sexta-feira, 6 de março de 2026

Espumas Flutuantes - Oitavas de Napoleão

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

OITAVAS A NAPOLEÃO 
Tradução de Lozano  
 
Águia das solidões!... Ninho atrevido 
 Foram-te as borrascosas tempestades, 
 Flamígero cometa suspendido 
 Sobre o céu infinito das idades. 
 Tu que, no lago intérmino do olvido, 
 Lançaste tuas régias claridades... 
 Deus caído do trono dos mais deuses... 
 Quem recebeu teus últimos adeuses?...

Não foram as pirâmides, que ouviram 
 De teus passos o som e se inclinaram... 
 Nem as águas do Nilo, que te viram, 
 E co'as ondas teu nome murmuraram... 
 Não foram as cidades, que brandiram 
 As torres como facho... e te aclararam... 
 Quem foi? Silêncio!... tremulo de medo 
 Vejo apenas — um mar... vejo — um rochedo... 

A terra, o mar, os céus... espaço estreito
Eram pra tua planta de gigante. 
 Para teto dos paços teus foi feito 
 O firmamento colossal, flutuante 
 Como diadema — os sóis... E como leito 
 O antártico pólo de diamante... 
 Teu féretro qual foi?... Titão do Sena, 
 O penhasco fatal de Santa Helena...   

Assassina do Encélado da guerra 
 Só tu foste, Albion... do mar senhora... 
 Por quê? Por um pedaço aí de terra 
 Foi pedir-te o gigante em negra hora... 
 E lhe deste um penhasco... Oh! Lá s’encerra 
 Tua lenda mais hórrida... Traidora! 
 Lá seu espectro envolto na mortalha 
 Aos quatro céus a maldição espalha... 

Ao leão, que temias, enjaulaste; 
 E de longe escutando seu rugido, 
 Tu, senhora do mar... tu desmaiaste! 
 Pelo punhal traidor ele ferido 
 Caiu-te aos pés... Então tu respiraste, 
 Cobarde vencedora do vencido... 
 Nem mesmo todo o oceano poderia 
 Lavar este padrão de covardia... 

Tu não és tão culpada!... Aonde estava 
 A França tão potente e tão temida?... 
 Oh! Por que o não salvou?... se o contemplava 
 Lá do gelo dos Alpes — soerguida!?... 
 E ele que a fez tão grande?... Ela folgava!... 
 Enquanto ao longe do colosso a vida 
 Como um vulcão antigo e moribundo 
 Lento expirava nesse mar profundo. 
 
São Paulo

BOA-NOITE
Veux-tu doné partir? Le jour est encore éloigné; 
 C’etait le rossignol et non pas l’alouette, 
 Dont le chant a frappé ton oreille inquiète; 
 Il chante la nuit sur les branches de ce grenadier, 
 Crois-moi, cher ami, c’etait le rossignol.  
Shakespeare  

Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora. 
 A lua nas janelas bate em cheio. 
Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde... 
 Não me apertes assim contra teu seio. 

Boa-noite!... E tu dizes — Boa-noite. 
 Mas não digas assim por entre beijos... 
 Mas não me digas descobrindo o peito, 
 — Mar de amor onde vagam meus desejos. 

Julieta do céu! Ouve... a calhandra 
 Já rumoreja o canto da matina. 
 Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira... 
 ... Quem cantou foi teu hálito, divina! 

Se a estrela-d’alva os derradeiros raios 
 Derrama nos jardins do Capuleto
 Eu direi, me esquecendo d’alvorada: 
 “É noite ainda em teu cabelo preto...” 

É noite, ainda! Brilha na cambraia 
 — Desmanchado o roupão, a espádua nua — 
 O globo de teu peito entre os arminhos 
 Como entre as névoas se balouça a lua... 

É noite, pois! Durmamos, Julieta! 
 Recende a alcova ao trescalar das flores. 
 Fechemos sobre nós estas cortinas... 
 — São as asas do arcanjo dos amores. 

A frouxa luz da alabastrina lâmpada 
 Lambe voluptuosa os teus contornos... 
 Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos 
 Ao doudo afago de meus lábios mornos. 

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos 
 Treme tua alma, como a lira ao vento, 
 Das teclas de teu seio que harmonias, 
 Que escalas de suspiros, bebo atento! 

Ai! Canta a cavatina do delírio 
 Ri, suspira, soluça, anseia e chora... 
 Marion! Marion!... É noite ainda. 
 Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento, 
 Sobre mim desenrola teu cabelo... 
 E deixa-me dormir balbuciando: 
 — Boa-noite! —, formosa Consuelo!... 

 São Paulo, 27 de agosto de 1868  

continua pag 35...
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O “Adeus” de Teresa / A Maciel Pinheiro / Pedro Ivo / Oitavas de Napoleão /  
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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