terça-feira, 17 de março de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Quem desencadeou a violência na Guatemala? (18)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     29. Quem desencadeou a violência na Guatemala?
          Em 1944, Ubico caiu de seu pedestal, varrido pelos ventos de uma revolução de cunho liberal, encabeçada por alguns jovens oficiais e universitários de classe média. Juan José Arévalo, eleito presidente, pôs em marcha um vigoroso plano educacional e ditou um novo código do trabalho para proteger os trabalhadores do campo e das cidades. Nasceram vários sindicatos; a United Fruit, dona de vastas terras, das ferrovias, do porto, virtualmente isenta de impostos e livre de controles, deixou de ser onipotente em suas propriedades. Em 1951, em seu discurso de despedida, Arévalo revelou que teve de escapar de 32 conspirações patrocinadas pela empresa. O governo de Jacob Arbenz continuou e aprofundou o ciclo de reformas. As estradas e o novo porto de San José rompiam o monopólio da United Fruit no transporte e na exportação. Com capital nacional, e sem estender a mão pedinte a bancos estrangeiros, foram efetivados vários projetos de desenvolvimento que conduziam à conquista da independência. Em junho de 1952, foi aprovada a reforma agrária, que beneficiou mais de 100 mil famílias, ainda que só abrangesse as terras improdutivas e pagasse uma indenização, em bônus, aos proprietários expropriados. A United Fruit só cultivava 8 por cento de suas terras, estendidas entre ambos os oceanos.
     A reforma agrária se propunha a “desenvolver a economia capitalista camponesa e a economia capitalista da agricultura em geral”, mas uma furiosa campanha internacional de propaganda se desencadeou contra a Guatemala: “A cortina de ferro está descendo sobre a Guatemala”, vociferavam as emissoras de rádio, os jornais e os próceres da OEA [1]. O coronel Castillo Armas, graduado em Fort Leavenworth, Kansas, comandou contra seu próprio país tropas treinadas e equipadas nos Estados Unidos. O bombardeio de F-47, com pilotos norte-americanos, respaldou a invasão. “Tivemos de nos livrar de um governo comunista que havia assumido o poder”, diria Dwight Eisenhower [2] nove anos depois. As declarações do embaixador norte-americano em Honduras a uma subcomissão do Senado dos Estados Unidos, em 27 de julho de 1961, revelaram que a operação libertadora de 1954 foi realizada por uma equipe da qual faziam parte, além dele mesmo, os embaixadores na Guatemala, Costa Rica e Nicarágua. Allen Dulles, que naquela época era o homem número 1 da CIA, enviou-lhes telegramas cumprimentando os pela missão cumprida. Anteriormente, o bom Allen integrara a diretoria da United Fruit Co. Um ano depois da invasão, sua cadeira na empresa foi ocupada por outro dirigente da CIA, o general Walter Bedell Smith. Foster Dulles, irmão de Allen, estava impaciente ao extremo na conferência da OEA que autorizou a expedição militar contra a Guatemala. Casualmente, tinham sido redigidas em seu escritório de advogado, ao tempo do ditador Ubico, as minutas dos contratos da United Fruit.
     A queda de Arbenz marcou a fogo a história posterior do país. As mesmas forças que bombardearam a cidade da Guatemala, Puerto arrios e San José, no entardecer do dia 18 de junho de 1954, estão hoje no poder. Várias e ferozes ditaduras sucederam-se à intervenção estrangeira, incluído o período de Julio César Méndez Montenegro (1966-70), que deu à ditadura uma aparência de regime democrático. Méndez Montenegro, que prometera uma reforma agrária, limitou-se a assinar uma autorização para que os terras tenentes portassem armas e as usassem. A reforma agrária de Arbenz se despedaçou quando Castillo Armas desincumbiu-se de sua tarefa, devolvendo as terras à United Fruit e a outros terras-tenentes expropriados.
     O ano de 1967 foi o pior do ciclo de violência inaugurado em 1954. Um sacerdote católico norte americano expulso da Guatemala, o padre Thomas Melville, informou ao National Catholic Reporter, em janeiro de 1968: em pouco mais de um ano, os grupos terroristas de direita assassinaram mais de dois mil e 800 intelectuais, estudantes, dirigentes sindicais e camponeses que “tentaram combater as enfermidades da sociedade guatemalteca”. O cálculo do padre Melville foi feito com base nas informações da imprensa, mas da maioria dos cadáveres ninguém jamais ficou sabendo: eram índios sem origem e sem nome conhecidos, que o exército de vez em quando incluía, só como números, nos comunicados sobre as vitórias contra a subversão. A repressão indiscriminada era parte da campanha militar de “cerco e aniquilação” de movimentos guerrilheiros. De acordo com o novo código em vigência, os membros das forças de segurança não tinham responsabilidade penal por homicídios, e os comunicados policiais ou militares eram considerados provas plenas em juízo. Os fazendeiros e seus administradores foram legalmente equiparados à qualidade de autoridades locais, com direito a porte de arma e de organizar forças repressivas. Não vibraram os teletipos do mundo com os “furos” da sistemática chacina, não chegaram à Guatemala jornalistas ávidos de notícias, não se ouviram vozes de condenação. O mundo virava as costas enquanto a Guatemala sofria uma longa noite de São Bartolomeu. A aldeia Cajón del Río ficou sem homens, os da aldeia Tituque tiveram as tripas revolvidas a punhal, os de Piedra Parada foram escalpelados vivos, e queimados vivos os de Agua Blanca de Ipala, depois de baleados nas pernas; no centro da praça de São Jorge cravaram numa haste a cabeça de um camponês rebelde. Em Cerro Gordo, encheram de alfinetes as pupilas de Jaime Velázquez; o corpo de Ricardo Miranda foi encontrado com 38 perfurações, e a cabeça de Haroldo Silva, sem o corpo de Haroldo Silva, foi parar à beira da estrada para São Salvador; em Los Mixcos, cortaram a língua de Ernesto Chinchilla; na fonte de Ojo de Agua, os irmãos Oliva Aldana foram costurados a tiros com as mãos atadas às costas e os olhos vendados; o crânio de José Guzmán se tornou um quebra-cabeça de minúsculas lascas atiradas pelo caminho; dos poços de San Lucas Sacatepequez emergiam mortos em vez de água; os homens amanheciam sem mãos e sem pés na fazenda Miraflores. Às ameaças seguiam-se as execuções, ou chegava a morte, sem aviso, pela nuca; nas cidades, eram marcadas com cruzes negras as portas dos sentenciados. Eram metralhados ao sair, e seus corpos lançados em barrancos.
     A violência não cessou depois. Ao longo do tempo de desprezo e cólera inaugurado em 1954, a violência foi e continua sendo uma transpiração natural da Guatemala. Continuaram aparecendo, um a cada cinco horas, os cadáveres nos rios ou à beira das estradas, os rostos irreconhecíveis, desfigurados pela tortura, que jamais serão identificados; também continuaram, e com maior intensidade, as matanças mais secretas: os corriqueiros genocídios da miséria. Outro sacerdote expulso, o padre Blase Bonpane, denunciava no Washington Post, em 1968, essa sociedade enferma: “Das 70 mil pessoas que a cada ano morrem na Guatemala, 30 mil são crianças. A taxa de mortalidade infantil da Guatemala é 40 vezes mais alta do que a dos Estados Unidos”.

continua na página 185...
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[1] GALEANO, Eduardo. Guatemala, país ocupado. México, 1967.
[2] Discurso na American Booksellers Association, Washington, 10 de junho de 1963.

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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Quem desencadeou a violência na Guatemala? (18)

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