sexta-feira, 6 de março de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (4)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO II
A   MÃE

continuando...

     Colette descreve em L'Étoile Vésper essa fase da gravidez.

Insidiosamente, sem pressa, a beatitude das mulheres grávidas me invadia. Eu não era mais tributária de nenhum mal-estar, de nenhuma desgraça. Euforia, ronrom, que nome — o cientifico ou o familiar — dar a essa preservação? E por certo me satisfez inteiramente, eis que não a esqueço. A gente se cansa de calar o que nunca disse, no caso o estado de orgulho, de magnificência trivial que experimentava a preparar meu fruto.. . Cada noite dizia um pouco adeus a um dos bons momentos de minha vida. Bem sabia que os lamentaria, Mas a alegria, o ronrom, a euforia submergiam tudo e reinavam em mim a doce animalidade a indolência com que meu peso maior e os surdos apelos da criatura que eu formava me cumulavam. 
Sexto, sétimo mês... Primeiros morangos, primeiras rosas. Posso considerar minha gravidez de outra forma senão como uma longa festa? Esquecem-se as torturas do fim, não se esquece a longa festa única; eu nada esqueci. Lembro-me principalmente de que o sono, em horas caprichosas, se apoderava de mim e eu era resolicitada, como na minha infância, pela necessidade de dormir no chão, na relva e na terra quente. Único "desejo", desejo sadio. 
Ao chegar ao fim, tinha um ar de um rato carregando um ovo roubado. Incômoda a mim mesma, sentia-me por vezes demasiado cansada para deitar-me... Sob o peso, sob a fadiga, minha longa festa não se interrompia ainda. Carregavam-me sobre um broquel de privilégios e cuidados...

     Essa gravidez feliz, diz-nos Colette. uma de suas amigas a denominou "gravidez de homem". Ela se apresenta, com efeito, como o tipo dessas mulheres que suportam corajosamente seu estado, porque nele não se absorvem. Continuava ao mesmo tempo a trabalhar como escritora. "O filho manifestou que chegaria em primeiro lugar e eu aparafusei a tampa de minha caneta--tinteiro." 
     Outras mulheres sentem mais pesadamente a gravidez; ruminam indefinidamente sua nova importância. Por pouco que as encorajem, retomam por sua conta os mitos masculinos: opõem à lucidez do espírito a noite fecunda da Vida, à consciência clara os mistérios da interioridade, à liberdade fértil o peso do ventre em sua enorme facticidade; a futura mãe sente-se humo e gleba, fonte e raiz; quando adormece, seu sono é o do caos em que fermentam mundos. Outras há que, mais desprendidas de si, se encantam principalmente com o tesouro de vida que cresce nelas. É essa alegria que exprime Cécile Sauvage em seus poemas l"Âme en Bourgeon:

Tu me pertences como a aurora à planície 
Ao redor de ti a vida é uma lã quente 
Em que teus membros friorentos crescem em segredo.

     E mais adiante:

O tu que acarinho com temor em acolchoado 
Pequena alma em botão presa a minha flor 
Com um pedaço de meu coração formo teu coração 
Ó meu fruto macio, pequena boca úmida [1].

[1] Tu m'appartiens ainsi que l'aurore à la plaine 
     Autour de toi rna vie est une chaude laine 
     Où tes membres frileux poussent dans le secret. 

     O toi que je cajole avec crainte dans l'ouate 
     Petite âme en bourgeon attachée à ma fleur 
     D'un morceau de mon coeur je façonne ton coeur 
     O mon fruit cotonneux, petite bouche moite.

     E numa carta ao marido:

É engraçado, parece-me que assisto à formação de um ínfimo planeta e lhe modelo o globo frágil. Nunca estive tão perto da vida. Nunca senti tão bem que sou irmã da terra com as vegetações e as seivas. Meus pés andam sobre a terra como sobre um animal vivo. Penso no dia cheio de flautas, de abelhas acordadas, de orvalho, pois eis que ele se retesa e agita em mim. Se soubesses que frescor de primavera e de juventude essa alma em botão põe em meu coração. E dizer que é a alma infantil de Pierrot e que ela elabora na noite de meu ser dois grandes olhos de infinito semelhantes aos dele.

     Em compensação, as mulheres que são profundamente coquetes, que se apreendem essencialmente como objeto erótico, que se amam na beleza de seu corpo, sofrem ao se verem deformadas, feias, incapazes de suscitar o desejo. A gravidez não se apresenta a elas como uma festa ou um enriquecimento e sim como uma diminuição de seu eu.
     Lê-se, entre outras coisas, em Minha Vida de Isadora Duncan:

O filho dava agora sinais de sua presença... mármore distendia-se, quebrava-se. deformava-se... Meu belo corpo de Andando à beira--mar, eu sentia por vezes um excesso de força e de vigor e dizia a mim mesma por vezes que essa criaturinha seria minha, só minha; mas outros dias... tinha a impressão de ser um pobre animal caído numa armadilha... Com alternativas de esperança e de desespero, pensava muitas vezes nas peregrinações de minha mocidade, meus passeios sem objetivo, minhas descobertas da arte e tudo isso que não passava de um prólogo antigo, perdido na bruma que levava à espera de um filho, obra-prima ao alcance de qualquer camponesa... Comecei a ser vítima de toda espécie de temores. Em vão eu me dizia que todas as mulheres têm filhos. Era algo natural e no entanto eu .tinha medo. Medo de quê? Não da morte por certo, nem dos sofrimentos, tinha um medo desconhecido do que não conhecia. Cada vez mais meu corpo se deformava ante meus olhos espantados. Onde minhas graciosas formas juvenis de náiade? Onde minha ambição, meu renome? Amiúde, a despeito de mim mesma, sentia-me miserável e vencida. A luta contra a vida esta gigante, era desigual; mas então pensava no filho que ia nascer e toda a minha tristeza se dissipava. Horas cruéis de espera dentro da noite. Como pagamos caro a glória de ser mãe!...

     No último estádio da gravidez, esboça-se a separação entre a mãe e o filho. As mulheres sentem de maneira diferente seu primeiro movimento, o pontapé dado às portas do mundo, contra a parede do ventre que o encerra longe do mundo. Algumas acolhem com deslumbramento esse sinal que anuncia a presença de uma vida autônoma; outras se imaginam com repugnância como o receptáculo de um indivíduo estranho a elas. Novamente, a união do feto com o corpo materno perturba-se: o útero desce, a mulher tem uma sensação de pressão, de tensão, de dificuldades respiratórias. É possuída, dessa feita, não pela espécie indistinta, mas pelo filho que vai nascer; não passava até então de uma imagem, uma esperança e eis que se torna pesadamente presente. Sua realidade cria novos problemas. Toda passagem é angustiante: o parto apresenta-se particularmente assustador. Quando a mulher se aproxima da data final, todos os seus terrores infantis se reanimam; se em virtude de um sentimento de culpa ela se acredita amaldiçoada pela mãe, persuade-se de que vai morrer ou de que o filho morrerá. Tolstoi pintou em Guerra e Paz, sob os traços de Lise, uma dessas mulheres infantis que veem no parto uma condenação à morte: e morre, com efeito.
     O parto assumirá, segundo os casos, um caráter muito diferente: a mãe almeja ao mesmo tempo guardar no ventre o tesouro de carne que é um pedaço preciso de seu eu e desembaraçar-se de um importuno; quer seu sonho nas mãos, mas tem medo das novas responsabilidades que vai criar essa materialização: um ou outro desejo pode vencer, mas muitas vezes ela se divide. Muitas vezes também não é com resolução firme que enfrenta a angustiante experiência: quer provar a si mesma e provar aos seus — mãe, marido — que é capaz de superá-la sem ajuda; mas, ao mesmo tempo, odeia o mundo, a vida, os parentes, por causa dos sofrimentos que lhe são infligidos, e adota, como protesto, uma conduta passiva. As mulheres independentes — matronas ou mulheres viris — fazem questão de desempenhar um papel ativo nos momentos que precedem o parto e durante o próprio parto. As muito infantis abandonam-se passivamente à parteira, à mãe; algumas põem seu orgulho em não gritar; outras recusam quaisquer conselhos. De maneira geral pode-se dizer que exprimem nessa crise sua atitude profunda em relação ao mundo em geral, e sua maternidade em particular: são estoicas, resignadas, reivindicadoras, imperiosas, revoltadas, inertes, tensas. . . Tais disposições psicológicas têm enorme influência na duração e na dificuldade do parto (que dependem também, naturalmente, de fatores puramente orgânicos). O que é significativo é que, normalmente, a mulher — como certas fêmeas de animais domésticos — precisa de auxílio para cumprir a função a que a natureza a destina; há porém camponesas de hábitos rudes e mães solteiras que dão à luz sozinhas: mas sua solidão acarreta muitas vezes a morte do filho ou doenças incuráveis na mãe. No próprio momento em que acaba de realizar seu destino feminino é ainda a mulher dependente: o que prova que também na espécie humana a natureza não se distingue nunca do artifício. Naturalmente o conflito entre o interesse do indivíduo feminino e o da espécie é tão agudo que acarreta às vezes a morte da mãe ou a do filho: são as intervenções humanas da medicina, da cirurgia, que diminuíram consideravelmente (quase eliminaram) os acidentes antes tão frequentes. Os métodos da anestesia estão desmentindo a afirmação bíblica: "Conceberás na dor"; correntemente utilizados na América do Norte, começam a vulgarizar-se na França; em março de 1949, um decreto tornou-os obrigatórios na Inglaterra[2].

[2] Já disse que certos antifeministas se indignavam em nome da Natureza e da Bíblia por pretenderem suprimir os sofrimentos do parto; tais sofrimentos seriam uma das fontes do "instinto" materno. H. Deutsch parece seduzida por essa opinião; quando a mãe não sentiu o trabalho do parto, não reconhece profundamente o filho como seu no momento em que lhe apresentam, diz ela; entretanto reconhece que o mesmo sentimento de vazio e estranheza se encontra também nas parturientes que sofreram; e sustenta em seu livro que o amor materno é um sentimento, uma atitude consciente e não um instinto: que não está necessariamente ligado à gravidez; a seu ver, uma mulher pode amar maternalmente um filho adotivo, o filho que o marido teve do primeiro casamento etc. Essa contradição provém evidentemente do fato de ter ela destinado a mulher ao masoquismo e de que sua tese a obriga a conceder um grande valor aos sofrimentos femininos.

     É difícil saber quais são os sofrimentos que poupam exatamente à mulher. O fato de o parto durar por vezes mais de vinte e quatro horas e, por vezes, terminar em duas ou três horas, impede qualquer generalização. Para certas mulheres, o parto é um martírio. É o caso de Isadora Duncan: ela vivera sua gravidez na angústia e sem dúvida resistências psíquicas agravaram ainda mais as dores do parto. Eis o que escreve:

Pode-se dizer o que se quiser da Inquisição espanhola, nenhuma mulher que teve um filho poderia temê-la. Era um brinquedo em comparação. Sem trégua, sem parada, sem piedade, esse gênio invisível e cruel me tinha em suas garras, partia-me ossos e nervos. Dizem que tais sofrimentos são rapidamente esquecidos. Tudo o que posso responder é que me basta fechar os olhos para ouvir de novo meus gritos e minhas queixas. 

     Certas mulheres consideram ao contrário que é uma prova relativamente fácil de suportar. Pequeno número encontra nela um prazer sensual.

Sou um ser tão sexual que até o parto é para mim um ato sexual, escreve uma[3]. Tinha uma "Madame" muito bonita. Ela me banhava e dava-me injeções. Bastava isso para me pôr num estado de grande excitação, com arrepios nervosos. 

[3] Paciente cuja confissão, que parcialmente resumimos, foi recolhida por Stekel.

     Algumas há que dizem ter experimentado durante o parto uma impressão de poder criador; realizaram realmente um trabalho voluntário e produtor; muitas, ao contrário, sentiram-se passivas, instrumento sofrido, torturado.
     
continua página 273...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (4)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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