sábado, 7 de março de 2026

O Sol é para todos: 2ª Parte (29)

Harper Lee

O Sol é para todos

Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB

SEGUNDA PARTE

29

      Tia Alexandra levantou-se e apoiou-se na cornija da lareira. O sr. Tate levantou-se para ajudá-la, mas ela o dispensou. Pela primeira vez na vida, a cortesia instintiva de Atticus não funcionou e ele continuou sentado.
     Eu só conseguia pensar no sr. Bob Ewell dizendo que ia se vingar de Atticus, mesmo que fosse a última coisa que faria. Quase conseguiu e foi a última coisa que fez. 

— Tem certeza? — perguntou Atticus, desolado. 
— Ele está morto — garantiu o sr. Tate. — Mortinho da silva. Não vai mais fazer mal a essas crianças. 
— Não foi isso que eu quis dizer — apartou Atticus, como um sonâmbulo. Ele estava começando a mostrar a idade, seu único sinal de inquietação: a linha forte do queixo tinha perdido um pouco a força, dava para notar rugas reveladoras se formando e as mechas grisalhas nas têmporas se destacavam em meio aos cabelos pretos. 
— Não acham melhor irmos para a sala? — perguntou finalmente tia Alexandra. 
— Se me permite e se não incomodar Jem, prefiro ficar aqui. Quero dar uma olhada nos ferimentos dele enquanto Scout… nos conta como foi — disse o sr. Tate. 
— Posso me retirar? Acho que estou sobrando aqui — disse tia Alexandra. — Se precisar de mim, estou no meu quarto, Atticus. — Ela se encaminhou para a porta mas parou e disse: — Atticus, tive um pressentimento sobre essa noite… Eu… A culpa é minha, eu devia…

     O sr. Tate levantou a mão. 

— Pode ir, srta. Alexandra, sei que foi um choque para a senhora. E não se preocupe com nada; se fossemos ouvir os nossos pressentimentos toda vez que temos um ficaríamos como gatos correndo atrás do próprio rabo… Srta. Scout, veja se consegue nos contar o que houve enquanto as lembranças estão frescas. Acha que consegue? Viram Bob seguindo vocês?

     Fui até Atticus e ele me abraçou. Enfiei o rosto no colo dele. 

— Nós estávamos voltando para casa quando avisei a Jem que eu tinha esquecido os sapatos na escola. Íamos voltar para pegar, mas as luzes se apagaram e Jem disse para eu pegar amanhã… 
— Scout, fale mais alto para o sr. Tate ouvir — pediu Atticus. Sentei no colo dele. 
— Jem disse para ficarmos quietos um instante. Achei que ele estava pensando, sempre pede silêncio para pensar. Ele então disse que tinha ouvido algo. Pensamos que fosse Cecil. 
— Quem é Cecil? 
— Cecil Jacobs. Ele já tinha nos dado um susto hoje à noite, achamos que era ele de novo Apareceu coberto com um lençol. Eles premiaram a melhor fantasia com uma moeda de vinte e cinco centavos, mas não sei quem ganhou… 
— Onde estavam quando pensaram que era Cecil? 
— Perto da escola. Gritei uma coisa para Cecil… 
— Gritou o quê? 
— Cecil Jacobs é uma galinha gorda, acho. Não ouvimos nada, então Jem gritou olá ou alguma outra coisa tão alto que era capaz de despertar os mortos… 
— Só um instante, Scout. Sr. Finch, o senhor os ouviu? — perguntou o sr. Tate.

     Atticus disse que não, estava com o rádio ligado. Tia Alexandra também estava com o rádio ligado no quarto dela. Ele se lembrava porque a tia tinha pedido para ele abaixar um pouco o som para ela poder ouvir o rádio dela. Atticus sorriu. 

— Sempre ouço o rádio alto demais. 
— Será que os vizinhos ouviram alguma coisa… — supôs o sr. Tate. 
— Duvido, Heck. Quase todos ouvem rádio ou vão dormir com as galinhas. Maudie Atkinson podia estar acordada, mas duvido. 
— Continue, Scout — pediu o sr. Tate. 
— Bom, depois que Jem gritou, continuamos andando. Eu estava de fantasia, mas dessa vez dava para ouvir os passos; eles andavam e paravam junto conosco. Jem disse que conseguia me ver porque a sra. Crenshaw passou uma tinta que brilha na minha fantasia de presunto. 
— Fantasia de quê? — perguntou o sr. Tate, pasmo.

     Atticus então explicou o meu personagem e a armação da fantasia. 

— Você precisava ver quando ela chegou, a fantasia estava toda amassada, uma maçaroca — disse ele.

     O sr. Tate coçou o queixo. 

— Agora entendo por que ele tinha aquelas marcas nos braços. E as mangas tinham pequenos furos que coincidem com as marcas. Deixe-me ver a fantasia, senhor.

     Atticus foi buscar o que restava da minha fantasia. O sr. Tate virou-a do avesso e ajeitou a armação de arame para ter uma ideia do formato original. 

— Essa roupa provavelmente salvou a vida dela — disse ele. — Veja.

     Ele apontou com o longo dedo. Uma linha brilhante e nítida se destacava no arame opaco. 

— Bob Ewell não estava de brincadeira — murmurou o sr. Tate. 
— Ele estava fora de si — acrescentou Atticus. 
— Não gosto de contradizer o senhor, sr. Finch, mas ele não estava maluco, ele era ruim como o diabo. Era um patife da pior espécie com a cabeça cheia de bebida o suficiente para ter coragem de matar crianças. Ele nunca teria coragem de enfrentar o senhor cara a cara.

     Atticus balançou a cabeça. 

— Não posso conceber um homem que… 
— Sr. Finch, há um tipo de homem em quem devemos dar um tiro antes mesmo de cumprimentá-los. Mesmo assim, eles não valem a bala que gastamos. Ewell era um desses.

     Atticus disse: 

— Achei que ele tinha colocado tudo para fora com a ameaça que me fez aquele dia. Mesmo que não tivesse me ameaçado, achei que ele viria atrás de mim. 
— Ele teve a coragem de perseguir uma pobre negra, de ir atrás do juiz Taylor quando pensou que a casa estava vazia. Você acha que ele ia atrás de você à luz do dia? — o sr. Tate suspirou. — É melhor continuarmos o relato. Scout, você o ouviu atrás de vocês… 
— Foi. Quando chegamos embaixo da árvore… 
— Como sabia que estava embaixo da árvore se não dava para enxergar um palmo diante do nariz lá fora? 
— Eu estava descalça e Jem diz que a terra é mais fria embaixo das árvores. 
— Vamos ter de nomeá-lo assistente de investigação. Continue. 
— Então, de repente, alguma coisa me agarrou e amassou a minha fantasia… Acho que caí no chão… Ouvi… uma luta embaixo da árvore… Parecia que estavam se chocando contra a árvore. Jem me achou e foi me empurrado para a estrada. Alguém… o sr. Ewell o derrubou. Eles lutaram mais e ouvi um barulho estranho… Jem gritou.

     Parei de falar. O barulho era do braço de Jem se quebrando. 

— De todo jeito, Jem gritou e não ouvi mais nada, depois… O sr. Ewell estava tentando me estrangular, acho… Então alguém derrubou ele. Acho que Jem deve ter se levantado. É só isso que sei... 
— E aí? — o sr. Tate me olhava, atento. 
— Alguém veio tropeçando, ofegante, tossindo muito. Achei que era Jem, mas não parecia, então comecei a procurar por ele no chão. Pensei que Atticus tinha vindo nos ajudar e tinha ficado cansado… 
— Quem era? 
— Ora, aquele ali, sr. Tate. Ele pode dizer como se chama.

     Enquanto falava fiz menção de apontar para o homem que estava no canto, mas abaixei o braço rápido, pois Atticus podia me dar uma bronca por fazer isso. Era falta de educação apontar para as pessoas.
     O homem continuava encostado na parede, de braços cruzados. Já estava assim quando entrei no quarto e, quando apontei, ele descruzou os braços e espalmou as mãos na parede. As mãos eram brancas, mãos doentiamente brancas, que nunca tinham visto o sol, tão brancas que se destacavam na parede creme na penumbra do quarto de Jem.
     Percorri com o olhar as mãos dele, as calças cáqui sujas de terra, o corpo magro, a camisa rasgada. O rosto era tão branco quanto as mãos, exceto por uma sombra no queixo pontudo. As maçãs do rosto eram encovadas, a boca grande e nas têmporas havia marcas leves, quase delicadas; os olhos cinzentos eram tão opacos que pensei que ele fosse cego. O cabelo era sem brilho e fino, quase uma penugem no alto da cabeça.
     Quando apontei para ele, as mãos escorregaram um pouco na parede, deixando marcas de suor, e ele enfiou os polegares no cinto. Teve um pequeno tremor estranho, como se ouvisse alguém raspar as unhas numa lousa, mas quando olhei para ele admirada, a tensão foi sumindo do seu rosto. A boca se abriu num sorriso tímido e a imagem do nosso vizinho ficou borrada com as lágrimas que, de repente, encheram meus olhos. 

— Oi, Boo — eu disse.


continua página 193...
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Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (28b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (29) /   
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

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