sábado, 7 de fevereiro de 2026

O Sol é para todos: 2ª Parte (27)

Harper Lee

O Sol é para todos


Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB


SEGUNDA PARTE

27

      Depois de um tempo, as coisas se acalmaram, como Atticus tinha previsto. Até meados de outubro, só duas coisas fora do comum aconteceram em Maycomb. Duas não, três, e não estavam diretamente ligadas a nós, os Finch, mas de certa maneira nos diziam respeito.
     A primeira foi que o sr. Bob Ewell foi contratado e demitido em questão de dias e certamente virou um caso único nos anais da década de 1930: foi o único homem que conheci despedido da Liga para o Progresso por indolência. Creio que seu curto período de fama levou a outro, mais curto ainda, de produtividade, mas o emprego durou o tempo da fama e ele acabou tão esquecido quanto Tom Robinson. Depois disso, voltou a ir semanalmente ao escritório da assistência social para receber seu seguro-desemprego, resmungando sobre os desgraçados que achavam que mandavam na cidade e não deixavam um homem honesto ganhar a vida. Ruth Janes, a funcionária da assistência social, disse que o sr. Ewell acusava abertamente Atticus de tirar o emprego dele. Ela ficou tão indignada que foi ao escritório de Atticus contar tudo a ele. Atticus disse a ela para não se preocupar: se Bob Ewell quisesse reclamar com ele por ter lhe “tirado” o emprego, sabia o endereço do escritório.
     O segundo fato ocorreu com o juiz Taylor. Ele não costumava ir à igreja aos domingos, mas a sra. Taylor sim. Ele então aproveitava a noite de domingo sozinho no casarão onde moravam para se enfurnar no escritório e ler os textos de Bob Taylor (que não era seu parente, mas o juiz ficaria orgulhoso se fosse). Numa dessas noites, o juiz estava perdido em metáforas saborosas e frases floreadas, quando sua atenção foi desviada para um irritante ruído de alguém arranhando uma superfície. “Quieta”, disse para Ann Taylor, sua gorda cadela vira-lata, e só então se deu conta de que estava sozinho no escritório, e o ruído vinha dos fundos da casa. O juiz foi até lá para soltar Ann e encontrou a porta telada aberta. Notou uma sombra em um canto e isso foi tudo que viu do visitante. Quando a sra. Taylor chegou da igreja, encontrou o marido sentado na cadeira, imerso nos escritos de Bob Taylor, com uma espingarda no colo.
     O terceiro fato ocorreu com a viúva de Tom, Helen Robinson. Se o sr. Ewell tinha caído no esquecimento como Tom Robinson, Tom tinha caído no esquecimento como Boo Radley. Mas não para o patrão dele, o sr. Link Deas, que arrumou um emprego para Helen. Na verdade, ele não precisava dos serviços dela, mas disse que se sentia mal com a forma como tudo tinha acabado. Nunca soube quem cuidava das crianças enquanto Helen ia trabalhar. Calpúrnia disse que a situação de Helen era complicada, pois ela precisava dar uma volta de quase dois quilômetros para não passar pela casa dos Ewell, que, segundo Helen, “atiraram coisas nela” a primeira vez que tentou passar por lá. O sr. Link acabou percebendo que todos os dias Helen chegava ao trabalho pelo caminho inverso do que deveria, e perguntou a ela por quê. 

— Deixa para lá, sr. Link, por favor — pediu Helen. 
— Deixo nada — retrucou o sr. Link. E mandou que ela fosse à loja dele naquela tarde, antes de voltar para casa. Ela foi e o sr. Link fechou a loja, pôs o chapéu com firmeza na cabeça e levou Helen para casa. O sr. Link fez o caminho mais curto, passando pela casa dos Ewell. Quando voltou, ele parou no portão bizarro. 
— Ewell. Venha cá, Ewell! — chamou.

     As janelas, que costumavam estar cheias de crianças, estavam vazias. 

— Eu sei que vocês estão todos aí deitados no chão! Ouça bem, Bob Ewell: se eu souber que a minha funcionária Helen está tendo alguma dificuldade para passar por aqui, boto você na cadeia antes do dia terminar! — O sr. Link deu uma cuspida no chão e foi para casa.

     Helen foi trabalhar na manhã seguinte e passou pela casa dos Ewell. Ninguém mexeu com ela mas, quando estava um pouco mais longe, viu que o sr. Ewell vinha atrás. Ela se virou e continuou andando e o sr. Ewell manteve a mesma distância até ela chegar na casa do sr. Link. Durante o caminho, disse, ouviu o tempo todo uma voz suave atrás dela, dizendo palavrões. Aterrorizada, telefonou para o sr. Link na loja, que era perto de onde ele morava. O sr. Link saiu da loja e encontrou o sr. Ewell encostado na cerca da casa. Ele disse: 

— Não fique me olhando como se eu fosse lixo, Link Deas. Eu não fiz nada... 
— Antes da mais nada, Ewell, tire a sua carcaça fedorenta da minha propriedade. Está encostado na minha cerca e não tenho dinheiro para pintar de novo. E mantenha distância da minha cozinheira, ou vou acusá-lo de assédio… 
— Não encostei um dedo nela, Link Deas, e não sou de ficar atrás de pretas! 
— Não precisa tocar nela, basta que ela se sinta acuada, e se assédio não for o suficiente para você ficar preso por um bom tempo, vou enquadrá-lo por desrespeito à Lei das Senhoras, então dê o fora daqui! Se acha que não estou falando sério, dirija-se a ela outra vez!

     Obviamente o sr. Ewell percebeu que ele estava falando sério, porque Helen não reportou mais nenhum incidente. 

— Essas coisas não me agradam, Atticus, não me agradam nem um pouco — foi o que tia Alexandra disse sobre o fato. — Esse homem parece ter uma obsessão permanente por se vingar de todos os que estiveram envolvidos naquele caso. Essa gente não descansa enquanto não se vinga, mas não entendo por que tanto ressentimento: ele conseguiu o que queria no tribunal, não foi? 
— Acho que eu entendo — disse Atticus. — No fundo, ele sabe que poucas pessoas em Maycomb acreditam no que ele e Mayella disseram. Ele pensou que fosse virar um herói, mas a única coisa que conseguiu foi: “Está bem, vamos condenar esse negro, mas volte para o seu lixão.” Ele já brigou com todo mundo, devia estar satisfeito. Vai sossegar quando mudar a estação. 
— Mas por que ele ia querer assaltar a casa do juiz Taylor? Ele obviamente não sabia que o juiz estava em casa, senão não teria tentado. Nos domingos, as únicas luzes que John deixa acesas são as da varanda da frente e a do escritório… 
— Você não sabe se Bob Ewell cortou mesmo a tela daquela porta, ninguém sabe quem foi — disse Atticus. — Mas posso imaginar. Mostrei que ele é um mentiroso, mas John Taylor fez ele parecer um idiota. Durante todo o depoimento de Ewell, eu não conseguia olhar para John sem ter vontade de rir. John olhava para ele como se ele fosse uma galinha de três pernas saída de um ovo quadrado. Não venha me dizer que os juízes não tentam influenciar os jurados… — concluiu Atticus, rindo.

     No final de outubro, nossa vida voltou à rotina de sempre: ir à escola, brincar, estudar. Jem parecia ter tirado da cabeça o que quer que fosse que queria esquecer e nossos colegas tiveram a bondade de não nos lembrar das excentricidades de nosso pai. Um dia, Cecil Jacobs me perguntou se Atticus era um radical. Quando perguntei a Atticus, ele achou tanta graça que fiquei irritada, mas ele explicou que não estava rindo de mim: 

— Diga a Cecil que sou tão radical quanto Cotton Tom Heflin.

     Tia Alexandra prosperava. Parecia que a srta. Maudie tinha silenciado toda a Sociedade Missionária de um golpe só, pois tia Alexandra voltou a reinar no galinheiro. Os refrescos que ela oferecia ficaram ainda mais deliciosos. E aprendi mais sobre a vida social dos pobres mrunas com a sra. Merriweather: eles tinham tão pouca noção de família que a tribo inteira era uma grande família. As crianças eram filhas de todos os homens e de todas as mulheres da comunidade. J. Grimes Everett estava fazendo o possível para mudar isso e precisava desesperadamente de nossas orações.
     Maycomb tinha voltado a ser como sempre foi. Exatamente a mesma que no ano anterior e no outro, com apenas duas pequenas mudanças. Primeiro, as pessoas tinham retirado das vitrines das lojas e dos vidros dos carros o adesivo PLANO DE RECUPERAÇÃO NACIONAL - NÓS FAZEMOS A NOSSA PARTE. Perguntei o motivo para Atticus e ele respondeu que o Plano de Recuperação Nacional tinha acabado. Perguntei quem tinha acabado com ele e ele disse que foram nove velhos.
     A segunda mudança em Maycomb desde o ano anterior não teve abrangência nacional. Até então, o Dia das Bruxas em Maycomb era um evento totalmente desorganizado. Cada criança fazia o que bem entendesse e se ajudavam quando havia alguma tarefa pesada, como colocar uma pequena charrete no telhado da cocheira municipal. Mas os pais tinham chegado à conclusão de que as coisas tinham ido longe demais no ano anterior, depois que as crianças tiraram o sossego das srta. Tutti e da srta. Frutti.
     As srtas. Tutti e Frutti Barber eram duas irmãs solteironas que moravam na única casa da cidade que tinha porão. Dizia-se que as Barber eram republicanas, tendo vindo de Clanton, no Alabama, em 1911. Tinham hábitos diferentes dos nossos e ninguém sabia para que queriam um porão, mas quiseram, construíram um e passaram o resto da vida expulsando de lá gerações sucessivas de crianças.
     Além de terem hábitos ianques, as duas (que na verdade se chamavam Sarah e Francis) eram surdas. A srta. Tutti negava e vivia em um mundo de silêncio, mas a srta. Frutti não queria perder nada do que acontecesse e usava uma corneta acústica tão grande que Jem dizia que era como o alto-falante de uma daquelas vitrolas de uma marca cujo desenho era um cachorro ouvindo num megafone.
     Considerando tudo isso e com a proximidade do Dia das Bruxas, alguns garotos levados esperaram as duas irmãs irem dormir, entraram na sala (só os Radley trancavam a porta de casa à noite) e levaram todos os móveis para o porão. Juro que não participei disso. 

— Eu ouvi tudo! — foi o grito que acordou os vizinhos delas na manhã seguinte. — Ouvi quando pararam um caminhão na porta da frente! Fizeram um barulho dos infernos. A essa hora já devem estar em Nova Orléans!

     A srta. Tutti tinha certeza que os móveis tinham sido levados pelos vendedores ambulantes de peles que chegaram à cidade dois dias antes. 

— Eram morenos, deviam ser sírios — disse ela.

     O sr. Heck Tate foi chamado. Olhou a área e concluiu que o autor era da região. A srta. Frutti disse que reconheceria a voz de um nativo de Maycomb em qualquer lugar e que as vozes na sala na noite anterior não eram de gente dali, pois tinham um sotaque bem carregado. E que só com cães treinados poderiam localizar a mobília delas. Insistiu e o sr. Tate se viu obrigado a percorrer quinze quilômetros para buscar os cães farejadores e colocá-los na trilha dos meliantes.
     O sr. Tate soltou-os nos degraus da escada das duas irmãs, mas eles apenas correram para trás da casa e começaram a latir na porta do porão. Depois de soltar os cães três vezes, o sr. Tate finalmente entendeu. Lá pelo meio-dia, não havia uma só criança descalça na cidade e todo mundo ficou de sapato até os cachorros irem embora.
     Por isso, as senhoras da cidade disseram que naquele ano as coisas iam ser diferentes. O auditório do ginásio seria aberto e haveria um desfile para os adultos e brincadeiras para as crianças, como pegar maçã com a boca, puxar massa de bala puxa puxa e espetar o rabo no burro. Também haveria um prêmio de vinte e cinco centavos para quem criasse e desfilasse a melhor fantasia de Dia das Bruxas.
     Jem e eu reclamamos. Não porque tivéssemos feito nada de errado, mas por uma questão de princípio. De qualquer modo, Jem se considerava velho demais para Dia das Bruxas e garantiu que não chegaria nem perto do ginásio. Bem, pensei, Atticus ia me levar.
     Mas logo fiquei sabendo que meus serviços tinham sido solicitados no palco. A sra. Grace Merriweather concebeu um desfile intitulado Condado de Maycomb: ad astra per aspera, no qual eu faria o papel de presunto. Ela achou que seria maravilhoso se as crianças desfilassem fantasiadas dos produtos agropecuários do condado. Assim, Cecil Jacobs iria de vaca, Agnes Boone seria uma adorável feijão-manteiga, outra criança seria um amendoim e assim por diante até a imaginação da sra. Merriweather e o número de crianças se esgotarem.
     Pelo que entendi nos dois ensaios, nossa única atribuição seria entrar no palco pela esquerda, enquanto a sra. Merriweather (autora e apresentadora do texto) identificava cada um. Quando ela dissesse “porco”, era a minha deixa. Depois que todos estivessem no palco, cantaríamos Condado de Maycomb, condado de Maycomb, a ti seremos sempre fiéis como o grand finale, e a sra. Merriweather entraria no palco com a bandeira do Alabama.
     Minha fantasia não chegou a ser problema. A costureira da cidade, sra. Crenshaw, era tão criativa quanto a sra. Merriweather. Pegou um arame de galinheiro e dobrou-o na forma de um presunto defumado. Depois, cobriu com um pano marrom e pintou-o conforme o original. Eu entraria na armação por baixo e alguém me ajudaria a ajustar o negócio cabeça abaixo. A fantasia ia quase até os meus joelhos. A sra. Crenshaw teve a excelente ideia de deixar dois buracos para eu enxergar. Ela fez um ótimo trabalho: Jem disse que eu estava igualzinha a um presunto com pernas. Mas havia alguns desconfortos: a roupa era quente e apertada; eu não poderia coçar o nariz se precisasse e só conseguiria sair da roupa com ajuda.
     No Dia das Bruxas, achei que toda a família iria assistir a minha apresentação, mas me enganei. Atticus disse, com o maior tato possível, que não aguentaria assistir um desfile naquela noite, estava muito cansado. Tinha passado a semana em Montgomery e chegara no final da tarde. Jem poderia me levar, se eu pedisse.
     Tia Alexandra explicou que precisava dormir cedo, pois tinha passado a tarde arrumando o cenário da apresentação e estava exausta — parou no meio da frase. Fechou a boca, abriu para dizer alguma coisa, mas não encontrou as palavras. 

— O que foi, tia? — perguntei. 
— Ah, nada, nada. Só tive um arrepio de pressentimento — ela respondeu. Deixou de lado a causa do arrepio e sugeriu que eu fizesse uma prévia do espetáculo para a família na sala. Então, Jem me enfiou na fantasia, ficou na porta da sala e chamou “poooor-co” exatamente como a sra. Merriweather faria. Entrei em cena. Atticus e tia Alexandra adoraram.

     Repeti tudo na cozinha e Calpúrnia disse que eu estava maravilhosa. Eu quis atravessar a rua para mostrar à srta. Maudie, mas Jem disse que ela certamente estaria no auditório.
     Depois disso, já não me importava se eles iam ou não. Jem disse que ia me levar. E esse foi o começo da nossa mais longa jornada juntos.

continua página 181...
___________________

Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (26) / O Sol é para todos: 2ª Parte (27) 
__________________

Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
__________________

Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

Nenhum comentário:

Postar um comentário