David Hume
Seção XII
DA FILOSOFIA ACADÊMICA OU CÉTICA
TERCEIRA PARTE
Há, na verdade, um ceticismo mais moderado ou filosofia acadêmica,[1] que pode ser ao mesmo tempo durável e útil e, em parte, resultar do pirronismo ou ceticismo extremado, se o bom senso e a reflexão corrigem, até certo ponto, suas dúvidas indiferenciadas. A maioria dos homens têm tendência natural para manifestar suas opiniões de modo afirmativo e dogmático e, como visualizam os objetos sob um único aspecto e como não têm qualquer ideia de argumentos opostos, lançam-se precipitadamente aos princípios para os quais estavam inclinados e não são indulgentes com aqueles que abrigam opiniões contrárias. A dúvida ou a suspeita gera perplexidade em seu entendimento, bloqueia sua paixão e interrompe sua ação. Portanto, impacientes para escapulir de uma situação que lhes é tão desagradável, os homens supõem que unicamente aderindo às afirmações violentas e crenças obstinadas conseguirão afastar-se o bastante dela. Mas, se tais homens que raciocinam dogmaticamente pudessem ter consciência da singular fragilidade do entendimento humano, inclusive em seu estado mais perfeito e quando é mais rigoroso e prudente em suas resoluções, semelhante reflexão os inspiraria naturalmente a ter mais modéstia e reserva, diminuindo a exagerada opinião que têm de si mesmos e seus preconceitos contra os adversários. Os ignorantes devem refletir acerca da situação dos sábios que, embora usufruindo de todas as vantagens advindas do estudo e da reflexão, se mostram geralmente desconfiados de suas afirmações. E, se algum sábio tende, por seu temperamento natural, à altivez e à obstinação, uma leve tintura de pirronismo poderia abater seu orgulho e mostrar-lhe que as poucas vantagens que obteve sobre seus semelhantes são insignificantes se comparadas à confusão e à perplexidade universais inerentes à natureza humana. Em geral, há um grau de dúvida, de prudência e de modéstia que, nas investigações e nas decisões de todo gênero, deve sempre acompanhar o homem que raciocina corretamente.
Uma outra espécie de ceticismo moderado, que deve ser vantajoso aos homens e que
pode resultar naturalmente das dúvidas e escrúpulos pirrônicos, consiste em limitar nossas
investigações aos objetos que mais bem se adaptam à exígua capacidade do entendimento
humano. A imaginação humana, sublime por natureza, deleita-se com tudo que é remoto e
extraordinário, e ela corre, sem controle, pelas mais longínquas regiões do tempo e do espaço,
visando assim a evitar os objetos que o costume lhe tem tornado demasiado familiares. Um
juízo correto observa um método contrário e, evitando todas as investigações longínquas e
elevadas, limita-se à vida diária e aos objetos compreendidos pela prática e experiência
cotidianas, reservando os temas mais sublimes ao embelezamento dos poetas e dos oradores,
ou à arte dos sacerdotes e dos políticos. Para chegarmos a uma decisão tão salutar, nada pode
ser mais útil do que nos convencer de vez da força da dúvida pirrônica e da impossibilidade
de que algo pode libertar-nos dela, exceto o forte poder do instinto natural. Aqueles que têm
propensão para a filosofia continuarão ainda suas pesquisas, porque refletem que, além do
prazer imediato que acompanha tal ocupação, as decisões filosóficas nada mais são do que
reflexões sobre a vida cotidiana, metodizadas e corrigidas. Contudo, jamais tentarão
extravasar da vida cotidiana, contanto que considerem a impressão das faculdades que
empregam, seu alcance reduzido e a imperfeição de suas operações. Visto que não podemos
dar uma razão satisfatória por que acreditamos, depois de mil experimentos, que uma pedra
cairá ou que o fogo queimará, podemos esclarecer-nos sobre qualquer resolução que podemos
formular sobre a origem dos mundos e o estado da natureza desde a eternidade e para a
eternidade?
Certamente, esta estreita limitação de nossas investigações é, sob todo ponto de vista,
tão razoável que basta fazer o exame mais superficial dos poderes naturais do espírito
humano e compará-los com seus objetos para que nos seja recomendada. Deste modo,
localizaremos os respectivos objetos da ciência e da investigação.
Parece-me que os únicos objetos da ciência abstrata, ou da demonstração, são a
quantidade e o número, e que todo esforço para estender este gênero mais perfeito do
conhecimento além daquelas fronteiras é mero sofisma e ilusão. Como as partes componentes
da quantidade e do número são inteiramente semelhantes, suas relações tomam-se
complicadas e embaraçadas, e nada pode ser mais curioso, como também útil, do que
demarcar com vários sinais intermediários sua igualdade ou desigualdade sob suas diferentes
formas de aparição. Mas, como todas as outras ideias são claramente distintas e diferentes
umas das outras, jamais podemos ir mais longe, nem com a ajuda de nosso mais rigoroso
exame, do que observar esta diversidade e decidir, mediante uma reflexão evidente, que uma
coisa não é outra. Ou, se há qualquer dificuldade nestas decisões, ela procede inteiramente da
indeterminação dos significados das palavras que se corrige com definições adequadas. Não
se pode saber se o quadrado da hipotenusa é igual ao quadrado dos dois lados, por mais
rigorosamente que tenham sido definidos os termos, sem uma sequência de raciocínios e
investigações. Mas, para convencer-nos a respeito da seguinte proposição — onde não há
propriedade, não pode haver injustiça—, é apenas necessário definir os termos e explicar que
a injustiça é uma violação da propriedade. Esta proposição é, em verdade, apenas uma
definição mais imperfeita. O mesmo caso ocorre com todos os pretensos raciocínios
silogísticos que se encontram em todos os ramos do saber, exceto nas ciências da quantidade
e do número. Pode-se, portanto, afirmar com toda segurança, penso eu, que a quantidade e o
número são os únicos objetos adequados do conhecimento e da demonstração.
Todas as outras investigações humanas dizem respeito unicamente às questões de fato e
de existência; e estas não são, evidentemente, suscetíveis de demonstração. Tudo o que é
pode não ser. Nenhuma negação de um fato pode implicar contradição. A inexistência de um
ser, sem exceção, é uma ideia tão clara e distinta como a de sua existência. A proposição que
afirma que não existe, mesmo se é falsa, não é menos concebível e inteligível que aquela que
afirma que existe. O caso é diferente para as ciências propriamente ditas. Toda proposição
que não é verdadeira é considerada confusa e ininteligível. A raiz cúbica de 64 é igual à
metade de 10 é uma proposição falsa e jamais poder-se-ia concebê-la distintamente. Mas que
César, o anjo Gabriel ou um outro ser qualquer jamais existiram podem ser proposições falsas
e, sem dúvida, perfeitamente concebíveis, e não implicam contradição.
Portanto, a existência de qualquer ser somente pode ser provada mediante argumentos
derivados de sua causa ou de seu efeito, e estes argumentos se fundam inteiramente na
experiência. Se raciocinamos a priori, qualquer coisa pode parecer capaz de produzir
qualquer coisa.
A queda de um seixo pode, pelo que sabemos, extinguir o sol, ou a vontade de um
homem controlar os planetas em suas órbitas. É unicamente a experiência que nos ensina a
natureza e os limites da causa e do efeito e permite-nos inferir a existência de um objeto
partindo de um outro.[2] Tal é o fundamento do raciocínio moral que constitui a maior parte do
conhecimento humano e que é a fonte de todas as ações e comportamentos humanos.[3]
Os raciocínios morais referem-se tanto a fatos particulares como gerais. Todas as
deliberações da vida dizem respeito aos primeiros, bem como todas as investigações da
história, da cronologia, da geografia e da astronomia.
As ciências referentes aos fatos gerais são a política, a filosofia natural, a física, a
química etc., nas quais se investigam as qualidades, as causas e os efeitos de toda uma
espécie de objetos.
As ciências religiosas ou teológicas, enquanto visam a provar a existência de Deus e a
imortalidade das almas, compõem-se em parte de raciocínios baseados em fatos particulares
e, em parte, de raciocínios baseados em fatos gerais. Fundam-se sobre a razão, na medida em
que se apoiam na experiência. Mas seu melhor e mais sólido fundamento é a fé e a revelação
divina.
A moral e a crítica não são propriamente objetos do entendimento, porém do gosto e do
sentimento. A beleza, moral ou natural, é antes sentida que propriamente percebida. Ou, se
raciocinamos a seu respeito, e tentamos estabelecer sua norma, consideramos um novo fato,
derivado do gosto geral dos homens, ou algum fato análogo que pode ser objeto do raciocínio
e da investigação.
Quando percorremos as bibliotecas, persuadidos destes princípios, que destruição
deveríamos fazer? Se examinarmos, por exemplo, um volume de teologia ou de metafísica
escolástica e indagarmos:
Contém algum raciocínio abstrato acerca da quantidade ou do número? Não. Contém
algum raciocínio experimental a respeito das questões de fato e de existência? Não. Portanto,
lançai-o ao fogo, pois não contém senão sofismas e ilusões.
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Ensaio sobre o entendimento humano: Seção XII (3)
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Notas:
[1] Hume mostra claramente, tanto aqui como na seção V, seu desejo de ser considerado
um seguidor da última Academia [N. do T.]
[2] O ímpio princípio da filosofia antiga: ex nihilo, nihil fit, pelo qual ficava excluída a
criação da matéria, deixa de ser um principio, segundo esta filosofia. Não apenas a vontade
do Ser Supremo pode criar a matéria, mas, pelo que sabemos, a priori, a vontade de qualquer
outro ser poderia criá-la, ou qualquer outra causa que a imaginação mais caprichosa poderia
designar (Hume).
[3] O ceticismo moderado consiste sobretudo em “limitar nossas investigações aos
objetos que mais bem se adaptam à exígua capacidade do entendimento humano”. Hume
visa, deste modo, nas últimas páginas desta Investigação, esboçar um quadro geral dos
diferentes ramos do saber humano, e a ideia central que orienta seu esquema se baseia na
divisão mais ampla entre o ‘conhecimento” e a “crença”. (Veja-se Flew, ob. cit., p. 270.) [N.
do T.]
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