O Sol é para todos
Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto
Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB
SEGUNDA PARTE
29
Eu só conseguia pensar no sr. Bob Ewell dizendo que ia se vingar de Atticus, mesmo que fosse a última coisa que faria.
Quase conseguiu e foi a última coisa que fez.
— Tem certeza? — perguntou Atticus, desolado.
— Ele está morto — garantiu o sr. Tate. — Mortinho da silva. Não vai mais fazer mal a essas crianças.
— Não foi isso que eu quis dizer — apartou Atticus, como um sonâmbulo. Ele estava começando a mostrar a idade, seu
único sinal de inquietação: a linha forte do queixo tinha perdido um pouco a força, dava para notar rugas reveladoras se
formando e as mechas grisalhas nas têmporas se destacavam em meio aos cabelos pretos.
— Não acham melhor irmos para a sala? — perguntou finalmente tia Alexandra.
— Se me permite e se não incomodar Jem, prefiro ficar aqui. Quero dar uma olhada nos ferimentos dele enquanto Scout…
nos conta como foi — disse o sr. Tate.
— Posso me retirar? Acho que estou sobrando aqui — disse tia Alexandra. — Se precisar de mim, estou no meu quarto,
Atticus. — Ela se encaminhou para a porta mas parou e disse: — Atticus, tive um pressentimento sobre essa noite… Eu… A
culpa é minha, eu devia…
O sr. Tate levantou a mão.
— Pode ir, srta. Alexandra, sei que foi um choque para a senhora. E não se preocupe com nada; se fossemos ouvir os
nossos pressentimentos toda vez que temos um ficaríamos como gatos correndo atrás do próprio rabo… Srta. Scout, veja se
consegue nos contar o que houve enquanto as lembranças estão frescas. Acha que consegue? Viram Bob seguindo vocês?
Fui até Atticus e ele me abraçou. Enfiei o rosto no colo dele.
— Nós estávamos voltando para casa quando avisei a Jem que eu tinha esquecido os sapatos na escola. Íamos voltar para
pegar, mas as luzes se apagaram e Jem disse para eu pegar amanhã…
— Scout, fale mais alto para o sr. Tate ouvir — pediu Atticus. Sentei no colo dele.
— Jem disse para ficarmos quietos um instante. Achei que ele estava pensando, sempre pede silêncio para pensar. Ele
então disse que tinha ouvido algo. Pensamos que fosse Cecil.
— Quem é Cecil?
— Cecil Jacobs. Ele já tinha nos dado um susto hoje à noite, achamos que era ele de novo Apareceu coberto com um
lençol. Eles premiaram a melhor fantasia com uma moeda de vinte e cinco centavos, mas não sei quem ganhou…
— Onde estavam quando pensaram que era Cecil?
— Perto da escola. Gritei uma coisa para Cecil…
— Gritou o quê?
— Cecil Jacobs é uma galinha gorda, acho. Não ouvimos nada, então Jem gritou olá ou alguma outra coisa tão alto que era
capaz de despertar os mortos…
— Só um instante, Scout. Sr. Finch, o senhor os ouviu? — perguntou o sr. Tate.
Atticus disse que não, estava com o rádio ligado. Tia Alexandra também estava com o rádio ligado no quarto dela. Ele se
lembrava porque a tia tinha pedido para ele abaixar um pouco o som para ela poder ouvir o rádio dela. Atticus sorriu.
— Sempre ouço o rádio alto demais.
— Será que os vizinhos ouviram alguma coisa… — supôs o sr. Tate.
— Duvido, Heck. Quase todos ouvem rádio ou vão dormir com as galinhas. Maudie Atkinson podia estar acordada, mas
duvido.
— Continue, Scout — pediu o sr. Tate.
— Bom, depois que Jem gritou, continuamos andando. Eu estava de fantasia, mas dessa vez dava para ouvir os passos; eles
andavam e paravam junto conosco. Jem disse que conseguia me ver porque a sra. Crenshaw passou uma tinta que brilha na
minha fantasia de presunto.
— Fantasia de quê? — perguntou o sr. Tate, pasmo.
Atticus então explicou o meu personagem e a armação da fantasia.
— Você precisava ver quando ela chegou, a fantasia estava toda amassada, uma maçaroca — disse ele.
O sr. Tate coçou o queixo.
— Agora entendo por que ele tinha aquelas marcas nos braços. E as mangas tinham pequenos furos que coincidem com as
marcas. Deixe-me ver a fantasia, senhor.
Atticus foi buscar o que restava da minha fantasia. O sr. Tate virou-a do avesso e ajeitou a armação de arame para ter uma
ideia do formato original.
— Essa roupa provavelmente salvou a vida dela — disse ele. — Veja.
Ele apontou com o longo dedo. Uma linha brilhante e nítida se destacava no arame opaco.
— Bob Ewell não estava de brincadeira — murmurou o sr. Tate.
— Ele estava fora de si — acrescentou Atticus.
— Não gosto de contradizer o senhor, sr. Finch, mas ele não estava maluco, ele era ruim como o diabo. Era um patife da
pior espécie com a cabeça cheia de bebida o suficiente para ter coragem de matar crianças. Ele nunca teria coragem de
enfrentar o senhor cara a cara.
Atticus balançou a cabeça.
— Não posso conceber um homem que…
— Sr. Finch, há um tipo de homem em quem devemos dar um tiro antes mesmo de cumprimentá-los. Mesmo assim, eles não
valem a bala que gastamos. Ewell era um desses.
Atticus disse:
— Achei que ele tinha colocado tudo para fora com a ameaça que me fez aquele dia. Mesmo que não tivesse me ameaçado,
achei que ele viria atrás de mim.
— Ele teve a coragem de perseguir uma pobre negra, de ir atrás do juiz Taylor quando pensou que a casa estava vazia.
Você acha que ele ia atrás de você à luz do dia? — o sr. Tate suspirou. — É melhor continuarmos o relato. Scout, você o
ouviu atrás de vocês…
— Foi. Quando chegamos embaixo da árvore…
— Como sabia que estava embaixo da árvore se não dava para enxergar um palmo diante do nariz lá fora?
— Eu estava descalça e Jem diz que a terra é mais fria embaixo das árvores.
— Vamos ter de nomeá-lo assistente de investigação. Continue.
— Então, de repente, alguma coisa me agarrou e amassou a minha fantasia… Acho que caí no chão… Ouvi… uma luta
embaixo da árvore… Parecia que estavam se chocando contra a árvore. Jem me achou e foi me empurrado para a estrada.
Alguém… o sr. Ewell o derrubou. Eles lutaram mais e ouvi um barulho estranho… Jem gritou.
Parei de falar. O barulho era do braço de Jem se quebrando.
— De todo jeito, Jem gritou e não ouvi mais nada, depois… O sr. Ewell estava tentando me estrangular, acho… Então
alguém derrubou ele. Acho que Jem deve ter se levantado. É só isso que sei...
— E aí? — o sr. Tate me olhava, atento.
— Alguém veio tropeçando, ofegante, tossindo muito. Achei que era Jem, mas não parecia, então comecei a procurar por
ele no chão. Pensei que Atticus tinha vindo nos ajudar e tinha ficado cansado…
— Quem era?
— Ora, aquele ali, sr. Tate. Ele pode dizer como se chama.
Enquanto falava fiz menção de apontar para o homem que estava no canto, mas abaixei o braço rápido, pois Atticus podia
me dar uma bronca por fazer isso. Era falta de educação apontar para as pessoas.
O homem continuava encostado na parede, de braços cruzados. Já estava assim quando entrei no quarto e, quando apontei,
ele descruzou os braços e espalmou as mãos na parede. As mãos eram brancas, mãos doentiamente brancas, que nunca tinham
visto o sol, tão brancas que se destacavam na parede creme na penumbra do quarto de Jem.
Percorri com o olhar as mãos dele, as calças cáqui sujas de terra, o corpo magro, a camisa rasgada. O rosto era tão branco
quanto as mãos, exceto por uma sombra no queixo pontudo. As maçãs do rosto eram encovadas, a boca grande e nas têmporas
havia marcas leves, quase delicadas; os olhos cinzentos eram tão opacos que pensei que ele fosse cego. O cabelo era sem
brilho e fino, quase uma penugem no alto da cabeça.
Quando apontei para ele, as mãos escorregaram um pouco na parede, deixando marcas de suor, e ele enfiou os polegares
no cinto. Teve um pequeno tremor estranho, como se ouvisse alguém raspar as unhas numa lousa, mas quando olhei para ele
admirada, a tensão foi sumindo do seu rosto. A boca se abriu num sorriso tímido e a imagem do nosso vizinho ficou borrada
com as lágrimas que, de repente, encheram meus olhos.
— Oi, Boo — eu disse.
continua página 193...
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Leia também:
O Sol é para todos: 1ª Parte (1a) / O Sol é para todos: 1ª Parte (11a) / O Sol é para todos: 2ª Parte (12a)
O Sol é para todos: 2ª Parte (13) / O Sol é para todos: 2ª Parte (14) / O Sol é para todos: 2ª Parte (15a)
O Sol é para todos: 2ª Parte (16) / O Sol é para todos: 2ª Parte (17a) / O Sol é para todos: 2ª Parte (18a)
O Sol é para todos: 2ª Parte (18b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (19) / O Sol é para todos: 2ª Parte (20)
O Sol é para todos: 2ª Parte (21) / O Sol é para todos: 2ª Parte (22) / O Sol é para todos: 2ª Parte (23a) /
O Sol é para todos: 2ª Parte (23b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (24) / O Sol é para todos: 2ª Parte (25) /
O Sol é para todos: 2ª Parte (26) / O Sol é para todos: 2ª Parte (27) / O Sol é para todos: 2ª Parte (28a) /
O Sol é para todos: 2ª Parte (28b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (29) /
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês
TO KILL A MOCKINGBIRD
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.
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