segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Sarau... Cuento Sin Moraleja (Julio Cortázar)

Cuento Sin Moraleja




um homem vendia gritos e palavras, e ele estava indo bem, apesar de encontrar muitas pessoas que discutiam preços e solicitavam descontos

os generais cercaram o tirano para pedir que ele matasse imediatamente o homem

os gritos ecoavam de tempos em tempos nas esquinas


Julio Cortázar:
Textos na sua voz 
- Conto Sem Moral










Un hombre vendía gritos y palabras, y le iba bien, aunque encontraba mucha gente que discutía los precios y solicitaba descuentos. El hombre accedía casi siempre, y así pudo vender muchos gritos de vendedores callejeros, algunos suspiros que le compraban señoras rentistas, y palabras para consignas, esloganes, membretes y falsas ocurrencias.

Por fin el hombre supo que habia llegado la hora y pidió audiencia al tiranuelo del pais, que se parecía a todos sus colegas y lo recibió rodeado de generales, secretarios y tazas de café.

-Vengo a venderle sus últimas palabras -dijo el hombre-. Son muy importantes porque a usted nunca le van a salir bien en el momento, y en cambio le conviene decirlas en el duro trance para configurar facilmente un destino histórico retrospectivo.


-Traducí lo que dice- mando el tiranuelo a su interprete.

-Habla en argentino, Excelencia.

-¿En argentino? ¿Y por qué no entiendo nada?

-Usted ha entendido muy bien -dijo el hombre-.

Repito que vengo a venderle sus últimas palabras.

El tiranuelo se puso en pie como es de práctica en estas circunstancias, y reprimiendo un temblor, mandó que arrestaran al hombre y lo metieran en los calabozos especiales que siempre existen en esos ambientes gubernativos.

-Es lástima- dijo el hombre mientras se lo llevaban-. En realidad usted querrá decir sus últimas palabras cuando llegue el momento, y necesitará decirlas para configurar fácilmente un destino histórico retrospectivo. Lo que yo iba a venderle es lo que usted querrá decir, de modo que no hay engaño. Pero como no acepta el negocio, como no va a aprender por adelantado esas palabras, cuando llegue el momento en que quieran brotas por primera vez y naturalmente, usted no podra decirlas.

-¿Por qué no podré decirlas, si son las que he de querer decir? -pregunto el tiranuelo ya frente a otra taza de café.

-Porque el miedo no lo dejará -dijo tristemente el hombre-. Como estará con una soga al cuello, en camisa y temblando de frio, los dientes se le entrechocaran y no podrá articular palabra. El verdugo y los asistentes, entre los cuales habrá alguno de estos señores, esperarán por decoro un par de minutos, pero cuando de su boca brote solamente un gemido entrecortado por hipos y súplicas de perdón (porque eso si lo articulará sin esfuerzo) se impacientarán y lo ahorcarán.

Muy indignados, los asistentes y en especial los generales, rodearon al tiranuelo para pedirle que hiciera fusilar inmediatamente al hombre. Pero el tiranuelo, que estaba-pálido-como-la-muerte, los echó a empellones y se encerró con el hombre, para comprar sus últimas palabras.

Entretanto, los generales y secretarios, humilladísimos por el trato recibido, prepararon un levantamiento y a la mañana siguiente prendieron al tiranuelo mientras comía uvas en su glorieta preferida. Para que no pudiera decir sus últimas palabras lo mataron en el acto pegandole un tiro. Después se pusieron a buscar al hombre, que había desaparecido de la casa de gobierno, y no tardaron en encontrarlo, pues se paseaba por el mercado vendiendo pregones a los saltimbanquis. Metiéndolo en un coche celular, lo llevaron a la fortaleza, y lo torturaron para que revelase cuales hubieran podido ser las últimas palabras del tiranuelo. Como no pudieron arrancarle la confesión, lo mataron a puntapiés.

Los vendedores callejeros que le habían comprado gritos siguieron gritándolos en las esquinas, y uno de esos gritos sirvió más adelante como santo y seña de la contrarrevolución que acabó con los generales y los secretarios. Algunos, antes de morir, pensaron confusamente que todo aquello había sido una torpe cadena de confusiones y que las palabras y los gritos eran cosa que en rigor pueden venderse pero no comprarse, aunque parezca absurdo.

Y se fueron pudriendo todos, el tiranuelo, el hombre y los generales y secretarios, pero los gritos resonaban de cuando en cuando en las esquinas.






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Dom Casmurro: O Retrato

Machado de Assis

Dom Casmurro






Capítulo LXXXIII

O Retrato







Gurgel tornou à sala e disse a Capitu que a filha chamava por ela. Eu levantei-me depressa e não achei compostura; metia os olhos pelas cadeiras. Ao contrário, Capitu ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe se a febre aumentara.
– Não, disse ele.

Nem sobressalto nem nada, nenhum ar de mistério da parte de Capitu; voltou-se para mim, e disse-me que levasse lembranças a minha mãe e a prima Justina, e que até breve; estendeu-me a mão e enfiou pelo corredor. Todas as minhas invejas foram com ela. Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não?

– Está uma moça, observou Gurgel olhando também para ela.

Murmurei que sim. Na verdade, Capitu ia crescendo às carreiras, as formas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade; moralmente, a mesma coisa. Era mulher por dentro e por fora, mulher à direita e à esquerda, mulher por todos os lados, e desde os pés até a cabeça. Esse arvorecer era mais apressado, agora que eu a via de dias a dias; de cada vez que vinha a casa achava-a mais alta e mais cheia; os olhos pareciam ter outra reflexão, e a boca outro império. Gurgel, voltando-se para a parede da sala, onde pendia um retrato de moça, perguntou-me se Capitu era parecida com o retrato.

Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor, desde que a matéria não me agrava, aborrece ou impõe. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato, fui respondendo que sim. Então ele disse que era o retrato da mulher dele, e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa. Também achava que as feições eram semelhantes, a testa principalmente e os olhos. Quanto ao gênio, era um; pareciam irmãs.

– Finalmente, até a amizade que ela tem a Sanchinha; a mãe não era mais amiga dela... Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas.





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Texto de referência:

Obras Completas de Machado de Assis, vol. I,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente pela Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1899.

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Memórias Póstumas de Brás Cubas: A reconciliação

Machado de Assis





CAPÍTULO LXXXI / A reconciliação







Contudo, ao sair de lá, tive umas sombras de dúvida; cogitei se não ia expor insanamente a reputação de Virgília, se não haveria outro meio razoável de combinar o Estado e a Gamboa. Não achei nada. No dia seguinte, ao levantar-me da cama, trazia o espírito feito e resoluto a aceitar a nomeação. Ao meio-dia, veio o criado dizer-me que estava na sala uma senhora, coberta com um véu. Corro; era minha irmã Sabina.

— Isto não pode continuar assim, disse ela; é preciso que, de uma vez por todas, façamos as pazes. Nossa família está acabando; não havemos de ficar como dois inimigos.

— Mas se eu não te peço outra coisa, mana! bradei eu estendendo-lhe os braços.

Sentei-a ao pé de mim, e falei-lhe do marido, da filha, dos negócios, de tudo. Tudo ia bem; a filha estava linda como os amores. O marido viria mostrar-ma, se eu consentisse.

— Ora essa! irei eu mesmo vê-la.

— Sim?

— Palavra.

— Tanto melhor! respirou Sabina. É tempo de acabar com isto.

Achei-a mais gorda, e talvez mais moça. Parecia ter vinte anos, e contava mais de trinta. Graciosa, afável, nenhum acanhamento, nenhum ressentimento. Olhávamos um para o outro, com as mãos seguras, falando de tudo e de nada, como dois namorados. Era a minha infância que ressurgia, fresca, travessa e loura; os anos iam caindo como as fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que eu brincava em pequeno, e deixavam-me ver a nossa casa, a nossa família, as nossas festas. Suportei a recordação com algum esforço; mas um barbeiro da vizinhança lembrou-se de zangarrear na clássica rabeca, e essa voz — porque até então a recordação era muda, — essa voz do passado, fanhosa e saudosa, a tal ponto me comoveu, que...

Os olhos dela estavam secos. Sabina não herdara a flor amarela e mórbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha mãe, e eu disse-lho com ternura,com sinceridade... Súbito, ouço bater à porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco anos.

— Entra, Sara, disse Sabina.

Era minha sobrinha. Apanhei-a do chão, beijei-a muitas vezes; a pequena, espantada, empurrava-me o ombro com a mãozinha, quebrando o corpo para descer... Nisto, aparece-me à porta um chapéu, e logo um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu estava tão comovido, que deixei a filha e lancei-me aos braços do pai. Talvez essa efusão o desconcertou um pouco; é certo que me pareceu acanhado. Simples prólogo. Daí a pouco falávamos como bons amigos velhos. Nenhuma alusão ao passado, muitos planos de futuro, promessa de jantarmos em casa um do outro. E não deixei de dizer que essa troca de jantares podia ser que tivesse uma curta interrupção, porque eu andava com idéias de uma viagem ao Norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para Sabina; ambos concordaram que essas idéias não tinham senso comum. Que diacho podia eu achar no Norte? Pois não era na corte, em plena corte, que devia continuar a luzir, a meter num chinelo os rapazes do tempo? Que, na verdade, nenhum havia que se me comparasse; ele, Cotrim, acompanhava-me de longe, e, não obstante uma briga ridícula, teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus triunfos. Ouvia o que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de louvores e admirações. E deixa-se isso para ir passar alguns meses na província, sem necessidade, sem motivo sério? A menos que não fosse política...

— Justamente política, disse eu.

— Nem assim, replicou ele daí a um instante. — E depois de outro silêncio: — Seja como for, venha jantar hoje conosco.

— Certamente que vou; mas, amanhã ou depois, hão de vir jantar comigo.

— Não sei, não sei, objetou Sabina; casa de homem solteiro... Você precisa casar, mano. Também eu quero uma sobrinha, ouviu?

Cotrim reprimiu-a com um gesto, que não entendi bem. Não importa; a reconciliação de uma família vale bem um gesto enigmático.






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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

parábolas de uma professora: o futuro não é eterno

parábolas de uma professora


o futuro não é eterno
Ensaio 011A – 3ª.ed



baitasar e paulus e marko e kamilá




a pedagogia é – ou poderia ser – a integração articulada das ações e reflexões do ensino com a educação e o cotidiano escolar, mas como não sucumbir ao terrorismo do mercado egocêntrico, imobilista, egoísta e individualista, como não murchar à concepção bancária querendo que todos e todas sejam como esse mercado egoísta do macho competitivo e hétero que nos diz o que fazer, como ser, o que rezar ou orar, e pasmem!, querem nos ensinar a blasfemar!

fazem uma guerra-contínua de impor a própria vontade e os próprios costumes, uma guerra de pessoas contra pessoas que todas sabemos existir

e convenientemente fechamos os olhos à intolerância excludente que o terrorismo do mercado provoca, desintegrando a educação pública pelo êxodo, num cotidiano de sístoles e diástoles que parece nos encaminhar em câmara lenta para um inevitável estado de sítio de boatos alarmantes, fantasias, mentiras e grosserias?

seria a pedagogia das pessoas levianas uma ditadura do lucro? seria uma técnica de controle da educação e das suas inevitáveis consequências?

aqui estou, nenhuma paz e sendo tolerante comigo mesma – às vezes, não faço a menor ideia do que estou fazendo comigo e com nossos alunos e alunas – e também com aquelas que poderão ser essas alunas e alunos 

com o passar dos anos a educação pública passou por ciclos de melhora e que parecem desaparecer nas cinzas das alegorias de mamadeiras de piroca, mentem e difamam a educação pública, as  pessoas sabem que não estão felizes dentro destas e tantas outras mentiras, mas acordam pensando que serão louvadas sendo mais egoístas e intolerantes do que já somos

se você é apaixonada pela educação pública pode não saber ao certo com quais instrumentos deseja começar, mas sabe que você e nossos alunos e nossas alunas já possuem voz, olhos, mãos e pernas com histórias para contar

então, o encontro ou reencontro com a educação que você procura poderia começar com a reconstrução destas histórias invisíveis – nossas histórias invisíveis – pelo reconhecimento da escutação que se sabe junto expressando os sentimentos e a alegria das palavras do cotidiano

falar e ser escutado, ouvir escutando é a dignidade que educa o respeito àquela que escreve pelo ato de escrever, é o carinho solene daquele que lê pela sede de ser mais

poderíamos continuar pela coordenação motora que se percebe e descobre o mundo, prosseguir pela memorização da vida que segue aprendendo coisas novas e se educa na vida com todas as vidas, aceita que sozinha a vida também faz sentido, talvez possa ser menos divertida, mas não é menos vida

e principalmente precisamos da construção da vida na vida sem ameaças autoritárias, se você é uma professora apaixonada pela vida – e pela educação pública – deveria conciliar, jamais aterrorizar as vidas que educamos

a educação pública não deveria ser a ditadura do ensino que luta com unhas e dentes para não educar, não deveria se intimidar com o mercado global que exige o acúmulo do gado barato e disponível para todos os setores da economia de mercado

As duas têm razão, uma banalidade que não fazemos não é modernidade. A inovação ou renovação – poderíamos discutir as duas – seria escutar o aluno, a aluna, indo além de segurar sua mão...

nestes dias sombrios em que vivemos, amar e lutar pela educação pública é um ato revolucionário com a tarefa mágica de educar com amorosidade, o compromisso radical de humanizar o conhecimento, o desafio de sonhar com entusiasmo, a esperança de recolorir com alegria o cinza chumbo da intolerância, é revolucionário se colocar no lugar não privilegiado dos nossos alunos e alunas

o que é a educação pública? é ser uma vendeira de flores na luta permanente para desconstruir a cultura da intolerância, exclusão –violência que não cai do céu nem surge do inferno, está em nossas raízes, as tradições do passado que seguem avançando infelizes –misógina, homofóbica, racista

chega, anita... chega

a garrafa térmica com a água morna continua no chão, espera a cuia do chimarrão que sai de mão em mão se derramando e retorna roncando

chega, escolho continuar em meus silêncios, ecoando para mim mesma que não quero atrapalhar com meu discurso panfletário comunistinha

no fim do dia, às vezes, acho besteira tomar água morna até a cuia roncar toda babada e o mate ficar lavado, preciso repensar o chimarrão e o cigarro, é foda! dois prazeres enraizados, aprendi de pequena assim, cigarro e café pretinho, chimarrão, pipoca e uma boa conversa, não sei se quero parar, não sei se consigo, sempre foi assim, mesmo depois da sentença da cardiologista, Você é hipertensa e com a artéria aorta dilatada, a minha imbecilidade não queria perguntar nem continuar aquela conversa, mas o bom-senso me traiu, E o que significa isso, doutora, perguntei porque me é impossível desamar da vida, Depende dos sintomas que você apresenta, do grau de dilatação e da velocidade da progressão, eu estava num mundo desconhecido, explicações que pareciam notícias sem nenhum sentido ou mesmo impossíveis para os meus desejos sem voz, fiquei assustada, O que pode acontecer comigo, era isso que eu queria saber sem rodeios ou floreios, A dissecção aórtica, Meu Deus, doutora! O que é isso, sentia o aperto de quem não estava fazendo o que devia, uma vontade louca de sair da sala de aula, ir ao banheiro, caminhar, ver gente, Ela se rompe e o sangue vaza, E não dá para remendar, No seu caso não é um aneurisma clássico, Clássico?! O meu caso não é um Mozart, Beethoven, Bach, mas um funk da pesada, é isso, né, Não sei, não escuto esse funk, Dá para explicar melhor, doutora, Calma, eu vou explicar, Estou escutando, doutora. Sou toda atenção e tensão, A senhora não tem um balãozinho na aorta, esse seria um aneurisma clássico. No seu caso, a dilatação da aorta aconteceu na raiz, junto ao coração, E tem cura, Não, Que bom, Mas tem tratamento para diminuírem os riscos de uma ruptura, A dilatação pode diminuir, é isso, Não. Mas podemos diminuir seus fatores de risco, Está bem, eu vou perguntar, Pergunte, Quais são esse fatores de risco, Eles incluem a idade, e a senhora não se encaixa, ainda, E qual seria essa idade, doutora, Acima de 60 anos, Sério? Que merda! Está mais perto de acontecer essa dissecção aórtica do que me aposentar. O que essa gente desmiolada foi me arrumar. Mas no caso dos meus colegas está mais complicado, muitos não vão se aposentar antes da aorta se romper em sala de aula, no escritório, na oficina, dirigindo táxi ou alguns dos aplicativos de smartphone. Parabéns aos envolvidos, Existe outro fator de risco em que a senhora não se encaixa, E qual seria, Ser do sexo masculino, A homarada está fodida, morrem antes de se aposentarem, Realmente, estão correndo mais riscos, E o que está pegando comigo, doutora, O tabagismo, colesterol alto, taxa altíssima de açúcar, hipertensão, Tá bem, tá bem, doutora. Entendi, Eu posso lhe ajudar no controle da hipertensão com medicação específica, mas abandonar em definitivo o tabagismo, as frituras, os refrigerantes e o álcool são passos que não podem ser adiados, A doutora está de brincadeira, Não, é sério. E muito grave!

outras vezes, penso que tudo isso é besteira e inútil, eu poderia e deveria contribuir para denunciar os urubus marchadores, mas precisaria da armadura e da cavalaria de seu jorge

essa gente que louva controlar tudo nos impede os caminhos próprios e produz tensões políticas-sociais para consolidar seu poder, é gente que atrapalha, dificulta e frusta o crescimento acelerado da educação pública, é o seu jeito estúpido de estagnar e diminuir – nessa sequência sórdida – as vidas na escola pública, fazendo-nos sentir pior do que nunca

a educação pública fica para depois, o futuro parece eterno

reconheço a minha preguiça reativa, ela me faz cada dia menos mística e alegórica, desacreditando da felicidade, da salvação, da paciência e da vida, não faço mais bolos de chocolate e não me esqueço que você já foi meu um dia, até que o grito sai da garganta do vulcão, Foda-se esse mundo de mentiras!, ainda existe saudade em mim, Deixa em ti amar!

escolho as minhas contradições às verdades eternas, prefiro a audácia da dúvida ao entrave das certezas que me repetem até a exaustão, mulheres e homens que reproduzem verdades de merda, seguem o sofrimento do homem na cruz e aceitam a morte, a violência, como solução possível para tudo que está fora do eixo das verdades imutáveis e perpétuas do macho cis hétero, branco e olhos azuis

não me encaixo na doutrina da resignação, não me ajusto neste tempo sem coração e sem perdão que não se pensa adiante dele, entregue ao hábito do hálito do medo com a decepção no olhar cada dia mais triste, como se isso fosse viver – chorando, adorando, louvando – sem o atrevimento da professora que planeja e educa com amorosidade o conhecimento, ilumina a escuridão e trás o perdão

escolho me colocar outras questões além daquelas que o poder me coloca – incluo aqui todo e qualquer poder: político, econômico, midiático e religioso – para lembrar do passado que o futuro não é eterno, assim vou reagindo ao presente, é uma tarefa difícil compreender a nossa existência contemporânea

eu sei, eu não sei

estamos pequeninos grãos de areia enquanto encerradas em mentiras de céu e inferno, fraude que se tornou impensável desmentir

... brincadeira ou não, espero que não tenha sido uma brincadeira, dialogar com os alunos e alunas sobre o que aprender, sobre o que precisamos ensinar, isso é modernidade, isso é educar, isso é revolucionário!

o marko se impõe além dos gestos exatos e contidos, sem exageros, a voz perfeitamente modulada, cordial, nenhuma vaidade, tem um tipo esbelto, cabelos curtos, óculos sobre o nariz, estatura mediana e um discreto sorriso bondoso, a energia da vida está mergulhada em seus sonhos que incendeiam e iluminam à sua volta

sinto que terei saudades do tempo em que conversamos sobre essa confusão maravilhosa que é viver na escola






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Pedagogia do Oprimido - Ninguém Educa Ninguém (4)

Paulo Freire






“educação como prática da liberdade”:

alfabetizar é conscientizar 



AOS ESFARRAPADOS DO MUNDO 
E AOS QUE NELES SE 
DESCOBREM E, ASSIM 
DESCOBRINDO-SE, COM ELES 
SOFREM, MAS, SOBRETUDO, 
COM ELES LUTAM. 



2. A concepção «bancária» da educação como instrumento da opressão. Seus pressupostos, sua crítica



O Homem Como Um Ser Inconcluso,
Consciente de Sua Inconclusão, e Seu
Permanente Movimento de Busca 
do SER MAIS (4)





A concepção e a prática “bancárias”, imobilistas, “fixistas”, terminam por desconhecer os homens como seres históricos, enquanto a problematizadora parte exatamente do caráter histórico e da historicidade dos homens. Por isto mesmo é que os reconhece como seres que estão sendo, como seres inacabados, inconclusos, em e com uma realidade, que sendo histórica também, é igualmente inacabada. Na verdade, diferentemente dos outros animais, que são apenas inacabados, mas não são históricos, os homens se sabem inacabados. Têm a consciência de sua inconclusão. Aí se encontram as raízes da educação mesma, como manifestação exclusivamente humana. Isto é, na inconclusão dos homens e na consciência que dela têm. Daí que seja a educação um que-fazer permanente. Permanente, na razão da inconclusão dos homens e do devenir da realidade

Desta maneira, a educação se re-faz constantemente na práxis. Para ser tem que estar sendo.

Sua “duração” – no sentido bergsoniano do termo – como processo, está no jogo dos contrários permanência-mudança.

Enquanto a concepção “bancária” dá ênfase à permanência, a concepção problematizadora reforça a mudança.

Deste modo, a prática “bancária", implicando no imobilismo a que fizemos referência, se faz reacionária, enquanto a concepção problematizadora que, não aceitando um presente “bem comportado”, não aceita igualmente um futuro pré -dado, enraizando-se no presente dinâmico, se faz revolucionária.

A educação problematizadora, que não é fixismo reacionária, é futuridade revolucionária. Daí que seja profética e, como tal, esperançosa [1]. Daí que corresponda à condição dos homens como seres históricos e à sua historicidade. Daí que se identifique com eles como seres mais além de si mesmos – como “projetos” – como seres que caminham para frente, que olham para frente; como seres a quem o imobilismo ameaça de morte; para quem o olhar para traz não deve ser uma forma nostálgica de querer voltar, mas um modo de melhor conhecer o que está sendo, para melhor construir o futuro. Dai que se identifique com o movimento permanente em que se acham inscritos os homens, como seres que se sabem inconclusos; movimento que é histórico e que tem o seu ponto de partida, o seu sujeito, o seu objetivo.


[1] Em Ação Cultural para a libertação, discutimos mais amplamente este sentido profético e esperançoso da educação (ou aço cultural) problematizadora. Profetismo e esperança que resultam do caráter utópico de tal forma de aço, tomando- se a utopia como a unidade, inquebrantável entre a denúncia e o anúncio. Denúncia de uma realidade desumanizante e anúncio de uma realidade em qu e os homens possam ser mais. Anúncio e denúncia não são, porém, palavras vazias, mas compromisso histórico.


O ponto de partida deste movimento está nos homens mesmos. Mas, como não há homens sem mundo, sem realidade, o movimento parte das relações homens-mundo. Dai que este ponto de partida esteja sempre nos homens no seu aqui e no seu agora que constituem a situação em que se encontram ora imersos, ora emersos, ora insertados.

Somente a partir desta situação, que lhes determina a própria percepção que dela estão tendo, é que podem mover-se.

E, para fazê-lo, autenticamente, é necessário, inclusive, que a situação em que estão não lhes apareça
como algo fatal e intransponível, mas como uma situação desafiadora, que apenas os limita.


Enquanto a prática “bancária”, por tudo o que dela dissemos, enfatiza, direta ou indiretamente, a percepção fatalista que estejam tendo os homens de sua situação, a prática problematizadora, ao contrário, propõe aos homens sua situação como problema. Propõe a eles sua situação como incidência de seu ato cognoscente, através do qual será possível a superação da percepção mágica ou ingênua que dela tenham. A percepção ingênua ou mágica da realidade da qual resultava a postura fatalista cede seu lugar a uma percepção que é capaz de perceber- se. E porque é capaz de perceber-se enquanto percebe a realidade que lhe parecia em si inexorável, é capaz de objetivá-la.

Desta forma, aprofundando a tomada de consciência da situação, os homens se “apropriam” dela como realidade histórica, por isto mesmo, capaz de ser trans-formada por eles.

O fatalismo cede, então, seu luga r ao ímpeto de transformação e de busca, de que os homens se sentem sujeitos.

Seria, realmente, uma violência, como de fato é, que os homens, seres históricos e necessariamente inseridos num movimento de busca, com outros homens, não fossem o sujeito de seu próprio movimento.

Por isto mesmo é que, qualquer que seja a situação em que alguns homens proíbam aos outros que sejam sujeitos de sua busca, se instaura como situação violenta. Não importa os meios usados para esta proibição. Fazê-los objetos é aliená- los de suas decisões, que são transferidas a outro ou a outros.

Este movimento de busca, porém, só se justifica na medida em que se dirige ao ser mais, à humanização dos homens. E esta, como afirmamos no primeiro capítulo, é sua vocação histórica, contraditada pela desumanização que, não sendo vocação, é viabilidade, constatável na história. E, enquanto viabilidade, deve aparecer aos homens como desafio e não como freio ao ato de buscar.

Esta busca do ser mais, porém, não pode realizar-se ao isolamento, no individualismo, mas na comunhão, na solidariedade dos existires, daí que seja impossível dar-se nas relações antagônicas entre opressores e oprimidos.

Ninguém pode ser, autenticamente, proibido que os outros sejam. Esta é uma exigência radical. O ser mais que se busque no individualismo conduz ao ter mais egoísta, forma de ser menos. De desumanização. Não que não seja fundamental – repitamos – ter para ser. Precisamente porque é, não pode o ter de alguns converter- se na obstaculização ao ter dos demais, robustecendo o poder dos primeiros, com o qual esmagam os segundos, na sua escassez de poder.

Para a prática "bancária”, o fundamental é, no máximo, amenizar esta situação, mantendo, porém, as consciências imersas nela. Para a educação problematizadora, enquanto um quefazer humanista e libertador, o importante está, em que os homens submetidos à dominação, lutem por sua emancipação.

Por isto é que esta educação, em que educadores e educandos se fazem sujeitos do seu processo, superando o intelectualismo alienante, superando o autoritarismo do educador “bancário”, supera também a falsa consciência do mundo.

O mundo, agora, já não é algo sare que se fala com falsas palavras, mas o mediatizador dos sujeitos da educação, a incidência da aço transformadora dos homens, de que resulte a sua humanização.

Esta é a razão por que a concepção problematizadora da educação não pode servir ao opressor.

Nenhuma “ordem” opressora suportaria que os oprimidos todos passassem a dizer: “Por quê?”

Se esta educação somente pode ser realizada, em termos sistemáticos, pela sociedade que fez a revolução, isto não significa que a liderança revolucionária espere a chegada ao poder para aplicá-la.

No processo revolucionário, a liderança não pode ser “bancária”, para depois deixa r de sê-lo [2].


[2] No Capítulo IV analisamos detidamente este aspecto, ao discutirmos as teorias antidialógica e dialógica da aço.




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PAULO FREIRE

PEDAGOGIA DO OPRIMIDO

23ª Reimpressão

PAZ E TERRA


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Pedagogia do Oprimido - A Contradição Opressores-Oprimidos. Sua Superação (3)
Pedagogia do Oprimido - A Situação concreta de Opressão e os Opressores (4)
Pedagogia do Oprimido - A Situação concreta de Opressão e os Oprimidos (5)
Pedagogia do Oprimido - Ninguém Liberta Ninguém, Ninguém se Liberta Sozinho (6)
Pedagogia do Oprimido - 2. A concepção «bancária» da educação como instrumento da opressão.
Pedagogia do Oprimido -  A Contradição Problematizadora e Libertadora da Educação. Seus Pressupostos (1)
Pedagogia do Oprimido -  A Contradição Problematizadora e Libertadora da Educação. Seus Pressupostos (2)
Pedagogia do Oprimido -  Ninguém Educa Ninguém (3)
Pedagogia do Oprimido -  3. A dialogicidade...

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© Paulo Freire, 1970
Capa
Isabel Carballo
Revisão
Maria Luiza Simões e Jonas Pereira dos Santos
(Preparação pelo Centro de Catalogação -na-fonte do
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ)


Freire, Paulo
F934p Pedagogia do oprimido, 17ª. ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987
(O mundo, hoje, v.21)


1. Alfabetizaço – Métodos 2. Alfabetizaço – Teoria I. Título II. Série
CDD-374.012
-371.332
77-0064 CDD-371.3:376.76

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(licenciado)
1994

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Educação como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967; e Pedagogia do Oprimido