quinta-feira, 26 de março de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (7)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO II
A   MÃE

continuando...

     Outra atitude assaz frequente, e não menos nefasta à criança, é a dedicação masoquista; certas mães, para compensar o vazio de seu coração e se punir de uma hostilidade que não querem confessar, tornam-se escravas da progenitura; cultivam indefinidamente uma ansiedade mórbida, não suportam que o filho se afaste delas; renunciam a quaisquer prazeres, a toda vida pessoal, o que lhes permite assumirem atitudes de vítima; e tiram desse sacrifício o direito de negar ao filho toda independência; essa renúncia concilia-se facilmente com uma vontade tirânica de domínio; a mater dolorosa faz de seus sofrimentos uma arma que emprega sadicamente; suas cenas de resignação engendram na criança sentimentos de culpa que muitas vezes pesarão em toda a sua vida e que são mais nocivos ainda do que as cenas agressivas. Hesitante, desnorteada, a criança não encontra nenhuma atitude de defesa: ora as pancadas, ora as lágrimas a denunciam como criminosa. A grande desculpa da mãe está em que o filho não lhe proporciona nem de longe a feliz realização de si mesma que lhe prometeram desde a infância: culpa-o da mistificação de que foi vítima e que inocentemente ele denuncia. Ela dispunha das suas bonecas à vontade; e quando ajudava a cuidar do bebê de uma irmã, era sem responsabilidade que o fazia.
     Agora a sociedade, o marido, a mãe e seu próprio orgulho exigem que preste contas daquela pequena vida estranha como se fosse obra sua: o marido em particular irrita-se com os defeitos do filho como se irritaria com um mau jantar ou com a má conduta da mulher; suas exigências abstratas pesam muitas vezes fortemente nas relações entre mãe e filho; uma mulher independente — graças à sua solidão, sua despreocupação ou sua autoridade no lar — será muito mais serena do que aqueles sobre quem pesam vontades dominadoras a que devem, queiram ou não, obedecer, fazendo o filho obedecer. Pois a grande dificuldade consiste em encerrar em quadros previstos uma existência misteriosa como a dos animais, turbulenta e desordenada como a das forças naturais, e no entanto, humana; não se pode educar a criança em silêncio, como se faz com um cão, nem persuadi-la com palavras de adulto; ela joga com esse equívoco, opondo às palavras a animalidade de seus soluços e de suas convulsões e, aos constrangimentos, a insolência da linguagem. Sem duvida o problema assim posto é apaixonante e, quando tem lazeres, a mãe compraz-se em ser uma educadora: tranquilamente instalado no jardim público, o bebê é ainda um álibi, como no tempo em que se aninhava no ventre materno; muitas vezes, tendo permanecido mais ou menos infantil, a mãe se encanta com brincar com ele, ressuscitando os jogos, as palavras, as preocupações, as alegrias dos tempos idos. Mas quando ela lava, cozinha, amamenta outro filho, vai à feira, recebe visitas e principalmente quando se ocupa do marido, o filho já se torna uma presença importuna, exaustiva; ela não tem tempo para "formá-lo", cumpre antes de tudo impedi-lo de perturbar, pois ele quebra, rasga, suja, é um perigo constante para os objetos e para si próprio; agita-se, grita, fala, faz barulho: vive por sua conta e essa vida atrapalha a dos pais. Os interesses de uns e outro não se ajustam, daí o drama. Atormentados incessantemente por ele, os pais lhe infligem sem cessar sacrifícios cujas razões ele não compreende: sacrificam-no à sua tranquilidade e também ao futuro dele. É natural que ele se revolte. Não entende as explicações que a mãe tenta dar-lhe: não pode penetrar na consciência do filho, cujos sonhos, fobias, obsessões, desejos formam um mundo opaco: a mãe só pode regulamentar de fora, às apalpadelas, um ser que sente essas leis abstratas como uma violência absurda. Quando o filho cresce, a incompreensão continua: ele entra em um mundo de interesses, de valores, de que a mãe se acha excluída; muitas vezes, ele a despreza. O menino, particularmente, orgulhoso de suas prerrogativas masculinas, zomba das ordens de uma mulher: ela exige que faça suas lições, mas não poderia resolver os problemas do filho, nem traduzir um texto em latim; não pode "acompanhá-lo". A mãe enerva-se por vezes até às lágrimas nessa tarefa ingrata cuja dificuldade o marido raramente mede: governar um ser com quem não se comunica e que no entanto é um ser humano; imiscuir-se numa liberdade estranha que não se define e afirma senão pela revolta.
     A situação é diferente segundo o sexo da criança e, embora no caso de um menino a coisa seja mais "difícil", em geral a mãe a ela se ajeita melhor. Por causa do prestígio de que a mulher reveste os homens, e também dos privilégios que estes detêm concretamente, muitas mulheres desejam filhos de preferência a filhas. "É maravilhoso pôr no mundo um homem!", dizem; vimos que sonham com engendrar um "herói" e o herói é evidentemente do sexo masculino. O filho será um chefe, um condutor de homens, um soldado, um criador; imporá sua vontade sobre a terra e a mãe participará de sua imortalidade. As casas que ela não construiu, os países que não explorou, os livros que não leu, ele os dará. Através dele ela possuirá o mundo: mas à condição de dominá-lo. Daí o paradoxo de sua atitude. Freud considera que a relação da mãe com o filho é a que comporta menos ambivalência; mas, em verdade, na maternidade, como no casamento e no amor, a mulher tem uma atitude equívoca em relação à transcendência masculina; se sua vida conjugal ou amorosa a tornou hostil aos homens, será para ela uma satisfação dominar o macho reduzido a sua figura infantil. Ela tratará com uma familiaridade irônica o sexo de pretensões arrogantes: por vezes assustará a criança, anunciando-lhe que o arrancarão, se ele não se comportar direito. Mesmo que, mais humilde, mais pacífica, respeite no filho o futuro herói, a fim de que seja realmente seu, ela se esforça para reduzi-lo à sua realidade imanente: assim como trata o marido como criança, trata o filho como bebê. É demasiado racional, demasiado simples pensar que deseja castrar o filho; seu sonho é mais contraditório: ela o quer infinito e, no entanto, cabendo na palma da mão, dominando o mundo inteiro, mas de joelhos diante dela. Incita-o a mostrar-se sensível, guloso, generoso, tímido, sedentário, proíbe-lhe a prática dos esportes, a camaradagem, torna-o desconfiado de si mesmo, porque pretende tê-lo para si; mas fica decepcionada se ele não se torna ao mesmo tempo um aventureiro, um campeão, um gênio de que pudesse orgulhar-se. Que sua influência seja amiúde nefasta — como o afirmou Montherjant, como mostrou Mauriac em Génitrix — é fato indiscutível. Felizmente, para ele, o menino pode assaz facilmente escapar a esse domínio; os costumes, a sociedade encorajam-no, e a própria mãe se resigna a isso: sabe que a luta contra o homem é desigual. Consola-se fazendo-se de mater dolorosa ou ruminando o orgulho de ter engendrado um de seus vencedores.
     A menina é mais totalmente dependente da mãe: com isso, as pretensões desta aumentam. Suas relações assumem um caráter muito mais dramático. Na filha, a mulher não saúda um membro da casta eleita; nela procura seu duplo. Projeta nela toda a ambiguidade de sua relação própria; e quando se afirma a alteridade desse alter ego, sente-se traída. É entre mãe e filha que os conflitos de que falamos assumem formas exasperadas. Há mulheres que se acham suficientemente satisfeitas com a vida para desejar reencarnar-se numa filha ou, pelo menos, acolhe-la sem decepção; desejarão dar à filha as possibilidades que tiveram e também as que não tiveram: proporcionar-lhe-ão uma juventude feliz. Colette deu-nos o retrato de uma dessas mães equilibradas, generosas: Sido ama a filha em sua liberdade, cumula-a de satisfações sem nada exigir, porque tira sua alegria de seu próprio coração. É possível que, dedicando-se a esse duplo em quem se reconhece e se ultrapassa, a mãe acabe por se alienar inteiramente nele; renuncia a seu eu, sua única preocupação é a felicidade da filha; mostrar-se-á mesmo egoísta e dura para com o resto do mundo; o perigo que corre é de se tornar importuna a quem adora, como Mme de Sévigné o foi para Mme de Grignan; a filha tentará, com mau humor, desembaraçar-se de uma dedicação tirânica; muitas vezes não o consegue e fica a vida inteira infantil, tímida ante suas responsabilidades por ter sido demasiado "mimada". Mas é principalmente certa forma masoquista da maternidade que ameaça pesar fortemente sobre a jovem. Certas mulheres sentem sua feminilidade como uma maldição absoluta: desejam ou acolhem uma filha com o amargo prazer de se reencontrar em outra vítima; e, ao mesmo tempo, julgam-se culpadas de a ter dado à luz; seus remorsos, a piedade que sentem por si mesmas através da filha traduzem-se por ansiedades infinitas; não largarão essa filha um só instante; dormirão na mesma cama durante quinze, vinte anos; a menina será aniquilada pelo fogo dessa paixão inquieta.
     Em sua maioria, as mulheres reivindicam, e ao mesmo tempo detestam, sua condição feminina; é no ressentimento que vivem. O nojo que experimentam por seu sexo poderia incitá-las a dar a suas filhas uma educação viril: raramente são bastante generosas. Irritada por ter engendrado uma mulher, a mãe acolhe-a com esta equívoca maldição: "Serás uma mulher". Espera resgatar sua inferioridade fazendo de quem encara como seu duplo uma criatura superior; tende também a infligir-lhe a tara de que sofreu. Por vezes procura impor à filha exatamente o seu próprio destino: "O que foi bastante bom para mim, sê-lo-á igualmente para ti; assim foi que me educaram, terás a mesma sorte". Outras vezes, ao contrário, proíbe-lhe que se assemelhe a ela: quer que sua experiência sirva, é uma maneira de refazer a vida. A mulher galante põe a filha num convento, a ignorante faz a filha instruir-se. Em L'Asphyxie, a mãe, que vê na filha a consequência detestada de um erro de mocidade, diz-lhe com furor:

Vê se compreendes. Se te acontecesse coisa igual, eu te renegaria. Eu não sabia nada. O pecado! É vago o pecado! Se um homem te chamar, não vás. Segue teu caminho. Não te voltes. Compreendes? Estás prevenida, é preciso que isso não te aconteça e se te acontecesse eu não teria nenhuma piedade, te largaria na sarjeta.

     Vimos que a Sra. Mazetti levara a filha ao erro à força de querer poupar-lhe a falta que ela própria cometera. Stekel conta um caso complexo de ódio materno para com uma filha:

Conhecia uma mãe que, desde o momento do nascimento, não podia suportar sua quarta filha, uma criaturinha encantadora e gentil... Acusava-se de ter herdado todos os defeitos do marido... A menina nascera numa época em que outro homem a cortejara, um poeta por quem se apaixonara perdidamente; esperava que, como nas Afinidades Eletivas de Goethe, a criança tivesse os traços do homem amado. Mas desde o nascimento a menina pareceu-se com o pai. Demais, a mãe via na criança seu próprio reflexo: o entusiasmo, a doçura, a dedicação, a sensualidade. Gostaria de ser forte, inflexível, dura, casta, enérgica. Na filha, detestava-se muito mais a si mesma do que ao marido.

     É quando a menina cresce que nascem verdadeiros conflitos; vimos que ela desejava afirmar sua autonomia contra a mãe: aos olhos desta há nisso um traço de ingratidão odiosa; obstina-se em "subjugar" essa vontade que lhe foge; não aceita que seu duplo se torne uma outra. O prazer de se sentir absolutamente superior, que o homem experimenta junto das mulheres, a mulher só o conhece junto dos filhos e em particular das filhas; sente-se frustrada se precisa renunciar a seus privilégios, à sua autoridade. Mãe apaixonada ou mãe hostil, a independência dos filhos arruina-lhe as esperanças. É duplamente ciumenta: do mundo que lhe toma a filha, da filha que, conquistando uma parte do mundo, a rouba. Esse ciúme volta-se primeiramente para as relações da menina com o pai; amiúde a mãe vale-se da filha para prender o marido ao lar: em caso de malogro, fica despeitada, mas se a manobra dá certo ela é tentada a reavivar, sob uma forma invertida, seu complexo infantil: irrita-se contra a filha como outrora contra a própria mãe; emburra, imagina-se abandonada e incompreendida. Uma francesa, casada com um estrangeiro e que gostava muito das filhas, disse um dia com raiva: "Estou farta de viver com metecos!" Muitas vezes a mais velha, predileta do pai, é particularmente alvo das perseguições maternas. A mãe acabrunha-a com tarefas ingratas, exige dela uma seriedade acima da idade; uma vez que é uma rival, será tratada como adulta; ficará sabendo, ela também, "que a vida não é um romance, que nem tudo é cor-de-rosa, que não se faz o que se quer, que não se está no mundo para se divertir. .." Frequentemente, a mãe estapeia a criança por um sim e por um não, simplesmente "para ensinar-lhe"; entre outras coisas, faz questão de provar que continua a ser quem manda; o que mais a irrita é não ter nenhuma superioridade verdadeira a opor a uma criança de 11 a 12 anos; esta já está apta a desincumbir-se das tarefas caseiras; é "uma mulherzinha"; tem mesmo uma vivacidade, uma curiosidade, uma lucidez que a tornam, sob muitos aspectos, superior às mulheres adultas. A mãe compraz-se em reinar sem contestação sobre seu universo feminino; quer-se a si mesma única, insubstituível e eis que a jovem assistente a reduz à pura generalidade de suas funções. Ralha duramente com a filha se, após dois dias de ausência, encontra a casa em desordem, mas cai furiosamente em transe se verifica que a vida familiar prosseguiu perfeitamente sem ela. Não aceita que a filha se torne verdadeiramente um duplo, uma substituta. Entretanto, é-lhe muito mais intolerável ainda que a filha se afirme francamente como outra. Detesta sistematicamente as amigas em que a filha busca auxílio contra a opressão familiar e que "lhe enchem a cabeça"; ou, tomando como pretexto a "má influência" delas, proíbe-lhe radicalmente que as frequente. Toda influência que não for a sua é má; tem uma animosidade particular contra as mulheres da mesma idade que ela — professoras, outras mães — para as quais a menina volta sua afeição; declara que tais sentimentos são absurdos ou perniciosos. Basta para a exasperar, por vezes, a alegria, a despreocupação dos jogos e risos da criança; perdoa-os com mais boa vontade aos meninos; estes aproveitam seu privilégio de machos, é natural, ela já renunciou de há muito a uma impossível competição. Mas por que essa outra mulher gozaria de vantagens que lhe são recusadas? Presa às armadilhas da seriedade, inveja todas as ocupações e os divertimentos que arrancam a menina ao tédio do lar; essa evasão é um desmentido a todos os valores pelos quais se sacrificou. Quanto mais a filha cresce, mais o rancor rói o coração materno; cada ano encaminha a mãe para seu declínio; de ano em ano o corpo juvenil se afirma, desabrocha, esse futuro que se abre à frente da filha, parece à mãe que lhe roubam; daí é que vem a irritação de certas mulheres quando as filhas têm as primeiras regras; querem-lhes mal por se acharem desde então mulheres. A essa recém-chegada oferecem-se, contra a repetição e a rotina que são o quinhão da mais velha, possibilidades ainda indefinidas: são estas oportunidades que a mãe inveja e detesta; não podendo fazê-las suas, tenta constantemente diminuí-las, suprimi-las: prende a filha em casa, vigia-a, tiraniza-a, recusa-lhe todos os lazeres, propositadamente veste-a de modo ridículo, fica furiosa se a adolescente se pinta, se "sai"; todo seu rancor contra o mundo, ela o dirige contra essa jovem vida que se lança para um futuro novo; tenta humilhar a jovem, ridiculariza suas iniciativas, amarra-a. Uma luta aberta declara-se muitas vezes entre ambas; é normalmente a mais jovem que ganha, pois o tempo trabalha por ela; mas a vitória tem um gosto de pecado: a atitude da mãe engendra na filha revolta e remorso ao mesmo tempo; a simples presença da mãe faz dela uma culpada e vimos que esse sentimento pode agravar pesadamente a derrota; de boa ou má vontade, a mãe termina por aceitar sua derrota; quando a filha se torna adulta, uma amizade mais ou menos atormentada restabelece-se entre elas. Mas uma permanece desiludida, frustrada para sempre; a outra, muitas vezes, acredita-se perseguida por uma maldição.
     Voltaremos a tratar das relações que uma mulher idosa mantém com seus filhos adultos: mas é evidentemente durante os vinte primeiros anos que eles ocupam maior lugar na vida da mãe. A perigosa falsidade dos dois preconceitos geralmente admitidos decorre claramente da descrição que acabamos de fazer. O primeiro consiste em imaginar que a maternidade basta, em qualquer caso, para satisfazer uma mulher: não é verdade. Há muitas mulheres que são infelizes, azedas, insatisfeitas. O exemplo de Sofia Tolstoi, que teve doze partos, é significativo; não para de repetir em seu diário que tudo lhe parece inútil e vazio no mundo e em si mesma. Os filhos dão-lhe uma espécie de paz masoquista. "Com os filhos, não tenho mais o sentimento de ser jovem. Estou calma e feliz." Renunciar à sua mocidade, à sua beleza, à sua vida pessoal traz-lhe um pouco de calma; sente-se envelhecida, justificada. "O sentimento de lhes ser indispensável é para mim uma grande felicidade." Eles são uma arma que lhe permite recusar a superioridade do marido. "Meus únicos recursos, minhas únicas armas para restabelecer a igualdade entre nós, são os filhos, a energia, a alegria, a saúde..." Mas eles não bastam absolutamente para dar um sentido a uma existência corroída pelo tédio. A 25 de janeiro de 1905, após um momento de exaltação, ela escreve:

Eu também quero e posso tudo ¹. Mas logo que esse sentimento passa, verifico que não quero nem posso nada, nada senão cuidar dos bebês, comer, beber, dormir, amar meu marido e meus filhos, o Que em definitivo deveria ser a felicidade mas que me entristece e, como ontem, me dá vontade de chorar. 

(¹) O grifo é de Sofia Tolstoi.

     E onze anos mais tarde:

Consagro-me energicamente e com ardente desejo de acertar à educação dos filhos. Deus meu! Como sou impaciente, irascível, como grito!... Como é triste esta eterna luta com os filhos! 

continua página 290...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (7) 
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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