Hannah Arendt
Parte III
TOTALITARISMO
Os homens normais não sabem que tudo é possível.
David Rousset
3.2 - A Polícia Secreta
Contudo, essas irregularidades financeiras são os únicos — e não muito importantes —
vestígios da tradição da polícia secreta, e foram possíveis devido ao desprezo geral dos regimes
totalitários pelos assuntos econômicos e financeiros. Assim, certos métodos que seriam ilegais
em condições normais e caracterizariam a diferença entre a polícia secreta e outros
departamentos mais respeitáveis da administração não significam que estejamos lidando com
um departamento independente, fora do controle de outras autoridades, vivendo numa atmosfera
de irregularidade, irrespeitabilidade e insegurança. Pelo contrário, a posição da polícia secreta
estabiliza-se completamente no regime totalitário, e os seus serviços são inteiramente integrados
na administração. A organização não só não está fora do âmbito da lei, mas ela é a própria
encarnação da lei e a sua respeitabilidade está acima de qualquer suspeita. Já não organiza
homicídios por conta própria, já não provoca ofensas contra o Estado e a sociedade e age
severamente contra toda forma de suborno, chantagem ou lucros financeiros irregulares. A lição
de moral, aliada a ameaças bem claras, que Himmler se permitiu transmitir aos seus homens em
plena guerra — "Tínhamos o direito moral (...) de exterminar esse povo [judeu] que nos queria
liquidar, mas não temos o direito de enriquecer seja de que modo for, com um casaco de peles,
um relógio, um único marco, ou um cigarro"[109] — soa como algo que procuraríamos em vão nos
anais da polícia secreta. Se ela ainda se preocupa com "pensamentos perigosos", os suspeitos
não sabem quais são esses pensamentos; a arregimentação de toda a vida intelectual e artística
exige uma constante recriação e revisão de critérios, naturalmente acompanhada de repetidas eliminações de intelectuais, cujos "pensamentos perigosos" muitas vezes não passam de
ideias que ainda ontem eram perfeitamente ortodoxas. Portanto, enquanto a sua função policial,
na acepção comum do termo, se tornou supérflua, a função econômica da polícia secreta, que às
vezes se julga haver substituído a primeira, é ainda mais dúbia. A NKVD reúne periodicamente
uma porcentagem da população soviética e despacha-a para campos que são conhecidos pela
denominação errônea e lisonjeira de campos de trabalho forçado, [110] cuja produção é
infinitamente menor que a do trabalho comum na Rússia e mal chega a cobrir as despesas com o
aparato policial.
Nem dúbia nem supérflua é a função política da polícia secreta, o "mais bem organizado e mais
eficiente" dos departamentos do governo,[111] no sistema de poder do regime totalitário. É ela o
verdadeiro ramo executivo do governo, através do qual todas as ordens são transmitidas.
Através da rede de agentes secretos, o governante totalitário cria uma correia transmissora
diretamente executiva que, em contraposição com a estrutura de camadas superpostas da
hierarquia ostensiva, é completamente separada e isolada de todas as outras instituições.[112] Nesse sentida, os agentes da polícia secreta são a classe francamente governante nos países
totalitários, e as suas normas e escala de valores permeiam toda a textura da sociedade
totalitária.
Assim, não é muito surpreendente o fato de que certas qualidades peculiares da polícia secreta
correspondem às qualidades gerais da sociedade totalitária, sem serem idiossincrasias peculiares da polícia secreta totalitária. Nas condições do
regime totalitário, a categoria dos suspeitos compreende toda a população; todo pensamento que
se desvia da linha oficialmente prescrita e permanentemente mutável já é suspeito, não importa
o campo de atividade humana em que ocorra. Simplesmente em virtude da sua capacidade de
pensar, os seres humanos são suspeitos por definição, e essa suspeita não pode ser evitada pela
conduta exemplar, pois a capacidade humana de pensar é também a capacidade de mudar de
ideia. Além disso, como é impossível conhecer, fora de qualquer dúvida, a mente de uma pessoa
— e a tortura, nesse contexto, é apenas a tentativa desesperada e fútil de tentar-se o que não se
pode conseguir —, a suspeita já não pode ser afastada quando não existe nem a comunhão de
valores nem a previsibilidade do interesse pessoal como realidades sociais (em contraste com as
realidades meramente psicológicas). A suspeita mútua, portanto, impregna todas as relações
sociais nos países totalitários e cria uma atmosfera geral mesmo fora do campo de ação especial
da polícia secreta.
Nos regimes totalitários, a provocação, que antes era apenas a especialidade do agente secreto,
torna-se um método de lidar com os vizinhos que é forçosamente seguido por todos, quer
queiram, quer não. Todo mundo, de certa forma, é o agent provocateur de todo mundo; pois é
claro que cada um se arrogará em agent provocateur se jamais uma troca comum e amistosa de
"pensamentos perigosos" (ou daquilo que, nesse meio tempo, viesse a se tornar pensamento
perigoso) chegar ao conhecimento das autoridades. A colaboração da população na denúncia de
oponentes políticos e no serviço voluntário da delação certamente não é algo sem precedentes
mas, nos países totalitários, é tão bem organizada que torna quase supérfluo o trabalho de
especialistas. Num sistema de espionagem ubíqua, onde todos podem ser agentes policiais e
onde cada indivíduo se sente sob constante vigilância; e, além disso, em circunstâncias nas quais
as carreiras pessoais são extremamente inseguras e onde as mais espetaculares ascensões e
quedas são ocorrências de todos os dias, cada palavra se torna equívoca e sujeita a
"interpretações" retrospectivas.
O exemplo mais gritante de como os métodos e critérios da polícia secreta impregnam a
sociedade totalitária é a questão da carreira pessoal. O agente duplo dos regimes não-totalitários
servia à causa que de fato combatia quase tanto quanto as autoridades, e às vezes mais do que
elas. Nutria muitas vezes uma espécie de dupla ambição; subir nos escalões dos partidos
revolucionários tanto quanto nos escalões dos serviços secretos. Para conquistar a promoção em
ambos os campos, bastava que adotasse certos expedientes que, numa sociedade normal, só
existem nos sonhos secretos do pequeno funcionário que depende da antiguidade para ser
promovido: através das suas conexões com a polícia, (podia sem dúvida eliminar do partido os
rivais e os superiores e, por meio de suas conexões com os revolucionários, tinha pelo menos
uma chance de se descartar do seu chefe na polícia.[113] Se considerarmos as condições da atual sociedade russa, veremos que a semelhança com esses métodos é surpreendente. Não apenas
quase todos os oficiais superiores devem a sua posição a expurgos que removeram os seus
predecessores, mas a promoção em todos os campos é acelerada dessa forma. Periodicamente,
um expurgo de dimensões nacionais abre o caminho para a nova geração, recém-formada e com
fome de empregos. O próprio governo criou as condições para o progresso que o agente policial
do passado teve de inventar sozinho.
Esse rodízio regular e violento de toda a gigantesca máquina administrativa, embora evite que a
competência se desenvolva, tem muitas vantagens: assegura a relativa juventude dos oficiais e
impede uma estabilização de condições que, pelo menos em tempos de paz, é cheia de perigos
para o governo totalitário. Eliminando a antiguidade e o mérito, o governo impede que nasçam
as lealdades que geralmente ligam os membros mais jovens da equipe aos mais antigos, de cuja
opinião e boa vontade depende o seu progresso; elimina de uma vez por todas os perigos do
desemprego e assegura a todos uma ocupação compatível com a sua educação. Assim, em 1939,
depois de terminado o gigantesco expurgo na União Soviética, Stálin podia observar, com
grande satisfação, que "o Partido pôde promover para posições de comando nos negócios do
Estado ou do Partido mais de 500 mil jovens bolchevistas".[114] A humilhação implícita no fato de
dever o emprego à injusta eliminação do predecessor tem o mesmo efeito desmoralizante que a
eliminação dos judeus teve nas profissões alemãs: cada pessoa que tenha uma ocupação se torna
cúmplice consciente dos crimes do governo e seu beneficiário, voluntário ou não, com o
resultado de que, quanto mais sensível for o indivíduo, mais ardentemente defenderá o regime.
Em outras palavras, esse sistema é o resultado lógico do princípio do Líder em suas mais amplas
implicações, e a melhor garantia de lealdade, pois torna cada geração dependente, para viver,
daquela linha política do Líder que tenha originado o expurgo criador de empregos. Além disso,
promove a identidade dos interesses públicos e privados, da qual os defensores da União
Soviética tanto se orgulhavam (ou, na versão nazista, a abolição da esfera da vida privada), pois
todo indivíduo de alguma importância deve toda a sua existência ao interesse político do
regime; e, quando essa identidade factual se rompe e o próximo expurgo o elimina do cargo, o
regime cuida para que ele desapareça do mundo dos vivos. De modo não muito diferente, o
agente duplo identificava-se com a causa da revolução (sem a qual perderia o emprego) e não
apenas com a polícia secreta; também no seu caso, uma ascensão espetacular só poderia
terminar em morte anônima, pois era muito difícil que o duplo jogo durasse para sempre. O
governo totalitário, ao estabelecer para todas as carreiras aquelas condições de promoção que
antes só haviam prevalecido entre párias sociais, conseguiu levar a cabo uma das mudanças de
maior alcance na psicologia social. A psicologia do agente duplo, que estava disposto a pagar o
preço de uma vida curta pela nobre existência de alguns anos no topo, tornou-se, em questões
pessoais, a base do pensamento de toda a geração que se seguiu à revolução na Rússia, e em grau menor,
porém ainda mais perigoso, na Alemanha.
É nessa sociedade, impregnada pelas normas e vivendo pelos métodos que antes eram o
monopólio da polícia secreta, que funciona a polícia secreta totalitária. Somente nos estágios
iniciais, quando a luta pelo poder ainda está sendo travada, as suas vítimas são pessoas suspeitas
de oposição. Depois disso, ela mergulha em sua carreira totalitária com a perseguição dos
inimigos objetivos, que podem ser os judeus ou os poloneses (como no caso dos nazistas) ou os
chamados "contrarrevolucionários" — uma acusação que "na Rússia soviética (...) se faz (...)
antes que surja qualquer pergunta quanto [à] conduta [do acusado]" — ou pessoas que, em
algum momento da vida, tiveram uma loja ou casa, ou que "tinham pais ou avós que tinham
essas coisas",[115] ou que pertenceram a uma das forças de ocupação do Exército Vermelho, ou
eram de origem polonesa. Somente nesse último estágio inteiramente totalitário os conceitos de.
inimigo objetivo e do crime logicamente possível são abandonados; agora as vítimas são
escolhidas inteiramente ao acaso e, sem mesmo terem sido acusadas, são declaradas indignas de
viver. Essa nova categoria de "indesejáveis ' pode consistir, como no caso dos nazistas, em
doentes mentais ou portadores de moléstias do pulmão ou do coração, ou, na União Soviética,
naqueles que simplesmente foram incluídos naquela porcentagem, variável de uma província
para outra, cuja deportação foi decretada.
Essa consistente arbitrariedade nega a liberdade humana de modo muito mais eficaz que
qualquer tirania jamais foi capaz de negar. Numa tirania, era preciso ser pelo menos um inimigo
do regime para ser punido por ele. A liberdade de opinião ainda existia para aqueles que tinham
a coragem de arriscar o pescoço. Teoricamente, ainda se pode fazer oposição também nos
regimes totalitários; mas essa liberdade é quase anulada quando a prática de um ato voluntário
apenas acarreta uma "punição" que todos, de uma forma ou de outra, têm de sofrer. No
totalitarismo, a liberdade não apenas se reduz à sua última e aparentemente indestrutível
garantia, que é a possibilidade do suicídio, mas perde toda a importância porque as
consequências do seu exercício são compartilhadas por pessoas completamente inocentes. Se
Hitler tivesse tido tempo para pôr em prática o seu sonhado Projeto de Lei Geral da Saúde
Alemã, o homem que padecia de uma doença do pulmão teria sofrido o mesmo destino que, nos
primeiros anos do regime nazista, um comunista ou, nos últimos anos, um judeu. Do mesmo
modo, o oponente do regime na Rússia, que sofre o mesmo destino de milhões de pessoas
escolhidas para os campos de concentração a fim de completarem alguma cota, apenas alivia a
polícia do ônus da escolha arbitrária. O inocente e o culpado são igualmente indesejáveis.
A mudança do conceito de crime e de criminosos determina os métodos da polícia secreta
totalitária. Os criminosos são punidos, os indesejáveis desaparecem da face da Terra; o único vestígio que resta deles é a memória daqueles que os
conheceram e amaram, e uma das tarefas mais difíceis da polícia secreta é fazer com que até
esses vestígios desapareçam juntamente com o condenado.
A Okhrana, predecessora czarista da GPU, inventou, ao que consta, um sistema de arquivo no
qual cada suspeito era registrado numa grande ficha, no centro da qual o seu nome era rodeado
por um círculo vermelho; os seus amigos políticos eram designados por círculos vermelhos
menores, e os conhecidos não-políticos, por círculos verdes; círculos marrons indicavam
pessoas que mantinham contato com os amigos do suspeito, mas que este não conhecia
pessoalmente; os relacionamentos entre os amigos do suspeito, políticos e não-políticos, e os
amigos dos seus amigos, eram indicados por linhas ligando os respectivos círculos.[116] É claro
que esse método só é limitado pelo tamanho das fichas e, teoricamente, uma única e gigantesca
folha poderia mostrar as relações diretas e indiretas de toda a população. É este o objetivo
utópico da polícia secreta totalitária. Abandonou o antigo e tradicional sonho da polícia, que o
detector de mentiras ainda supostamente realiza, e já não busca saber quem é quem, ou quem
pensa o quê. (O detector de mentiras é talvez o exemplo mais ilustrativo do fascínio que esse
sonho aparentemente exerce sobre a mentalidade do policial; pois obviamente o complicado
aparelho de medição não pode determinar outra coisa senão a frieza ou o temperamento nervoso
de suas vítimas. Na verdade, o raciocínio simplório que existe por trás do uso desse mecanismo
só pode ser explicado pelo desejo irracional de que, afinal de contas, seja possível a leitura da
mente.) Esse velho sonho já era suficientemente terrível quando, desde os tempos mais remotos,
levava à tortura. O sonho moderno da polícia totalitária, com as suas técnicas recentes, é
incomparavelmente mais terrível. Agora, a polícia sonha que basta olhar um mapa gigantesco na
parede do escritório para que possa, a qualquer momento, determinar quem tem relações com
quem e em que grau de intimidade; e teoricamente esse sonho não é irrealizável, embora a sua
execução técnica deva ser algo difícil. Se esse mapa realmente existisse, nem mesmo a
lembrança impediria a pretensão totalitária de domínio do mundo; permitiria a obliteração de
pessoas sem que ficassem quaisquer vestígios, como se elas jamais houvessem existido.
Se devemos crer nos relatos de agentes da NKVD que foram presos, a polícia secreta russa já
chegou perigosamente perto desse ideal do governo totalitário. A polícia possui dossiês secretos
de cada habitante do vasto país, indicando cuidadosamente as numerosas relações que existem
entre as pessoas, desde os conhecidos fortuitos até parentes e amizade genuínas; pois é apenas
para descobrir essas relações que se interrogam tão rigorosamente os acusados, cujos "crimes"
já foram determinados "objetivamente" antes mesmo de serem presos. Finalmente, quanto à
faculdade da memória, tão perigosa para o regime totalitário, certos observadores estrangeiros
acham que "se é verdade que os elefantes nunca esquecem, os russos parecem opostos aos elefantes. (...) A psicologia da
Rússia soviética torna possível a amnésia total".[117]
Verifica-se a importância desse completo desaparecimento das vítimas para o mecanismo do
domínio total naqueles casos em que, por um motivo ou outro, o regime se defrontou com a
memória dos sobreviventes. Durante a guerra, um comandante da SS cometeu o terrível erro de
informar a uma mulher francesa que o seu marido havia morrido num campo de concentração
alemão; esse lapso provocou uma pequena avalanche de ordens e instruções para todos os
comandantes dos campos, advertindo-os de que, em hipótese alguma, deviam dar informações
ao mundo exterior.[118] Pelo mesmo motivo, os oficiais da polícia soviética, afeitos a esse sistema
desde crianças, podiam apenas olhar com espanto aqueles que, na Polônia, buscavam
desesperadamente saber o que havia acontecido aos seus amigos e parentes detidos.[119] Nos países totalitários, todos os locais de detenção administrados pela polícia constituem
verdadeiros poços de esquecimento onde as pessoas caem por acidente, sem deixar atrás de si os
vestígios tão naturais de uma existência anterior como um cadáver ou uma sepultura.
Comparado a essa novíssima invenção de se fazer desaparecer até o rosto das pessoas, o
antiquado método do homicídio, seja político ou criminoso, é realmente ineficaz. O assassino
deixa atrás de si um cadáver e, embora tente apagar os traços da sua própria identidade, não
pode apagar da memória dos que ficaram vivos a identidade da vítima. A operação da polícia
secreta, ao contrário, faz com que a vítima simplesmente jamais tenha existido.
A conexão entre a polícia secreta e as sociedades secretas é óbvia. A criação da primeira sempre
necessitou e decorreu do argumento de que a existência destas últimas constituía perigo. A
polícia secreta totalitária é a primeira na história que não precisa usar desses antigos pretextos
de que todos os tiranos lançavam mão. O anonimato das vítimas, que não podem ser chamadas
de inimigas do regime, e cuja identidade é desconhecida dos perseguidores até que a decisão
arbitrária do governo as elimina do mundo dos vivos e apaga a sua memória do mundo dos
mortos, é algo além de todo sigilo, além do silêncio mais profundo, além da maior mestria da
dupla vida que a disciplina das sociedades conspirativas costumava impor aos seus membros.
Os movimentos totalitários, que, durante a subida ao poder, imitam certas características
organizacionais das sociedades secretas e, no entanto, se instalam à luz do dia, criam uma
verdadeira sociedade secreta somente depois de chegarem ao governo. A sociedade secreta dos
regimes totalitários é a polícia secreta; o único segredo religiosamente guardado num país
totalitário, o único conhecimento esotérico que existe, diz respeito às operações da polícia e às
condições dos campos de concentração.[120] Naturalmente, a população como um todo e, em especial, os
membros do Partido, conhecem os fatos gerais— que existem campos de concentração, que certas
pessoas desaparecem, que inocentes são presos; ao mesmo tempo, todos num país totalitário sabem que o
maior dos crimes é falar a respeito desses "segredos". Como o conhecimento do homem depende da
afirmação e da compreensão dos seus semelhantes, essa informação geralmente sabida, individualmente
guardada e nunca comunicada perde toda a realidade e assume a natureza de simples pesadelo. Só aqueles
que estão de posse do conhecimento estritamente esotérico quanto às novas categorias possíveis de
pessoas indesejáveis e dos métodos operacionais dos altos escalões, podem comunicar-se uns com os
outros sobre o que realmente constitui a realidade de todos. Só eles estão numa posição de acreditar no
que sabem ser verdadeiro. Este é o seu segredo e, para guardá-lo, instalam-se como sociedade secreta. E
permanecem como membros, mesmo quando a organização secreta os prende, os obriga a fazer
confissões e finalmente os liquida. Enquanto guardam o segredo, pertencem à elite, e geralmente não o
revelam, mesmo quando eles próprios vão para a cadeia ou para os campos de concentração.[121]
Já observamos que um dos muitos paradoxos que ofendem o bom senso do mundo não-totalitário é o uso
aparentemente irracional que o totalitarismo faz dos métodos conspiratórios. Os movimentos totalitários,
aparentemente perseguidos pela polícia, raramente usam os métodos da conspiração para a derrubada do
governo em sua luta pelo poder, enquanto o totalitarismo no poder, depois de reconhecido por todos os
governos e depois de ter aparentemente superado o estágio revolucionário, cria uma verdadeira polícia
secreta como núcleo do poder e do governo. Parece que enxerga no reconhecimento oficial um perigo
maior para o conteúdo conspiratório do movimento revolucionário — um perigo de desintegração interna
— que as hesitantes medidas policiais dos regimes não-totalitários.
A verdade é que os líderes totalitários, embora estejam convencidos de que devem seguir
consistentemente a ficção e as normas do mundo fictício estabelecidas durante a luta pelo poder, só aos
poucos descobrem toda a implicação desse mundo irreal e de suas normas. A fé na onipotência humana e
a convicção de que tudo pode ser feito através da organização leva-os a experiências com que a
imaginação humana pode ter sonhado, mas que a atividade humana nunca realizou. Suas abomináveis
descobertas no reino do possível são inspiradas por um cientificismo ideológico que já vimos ser menos
controlado pela razão e menos disposto a reconhecer os fatos que as mais loucas fantasias da especulação
pré-científica e pré-filosófica. Criam a sociedade secreta, que agora já não opera à luz do dia, a sociedade
da polícia secreta, ou o soldado político, ou o guerreiro ideologicamente treinado, para que possam realizar a pesquisa experimental do possível.
Por outro lado, a conspiração totalitária contra o mundo não-totalitário — a pretensão do domínio
mundial — permanece tão aberta e franca nas condições do governo totalitário como nos movimentos
totalitários. É praticamente inculcada à mente da população coordenada de simpatizantes sob forma de
suposta conspiração de todo o mundo contra o seu país. Propaga-se a dicotomia totalitária fazendo-se um
dever de todo cidadão no exterior reportar-se ao seu país como se fosse agente secreto, e levando-o a
tratar cada estrangeiro como se fosse um espião a soldo do seu governo.[122] É para a realização prática
dessa dicotomia, e não por causa de segredos específicos, militares ou de outra natureza, que as cortinas
de ferro separam do resto do mundo os habitantes do país totalitário. O verdadeiro segredo — os campos
de concentração, esses laboratórios onde se experimenta o domínio total — os regimes totalitários
ocultam dos olhos do seu próprio povo e de todos os outros povos.
Durante um tempo considerável, a normalidade do mundo normal é a mais eficaz proteção contra a
denúncia dos crimes em massa dos regimes totalitários. "Os homens normais não sabem que tudo é
possível"[123] e, diante do monstruoso, recusam-se a crer em seus próprios olhos e ouvidos, tal como os
homens da massa não confiaram nos seus quando se depararam com uma realidade normal onde já não
havia lugar para eles.[124] O motivo pelo qual os regimes totalitários podem ir tão longe na realização de
um mundo invertido e fictício é que o mundo exterior não-totalitário também só acredita naquilo que quer
e foge à realidade ante a verdadeira loucura, tanto quanto todas massas diárias do mundo normal. A
repugnância do bom senso diante da fé no monstruoso é constantemente fortalecida pelo próprio
governante totalitário, que não permite que nenhuma estatística digna de fé, nenhum fato ou algarismo
passível de controle venha a ser publicado, de sorte que só existem informes subjetivos, incontroláveis e
inafiançáveis acerca dos países dos mortos-vivos.
Devido a essa política, só parcialmente se conhecem os resultados da experiência totalitária. Embora haja
um número suficiente de relatos dos campos de concentração para que se avalie a possibilidade do
domínio total e se vislumbre o abismo do "possível", não sabemos até onde um regime totalitário pode
transformar o caráter. Menos ainda sabemos quantas pessoas normais, ao nosso redor, estariam dispostas a aceitar o modo totalitário de vida — isto é, pagar o preço de
uma vida consideravelmente mais curta pela realização segura de todos os seus sonhos
profissionais. É fácil compreender o quanto a propaganda totalitária e até mesmo certas
instituições totalitárias correspondem aos sonhos das novas massas desarraigadas, mas é quase
impossível saber qual o número daqueles que, se continuarem expostos por mais tempo a uma
constante ameaça de desemprego, aceitarão de bom grado uma "política populacional" de
eliminação regular do excesso de pessoas, e quantos, compreendendo perfeitamente a sua
crescente incapacidade de suportar a carga da vida moderna, se conformarão de boa vontade a
um sistema que, juntamente com a espontaneidade, elimina a responsabilidade.
Em outras palavras, embora conheçamos a operação e a função específica da polícia secreta
totalitária, não sabemos quão bem ou até onde o "segredo" dessa sociedade secreta corresponde
aos desejos e cumplicidades secretos das massas do nosso tempo.
continua página 487...
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Parte III Totalitarismo (O Movimento Totalitário - 3.2b - A Polícia Secreta)
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[109] Discurso de Himmler de outubro de 1943, em Posen, International military triais, Nuremberg, 1945-6, vol. 29,
p. 146.
[110] "Bek Bulat (pseudônimo literário de um ex-professor soviético) teve a oportunidade de estudar documentos da
NKVD norte-caucasiana. Os documentos deixavam claro que, em junho de 1937, quando o grande expurgo estava no
auge, o governo ordenou que as NKVD locais prendessem uma certa porcentagem da população. (...) A porcentagem
variava de uma província para outra, atingindo 5% nas áreas menos leais. A média para toda a União Soviética era de
cerca de 3%". Relatado por David J. Dallin em The New Leader, 8 de janeiro de 1949. — Beck e Godin, op. cit., p.
239, chegam a uma suposição ligeiramente diferente e bem plausível, segundo a qual "as prisões eram planejadas
como segue: a NKVD possuía arquivos sobre quase toda a população, e cada pessoa era classificada numa certa
categoria. Assim, em cada cidade existiam estatísticas mostrando quantos ex-brancos, membros de partidos de
oposição etc, moravam lá. Todas as informações incriminadoras coletadas (...) e depreendidas das confissões dos
prisioneiros eram também incorporadas ao arquivo, e a ficha de cada pessoa indicava o seu grau de periculosidade em
potencial, que dependia da quantidade de informações suspeitas ou acusações contidas em seu dossiê. As autoridades
recebiam regularmente essas estatísticas, de modo que era possível providenciar um expurgo a qualquer momento,
sabendo-se exatamente o número de pessoas de cada categoria".
[111] Baldwin, op. cit.
[112] Os esquadrões da polícia secreta russa estavam à "disposição pessoal" de Stálin, da mesma forma como as
Tropas de Choque da SS estavam à disposição especial de Hitler. Ambas as organizações, mesmo quando convocadas
para servir com as forças militares em tempo de guerra, permaneciam sob essa jurisdição especial. As "leis de
casamento" especial serviram para separar a SS do resto da população e foram os primeiros e mais fundamentais
regulamentos que Himmler introduziu quando assumiu a tarefa de reorganizar a SS. Mesmo antes das leis de
casamento de Himmler, em 1927, a SS tinha instruções, por decreto oficial, de "nunca [participar] de discussões nas
reuniões dos membros do partido" (Der Weg der SS, op. cit.). Era idêntico o comportamento dos membros da NKVD,
que deliberadamente se mantinham sempre à parte, e acima de tudo não se associavam com outros setores da
aristocracia do partido (Beck e Godin, op. cit., p. 163).
[113] Bem típica é a esplêndida carreira do agente policial Malinovsky, que terminou como deputado dos
bolchevistas no parlamento. Ver Bertram D. Wolfe, op. cit., capítulo XXXI.
[114] Citado por Avtorkhanov, op. cit.
[115] The dark side ofthe moon, Nova York, 1947.
[116] Ver Laporte, op. cit., p. 39.
[117] BeckeGodin, op. cit., pp. 234 e 127.
[118] Ver Nazi conspiracy, VII, 84 ss.
[119] The dark side ofthe moon.
[120] "Pouco havia na SS que não fosse secreto. O segredo-mor era o que sucedia nos campos de concentração. Nem mesmo os
membros da Gestapo podiam entrar (...) nos campos sem uma permissão especial" (EugenKogon, Der SS-Staat [O Estado SS],
Munique, 1946, p. 297).
[121] Beck e Godin, op. cit., p. 169, contam como os elementos da NKVD que eram presos "cuidavam em não revelar algum
segredo da NKVD".
[122] O seguinte diálogo, narrado em The dark side ofthe moon, é bem típico: "Se alguém admitia haver estado fora da Polônia, a
pergunta seguinte era sempre: 'E para quem você estava espionando?' (...) Um homem perguntou: 'Mas os senhores também recebem
visitantes estrangeiros. Acham que todos são espiões?' A resposta foi: 'E o que você pensa? Que somos tão ingênuos que rtâo
sabemos disso perfeitamente?'"
[123] David Rousset, Theotherkingdom, Nova York, 1947.
(124).
[124] Os nazistas sabiam muito bem que uma parede de incredulidade protegia o que faziam. Um relatório secreto dirigido a
Rosenberg sobre o massacre de 5 mil judeus em 1943 diz explicitamente: "Imagine se estes fatos chegassem ao conhecimento do
inimigo e eles tentassem explorá-los. Provavelmente a propaganda não teria efeito, pois as pessoas que a ouvissem ou lessem
simplesmente não estariam dispostas a acreditar nela" (Nazi conspiracy, I, 1001).
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