quinta-feira, 26 de março de 2026

Você sabia... A Linguagem¹

As lições de Orwell sobre linguagem


Este vídeo contribuirá para aprofundar a compreensão sobre linguagem, pensamento e suas implicações no debate público contemporâneo.

00:00 As lições de Orwell sobre linguagem e poder
01:21 1984 e a dominação da linguagem
03:30 A degradação da linguagem e a pobreza do pensamento
06:12 Linguagem, política e causas econômicas do declínio
08:24 O ciclo vicioso entre pensamento tolo e linguagem imprecisa
11:36 Exemplos reais de linguagem confusa na mídia
20:55 As perguntas que todo escritor deve fazer
23:06 Política e degradação da linguagem na atualidade

Lara Brenner




Texto original:
https://www.orwellfoundation.com/the-orwell-foundation/orwell/essays-and-other works/politics-and-the-english-language/

A política e a língua inglesa

George Orwell

     A maioria das pessoas preocupadas com o tema admitiriam que a língua inglesa não vai bem, mas geralmente presume-se que, de modo consciente, não podemos fazer nada a respeito. Nossa civilização está decadente e nossa língua — assim argumentam — inevitavelmente deve participar do colapso geral. Segue-se que qualquer luta contra os abusos da linguagem é visto como um arcaísmo sentimental, algo como preferir velas no lugar da luz elétrica ou charretes ao invés aviões. Sob tal compreensão repousa a crença semiconsciente de que a linguagem é reflexo de algum desenvolvimento natural e não um instrumento que moldamos para nossos próprios propósitos.
     Ora, claro está que o declínio de uma língua remonta, em última instância, a causas políticas e econômicas: não é mero produto da má influência deste ou daquele escritor. Contudo, um efeito pode tornar-se causa e reforçar a causa original, produzindo o mesmo efeito de modo mais intenso e indefinidamente. Um homem pode beber porque sente-se fracassado e depois vir a fracassar ainda mais porque bebe. Algo similar vem ocorrendo com a língua inglesa. Torna-se feia e imprecisa porque nossos pensamentos são tolos, mas o desleixo de nossa linguagem torna mais fácil para nós os pensamentos tolos. A questão é que o processo é reversível. O inglês moderno, especialmente o escrito, encontra-se tomado por maus hábitos que espalham-se por imitação e que poderiam ser evitados se alguém estivesse disposto a confrontar o problema. Se superarmos tais hábitos, poderemos pensar com mais clareza, e pensar com clareza é o primeiro e necessário passo para a regeneração política, de modo que a luta contra o mau inglês não seja frívola e tampouco preocupação exclusiva de escritores profissionais. Voltarei a isso em breve, e espero que a esta altura o significado daquilo que disse até aqui tenha ficado mais claro. Antes disso, apresento cinco maneirismos de como a língua inglesa costuma agora ser habitualmente escrita.
     Estas cinco passagens não foram escolhidas por serem especialmente ruins — eu poderia citar piores se tivesse pesquisado — mas porque ilustram vários dos vícios mentais que agora padecemos. Tais passagens estão um pouco abaixo da média, mas são exemplos bastante representativos. Enumero-os para que eu possa retornar a eles e consultá-los quando necessário:

1. Não estou certo, de fato, se não é verdade dizer que um Milton, que certa feita não parecia muito diferente de um Shelley do século XVII, não tornou-se, por experiências cada vez mais amargas a cada ano, mais estranho [sic]¹ para o fundador daquela seita jesuíta que nada poderia induzi-lo a tolerar. Professor Harold Laski (Ensaio sobre Liberdade de Expressão)  

(¹) Alien, no original.

2. Acima de tudo, não podemos ser descuidados com um acervo nativo de expressões idiomáticas que prescrevem colocações flagrantes de vocábulos como o básico aturar por tolerar, ou perdido por desnorteado. Professor Lancelot Hogben (Interglossia)  
3. De um lado temos a personalidade livre: por definição não é neurótica, pois não possui conflito nem sonho. Seus desejos, em si, são transparentes, pois são exatamente o que a aprovação institucional mantém em primeiro plano na consciência; outro padrão institucional alteraria seu número e intensidade; há pouco neles que seja natural, irredutível ou culturalmente perigoso. Por outro lado, o próprio laço social nada mais é que o reflexo mútuo dessas integridades autosseguras. Lembre-se da definição de amor. Não é este o próprio retrato de um pequeno acadêmico? Onde há lugar nesta sala de espelhos para personalidade ou fraternidade? Ensaio sobre psicologia na Política (Nova York) 
4. Todas as “melhores pessoas” dos clubes de cavalheiros e todos os frenéticos capitães fascistas, unidos em ódio comum ao Socialismo e horror bestial à maré crescente do movimento revolucionário das massas, voltaram-se para atos de provocação, para o abrasamento sujo, para lendas medievais de poços envenenados, a fim de legalizar sua própria destruição de organizações proletárias e despertar a pequena burguesia insatisfeita para um fervor chauvinista em nome da luta contra a saída revolucionária da crise. (Panfleto comunista)
5. Se um novo espírito deve ser infundido neste velho país, há uma espinhosa e contenciosa reforma a ser enfrentada, que é a humanização e galvanização da BBC. Hesitação aqui revelará cancro e atrofia da alma. O coração da Grã Bretanha, p. ex., pode ser sadio e bater forte, mas o rugido do leão britânico atualmente é como o de Bottom em Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare — tão suave quanto qualquer jovem pomba. Uma nova e viril Grã-Bretanha não pode continuar indefinidamente a ser apresentada aos olhos, ou melhor, aos ouvidos do mundo pelos estéreis langores da Langham Place², descaradamente mascarados como “inglês padrão”. Quando a Voz da Grã-Bretanha é ouvida às nove horas, seria muito melhor e infinitamente menos ridículo ouvir lamúrias honestas do que o atual zurro arrogante, inflado, inibido, zurro de diretora de escola de inocentes e tímidas donzelas lamurientas! (Uma carta, em Tribune)  

(²) Nome da rua onde fica localizada a Broadcasting House, sede da BBC.

     Cada uma destas passagens apresenta falhas próprias, mas, além da contornável feiura, duas qualidades são comuns a todas. A primeira é a obsolescência imagética; o outro é a falta de precisão. O escritor ou tem um significado e não consegue expressá-lo ou inadvertidamente diz outra coisa ou é quase indiferente se suas palavras significam algo ou não. Tal mistura de imprecisão e pura incompetência é a característica mais marcante da atual prosa inglesa, especialmente em qualquer espécie de escrita política. Assim que certos tópicos são levantados, o concreto funde se no abstrato e ninguém parece capaz de pensar em falas que não sejam banais: a prosa consiste cada vez menos em palavras escolhidas por causa de seu significado e cada vez mais por frases unidas como seções de um galinheiro pré-fabricado. Listo abaixo, com notas e exemplos, vários dos truques por meio dos quais habitualmente pode-se evitar uma prosa pré-fabricada:

Metáforas obsoletas.

     Uma metáfora recém inventada auxilia o pensamento evocando uma imagem, enquanto, por outro lado, uma metáfora que está tecnicamente “morta” (por exemplo, vontade de ferro) de fato voltou a ser uma palavra comum e geralmente pode ser usada sem perda de vivacidade. Mas, entre estas duas classes, há uma grande quantidade de metáforas gastas que perderam todo poder evocativo e são usadas apenas porque poupam as pessoas do trabalho de inventar frases para si mesmas. Os exemplos são: ligar as mudanças, pegar em armas, andar na linha, passar por cima de tudo, ficar ombro a ombro com, cair nas mãos de, sem interesses ocultos, dar combustível para, pescar em águas turbulentas, estar na ordem do dia, calcanhar de Aquiles, canto do cisne, foco de agitação. Muitas delas são usadas sem o conhecimento de seu significado (o que é uma “rachadura”, por exemplo?) e metáforas incompatíveis são frequentemente combinadas, um claro sinal de que o escritor não está interessado no que diz. Algumas metáforas agora correntes foram desvirtuadas de seu significado original sem que aqueles que utilizam-nas sequer tenham consciência do fato. Por exemplo, toe the line (andar na linha) às vezes é escrito como tow (puxar) the line. Outro exemplo é o martelo e a bigorna, agora sempre usados com a implicação de que a bigorna leva a pior. Na vida real, entretanto, é sempre a bigorna que quebra o martelo, nunca o contrário: um escritor que pensasse sobre aquilo que diz evitaria tal distorção.  

Operadores ou verbos de fachada

     Este recurso evita o trabalho de escolher verbos e substantivos adequados e, ao mesmo tempo, preenche cada frase com sílabas extras que conferem aparência de simetria. Algumas construções características são: tornam se inoperantes, militam contra, fazem contato, são submetidas, dão origem, fundamentam, tem o efeito de, desempenham um papel de liderança, fazem-se sentir, tem efeito, exibem um tendência a, servir ao propósito de, etc., etc. O propósito é eliminar os verbos simples. Ao invés de ser uma única palavra, como quebrar, parar, estragar, consertar, matar, um verbo é convertido em uma frase composta de substantivo ou adjetivo agregado a algum verbo de uso geral como provar, servir, formar, jogar, renderizar. Além disso, sempre que possível é usada a voz passiva em detrimento da ativa, e as construções nominais são usadas em vez de gerúndios (pelo exame de ao invés de pelo exame). A gama de verbos é ainda mais reduzida por meio do sufixo -ize(3) e das de-formações(4) e declarações banais(5) ganham aparência de profundidade através da não desfiguração(6). As conjunções e preposições simples são substituídas por frases como em relação a, tendo em conta o fato de que, à força de, em vista de, no interesse de, na hipótese de que; e as sentenças finais são salvas pelo anticlímax de retumbantes e aguardados lugares-comuns que não podem ser abandonados, um procedimento a ser esperado no futuro próximo e que merece séria consideração a fim de promover uma melhor compreensão.

(3) Exemplo: industrialize, industrializar.
(4) Exemplo: deteriorate, deteriorar.
(5) No original: and the banal state-ments. O autor quis destacar o sufixo ment em statements.
(6) No original: by means of the not un-formation. O autor quis destacar o prefixo un. A construção unformation é rara, mas foi utilizada pelo autor a fim de salientar o propósito da eliminação dos verbos simples.

Expressão empolada.

     Usam-se palavras como fenômeno, elemento, indivíduo (como substantivo), objetivo, categórico, efetivo, virtual, básico, primário, promover, constituir, exibir, explorar, utilizar, eliminar, liquidar, para dar verniz a uma declaração simples e promover um ar de imparcialidade científica a julgamentos tendenciosos. Adjetivos como marcantes, épicos, históricos, inesquecíveis, triunfantes, centenários, inevitáveis, inexoráveis, verdadeiros, são usados para dignificar o sórdido processo da política internacional, enquanto a escrita que visa glorificar a guerra costuma assumir um tom arcaico, palavras características sendo: reino, trono, carruagem, punho em cota de malha, tridente, espada, escudo, broquel, estandarte, coturno, clarim. Palavras e expressões estrangeiras como cul de sac, ancien régime, deus ex machina, mutatis mutandis, status quo, gleichschaltung, weltanschauung, são usadas para dar um ar de cultura e elegância. Exceto pelas abreviações úteis como i.e., e.g., e etc., não há necessidade real de nenhuma das centenas de frases estrangeiras agora correntes no idioma inglês. Escritores ruins, em especial os científicos, políticos e sociológicos, costumam ser assombrados pela noção de que palavras latinas ou gregas são mais grandiosas que as saxãs e palavras desnecessárias como agilizar, melhorar, prever, estranhas, desenraizadas, clandestinas, subaquáticas e centenas de outras ganham terreno constantemente contra as equivalentes anglo-saxãs(7). O jargão próprio da escrita marxista (hiena, carrasco, canibal, pequeno burguês, esses fidalgos, lacaios, cachorros raivosos, guarda-branca, etc.) consiste em grande parte de palavras traduzidas do russo, do alemão ou do francês; mas o procedimento habitual para cunhar uma nova palavra é usar a raiz latina ou grega com o afixo apropriado e, quando necessário, o sufixo -ize. Muitas vezes, é mais fácil inventar palavras desse tipo (desregionalizar, inadmissível, extraconjugal, não fragmentário e assim por diante) do que forjar palavras em inglês que cobrirão o significado. O resultado, geralmente, é o aumento do desleixo e da imprecisão.

(7) Um exemplo que ilustra bem esse fato é a modo como os nomes habituais das flores em inglês estão sendo substituídos por nomes gregos. Snapdragon (boca de leão) tornou-se antirrhinum, a forget-me-not (não-me esqueças) é agora chamada de myosotis, etc. É difícil identificar qualquer razão prática para essa mudança de moda: é provável que seja um afastamento instintivo de uma expressão familiar e uma vaga sensação de que a expressão grega é científica. (Nota do Autor).

Palavras sem sentido.

     Em certas categorias de escrita, especialmente a crítica de arte e a crítica literária, é normal encontrarmos passagens longas e quase que totalmente desprovidas de sentido(8). Palavras como romântico, plástico, valores, humano, morto, sentimental, natural, vitalidade, tão usadas na crítica de arte, não possuem sentido estrito, uma vez que não apenas não apresentam nenhum objeto definido, como dificilmente espera-se que tal identificação seja feita pelo leitor. Quando um crítico escreve: “A característica marcante no trabalho do Sr. X é sua vivacidade”, enquanto algum outro escreve: “O que mais imediatamente impressiona no trabalho do Sr. X é sua peculiar apatia”, o leitor aceita isso como simples diferença de opinião. Se palavras como claro e escuro estivessem envolvidas, ao invés do jargão vivaz e apático, o leitor imediatamente perceberia que a linguagem estava sendo utilizada de maneira imprópria. Inúmeras palavras políticas sofrem abuso similar. A palavra fascismo agora não possui significado, exceto na medida em que expresse “algo não desejável”. As palavras democracia, socialismo, liberdade, patriótico, realista, justiça, não podem ser conciliadas devido aos diferentes significados que cada uma delas possui. No caso de uma palavra como democracia, não apenas inexiste um consenso sobre sua definição, como a tentativa de defini-la sofre resistência de todos os lados. É quase universalmente aceito que, quando chamamos um país de democrático, estamos a elogiá-lo: consequentemente, apoiadores de qualquer tipo de regime alegam [apoiar] uma democracia e temem que necessitem parar de usar esta palavra caso ela venha a ser vinculada a qualquer outro significado(9). Palavras desta natureza são frequentemente usadas de modo conscientemente desonesto. Ou seja, quem as usa tem sua própria definição particular, mas permite que o ouvinte pense que ele quer dizer algo bem diferente. Declarações como o Marechal Pétain era um verdadeiro patriota, A imprensa soviética é a mais livre do mundo, A Igreja Católica opõe-se à perseguição, quase sempre são feitas com intenção de enganar. Outras palavras cujo uso é de significados variados e que, na maioria dos casos, são mais ou menos desonestas: classe, totalitário, ciência, progressista, reacionário, burguês, igualdade.

(8) Exemplo: "A catolicidade do conforto em perceber e imaginar, de um modo estranhamente Whitmanesque [relativo a W. Whitman], quase que exatamente o oposto da compulsão estética, continua a evocar aquela atmosfera trêmula e acumulativa que sugere uma cruel atemporalidade, inexoravelmente serena. Wrey Gardiner acerta ao simplesmente mirar com precisão o centro do alvo. Mas não é algo tão simples e subjaz através dessa contente tristeza mais do que a resignação agridoce contida superfície". (Poetry Quarterly) (Nota do Autor).
(9) Assim, p. ex., a extinta Alemanha Oriental, cujo nome oficial era República Democrática da Alemanha. Inúmeros regimes totalitários fizeram ou ainda fazem uso da expressão, como. p. ex., a Coréia do Norte, cujo nome oficial é República Popular Democrática da Coreia.

     Apresentado este catálogo de trapaças e perversões, permitam-me dar outro exemplo do tipo de escrita a que tais palavras conduzem. Desta vez, devido sua própria natureza, será um exemplo imaginário. Traduzo uma passagem do bom inglês para o inglês moderno da pior espécie. Eis aqui um versículo bem conhecido de Eclesiastes:

Voltei e vi sob o sol que a corrida não é para os ligeiros, nem a batalha para os fortes, nem ainda o pão para os sábios, tampouco as riquezas para os ilustrados, nem favores aos letrados; mas o tempo e o acaso acontecem a todos eles(10).   

(10)  Eclesiastes, 9:11.

     Agora, em inglês moderno:

Considerações objetivas de fenômenos contemporâneos levam à conclusão que sucesso ou fracasso em atividades competitivas não apresentam tendência a serem proporcionais à capacidade inata, mas que algum elemento imprevisível e considerável deve invariavelmente ser levado em conta.

     Trata-se de uma paródia, mas não muito grosseira. O Anexo 3 acima, por exemplo, contém várias correções do mesmo tipo de inglês. Ver-se-á que não fiz uma tradução completa. O início e o fim da frase seguem de perto o significado original, mas no meio as imagens concretas — corrida, batalha, pão — dissolvem-se em frases vagas “sucesso ou fracasso em atividades competitivas”. Isso tinha que ser assim, pois nenhum escritor moderno do tipo que estou discutindo — ninguém capaz de usar frases como “considerações objetivas de fenômenos contemporâneos” — jamais tabularia seus pensamentos dessa maneira precisa e detalhada. Toda a tendência da prosa moderna é situar-se longe da concretude.  
     Agora, observe essas duas frases mais de perto. A primeira contém quarenta e nove palavras, mas apenas sessenta sílabas e todas suas palavras são as da vida cotidiana. A segunda contém trinta e oito palavras de noventa sílabas: dezoito dessas palavras são de raízes latinas e uma do grego. A primeira frase contém seis imagens vívidas e apenas uma frase (“tempo e acaso”) que poderia ser considerada vaga. A segunda não contém uma única frase nova e cativante e, apesar de suas noventa sílabas, oferece apenas uma versão abreviada do significado contido na primeira. Contudo, sem sombra de dúvida, é o segundo tipo de sentença que ganha terreno no inglês moderno. Eu não desejo exagerar. Esse tipo de escrita não é ainda universal e manifestações de simplicidade ocorrerão aqui e ali mesmo na pior página escrita. Ainda assim, se pedissem para que eu ou você escrevêssemos algumas linhas a respeito da incerta fortuna humana, é provável que nos aproximaríamos muito mais da minha frase imaginária ao invés do Eclesiastes.
     Como tentei mostrar, a escrita moderna, na pior das hipóteses, não consiste em escolher palavras pelo seu significado e criar imagens para tornar o significado mais claro. Consiste na colagem de longas tiras de palavras que já foram ordenadas por outra pessoa a fim de tornar os resultados apresentados em pura farsa. A atração deste modo de escrever é a facilidade. É mais fácil — e ainda mais rápido, quando cria-se o hábito — dizer Na minha opinião não é uma suposição injustificável que do que dizer eu penso. Se você usa frases prontas, não é necessário buscar palavras; também não é necessário preocupação com o ritmo das frases, já que elas são organizadas de modo a serem mais ou menos eufônicas. Quando você compõe apressadamente — quando dita para um estenógrafo, por exemplo, ou fazendo um discurso público — é natural cair em um estilo pretensioso e latinizado. Sinais como uma boa consideração a ser feita e ter em mente uma conclusão que todos prontamente concordem evitarão que muitas falas possam gerar decepção. O uso de metáforas, símiles e expressões obsoletas, economizam muito esforço mental, mas ao custo de deixar o significado vago, não apenas para o leitor, mas para você mesmo. Este é o significado das metáforas mistas. O único objetivo de uma metáfora é evocar alguma imagem. Quando as imagens chocam-se — como em O polvo fascista cantou seu canto de cisne, o coturno é jogado no caldeirão (11) — temos certeza que o escritor não vê uma imagem mental dos objetos que nomeia; em outras palavras, ele não está realmente pensando. Veja novamente os exemplos que apresentei ao início deste ensaio. O professor Laski (1) usa cinco negativas em 53 palavras. Uma delas é supérflua, tornando sem sentido toda a passagem e, além disso, ocorre o lapso — estranho (alien) ao invés de aparente — tornando mais absurdo e vários trechos evitáveis de falta de jeito que aumentam a imprecisão geral. O professor Hogben (2) descuida-se com o acervo capaz de escrever prescrições e, embora desaprove o corriqueiro tolerar, não parece disposto a consultar o dicionário e verificar o que isso significa; (3), se alguém toma uma atitude não caridosa relativa a isso, é simplesmente algo sem sentido: provavelmente, pode-se descobrir o significado pretendido lendo todo o artigo em que ocorre. Em (4), o autor sabe mais ou menos o que quer dizer, mas o acúmulo de expressões batidas sufoca-o como folhas de chá bloqueando o bule. Em (5), palavras e significado quase divorciam-se. Pessoas que escrevem assim geralmente têm um significado emocional geral — não gostam de alguma coisa e querem expressar solidariedade com outra — mas não estão interessadas nos detalhes do que dizem. Um escritor consciente fará a si mesmo pelo menos quatro perguntas em cada frase que escreve: O que estou tentando dizer? Quais palavras expressarão [o pensamento]? Qual imagem ou fala deixará tudo mais claro? Esta imagem é nova o bastante para causar efeito? E ele provavelmente vai perguntar-se outras duas: Posso ser mais conciso? Eu disse algo feio e que pode ser evitado?

(11) Melting pot: metáfora usada para descrever um ambiente ou sociedade onde diferentes culturas, etnias e ideias misturam-se como em um caldeirão.

     Mas você não é obrigado a ter todo esse trabalho. Você pode escapar disso ao abrir sua mente e deixar as frases prontas aglomerando-se. Suas frases serão construídas para você — até mesmo pensarão seus pensamentos por você, em certa medida — e, se necessário, realizarão o importante serviço de ocultar parcialmente o significado de você mesmo. É neste ponto que a especial conexão entre política e degradação da linguagem torna-se clara.

continua...

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