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domingo, 13 de setembro de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (IX - Pois é isso, ma chère)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
IX

Dos jovens, sem contar a filha mais velha da condessa (com quatro anos mais que Natacha e que se considerava pessoa grande), e a filha da visitante, só Nicolau e a sobrinha Sônia continuavam na sala. Sônia era uma moreninha franzina, de olhar doce, com longos cílios a sombreá-lo. Uma grande trança preta lhe fazia duas vezes a volta da cabeça, e a pele, sobretudo a do pescoço e dos braços, finos, mas fortes e graciosos, tinha uma tonalidade amarelada. Pela harmonia dos movimentos, finura e graça dos membros e pelos modos um pouco artificiais e comedidos, lembrava uma linda gatinha ainda não formada, mas destinada a ser uma bela gata. Evidentemente ela achava de bom-tom mostrar, pelo sorriso, que tomava parte na conversação comum, mas seus olhos sombreados fitavam o primo que partia para o exército com uma expressão tão apaixonada que seu sorriso não podia enganar a ninguém. Era visível que a gatinha só sentara para pular ainda com mais força e brincar com o primo assim que saíssem da sala como Boris e Natacha.

 — Pois é isso, ma chère — disse o velho conde dirigindo-se à visitante e mostrando seu filho Nicolau. — Está aí, seu amigo Boris foi promovido a oficial e, por amizade, não quer separar-se dele. Deixa a Universidade, deixa-me só, a mim, um velho, para prestar o serviço militar, ma chère. Sua nomeação na diretoria dos arquivos já estava pronta. Eis a amizade, hein? 
— Mas dizem que foi declarada a guerra — disse a visitante. 
— Sim, dizem isso há muito tempo — respondeu o conde —, falam, falam, e depois as coisas continuam no mesmo. Ma chère, eis a amizade — repetiu. 
— Entrou para os hussardos.

     A visitante, não sabendo o que dizer, sacudia a cabeça. 

— Não é por amizade! — exclamou Nicolau, defendendo-se com calor, como se tivesse sido miseravelmente caluniado. — Não é, absolutamente, por amizade, mas porque sinto inclinação pela carreira das armas. — E voltou-se para a prima e para a filha da visitante, que o aprovavam com um sorriso. 
— Schubert, o comandante do regimento dos hussardos de Pavlograd, janta conosco hoje. Estava aqui em licença e leva-o com ele. Que fazer! — disse o conde, erguendo os ombros e falando num tom desprendido dessa história que lhe causava verdadeiro pesar. 
— Se não quiser que eu vá, já lhe disse, papai, ficarei. Mas estou certo que não presto para nada fora do serviço militar. Não sou nem diplomata nem funcionário. Não posso esconder meus pensamentos — acrescentou, olhando Sônia e a filha da visitante, com a faceirice dos moços de sua idade.

     A gatinha, fixando-o, parecia pronta, a cada segundo, a brincar e mostrar sua natureza felina. 

— Está bem, está bem! — disse o velho conde. — Ele sempre se exalta. Esse Bonaparte virou a cabeça de todo o mundo, todos pensam tornar-se como ele: de segundo-tenente a imperador. Que Deus permita… — acrescentou, sem notar o sorriso de mofa da visitante.

     Os adultos começaram a falar em Bonaparte. Júlia, a filha da princesa Kariaguina, dirigiu-se ao jovem Rostov. 

— Foi uma pena você não ter ido à festa dos Arkharov quinta-feira. — E num sorriso terno: — Sua falta aborreceu-me.

     Lisonjeado, o rapaz aproximou-se dela com um sorriso faceiro, iniciando um tête-à-tête, sem perceber que Sônia, muito vermelha, esforçava-se para não demonstrar o mal que lhe fazia e para manter o sorriso. Numa pausa voltou-se para ela e só então viu o olhar magoado e apaixonado que o fixava; mal retendo as lágrimas e com um sorriso equívoco, Sônia deixou a sala. Toda a animação de Nicolau desapareceu. Esperou a primeira oportunidade e, com uma expressão inquieta, saiu à procura da prima. 

— Como se descobrem facilmente os segredos dos moços! — disse Ana Mikhailovna, seguindo Nicolau com o olhar. — Primos, vizinhanças perigosas — acrescentou. 
— Sim — disse a condessa, mas o raio de luz que entrara na sala com a mocidade havia desaparecido. E como respondendo a uma pergunta que ninguém fizera mas que a preocupava incessantemente: — Quantos sofrimentos e inquietações foi necessário enfrentar pelo prazer de vê los agora! E, mesmo agora, o receio é maior que a alegria. Sempre se tem medo… E é exatamente nessa idade que os perigos são maiores para as meninas e rapazes. 
— Tudo depende da educação — disse a visitante. 
— Sim, a senhora tem razão. Até aqui, graças a Deus, tenho sido sempre amiga de meus filhos e eles depositam em mim a mais absoluta confiança — disse a condessa, perpetuando o erro de muitos pais que não creem que seus filhos tenham segredos para eles. 
— Sei que sempre serei a primeira confidente de minhas filhas e que se Nikolenka, pelo seu temperamento arrebatado, viesse a cometer qualquer falta (inevitável num rapaz), nunca seria como a desses jovens de São Petersburgo. 
— Sim, são muito boas crianças, muito boas — repetiu o conde que resolvia todas as questões complicadas achando todo o mundo bom. — Pois aí está! Quer ser hussardo, o que fazer, ma chère
— E que criatura encantadora sua filhinha — disse a visitante —, que vivacidade! 
— Sim, vivacidade — repetiu o conde. — Saiu a mim. E que voz! Embora seja minha filha, devo dizer a verdade: será cantora, será uma nova Salamoni. Temos um professor italiano para que estude. 
— Mas não será muito cedo? Dizem que não é bom para a voz começar a estudar nessa idade. 
— Não, não é cedo demais — respondeu o conde. — E, afinal, nossas mães não casaram com doze, treze anos? 
— Está apaixonada por Boris! Hein! O que acham? — disse a condessa, olhando a mãe do jovem oficial e sorrindo docemente. Depois voltando ao pensamento que a preocupava, continuou: — Veja, se eu a controlasse mais severamente, se a refreasse… Deus sabe o que seriam capazes de fazer às escondidas… (a condessa pensava que eles seriam capazes de beijar-se). E, agora, sei cada uma das palavras que eles se dizem. Ela mesma, todas as noites, conta-me tudo. Talvez eu a mime um pouco, mas é melhor. A mais velha foi educada com mais severidade. 
— É, eu não fui educada assim — disse, sorrindo, a linda condessa Vera. Ao contrário do que se vê em geral, o sorriso não lhe embelezava o rosto, que se tornava desnatural e desagradável. No entanto, Vera era bonita, nada tola, instruída e bem-educada; tinha voz agradável e o que disse era sensato e correto. Mas, coisa estranha, todos, a visitante e a condessa, a olharam como admiradas de ela ter dito isso, e sentiram-se constrangidas. 
— É sempre assim com os mais velhos; a gente quer fazer coisas extraordinárias — disse a visitante. 
— Por que esconder, ma chère, a condessa quis fazer de Vera uma coisa extraordinária — disse o conde. — Pois bem! Não deixa de ser uma ótima criatura — acrescentou, piscando o olho a Vera com ar de aprovação.

     As visitas levantaram-se, e ao sair prometeram vir jantar. 

— Que modos! Achei que não iriam embora! — disse a condessa depois de reconduzi-las.

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Guerra e Paz
Primeira Parte:
VI - A princesa entrou / VII - A condessa / VIII - O conde / IX - Pois é isso, ma chère /                     
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (VIII - O conde)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
VIII

Fez-se silêncio. A condessa olhava a princesa com um sorriso agradável, mas sem esconder a satisfação de vê-la partir. A filha da visitante arranjava o vestido e olhava a mãe interrogativamente, quando, de súbito, ouviu-se no cômodo vizinho um burburinho como de pessoas correndo, depois um barulho de cadeira virada, e irrompeu na sala uma menina de treze anos. Parou no meio do aposento, escondendo qualquer coisa na sua saiazinha curta de musselina. Via-se que era por acaso e por não ter calculado o impulso que chegara tão longe. Quase imediatamente apareceram na porta um estudante de gola púrpura, um oficial da guarda, uma jovem de quinze anos e um garotinho de cardigã, gordo, de expressão alegre e vermelha.

          O conde levantou-se e, bamboleando-se todo, abriu os braços prendendo a menina. 

— Ah! Peguei-a! — gritou ele rindo.— É tua festa hoje, ma chère, tua festa. 
— Minha querida, tudo tem a sua hora — disse a condessa, fingindo severidade. — Tu a mimas, Élie — acrescentou, dirigindo-se ao marido. 
— Olá, querida, eu te parabenizo. Que criança maravilhosa! — disse a visitante dirigindo-se à mãe.

     A meninazinha tinha os olhos pretos, boca grande, parecia meio feia, mas era de uma vivacidade sem igual. O movimento dos ombros, que apareciam nus por causa do decote, denunciava que ela estava correndo. Os cabelos pretos em cachos levantados caíam-lhe nas costas. Os braços eram finos e nus, e as calças de renda caíam sobre as pernas, e calçava sapatos abertos. Estava nessa idade deliciosa em que a menina não é mais uma criança e a criança ainda não é moça. Escapando do pai, correu para a mãe e, sem preocupar-se com seu ar severo, escondeu o rosto vermelho na mantilha de renda da condessa para rir mais à vontade. Ria de qualquer coisa e, toda ofegante, falava da boneca que tirou de baixo da saia.

— Está vendo?… a boneca… Mimi… veja. — E Natacha, não podendo mais falar, caiu no colo da mãe num ataque de riso tão alto e tão sonoro que todos, até a majestosa visitante, tiveram que rir. 
— Muito bem, agora vai com teu monstro! — disse a mãe, fingindo que a repelia. — É a mais moça — explicou a condessa.

     Natacha levantou um momento a cabeça da mantilha de renda de tua mãe, olhou a visitante de cabeça baixa ainda com as lágrimas do riso, e novamente escondeu o rosto.
     Forçada a assistir a essa cena de família, a visitante julgou delicado tomar parte. 

— Diga-me, minha querida — dirigia-se a Natacha —, qual é seu parentesco com essa Mimi? Sua filha, provavelmente.

     O tom indulgente e essa pergunta infantil da visitante não agradaram a Natacha. Não respondeu nada e fitou a princesa com ar sério.
     Nesse momento, toda a jovem geração: Boris, oficial, filho da princesa Ana Mikhailovna; Nicolau, estudante e filho mais velho da condessa; Sônia, uma sobrinha do conde, de quinze anos; e o pequeno Petrucha, o filho mais moço, reuniram-se na sala, esforçando-se visivelmente para manter dentro dos limites da boa educação a animação e a alegria que se podiam ver em cada um de seus movimentos. Era evidente que no cômodo vizinho, de onde tinham vindo com tanta precipitação, os assuntos eram mais alegres que os disse me disse da sala principal, e que falavam mais do que sobre a sociedade, o tempo e a condessa Apraxine. De quando em vez se entreolhavam e a grande custo continham o riso.
     Os dois rapazes, o estudante e o oficial, eram da mesma idade, amigos de infância, ambos bonitos, mas de beleza diferente. Boris era alto, louro, rosto calmo de traços finos e regulares. Nicolau, não muito alto, tinha os cabelos crespos e uma fisionomia franca. No lábio superior apontava um pequeno buço preto, e todo o semblante exprimia animação e entusiasmo.
     Nicolau corou desde que entrou na sala; via-se que ele não sabia o que dizer. Boris, ao contrário, logo dominou-se e, tranquilamente, fazendo pilhéria, contou que conhecera Mimi-boneca quando ainda era jovem, antes de partir o nariz, e que, nesses últimos cinco anos, ela quebrara a cabeça e envelhecera. Contou isso fitando Natacha. Esta virou o rosto, olhou o irmãozinho mais moço, que, de olhos fechados, ria baixinho. Não podendo mais conter-se, deu um pulo e fugiu da sala o mais ligeiro que pôde. Boris não ria. 

— Parece que a senhora já quer ir, mamãe? É preciso um carro — disse Boris com um sorriso para a mãe. 
— Sim, manda atrelar — respondeu a princesa, sorrindo.

     Boris saiu devagar nos passos de Natacha.
     Petrucha correu furioso atrás deles; parecia descontente por ter sido incomodado em seus afazeres.

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Guerra e Paz
Primeira Parte:
VI - A princesa entrou / VII - A condessa / VIII - O conde / IX - Pois é isso, ma chère /                     
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (VII - A condessa)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
VII

O príncipe Vassili, cumprindo a promessa que fizera à princesa Drubetzkaia, no sarau de Ana Pavlovna, intercedera por seu filho único. Encaminharam o pedido ao imperador, e Boris, excepcionalmente, fora nomeado segundo-tenente da guarda, no regimento Semenovski. Mas, apesar de todas as solicitações e arranjos de Ana Mikhailovna, não foi nomeado ajudante de ordens, nem entrou para o Estado-Maior de Kutuzov. Pouco depois da festa de Ana Pavlovna, Ana Mikhailovna voltou a Moscou e foi diretamente para casa dos Rostov, ricos parentes seus, onde sempre se hospedava e onde fora criado seu adorado Borenka. Este, recentemente promovido a segundo-tenente de infantaria, passava agora para a guarda. A guarda havia deixado Petersburgo no dia 10 de agosto e o rapaz ficara em Moscou para mandar fazer o uniforme, devendo alcançá-la na estrada de Radzivilov. Na casa dos Rostov era o dia da festa das duas Natálias: mãe e filha mais moça. Desde antes do meio-dia, as berlindas chegavam e desfilavam sem cessar, trazendo visitantes para o palácio da condessa Rostov, conhecido em toda Moscou e localizado à rua Povarskaia, para felicitá-las. A condessa e sua bonita filha mais velha recebiam no salão os visitantes, que se sucediam continuamente.
     
     A condessa era uma mulher de quarenta e cinco anos, tipo oriental, rosto magro, e visivelmente fatigada pelos doze filhos que dera ao marido. Os movimentos vagarosos e a voz cansada, devido à falta de forças, lhe davam um ar imponente que inspirava respeito. A princesa Ana Mikhailovna Drubetzkaia também se achava lá, e, como pessoa de casa, auxiliava a receber os visitantes e a entreter a conversação.
     Julgando desnecessário participar da recepção, os filhos estavam nos outros cômodos. O conde ia ao encontro dos convidados e, ao acompanhá-los à porta, convidava a todos para jantar. 

— Eu lhe agradeço muito, ma chère ou mon cher (dizia ma chère ou mon cher sem nenhuma distinção, sem a menor diferença, quer as pessoas fossem de nível superior ou inferior ao seu), eu lhe agradeço muito em meu nome e no de minhas queridas cuja festa celebramos hoje. Mas venha para jantar. Não me ofenda, mon cher. Eu a convido cordialmente em nome de toda família, ma chère.

     Dizia essas mesmas palavras a todos sem exceção e sem alterar nada, com a mesma expressão no rosto bem nutrido, alegre e rigorosamente barbeado, com o mesmo aperto de mão e os mesmos cumprimentos breves, repetidos. Tendo reconduzido o visitante, o conde voltava àquele ou àquela que ainda se achasse na sala, aproximava uma poltrona e, com o ar de um homem que sabe e gosta de rir, com as mãos nos joelhos abria galhardamente as pernas, e balançando o corpo, com importância, fazia predições sobre o tempo, sobre saúde, ora em russo ora, ousadamente, no seu péssimo francês. Apesar do cansaço, mas firme no cumprimento do dever, alisando os raros cabelos já grisalhos, reconduzia mais um visitante, convidando-o para jantar. Às vezes, ao voltar do vestíbulo, passava pelo jardim de inverno e pela copa para ir à grande sala de paredes de mármore onde preparavam uma mesa de oitenta talheres; olhando para os criados que traziam as pratas e as porcelanas, punham as mesas e desdobravam as toalhas adamascadas, chamava Dmitri Vassilievitch, um mordomo de origem nobre que se ocupava de todos os seus negócios, e lhe dizia: 

— Então, Mitenka, toma cuidado para que tudo esteja em ordem. Está bem, está bem… — E pensava, olhando com prazer a enorme mesa que acabara de ser estendida. — O principal é o serviço. Sim, sim, sim… — E, com um suspiro de satisfação, voltava novamente para a sala. 
— Maria Lvovna Kariaguina e sua filha — anunciou com voz grave o lacaio da condessa, aparecendo na porta da grande sala.

     A condessa refletiu, saboreando uma pitada de fumo da tabaqueira de ouro ornada com o retrato do marido. 

— As visitas me cansaram — disse ela. — Está bem, vou recebê-la, mas será a última. Ela é muito pernóstica. Mande entrar — disse ao lacaio com uma voz triste, como se tivesse dito: “Pois bem, essa dará cabo de mim!”

     Uma senhora, grande, forte, de aspecto altivo e uma moça de rosto redondo e sempre sorridente, entraram na sala num farfalhar de saias.

“Querida condessa, há quanto tempo… esteve de cama, a pobrezinha… no baile dos Razumovski… e a condessa Apraxine… fiquei tão contente…”, ouvia-se um murmúrio de vozes de mulher interrompendo-se umas às outras e confundindo-se com o rumor dos vestidos e das cadeiras. Começou, então, uma dessas conversações nas quais se espera apenas uma pausa para levantar-se num ruído de saias e dizer: “Estou encantada: a saúde de mamãe… e a condessa Apraxine…” e novamente, num ruído de saias, passar para o vestíbulo, vestir a peliça ou o casacão e sair. A conversa girava em torno da grande nova do dia, a doença do conde Bezukhov, o riquíssimo e belo ancião, sobrevivente da época de Catarina, e sobre Pierre, seu filho natural, que se portara tão mal na recepção de Ana Pavlovna Scherer.

— Lastimo muito o pobre conde — disse a visitante. — Com a saúde já tão fraca, não resistirá a esse desgosto. 
— Mas o que houve? — perguntou a condessa, como se ignorasse do que falava sua interlocutora, apesar de já lhe terem contado umas quinze vezes a causa da dor do conde Bezukhov. 
— Eis aí a educação moderna! 
— No exterior, o rapaz estava entregue a si próprio, e agora, em Petersburgo, fez tais horrores, segundo dizem, que foi expulso pela polícia. 
— Realmente! — exclamou a condessa. 
— Escolheu mal os amigos — interveio a princesa Ana Mikhailovna. — O filho do príncipe Vassili, ele e um tal Dolokhov fizeram o diabo, ao que contam. Todos dois foram castigados. Dolokhov perdeu a patente, voltando a ser soldado, e o filho de Bezukhov foi mandado para Moscou. Quanto a Anatole Kuriaguine… o pai abafou a história, mas, apesar disso, foi expulso de Petersburgo. 
— Mas o que fizeram? — perguntou a condessa. 
— São verdadeiros bandidos, sobretudo Dolokhov — disse a visitante. 
— É o filho de Maria Ivanovna Dolokhova, uma senhora tão respeitável! Eis aí! Imagine que os três pegaram um urso, puseram-no num carro e foram para a casa de umas artistas. A polícia chegou para acalmá-los e eles pegaram o inspetor, amarraram-no de costas no urso e atiraram este no Moika; o animal nadou com o policial no lombo. 
Ma chère, eu desejaria ver a cara desse inspetor — exclamou o conde, retorcendo-se de tanto rir. 
— Ah! que horror! Que graça acha nisso, conde?

     Mas as senhoras também riam, ainda que tentassem disfarçar. 

— Fizeram o impossível para salvar o infeliz — continuou a visitante. — E é o filho do conde Kiril Vladimirovitch Bezukhov que assim se diverte tão inteligentemente! — acrescentou. — E diziam que ele era tão bem-educado e talentoso. Eis no que dá a educação no exterior. Espero que aqui, apesar de sua fortuna, ninguém o receba. Quiseram me apresentá-lo, mas recusei categoricamente, tenho filhas. 
— Por que diz que esse rapaz é tão rico? — perguntou a condessa, se inclinando para a senhora Karaguine e dando as costas para as moças, que logo fingiram não estar ouvindo. — Ele só tem filhos ilegítimos. Parece que Pierre… também é filho ilegítimo

     A visitante fez um gesto com a mão. 

— Creio que ele tem vinte filhos assim.

     A princesa Ana Mikhailovna tomava parte na conversa, no desejo evidente de mostrar suas relações e seus conhecimentos das coisas do mundo. 

— O que há é o seguinte — explicou em voz baixa e grave: — A reputação do conde Kiril Vladimirovitch é conhecida… Ele não sabe mais o número dos filhos que tem, mas esse Pierre sempre foi o favorito. 
— Como o velho ainda estava bonito o ano passado! — disse a condessa. — Nunca vi homem mais lindo. 
— Agora está muito mudado — disse Ana Mikhailovna. — Então, como ia dizendo — continuou —, pelo lado da mulher, o príncipe Vassili é o herdeiro direto de todos os bens, mas o pai gostava muito de Pierre, preocupou-se com sua educação e escreveu ao imperador… de sorte que ninguém sabe, por sua morte (está tão doente que isso pode acontecer a qualquer momento e Lorrain chegou de Petersburgo), quem receberá essa enorme fortuna, se Pierre ou o príncipe Vassili. Quarenta mil almas e milhões de rublos. Sei muito bem, pelo próprio príncipe Vassili. E Kiril Vladimirovitch é também meu parente pelo seu lado materno; é o padrinho de Boris — acrescentou como se não desse a menor importância a esse fato. 
— O príncipe Vassili chegou ontem a Moscou. Disseram-me que anda inspecionando — informou a visitante. 
— Sim, mas entre nós — fez a princesa —, isso é um pretexto. Sabendo do estado do príncipe Kiril Vladimirovitch, veio vê-lo. 
— No entanto, ma chère, foi uma boa história — disse o conde. E, percebendo que a visitante não o escutava, dirigiu-se às moças. — Eu só imagino a cara do inspetor.

     E, mostrando como o infeliz deveria ter agitado os braços, irrompeu num riso sonoro e profundo que lhe sacudiu todo o corpo, como costumam rir os homens que sempre comeram bem e sobretudo beberam melhor. 

— Muito bem, espero que voltem para jantar — disse ele.

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Guerra e Paz
Primeira Parte:
VI - A princesa entrou / VII - A condessa / VIII - O conde /                  
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (VI - A princesa entrou)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
VI

No cômodo vizinho ouviu-se o farfalhar de um vestido. Como se acordasse naquele instante e sacudindo-se todo, o príncipe André retomou a expressão que manteve na festa de Ana Pavlovna. Pierre tirou os pés do divã.

     A princesa entrou. Havia retirado seu traje de noite e estava agora com um vestido caseiro, mas sempre fresca e elegante. Seu marido levantou-se e, polidamente, ofereceu-lhe uma poltrona. 

— Muitas vezes pergunto a mim mesma — disse em francês, como sempre, fazendo barulho ao sentar-se na poltrona — por que Annette não casou. Como vocês homens são tolos, não casando com ela. Perdoem-me, mas vocês não compreendem as mulheres. E que discutidor está me saindo o senhor Pierre! 
— Sim, e até com seu marido sempre discuto. Não compreendo por que ele quer ir para a guerra — disse Pierre, dirigindo-se à princesa, sem os salamaleques habituais nas relações entre um rapaz e uma moça.

     A princesa teve um sobressalto.
     Era evidente que as palavras de Pierre a tocavam em cheio. 

— Aí está! Sempre digo a mesma coisa. Não compreendo por que os homens não podem viver sem guerra! Por que, nós, mulheres, não queremos nada, não temos necessidade de nada? Pois bem, sirva de juiz. Eu lhe digo sempre… aqui, é ajudante de ordens do tio, tem uma brilhante situação, todos o conhecem e apreciam muito. Um dia desses, na casa dos Apraxine, ouvi uma senhora dizer: “Então é esse o famoso príncipe André? Vejam só!” — Riu. — É bem recebido em toda a parte, poderá, muito facilmente, vir a ser ajudante de ordens do imperador. Você sabe que o tzar falou muito gentilmente com ele. Annette e eu achamos que será muito fácil arranjar isso. O que acha?

     Pierre olhou o príncipe André e, vendo que esse assunto desagradava o amigo, não respondeu nada. 

— Quando embarca? — perguntou. 
— Ah! não me fale nessa partida, não me fale. Nem quero ouvir falar nisso — disse a princesa no mesmo tom caprichoso com que falara com o príncipe Hippolyte, mas que, evidentemente, destoava num ambiente familiar do qual Pierre era considerado íntimo. — Hoje, pensando que devo interromper todas essas relações que me são caras… E depois, tu sabes, André? — Olhava para o marido com os olhos arregalados. — Tenho medo, tenho medo — segredou estremecendo.

     O marido, como se só então tivesse percebido que além dele e Pierre havia mais alguém na sala, de forma delicada, mas fria, perguntou-lhe: 

— De que tens medo, Lisa? Não posso compreender… 
— Está aí como são egoístas vocês homens, todos, todos, uns egoístas. Deixa-me espontaneamente, sabe Deus por quê, e quer encerrar-me sozinha no campo. 
— Com meu pai e minha irmã, não te esqueças — disse suavemente o príncipe André. 
— Dá no mesmo. Sem meus amigos, não deixarei de estar só… e depois não quer que eu tenha medo.

     Choramingava e sua boca entreaberta já não tinha a expressão sorridente, mas a de um animalzinho assustado.
     Calou-se como se julgasse inconveniente falar em sua gravidez na frente de Pierre, pois esse era o motivo real da discussão. 

— Não compreendo de que tens medo — disse o príncipe André lentamente, fitando-a com insistência.

     Gesticulando desesperadamente, a princesa corou. 

— Não, André, eu digo estás tão mudado, tão mudado… 
— Teu médico recomendou-te ir cedo para a cama — disse o príncipe André. — Creio que deves recolher-te.

     A princesa não respondeu, mas de súbito seu beicinho começou a tremer; o príncipe levantou-se, dando de ombros, e começou a andar pela sala.
     Pierre, muito admirado, olhava ingenuamente, ora o príncipe, ora a princesa; fez um movimento para levantar-se, mas, refletindo, continuou sentado. 

— Não faz mal que o senhor Pierre esteja presente! — retrucou a princesinha, fazendo uma cara de choro. — Há muito tempo que queria perguntar por que mudaste tanto comigo, André? O que foi que eu fiz? Vais para a guerra e não tens pena de mim, por quê? 
— Lisa! — limitou-se a dizer o príncipe André, e nessa palavra havia, ao mesmo tempo, um pedido, uma ameaça e, principalmente, a certeza de que ela lamentaria por aquelas palavras. Mas Lisa continuou rapidamente: 
— Tu me tratas como uma doente ou uma criança. Eu bem o percebo. Não eras assim há seis meses! 
— Lisa! Peço que não continues — disse o príncipe num tom ainda mais expressivo.

     Pierre, cada vez mais comovido com essa cena, aproximou-se da princesa. Parecia não poder suportar a visão das lágrimas, e ele próprio estava prestes a chorar. 

— Acalme-se, princesa. Asseguro-lhe que tudo isso pode parecer… Eu sei… porque… porque… Mas perdoe-me, sou um estranho… Não, acalme-se… eu já vou.

     O príncipe André deteve-o com um gesto. 

— Espera, Pierre, a princesa é muito boa e não há de querer privar-me do prazer de tua companhia. 
— Não, ele só pensa em si — exclamou a princesa, não retendo mais as lágrimas de cólera. 
— Lisa! — cortou secamente o príncipe André, levantando a voz para mostrar que sua paciência estava esgotada.

     Subitamente a expressão de animalzinho feroz deu lugar a uma expressão tímida, apavorada e recolhida. Seus lindos olhos fitavam timidamente o marido de baixo para cima, como um cachorrinho com o rabo entre as pernas. 

Mon Dieu, mon Dieu! — disse a princesa, erguendo as dobras do vestido; aproximou-se do marido e beijou-o na testa. 
— Boa noite, Lisa! — fez o príncipe, levantando-se e beijando-lhe cortesmente a mão como a uma estranha.

* * * *

Os dois amigos ficaram silenciosos. Nem um nem outro procurava conversar. Pierre olhava o príncipe, e este passava a mão fina na testa.


— Vamos cear — disse num suspiro, dirigindo-se para a porta.

     Entraram na sala de jantar, rica e elegantemente mobiliada. Tudo, desde as toalhas até a prataria, porcelanas, cristais, tinha esse cunho particularmente novo que sempre se nota nas moradas dos casais jovens. No meio da ceia o príncipe André debruçou-se na mesa com uma expressão de irritação nervosa que Pierre nunca lhe havia visto, e, como um homem que enfim se decide a descarregar um peso do coração, começou a falar: 

— Não casa, meu amigo, é o conselho que te dou: não casa antes de ter certeza de que fizeste tudo o que querias fazer. Não casa até ter deixado de amar a mulher que escolheste, de a teres visto tal como é. Do contrário, te enganarás cruel e irremediavelmente. Casa só depois de velho, quando não prestares para mais nada… senão, tudo que tiveres de bom e nobre dentro de ti perecerá; gastarás tudo em ninharias. Sim, sim, sim! Não me olhes assim admirado. Se, futuramente, esperas fazer alguma coisa, perceberás que tudo está terminado para ti, que todas as portas estão fechadas, exceto a dos salões, onde estarás no mesmo nível de um lacaio de corte e de um imbecil… Sim, é isso!…

     Fez um gesto brusco.
     Pierre tirou os óculos, o que lhe mudava a fisionomia, que se tornara ainda mais bondosa, e, muito admirado, olhou o amigo.

— Minha mulher — continuou o príncipe André — é uma criatura admirável. É uma das poucas mulheres com quem se pode estar descansado em assuntos de honra. Mas, meu Deus, quanto eu não daria para não estar casado! Tu és o primeiro e o único a quem eu falo nessas coisas; isso, porque gosto de ti.

     Dizendo essas palavras, o príncipe André ainda se parecia menos que antes com esse príncipe Bolkonski que, sentado numa poltrona de Ana Pavlovna, piscando os olhos, deixava passar, entre dentes, algumas frases em francês. Uma animação nervosa fazia tremer cada músculo de seu rosto descamado; agora, um brilho claro iluminava-lhe os olhos, que antes pareciam completamente mortos. Ainda mais energia aparentava nesse momento de irritabilidade quase doentia por ter normalmente o aspecto de uma criatura sem vida. 

— Tu não compreendes por que digo isso — continuou — e, no entanto, é toda a história de minha existência. Tu dizes “Bonaparte e sua carreira” — complementou, apesar de Pierre não ter falado em Bonaparte —, mas quando Bonaparte trabalhava, quando caminhava em direção a seu ideal, era livre, via apenas o ideal, e por isso atingiu-o. Mas se te ligares a uma mulher, então, como um forçado, com os pés num grilhão, perderás toda a liberdade. Tudo que tiveres de esperança e de força ficará deprimido e te arrependerás amargamente. Os salões, os disse que disse, os bailes, as vaidades, as nulidades, eis o círculo vicioso que não poderás romper. Agora, vou para a guerra, para a maior guerra de todos os tempos, e não sei nada. Não presto para nada. Sou muito amável e muito sarcástico — continuou o príncipe André — e nas reuniões de Ana Pavlovna todos me escutam. É essa sociedade idiota sem a qual minha mulher não pode viver, e essas mulheres… Se, ao menos, pudesse saber o que são essas mulheres de sociedade e as mulheres em geral! Meu pai tem razão. As mulheres, quando mostram como são, não passam de umas egoístas, vaidosas, estúpidas e de uma insignificância total. Quando a gente as vê em sociedade, acredita que guardem no íntimo alguma coisa, mas puro engano, não há nada, nada, nada! É, meu amigo, não cases, não cases! — concluiu o príncipe André. 
— Acho engraçado — disse Pierre — que você se considere incapaz e julgue sua vida perdida, quando tem ainda futuro na sua frente. Além disso…

     Não concluiu a frase, mas o tom indicava o conceito que fazia do amigo, e a confiança que depositava no seu futuro.

“Como pode falar assim?”, pensava Pierre

     Ele considerava o príncipe André como o modelo de todas as perfeições, precisamente porque reunia, no mais alto grau, as qualidades que lhe faltavam e que podiam ser resumidas nesta expressão: força de vontade. Sempre admirara a capacidade do príncipe, a sua conduta com os homens, quaisquer que eles fossem, sua memória extraordinária, tudo que havia lido (lera tudo, sabia tudo, de tudo tinha uma ideia) e mais ainda, sua capacidade de trabalho e compreensão. Se, muitas vezes, ficara chocado com sua inaptidão para a filosofia contemplativa (pela qual ele, Pierre, tinha especial inclinação), não via nisso um defeito, mas um atributo a mais.
     Nas relações, por mais íntimas, amigáveis e simples que sejam, a lisonja e o louvor são tão necessários como a graxa numa engrenagem em movimento. 

— Sou um homem liquidado, falemos de ti — disse o príncipe André, sorrindo dessas ideias consoladoras. Um sorriso refletiu-se imediatamente no semblante de Pierre. 
— E o que dizer de mim! — disse Pierre num sorriso despreocupado e jovial. — Quem sou eu? Um bastardo! — De súbito enrubesceu. Evidentemente fizera um grande esforço para dizer isso. — Sem nome, sem fortuna… e o que, afinal de contas… — Mas não concluiu esse “afinal de contas”. — Agora, sou livre e feliz. Mas, francamente, não sei como começar e queria pedir-te que me aconselhasses.

     O príncipe André olhou-o com bondade. Embora amigável, esse olhar exprimia a consciência da própria superioridade. 

— Tenho-lhe afeição principalmente, porque, de todo o nosso círculo, és o único homem que tem vida. Tu estás satisfeito. Para ti, escolhes o que quiseres, não faz diferença. Em qualquer lugar estarás bem… mas, uma única coisa… deixa de frequentar Kuriaguine, deixa essa vida. Essas orgias não te servem. 
— O que queres, meu caro? — disse Pierre, encolhendo os ombros. — As mulheres, meu caro, as mulheres! 
— Não compreendo — replicou o príncipe André. — As mulheres decentes são uma coisa, mas as mulheres de Kuriaguine, as mulheres e o vinho! Não compreendo.

     Pierre morava com o príncipe Vassili Kuriaguine e compartilhava das orgias de seu filho Anatole, o mesmo que, para corrigi-lo, queriam casar com a irmã do príncipe André. 

— Sabes — disse Pierre, como se lhe tivesse vindo uma ideia feliz —, já tenho pensado seriamente nisso; com essa vida não posso refletir nem decidir nada. Tenho dores de cabeça e nenhum dinheiro. Ele convidou-me hoje, mas não irei. 
— Dás tua palavra de honra que não irás mais? 
— Palavra de honra!

* * * *

Já passava da uma da madrugada quando Pierre deixou o amigo. Era uma dessas noites brancas de junho em São Petersburgo. Tomou um carro com a intenção de recolher-se. Mas, quanto mais se aproximava de casa, tanto mais sentia a impossibilidade de dormir nessa noite que mais se parecia ao crepúsculo ou à alvorada.

     Seu olhar perdia-se nas ruas desertas. Durante o caminho lembrou-se que nessa noite havia uma reunião de seus companheiros habituais de jogo, na casa de Anatole Kuriaguine, seguida de uma bebedeira que terminaria pelo seu prazer favorito.

“Eu poderia ir lá”, pensou; mas logo lhe veio à memória a palavra de honra que dera ao príncipe André, de não mais andar com Kuriaguine.

     Porém, como acontece com todos os fracos, o intenso desejo de gozar ainda uma vez essa vida de depravação, tão sua conhecida, o venceu. Imediatamente considerou que a palavra de honra nada significava para aquela noite porque, antes de prometer ao príncipe André, comprometera-se com Anatole. Além disso — pensou —, essas palavras de honra são convenções que não têm um sentido preciso, principalmente considerando que se pode morrer de um momento para outro ou acontecer alguma coisa tão extraordinária que tudo deixará de existir, inclusive honra e desonra.
     Pierre fazia frequentemente esse raciocínio, destruidor de tudo quanto ele resolvia ou conjeturava. Rumou para a casa de Kuriaguine.
     Chegando à residência de Anatole, uma grande casa perto do quartel da guarda montada, Pierre subiu as escadarias iluminadas. A porta estava aberta, entrou. No vestíbulo não havia ninguém. Garrafas vazias, casacões e galochas rolavam por toda a parte; sentia-se um cheiro de vinho e, de longe, ouvia-se o ruído de vozes e de gritos.
     O jogo e a ceia já haviam terminado, mas os convivas continuavam reunidos. Pierre atirou o sobretudo, entrou numa sala onde estavam os restos da ceia e passou por um criado que, pensando não ser visto, esvaziava os copos. Dos fundos, da terceira sala, vinha um barulho infernal, risadas, gritos de vozes conhecidas e o bramido de um urso. Ansiosos, oito rapazes se apertavam contra uma janela aberta; três outros brincavam com um urso novo que um deles puxava por uma corrente assustando os companheiros. 

— Aposto cem rublos em Stievens! — gritou um. 
— Atenção, não se deve segurá-lo! — gritou outro. 
— Aposto em Dolokhov — disse um terceiro. Que acha, Kuriaguine?! 
— Pois bem, deixa Michka, trata-se de uma aposta. 
— De um só gole, senão perde! 
— Iakov, traz uma garrafa, Iakov! — berrou o dono da casa, um grande e belo rapaz que estava no meio dos convidados com uma fina camisa aberta ao peito. — Senhores, um momento, meu bom amigo Petrucha chegou — disse, mostrando Pierre.

     Um homem de estatura baixa e olhos azul-claros, com uma voz calma e sóbria contrastava de modo singular com as outras, já tomadas pelo vinho, chamou pela janela: 

— Vem cá, vou te explicar a aposta!

     Era Dolokhov, oficial do regimento Semeonovski, muito conhecido como jogador e espadachim, que morava com Anatole. Pierre sorriu e olhou alegremente em volta de si. 

— Não estou entendendo nada, de que se trata? 
— Esperem, ele não está bêbado. Alcancem uma garrafa — disse Anatole, e, com um copo na mão, aproximou-se de Pierre. — Antes de mais nada, bebe.

     Olhando e escutando os convivas embriagados que se agrupavam em torno da janela, Pierre bebeu um copo atrás do outro. Enquanto lhe servia o vinho, Anatole contava que Dolokhov apostara com Stievens, um oficial da marinha inglesa, como beberia uma garrafa de rum, sentado na janela do terceiro andar com as pernas para fora. 

— Anda, bebe tudo, senão não te deixo em paz — disse Anatole, enchendo-lhe um último copo. 
— Não, não quero mais — fez Pierre, empurrando o amigo e aproximando-se da janela.

     Dolokhov, segurando o inglês pela mão e dirigindo-se de preferência a Pierre e Anatole, explicava claramente as condições da aposta. Era um rapaz de mais ou menos vinte e cinco anos, estatura média, cabelos crespos e olhos azul-claros. Como todos os oficiais de infantaria, não usava bigode. A linha da boca, seu traço mais característico, era extremamente fina, com o lábio superior caindo energicamente sobre o inferior em forma de cone agudo, dividindo-a como que em dois sorrisos permanentes, um de cada lado. O conjunto, acrescentando-lhe o olhar resoluto, ousado e inteligente, impressionava bastante.
     Dolokhov não tinha fortuna nem relações, e apesar de morar com Anatole, que gastava dezenas de milhares de rublos, soubera impor-se de tal forma que chegava a ser mais estimado por todos os amigos do que o próprio dono da casa. Jogava todos os jogos e quase sempre ganhava. Nunca perdia a lucidez por mais que bebesse. Ele e Kuriaguine eram duas celebridades no mundo dos gozadores e libertinos de Petersburgo.
     Trouxeram uma garrafa de rum; dois lacaios, atrapalhados com as ordens e gritos dos patrões que os cercavam, arrancavam apressadamente os caixilhos que impediam de sentar no rebordo exterior da janela.
     Com seu ar dominador, Anatole aproximou-se. Queria quebrar alguma coisa. Empurrou os criados e tentou arrancar os caixilhos, mas estes resistiram. Quebrou os vidros. 

— Aí, vamos ver o atleta — gritou a Pierre. Este segurou a armação e, fazendo uma barulhada enorme, arrancou os caixilhos de carvalho. 
— Arranca completamente para não pensarem que me seguro — disse Dolokhov. 
— O inglês gaba-se, hein? Está tudo em ordem? — perguntou Anatole. 
— Está — respondeu Pierre, olhando para Dolokhov, que, com uma garrafa de rum na mão, se aproximava da janela por onde se via o céu pálido em que as claridades da noite e da manhã começavam a fundir-se.

     Saltou e, em pé, na janela, com a garrafa na mão gritou fazendo todos calar: 

— Atenção! Aposto (falava no seu mau francês para que o inglês o compreendesse), aposto cinquenta imperiais, quer cem? — acrescentou, dirigindo-se a Stievens. 
— Não, cinquenta — disse este. 
— Bem, cinquenta imperiais como beberei toda a garrafa de rum sem tirá-la da boca, sentado na parte exterior da janela, ali (baixou-se para indicar o rebordo externo), e sem segurar-me em nada… está certo?… 
— Exatamente — concordou o inglês.

     Anatole virou-se para Stievens, segurou-o pelo botão da casaca e, olhando-o de cima (o inglês era de pequena estatura), repetiu-lhe as condições da aposta em inglês. 

— Um momento — gritou Dolokhov, batendo a garrafa na janela para chamar a atenção —, espera, Kuriaguine. Escutem. Se alguém fizer a mesma coisa, aposto cem imperiais… Entendido?

     O inglês fez um sinal de cabeça que não permitia concluir se tinha ou não a intenção de aceitar essa nova aposta. Anatole não o largava e, embora ele fizesse sinais indicando que compreendera tudo, continuava traduzindo as palavras de Dolokhov.
     Um jovem hussardo, que já havia perdido muito nos jogos daquela noite, trepou na janela e, inclinando-se, olhou para baixo. 

— Hu!… Hu!… — exclamou olhando a calçada. 
— Silêncio! — gritou Dolokhov, empurrando o oficialzinho, que se atrapalhou nas esporas ao saltar para dentro.

     Colocando a garrafa sobre o peitoril, para poder segurar a janela com mais facilidade, e com todo o vagar e prudência, apoiando-se nas duas mãos, sentou-se no rebordo externo, deixando cair as pernas para fora. Depois de sentir-se bem acomodado, segurou a garrafa. Anatole trouxe duas velas, colocando-as no parapeito, ainda que a noite estivesse clara. As costas e os cabelos crespos de Dolokhov, que estava de camisa, estavam iluminados de ambos os lados. Todos se agruparam perto da janela. O inglês estava na frente. Pierre sorria sem dizer uma palavra. Um dos presentes, mais idoso, adiantou-se subitamente, com uma expressão de cólera e susto, procurando segurar a camisa de Dolokhov. 

— Mas é uma loucura, ele vai se matar — disse esse homem, o mais ajuizado de todos.

     Anatole deteve-o. 

— Não toca nele, vais assustá-lo, e então, sim, pode matar-se! E depois?…

     Apoiando-se novamente nas mãos e procurando mostrar tranquilidade, Dolokhov virou-se: 

— Se alguém continuar a se meter na minha vida — disse, pronunciando distintamente as palavras com os lábios finos e apertados —, eu o farei descer imediatamente por aqui. Entenderam?

     Dizendo isso, virou-se novamente, deixando de apoiar-se, levou a garrafa aos lábios atirando a cabeça para trás e levantando o braço livre para manter o equilíbrio. Um criado que começava a juntar os vidros quebrados parou nessa posição inclinada sem despregar os olhos da janela e da cabeça de Dolokhov. Anatole, com os olhos bem abertos, mantinha-se em pé sem fazer o menor movimento. O inglês, espichando os lábios, olhava de esguelha. Aquele que procurara deter Dolokhov retirou-se para um canto da sala e deitou-se num divã, virando o rosto para a parede. Pierre tapou os olhos com as mãos, sorrindo levemente apesar do medo e horror que sentia. Ninguém falava. Pierre tirou as mãos dos olhos.
     Dolokhov continuava sentado na mesma posição, somente a cabeça estava mais caída, os cabelos tocando o colarinho da camisa, e a mão que segurava a garrafa, trêmula do esforço, levantava-se cada vez mais. A garrafa esvaziava-se visivelmente e a cabeça pendia ainda mais para trás. “Por que demora tanto?”, pensou Pierre. Parecia-lhe que mais de meia hora havia passado. Subitamente, Dolokhov fez um movimento de espáduas e sua mão tremeu nervosamente. Esse tremor poderia ter feito escorregar todo o corpo, que estava sobre o rebordo inclinado. Ele movimentou o corpo todo, e seu braço e cabeça vacilaram de novo.
     Uma das mãos chegou a erguer-se para segurar o vão da janela, mas tornou a cair. Pierre fechou novamente os olhos com o propósito de não ver mais nada. Quando, um segundo depois, sentiu que todos se agitavam, olhou; Dolokhov estava em pé no vão da janela, muito pálido mas com a fisionomia alegre: 

— Vazia!

     Saltando da janela, atirou a garrafa ao inglês, que a aparou habilmente. Exalava um forte hálito de rum. 

— Bravo! Bravo! Aposta ganha! O diabo que os carregue! — gritavam de todos os lados.

     O inglês puxou a bolsa e contou o dinheiro. Dolokhov franziu a testa e calou-se. Pierre se lançou à janela. 

— Senhores! Quem quer apostar comigo? Farei o mesmo — disse de repente. — Não preciso de aposta, tragam-me uma garrafa de rum. 
— Está bem! — disse Dolokhov, sorrindo. 
— O que é isso, enlouqueceste? Quem permitirá? Até numa escada ficas tonto! — gritavam de todos os lados. 
— Beberei, só quero uma garrafa de rum! — gritou Pierre. Num gesto decidido de bêbado, bateu na mesa e trepou na janela. Seguraram-no pelas mãos, mas ele era muito forte e repelia todos que se aproximavam. 
— Não, assim vocês não resolvem nada — disse Anatole. — Esperem que eu vou enganá-lo. Escuta, eu aposto contigo, mas para amanhã, agora nós vamos à casa de ***. 
— Vamos — gritou Pierre —, vamos e levemos Michka também. — Pegou o urso e, abraçando o, começou a dançar com ele pela sala.
continua na página... 21
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Guerra e Paz
Primeira Parte:
VI - A princesa entrou / VII - A condessa /                
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 


Guerra e Paz, Liev Tolstói | Resenha | Casa da Coruja




quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (V - Pierre era desajeitado e pesadão)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
V

Agradecendo a Ana Pavlovna pela festa encantadora, os convidados começaram a retirar-se.


     Pierre era desajeitado e pesadão, de estatura incomum e tinha mãos enormes e vermelhas. Era incapaz de dizer duas ou três amabilidades ao entrar ou sair de uma sala. Ao levantar-se, em lugar do seu chapéu, pegou o tricórnio de plumas do general, e ficou a abanar-se com o penacho até o dono pedir-lhe que o devolvesse. Mas a franqueza, simplicidade e modéstia compensavam-lhe a atrapalhação e falta de traquejo social. Voltando-se para ele, Ana Pavlovna cumprimentou-o, exprimindo-lhe, com doçura cristã, o perdão pelas suas inconveniências. 

— Espero tornar a vê-lo, mas também espero que mude suas opiniões, meu caro senhor Pierre.

     Pierre apenas inclinou-se e, sem responder, sorriu a todos novamente, como se quisesse dizer: “As opiniões são as opiniões, e todos estão vendo que sou um bom e simpático rapaz.” E todos, até Ana Pavlovna, involuntariamente pensavam assim.

     Passando para o vestíbulo, o príncipe André ouvia com indiferença a conversa de sua mulher com o príncipe Hippolyte, enquanto o criado lhe vestia o sobretudo. O príncipe Hippolyte rodeava insistentemente a linda princesinha grávida, fixando-a com a luneta. 

— Vamos, Annette, você vai adoentar-se — disse a princesinha despedindo-se de Ana Pavlovna. — Está resolvido — acrescentou em voz baixa.

     Ana Pavlovna já havia falado a Lisa sobre o casamento que projetara de sua cunhada com Anatole. 

— Conto com a senhora, minha querida — disse Pavlovna, também em voz baixa —, escreva-lhe e não se esqueça de dizer qual é a atitude do pai. Au revoir. — E saiu.

     O príncipe Hippolyte aproximou-se da princesinha e disse-lhe, muito perto do rosto, qualquer coisa, em voz baixa.
     Dois criados, o seu e o da princesa, um usando um sobretudo, outro, um xale, esperavam que terminassem de falar, ouvindo a conversa em francês, incompreensível para eles, mas que fingiam entender sem querer demonstrá-lo. Como sempre, falando e ouvindo, a princesinha sorria. 

— Estou muito contente por não ter ido à festa do embaixador — dizia o príncipe Hippolyte —, é aborrecido aquilo lá… Uma reunião muito encantadora esta, não é? 
— Dizem que o baile vai estar muito animado — respondeu a princesinha, erguendo o pequeno lábio. — Todas as mulheres bonitas da sociedade estarão lá. 
— Nem todas, já que você não irá — respondeu o príncipe Hippolyte, rindo alegremente. Tomando o xale das mãos do lacaio, cobriu os ombros da princesa. Por falta de jeito ou voluntariamente (não se pode saber), depois de posto o xale, levou muito tempo para retirar as mãos, que envolviam o pescoço dela. Parecia apertar a linda criatura.

     Ela, sempre sorrindo, afastou-se graciosamente e, ao voltar-se, olhou o marido. O príncipe André estava de olhos fechados, parecia ter adormecido de cansaço. 

— Está pronta? — perguntou ele, percorrendo-a com os olhos.

     O príncipe Hippolyte pôs rapidamente o sobretudo, que, na moda de então, caía até o salto dos sapatos, e, todo atrapalhado, correu até a pequena escada junto da princesa, que o lacaio auxiliava a subir na carruagem. 

Princesse, au revoir — gritou, com a língua tão atrapalhada quanto os pés.

     A princesa, levantando o vestido, entrava na carruagem; o marido arrumava o sabre. O príncipe Hippolyte, a pretexto de auxiliar, estorvava a todos. 

— Com licença — disse secamente o príncipe André, dirigindo-se em russo ao príncipe Hippolyte, que o impedia de passar. 
— Pierre, espero por você — acrescentou com voz serena e terna.

     O cocheiro puxou as rédeas e a carruagem movimentou-se. O príncipe Hippolyte, rindo entrecortadamente, esperava, na pequena escada, o visconde, que prometera levar em casa.

***

— Pois, meu caro, a sua princesinha é muito linda, muito linda — disse o visconde, instalando-se no carro. — Um amor. — Beijou a ponta dos dedos.— É absolutamente francesa.

     Hippolyte não podia mais de tanto rir. 

— E sabe que é terrível com aquele arzinho inocente — continuou o visconde. — Eu lamento é o marido, esse oficialzinho que se dá ares de príncipe reinante.

     Hippolyte estourou novamente e entre risadas disse: 

— E você dizia que as damas russas não valiam as francesas! É preciso saber levá-las.

     Tendo chegado na frente, Pierre, na qualidade de amigo da casa, foi diretamente para o gabinete do príncipe André. Pegando um livro ao acaso (eram as memórias de César) estirou-se no divã e começou a ler no meio. 

— O que foste fazer a Mademoiselle Scherer? Ela vai adoecer! — disse o príncipe André, entrando e esfregando as mãos, pequenas e brancas.

     Pierre virou-se tão rapidamente que o divã estalou. Fitando o príncipe André com uma expressão animada e sorridente, fez um gesto com a mão. 

— Não, o abade é muito interessante, mas não compreende as coisas como elas são… Para mim, a paz universal é possível, mas não posso explicar… Em todo o caso, não será com o equilíbrio político.

     Era evidente que o príncipe André não se interessava por esses assuntos abstratos. 

Mon cher, nem sempre se pode dizer o que se pensa. E afinal! Decidiste alguma coisa? Entras para a guarda ou queres ser diplomata? — perguntou o príncipe André depois de um momento de silêncio.

     Pierre sentou-se no divã como que agachado. 

— Creia, ainda não sei. Nenhuma das duas coisas me agrada. 
— Mas é preciso decidir. Teu pai espera.

     Com a idade de dez anos Pierre fora mandado para o exterior com um abade por preceptor, e lá ficara até os vinte. Quando voltou a Moscou, o pai despediu o abade e disse ao rapaz:

“Agora, vai a Petersburgo, olha e escolhe, concordarei com tudo. Levas aqui uma carta para o príncipe Vassili e o dinheiro necessário. Depois, escreve-me, conta comigo para qualquer ajuda.” Havia três meses Pierre ocupava-se com a escolha de uma carreira, e ainda nada decidira. Era a escolha de que lhe falava o príncipe André. Passou a mão na testa.

— Mas ele deve ser maçom! — exclamou, pensando no abade Morio. 
— Tudo isso é fantasia — atalhou o príncipe André. — Falemos antes de teus negócios. Foste ao esquadrão de cavalaria? 
— Não, não fui; mas me veio uma coisa à cabeça, que eu queria dizer-lhe: agora, estamos em guerra com Napoleão; se fosse uma guerra pela liberdade, eu compreenderia, e seria o primeiro a alistar-me, mas auxiliar a Inglaterra e a Áustria contra o maior homem do mundo… não está certo.

     O príncipe André limitou-se a sacudir os ombros ouvindo essas palavras infantis. Seu modo parecia significar que, contra semelhantes tolices, nada havia a opor. Realmente, a tal ingenuidade era difícil responder de outra forma. 

— Se todos fizessem a guerra por convicção, não haveria guerras. 
— Isso é que seria bonito! — exclamou Pierre.

     O príncipe André sorriu. 

— Sim, é possível que seja bonito, mas não acontecerá nunca… 
— E você, por que vai para a guerra? — perguntou Pierre. 
— Por quê? Nem sei. É necessário. Além disso também… — interrompeu-se. — Vou porque a vida que estou levando aqui não me convém!

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Guerra e Paz
Primeira Parte:
VI - A princesa entrou /           
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

domingo, 23 de agosto de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (IV - Ana Pavlovna prometeu, sorrindo)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
IV

Ana Pavlovna prometeu, sorrindo, ocupar-se de Pierre, que sabia ser parente do príncipe Vassili pelo lado paterno. A idosa que estava sentada ao lado de ma tante levantou-se vivamente e alcançou o príncipe no vestíbulo. Sua fisionomia simpática e enrugada não tinha mais a expressão de interesse simulado, mas exprimia apenas inquietação e medo.


— E então, meu príncipe, que me diz de Boris? — fez ela ao alcançá-lo (pronunciava Boris com um acento particular no “o”). — Não posso ficar mais tempo em Petersburgo. Diga-me, que novas devo levar para meu pobre filho?

     Apesar de o príncipe Vassili ouvi-la forçado, quase indelicadamente, com demonstrações de impaciência, a senhora lhe sorria com ternura e de uma forma tocante; para que ele não se afastasse, segurou-lhe a mão. 

— O que lhe custa falar umas palavras ao imperador? Imediatamente ele entrará para a guarda — prosseguiu. 
— Creia, princesa, farei todo o possível — respondeu o príncipe Vassili —, mas me é difícil fazer um pedido ao imperador. Eu lhe aconselharia dirigir-se a Rumiantzev por intermédio do príncipe Golitzine; seria mais hábil.

     A princesa Drubetzkaia, como se chamava a idosa, era de uma das melhores famílias da Rússia, mas estava pobre, havia abandonado a sociedade desde muito e perdera as antigas relações. Estava ali apenas a fim de conseguir que seu único filho fosse nomeado para a guarda.
     Havia sido para encontrar o príncipe Vassili que compareceu ao sarau de Ana Pavlovna; unicamente por isso ouvira a história do visconde. Sua expressão, outrora bela, aparentou um descontentamento claro com as palavras do príncipe, mas somente por um segundo. Em seguida, sorriu novamente e apertou com mais força o braço do príncipe. 

— Escute, príncipe — disse ela —, nunca lhe pedi nem nunca lhe pedirei nada; nunca lhe recordei a amizade que meu pai lhe dedicava. Mas agora, suplico-lhe em nome de Deus, faça isso para meu filho, e eu o considerarei meu benfeitor — acrescentou apressadamente. — Não se zangue, mas prometa… Já pedi a Golitzine e ele recusou. Seja amigo, como outrora — rogou esforçando-se para sorrir, enquanto os olhos se enchiam de lágrimas. 
— Papai, vamos chegar tarde — disse Helena, que esperava à porta, voltando a bela cabeça sobre os ombros dignos de um escultor grego.

     A influência na corte é um capital que se precisa poupar para que não desapareça. O príncipe Vassili sabia disso e compreendia que, se intercedesse por todos que o solicitavam, em pouco tempo nada mais poderia pedir para si próprio. Assim, muito raramente usava sua influência. Com referência ao pedido da princesa Drubetzkaia, porém, sentiu certo remorso. A senhora lembrava-lhe a verdade: devia ao pai dela os primeiros passos que fizera na vida. Além disso, viu-lhe no modo de agir que era uma dessas mulheres, sobretudo quando mães, que, em se lhes metendo alguma coisa na cabeça, não se afastam antes de ver seu desejo satisfeito, e no caso contrário, estão sempre prontas a voltar à carga, cada dia, cada momento, e até mesmo a provocar escândalo. Esta última consideração o fez hesitar. 

Chère Ana Mikhailovna — disse num tom de voz entediado e com sua familiaridade habitual —, é quase impossível fazer o que me pede, mas, para provar-lhe o quanto a estimo e como respeito a lembrança de seu finado pai, farei o impossível. Seu filho entrará para a guarda, tem minha palavra. Está satisfeita? 
— Meu amigo, meu benfeitor! Não esperava outra coisa do senhor, conhecia-lhe a bondade. — Ele tentou afastar-se. — Espere, duas palavras… Uma vez na guarda — parou —, as boas relações que tem com Mikhail Illarionovitch Kutuzov autorizam-no a recomendar-lhe Boris para ajudante de ordens? Então, ficarei tranquila e então…

     O príncipe Vassili sorriu. 

— Isso não lhe prometo. Não imagina como demandam a Kutuzov depois que foi nomeado comandante em chefe do exército. Ele mesmo me disse que todas as senhoras de Moscou combinaram de lhe propor os filhos como ajudantes de ordens. 
— Não, prometa, não o deixarei ir, meu caro, meu benfeitor. 
— Papai — repetiu a beldade no mesmo tom —, vamos chegar atrasados. 
— Pois bem! Au revoir, está vendo? 
— Então fará o pedido ao imperador amanhã? 
— Perfeitamente, mas quanto a Kutuzov, não prometo nada. 
— Não, prometa, prometa, Basile! — disse Ana Mikhailovna com um sorriso de jovem coquete que lhe devia ser habitual outrora, mas que não sentava mais em seu rosto enrugado. Esquecendo a idade, punha em jogo pelo hábito todos os seus recursos femininos. Mas, assim que ele saiu, retomou a expressão anterior, fria e simulada. Voltou ao grupo onde o visconde continuava falando e, novamente, fingiu escutar, esperando o momento de sair, já que seu assunto estava resolvido.

* * *

— E, diga-nos, qual a sua opinião sobre esta última comédia da coroação em Milão? — perguntou Ana Pavlovna. — É essa nova comédia dos habitantes de Gênova e de Lucca, que vão apresentar suas petições a Monsieur Buonaparte sentado num trono, e Monsieur Buonaparte deferindo as petições dos povos! Adorável! Não, é de enlouquecer! Diria que o mundo inteiro perdeu o juízo.
— “É Deus que me concede, ai de quem tocar nela” (palavras de Bonaparte na coroação). — Dizem que ele estava magnífico ao pronunciar tais palavras — acrescentou o príncipe André, repetindo em italiano: — “Dio me la data, guai a chi la tocca.” 
— Espero que enfim — prosseguiu Ana Pavlovna — isso tenha sido a gota d’água que fará transbordar o copo. Os soberanos já não podem suportar esse homem, que é uma ameaça para tudo. 
— Os soberanos? Não falo da Rússia — disse o visconde num tom de amável desprezo. — Mas que fizeram os soberanos, madame, por Luís XVI, pela rainha, por Madame Elisabeth? Nada — continuou, entusiasmando-se. — E creia-me, eles estão sofrendo o castigo pela traição à causa dos Bourbons. Os soberanos!… Eles mandam embaixadores apresentar cumprimentos ao usurpador!

     E com um suspiro de desprezo, tomou outra pose. O príncipe Hippolyte, que, havia muito, olhava o visconde através dos vidros de sua luneta, virou-se subitamente para a princesinha pedindo-lhe uma agulha; e, como se ela houvesse perguntado, desenhou na mesa o brasão dos Condés, explicando-lhe o significado com ar importante. 

Bâton de gueules, engrêlé de gueules d’asur, maison Condé¹ — disse.

[1] Bastão vermelho, entalhado em vermelho e azul, Casa de Condé.

     A princesinha ouvia sorrindo. 

— Se Bonaparte ficar ainda um ano no trono da França — disse o visconde, continuando a discorrer, como um homem que não ouve os outros, mas, senhor de seu assunto, segue exclusivamente o curso de suas ideias —, as coisas irão muito longe. Pela intriga, pela violência, pelo exílio, pelos suplícios, a sociedade, falo da boa sociedade francesa, será destruída para sempre, e então…

     Levantou os ombros e abriu os braços. Interessado pela conversação, Pierre quis dizer qualquer coisa, mas foi impedido por Ana Pavlovna, que estava alerta. 

— O imperador Alexandre — disse ela, com a tristeza que sempre acompanhava suas palavras quando se referia à família imperial — declarou que deixaria aos franceses a escolha do próprio governo. E estou certa que toda a nação, desembaraçada do usurpador, receberá o legítimo rei de braços abertos — concluiu Ana Pavlovna, procurando ser amável com o emigrante realista. 
— É duvidoso — retrucou o príncipe André. — Monsieur le vicomte tem razão quando diz que as coisas já foram muito longe. Creio que a volta ao passado será difícil. 
— Segundo ouvi — intrometeu-se Pierre, corando —, quase toda a nobreza já está com Bonaparte. 
— São os bonapartistas que dizem — respondeu o visconde, sem olhá-lo. — Atualmente é difícil conhecer a opinião pública na França. 
— Bonaparte assim o disse — objetou o príncipe André sorrindo.

     (Era evidente que o visconde lhe desagradava, e essas palavras, sem atingi-lo, eram dirigidas contra ele.)

— “Eu lhes apontei o caminho da glória” — acrescentou, repetindo novamente as palavras de Napoleão —, “não quiseram segui-lo; abri-lhes as minhas antecâmaras, entraram aos magotes.” Não sei até que ponto ele tinha o direito de dizer isso. 
— Direito nenhum — respondeu o visconde. — Depois do assassinato do duque, até os mais parciais deixaram de ver nele um herói. Mesmo que ele tenha sido um herói para certas pessoas — continuou o visconde, dirigindo-se a Ana Pavlovna —, depois do assassinato do duque há mais um mártir no céu e um herói de menos na terra.

     Antes que os presentes esboçassem um sorriso aprovando as palavras do visconde, Pierre intrometeu-se novamente na conversa, sem dar tempo a Ana Pavlovna de interrompê-lo, embora houvesse pressentido que ele ia dizer algo fora de propósito. 

— A execução do duque d’Enghien — disse Pierre — era uma necessidade de Estado, e só vejo grandeza de alma em Napoleão assumindo a inteira responsabilidade desse ato. 
Dieu! Mon Dieu! — murmurou Ana Pavlovna aterrada. 
— Como, Monsieur Pierre, o senhor acha que assassinar é grandeza de alma? — disse a princesinha sorrindo e baixando seu tricô. 
— Ah! Oh! — exclamavam todas as vozes. 
Capital — disse em inglês o príncipe Hippolyte, batendo nos joelhos.

     O visconde contentou-se em dar de ombros. Por cima dos óculos, Pierre olhava todos triunfalmente. 

— Digo isso — continuou — porque os Bourbons fugiram da revolução, deixando o povo na anarquia! Somente Napoleão soube compreendê-la e vencê-la. E pelo bem comum, não podia hesitar diante da vida de um só homem. 
— Quer passar para esta outra mesa? — perguntou Ana Pavlovna.

     Sem responder, Pierre prosseguiu. 

— Não — disse animando-se cada vez mais. — Napoleão é grande porque soube colocar-se acima da revolução, reprimindo os abusos e conservando o que ela tinha de bom: a igualdade dos cidadãos, a liberdade de palavra e de imprensa. Foi só por isso que conquistou o poder. 
— Sim, se tomando o poder para si, sem aproveitá-lo para cometer assassinatos, o houvesse devolvido ao rei legítimo. Então, sim, eu o chamaria de grande homem — retrucou o visconde. 
— Ele não podia fazer isso. O povo lhe deu o poder para que ele destituísse os Bourbons e porque via nele um grande homem. A revolução foi uma grande obra — continuou Pierre, mostrando com essa afirmativa audaciosa e provocadora sua extrema juventude e o desejo de exprimir tudo que pensava da maneira mais completa possível. 
— A revolução e o assassínio dos reis, uma grande obra!… Diante disso… mas não quer passar para esta outra mesa? — repetiu Ana Pavlovna. 
Contrat social — disse o visconde com um sorriso ameno. 
— Não falo da execução do rei, falo das ideias. 
— Sim, as ideias de pilhagem, de morticínio, do assassinato do rei — interrompeu novamente a voz irônica. 
— Muitos excessos foram praticados, não há dúvida, mas nem tudo está neles; o importante está nos direitos do homem, no desaparecimento dos preconceitos, na igualdade dos cidadãos. E Napoleão conservou integralmente essas ideias. 
— Liberdade e igualdade — disse o visconde com desprezo como se, afinal, se propusesse a provar seriamente a esse rapaz a estupidez do que dizia — são grandes palavras desmoralizadas há muito tempo. Quem não ama a liberdade e a igualdade? Nosso santo Salvador já pregava liberdade e igualdade. E a revolução tornou os homens mais felizes? Ao contrário. Nós quisemos a liberdade e Bonaparte a destruiu.

     O príncipe André sorria, olhando alternadamente o visconde, Pierre e a dona da casa. Desde os primeiros arrancos de Pierre, Ana Pavlovna, apesar de seu traquejo social, estava aterrada. Mas, quando percebeu que suas palavras sacrílegas não perturbavam o visconde e que não era possível abafá-las, retomou forças aliando-se ao francês para atacar o orador. 

— Mas, mon cher Monsieur Pierre — perguntou Ana Pavlovna —, como explica isto: um grande homem manda executar um duque, enfim, simplesmente outro homem, sem julgamento e sem crime?… 
— Eu perguntaria — disse o visconde — como o cavalheiro explica o 18 Brumário. Não foi uma farsa? Foi uma escamoteação que em nada se parece com o modo de agir de um grande homem. 
— E os prisioneiros da África que ele matou! É horrível — acrescentou a princesinha. 
— É um plebeu, digam o que disserem — declarou o príncipe Hippolyte.

     Pierre não sabia a quem responder; olhava a todos sorrindo, mas de uma forma diferente dos outros. Ao contrário dos demais, quando sorria sua fisionomia séria e um pouco sombria transformava-se subitamente num semblante de criança, bom, até um pouco apatetado, e que parecia pedir complacência.
     Estava claro para o visconde, que o via pela primeira vez, que esse jacobino não era tão terrível como suas palavras.
     Todos calaram. 

— Como querem que ele responda a todos ao mesmo tempo? — disse o príncipe André. — Além disso, a mim me parece que nos atos de um homem público é necessário distinguir os atos do homem privado, do chefe de exército ou do imperador. 
— Sim, sim, naturalmente — disse Pierre, reanimado com este auxílio. 
— Não se pode deixar de reconhecer — continuou o príncipe André — que Napoleão, como homem, foi muito grande; seja na ponte d’Arcole ou no hospital de Jafa, onde deu a mão aos pestilentos, mas… é verdade, existem outros atos difíceis de justificar.

     O príncipe André, que, evidentemente, quisera suavizar as inconveniências de Pierre, levantou-se para sair, fazendo sinal à sua mulher.
     Inesperadamente o príncipe Hippolyte levantou-se e, detendo a todos com um gesto de mãos, pediu-lhes que se sentassem. 

— Ah! contaram-me hoje uma deliciosa anedota moscovita; vou presenteá-los com ela. Desculpe, visconde, preciso contar em russo, do contrário se perderá o sal da história. — E o príncipe Hippolyte principiou a falar russo, com a pronúncia dos franceses que passam um ano na Rússia.

     Todos pararam, tal era a animação e insistência do príncipe pedindo atenção para a sua história. 

— Em Moscou existe uma senhora, une dame, que é muito avarenta. Precisava ter dois lacaios atrás da carruagem. Mas queria-os muito altos. Era sua mania. E tinha uma criada de quarto, muito alta…

     Nesta altura, o príncipe Hippolyte começou a refletir com visível dificuldade. 

— Ela disse… sim, ela disse: Menina (à criada de quarto), veste a libré e vem comigo atrás da carruagem para fazer visitas.

     Dito isso, o príncipe Hippolyte caiu na risada, muito antes da plateia, causando-lhe uma impressão desfavorável. Só depois disso é que alguns, entre eles Ana Pavlovna, sorriram, apesar do ridículo da situação. 

— Saíram, mas um pé de vento repentino arrancou o chapéu da moça, desmanchando-lhe o penteado…

     Não podia mais conter-se, e, com um riso quase soluçante, concluiu: 

— E todo mundo soube…

     Era essa a anedota. Apesar de ninguém compreender o sentido e nem por que devia ser contada em russo, Ana Pavlovna e os demais admiraram a habilidade mundana do príncipe Hippolyte, evitando novas tiradas desagradáveis de Pierre. Com isso, a conversação dispersou-se pelos pequenos grupos e recaiu sobre comentários insignificantes, bailes passados e futuros, espetáculos, assim como sobre dia e local da próxima reunião.

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Guerra e Paz
Primeira Parte:
III - O sarau de Ana Pavlovna corria animado / IV - Ana Pavlovna prometeu, sorrindo / V - Pierre era desajeitado e pesadão /          
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (III - O sarau de Ana Pavlovna corria animado)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
III

O sarau de Ana Pavlovna corria animado. Os fusos trabalhavam com a máxima regularidade e faziam um rumor ininterrupto. Além de ma tante, que conversava com uma senhora idosa de rosto magro e enrugado, um pouco deslocada nesse círculo brilhante, os convidados formavam três grupos. Um, na maioria homens, em torno do abade. Outro cercava a bela princesa Helena, filha do príncipe Vassili, e a linda e graciosa princesinha Bolkonskaia, um pouco pesada demais para sua idade. O terceiro era composto de Mortemart e Ana Pavlovna.


     O visconde era um belo jovem, de traços e maneiras agradáveis, que, visivelmente, se considerava uma celebridade, mas, homem educado, permitia modestamente que toda aquela gente gozasse da sua companhia. Aparentemente, era a nota de sensação que Ana Pavlovna oferecia. Como um bom maître d’hôtel que serve um prato extraordinário que ninguém comeria se o houvesse visto na cozinha suja, Ana Pavlovna servia a seus convidados o visconde em primeiro lugar e depois o abade, como qualquer coisa de extrafino. No grupo de Mortemart falava-se no assassinato do duque d’Enghien. O visconde dizia que o duque morrera por sua magnanimidade e que havia um motivo especial para a cólera de Bonaparte. 

— Vejamos, conte-nos isso, visconde — disse Ana Pavlovna alegremente, achando em sua frase qualquer ressonância de Luís XV. — Conte-nos isso, visconde.

     O visconde inclinou-se em sinal de obediência e sorriu polidamente. Ana Pavlovna formou um círculo em torno dele e convidou a todos para ouvi-lo. 

— O visconde conheceu pessoalmente o duque — cochichou ela ao ouvido de alguém. — O visconde conta com perfeição — informou a outro. — Como se percebe, o homem é de fino trato! — disse a um terceiro.

     O visconde era servido a todos, sob o aspecto mais elegante e vantajoso para ele, como um rosbife num prato quente guarnecido de verduras.
     Sorrindo finamente, preparou-se para começar sua história. 

— Aproxime-se, chère Hélène — disse Ana Pavlovna à bela princesa, que, sentada mais longe, fazia o centro de outro grupo.

     A princesa Helena sorria. Levantou-se com o mesmo sorriso invariável de mulher verdadeiramente bela, que trazia desde que chegara. Ofuscando todos os olhares com a alvura das espáduas e o esplendor dos cabelos e dos brilhantes, passou entre os homens fazendo um leve ruído com o vestido de baile todo branco e guarnecido de arminho. Como que encarnando todo o brilho da festa, aproximou-se de Ana Pavlovna sem olhar para ninguém, mas autorizando com um sorriso amável que todos lhe admirassem a beleza do porte, dos ombros roliços, das costas e do decote muito em moda nessa época. Apesar de linda assim, Helena era despida de qualquer vaidade, mas, ao contrário, parecia envergonhada, e dava a impressão de procurar inutilmente diminuir o efeito dessa beleza que se impunha tão forte e vitoriosamente. 

— Como é bela! — diziam todos que a viam. Como que atingido por qualquer coisa extraordinária, o visconde fez um movimento de ombros e baixou os olhos, enquanto ela sentava-se à sua frente e iluminava-o com o mesmo sorriso invariável. 
— Madame, diante de tal público, temo por minhas faculdades — disse ele com um sorriso e inclinando a cabeça.

     Com o braço desnudo e roliço a princesa apoiou-se na mesa, sem dizer nenhuma palavra. Esperava sorrindo. Enquanto o visconde falou, ficou sentada, quase sem se mover, olhando de quando em vez para o lindo braço redondo, que a pressão sobre a mesa deformava, ou para seu colo ainda mais bonito, adornado por um colar de diamantes que ela endireitava; às vezes corrigia a prega do vestido, e quando a história lhe causava alguma impressão, fitava Ana Pavlovna, e logo tomava a mesma expressão que a dama de companhia, voltando depois à sua calma e ao seu claro sorriso.
     Seguindo Helena a princesinha também deixou a mesa de chá. 

— Esperem por mim, vou pegar o meu trabalho. Então, no que você está pensando? — disse ela dirigindo-se ao príncipe Hippolyte. — Traga o meu tricô.

     Sorrindo e falando a todos, a princesinha fez com que todos se deslocassem, sentou e ajeitou-se alegremente. 

— Pronto — disse ela, e pedindo para começar, reiniciou o tricô. Trazendo-lhe a bolsa, o príncipe Hippolyte ficou no grupo e, aproximando-se muito da poltrona, sentou-se a seu lado.

     Le charmant Hippolyte chamava a atenção pela semelhança extraordinária com a irmã, a mais bela de todas, e ainda mais porque, apesar dessa semelhança, era horrivelmente feio. Os traços eram os mesmos da irmã, mas, nela, tudo era iluminado por um sorriso alegre, satisfeito, juvenil, imutável, vivo, e pela beleza notável, clássica, do corpo. No irmão, ao contrário, o próprio rosto era obscurecido pela estupidez, sempre com uma expressão de mau humor; era magro e raquítico. Os olhos, o nariz, a boca, tudo parecia contraído numa careta vaga e entediada, e os braços e pernas nunca estavam em posição natural. 

— Não é uma história de fantasmas? — perguntou ele, sentando-se perto da princesa e levando a luneta aos olhos como se não pudesse falar sem esse instrumento. 
— Claro que não, meu caro — disse o visconde admirado e erguendo os ombros. 
— É que eu detesto as histórias de almas do outro mundo — disse num tom que deixava perceber que ele só compreendia o sentido das palavras depois de pronunciá-las. Mas falava com tanta petulância que ninguém tinha muita certeza se o que dizia era verdadeiramente espirituoso ou idiota. Vestia uma casaca verde-garrafa, calças cor de ninfa assustada, como ele mesmo dizia, meias de seda e sapatos de fivelas.

     O visconde contou muito graciosamente a anedota em voga: o duque d’Enghien, indo a Paris às escondidas para encontrar Mademoiselle George, deparou-se com Bonaparte, a quem a célebre atriz também dispensava seus favores; nesse encontro Napoleão foi acometido, casualmente, por um dos acessos a que estava sujeito, ficando, assim, à mercê do duque; este não quis aproveitar a ocasião, e Bonaparte vingou-se dessa magnanimidade mandando matá-lo.
     A história era muito bonita e interessante, principalmente no ponto em que os dois rivais se encontraram inesperadamente; as senhoras pareciam comovidas. 

Charmant! — disse Ana Pavlovna, olhando interrogativamente a princesinha. 
Charmant! — murmurou esta, espetando a agulha no tricô e mostrando assim que o interesse e o encanto da história a impediam de continuar trabalhando

     O visconde notou esse encômio silencioso e, sorrindo, se preparava a continuar. Mas, nesse momento, Ana Pavlovna, que estava sempre de olho no rapaz terrível, notou que ele, muito entusiasmado, falava alto demais com o abade, e apressou-se em direção ao ponto perigoso. De fato, Pierre conseguira travar conversa com o abade sobre o equilíbrio político, e este, visivelmente interessado pelo ardor sincero do rapaz, desenvolvia-lhe sua ideia favorita. Ambos ouviam e falavam com demasiada animação e naturalidade, o que não agradava a Ana Pavlovna. 

— Os meios são o equilíbrio europeu e o direito das pessoas — dizia o abade. — E necessário que um país poderoso como a Rússia, tido como bárbaro, encabece desinteressadamente uma união com a finalidade de manter o equilíbrio europeu que salvará o mundo. 
— Mas como chegar a esse equilíbrio? — perguntava Pierre.


     Nesse momento Ana Pavlovna aproximou-se e, fitando-o severamente, perguntou ao italiano como se dava com o clima de Petersburgo. A fisionomia do abade transformou-se de súbito, tomando uma expressão adocicada, entre afável e ofendida, que lhe devia ser habitual com as senhoras: 

— Estou de tal forma estarrecido diante do espírito e inteligência desta sociedade, e principalmente da sociedade feminina, na qual tenho a honra de ser recebido, que ainda não consegui pensar no clima — respondeu.

     Não querendo mais deixar o abade e Pierre, Ana Pavlovna levou-os para o grupo comum, a fim de controlá-los mais facilmente.
     Nesse momento chegou um novo convidado. Era o jovem príncipe André Bolkonski, o marido da princesinha. Era um rapaz de pequena estatura, muito bonito, de traços secos e acentuados. Todo ele, a começar pelo olhar fatigado e cheio de tédio, até o passo lento e cadenciado, contrastava com a animação de sua jovem esposa. Evidentemente, conhecia todos os presentes, que o aborreciam ao ponto de quase não poder suportá-los, até mesmo quando não falavam. E de todas as fisionomias a que mais parecia enfastiá-lo era a de sua linda mulher. Com uma careta que lhe enfeava o bonito rosto, afastou-se dela. Beijou a mão de Ana Pavlovna e, franzindo o cenho, relanceou ao redor. 

— Vai alistar-se, meu príncipe? — perguntou-lhe Ana Pavlovna. 
— O general Kutuzov — disse Bolkonski, acentuando a última sílaba, como um francês — solicitou-me como ajudante de ordens… 
— E Lisa, sua mulher? 
— Irá para o campo. 
— É um grande pecado privar-nos da companhia de sua encantadora esposa! 
— André — disse a jovem, dirigindo-se ao marido no mesmo tom faceiro com que tratava os demais —, queria que ouvisse a história sobre Mademoiselle George e Bonaparte que o visconde nos contou!

     O príncipe André apertou os olhos e afastou-se. Pierre, que o fitava com uma expressão alegre e amiga desde o momento em que entrara, aproximou-se e segurou-lhe a mão. O príncipe, sem se virar, franziu o rosto numa careta que exprimia seu aborrecimento contra o importuno que lhe tocava a mão; mas, deparando com a fisionomia alegre de Pierre, sorriu também de uma forma inesperada, boa e simpática. 

— Ah, vejam! Tu também na alta-roda? — perguntou. 
— Eu sabia que o encontraria aqui — respondeu Pierre, e acrescentando em voz baixa para não perturbar o visconde, que continuava sua história: — Irei cear na sua casa, se for possível! 
— Não, impossível — disse o príncipe André, rindo e apertando a mão do amigo de forma a fazer-lhe compreender que isso não era coisa que se pedisse. Ia dizer algo mais, porém tiveram de afastar-se para dar passagem ao príncipe Vassili e sua filha, que haviam se levantado. 
— Perdoe-nos, meu caro visconde — disse o príncipe Vassili, tocando-o levemente no braço para que não se levantasse. — Essa infortunada festa do embaixador me priva de um prazer e me faz interrompê-lo. Lamento profundamente deixar sua encantadora reunião — continuou, dirigindo-se a Ana Pavlovna. A princesa Helena, suspendendo levemente o vestido, passou entre as cadeiras com um sorriso que tornava seu lindo rosto ainda mais luminoso.

     Quando passou por Pierre, ele a fitou com uns olhos quase assustados e impressionados. 

— É muito linda — disse o príncipe André. 
— Muito linda — repetiu Pierre.

     Ao passar na frente deles, o príncipe Vassili tomou a mão de Pierre e dirigindo-se a Ana Pavlovna: 

— Dome este urso. Há um mês que está em minha casa e é a primeira vez que o vejo na sociedade. Nada mais indispensável para um moço que a companhia das mulheres inteligentes.

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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos.