncipe, levantando-se e beijando-lhe cortesmente a mão como a
uma estranha.
* * * *
Os dois amigos ficaram silenciosos. Nem um nem outro procurava conversar. Pierre olhava o príncipe, e este passava a mão fina na
testa.
— Vamos cear — disse num suspiro, dirigindo-se para a porta.
Entraram na sala de jantar, rica e elegantemente mobiliada. Tudo, desde as toalhas até a prataria,
porcelanas, cristais, tinha esse cunho particularmente novo que sempre se nota nas moradas dos
casais jovens. No meio da ceia o príncipe André debruçou-se na mesa com uma expressão de
irritação nervosa que Pierre nunca lhe havia visto, e, como um homem que enfim se decide a
descarregar um peso do coração, começou a falar:
— Não casa, meu amigo, é o conselho que te dou: não casa antes de ter certeza de que fizeste
tudo o que querias fazer. Não casa até ter deixado de amar a mulher que escolheste, de a teres visto
tal como é. Do contrário, te enganarás cruel e irremediavelmente. Casa só depois de velho, quando
não prestares para mais nada… senão, tudo que tiveres de bom e nobre dentro de ti perecerá;
gastarás tudo em ninharias. Sim, sim, sim! Não me olhes assim admirado. Se, futuramente, esperas
fazer alguma coisa, perceberás que tudo está terminado para ti, que todas as portas estão fechadas,
exceto a dos salões, onde estarás no mesmo nível de um lacaio de corte e de um imbecil… Sim, é
isso!…
Fez um gesto brusco.
Pierre tirou os óculos, o que lhe mudava a fisionomia, que se tornara ainda mais bondosa, e,
muito admirado, olhou o amigo.
— Minha mulher — continuou o príncipe André — é uma criatura admirável. É uma das poucas
mulheres com quem se pode estar descansado em assuntos de honra. Mas, meu Deus, quanto eu não
daria para não estar casado! Tu és o primeiro e o único a quem eu falo nessas coisas; isso, porque
gosto de ti.
Dizendo essas palavras, o príncipe André ainda se parecia menos que antes com esse príncipe
Bolkonski que, sentado numa poltrona de Ana Pavlovna, piscando os olhos, deixava passar, entre
dentes, algumas frases em francês. Uma animação nervosa fazia tremer cada músculo de seu rosto
descamado; agora, um brilho claro iluminava-lhe os olhos, que antes pareciam completamente
mortos. Ainda mais energia aparentava nesse momento de irritabilidade quase doentia por ter
normalmente o aspecto de uma criatura sem vida.
— Tu não compreendes por que digo isso — continuou — e, no entanto, é toda a história de
minha existência. Tu dizes “Bonaparte e sua carreira” — complementou, apesar de Pierre não ter
falado em Bonaparte —, mas quando Bonaparte trabalhava, quando caminhava em direção a seu
ideal, era livre, via apenas o ideal, e por isso atingiu-o. Mas se te ligares a uma mulher, então, como
um forçado, com os pés num grilhão, perderás toda a liberdade. Tudo que tiveres de esperança e de
força ficará deprimido e te arrependerás amargamente. Os salões, os disse que disse, os bailes, as
vaidades, as nulidades, eis o círculo vicioso que não poderás romper. Agora, vou para a guerra, para
a maior guerra de todos os tempos, e não sei nada. Não presto para nada. Sou muito amável e muito
sarcástico — continuou o príncipe André — e nas reuniões de Ana Pavlovna todos me escutam. É
essa sociedade idiota sem a qual minha mulher não pode viver, e essas mulheres… Se, ao menos,
pudesse saber o que são essas mulheres de sociedade e as mulheres em geral! Meu pai tem razão. As
mulheres, quando mostram como são, não passam de umas egoístas, vaidosas, estúpidas e de uma
insignificância total. Quando a gente as vê em sociedade, acredita que guardem no íntimo alguma
coisa, mas puro engano, não há nada, nada, nada! É, meu amigo, não cases, não cases! — concluiu o
príncipe André.
— Acho engraçado — disse Pierre — que você se considere incapaz e julgue sua vida perdida,
quando tem ainda futuro na sua frente. Além disso…
Não concluiu a frase, mas o tom indicava o conceito que fazia do amigo, e a confiança que
depositava no seu futuro.
“Como pode falar assim?”, pensava Pierre
Ele considerava o príncipe André como o modelo de todas as perfeições, precisamente porque
reunia, no mais alto grau, as qualidades que lhe faltavam e que podiam ser resumidas nesta
expressão: força de vontade. Sempre admirara a capacidade do príncipe, a sua conduta com os
homens, quaisquer que eles fossem, sua memória extraordinária, tudo que havia lido (lera tudo,
sabia tudo, de tudo tinha uma ideia) e mais ainda, sua capacidade de trabalho e compreensão. Se,
muitas vezes, ficara chocado com sua inaptidão para a filosofia contemplativa (pela qual ele, Pierre,
tinha especial inclinação), não via nisso um defeito, mas um atributo a mais.
Nas relações, por mais íntimas, amigáveis e simples que sejam, a lisonja e o louvor são tão
necessários como a graxa numa engrenagem em movimento.
— Sou um homem liquidado, falemos de ti — disse o príncipe André, sorrindo dessas ideias
consoladoras. Um sorriso refletiu-se imediatamente no semblante de Pierre.
— E o que dizer de mim! — disse Pierre num sorriso despreocupado e jovial. — Quem sou eu?
Um bastardo! — De súbito enrubesceu. Evidentemente fizera um grande esforço para dizer isso. —
Sem nome, sem fortuna… e o que, afinal de contas… — Mas não concluiu esse “afinal de contas”.
— Agora, sou livre e feliz. Mas, francamente, não sei como começar e queria pedir-te que me
aconselhasses.
O príncipe André olhou-o com bondade. Embora amigável, esse olhar exprimia a consciência da
própria superioridade.
— Tenho-lhe afeição principalmente, porque, de todo o nosso círculo, és o único homem que tem
vida. Tu estás satisfeito. Para ti, escolhes o que quiseres, não faz diferença. Em qualquer lugar
estarás bem… mas, uma única coisa… deixa de frequentar Kuriaguine, deixa essa vida. Essas orgias
não te servem.
— O que queres, meu caro? — disse Pierre, encolhendo os ombros. — As mulheres, meu caro, as
mulheres!
— Não compreendo — replicou o príncipe André. — As mulheres decentes são uma coisa, mas
as mulheres de Kuriaguine, as mulheres e o vinho! Não compreendo.
Pierre morava com o príncipe Vassili Kuriaguine e compartilhava das orgias de seu filho Anatole,
o mesmo que, para corrigi-lo, queriam casar com a irmã do príncipe André.
— Sabes — disse Pierre, como se lhe tivesse vindo uma ideia feliz —, já tenho pensado
seriamente nisso; com essa vida não posso refletir nem decidir nada. Tenho dores de cabeça e
nenhum dinheiro. Ele convidou-me hoje, mas não irei.
— Dás tua palavra de honra que não irás mais?
— Palavra de honra!
* * * *
Já passava da uma da madrugada quando Pierre deixou o amigo. Era uma dessas noites brancas de junho em São Petersburgo. Tomou
um carro com a intenção de recolher-se. Mas, quanto mais se aproximava de casa, tanto mais sentia a impossibilidade de dormir nessa
noite que mais se parecia ao crepúsculo ou à alvorada.
Seu olhar perdia-se nas ruas desertas. Durante o caminho lembrou-se que nessa noite havia uma
reunião de seus companheiros habituais de jogo, na casa de Anatole Kuriaguine, seguida de uma
bebedeira que terminaria pelo seu prazer favorito.
“Eu poderia ir lá”, pensou; mas logo lhe veio à memória a palavra de honra que dera ao príncipe
André, de não mais andar com Kuriaguine.
Porém, como acontece com todos os fracos, o intenso desejo de gozar ainda uma vez essa vida de
depravação, tão sua conhecida, o venceu. Imediatamente considerou que a palavra de honra nada
significava para aquela noite porque, antes de prometer ao príncipe André, comprometera-se com
Anatole. Além disso — pensou —, essas palavras de honra são convenções que não têm um sentido
preciso, principalmente considerando que se pode morrer de um momento para outro ou acontecer
alguma coisa tão extraordinária que tudo deixará de existir, inclusive honra e desonra.
Pierre fazia frequentemente esse raciocínio, destruidor de tudo quanto ele resolvia ou conjeturava.
Rumou para a casa de Kuriaguine.
Chegando à residência de Anatole, uma grande casa perto do quartel da guarda montada, Pierre
subiu as escadarias iluminadas. A porta estava aberta, entrou. No vestíbulo não havia ninguém.
Garrafas vazias, casacões e galochas rolavam por toda a parte; sentia-se um cheiro de vinho e, de
longe, ouvia-se o ruído de vozes e de gritos.
O jogo e a ceia já haviam terminado, mas os convivas continuavam reunidos. Pierre atirou o
sobretudo, entrou numa sala onde estavam os restos da ceia e passou por um criado que, pensando
não ser visto, esvaziava os copos. Dos fundos, da terceira sala, vinha um barulho infernal, risadas,
gritos de vozes conhecidas e o bramido de um urso. Ansiosos, oito rapazes se apertavam contra uma
janela aberta; três outros brincavam com um urso novo que um deles puxava por uma corrente
assustando os companheiros.
— Aposto cem rublos em Stievens! — gritou um.
— Atenção, não se deve segurá-lo! — gritou outro.
— Aposto em Dolokhov — disse um terceiro. Que acha, Kuriaguine?!
— Pois bem, deixa Michka, trata-se de uma aposta.
— De um só gole, senão perde!
— Iakov, traz uma garrafa, Iakov! — berrou o dono da casa, um grande e belo rapaz que estava
no meio dos convidados com uma fina camisa aberta ao peito. — Senhores, um momento, meu bom
amigo Petrucha chegou — disse, mostrando Pierre.
Um homem de estatura baixa e olhos azul-claros, com uma voz calma e sóbria contrastava de
modo singular com as outras, já tomadas pelo vinho, chamou pela janela:
— Vem cá, vou te explicar a aposta!
Era Dolokhov, oficial do regimento Semeonovski, muito conhecido como jogador e espadachim,
que morava com Anatole. Pierre sorriu e olhou alegremente em volta de si.
— Não estou entendendo nada, de que se trata?
— Esperem, ele não está bêbado. Alcancem uma garrafa — disse Anatole, e, com um copo na
mão, aproximou-se de Pierre. — Antes de mais nada, bebe.
Olhando e escutando os convivas embriagados que se agrupavam em torno da janela, Pierre
bebeu um copo atrás do outro. Enquanto lhe servia o vinho, Anatole contava que Dolokhov apostara
com Stievens, um oficial da marinha inglesa, como beberia uma garrafa de rum, sentado na janela
do terceiro andar com as pernas para fora.
— Anda, bebe tudo, senão não te deixo em paz — disse Anatole, enchendo-lhe um último copo.
— Não, não quero mais — fez Pierre, empurrando o amigo e aproximando-se da janela.
Dolokhov, segurando o inglês pela mão e dirigindo-se de preferência a Pierre e Anatole,
explicava claramente as condições da aposta. Era um rapaz de mais ou menos vinte e cinco anos,
estatura média, cabelos crespos e olhos azul-claros. Como todos os oficiais de infantaria, não usava
bigode. A linha da boca, seu traço mais característico, era extremamente fina, com o lábio superior
caindo energicamente sobre o inferior em forma de cone agudo, dividindo-a como que em dois
sorrisos permanentes, um de cada lado. O conjunto, acrescentando-lhe o olhar resoluto, ousado e
inteligente, impressionava bastante.
Dolokhov não tinha fortuna nem relações, e apesar de morar com Anatole, que gastava dezenas
de milhares de rublos, soubera impor-se de tal forma que chegava a ser mais estimado por todos os
amigos do que o próprio dono da casa. Jogava todos os jogos e quase sempre ganhava. Nunca perdia
a lucidez por mais que bebesse. Ele e Kuriaguine eram duas celebridades no mundo dos gozadores e
libertinos de Petersburgo.
Trouxeram uma garrafa de rum; dois lacaios, atrapalhados com as ordens e gritos dos patrões que
os cercavam, arrancavam apressadamente os caixilhos que impediam de sentar no rebordo exterior
da janela.
Com seu ar dominador, Anatole aproximou-se. Queria quebrar alguma coisa. Empurrou os
criados e tentou arrancar os caixilhos, mas estes resistiram. Quebrou os vidros.
— Aí, vamos ver o atleta — gritou a Pierre. Este segurou a armação e, fazendo uma barulhada
enorme, arrancou os caixilhos de carvalho.
— Arranca completamente para não pensarem que me seguro — disse Dolokhov.
— O inglês gaba-se, hein? Está tudo em ordem? — perguntou Anatole.
— Está — respondeu Pierre, olhando para Dolokhov, que, com uma garrafa de rum na mão, se
aproximava da janela por onde se via o céu pálido em que as claridades da noite e da manhã
começavam a fundir-se.
Saltou e, em pé, na janela, com a garrafa na mão gritou fazendo todos calar:
— Atenção! Aposto (falava no seu mau francês para que o inglês o compreendesse), aposto
cinquenta imperiais, quer cem? — acrescentou, dirigindo-se a Stievens.
— Não, cinquenta — disse este.
— Bem, cinquenta imperiais como beberei toda a garrafa de rum sem tirá-la da boca, sentado na
parte exterior da janela, ali (baixou-se para indicar o rebordo externo), e sem segurar-me em nada…
está certo?…
— Exatamente — concordou o inglês.
Anatole virou-se para Stievens, segurou-o pelo botão da casaca e, olhando-o de cima (o inglês era
de pequena estatura), repetiu-lhe as condições da aposta em inglês.
— Um momento — gritou Dolokhov, batendo a garrafa na janela para chamar a atenção —,
espera, Kuriaguine. Escutem. Se alguém fizer a mesma coisa, aposto cem imperiais… Entendido?
O inglês fez um sinal de cabeça que não permitia concluir se tinha ou não a intenção de aceitar
essa nova aposta. Anatole não o largava e, embora ele fizesse sinais indicando que compreendera
tudo, continuava traduzindo as palavras de Dolokhov.
Um jovem hussardo, que já havia perdido muito nos jogos daquela noite, trepou na janela e,
inclinando-se, olhou para baixo.
— Hu!… Hu!… — exclamou olhando a calçada.
— Silêncio! — gritou Dolokhov, empurrando o oficialzinho, que se atrapalhou nas esporas ao
saltar para dentro.
Colocando a garrafa sobre o peitoril, para poder segurar a janela com mais facilidade, e com todo
o vagar e prudência, apoiando-se nas duas mãos, sentou-se no rebordo externo, deixando cair as
pernas para fora. Depois de sentir-se bem acomodado, segurou a garrafa. Anatole trouxe duas velas,
colocando-as no parapeito, ainda que a noite estivesse clara. As costas e os cabelos crespos de
Dolokhov, que estava de camisa, estavam iluminados de ambos os lados. Todos se agruparam perto
da janela. O inglês estava na frente. Pierre sorria sem dizer uma palavra. Um dos presentes, mais
idoso, adiantou-se subitamente, com uma expressão de cólera e susto, procurando segurar a camisa
de Dolokhov.
— Mas é uma loucura, ele vai se matar — disse esse homem, o mais ajuizado de todos.
Anatole deteve-o.
— Não toca nele, vais assustá-lo, e então, sim, pode matar-se! E depois?…
Apoiando-se novamente nas mãos e procurando mostrar tranquilidade, Dolokhov virou-se:
— Se alguém continuar a se meter na minha vida — disse, pronunciando distintamente as
palavras com os lábios finos e apertados —, eu o farei descer imediatamente por aqui. Entenderam?
Dizendo isso, virou-se novamente, deixando de apoiar-se, levou a garrafa aos lábios atirando a
cabeça para trás e levantando o braço livre para manter o equilíbrio. Um criado que começava a
juntar os vidros quebrados parou nessa posição inclinada sem despregar os olhos da janela e da
cabeça de Dolokhov. Anatole, com os olhos bem abertos, mantinha-se em pé sem fazer o menor
movimento. O inglês, espichando os lábios, olhava de esguelha. Aquele que procurara deter
Dolokhov retirou-se para um canto da sala e deitou-se num divã, virando o rosto para a parede.
Pierre tapou os olhos com as mãos, sorrindo levemente apesar do medo e horror que sentia.
Ninguém falava. Pierre tirou as mãos dos olhos.
Dolokhov continuava sentado na mesma posição, somente a cabeça estava mais caída, os cabelos
tocando o colarinho da camisa, e a mão que segurava a garrafa, trêmula do esforço, levantava-se
cada vez mais. A garrafa esvaziava-se visivelmente e a cabeça pendia ainda mais para trás. “Por que
demora tanto?”, pensou Pierre. Parecia-lhe que mais de meia hora havia passado. Subitamente,
Dolokhov fez um movimento de espáduas e sua mão tremeu nervosamente. Esse tremor poderia ter
feito escorregar todo o corpo, que estava sobre o rebordo inclinado. Ele movimentou o corpo todo, e
seu braço e cabeça vacilaram de novo.
Uma das mãos chegou a erguer-se para segurar o vão da janela, mas tornou a cair. Pierre fechou
novamente os olhos com o propósito de não ver mais nada. Quando, um segundo depois, sentiu que
todos se agitavam, olhou; Dolokhov estava em pé no vão da janela, muito pálido mas com a
fisionomia alegre:
— Vazia!
Saltando da janela, atirou a garrafa ao inglês, que a aparou habilmente. Exalava um forte hálito de
rum.
— Bravo! Bravo! Aposta ganha! O diabo que os carregue! — gritavam de todos os lados.
O inglês puxou a bolsa e contou o dinheiro. Dolokhov franziu a testa e calou-se. Pierre se lançou
à janela.
— Senhores! Quem quer apostar comigo? Farei o mesmo — disse de repente. — Não preciso de
aposta, tragam-me uma garrafa de rum.
— Está bem! — disse Dolokhov, sorrindo.
— O que é isso, enlouqueceste? Quem permitirá? Até numa escada ficas tonto! — gritavam de
todos os lados.
— Beberei, só quero uma garrafa de rum! — gritou Pierre. Num gesto decidido de bêbado, bateu
na mesa e trepou na janela. Seguraram-no pelas mãos, mas ele era muito forte e repelia todos que se
aproximavam.
— Não, assim vocês não resolvem nada — disse Anatole. — Esperem que eu vou enganá-lo.
Escuta, eu aposto contigo, mas para amanhã, agora nós vamos à casa de ***.
— Vamos — gritou Pierre —, vamos e levemos Michka também. — Pegou o urso e, abraçando
o, começou a dançar com ele pela sala.
Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos.
Guerra e Paz, Liev Tolstói | Resenha | Casa da Coruja
Agradecendo a Ana Pavlovna pela festa encantadora, os convidados começaram a retirar-se.
Pierre era desajeitado e pesadão, de estatura incomum e tinha mãos enormes e vermelhas. Era
incapaz de dizer duas ou três amabilidades ao entrar ou sair de uma sala. Ao levantar-se, em lugar
do seu chapéu, pegou o tricórnio de plumas do general, e ficou a abanar-se com o penacho até o
dono pedir-lhe que o devolvesse. Mas a franqueza, simplicidade e modéstia compensavam-lhe a
atrapalhação e falta de traquejo social. Voltando-se para ele, Ana Pavlovna cumprimentou-o,
exprimindo-lhe, com doçura cristã, o perdão pelas suas inconveniências.
— Espero tornar a vê-lo, mas também espero que mude suas opiniões, meu caro senhor Pierre.
Pierre apenas inclinou-se e, sem responder, sorriu a todos novamente, como se quisesse dizer:
“As opiniões são as opiniões, e todos estão vendo que sou um bom e simpático rapaz.” E todos, até
Ana Pavlovna, involuntariamente pensavam assim.
Passando para o vestíbulo, o príncipe André ouvia com indiferença a conversa de sua mulher com
o príncipe Hippolyte, enquanto o criado lhe vestia o sobretudo. O príncipe Hippolyte rodeava
insistentemente a linda princesinha grávida, fixando-a com a luneta.
— Vamos, Annette, você vai adoentar-se — disse a princesinha despedindo-se de Ana Pavlovna.
— Está resolvido — acrescentou em voz baixa.
Ana Pavlovna já havia falado a Lisa sobre o casamento que projetara de sua cunhada com
Anatole.
— Conto com a senhora, minha querida — disse Pavlovna, também em voz baixa —, escreva-lhe
e não se esqueça de dizer qual é a atitude do pai. Au revoir. — E saiu.
O príncipe Hippolyte aproximou-se da princesinha e disse-lhe, muito perto do rosto, qualquer
coisa, em voz baixa.
Dois criados, o seu e o da princesa, um usando um sobretudo, outro, um xale, esperavam que
terminassem de falar, ouvindo a conversa em francês, incompreensível para eles, mas que fingiam
entender sem querer demonstrá-lo. Como sempre, falando e ouvindo, a princesinha sorria.
— Estou muito contente por não ter ido à festa do embaixador — dizia o príncipe Hippolyte —, é
aborrecido aquilo lá… Uma reunião muito encantadora esta, não é?
— Dizem que o baile vai estar muito animado — respondeu a princesinha, erguendo o pequeno
lábio. — Todas as mulheres bonitas da sociedade estarão lá.
— Nem todas, já que você não irá — respondeu o príncipe Hippolyte, rindo alegremente.
Tomando o xale das mãos do lacaio, cobriu os ombros da princesa. Por falta de jeito ou
voluntariamente (não se pode saber), depois de posto o xale, levou muito tempo para retirar as
mãos, que envolviam o pescoço dela. Parecia apertar a linda criatura.
Ela, sempre sorrindo, afastou-se graciosamente e, ao voltar-se, olhou o marido. O príncipe André
estava de olhos fechados, parecia ter adormecido de cansaço.
— Está pronta? — perguntou ele, percorrendo-a com os olhos.
O príncipe Hippolyte pôs rapidamente o sobretudo, que, na moda de então, caía até o salto dos
sapatos, e, todo atrapalhado, correu até a pequena escada junto da princesa, que o lacaio auxiliava a
subir na carruagem.
— Princesse, au revoir — gritou, com a língua tão atrapalhada quanto os pés.
A princesa, levantando o vestido, entrava na carruagem; o marido arrumava o sabre. O príncipe
Hippolyte, a pretexto de auxiliar, estorvava a todos.
— Com licença — disse secamente o príncipe André, dirigindo-se em russo ao príncipe
Hippolyte, que o impedia de passar.
— Pierre, espero por você — acrescentou com voz serena e terna.
O cocheiro puxou as rédeas e a carruagem movimentou-se. O príncipe Hippolyte, rindo
entrecortadamente, esperava, na pequena escada, o visconde, que prometera levar em casa.
***
— Pois, meu caro, a sua princesinha é muito linda, muito linda — disse o visconde, instalando-se no carro. — Um amor. — Beijou a
ponta dos dedos.— É absolutamente francesa.
Hippolyte não podia mais de tanto rir.
— E sabe que é terrível com aquele arzinho inocente — continuou o visconde. — Eu lamento é o
marido, esse oficialzinho que se dá ares de príncipe reinante.
Hippolyte estourou novamente e entre risadas disse:
— E você dizia que as damas russas não valiam as francesas! É preciso saber levá-las.
Tendo chegado na frente, Pierre, na qualidade de amigo da casa, foi diretamente para o gabinete
do príncipe André. Pegando um livro ao acaso (eram as memórias de César) estirou-se no divã e
começou a ler no meio.
— O que foste fazer a Mademoiselle Scherer? Ela vai adoecer! — disse o príncipe André,
entrando e esfregando as mãos, pequenas e brancas.
Pierre virou-se tão rapidamente que o divã estalou. Fitando o príncipe André com uma expressão
animada e sorridente, fez um gesto com a mão.
— Não, o abade é muito interessante, mas não compreende as coisas como elas são… Para mim,
a paz universal é possível, mas não posso explicar… Em todo o caso, não será com o equilíbrio
político.
Era evidente que o príncipe André não se interessava por esses assuntos abstratos.
— Mon cher, nem sempre se pode dizer o que se pensa. E afinal! Decidiste alguma coisa? Entras
para a guarda ou queres ser diplomata? — perguntou o príncipe André depois de um momento de
silêncio.
Pierre sentou-se no divã como que agachado.
— Creia, ainda não sei. Nenhuma das duas coisas me agrada.
— Mas é preciso decidir. Teu pai espera.
Com a idade de dez anos Pierre fora mandado para o exterior com um abade por preceptor, e lá
ficara até os vinte. Quando voltou a Moscou, o pai despediu o abade e disse ao rapaz:
“Agora, vai a Petersburgo, olha e escolhe, concordarei com tudo. Levas aqui uma carta para o
príncipe Vassili e o dinheiro necessário. Depois, escreve-me, conta comigo para qualquer ajuda.”
Havia três meses Pierre ocupava-se com a escolha de uma carreira, e ainda nada decidira. Era a
escolha de que lhe falava o príncipe André. Passou a mão na testa.
— Mas ele deve ser maçom! — exclamou, pensando no abade Morio.
— Tudo isso é fantasia — atalhou o príncipe André. — Falemos antes de teus negócios. Foste ao
esquadrão de cavalaria?
— Não, não fui; mas me veio uma coisa à cabeça, que eu queria dizer-lhe: agora, estamos em
guerra com Napoleão; se fosse uma guerra pela liberdade, eu compreenderia, e seria o primeiro a
alistar-me, mas auxiliar a Inglaterra e a Áustria contra o maior homem do mundo… não está certo.
O príncipe André limitou-se a sacudir os ombros ouvindo essas palavras infantis. Seu modo
parecia significar que, contra semelhantes tolices, nada havia a opor. Realmente, a tal ingenuidade
era difícil responder de outra forma.
— Se todos fizessem a guerra por convicção, não haveria guerras.
— Isso é que seria bonito! — exclamou Pierre.
O príncipe André sorriu.
— Sim, é possível que seja bonito, mas não acontecerá nunca…
— E você, por que vai para a guerra? — perguntou Pierre.
— Por quê? Nem sei. É necessário. Além disso também… — interrompeu-se. — Vou porque a
vida que estou levando aqui não me convém!
Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos.
Ana Pavlovna prometeu, sorrindo, ocupar-se de Pierre, que sabia ser parente do príncipe Vassili pelo lado paterno. A idosa que estava
sentada ao lado de ma tante levantou-se vivamente e alcançou o príncipe no vestíbulo. Sua fisionomia simpática e enrugada não tinha
mais a expressão de interesse simulado, mas exprimia apenas inquietação e medo.
— E então, meu príncipe, que me diz de Boris? — fez ela ao alcançá-lo (pronunciava Boris com
um acento particular no “o”). — Não posso ficar mais tempo em Petersburgo. Diga-me, que novas
devo levar para meu pobre filho?
Apesar de o príncipe Vassili ouvi-la forçado, quase indelicadamente, com demonstrações de
impaciência, a senhora lhe sorria com ternura e de uma forma tocante; para que ele não se afastasse,
segurou-lhe a mão.
— O que lhe custa falar umas palavras ao imperador? Imediatamente ele entrará para a guarda —
prosseguiu.
— Creia, princesa, farei todo o possível — respondeu o príncipe Vassili —, mas me é difícil fazer
um pedido ao imperador. Eu lhe aconselharia dirigir-se a Rumiantzev por intermédio do príncipe
Golitzine; seria mais hábil.
A princesa Drubetzkaia, como se chamava a idosa, era de uma das melhores famílias da Rússia,
mas estava pobre, havia abandonado a sociedade desde muito e perdera as antigas relações. Estava
ali apenas a fim de conseguir que seu único filho fosse nomeado para a guarda.
Havia sido para encontrar o príncipe Vassili que compareceu ao sarau de Ana Pavlovna;
unicamente por isso ouvira a história do visconde. Sua expressão, outrora bela, aparentou um
descontentamento claro com as palavras do príncipe, mas somente por um segundo. Em seguida,
sorriu novamente e apertou com mais força o braço do príncipe.
— Escute, príncipe — disse ela —, nunca lhe pedi nem nunca lhe pedirei nada; nunca lhe
recordei a amizade que meu pai lhe dedicava. Mas agora, suplico-lhe em nome de Deus, faça isso
para meu filho, e eu o considerarei meu benfeitor — acrescentou apressadamente. — Não se
zangue, mas prometa… Já pedi a Golitzine e ele recusou. Seja amigo, como outrora — rogou
esforçando-se para sorrir, enquanto os olhos se enchiam de lágrimas.
— Papai, vamos chegar tarde — disse Helena, que esperava à porta, voltando a bela cabeça sobre
os ombros dignos de um escultor grego.
A influência na corte é um capital que se precisa poupar para que não desapareça. O príncipe
Vassili sabia disso e compreendia que, se intercedesse por todos que o solicitavam, em pouco tempo
nada mais poderia pedir para si próprio. Assim, muito raramente usava sua influência. Com
referência ao pedido da princesa Drubetzkaia, porém, sentiu certo remorso. A senhora lembrava-lhe
a verdade: devia ao pai dela os primeiros passos que fizera na vida. Além disso, viu-lhe no modo de
agir que era uma dessas mulheres, sobretudo quando mães, que, em se lhes metendo alguma coisa
na cabeça, não se afastam antes de ver seu desejo satisfeito, e no caso contrário, estão sempre
prontas a voltar à carga, cada dia, cada momento, e até mesmo a provocar escândalo. Esta última
consideração o fez hesitar.
— Chère Ana Mikhailovna — disse num tom de voz entediado e com sua familiaridade habitual
—, é quase impossível fazer o que me pede, mas, para provar-lhe o quanto a estimo e como respeito
a lembrança de seu finado pai, farei o impossível. Seu filho entrará para a guarda, tem minha
palavra. Está satisfeita?
— Meu amigo, meu benfeitor! Não esperava outra coisa do senhor, conhecia-lhe a bondade. —
Ele tentou afastar-se. — Espere, duas palavras… Uma vez na guarda — parou —, as boas relações
que tem com Mikhail Illarionovitch Kutuzov autorizam-no a recomendar-lhe Boris para ajudante de
ordens? Então, ficarei tranquila e então…
O príncipe Vassili sorriu.
— Isso não lhe prometo. Não imagina como demandam a Kutuzov depois que foi nomeado
comandante em chefe do exército. Ele mesmo me disse que todas as senhoras de Moscou
combinaram de lhe propor os filhos como ajudantes de ordens.
— Não, prometa, não o deixarei ir, meu caro, meu benfeitor.
— Papai — repetiu a beldade no mesmo tom —, vamos chegar atrasados.
— Pois bem! Au revoir, está vendo?
— Então fará o pedido ao imperador amanhã?
— Perfeitamente, mas quanto a Kutuzov, não prometo nada.
— Não, prometa, prometa, Basile! — disse Ana Mikhailovna com um sorriso de jovem coquete
que lhe devia ser habitual outrora, mas que não sentava mais em seu rosto enrugado. Esquecendo a
idade, punha em jogo pelo hábito todos os seus recursos femininos. Mas, assim que ele saiu,
retomou a expressão anterior, fria e simulada. Voltou ao grupo onde o visconde continuava falando
e, novamente, fingiu escutar, esperando o momento de sair, já que seu assunto estava resolvido.
* * *
— E, diga-nos, qual a sua opinião sobre esta última comédia da coroação em Milão? — perguntou Ana Pavlovna. — É essa nova
comédia dos habitantes de Gênova e de Lucca, que vão apresentar suas petições a Monsieur Buonaparte sentado num trono, e
Monsieur Buonaparte deferindo as petições dos povos! Adorável! Não, é de enlouquecer! Diria que o mundo inteiro perdeu o juízo.
— “É Deus que me concede, ai de quem tocar nela” (palavras de Bonaparte na coroação). —
Dizem que ele estava magnífico ao pronunciar tais palavras — acrescentou o príncipe André,
repetindo em italiano: — “Dio me la data, guai a chi la tocca.”
— Espero que enfim — prosseguiu Ana Pavlovna — isso tenha sido a gota d’água que fará
transbordar o copo. Os soberanos já não podem suportar esse homem, que é uma ameaça para tudo.
— Os soberanos? Não falo da Rússia — disse o visconde num tom de amável desprezo. — Mas
que fizeram os soberanos, madame, por Luís XVI, pela rainha, por Madame Elisabeth? Nada —
continuou, entusiasmando-se. — E creia-me, eles estão sofrendo o castigo pela traição à causa dos
Bourbons. Os soberanos!… Eles mandam embaixadores apresentar cumprimentos ao usurpador!
E com um suspiro de desprezo, tomou outra pose. O príncipe Hippolyte, que, havia muito, olhava
o visconde através dos vidros de sua luneta, virou-se subitamente para a princesinha pedindo-lhe
uma agulha; e, como se ela houvesse perguntado, desenhou na mesa o brasão dos Condés,
explicando-lhe o significado com ar importante.
— Bâton de gueules, engrêlé de gueules d’asur, maison Condé¹ — disse.
[1] Bastão vermelho, entalhado em vermelho e azul, Casa de Condé.
A princesinha ouvia sorrindo.
— Se Bonaparte ficar ainda um ano no trono da França — disse o visconde, continuando a
discorrer, como um homem que não ouve os outros, mas, senhor de seu assunto, segue
exclusivamente o curso de suas ideias —, as coisas irão muito longe. Pela intriga, pela violência,
pelo exílio, pelos suplícios, a sociedade, falo da boa sociedade francesa, será destruída para sempre,
e então…
Levantou os ombros e abriu os braços. Interessado pela conversação, Pierre quis dizer qualquer
coisa, mas foi impedido por Ana Pavlovna, que estava alerta.
— O imperador Alexandre — disse ela, com a tristeza que sempre acompanhava suas palavras
quando se referia à família imperial — declarou que deixaria aos franceses a escolha do próprio
governo. E estou certa que toda a nação, desembaraçada do usurpador, receberá o legítimo rei de
braços abertos — concluiu Ana Pavlovna, procurando ser amável com o emigrante realista.
— É duvidoso — retrucou o príncipe André. — Monsieur le vicomte tem razão quando diz que as
coisas já foram muito longe. Creio que a volta ao passado será difícil.
— Segundo ouvi — intrometeu-se Pierre, corando —, quase toda a nobreza já está com
Bonaparte.
— São os bonapartistas que dizem — respondeu o visconde, sem olhá-lo. — Atualmente é difícil
conhecer a opinião pública na França.
— Bonaparte assim o disse — objetou o príncipe André sorrindo.
(Era evidente que o visconde lhe desagradava, e essas palavras, sem atingi-lo, eram dirigidas
contra ele.)
— “Eu lhes apontei o caminho da glória” — acrescentou, repetindo novamente as palavras de
Napoleão —, “não quiseram segui-lo; abri-lhes as minhas antecâmaras, entraram aos magotes.” Não
sei até que ponto ele tinha o direito de dizer isso.
— Direito nenhum — respondeu o visconde. — Depois do assassinato do duque, até os mais
parciais deixaram de ver nele um herói. Mesmo que ele tenha sido um herói para certas pessoas —
continuou o visconde, dirigindo-se a Ana Pavlovna —, depois do assassinato do duque há mais um
mártir no céu e um herói de menos na terra.
Antes que os presentes esboçassem um sorriso aprovando as palavras do visconde, Pierre
intrometeu-se novamente na conversa, sem dar tempo a Ana Pavlovna de interrompê-lo, embora
houvesse pressentido que ele ia dizer algo fora de propósito.
— A execução do duque d’Enghien — disse Pierre — era uma necessidade de Estado, e só vejo
grandeza de alma em Napoleão assumindo a inteira responsabilidade desse ato.
— Dieu! Mon Dieu! — murmurou Ana Pavlovna aterrada.
— Como, Monsieur Pierre, o senhor acha que assassinar é grandeza de alma? — disse a
princesinha sorrindo e baixando seu tricô.
— Ah! Oh! — exclamavam todas as vozes.
— Capital — disse em inglês o príncipe Hippolyte, batendo nos joelhos.
O visconde contentou-se em dar de ombros. Por cima dos óculos, Pierre olhava todos
triunfalmente.
— Digo isso — continuou — porque os Bourbons fugiram da revolução, deixando o povo na
anarquia! Somente Napoleão soube compreendê-la e vencê-la. E pelo bem comum, não podia
hesitar diante da vida de um só homem.
— Quer passar para esta outra mesa? — perguntou Ana Pavlovna.
Sem responder, Pierre prosseguiu.
— Não — disse animando-se cada vez mais. — Napoleão é grande porque soube colocar-se
acima da revolução, reprimindo os abusos e conservando o que ela tinha de bom: a igualdade dos
cidadãos, a liberdade de palavra e de imprensa. Foi só por isso que conquistou o poder.
— Sim, se tomando o poder para si, sem aproveitá-lo para cometer assassinatos, o houvesse
devolvido ao rei legítimo. Então, sim, eu o chamaria de grande homem — retrucou o visconde.
— Ele não podia fazer isso. O povo lhe deu o poder para que ele destituísse os Bourbons e porque
via nele um grande homem. A revolução foi uma grande obra — continuou Pierre, mostrando com
essa afirmativa audaciosa e provocadora sua extrema juventude e o desejo de exprimir tudo que
pensava da maneira mais completa possível.
— A revolução e o assassínio dos reis, uma grande obra!… Diante disso… mas não quer passar
para esta outra mesa? — repetiu Ana Pavlovna.
— Contrat social — disse o visconde com um sorriso ameno.
— Não falo da execução do rei, falo das ideias.
— Sim, as ideias de pilhagem, de morticínio, do assassinato do rei — interrompeu novamente a
voz irônica.
— Muitos excessos foram praticados, não há dúvida, mas nem tudo está neles; o importante está
nos direitos do homem, no desaparecimento dos preconceitos, na igualdade dos cidadãos. E
Napoleão conservou integralmente essas ideias.
— Liberdade e igualdade — disse o visconde com desprezo como se, afinal, se propusesse a
provar seriamente a esse rapaz a estupidez do que dizia — são grandes palavras desmoralizadas há
muito tempo. Quem não ama a liberdade e a igualdade? Nosso santo Salvador já pregava liberdade e
igualdade. E a revolução tornou os homens mais felizes? Ao contrário. Nós quisemos a liberdade e
Bonaparte a destruiu.
O príncipe André sorria, olhando alternadamente o visconde, Pierre e a dona da casa. Desde os
primeiros arrancos de Pierre, Ana Pavlovna, apesar de seu traquejo social, estava aterrada. Mas,
quando percebeu que suas palavras sacrílegas não perturbavam o visconde e que não era possível
abafá-las, retomou forças aliando-se ao francês para atacar o orador.
— Mas, mon cher Monsieur Pierre — perguntou Ana Pavlovna —, como explica isto: um grande
homem manda executar um duque, enfim, simplesmente outro homem, sem julgamento e sem
crime?…
— Eu perguntaria — disse o visconde — como o cavalheiro explica o 18 Brumário. Não foi uma
farsa? Foi uma escamoteação que em nada se parece com o modo de agir de um grande homem.
— E os prisioneiros da África que ele matou! É horrível — acrescentou a princesinha.
— É um plebeu, digam o que disserem — declarou o príncipe Hippolyte.
Pierre não sabia a quem responder; olhava a todos sorrindo, mas de uma forma diferente dos
outros. Ao contrário dos demais, quando sorria sua fisionomia séria e um pouco sombria
transformava-se subitamente num semblante de criança, bom, até um pouco apatetado, e que parecia
pedir complacência.
Estava claro para o visconde, que o via pela primeira vez, que esse jacobino não era tão terrível
como suas palavras.
Todos calaram.
— Como querem que ele responda a todos ao mesmo tempo? — disse o príncipe André. — Além
disso, a mim me parece que nos atos de um homem público é necessário distinguir os atos do
homem privado, do chefe de exército ou do imperador.
— Sim, sim, naturalmente — disse Pierre, reanimado com este auxílio.
— Não se pode deixar de reconhecer — continuou o príncipe André — que Napoleão, como
homem, foi muito grande; seja na ponte d’Arcole ou no hospital de Jafa, onde deu a mão aos
pestilentos, mas… é verdade, existem outros atos difíceis de justificar.
O príncipe André, que, evidentemente, quisera suavizar as inconveniências de Pierre, levantou-se
para sair, fazendo sinal à sua mulher.
Inesperadamente o príncipe Hippolyte levantou-se e, detendo a todos com um gesto de mãos,
pediu-lhes que se sentassem.
— Ah! contaram-me hoje uma deliciosa anedota moscovita; vou presenteá-los com ela. Desculpe,
visconde, preciso contar em russo, do contrário se perderá o sal da história. — E o príncipe
Hippolyte principiou a falar russo, com a pronúncia dos franceses que passam um ano na Rússia.
Todos pararam, tal era a animação e insistência do príncipe pedindo atenção para a sua história.
— Em Moscou existe uma senhora, une dame, que é muito avarenta. Precisava ter dois lacaios
atrás da carruagem. Mas queria-os muito altos. Era sua mania. E tinha uma criada de quarto, muito
alta…
Nesta altura, o príncipe Hippolyte começou a refletir com visível dificuldade.
— Ela disse… sim, ela disse: Menina (à criada de quarto), veste a libré e vem comigo atrás da
carruagem para fazer visitas.
Dito isso, o príncipe Hippolyte caiu na risada, muito antes da plateia, causando-lhe uma
impressão desfavorável. Só depois disso é que alguns, entre eles Ana Pavlovna, sorriram, apesar do
ridículo da situação.
— Saíram, mas um pé de vento repentino arrancou o chapéu da moça, desmanchando-lhe o
penteado…
Não podia mais conter-se, e, com um riso quase soluçante, concluiu:
— E todo mundo soube…
Era essa a anedota. Apesar de ninguém compreender o sentido e nem por que devia ser contada
em russo, Ana Pavlovna e os demais admiraram a habilidade mundana do príncipe Hippolyte,
evitando novas tiradas desagradáveis de Pierre. Com isso, a conversação dispersou-se pelos
pequenos grupos e recaiu sobre comentários insignificantes, bailes passados e futuros, espetáculos,
assim como sobre dia e local da próxima reunião.
Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos.
O sarau de Ana Pavlovna corria animado. Os fusos trabalhavam com a máxima regularidade e faziam um rumor ininterrupto. Além
de ma tante, que conversava com uma senhora idosa de rosto magro e enrugado, um pouco deslocada nesse círculo brilhante, os
convidados formavam três grupos. Um, na maioria homens, em torno do abade. Outro cercava a bela princesa Helena, filha do
príncipe Vassili, e a linda e graciosa princesinha Bolkonskaia, um pouco pesada demais para sua idade. O terceiro era composto de
Mortemart e Ana Pavlovna.
O visconde era um belo jovem, de traços e maneiras agradáveis, que, visivelmente, se
considerava uma celebridade, mas, homem educado, permitia modestamente que toda aquela gente
gozasse da sua companhia. Aparentemente, era a nota de sensação que Ana Pavlovna oferecia.
Como um bom maître d’hôtel que serve um prato extraordinário que ninguém comeria se o
houvesse visto na cozinha suja, Ana Pavlovna servia a seus convidados o visconde em primeiro
lugar e depois o abade, como qualquer coisa de extrafino. No grupo de Mortemart falava-se no
assassinato do duque d’Enghien. O visconde dizia que o duque morrera por sua magnanimidade e
que havia um motivo especial para a cólera de Bonaparte.
— Vejamos, conte-nos isso, visconde — disse Ana Pavlovna alegremente, achando em sua frase
qualquer ressonância de Luís XV. — Conte-nos isso, visconde.
O visconde inclinou-se em sinal de obediência e sorriu polidamente. Ana Pavlovna formou um
círculo em torno dele e convidou a todos para ouvi-lo.
— O visconde conheceu pessoalmente o duque — cochichou ela ao ouvido de alguém. — O
visconde conta com perfeição — informou a outro. — Como se percebe, o homem é de fino trato!
— disse a um terceiro.
O visconde era servido a todos, sob o aspecto mais elegante e vantajoso para ele, como um
rosbife num prato quente guarnecido de verduras.
Sorrindo finamente, preparou-se para começar sua história.
— Aproxime-se, chère Hélène — disse Ana Pavlovna à bela princesa, que, sentada mais longe,
fazia o centro de outro grupo.
A princesa Helena sorria. Levantou-se com o mesmo sorriso invariável de mulher
verdadeiramente bela, que trazia desde que chegara. Ofuscando todos os olhares com a alvura das
espáduas e o esplendor dos cabelos e dos brilhantes, passou entre os homens fazendo um leve ruído
com o vestido de baile todo branco e guarnecido de arminho. Como que encarnando todo o brilho
da festa, aproximou-se de Ana Pavlovna sem olhar para ninguém, mas autorizando com um sorriso
amável que todos lhe admirassem a beleza do porte, dos ombros roliços, das costas e do decote
muito em moda nessa época. Apesar de linda assim, Helena era despida de qualquer vaidade, mas,
ao contrário, parecia envergonhada, e dava a impressão de procurar inutilmente diminuir o efeito
dessa beleza que se impunha tão forte e vitoriosamente.
— Como é bela! — diziam todos que a viam. Como que atingido por qualquer coisa
extraordinária, o visconde fez um movimento de ombros e baixou os olhos, enquanto ela sentava-se
à sua frente e iluminava-o com o mesmo sorriso invariável.
— Madame, diante de tal público, temo por minhas faculdades — disse ele com um sorriso e
inclinando a cabeça.
Com o braço desnudo e roliço a princesa apoiou-se na mesa, sem dizer nenhuma palavra.
Esperava sorrindo. Enquanto o visconde falou, ficou sentada, quase sem se mover, olhando de
quando em vez para o lindo braço redondo, que a pressão sobre a mesa deformava, ou para seu colo
ainda mais bonito, adornado por um colar de diamantes que ela endireitava; às vezes corrigia a
prega do vestido, e quando a história lhe causava alguma impressão, fitava Ana Pavlovna, e logo
tomava a mesma expressão que a dama de companhia, voltando depois à sua calma e ao seu claro
sorriso.
Seguindo Helena a princesinha também deixou a mesa de chá.
— Esperem por mim, vou pegar o meu trabalho. Então, no que você está pensando? — disse ela
dirigindo-se ao príncipe Hippolyte. — Traga o meu tricô.
Sorrindo e falando a todos, a princesinha fez com que todos se deslocassem, sentou e ajeitou-se
alegremente.
— Pronto — disse ela, e pedindo para começar, reiniciou o tricô. Trazendo-lhe a bolsa, o príncipe
Hippolyte ficou no grupo e, aproximando-se muito da poltrona, sentou-se a seu lado.
Le charmant Hippolyte chamava a atenção pela semelhança extraordinária com a irmã, a mais
bela de todas, e ainda mais porque, apesar dessa semelhança, era horrivelmente feio. Os traços eram
os mesmos da irmã, mas, nela, tudo era iluminado por um sorriso alegre, satisfeito, juvenil,
imutável, vivo, e pela beleza notável, clássica, do corpo. No irmão, ao contrário, o próprio rosto era
obscurecido pela estupidez, sempre com uma expressão de mau humor; era magro e raquítico. Os
olhos, o nariz, a boca, tudo parecia contraído numa careta vaga e entediada, e os braços e pernas
nunca estavam em posição natural.
— Não é uma história de fantasmas? — perguntou ele, sentando-se perto da princesa e levando a
luneta aos olhos como se não pudesse falar sem esse instrumento.
— Claro que não, meu caro — disse o visconde admirado e erguendo os ombros.
— É que eu detesto as histórias de almas do outro mundo — disse num tom que deixava perceber
que ele só compreendia o sentido das palavras depois de pronunciá-las. Mas falava com tanta
petulância que ninguém tinha muita certeza se o que dizia era verdadeiramente espirituoso ou idiota.
Vestia uma casaca verde-garrafa, calças cor de ninfa assustada, como ele mesmo dizia, meias de
seda e sapatos de fivelas.
O visconde contou muito graciosamente a anedota em voga: o duque d’Enghien, indo a Paris às
escondidas para encontrar Mademoiselle George, deparou-se com Bonaparte, a quem a célebre atriz
também dispensava seus favores; nesse encontro Napoleão foi acometido, casualmente, por um dos
acessos a que estava sujeito, ficando, assim, à mercê do duque; este não quis aproveitar a ocasião, e
Bonaparte vingou-se dessa magnanimidade mandando matá-lo.
A história era muito bonita e interessante, principalmente no ponto em que os dois rivais se
encontraram inesperadamente; as senhoras pareciam comovidas.
— Charmant! — disse Ana Pavlovna, olhando interrogativamente a princesinha.
— Charmant! — murmurou esta, espetando a agulha no tricô e mostrando assim que o interesse e
o encanto da história a impediam de continuar trabalhando
O visconde notou esse encômio silencioso e, sorrindo, se preparava a continuar. Mas, nesse
momento, Ana Pavlovna, que estava sempre de olho no rapaz terrível, notou que ele, muito
entusiasmado, falava alto demais com o abade, e apressou-se em direção ao ponto perigoso. De fato,
Pierre conseguira travar conversa com o abade sobre o equilíbrio político, e este, visivelmente
interessado pelo ardor sincero do rapaz, desenvolvia-lhe sua ideia favorita. Ambos ouviam e
falavam com demasiada animação e naturalidade, o que não agradava a Ana Pavlovna.
— Os meios são o equilíbrio europeu e o direito das pessoas — dizia o abade. — E necessário
que um país poderoso como a Rússia, tido como bárbaro, encabece desinteressadamente uma união
com a finalidade de manter o equilíbrio europeu que salvará o mundo.
— Mas como chegar a esse equilíbrio? — perguntava Pierre.
Nesse momento Ana Pavlovna aproximou-se e, fitando-o severamente, perguntou ao italiano
como se dava com o clima de Petersburgo. A fisionomia do abade transformou-se de súbito,
tomando uma expressão adocicada, entre afável e ofendida, que lhe devia ser habitual com as
senhoras:
— Estou de tal forma estarrecido diante do espírito e inteligência desta sociedade, e
principalmente da sociedade feminina, na qual tenho a honra de ser recebido, que ainda não
consegui pensar no clima — respondeu.
Não querendo mais deixar o abade e Pierre, Ana Pavlovna levou-os para o grupo comum, a fim
de controlá-los mais facilmente.
Nesse momento chegou um novo convidado. Era o jovem príncipe André Bolkonski, o marido da
princesinha. Era um rapaz de pequena estatura, muito bonito, de traços secos e acentuados. Todo
ele, a começar pelo olhar fatigado e cheio de tédio, até o passo lento e cadenciado, contrastava com
a animação de sua jovem esposa. Evidentemente, conhecia todos os presentes, que o aborreciam ao
ponto de quase não poder suportá-los, até mesmo quando não falavam. E de todas as fisionomias a
que mais parecia enfastiá-lo era a de sua linda mulher. Com uma careta que lhe enfeava o bonito
rosto, afastou-se dela. Beijou a mão de Ana Pavlovna e, franzindo o cenho, relanceou ao redor.
— Vai alistar-se, meu príncipe? — perguntou-lhe Ana Pavlovna.
— O general Kutuzov — disse Bolkonski, acentuando a última sílaba, como um francês —
solicitou-me como ajudante de ordens…
— E Lisa, sua mulher?
— Irá para o campo.
— É um grande pecado privar-nos da companhia de sua encantadora esposa!
— André — disse a jovem, dirigindo-se ao marido no mesmo tom faceiro com que tratava os
demais —, queria que ouvisse a história sobre Mademoiselle George e Bonaparte que o visconde
nos contou!
O príncipe André apertou os olhos e afastou-se. Pierre, que o fitava com uma expressão alegre e
amiga desde o momento em que entrara, aproximou-se e segurou-lhe a mão. O príncipe, sem se
virar, franziu o rosto numa careta que exprimia seu aborrecimento contra o importuno que lhe
tocava a mão; mas, deparando com a fisionomia alegre de Pierre, sorriu também de uma forma
inesperada, boa e simpática.
— Ah, vejam! Tu também na alta-roda? — perguntou.
— Eu sabia que o encontraria aqui — respondeu Pierre, e acrescentando em voz baixa para não
perturbar o visconde, que continuava sua história: — Irei cear na sua casa, se for possível!
— Não, impossível — disse o príncipe André, rindo e apertando a mão do amigo de forma a
fazer-lhe compreender que isso não era coisa que se pedisse. Ia dizer algo mais, porém tiveram de
afastar-se para dar passagem ao príncipe Vassili e sua filha, que haviam se levantado.
— Perdoe-nos, meu caro visconde — disse o príncipe Vassili, tocando-o levemente no braço para
que não se levantasse. — Essa infortunada festa do embaixador me priva de um prazer e me faz
interrompê-lo. Lamento profundamente deixar sua encantadora reunião — continuou, dirigindo-se a
Ana Pavlovna. A princesa Helena, suspendendo levemente o vestido, passou entre as cadeiras com
um sorriso que tornava seu lindo rosto ainda mais luminoso.
Quando passou por Pierre, ele a fitou com uns olhos quase assustados e impressionados.
— É muito linda — disse o príncipe André.
— Muito linda — repetiu Pierre.
Ao passar na frente deles, o príncipe Vassili tomou a mão de Pierre e dirigindo-se a Ana
Pavlovna:
— Dome este urso. Há um mês que está em minha casa e é a primeira vez que o vejo na
sociedade. Nada mais indispensável para um moço que a companhia das mulheres inteligentes.
Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos.