volume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Segundo
Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin.
continuando...
Ao passo que Brichot sorria, para mostrar o que havia de espirituoso em juntar desse
modo coisas tão dispares e empregar para coisas comuns uma linguagem ironicamente elevada,
Saniette tentava encaixar algo espirituoso que pudesse reerguê-lo de seu desmoronamento de há
pouco. A saída era o que ele chamava de "semelhança", mas que mudara de forma, pois existe
uma evolução para os trocadilhos bem como para os gêneros literários e as epidemias, que
desaparecem substituídos por outros, etc. Antigamente, a forma dessa "semelhança" era o
"cúmulo". Mas estava antiquada, ninguém mais a empregava, e somente Cottard é que dizia ainda
às vezes, durante uma partida de piquet: - Sabem qual é o cúmulo da distração? É tomar o édito de Nantes por uma inglesa. -
Os cúmulos tinham sido substituídos pelos apelidos. No fundo, era sempre a mesma velha
"semelhança", mas, como o apelido estava na moda, ninguém se dava conta disso. Infelizmente
para Saniette, quando esses ditos não eram seus e normalmente desconhecidos do pequeno
núcleo, ele os citava tão timidamente que, apesar do riso com que os acompanhava para
assinalar o seu caráter humorístico, ninguém os compreendia. E, se, ao contrário, o dito era de
sua palavra, como ele o houvesse conhecido através de um dos fiéis, este o repetia, adotando-o,
e a frase então se tornava conhecida, mas não como sendo de Saniette. Assim, quando ele
introduzia um desses, todos o reconheciam, mas, como ele se dava por autor, acusavam-no de
plágio.
- Pois bem - prosseguiu Brichot -, Bec em normando quer dizer regato; existe a abadia de
Bec, Mobec, o regato do pântano (mor ou mer queria dizer pântano, como em Morville, ou em
Bricquemar, Alvimare, Cambremer); Bricquebec, o regato da altura, provém de briga, lugar
fortificado, como em Bricqueville, Bricquebosc, o Bric, Briand, ou então de brice, ponte, que é o
mesmo que bruck em alemão (Innsbruck) e que bridge em inglês, que é a terminação de tantos
nomes de localidades (Cambridge, etc.). Temos ainda na Normandia muitos outros bec:
Caudebec, Balbec, Robec, o Bec Hellouin, Becquerel. É a forma normanda do germano Bach,
Offenbach, Anspach; Varaguebec, da antiga palavra varaigne, equivalente de souto (garenne),
bosques, tanques reservados. Quanto a dar - prosseguiu Brichot -, trata-se de uma forma de Thal,
vale: Dametal, Rosendal, e até mesmo, perto de Louviers, Beccial. Orio que deu nome a Dalbec
aliás é um encanto. Visto de uma penedia (Fels em alemão; o senhor tem mesmo, não longe
daqui, "toupeira", o que, na sua opinião, não era próprio para um homem inteligente.
- Não disse ele com um ar de equidade -, creio que sua mulher e ele são feitos um para o
outro. Deus sabe que não conheço criatura mais aborrecida sobre a face da Terra e ficaria
exasperada se me fosse preciso passar duas horas com ela. Mas dizem que ele a considera muito
inteligente. É preciso confessar: o nosso Tiche era sobretudo extremamente imbecil! Já o vi
deslumbrado com pessoas que o senhor nem imagina, grandes idiotas que jamais haveríamos de
querer em nosso pequeno clã. Pois bem! Ele lhes escrevia, discutia com ela, ele, Elstir! Isto não
impede seus lados encantadores, ah! Encantadores, encantadores e deliciosamente absurdos, é
claro! - Pois a Sra. Verdurin estava convencida de que os homens verdadeiramente notáveis
praticam mil loucuras. Ideia falsa onde, entretanto, existe um pouco de verdade. Claro que as
"loucuras" das pessoas são insuportáveis. Mas um desequilíbrio que somente se descobre com o
passar do tempo é a consequência da entrada, num cérebro humano, de delicadezas para as
quais ele habitualmente não é feito. De maneira que irritam as estranhezas de pessoas
encantadoras, mas também não há pessoa encantadora que não seja estranha. - Olhe, já vou
poder mostrar-lhe as flores -disse ela, vendo que o marido lhe fazia sinal de que podiam erguer-se
da mesa. E retomou o braço do Sr. de Cambremer. O Sr. Verdurin quis desculpar-se com o Sr. de
Charlus logo que deixou a Sra. de Cambremer, e dar-lhe os seus motivos, sobretudo pelo prazer
de conversar sobre esses matizes mundanos com um homem titulado, momentaneamente tido
como inferior àqueles que tomavam o lugar a que julgava ter direito. Mas, antes de tudo, fez
questão de mostrar ao Sr. de Charlus que intelectualmente o considerava muito, para pensar que
ele desse atenção a tais bagatelas:
- Desculpe-me o estar falando dessas ninharias - começou -, pois suponho perfeitamente o
pouco caso que o senhor dá a essas coisas. Os espíritos burgueses fazem questão disso, mas os
outros, os artistas, as pessoas que o são de fato, pouco se importam. Ora, desde as primeiras
palavras que trocamos, compreendi que o senhor era um desses! -
O Sr. de Charlus, que dava a essa locução um sentido completamente diverso, teve um
estremecimento. Depois das olhadelas do doutor, a franqueza injuriosa do Patrão o sufocava.
- Não proteste, meu caro senhor, é um deles, está claro como o dia- prosseguiu o Sr.
Verdurin. - Repare que não sei se o senhor exerce alguma arte, mas não é necessário e nem
sempre é bastante. Dechambre, que acaba de falecer, trabalhava perfeitamente com o mais
robusto mecanismo, mas não era desses, sentia-se logo que ele não era Brichot; não é Morel é,
minha mulher é, sinto que o senhor é...
- Que ia me dizer? - interrompeu o Sr. de Charlus, que principiava a tranquilizar-se com o
que o Sr. Verdurin queria significar, mas que preferia que ele gritasse mais baixo essas palavras
de duplo sentido.
- Nós apenas o colocamos à esquerda - respondeu o Sr. Verdurin.
O Sr. de Charlus, com um sorriso compreensivo, bonachão e insolente, respondeu:
- Mas ora! Isto não tem nenhuma importância, aqui! - E deu um risinho que lhe era
especial, que lhe vinha provavelmente de alguma avó bávara ou lorena, que o herdara ela própria,
idêntico, de uma avó, de modo que ele soava assim, sem mudança, desde não poucos séculos,
nas velhas cortes da Europa, e cujo precioso timbre era desfrutado com gosto como o de certos
instrumentos antigos hoje raríssimos.
Há momentos em que, para pintar completamente a alguém, é necessário que a imitação
fonética se junte à descrição, e a do personagem que o Sr. de Charlus representava, arriscava-se
a ser incompleta devido à falta desse risinho tão fino, tão leve, como certas suítes de Bach nunca
são exatamente reproduzidas porque faltam às orquestras essas "pequenas trombetas" de som
tão particular, para as quais o autor escreveu tal ou qual parte.
- Mas - explicou o Sr. Verdurin, constrangido foi de propósito. - Não dou a menor
importância a títulos de nobreza - acrescentou, com esse sorriso de desdém que já vi em tantas
pessoas que conheço, ao contrário de minha avó e de minha mãe, para com tudo aquilo que não
possuem, diante daqueles que, segundo pensam, não poderão com isso se sentir superiores a
elas. - Mas enfim, já que estava presente justo o Sr. de Cambremer, que é marquês, ao passo que
o senhor é somente barão...
- Permita - respondeu o Sr. de Charlus, com ar altivo, ao Sr. Verdurin espantado - sou
igualmente duque de Brabant, donzel de Montargis, príncipe de Oléron, de Carency, de Viareggio
e de Dunes. Aliás, isso não tem a menor importância. Não se atormente - acrescentou, retomando
o seu risinho fino, que se esvaneceu diante destas últimas palavras: - Logo vi que o senhor não
estava habituado.
A Sra. Verdurin veio ao meu encontro para me mostrar as flores de Elstir. Se este ato, há
muito tão indiferente para mim, de ir jantar fora, ao contrário não me houvesse, sob a forma que o
renovaria inteiramente de uma viagem ao longo do litoral, seguida de uma subida em carro até
duzentos metros acima do mar, causado uma espécie de embriaguez, esta não se dissipara na
Raspeliere.
- Olhe, veja só isto - disse a Patroa, mostrando-me grandes e magníficas rosas de Elstir,
mas cujo untuoso escarlate e a brancura agitada se realçavam com um relevo um tanto cremoso
demais sobre a jardineira em que estavam. - Acha que ele poderia ainda ter mão bastante para
fazer isto? É demais! E depois, é belo como matéria, seria divertido de apalpar. Nem posso lhe
dizer como era divertido vê-las sendo pintadas. Sentia-se que ele se empenhava em buscar este
efeito. -
O olhar da Patroa se demorou sonhadoramente naquele presente do ato em que se
achavam resumidos não só o seu grande talento, mas a longa amizade que somente sobrevivia
nessas lembranças que lhe deixara por trás das flores que ele outrora colhera para ela própria; a
Sra. Verdurin julgava rever a bela mão que as havia pintado, certa manhã, com todo seu frescor,
de modo que, umas sobre a mesa, o outro encostado numa poltrona da sala de jantar, tinham
podido figurar em colóquio, para o almoço da Patroa, as rosas ainda vivas e o seu retrato meio
parecido. Meio oferecido, apenas, pois Elstir só podia olhar uma flor transplantando-a primeiro
para esse jardim interior onde sempre somos forçados a permanecer. Nesta aquarela, ele havia
mostrado a aparição das rosas que contemplara e que, sem ele, nunca teríamos conhecido; de
forma que se pode dizer que era uma variedade nova com que esse pintor, como um horticultor
engenhoso, havia enriquecido a família das rosas.
- A partir do dia em que ele abandonou o pequeno núcleo, era um homem acabado.
Parece que meus jantares o faziam perder tempo, que eu prejudicava o desenvolvimento do seu
gênio - disse ela num tom irônico. - Como se a convivência com uma mulher como eu, pudesse
não ser saudável a um artista! - exclamou num assomo de orgulho.
Bem junto a nós, o Sr. de Cambremer, que já estava sentado, esboçou, ao ver o Sr. de
Charlus de pé, um movimento para se levantar e ceder sua cadeira. Tal oferecimento talvez não
correspondesse, no pensamento do marquês, senão a um propósito de vaga polidez. O Sr. de
Charlus preferiu atribuir-lhe a significação de um dever que o simples gentil homem sabia que
precisava prestar a um príncipe, e não achou melhor maneira de estabelecer o seu direito a essa
precedência senão declinando-a. Assim, exclamou:
- Mas como! Peço-lhe! Ora essa! - O tom astuciosamente incisivo desse protesto já
continha algo de fortemente "Guermantes", que se acusou sobretudo no gesto imperativo, inútil e
familiar com que o Sr. de Charlus pousou ambas as mãos, e como que para forçá-lo a reassentar
se, nos ombros do Sr. de Cambremer, que não se levantara: - Ora veja, meu caro insistiu o barão
era só o que faltava! Não há motivo para isso! Em nosso tempo só se reservam estas coisas para
os príncipes de sangue real. -
Não emocionei mais aos Cambremer do que à Sra. Verdurin com meu entusiasmo pela
sua casa. Pois eu me mantinha frio diante das belezas que me apontavam e exaltava-me com
reminiscências confusas: por vezes chegava até a lhes confessar a minha decepção sem achar
algo de acordo com o que seu nome me fizera imaginar. Deixei indignada a Sra. de Cambremer
ao lhe dizer que julgara que aquilo tudo fosse mais campesino. Em compensação, parei em
êxtase a aspirar o aroma de um vento encanado que passava pela porta.
- Vejo que o senhor aprecia as correntes de ar disseram-me eles.
Meu elogio da lustrina verde que tapava um caixilho quebrado não teve melhor êxito:
- Mas que horror! - gritou a marquesa.
O cúmulo foi quando eu disse:
- Minha maior alegria se deu quando cheguei. Ao ouvir meus passos ressoarem na galeria,
julguei que entrava em não sei qual escritório da prefeitura da aldeia, onde existe o mapa da
região. -
Desta vez a Sra. de Cambremer me voltou resolutamente as costas.
- Não achou tudo isto muito mal arranjado? - perguntou-lhe o marido, com a mesma
solicitude apiedada com que indagaria de que modo a mulher havia suportado uma triste
cerimônia.
- Há coisas belas. -
Mas como a malevolência, quando as regras fixas de um gosto seguro não lhe impõem
limites inevitáveis, acha tudo que criticar na pessoa ou na casa de quem nos suplantou:
- Sim, mas não estão em seu lugar. E serão mesmo tão belas assim? - disse a Sra. de
Cambremer.
- O senhor reparou - disse o Sr. de Cambremer, com uma pena em que transparecia
alguma firmeza - que há quadros de Jouy em que se vê a tela, coisas já totalmente gastas neste
salão?
- E esta peça de tecido com suas grandes rosas, como uma manta de camponesa - disse a
Sra. de Cambremer, cuja cultura, toda postiça, aplicava-se exclusivamente à filosofia idealista, à
pintura impressionista e à música de Debussy. E, para não protestar exclusivamente em nome do
luxo, mas também do bom gosto:
- E puseram meia cortina! Que falta de estilo! Que querem dessa gente, não sabem nada,
onde teriam aprendido? Devem ser grandes comerciantes aposentados. Já não é muito mau para
eles. Os lustres me pareceram bonitos - disse o marquês, sem que soubessem por que ele
excetuava os lustres, assim como, a cada vez que se falava de uma igreja, fosse a catedral de
Chartres, de Reims, de Amiens, ou a igreja de Balbec, inevitavelmente o que ele sempre se
apressava a citar como admirável era: "a caixa do órgão, o púlpito e as obras de misericórdia".
- Quanto ao jardim, nem falemos - disse a Sra. de Cambremer. - É um massacre. Essas
aleias que vão em ziguezague!
Aproveitei que a Sra. Verdurin estava servindo o café para dar uma espiada na carta que o
Sr. de Cambremer me entregara, na qual a sua mãe me convidava para jantar. Com um pingo de
tinta, a escrita traduzia uma individualidade, de agora em diante reconhecível entre todas, sem
que mais houvesse necessidade de recorrer à hipótese de penas especiais, como tintas raras e
misteriosamente fabricadas não se fazem necessárias ao pintor para que este exprima a sua
visão original. Mesmo um paralítico afetado de agrafia após um ataque e reduzido a olhar os
caracteres como um desenho, sem os saber ler, teria compreendido que a Sra. de Cambremer
pertencia a uma velha família em que a cultura entusiasta das letras e das artes havia arejado um
pouco as tradições aristocráticas. Ele teria adivinhado igualmente em que época a marquesa
aprendera simultaneamente a escrever e a tocar Chopin. Era a época em que as pessoas bem
educadas observavam o preceito de ser amáveis e a regra dita dos três adjetivos. A Sra. de
Cambremer combinava regra e preceito. Um adjetivo laudatório não lhe bastava, ela o fazia seguir
(após um pequeno travessão) de um segundo, e depois (após novo travessão) de um terceiro.
Mas o que lhe era particular é, que, contrariamente à finalidade social e literária que se propunha,
a sucessão dos três epítetos nos bilhetes da Sra. de Cambremer assumia o aspecto, não de uma
progressão, mas de um diminuendo. Nesta primeira carta, a Sra. de Cambremer disse que havia
visto Saint-Loup e, mais do que nunca, apreciara suas qualidades "únicas raras reais" e que ela
devia voltar com um de seus amigos (precisamente aquele que amavam nora) e que, se eu
quisesse vir com ou sem eles jantar em Féterne, ela ficaria "encantada feliz contente". Talvez
porque nela o desejo de amabilidade não se igualasse à fertilidade da imaginação e à riqueza do
vocabulário, é que essa dama, levada a empregar três exclamações, não tinha, forças para
conferir à segunda e à terceira mais que um eco enfraquecido da primeira. Houvesse apenas mais
um quarto adjetivo, e nada restaria da amabilidade inicial. Enfim, por uma certa simplicidade
refinada que não devia deixar de produzir uma considerável impressão na família e mesmo no seu
círculo de relações, a Sra. de Cambremer tinha se habituado a substituir a palavra "sincera", que
podia acabar por assumir um ar mentiroso: pela palavra "verdadeira". E, para deixar claro que se
tratava mesmo de algo sincero, rompia a aliança convencional que colocaria "verdadeira" antes da
substantivo, e o punha corajosamente depois. Suas cartas terminavam por: "Creia na minha
afeição verdadeira", "creia na minha simpatia verdadeira". Infelizmente, aquilo de tal modo se
tornara uma fórmula, que essa afetação de franqueza dava mais a impressão de polidez insincera
do que as antigas fórmulas de cujo sentido ninguém mais se recorda. Aliás, sentia-me
incomodado para ler devido ao rumor confuso das conversações, dominadas pela voz mais alta
do Sr. de Charlus, que não largara o seu assunto e dizia ao Sr. de Cambremer:
- O senhor me fazia pensar, ao querer que eu tomasse o seu posto, num cavalheiro que
me enviou esta manhã uma carta, endereçando-a "A Sua Alteza o barão de Charlus", e que
começava por. "Monsenhor".
- De fato, o seu correspondente exagerava um pouco - respondeu o Sr. de Cambremer,
entregando-se a uma discreta hilaridade. O Sr. de Charlus a tinha provocado; mas dela não
participou.
- Porém, no fundo, meu caro - disse -, repare que, do ponto de vista da heráldica, ele é que
está com a verdade. Não faço disso uma questão pessoal, acredite. Fala como se se tratasse de
outro. Mas o que quer, História é História. Nada podemos e não está em nós refazê-la. Não lhe
citarei o imperador Guilherme, que em Kiel nunca deixou de me tratar de Monsenhor. Ouvi dizer
que chamava assim a todos os duques franceses, o que é abusivo, e que era talvez simplesmente
uma delicada atenção que, por sobre a nossa cabeça, visava a França.
- Delicada e mais ou menos sincera - disse o Sr. de Cambremer.
- Ah, não sou de sua opinião. Note que, pessoalmente, um senhor da última ordem como
esse Hohenzollem, além do mais protestante, e que despojou o meu primo, o rei de Hanôver, não
é de molde a me agradar - acrescentou o Sr. de Charlus, a quem o Hanôver parecia falar mais a
seu coração do que a Alsácia-Lorena. - Porém acredito profundamente sincera a inclinação do
imperador por nós. Os imbecis dirão que se trata de um imperador de teatro. Mas, ao contrário,
ele é extraordinariamente inteligente. Porém não entende de pintura e obrigou o Sr. Tschudi a
retirar os Elstir dos museus nacionais. Mas Luís XIV não gostava dos mestres holandeses,
também tinha o gosto pelo aparato e, em suma, foi um grande soberano. E Guilherme II ainda
armou seu país do ponto de vista militar e naval, como Luís XIV deixou de fazer, e espero que seu
reinado jamais conheça os reveses que escureceram o final do reinado daquele a quem
banalmente se chama o Rei-Sol. Na minha opinião, a República cometeu um grande erro ao
repelir as amabilidades do Hohenzollern, ou só as retribuindo a conta-gotas. Ele mesmo percebe
muito bem isso, e diz, com aquele dom de expressão que possui: "O que desejo é um aperto de
mão, e não um cumprimento de chapéu." Como homem, é vil: abandonou, renegou, entregou
seus melhores amigos em circunstâncias em que seu silêncio foi tão miserável como grande foi o
silêncio deles - continuou o Sr. de Charlus que, sempre arrastado por sua inclinação, deslizava
para o Caso Eulenbourg e se lembrava da frase que lhe dissera um dos acusados da mais alta
posição: "E preciso mesmo que o imperador tenha confiança em nossa delicadeza para ter
ousado permitir semelhante processo! Mas, aliás, não se enganou ao ter tido fé na nossa
discrição. Até no cadafalso teríamos calado a boca." - De resto, aquilo tudo nada tem a ver com o
que queria dizer, a saber que, na Alemanha, como príncipes mediatizados, somos Durchlaucht, e
que, na França, nossa posição de Alteza era publicamente reconhecida. Saint-Simon pretende
que a tomamos por abuso, no que se engana redondamente. O argumento que ele apresenta, a
saber, que Luís XIV nos proibiu que o chamássemos de Rei Cristianíssimo, ordenando-nos que o
tratássemos simplesmente de Rei, apenas prova que dependíamos dele e de modo algum que
não tivéssemos a qualidade de príncipe. Sem o que, seria preciso negá-la ao duque de Lorena e a
tantos outros. Além disso, vários de nossos títulos provêm da casa de Lorena através de Thérese
d'Espinoy; minha bisavó, que era filha do donzel de Commercy. -
Tendo percebido que Morel o escutava, o Sr. de Charlus desenvolveu mais amplamente os
motivos de sua pretensão.
- Já fiz observar ao meu irmão que não é na terceira parte do Gotha, mas na segunda,
para não dizer na primeira, que devem encontrar-se a notícia sobre a nossa família - disse ele,
sem se dar conta de que Morel não sabia o que era o Gotha. - Mas isso é com ele, ele é meu
chefe de armas e, desde que ache bom assim e deixe correr a coisa, não tenho senão que fechar
os olhos.
- O Sr. Brichot me interessou muito - disse eu à Sra. Verdurin, que vinha a meu encontro,
enquanto metia no bolso a carta da Sra. de Cambremer. - É um espírito culto e um bom homem
respondeu ela friamente. - É claro que não possui nem gosto nem originalidade; tem uma
memória tremenda. Diziam dos "avós" das pessoas que recebemos esta noite, dos emigrados,
que eles nada haviam esquecido. Mas pelo menos eles tinham a desculpa - disse ela, fazendo
sua uma frase de Swann - de que não haviam aprendido coisa alguma. Ao passo que Brichot
sabe tudo e nos atira à cabeça, durante o jantar, pilhas de dicionários. Creio que o senhor já não
ignora nada sobre o que quer dizer o nome de tal aldeia ou de tal cidade. -
Enquanto a Sra. Verdurin falava, eu pensava que me prometera perguntar-lhe algo, mas
não conseguia me lembrar do que fosse.
- Estou certo de que falavam de Brichot - disse Ski.
- Hein? Chantepie e Freycinet, ele não perdoou nada. Eu bem que a estava observando,
minha Patroazinha. - Bem que reparei, só me faltou explodir.
Hoje eu não saberia dizer como a Sra. Verdurin estava vestida aquela noite. Talvez nem
naquele momento o soubesse, pois não tenho espírito de observação. Mas, sentindo que sua
toalete não era despretensiosa, disse-lhe algumas palavras amáveis e até de admiração. Ela era
como quase todas as mulheres, que imaginam que um cumprimento que lhes façam é a estrita
expressão da verdade, e que é um juízo que se declara imparcialmente, irresistivelmente, como
se se tratasse de um objeto de arte sem relação com uma pessoa. Assim, foi com uma seriedade
que me fez enrubescer pela minha hipocrisia, que ela me fez esta orgulhosa e ingênua pergunta,
habitual em tais circunstâncias:
- Agrada-lhe?
- Certamente estão falando de Chantepie -disse o Sr. Verdurin, aproximando-se.
Pensando na minha lustrina verde e num cheiro de mato, eu era o único a não perceber
que, enumerando essas etimologias, Brichot fizera com que rissem dele. E, como as impressões
que davam às coisas o seu valor para mim eram daquelas que as outras pessoas ou não sentem
ou recalcam, sem pensar, como sendo insignificantes, e que, por conseguinte, se eu as pudesse
comunicar, ficariam incompreendidas ou teriam sido desdenhadas, eram inteiramente inutilizáveis
para mim e, além disso, tinham o inconveniente de me fazer passar por estúpido aos olhos da
Sra. Verdurin, que via que eu "engolira" Brichot, como já o parecera aos olhos da Sra. de
Guermantes porque gostava de comparecer à casa da Sra. d'Arpajon. No caso de Brichot,
entretanto, havia uma outra razão. Eu não pertencia ao pequeno clã. E em todo clã, seja
mundano, político ou literário, desenvolve-se uma facilidade perversa de descobrir, numa
conversação, num discurso oficial, numa novela, num soneto, tudo o que o leitor honesto jamais
teria sonhado ver. Quantas vezes me aconteceu, lendo com certa emoção um conto habilmente
escrito por um acadêmico um pouco antiquado, estar prestes a dizer a Bloch ou à Sra. de
Guermantes:
- Como é lindo! quando, antes que tivesse aberto a boca, eles exclamavam, cada qual
numa linguagem diferente:
- Se quiser passar um bom momento, leia um conto de Fulano. A estupidez humana jamais
foi tão longe.
O desprezo de Bloch decorria principalmente de que certos efeitos de estilo, aliás
agradáveis, eram um tanto fanados; o da Sra. de Guermantes, de que o conto parecia provar
justamente o contrário do que o autor queria dizer, por motivos de fato que ela engenhosamente
deduzia, mas nos quais eu nunca teria pensado. Tão surpreso fiquei ao ver a ironia que se
ocultava sob a aparente amabilidade dos Verdurin para com Brichot, como ao ouvir, alguns dias
mais tarde, em Féterne, os Cambremer dizerem-me, diante do elogio entusiasmado que eu fazia
de La Raspeliere:
- Não é possível que o senhor esteja sendo sincero, depois do que eles fizeram daquilo. -
É verdade que confessaram que a baixela era bonita. Como as chocantes cortininhas, eu
também não a tinha visto.
- Enfim, agora, quando voltar a Balbec, o senhor saberá o que Balbec significa -disse
ironicamente o Sr. Verdurin.
O que me interessava eram justamente as coisas que Brichot me ensinava. Quanto ao que
chamavam o seu espírito, era exatamente o mesmo que outrora fora tão apreciado no pequeno
clã. Falava com a mesma irritante facilidade, mas suas palavras já não possuíam alcance,
precisavam vencer um silêncio hostil ou ecos desagradáveis; o que havia mudado era não o que
ele narrava, e sim a acústica do salão e as disposições do público.
- Cuidado! - disse a Sra. Verdurin a meia voz, mostrando Brichot.
continua na página 160...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Ao passo que Brichot sorria)
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)Volume 6
Volume 7
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