quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Dostoiévski - O Idiota: Primeira Parte (16b) - Será possível?

O Idiota


Fiódor Dostoiévski

Tradução portuguesa por José Geraldo Vieira

Primeira Parte

16.

continuando...

- Será possível? - soluçou o príncipe, torcendo as mãos.

- Cuidou então que podia ser? Mesmo sendo uma desavergonhada, também mantenho um certo orgulho. Disse-me, príncipe. esta noite, que eu era uma perfeição. Admirável perfeição sou eu. não resta dúvida, que apenas para me vangloriar de espezinhar um milhão e um título de princesa me arremesso em um esgoto! Que espécie de esposa lhe poderia eu ser, afinal de contas? Olhe, Afanássii Ivánovitch, atirei fora, de fato, um milhão, reparou bem? Já vê que se enganou terrivelmente ao pensar que eu me casaria de bom grado com Gavril Ardaliónovitch por causa de setenta e cinco mil rublos! Ora, Afanássii Ivánovitch, guarde os seus setenta e cinco mil rublos. Arre, você nem sequer chegou a fazer uma oferta de cem mil. Rogójin subiu o lance. Pobre do Gánia, também. Mas não o hei de esquecer. Confortá-lo-ei depois, tenho cá uma ideia. Depois, depois... Agora quero um pouco de ar, de estúrdia! Sou uma mulher da rua! E dizer-se que estive durante dez anos em uma prisão! Mas agora vou gozar a vida. Vamos, Rogójin, está preparado? Então vamos!

- Vamos!!! - urrou Rogójin, quase em delírio, tamanha era a sua alegria. - Olá, vocês todos, vinho! Ufa!... 

- Mande buscar vinho, eu também bebo. E música? Não há música, então?

- Sim, sim, haverá vinho! E música! Chegue pra lá! - berrou freneticamente ao ver Dária Aleksiéíevna se aproximar de Nastássia Filíppovna. - Ela é minha, muito minha! Chega. E tu, ó minha soberana... Cambaleava de alegria. Andava em redor de Nastássia Filíppovna, gritando para toda gente. - Que ninguém se aproxime dela!

Toda aquela sua espécie de escolta invadiu a sala. Uns bebiam outros gritavam, e todos riam, no auge da excitação, muito à vontade Ferdichtchénko tentou confraternizar com eles. O General Epantchín e Tótskii trataram de efetuar uma retirada precipitada. Gánia já estava também com o chapéu na mão, mas permanecia ainda sempre calado, chumbado ao chão, embora sentisse que devia fugir da cena que defrontava.

- Não se aproximem! - grunhia Rogójin.

- Por que está você se esgoelando? - dizia-lhe Nastássia Filíppovna, às gargalhadas. - Quem manda aqui ainda sou eu. Se me der na veneta ainda o ponho para fora aos pontapés! E ainda está com o dinheiro, hein? Tire a mão desse embrulho aí em cima da mesa. Dê-me. Neste pacote tem mesmo cem mil rublos? Credo que embrulho horrendo! Mas que é que tu queres, Dária Aleksiéievna? Achavas então que eu deveria me casar com o outro. com o príncipe? (Apontava para Míchkin.) Querias que eu me arruinasse com ele? O coitado necessita é de uma aia! Como pode ele casar? Ali o general bem podia ser a ama dele. Repara: não o quer largar. Olhe, príncipe, eu, sua ex-noiva, agarrei o dinheiro. Sou ou não sou uma mulher ordinária? E era com uma mulher assim, príncipe, que desejava casar? Mas... que é isso? Está... chorando?! Ficou triste? Ora, ria como eu. - E ao dar este conselho não pôde Nastássia Filíppovna evitar que duas grandes lágrimas lhe deslizassem pelo rosto abaixo. - Confie no tempo, que tudo faz passar. É preferível refletir dobrado agora do que mais tarde sem parar... Mas vocês todos deram agora para chorar? Pois não que Kátia também está chorando? Que é isso, Kátia? Vou deixar um presente para você e outro para Pácha. Não pensem que me esqueço de vocês, não. E agora, Kátia, volte para os seus. Fiz uma rapariga honesta como você perder o seu tempo com uma mulher ordinária como eu... Pois, príncipe, a falar verdade, é melhor assim, muito melhor. Mais tarde se arrependeria, príncipe, e não seríamos felizes. Não adianta jurar; sei que me desprezaria! E como tudo viria a ser estúpido, depois... Não, mais vale nos separarmos como amigos, pois não daria certo. Teria sido um sonho, nada mais. Não sonhei eu com príncipe? Claro que sonhei! Sim, sonhei, há muito tempo, quando morei solitária durante cinco anos, naquela casa de campo em plena estepe. Outra coisa não fazia eu senão pensar e sonhar... sonhar e pensar. Imaginava sempre alguém como o meu bondoso Príncipe Míchkin, correto e direito, e ao mesmo tempo tão ingênuo que não cessaria de proclamar diante de toda gente: “Por que censurar-te, Nastássia Filíppovna? Em quê? Por quê? Eu... que te adoro!” Era hábito meu devanear assim. E tanto, tanto... que, quase perdi o juízo. E eis que vinha sempre aquele homem, quedava-se dois meses por ano, e me trazia o quê? Vergonha, desonra corrupção, degradação, posto o que, se ia embora. Como podia eu suportar aquilo? Milhares de vezes me vinha a tentação de me atirar na represa: mas tão pobre criatura era eu que nem coragem para isso me sobrava... Mas agora... Rogójin, você está pronto. Então vamos!!! 

- Se estou! Não se aproximem!  

- Estamos prontos! - Várias vozes fizeram coro. E as mesmas vozes gritaram: - As tróicas estão esperando. Não ouvem os guizos?...

Nastássia Filíppovna abriu o pacote.

- Gánia, tive uma ideia formidável. Quero indenizá-lo: por que haveria você de perder tudo? Rogójin, será verdade mesmo que ele, por causa de três rublos, andaria de gatinhas até ao Vassílievskii?

 - Que dúvida!

- Então escute, Gánia: quero ver dentro da sua alma, pela última vez. Você andou me torturando estes três últimos meses, e agora é a minha vez. Está vendo este rolo? Dentro dele tem cem mil rublos. Pois eu vou jogá-lo no fogo, diante de todos que, assim, serão testemunhas. Logo a seguir atiço o fogo; e então você, mas sem calçar as luvas, com as mãos nuas, apenas com as mangas arregaçadas, tirará o pacote para fora da lareira. Que mal faz que você chamusque as pontas dos dedos, já que se trata de cem mil rublos, está ouvindo bem, cem mil rublos? Mas não vá demorar em tirar. Admirarei sua habilidade vendo-o introduzir as mãos no fogo para salvar o dinheiro. E todos ficam sendo testemunhas de que eu disse que o pacote ficará sendo seu. E se você não o salvar então ele pegará fogo e se queimará todinho, pois não consentirei que mais ninguém tente tirá-lo. Agora, recuem todos. O dinheiro é meu. É a paga de uma noite com Rogójin. O dinheiro é, ou não é meu, Rogójin?

- Se é, minha alegria! Se é, minha rainha!

- Então recuem todos. Eu faço o que quero. Não se metam! Ferdichtchénko, atice o fogo. Quero labaredas bem vivas e altas. Assim!

- Nastássia Filíppovna, minhas mãos não querem obedecer! - confessou Ferdichtchénko, sucumbido.

- Há, assim é que se faz! - exclamou Nastássia Filíppovna. - Está vendo? - Empunhou as tenazes, ajeitou duas achas de lenha bem acesas. Mal o fogo se abriu em labaredas, jogou o pacot lá para dentro.

Partiu de todos um grito que se continuou em um alarido. Uns esbarravam nos outros, querendo olhar. E exclamavam. - Ela não está no seu juízo ! Enlouqueceu. - Não deveríamos nós... não deveríamos nós segurá-la? - sussurrou o general para Ptítsin. trêmulo, com o rosto branco que nem um lenço, sem poder tirar os olhos do rolo prestes a inflamar. - Está louca! Quem não vê que ela está louca, teimava o general, o que fez Afanássii Ivánovitch, cuja lividez se acentuava responder: - Quantas vezes não lhe disse eu que ela era uma mulher e excêntrica?

- Mas, vamos e venhamos, são cem mil rublos!

- Deus do céu! - ouviu-se de todos os lados em uníssono. E todos se aglomeraram à frente do fogão. empurrando-se uns aos outros a fim de ver bem, soltando exclamações. Houve quem subisse nas cadeiras para enxergar melhor por sobre as cabeças dos que tapavam a cena. Dária Aleksiéievna correu para a outra sala para confabular com Kátia e Pácha, todas três muito assustadas.

A bela alemã sumiu.

- Mátuchka! Minha rainha! Onipotente dama! - bradou Liébediev, arremessando-se de joelhos diante de Nastássia Filíppovna, com as mãos na direção do fogo. Mátuchka, insigne mátuchka! São cem mil! Cem mil! Eu vi! Ordene-me que as retire. Meter-me-ei lá dentro! Encaixo esta minha cabeça cheia de cãs lá dentro e... Minha mulher está doente, morrendo em uma cama. Tenho treze filhos, todos órfãos já! Enterrei meu pai não há uma semana, não tenho nem o que comer! Nastássia Filíppovna! E tentou aproximar-se do fogo.

- Saia daí! - gritou-lhe Nastássia Filíppovna, afastando-o. - Recuem todos. Gánia, como é, você não se mexe? Está com vergonha? Tire o dinheiro lá de dentro, não vê que a sua sorte está ali?

Mas Gánia naquele dia já sofrera demais, e não estava preparado para mais esta prova última, ainda por cima tão inopinada. O grupo se bipartiu diante dele, deixando-o face a face com Nastássia Filíppovna, a menos de três passos. Perto do fogão, ela esperava atenta, olhando-o com olhos ardentes. Mudo, de braços cruzados as luvas e o chapéu nas mãos, com seu fraque, ele estacara, fitando o fogo. Um sorriso de demente se perdia em seu rosto branco que nem giz. Embora não conseguisse despregar a vista do fogo, do maço de notas quase a se inflamar, qualquer coisa nova e diferente parecia se ter inserido no vão da sua alma, dando-lhe ânimo para enfrentar a prova. Não se mexeu do seu lugar, ficando mais do que evidente perante todos que não tiraria o dinheiro. 

- Pense bem no que está fazendo! Se o dinheiro pega fogo, esta gente aqui o estraçalha - advertia-o Nastássia Filíppovna. - E você se dana todo. Olhe que estou falando sério. O fogo que no começo se avivara em labaredas saindo de duas achas rubras, ficou um pouco abafado quando o pacote caiu no seu centro. Mas uma pequenina labareda azul, uma língua de chama delgada e comprida, deu em serpentear lambendo o pacote. Depois o fogo subiu, envolveu-o pelos contornos e repentinamente o papel do maço se inflamou, produzindo um clarão vivo. Todos emitiram um suspiro ofegante. 

- Senhora! - vociferou de novo Liébediev arremetendo: mas Rogójin o agarrou e puxou violentamente para trás. E enquanto fazia isso, e depois, seu olhar estatelado se fixava cada vez mais em Nastássia Filíppovna. Era-lhe impossível arredar os olhos daquele semblante. O prazer embebedava-o: estava no sétimo céu. 

- Mas é uma perfeita rainha! - não cessava de repetir para quantos lhe estavam perto revezando-se. - Isso é que é atitude! Isso é que é ter raça! Qual de vocês, seus batedores de carteira, faria uma coisa destas? Qual?!... 

O príncipe assistia, calado e soturno. 

- Por uma notinha de mil, eu tirava o pacote todo com os meus dentes! - propôs Ferdichtchénko.

- Também eu, também eu tirava com os dentes! - grunhiu o hércules dos munhecaços, lá da retaguarda do grupo, sinceramente alvoroçado. - Raios me partam! Está queimando! O fogo dá cabo do dinheiro já - gritou, vendo a labareda. E todos gritaram a uma voz, investindo para o fogão: - Está pegando fogo! Está pegando fogo!

- Gánia, não finja! Pela última vez lhe digo: Não finja!

- Que diabo, tire logo de uma vez! - rugiu Ferdichtchénko, avançando para Gánia em ímpeto nervoso e o puxando pela manga. - Tire logo de uma vez, seu bestalhão. Está pegando fogo, não seja cretino!

Gánia desvencilhou-se violentamente de Ferdichtchénko, voltou-se e enveredou para a porta de saída. Mal deu dois passos, cambaleou e caiu no assoalho, pesadamente.

- Desmaiou! - exclamaram. 

- Mátuchka, está ardendo! - soluçou Liébediev.

- Vai se perder tudo! - ouvia-se de todos os lados. E, de onde estava, Nastássia Filíppovna gritou para as criadas: - Kátia, Pácha, deem-lhe um copo com água. um cálice de vodca!

Dito isto, ela mesma segurou as tenazes e com elas retirou o pacote. Todo o papel de fora do embrulho se havia queimado, estava em cinzas, mas se via imediatamente que o conteúdo estava intato. O pacote fora embrulhado em pelo menos três folhas dobradas de papel de jornal e as notas estavam perfeitas. Todos respiraram livremente. E foi Liébediev quem comentou com grande alívio:

- Talvez uma pobre nota de mil esteja chamuscada, mas o resto está que é uma beleza!

- É tudo dele! O maço inteiro é dele! Estão ouvindo, amigos! - declarou Nastássia Filíppovna, depondo o pacote de notas ao Lado de Gánia. - Ele não faria isso, aguentou a prova e portanto o seu amor-próprio ainda é maior do que o seu amor pelo dinheiro. Mas não importa, ele chegará a isso ainda. Por dinheiro, ele mataria alguém... Ei-lo que está voltando a si. General Iván Petróvitch. Dária Aleksiéievna, Kátia, Pácha, Rogójin, estão me ouvindo? As notas são para ele, são de Gánia. Dou-lhas para que faça com elas o que quiser, como recompensa por seja lá o que for! Digam-lhe isso! Deixem o pacote ali ao lado dele... Rogójin, marche! Príncipe, adeus! Saiba que foi o primeiro homem que encontrei em minha vida! Afanássii Ivánovitch, adeusinho, merci! O bando dos sequazes de Rogójin atravessou os salões em direção à porta da frente, atrás de Rogójin e de Nastássia Filíppovna, fazendo estardalhaço, aos berros e exclamações. No vestíbulo as empregadas deram a ela a capa de peles; a cozinheira Márfa entrou correndo, vindo da cozinha. Nastássia Filíppovna beijouas a todas.

- Mas como pode a senhora deixar-nos sozinhas, querida Matuchka! Mas para onde vai a senhora? E logo no seu aniversário ainda por cima, em um dia como o de hoje! perguntavam-lhe as raparigas, em prantos beijando-lhe as mãos.

- Para onde vou? Para a sarjeta, Kátia. Já não ouviste dizer que la é que é o meu lugar? Ou talvez vá ser lavadeira. Larguei Afanasse Ivanovitch. Saúda-o da minha parte e não penses mal de mim... 

O príncipe investiu precipitadamente para a porta da rua onde todo o bando estava se dispondo nas quatro tróicas com guizos. O General Epantchín conseguiu alcançá-lo escadas abaixo. 

- Escute uma coisa, veja o que está fazendo, príncipe! - disse, segurando-lhe o braço. - Desista! Não está vendo o que ela é? Falo-lhe como um pai. O príncipe olhou para ele, e sem articular uma só palavra se desvencilhou e desceu precipitadamente.

Na porta da rua, de onde as tróicas acabavam de partir, o general viu o príncipe chamar o primeiro fiacre e bradar para o cocheiro. “Para Ekaterinhóf! Siga as tróicas!” Nisto, rente ao degrau os cavalos cinzentos do general se adiantaram; o general rumou para casa, com os seus novos planos, suas novas esperanças e suas pérolas que. malgrado tudo, não se esquecera de levar consigo. Entre os seus planos a fascinante figura de Nastássia Filíppovna esvoaçou duas ou três vezes. O general suspirou. - É pena. Realmente, é uma pena. Essa mulher está perdida! É uma louca!... Mas o príncipe se livrou de Nastássia Filíppovna... de maneira que o que aconteceu no fundo foi bom...

E outras palavras edificantes, conquanto curtas, resumindo a situação, foram pronunciadas por outros dois convivas de Nastássia Filíppovna que tinham decidido fazer uma pequena caminhada. - Quer o senhor saber de uma coisa, Afanássii Ivánovitch? Já ouvi dizer que algo de semelhante a isto é feito entre os japoneses - observou Iván Petróvitch Ptítsin. - É o caso que quando alguém se sente insultado vai onde está o seu inimigo e declara: “Você me desgraçou e como vingança vou abrir meu ventre diante de você!” E com tais palavras imediatamente rasga o ventre na presença do inimigo, sentindo, com certeza, grande júbilo em agir assim, como se realmente se estivesse vingando. Há gente muito esquisita, neste mundo, Afanássii Ivánovitch! 

- E cuida você que se pode comparar este caso de agora com isso? - respondeu-lhe Tótskii, com um sorriso

- Hum!... Não está mal comparado, você arranjou uma excelente imagem! Em todo o caso você viu, meu caro Iván Petróvitch, que eu fiz tudo quanto pude. E convenha comigo que fazer mais do que fiz era impossível. E você há de admitir, outrossim, que essa mulher tinha algumas qualidades brilhantes.., e certos pontos de primeiríssima ordem. Senti-me tentado, naquele concílio de loucos, mesmo que isso me rebaixasse ainda mais, a gritar alto e em bom som que ela própria era a minha melhor desculpa a todas as suas acusações! Quem não se sentiria muitas e muitas vezes fascinado por tal mulher a ponto de perder o juízo e... tudo o mais? Veja por exemplo aquele estúpido Rogójin como lhe arremessou aos pés a sua carga de dinheiro! A bem dizer, tudo quanto acabou de se passar não foi mais do que coisa efêmera, romântica e inverossímil; mas que houve colorido nisso tudo e originalidade, lá isso convenhamos que houve! Deus meu, o que não se faria com um caráter daqueles, com uma beleza daquelas! Mas apesar de todo o esforço, apesar mesma da sua educação, tudo está perdido! Ela é um diamante que não foi lapidado, não me fartarei de dizer muitas e muitas vezes! 

E Afanássii Ivánovítch suspirou profundamente.

continua página 159..
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O Idiota: Primeira Parte (13) - Muito desajeitado
O Idiota: Primeira Parte (14) - Eu não sou espirituoso
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D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L3 Capitulo XXVI: Onde se prosseguem as finezas que de enamorado fez D. Quixote em Serra Morena.

D. Quixote de la Mancha

Miguel de Cervantes

Vol 1

O Engenhoso Fidalgo 
D. Quixote de la Mancha 
Miguel de Cervantes


PRIMEIRA PARTE

LIVRO TERCEIRO

CAPÍTULO XXVI

Onde se prosseguem as finezas que de enamorado fez D. Quixote em Serra Morena.


Voltando a contar o que fez o da Triste Figura depois que se viu só, diz a história que tanto como D. Quixote acabou de dar as cambalhotas nu da cinta para baixo, e da cinta para cima vestido, e reparou em que Sancho se tinha abalado sem querer esperar, a ver mais sandices, subiu à ponta duma alta penha, e ali tornou a discorrer sobre o que já outras muitas vezes havia cismado, sem nunca ter podido assentar em coisa certa; a saber: que seria melhor e mais cabido? se imitar a Roldão nas loucuras desaforadas que fez, ou a Amadis nas melancólicas.
Discursando entre si, dizia:

— Se Roldão foi tão valente e tão bom cavaleiro como todos dizem, que admira? se ele por último era encantado, e ninguém o podia matar, salvo metendo-lhe um alfinete grosso pela sola do pé, para o que já trazia à cautela sapatos com sete solas de ferro se bem que essas tretas não lhe valeram com Bernardo del Cárpio, que lhas entendeu, e o afogou entre os braços em Roncesvales. Mas, deixando nele de parte o que pertence à valentia, venhamos ao ponto de perder o juízo, pois é certo que o perdeu pelos sinais que na fonte achou, e pelas novas que lhe deu o pastor, de ter Angélica dormido mais de duas sestas com Medoro, um mourinho de cabelo encarapinhado, e pajem de Agramante; e, se ele acreditou ser aquilo verdade, e que a sua dama lhe tinha a ele feito agravo, não fez nada demais em endoidecer; mas eu como é que nas loucuras o posso imitar, se para elas não tenho iguais motivos? porque a minha Dulcinéia del Toboso atrevo-me a jurar que nunca em dias de sua vida viu mouro algum em seu trajo natural, e que se conserva ainda hoje como a mãe a deu à luz; pelo que lhe faria agravo manifesto, se, imaginando o contrário a seu respeito, me tornasse louco daquele gênero de loucura de Roldão o furioso. Por outra parte, vejo que Amadis de Gaula, sem perder o juízo, nem fazer loucuras, alcançou tamanha fama de enamorado como os que maior a tiveram, porque o que fez (conforme na sua história se refere) não foi mais do que por ver-se desdenhado da sua senhora Oriana, que lhe tinha mandado não aparecesse na sua presença enquanto ela não quisesse, retirou-se então à Penha Pobre em companhia dum ermitão, e ali se fartou de chorar, até que o céu lhe acudiu no meio da sua maior tristeza e desamparo. Ora se isto é verdade, como é, para que quero eu ter agora o trabalho de despir-me de todo, nem fazer ofensa a estas árvores que nenhum mal me fizeram? nem tenho razão para enturvar a água clara destes arroios que me hão-de dar de beber quando tiver sede. Viva a memória de Amadis! e imite-o D. Quixote de la Mancha em tudo que puder. Deste se dirá o que de outro se disse: que, se não perfez grandes coisas para acometê-las, morreu; e, se eu não sou despedido nem desdenhado da minha Dulcinéia, basta-me, como já está dito, o estar-me ausente dela. Eia pois! mãos à obra! acudi-me à lembrança coisas de Amadis, e ensinai-me por onde devo começar a imitá-lo; já sei que rezar foi o que ele mais praticou; assim o farei eu também.

A D. Quixote serviram-lhe de ramal de rosário uns bogalhos grandes de sobreiro enfiados de dez em dez mais pequenos, à guisa de Padre-Nossos.
O que muito o desassossegava era não achar por ali outro ermitão que o confessasse e o consolasse e assim se entrelinha passeando pelo pradozinho, gravando pelas cortiças do arvoredo e escrevendo na areia muitos versos, todos apropriados à sua tristeza, e alguns em honra e louvor de Dulcinéia; mas os que se puderam achar inteiros e que se pudessem ler depois que ali o encontraram, não foram senão estes, que em seguimento vão copiados:

Árvores, ervas, e plantas, 
que neste lugar estais, 
tão altas, verdes, e tantas, 
se co’o meu mal não folgais, 
ouvi minhas queixas santas. 
Tal dor não vos alvorote, 
embora de terror cheia, 
pois, por pagar-vos o escote, 
aqui chorou D. Quixote 
ausências de Dulcinéia 
   del Toboso. 

É aqui o lugar onde 
o adorador mais leal 
da sua amada se esconde; 
chegou a tamanho mal 
sem saber como ou por onde. 
Trá-lo amor ao estricote 
pela sua má raleia, 
e até encher um pipote 
aqui chorou D. Quixote 
ausência de Dulcinéia 
   del Toboso.

Procurando as aventuras 
entre as desabridas penhas, 
maldizendo entranhas duras, 
que entre fragas e entre brenhas 
acha o triste desventuras. 
Deu-lhe amor com seu chicote 
da mais áspera correia; 
tal lhe foi o esfusiote, 
que aqui chorou D. Quixote 
ausências de Dulcinéia 
   del Toboso.

Fez rir muito aos que tais versos ouviram o rabo-leva del Toboso posto ao nome de Dulcinéia, porque imaginaria D. Quixote, que, se, nomeando a Dulcinéia, não dissesse também del Toboso, deixaria a copla ininteligível, e essa foi realmente a razão que ele para isso teve, segundo ao depois confessou.
Muito mais trovas escreveu; porém, como já se disse, não se puderam tirar a limpo, nem inteiras, senão só estas três coplas.
Nisto, em suspirar, em chamar pelos Faunos e Silvanos daqueles bosques, pelas Ninfas dos rios, pela dolorosa e úmida Eco, que o escutassem, lhe respondessem e o consolassem, se entrelinha, e em procurar algumas ervas com que se sustentar enquanto não vinha Sancho, que, se assim como tardou três dias, tarda três semanas, a tal desfiguração chegara o Cavaleiro da Triste Figura, que nem a sua própria mãe por mais que escancarasse os olhos o conhecera.
Será bem deixarmo-lo por agora emaranhado em seus suspiros e versos, para contarmos o que a Sancho Pança aconteceu na sua embaixada. Foi o seguinte:
Saindo à estrada real, pôs-se à cata do caminho para Toboso. No dia seguinte chegou à venda em que lhe sucedera a desgraça da manta. Bispá-la e imaginar-se outra vez pelos ares aos boléus foi tudo um. Não quis entrar, posto serem horas de o poder e dever fazer, por serem as de jantar, e trazer desejo de provar coisa quente, pois muitos dias havia que só comia frio. 
Esta necessidade o obrigou a aproximar-se da taverna, indeciso contudo se entraria ou não. Estando naquilo, saíram de lá dois indivíduos, que logo o conheceram, e disse um para o outro:

— Diga-me, senhor licenciado, aquele de cavalo não é Sancho Pança, que disse a ama do nosso aventureiro ter saído por escudeiro com o seu senhor?

— É decerto — disse o licenciado — e aquele é o cavalo do nosso D. Quixote. 

Pudera não os conhecerem, se os dois eram nem mais nem menos o cura e o barbeiro do próprio lugar, os que fizeram a escolha e o auto-de-fé da livraria! Estes assim que de todo se certificaram de ser Sancho Pança e Rocinante, desejosos de saber de D. Quixote, se foram a ele, e o cura o chamou pelo seu nome, dizendo-lhe:

— Amigo Sancho Pança, onde fica o vosso amo?

Conheceu-os imediatamente Sancho, mas determinou encobrir-lhes o lugar onde o amo ficava, e de que modo; e assim lhes respondeu que seu amo ficava ocupado em certa parte e com certa coisa de muito interesse, que ele nem pelos dois olhos da cara descobriria.

— Deixe-se disso, Sancho Pança — disse o barbeiro; — se nos não diz onde ficou, cuidaremos, como já vamos cuidando, que o matastes e roubastes; e tanto mais, que vindes montado no seu cavalo; ou nos haveis de apresentar o dono do rocim, ou com a justiça vos heis-de haver. 

— Para mim — respondeu Sancho — vêm erradas as ameaças, que eu não sou homem que roube nem mate a ninguém; a cada um que o mate a sua má estrela, ou Nosso Senhor que o criou. Meu amo ficou a fazer penitência no meio desta montanha, muito por sua vontade. 

E logo correntemente e sem detença lhes contou como o deixara, as aventuras que lhe haviam sucedido, e como levava a carta à Senhora Dulcinéia del Toboso, que era a filha de Lourenço Corchuelo, de quem o amo estava enamorado até aos fígados.
Admirados ficaram os dois do que a Sancho Pança ouviram; e, ainda que já sabiam a loucura de D. Quixote e o gênero dela, sempre que a ouviam se maravilhavam como de coisa nova.
Pediram a Sancho que lhes mostrasse a carta que levava para a senhora Dulcinéia del Toboso.
Respondeu ele que ia escrita num livro de lembranças, e que era ordem de seu amo que a mandasse trasladar em papel no primeiro lugar aonde chegasse. Ao que volveu o cura que lha mostrasse, e ele mesmo a trasladaria com muito boa letra.
Meteu Sancho Pança a mão no bolso à procura do livrinho, mas não o achou nem o poderia achar, ainda que o buscasse até agora, porque tinha ficado em poder de D. Quixote, que se tinha esquecido de lhe entregar, como ele também se não lembrara de lhe pedir. Quando Sancho se inteirou de que não achava o livro, entrou-se a fazer amarelo como um defunto, e, tornando a apalpar todo o corpo muito à pressa, tornou a averiguar que não achava tal; e, sem mais nem mais, se foi com ambas as mãos às barbas e depenou metade delas; e logo à pressa, e sem intervalo, deu no rosto e nariz meia dúzia de punhadas, que foi o mesmo que abrir uma cascata de sangueira.
Vendo aquilo o cura e o barbeiro, perguntaram-lhe que desgraça tamanha lhe acontecera para se pôr naquele miserável estado.

— Que desgraça me sucedeu? — respondeu Sancho — sucedeu-me, que perdi, do pé para a mão, num instante, três burrinhos que era cada um como um castelo.

— Como foi isso? — exclamou o barbeiro.

— Perdi o livro de lembranças — respondeu Sancho — em que vinha a carta para Dulcinéia, e uma cédula assinada por meu amo, em que mandava que a sobrinha me desse três burricos, de quatro ou cinco que estavam em casa.

E com isto lhes contou a perda do ruço.
Consolou-o o cura, e lhe disse que, achando o fidalgo, ele lhe faria renovar a ordem; que tornasse a fazer a lembrança em papel, como era uso e costume, porque as que se faziam em livros de lembranças nunca se aceitavam nem cumpriam. Com isto se confortou Sancho, e disse que pouca freima lhe dava a ele a perda da carta para Dulcinéia, porque a sabia quase de memória, pelo que se poderia copiar aonde e quando se quisesse.

— Vá lá, Sancho, dizei-a — acudiu o barbeiro — a cópia depois se fará.

Esteve por um pouco Sancho Pança a coçar a cabeça para puxar à lembrança a carta; ora se punha sobre um pé, ora sobre outro, ora olhava para o chão, ora para o céu, e depois de ter roído metade da unha de um dedo, estando suspensos os ouvintes, disse após estiradíssima demora: 

— Valha-me Deus, senhor licenciado; se me lembra algum ponto da carta, o diabo que o leve já. Só me lembra, que no princípio dizia: Alta e soterrana senhora!

— Não havia de ser soterrana — disse o barbeiro — havia de dizer sobre-humana, ou soberana senhora.

— Tal qual — disse Sancho. — Depois, se bem me lembra — prosseguia — se bem me lembra: O chagado e falto de sono, e o ferido, beija a Vossa Mercê as mãos, ingrata e mui desconhecida formosa; e não sei que dizia de saúde e de enfermidade, que lhe enviava; e por aqui ia escorrendo, até que acabava em Vosso até à morte, o Cavaleiro da Triste Figura.

Não gostaram pouco os dois de verem a boa memória que tinha Sancho Pança, e louvaram-lha muito, e pediram-lhe que repetisse a carta mais duas vezes, para que eles igualmente de memória a tomassem, para a seu tempo se copiar.
Mais três vezes a repetiu Sancho, e outras tantas tornou a enfiar outros três mil disparates.
Da carta passou a relatar igualmente as coisas do amo; mas nem palavra que se referisse ao manteamento acontecido naquela venda em que recusava entrar. Disse também que o seu senhor, em ele lhe levando, como lhe havia de levar, boa resposta da sua senhora Dulcinéia del Toboso, se havia de pôr a caminho à procura de como se faria Imperador, ou pelo menos Monarca, que assim se tinha combinado entre ambos era coisa muito fácil, atendendo ao valor da sua pessoa e força do seu braço; e, chegando isso, o havia de casar a ele, que já a esse tempo seria viúvo com toda a certeza, e lhe havia de dar por mulher uma donzela da Imperatriz, herdeira de um rico e grande Estado de terra firme sem ilhas nem ilhos, que já disso não queria nada.
Tamanha era a serenidade com que Sancho engranzava tudo aquilo, limpando de quando em quando o nariz, e com tão pouco juízo, que os dois não cessavam de se admirar, considerando quão veemente fora o ataque de loucura de D. Quixote, pois tinha arrastado também consigo o juízo deste pobre homem. Não se quiseram cansar a tirá-lo do erro em que estava, por lhes parecer que, não indo nisso perigo para a consciência, melhor era deixarem-no lá na sua, e para eles também mais divertido ir-lhe desfrutando as tontarias. Disseram-lhe, pois, que rogasse a Deus pela saúde do fidalgo, pois era em realidade coisa muito fácil chegar pelo decurso do tempo a ser Imperador, ou pelo menos Arcebispo, ou outra dignidade equivalente. 
Ao que Sancho respondeu: 

— Senhores, se as coisas corressem por modo, que a meu amo se perdesse a vontade de ser Imperador, e antes quisesse a dignidade de Arcebispo, desejava eu agora saber que é o que costumam dar os Arcebispos andantes aos seus escudeiros.

— Costumam-lhes dar — respondeu o cura — algum benefício simples, ou de cura de almas, ou alguma sacristania de boa renda (afora o pé de altar, que se costuma avaliar no dobro).

— Para isto há de ser preciso — replicou Sancho — que o escudeiro não seja casado, e que saiba pelo menos ajudar à missa. Sendo assim, mal de mim, que sou casado, e não sei a primeira letra do A B C ! Que será de mim, se ao meu amo der na veneta ser Arcebispo e não Imperador, como é uso e costume dos cavaleiros andantes?

— Não vos mortifiqueis, amigo Sancho — disse o barbeiro — que nós rogaremos ao vosso amo, e lhe aconselharemos, chegando até a pôr lhe em caso de consciência que seja Imperador e não Arcebispo, porque até lhe é mais fácil, em razão de ser ele mais esforçado que estudante. 

 — Assim me tem parecido a mim — respondeu Sancho — mas posso dizer, sem mentir, que para tudo tem habilidade. O que eu por minha parte hei de fazer, é rogar a Nosso Senhor que o incline para a parte em que ele se aproveite mais a si, e a mim me faça melhores mercês.

— Falais como discreto — disse o cura — e obrareis como bom cristão; mas o que ao presente se deve fazer é diligenciar pôr vosso amo fora daquela escusada penitência em que nos dissestes o deixastes; e para combinarmos o que se há-de pôr em obra, e também para comermos, que já são horas, bom será que entremos na venda.

Respondeu Sancho que entrassem, que ele esperaria ali fora, e depois lhes diria a causa por que não entrava, nem lhe convinha entrar lá; mas que lhes pedia lhe mandassem vir para ali alguma coisa quente, e também cevada para o Rocinante. 
Entraram eles e o deixaram. Dali a pouco trouxe-lhe de comer o barbeiro.
Depois, tendo os dois ajustado bem o modo como haviam de conseguir o que desejavam, acudiu ao cura um pensamento muito conforme ao gosto de D. Quixote e ao que eles queriam. Disse ao barbeiro que a sua idéia era que ele se vestiria em trajo de donzela andante, e o barbeiro o melhor que pudesse em hábitos de seu escudeiro; e assim iriam aonde D. Quixote estava, fingindo ser ela uma donzela afligida e necessitada, e lhe pediria um dom que ele lhe não poderia recusar, como valoroso cavaleiro andante que era; e que o dom que tencionava pedir-lhe era que viesse com ela aonde o levasse, a reparar-lhe um agravo, que um descortês cavaleiro lhe havia feito; e igualmente lhe suplicava que lhe não mandasse tirar a máscara, nem lhe perguntasse nada dos seus particulares, antes de a ter vingado daquele mau cavaleiro; que tivesse por sem dúvida que D. Quixote estaria por tudo quanto nestes termos a donzela lhe pedisse, e deste modo o tirariam dali, e o levariam ao seu lugar, e lá se veria que remédio se poderia dar à sua estranha loucura.  

continua página 157...

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Leia também:

D. Quixote - Cervantes Vol 1 - Prólogo
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - Ao Livro de D. Quixote de la Mancha
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L1 Capitulo I
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L2 Capitulo IX
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L3 Capitulo XXVI
D. Quixote - Cervantes Vol 1 - 1ª Parte L3 Capitulo XXVII
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D. QUIXOTE 
VOL. I 
Cervantes 
D. Quixote de La Mancha — Primeira Parte 
(1605) 
Miguel de Cervantes [Saavedra] 
(1547-1616)
Tradução: 
Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho (1809- 1876) Conde de Azevedo 
Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) 
Visconde de Castilho
Edição 
eBooksBrasil www.ebooksbrasil.com 
Versão para eBook 
eBooksBrasil.com 
Fonte Digital 
Digitalização da edição em papel de Clássicos Jackson, Vol. VIII Inclusões das partes faltantes confrontadas com a edição em espanhol da eBooksBrasil.com 
(1999, 2005)
Copyright 
Autor: 1605, 2005 Miguel de Cervantes 
Tradução Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho 
António Feliciano de Castilho 
Capa: Honoré-Victorin Daumier (1808-1879) 
Retrato de Cervantes: Eduardo Balaca (1840-1914) 
Edição: 2005 eBooksBrasil.com

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Dizzy Gillespie

Dizzy Gillespie Quintet

- 1966


John Birks Gillespie, conhecido como Dizzy Gillespie, (Cheraw, 21 de outubro de 1917 — Englewood, 6 de janeiro de 1993) foi um trompetista, líder de orquestra, cantor e compositor de jazz, sendo, a par de Charlie Parker, uma das maiores figuras no desenvolvimento do movimento bebop no jazz moderno.






Numa versão restaurada e reeditada do programa de jazz dos anos 1960, Neneh Cherry apresenta uma sessão do trompetista Dizzy Gillespie acompanhado por Rudy Collins, Christopher White, Kenny Barren e James Moody.



A Night In Tunisia 
- Live 1981





Em 1964, durante a campanha presidencial entre Lyndon Johnson e Barry Goldwater que ocupava as atenções do país, Gillespie lançou uma candidatura independente à Presidência dos Estados Unidos. Em tempos de conflitos raciais no país e Guerra do Vietnã, sua plataforma, apoiada por ativistas e amigos músicos, prometia oportunidade igual de empregos a negros e brancos e combate ao racismo. Sua intenção era chamar atenção para os problemas do país e ele anunciou que se eleito colocaria Miles Davis como chefe da CIA, Louis Armstrong como ministro da Agricultura, Duke Ellington como secretário-de-Estado e Malcolm X como procurador geral. Entre outras excentricidades, prometia também oficialmente trocar o nome da Casa Branca (White House) para Casa do Blues (Blues House).



Dizzy Gillespie and B.B. King 
sing and play juntos...
BABY I'M HARD OF HEARING MAMA



talvez.....
em agosto de 1991
no Newport Jazz Festival em Madarao



Em relação à forma de tocar, Gillespie construiu a sua interpretação a partir do estilo "saxofónico" de Roy Eldridge indo depois muito além deste. As suas marcas pessoais eram o seu trompete (com a campânula inclinada 45º em vez de ser a direito) e as suas bochechas inchadas (tradicionalmente os trompetistas são ensinados a não fazer “bochechas”).

Para além do seu trabalho com Charlie Parker, Dizzy Gillespie conduziu pequenos agrupamentos e big bands e aparecia frequentemente como solista com a Norman Granz's Jazz at the Philharmonic. No início da sua carreira tocou com Cab Calloway, que o despediu por tocar “música chinesa”, a lendária big band de Billy Eckstine deu a estas harmonias atípicas uma melhor cobertura.



Manteca



Dizzy Gillespie com Kenny Clarke / Francy Boland Big Band 
Dinamarca - 4 de novembro de 1970.



Birks Works
Ray Brown, 1981





Moby Dick: 16b - O Navio

Moby Dick

Herman Melville


16 - O NAVIO

continuando... 

Assim era a pessoa que vi no painel de popa, quando segui o Capitão Peleg até a cabine. O espaço entre as duas cobertas era pequeno; o velho Bildad estava lá sentado, ereto e sem se encostar, como sempre, para economizar o fraque. Seu grande chapéu estava ao lado; as pernas, rigidamente cruzadas; sua vestimenta de lã grossa, abotoada até o pescoço; com os óculos no nariz, parecia absorto na leitura de um livro imenso.

“Bildad”, gritou o capitão Peleg, “de novo, Bildad, hein? Tu tens estudado essas Escrituras nos últimos trinta anos, é certo. Até onde chegaste, Bildad?”

Como se estivesse acostumado àquelas palavras profanas de seu companheiro de bordo, Bildad, sem prestar atenção à sua irreverência, levantou os olhos e ao me ver dirigiu um olhar inquisitivo a Peleg.
 
“Ele diz ser um dos nossos, Bildad”, disse Peleg, “quer embarcar.”

“Queres?” perguntou Bildad, com uma voz cavernosa, voltando-se para mim. 

“Eu queres”, respondi sem perceber, dada a intensidade de sua expressão Quacre.

“O que pensas dele, Bildad?”, perguntou Peleg.

“Serve!”, respondeu Bildad, me observando ainda, e depois afundou em seu livro com um resmungo bem audível. 

Tomei-o pelo Quacre mais estranho que já vira, especialmente em contraste com Peleg, seu amigo e companheiro de bordo, que parecia tão arrogante e ruidoso. Mas não disse nada, limitei-me a observar. Então Peleg abriu uma arca, retirou de dentro os contratos do navio, colocou uma caneta e tinta diante de si, e sentou-se à mesinha. Comecei a achar que estava na hora de decidir em que condições iria me comprometer a viajar. Já sabia que no negócio de baleias não se recebem salários; mas toda a tripulação, inclusive o comandante, recebe uma cota dos lucros, e essas cotas são proporcionais ao grau de importância da função desempenhada no navio. Também sabia que, sendo um novato na pesca de baleias, minha cota não seria muito grande; mas considerando que estava acostumado com o mar, que sabia governar um navio e amarrar uma corda, e tudo o mais, eu não tinha dúvida, depois de tudo que tinha escutado, de que deveriam me oferecer pelo menos uma cota de 275 avos – ou seja, a 275ª parte dos lucros líquidos da viagem, fosse qual fosse seu total. E, embora a cota de 275 avos fosse uma cota pequena, era melhor que nada; e, se tivéssemos sorte na viagem, quase poderia pagar pela roupa que eu teria que usar, sem falar na alimentação e alojamento por três anos, pelos quais eu não teria que pagar nada. 
Alguém poderia pensar que era um jeito ruim de acumular uma fortuna magnífica – e era mesmo um jeito muito ruim. Mas não sou daqueles que buscam fortunas magníficas e fico bastante satisfeito se o mundo me aloja e me alimenta, enquanto me resigno a esta terrível placa, “Nuvem Trovejante”. De modo geral, achei que a 275ª parte seria justo, mas não teria ficado surpreso se me oferecessem a 200ª pelo fato de eu ter ombros largos.
Não obstante, uma coisa me fazia desconfiar de que não receberia uma parte generosa dos lucros, e era o seguinte: em terra, eu tinha ouvido falar sobre o Capitão Peleg e seu amigo Bildad, que eram os principais donos do Pequod, e que os outros proprietários, dispersos ou insignificantes, deixavam quase toda a administração dos negócios do navio com os dois. E eu sabia que o velho avarento Bildad teria que dizer algo sobre os marinheiros que seriam embarcados, ainda mais que o encontrei a bordo do Pequod, bem à vontade na cabine, lendo a Bíblia como se estivesse em sua casa. Enquanto Peleg tentava em vão consertar um bico de pena com seu canivete, o velho Bildad, para minha grande surpresa, considerando-se que era uma das partes interessadas nesses procedimentos, não deu atenção a nós, mas continuou a resmungar e ler seu livro, “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça…”

“Bem, capitão Bildad”, interrompeu Peleg, “que pensas, que cota devemos oferecer a esse jovem?”

“Tu sabes melhor do que eu”, foi sua resposta sepulcral, “achas que uma cota de 777 seria excessiva? – “onde a traça e a ferrugem os consome; mas ajuntai tesouros no céu…”

Mas que tesouro, pensei. Um tesouro de 777 avos! Bem, velho Bildad, você está determinando que eu não tenha muitos tesouros aqui embaixo, onde a traça e a ferrugem nos consomem. Era um tesouro extremamente modesto; e, embora a magnitude do número devesse iludir um homem da terra, basta refletir um pouco para se perceber que o número 777 é grande; no entanto, se tiver um avo no final, observa-se que 777 avos é muito menos do que 777 dobrões de ouro; foi desse modo que pensei na ocasião.

“Ora, que diabos, Bildad”, gritou Peleg, “não queres enganar esse jovem rapaz! Ele deve receber mais que isso.” 

“Setecentos e setenta e sete avos”, repetiu Bildad, sem levantar os olhos; e continuou a murmurar, “pois, onde está o teu tesouro, aí está, também, o teu coração.” 

“Vou lhe dar trezentos avos”, disse Peleg, “estás ouvindo, Bildad? Um tesouro de trezentos avos, repito.”

Bildad abaixou seu livro, virou-se para ele e disse, “Capitão Peleg, tens um coração generoso; mas deves considerar os teus deveres para com os outros proprietários deste navio – viúvas e órfãos, em sua maioria – e, se recompensarmos em excesso o trabalho desse jovem rapaz, estaremos tirando o pão dessas viúvas e órfãos. Setecentos e setenta e sete avos, capitão Peleg.”

“Bildad!” rugiu Peleg, levantando-se e andando pela cabine. “Que os diabos te carreguem, Capitão Bildad, se eu tivesse seguido os teus conselhos teria agora a consciência tão pesada que afundaria o maior navio que já navegou por todo o cabo Horn.”

“Capitão Peleg”, disse Bildad com firmeza, “não sei se a tua consciência pode agüentar dez polegadas ou dez braças de água; mas como insiste em ser impenitente, Capitão Peleg, receio que tua consciência termine por afundar-te até o quinto dos infernos, Capitão Peleg.”

“Quinto dos infernos! Quinto dos infernos! Tu estás me insultando, homem; passando dos limites, me insultando. É uma verdadeira ofensa dizer a uma pessoa que ela vai para o inferno. Raios e trovões! Bildad, repete isso, e eu – e eu – é, eu sou capaz de engolir uma cabra viva, chifre e tudo. Para fora da cabine, hipócrita, filho-da-mãe – sai daí!”

Enquanto clamava estas coisas lançou-se contra Bildad, mas este, com uma destreza maravilhosa, conseguiu evitá-lo.
Alarmado por esta terrível explosão entre os dois principais responsáveis e proprietários do navio e sentindo-me tentado a desistir de embarcar num navio cujos armadores comandavam de modo tão problemático, afastei-me da porta para dar passagem a Bildad, que eu tinha certeza queria desaparecer diante da fúria que despertara em Peleg. Mas, para minha surpresa, sentou-se calmamente outra vez no painel de popa e não parecia ter a menor intenção de se retirar. Parecia estar acostumado à impenitência e aos modos de Peleg. Quanto a Peleg, depois de soltar a raiva que sentia, parecia tê-la esgotado, e também se sentou como um cordeirinho, embora ainda se crispasse um pouco de nervosismo. “Uau!”, assobiou por fim – “creio que a tempestade se foi com o vento. Bildad, eras bom em afiar lanças, podes consertar esta minha pena? Meu canivete está cego. Aqui está. Obrigado, Bildad. Pois bem, meu jovem rapaz, o teu nome é Ishmael, não foi o que disseste? Muito bem, vais conosco, Ishmael, com uma cota de trezentos avos.” 

“Capitão Peleg”, eu disse, “eu tenho um amigo que também quer embarcar – posso trazê-lo amanhã?”

“Com certeza”, respondeu Peleg, “traze-o, e veremos.”

“Que cota ele vai querer?”, resmungou Bildad, levantando os olhos do livro no qual havia se enterrado. 

“Oh! Não te preocupes com isso, Bildad”, disse Peleg. “Ele já esteve na pesca de baleias?”, perguntou, virando-se para mim.

“Matou tantas baleias que nem sei contar, capitão Peleg.” 

“Traze-o aqui, então.”

Depois de assinar os papéis, fui embora, convencido de que fizera um bom trabalho naquela manhã, e que o Pequod era o próprio barco que Yojo tinha destinado para levar a Queequeg e a mim a dar a volta ao Cabo.
Mas eu não tinha ido muito longe quando comecei a pensar que ainda não vira o Capitão com quem viajaria; embora não raro aconteça que um baleeiro seja preparado e receba sua tripulação a bordo antes que o capitão apareça para comandar; isto porque algumas viagens são tão longas, e os intervalos em terra tão breves que o capitão, se tiver família ou algum interesse desse tipo para ocupá-lo, não se preocupará com o navio no porto, deixando-o com os proprietários até que esteja pronto para ir ao mar. Contudo, é sempre bom conhecê-lo antes de se entregar irrevogavelmente em suas mãos. Voltei e me aproximei do capitão Peleg, perguntando-lhe onde poderia encontrar o capitão Ahab.

“E o que queres com o capitão Ahab? Já está tudo certo; irás embarcar.” 

“Sim, mas gostaria de vê-lo.”

“Não creio que poderás vê-lo no momento. Não sei o que há com ele, mas se mantém fechado dentro de casa; uma espécie de doença, embora não aparente. Na verdade, não está doente, mas também não está muito bem. De qualquer modo, meu jovem rapaz, ele não quer receber a mim, portanto não creio que vá receber a ti. É um homem estranho, o capitão Ahab – é o que dizem –, mas é uma boa pessoa. Ora, hás de gostar dele, não tenhas medo. É um homem grande, não é religioso, parece um deus, o Capitão Ahab; não fala muito; mas quando fala é melhor ouvi-lo. Presta atenção, Ahab é uma pessoa fora do comum; Ahab esteve em universidades e também entre os canibais; está acostumado às maravilhas mais profundas do que o próprio mar; fixou sua lança em adversários mais estranhos e poderosos do que baleias. Sua lança! A mais certeira e afiada de todas as lanças de nossa ilha! Oh! Ele não é o capitão Bildad; não! E não é o capitão Peleg; ele é Ahab, meu rapaz, o Ahab da antiguidade, que, bem o sabes, era um rei coroado!” 

“E um ser desprezível. Não foi aquele rei malvado que, quando foi assassinado, os cães vieram lamber seu sangue?”

“Aproxima-te de mim – mais perto, mais perto”, disse Peleg com uma expressão nos olhos que me assustou. “Vê bem, meu jovem; nunca fales sobre isso a bordo do Pequod. Nunca fales sobre isso em nenhum lugar. O Capitão Ahab não escolheu o próprio nome. Foi um capricho tolo de sua mãe, uma viúva louca e estúpida, que morreu quando ele tinha apenas doze meses. Mas Tistig, uma velha indígena de Gay Head, disse que o nome tinha sido profético. Talvez outros néscios digam o mesmo. Quero prevenir-te. É uma mentira. Conheço bem o capitão Ahab; há muitos anos viajei com ele como imediato; sei como ele é – um homem bom –, não é um homem religioso e bom como Bildad, mas é um homem que pragueja e é bom – um pouco como eu –, só que vale mais do que eu. Sim, sei que nunca foi muito alegre; e sei que no caminho para casa estava um pouco desequilibrado; mas foram as dores agudas do coto que sangrava que provocaram isto, como se pode ver. Sei também que desde que perdeu a perna na última viagem, por causa da maldita baleia, ele ficou temperamental – às vezes desesperado, outras vezes colérico; mas isso vai passar. E de uma vez por todas vou dizer-te e assegurar-te que é melhor viajar com um bom capitão que é temperamental do que com um mau capitão que é alegre. Portanto adeus, meu rapaz – e não penses mal do Capitão porque ele tem um nome abominável. Além disso, meu rapaz, ele tem esposa – casou-se não faz três viagens –, uma jovem meiga e resignada. Pensa nisso; com essa moça meiga o velho capitão tem uma criança: podes pensar que há alguma maldade irremediável em Ahab? Não, meu rapaz; por muito que tenha sido agredido e que tenha sofrido, Ahab conserva seu lado humano!”

Enquanto me afastava, estava mergulhado em reflexões; aquilo que acabava de me ser incidentalmente revelado sobre o Capitão Ahab me encheu de uma espécie de pena vaga e incontida. Naquela ocasião, senti compaixão e tristeza por ele, mas não por outra razão senão a perda cruel de sua perna. Mas também senti um estranho temor; um temor que não sei descrever, que não era exatamente temor; não sei o que era. Mas senti; e esse sentimento não me afastava do Capitão, embora me tornasse impaciente em relação a algo que parecia um mistério, tão pouco eu o conhecia. No entanto, minhas reflexões acabaram por tomar um outro rumo, de modo que o misterioso Ahab saiu de meu pensamento.  
Moby Dick: 16b - O Navio
Moby Dick: 17 - O Ramadã
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851,
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (11.1) - No aturdimento dos últimos anos

Cem Anos de Solidão


Gabriel Garcia Márquez


(11.1)


para jomí garcía ascot
e maría luisa elío

NO ATURDIMENTO DOS últimos anos, Úrsula dispusera de tréguas muito escassas para atender à formação papal de José Arcadio, quando ele teve que ser preparado às carreiras para ir para o seminário. Meme, sua irmã, dividida entre a rigidez de Fernanda e as amarguras de Amaranta, chegou quase ao mesmo tempo à idade prevista para mandá-la ao colégio de freiras onde fariam dela uma virtuose do clavicórdio. Úrsula se sentia atormentada por dúvidas graves em torno da eficácia dos métodos com que temperara o espírito do lânguido aprendiz de Sumo Pontífice e não jogava a culpa na sua tropeçante velhice nem nas nuvens que mal lhe permitiam vislumbrar o contorno das coisas e sim em alguma coisa que ela mesma não conseguia definir mas que imaginava confusamente como um progressivo desgaste do tempo. “Os anos de agora já não vêm como os de antigamente”, costumava dizer, sentindo que a realidade cotidiana lhe escapava das mãos. Antigamente, pensava, as crianças demoravam muito para crescer. Bastava recordar todo o tempo que fora necessário para que José Arcadio, o mais velho, partisse com os ciganos e tudo o que acontecera até que ele voltasse pintado como uma cobra e falando como um astrônomo, e as coisas que tinham acontecido em casa até que Amaranta e Arcadio esquecessem a língua dos índios e aprendessem o castelhano. Que se visse o sol e o sereno que suportara o pobre José Arcadio Buendía debaixo do castanheiro, e o quanto tivera que chorar a sua morte antes que lhe trouxessem moribundo um Coronel Aureliano Buendía que, depois de tanta guerra e depois de tanto se sofrer por ele, ainda não tinha feito cinquenta anos. Em outra época, depois de passar o dia inteiro fazendo animaizinhos de caramelo, ainda lhe sobrava tempo para se ocupar das crianças, para ver-lhes no branco dos olhos que estavam precisando de uma poção de óleo de rícino. Agora, pelo contrário, quando já não tinha nada que fazer e andava com José Arcadio pregado às saias de manhã à noite, a qualidade ruim do tempo obrigava-a a deixar as coisas pela metade. A verdade era que Úrsula resistia ao envelhecimento mesmo quando já tinha perdido a conta da sua idade e atrapalhava em todos os lugares e tentava se meter em tudo e aborrecia os forasteiros com a perguntação de se não tinham deixado ali em casa, no tempo da guerra, um São José de gesso para que o guardassem enquanto não passava a chuva. Ninguém soube com certeza quando começou a perder a vista. Mesmo nos seus últimos anos, quando já não podia se levantar da cama, parecia simplesmente que estava vencida pela decrepitude, mas ninguém descobriu que estava cega. Ela o percebera desde o nascimento de José Arcadio. A princípio, pensou que se tratava de uma debilidade transitória e tomava escondido xarope de tutano e botava mel de abelha nos olhos, mas muito brevemente foi se convencendo de que afundava sem salvação nas trevas, a ponto de nunca ter tido uma noção muito clara da invenção da luz elétrica, porque quando instalaram os primeiros focos só pôde perceber o brilho. Não disse nada a ninguém, pois teria sido um reconhecimento público da sua inutilidade. Empenhou-se numa calada aprendizagem da distância das coisas e das vozes das pessoas, para continuar vendo com a memória quando já não o permitissem as sombras da catarata. Mais tarde havia de descobrir o auxílio imprevisto dos cheiros, que se definiram nas trevas com uma força muito mais convincente do que os volumes e a cor e a salvaram definitivamente da vergonha de uma renúncia. Na escuridão do quarto, podia enfiar a linha na agulha e bordar uma casa, e sabia quando o leite estava para ferver. Conheceu com tanta certeza o lugar em que se encontrava cada coisa que ela mesma se esquecia às vezes de que estava cega. Certa ocasião, Fernanda pôs a casa em polvorosa porque tinha perdido a aliança e Úrsula a encontrou num consolo, no quarto das crianças. Simplesmente, enquanto os outros andavam descuidadamente por todos os lados, ela os vigiava com os seus quatro sentidos, para que nunca a pegassem de surpresa, e ao fim de algum tempo descobriu que cada membro da família repetia todos os dias, sem notar, os mesmos percursos, os mesmos atos, e que quase repetia as mesmas palavras às mesmas horas. Só quando saíam dessa meticulosa rotina é que corriam o risco de perder alguma coisa. De modo que quando viu Fernanda consternada porque havia perdido a aliança, Úrsula se lembrou de que a única coisa diferente que ela fizera naquele dia tinha sido arejar as esteiras das crianças, porque Meme tinha descoberto um percevejo na noite anterior. Como as crianças assistissem à limpeza, Úrsula pensou que Fernanda havia posto a aliança no único lugar onde elas não a poderiam alcançar: o consolo. Fernanda, pelo contrário, procurou-a unicamente nos trajetos do seu itinerário cotidiano, sem saber que a procura das coisas perdidas é dificultada pelos hábitos rotineiros e é por isso que dá tanto trabalho encontrá-las. A educação de José Arcadio ajudou a Úrsula na tarefa extenuante de se manter a par das mínimas mudanças em casa. Quando percebia que Amaranta estava vestindo os santos do quarto, fingia que ensinava ao menino as diferenças entre as cores. 

— Vamos ver — dizia a ele — me conte de que cor está vestido São Rafael Arcanjo.

Dessa forma, o menino lhe dava a informação que lhe negavam os olhos e muito antes que ele partisse para o seminário Úrsula já podia distinguir pela textura as diferentes cores da roupa dos santos. As vezes aconteciam acidentes imprevistos. Uma tarde, estava Amaranta bordando na varanda das begônias e Úrsula tropeçou nela. 

— Pelo amor de Deus — protestou Amaranta — veja por onde anda. 

— É você — disse Úrsula — quem está sentada onde não deve. 

Para ela, estava certo. Mas naquele dia começou a se dar conta de alguma coisa que ninguém havia descoberto e era que no transcurso do ano o sol ia mudando imperceptivelmente de posição e quem se sentava na varanda tinha que ir mudando de lugar pouco a pouco e sem o perceber. A partir de então, Úrsula tinha apenas que se lembrar da data para saber o lugar exato em que Amaranta estava sentada. Embora o tremor das mãos fosse cada vez mais perceptível e já não pudesse com o peso dos pés, nunca se vira a sua figura miudinha em tantos lugares ao mesmo tempo. Era quase tão diligente como quando arcava com toda a responsabilidade da casa. Entretanto, na impenetrável solidão da velhice, dispunha de tal clarividência para examinar mesmo os mais insignificantes acontecimentos da família que pela primeira vez viu com clareza as verdades que as suas ocupações de outros tempos lhe haviam impedido de ver. Na época em que preparavam José Arcadio para o seminário, já tinha feito uma recapitulação infinitesimal da vida da casa desde a fundação de Macondo e havia mudado completamente a opinião que tivera dos seus descendentes. Percebeu que o Coronel Aureliano Buendía não tinha perdido o afeto à família por causa do endurecimento da guerra, como ela acreditava antes, mas que nunca tinha amado ninguém, nem sequer a sua esposa Remedios ou as incontáveis mulheres de uma noite que haviam passado pela sua vida e muito menos ainda os seus filhos. Vislumbrou que não tinha feito tantas guerras por idealismo, como todo mundo pensava, nem tinha renunciado à vitória iminente por cansaço, como todo mundo pensava, mas que tinha ganho e perdido pelo mesmo motivo, por pura e pecaminosa soberba. Chegou à conclusão de que aquele filho por quem ela teria dado a vida era simplesmente um homem incapacitado para o amor. Uma noite, quando o tinha no ventre, ouviu-o chorar. Era um lamento tão definido que José Arcadio Buendía acordou do seu lado e se alegrou com a ideia de que a criança ia ser ventríloqua. Outras pessoas prognosticaram que seria adivinho. Ela, pelo contrário, estremeceu com a certeza de que aquele bramido profundo era um primeiro indício do temível rabo de porco e rogou a Deus que lhe deixasse morrer a criatura no ventre. Mas a lucidez da velhice lhe permitiu ver, e assim o repetiu muitas vezes, que o choro das crianças no ventre da mãe não é um anúncio de ventriloquia nem de faculdade adivinhatória, mas um sinal inequívoco de incapacidade para o amor. Aquela desvalorização da imagem do filho despertou-lhe de uma vez toda a compaixão que estava devendo a ele. Amaranta, pelo contrário, cuja dureza de coração a espantava, cuja concentrada amargura a amargava, foi revelada no último exame como a mulher mais terna que jamais pudesse haver existido e compreendeu com uma penosa clarividência que as injustas torturas a que submetera Pietro Crespi não eram ditadas por uma vontade de vingança, como todo mundo pensava, nem o lento martírio com que frustrara a vida do Coronel Gerineldo Márquez tinha sido determinado pelo fel ruim da sua amargura, como todo mundo pensava, mas sim que ambas as ações tinham sido uma luta de morte entre um amor sem medidas e uma covardia invencível, e triunfara finalmente o medo irracional que Amaranta sempre tivera do seu próprio e atormentado coração. Foi por essa época que Úrsula começou a se referir a Rebeca, a evocá-la com um velho carinho exaltado pelo arrependimento tardio e pela admiração repentina, tendo compreendido que somente ela, Rebeca, a que nunca se alimentara do seu leite e sim da terra e da cal das paredes, a que não levara nas veias o sangue do seu sangue e sim o sangue desconhecido de desconhecidos cujos ossos continuavam chocalhando na tumba, Rebeca, a do coração impaciente, a do ventre arrebatado, era a única que tinha tido a valentia sem freios que Úrsula desejara para a sua estirpe. 

— Rebeca — dizia, tateando as paredes — que injustos nós fomos com você!

Em casa, simplesmente acreditavam que tresvariava, sobretudo desde que dera para andar com o braço direito levantado, como o Arcanjo Gabriel. Fernanda se deu conta, entretanto, de que havia um sol de clarividência nas sombras desse desvario, pois Úrsula podia dizer sem titubear quanto dinheiro se havia gasto em casa durante o último ano. Amaranta teve uma ideia semelhante certo dia em que a mãe mexia na cozinha uma panela de sopa e disse de repente, sem saber que estava sendo ouvida, que o moinho de fubá que haviam comprado dos primeiros ciganos, e que havia desaparecido desde antes que José Arcadio desse sessenta e cinco vezes a volta ao mundo, ainda estava na casa de Pilar Ternera. Também quase centenária, mas sã e ágil apesar da inconcebível gordura que espantava as crianças como em outros tempos a sua risada espantava os pombos, Pilar Ternera não se surpreendeu com o acerto de Úrsula, porque a sua própria experiência começava a indicar que uma velhice alerta pode ser mais sagaz que as averiguações das cartas. 

Entretanto, quando Úrsula percebeu que o tempo não lhe havia chegado para consolidar a vocação de José Arcadio deixou-se aturdir pela consternação. Começou a cometer erros tentando ver com os olhos as coisas que a intuição lhe permitia ver com maior claridade. Certa manhã jogou na cabeça do menino o conteúdo de um tinteiro, pensando que era água-de-colônia. Ocasionou tantas dificuldades com a teimosia de intervir em tudo, que se sentiu transtornada por crises de mau humor, e tentava vencer as trevas que finalmente a estavam tolhendo como uma camisa de teias de aranha. Foi então que lhe ocorreu que a sua inabilidade não era a primeira vitória da decrepitude e da escuridão, mas uma falha do tempo. Pensava que antigamente, quando Deus não fazia com os meses e os anos as mesmas trapaças que faziam os turcos ao medir uma jarda de percal, as coisas eram diferentes. Agora não apenas as crianças cresciam mais depressa, mas até os sentimentos evoluíam de outro modo. Nem bem Remedios, a bela, subira ao céu de corpo e alma, já Fernanda, sem consideração, andava resmungando pelos cantos que ela levara os lençóis. Nem bem haviam esfriado os corpos dos Aurelianos nas tumbas e já Aureliano Segundo tinha outra vez a casa tomada, cheia de bêbados que tocavam acordeão e se encharcavam de champanha, como se não tivessem morrido cristãos e sim cachorros, e como se aquela casa de loucos, que tantas dores de cabeça e tantos animaizinhos de caramelo tinha custado, estivesse predestinada a se converter numa lixeira de perdição. Lembrando-se destas coisas enquanto aprontavam o baú de José Arcadio, Úrsula se perguntava se não era preferível se deitar logo de uma vez na sepultura e lhe jogarem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantas penas e mortificações; e perguntando e perguntando ia atiçando a sua própria perturbação e sentia desejos irreprimíveis de se soltar e não ter papas na língua como um forasteiro e de se permitir afinal um instante de rebeldia, o instante tantas vezes desejado e tantas vezes adiado, para cortar a resignação pela raiz e cagar de uma vez para tudo e tirar do coração os infinitos montes de palavrões que tivera que engolir durante um século inteiro de conformismo. 

— Porra! — gritou.

Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião. 

— Onde está? — perguntou alarmada.

— O quê? 

— O animal! — esclareceu Amaranta. 

Úrsula pôs o dedo no coração. 

— Aqui — disse. 

continua página 157...
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Cem Anos de Solidão (11.1) - No aturdimento dos últimos anos