sábado, 7 de fevereiro de 2026

Espumas Flutuantes - O “Adeus” de Teresa

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

O “ADEUS” DE TERESA   

A vez primeira que eu fitei Teresa, 
 Como as plantas que arrasta a correnteza, 
 A valsa nos levou nos giros seus... 
 E amamos juntos... E depois na sala 
 “Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala...  

E ela, corando, murmurou-me: “adeus”.

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro... 
 E da alcova saía um cavaleiro 
 Inda beijando uma mulher sem véus... 
 Era eu... Era a pálida Teresa! 
 “Adeus” lhe disse conservando-a presa...  

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus:”

Passaram tempos... sec’los de delírio 
 Prazeres divinais... gozos do Empíreo... 
 ... Mas um dia volvi aos lares meus. 
 Partindo eu disse — “Voltarei!... descansa!...” 
 Ela, chorando mais que uma criança, 

Ela em soluços murmurou-me: “adeus:”

Quando voltei... era o palácio em festa!... 
 E a voz d'Ela e de um homem lá na orquestra 
 Preenchiam de amor o azul dos céus. 
 Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa! 
 Foi a última vez que eu vi Teresa!...  

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

São Paulo, 28 de agosto de 1868  


A VOLTA DA PRIMAVERA
Aime, et tu renaîtras; fais-toi fleur pour éclore. 
 Après avoir souffert, il faut souffrir encore. 
 Il faut aimer sans cesse, après avoir aimé.  
Alfred de Musset

Ai não maldigas minha fronte pálida,
E o peito gasto ao referver de amores. 
 Vegetam louros — na caveira esquálida 
 E a sepultura se reveste em flores. 

Bem sei que um dia o vendaval da sorte 
 Do mar lançou-me na gelada areia. 
 Serei... que importa? o D. Juan da morte 
 Dá-me o teu seio — e tu serás Haidéia!

Pousa esta mão — nos meus cabelos úmidos!... 
 Ensina à brisa ondulações suaves! 
 Dá-me um abrigo nos teus seios túmidos! 
 Fala!... que eu ouço o pipilar das aves! 

Já viste às vezes, quando o sol de Maio 
 Inunda o vale, o matagal e a veiga? 
 Murmura a relva: “Que suave raio.” 
 Responde o ramo: “Como a luz é meiga!”

E, ao doce influxo do clarão do dia, 
 O junco exausto, que cedera à enchente, 
 Levanta a fronte da lagoa fria... 
 Mergulha a fronte na lagoa ardente... 

Se a natureza apaixonada acorda 
 Ao quente afago do celeste amante, 
 Diz!... Quando em fogo o teu olhar transborda, 
 Não vês minh’alma reviver ovante?

É que teu riso me penetra n’alma — 
 Como a harmonia de uma orquestra santa — 
 É que teu riso tanta dor acalma... 
 Tanta descrença!... Tanta angústia!... Tanta! 

Que eu digo ao ver tua celeste fronte: 
 “O céu consola toda dor que existe. 
 “Deus fez a neve — para o negro monte! 
 “Deus fez a virgem — para o bardo triste!” 
 
Rio de Janeiro, junho de 1869  
 
continua pag 24...
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O “Adeus” de Teresa /  
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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