segunda-feira, 2 de março de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - Ao passo que Brichot sorria)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     Ao passo que Brichot sorria, para mostrar o que havia de espirituoso em juntar desse modo coisas tão dispares e empregar para coisas comuns uma linguagem ironicamente elevada, Saniette tentava encaixar algo espirituoso que pudesse reerguê-lo de seu desmoronamento de há pouco. A saída era o que ele chamava de "semelhança", mas que mudara de forma, pois existe uma evolução para os trocadilhos bem como para os gêneros literários e as epidemias, que desaparecem substituídos por outros, etc. Antigamente, a forma dessa "semelhança" era o "cúmulo". Mas estava antiquada, ninguém mais a empregava, e somente Cottard é que dizia ainda às vezes, durante uma partida de piquet: - Sabem qual é o cúmulo da distração? É tomar o édito de Nantes por uma inglesa. -
     Os cúmulos tinham sido substituídos pelos apelidos. No fundo, era sempre a mesma velha "semelhança", mas, como o apelido estava na moda, ninguém se dava conta disso. Infelizmente para Saniette, quando esses ditos não eram seus e normalmente desconhecidos do pequeno núcleo, ele os citava tão timidamente que, apesar do riso com que os acompanhava para assinalar o seu caráter humorístico, ninguém os compreendia. E, se, ao contrário, o dito era de sua palavra, como ele o houvesse conhecido através de um dos fiéis, este o repetia, adotando-o, e a frase então se tornava conhecida, mas não como sendo de Saniette. Assim, quando ele introduzia um desses, todos o reconheciam, mas, como ele se dava por autor, acusavam-no de plágio. 

- Pois bem - prosseguiu Brichot -, Bec em normando quer dizer regato; existe a abadia de Bec, Mobec, o regato do pântano (mor ou mer queria dizer pântano, como em Morville, ou em Bricquemar, Alvimare, Cambremer); Bricquebec, o regato da altura, provém de briga, lugar fortificado, como em Bricqueville, Bricquebosc, o Bric, Briand, ou então de brice, ponte, que é o mesmo que bruck em alemão (Innsbruck) e que bridge em inglês, que é a terminação de tantos nomes de localidades (Cambridge, etc.). Temos ainda na Normandia muitos outros bec: Caudebec, Balbec, Robec, o Bec Hellouin, Becquerel. É a forma normanda do germano Bach, Offenbach, Anspach; Varaguebec, da antiga palavra varaigne, equivalente de souto (garenne), bosques, tanques reservados. Quanto a dar - prosseguiu Brichot -, trata-se de uma forma de Thal, vale: Dametal, Rosendal, e até mesmo, perto de Louviers, Beccial. Orio que deu nome a Dalbec aliás é um encanto. Visto de uma penedia (Fels em alemão; o senhor tem mesmo, não longe daqui, "toupeira", o que, na sua opinião, não era próprio para um homem inteligente. 
- Não disse ele com um ar de equidade -, creio que sua mulher e ele são feitos um para o outro. Deus sabe que não conheço criatura mais aborrecida sobre a face da Terra e ficaria exasperada se me fosse preciso passar duas horas com ela. Mas dizem que ele a considera muito inteligente. É preciso confessar: o nosso Tiche era sobretudo extremamente imbecil! Já o vi deslumbrado com pessoas que o senhor nem imagina, grandes idiotas que jamais haveríamos de querer em nosso pequeno clã. Pois bem! Ele lhes escrevia, discutia com ela, ele, Elstir! Isto não impede seus lados encantadores, ah! Encantadores, encantadores e deliciosamente absurdos, é claro! - Pois a Sra. Verdurin estava convencida de que os homens verdadeiramente notáveis praticam mil loucuras. Ideia falsa onde, entretanto, existe um pouco de verdade. Claro que as "loucuras" das pessoas são insuportáveis. Mas um desequilíbrio que somente se descobre com o passar do tempo é a consequência da entrada, num cérebro humano, de delicadezas para as quais ele habitualmente não é feito. De maneira que irritam as estranhezas de pessoas encantadoras, mas também não há pessoa encantadora que não seja estranha. - Olhe, já vou poder mostrar-lhe as flores -disse ela, vendo que o marido lhe fazia sinal de que podiam erguer-se da mesa. E retomou o braço do Sr. de Cambremer. O Sr. Verdurin quis desculpar-se com o Sr. de Charlus logo que deixou a Sra. de Cambremer, e dar-lhe os seus motivos, sobretudo pelo prazer de conversar sobre esses matizes mundanos com um homem titulado, momentaneamente tido como inferior àqueles que tomavam o lugar a que julgava ter direito. Mas, antes de tudo, fez questão de mostrar ao Sr. de Charlus que intelectualmente o considerava muito, para pensar que ele desse atenção a tais bagatelas: 
- Desculpe-me o estar falando dessas ninharias - começou -, pois suponho perfeitamente o pouco caso que o senhor dá a essas coisas. Os espíritos burgueses fazem questão disso, mas os outros, os artistas, as pessoas que o são de fato, pouco se importam. Ora, desde as primeiras palavras que trocamos, compreendi que o senhor era um desses! -

     O Sr. de Charlus, que dava a essa locução um sentido completamente diverso, teve um estremecimento. Depois das olhadelas do doutor, a franqueza injuriosa do Patrão o sufocava. 

- Não proteste, meu caro senhor, é um deles, está claro como o dia- prosseguiu o Sr. Verdurin. - Repare que não sei se o senhor exerce alguma arte, mas não é necessário e nem sempre é bastante. Dechambre, que acaba de falecer, trabalhava perfeitamente com o mais robusto mecanismo, mas não era desses, sentia-se logo que ele não era Brichot; não é Morel é, minha mulher é, sinto que o senhor é... 
- Que ia me dizer? - interrompeu o Sr. de Charlus, que principiava a tranquilizar-se com o que o Sr. Verdurin queria significar, mas que preferia que ele gritasse mais baixo essas palavras de duplo sentido. 
- Nós apenas o colocamos à esquerda - respondeu o Sr. Verdurin.

     O Sr. de Charlus, com um sorriso compreensivo, bonachão e insolente, respondeu: 

- Mas ora! Isto não tem nenhuma importância, aqui! - E deu um risinho que lhe era especial, que lhe vinha provavelmente de alguma avó bávara ou lorena, que o herdara ela própria, idêntico, de uma avó, de modo que ele soava assim, sem mudança, desde não poucos séculos, nas velhas cortes da Europa, e cujo precioso timbre era desfrutado com gosto como o de certos instrumentos antigos hoje raríssimos.

     Há momentos em que, para pintar completamente a alguém, é necessário que a imitação fonética se junte à descrição, e a do personagem que o Sr. de Charlus representava, arriscava-se a ser incompleta devido à falta desse risinho tão fino, tão leve, como certas suítes de Bach nunca são exatamente reproduzidas porque faltam às orquestras essas "pequenas trombetas" de som tão particular, para as quais o autor escreveu tal ou qual parte. 

- Mas - explicou o Sr. Verdurin, constrangido foi de propósito. - Não dou a menor importância a títulos de nobreza - acrescentou, com esse sorriso de desdém que já vi em tantas pessoas que conheço, ao contrário de minha avó e de minha mãe, para com tudo aquilo que não possuem, diante daqueles que, segundo pensam, não poderão com isso se sentir superiores a elas. - Mas enfim, já que estava presente justo o Sr. de Cambremer, que é marquês, ao passo que o senhor é somente barão... 
- Permita - respondeu o Sr. de Charlus, com ar altivo, ao Sr. Verdurin espantado - sou igualmente duque de Brabant, donzel de Montargis, príncipe de Oléron, de Carency, de Viareggio e de Dunes. Aliás, isso não tem a menor importância. Não se atormente - acrescentou, retomando o seu risinho fino, que se esvaneceu diante destas últimas palavras: - Logo vi que o senhor não estava habituado.

     A Sra. Verdurin veio ao meu encontro para me mostrar as flores de Elstir. Se este ato, há muito tão indiferente para mim, de ir jantar fora, ao contrário não me houvesse, sob a forma que o renovaria inteiramente de uma viagem ao longo do litoral, seguida de uma subida em carro até duzentos metros acima do mar, causado uma espécie de embriaguez, esta não se dissipara na Raspeliere. 

- Olhe, veja só isto - disse a Patroa, mostrando-me grandes e magníficas rosas de Elstir, mas cujo untuoso escarlate e a brancura agitada se realçavam com um relevo um tanto cremoso demais sobre a jardineira em que estavam. - Acha que ele poderia ainda ter mão bastante para fazer isto? É demais! E depois, é belo como matéria, seria divertido de apalpar. Nem posso lhe dizer como era divertido vê-las sendo pintadas. Sentia-se que ele se empenhava em buscar este efeito. -

     O olhar da Patroa se demorou sonhadoramente naquele presente do ato em que se achavam resumidos não só o seu grande talento, mas a longa amizade que somente sobrevivia nessas lembranças que lhe deixara por trás das flores que ele outrora colhera para ela própria; a Sra. Verdurin julgava rever a bela mão que as havia pintado, certa manhã, com todo seu frescor, de modo que, umas sobre a mesa, o outro encostado numa poltrona da sala de jantar, tinham podido figurar em colóquio, para o almoço da Patroa, as rosas ainda vivas e o seu retrato meio parecido. Meio oferecido, apenas, pois Elstir só podia olhar uma flor transplantando-a primeiro para esse jardim interior onde sempre somos forçados a permanecer. Nesta aquarela, ele havia mostrado a aparição das rosas que contemplara e que, sem ele, nunca teríamos conhecido; de forma que se pode dizer que era uma variedade nova com que esse pintor, como um horticultor engenhoso, havia enriquecido a família das rosas. 

- A partir do dia em que ele abandonou o pequeno núcleo, era um homem acabado. Parece que meus jantares o faziam perder tempo, que eu prejudicava o desenvolvimento do seu gênio - disse ela num tom irônico. - Como se a convivência com uma mulher como eu, pudesse não ser saudável a um artista! - exclamou num assomo de orgulho.

     Bem junto a nós, o Sr. de Cambremer, que já estava sentado, esboçou, ao ver o Sr. de Charlus de pé, um movimento para se levantar e ceder sua cadeira. Tal oferecimento talvez não correspondesse, no pensamento do marquês, senão a um propósito de vaga polidez. O Sr. de Charlus preferiu atribuir-lhe a significação de um dever que o simples gentil homem sabia que precisava prestar a um príncipe, e não achou melhor maneira de estabelecer o seu direito a essa precedência senão declinando-a. Assim, exclamou: 

 - Mas como! Peço-lhe! Ora essa! - O tom astuciosamente incisivo desse protesto já continha algo de fortemente "Guermantes", que se acusou sobretudo no gesto imperativo, inútil e familiar com que o Sr. de Charlus pousou ambas as mãos, e como que para forçá-lo a reassentar se, nos ombros do Sr. de Cambremer, que não se levantara: - Ora veja, meu caro insistiu o barão era só o que faltava! Não há motivo para isso! Em nosso tempo só se reservam estas coisas para os príncipes de sangue real. -

     Não emocionei mais aos Cambremer do que à Sra. Verdurin com meu entusiasmo pela sua casa. Pois eu me mantinha frio diante das belezas que me apontavam e exaltava-me com reminiscências confusas: por vezes chegava até a lhes confessar a minha decepção sem achar algo de acordo com o que seu nome me fizera imaginar. Deixei indignada a Sra. de Cambremer ao lhe dizer que julgara que aquilo tudo fosse mais campesino. Em compensação, parei em êxtase a aspirar o aroma de um vento encanado que passava pela porta. 

- Vejo que o senhor aprecia as correntes de ar disseram-me eles.

     Meu elogio da lustrina verde que tapava um caixilho quebrado não teve melhor êxito:

- Mas que horror! - gritou a marquesa.

     O cúmulo foi quando eu disse: 

- Minha maior alegria se deu quando cheguei. Ao ouvir meus passos ressoarem na galeria, julguei que entrava em não sei qual escritório da prefeitura da aldeia, onde existe o mapa da região. -  

     Desta vez a Sra. de Cambremer me voltou resolutamente as costas. 

- Não achou tudo isto muito mal arranjado? - perguntou-lhe o marido, com a mesma solicitude apiedada com que indagaria de que modo a mulher havia suportado uma triste cerimônia. 
- Há coisas belas. -

     Mas como a malevolência, quando as regras fixas de um gosto seguro não lhe impõem limites inevitáveis, acha tudo que criticar na pessoa ou na casa de quem nos suplantou: 

- Sim, mas não estão em seu lugar. E serão mesmo tão belas assim? - disse a Sra. de Cambremer. 
- O senhor reparou - disse o Sr. de Cambremer, com uma pena em que transparecia alguma firmeza - que há quadros de Jouy em que se vê a tela, coisas já totalmente gastas neste salão? 
- E esta peça de tecido com suas grandes rosas, como uma manta de camponesa - disse a Sra. de Cambremer, cuja cultura, toda postiça, aplicava-se exclusivamente à filosofia idealista, à pintura impressionista e à música de Debussy. E, para não protestar exclusivamente em nome do luxo, mas também do bom gosto: 
- E puseram meia cortina! Que falta de estilo! Que querem dessa gente, não sabem nada, onde teriam aprendido? Devem ser grandes comerciantes aposentados. Já não é muito mau para eles. Os lustres me pareceram bonitos - disse o marquês, sem que soubessem por que ele excetuava os lustres, assim como, a cada vez que se falava de uma igreja, fosse a catedral de Chartres, de Reims, de Amiens, ou a igreja de Balbec, inevitavelmente o que ele sempre se apressava a citar como admirável era: "a caixa do órgão, o púlpito e as obras de misericórdia". 
- Quanto ao jardim, nem falemos - disse a Sra. de Cambremer. - É um massacre. Essas aleias que vão em ziguezague!

     Aproveitei que a Sra. Verdurin estava servindo o café para dar uma espiada na carta que o Sr. de Cambremer me entregara, na qual a sua mãe me convidava para jantar. Com um pingo de tinta, a escrita traduzia uma individualidade, de agora em diante reconhecível entre todas, sem que mais houvesse necessidade de recorrer à hipótese de penas especiais, como tintas raras e misteriosamente fabricadas não se fazem necessárias ao pintor para que este exprima a sua visão original. Mesmo um paralítico afetado de agrafia após um ataque e reduzido a olhar os caracteres como um desenho, sem os saber ler, teria compreendido que a Sra. de Cambremer pertencia a uma velha família em que a cultura entusiasta das letras e das artes havia arejado um pouco as tradições aristocráticas. Ele teria adivinhado igualmente em que época a marquesa aprendera simultaneamente a escrever e a tocar Chopin. Era a época em que as pessoas bem educadas observavam o preceito de ser amáveis e a regra dita dos três adjetivos. A Sra. de Cambremer combinava regra e preceito. Um adjetivo laudatório não lhe bastava, ela o fazia seguir (após um pequeno travessão) de um segundo, e depois (após novo travessão) de um terceiro. Mas o que lhe era particular é, que, contrariamente à finalidade social e literária que se propunha, a sucessão dos três epítetos nos bilhetes da Sra. de Cambremer assumia o aspecto, não de uma progressão, mas de um diminuendo. Nesta primeira carta, a Sra. de Cambremer disse que havia visto Saint-Loup e, mais do que nunca, apreciara suas qualidades "únicas raras reais" e que ela devia voltar com um de seus amigos (precisamente aquele que amavam nora) e que, se eu quisesse vir com ou sem eles jantar em Féterne, ela ficaria "encantada feliz contente". Talvez porque nela o desejo de amabilidade não se igualasse à fertilidade da imaginação e à riqueza do vocabulário, é que essa dama, levada a empregar três exclamações, não tinha, forças para conferir à segunda e à terceira mais que um eco enfraquecido da primeira. Houvesse apenas mais um quarto adjetivo, e nada restaria da amabilidade inicial. Enfim, por uma certa simplicidade refinada que não devia deixar de produzir uma considerável impressão na família e mesmo no seu círculo de relações, a Sra. de Cambremer tinha se habituado a substituir a palavra "sincera", que podia acabar por assumir um ar mentiroso: pela palavra "verdadeira". E, para deixar claro que se tratava mesmo de algo sincero, rompia a aliança convencional que colocaria "verdadeira" antes da substantivo, e o punha corajosamente depois. Suas cartas terminavam por: "Creia na minha afeição verdadeira", "creia na minha simpatia verdadeira". Infelizmente, aquilo de tal modo se tornara uma fórmula, que essa afetação de franqueza dava mais a impressão de polidez insincera do que as antigas fórmulas de cujo sentido ninguém mais se recorda. Aliás, sentia-me incomodado para ler devido ao rumor confuso das conversações, dominadas pela voz mais alta do Sr. de Charlus, que não largara o seu assunto e dizia ao Sr. de Cambremer: 

- O senhor me fazia pensar, ao querer que eu tomasse o seu posto, num cavalheiro que me enviou esta manhã uma carta, endereçando-a "A Sua Alteza o barão de Charlus", e que começava por. "Monsenhor". 
- De fato, o seu correspondente exagerava um pouco - respondeu o Sr. de Cambremer, entregando-se a uma discreta hilaridade. O Sr. de Charlus a tinha provocado; mas dela não participou. 
- Porém, no fundo, meu caro - disse -, repare que, do ponto de vista da heráldica, ele é que está com a verdade. Não faço disso uma questão pessoal, acredite. Fala como se se tratasse de outro. Mas o que quer, História é História. Nada podemos e não está em nós refazê-la. Não lhe citarei o imperador Guilherme, que em Kiel nunca deixou de me tratar de Monsenhor. Ouvi dizer que chamava assim a todos os duques franceses, o que é abusivo, e que era talvez simplesmente uma delicada atenção que, por sobre a nossa cabeça, visava a França. 
- Delicada e mais ou menos sincera - disse o Sr. de Cambremer. 
- Ah, não sou de sua opinião. Note que, pessoalmente, um senhor da última ordem como esse Hohenzollem, além do mais protestante, e que despojou o meu primo, o rei de Hanôver, não é de molde a me agradar - acrescentou o Sr. de Charlus, a quem o Hanôver parecia falar mais a seu coração do que a Alsácia-Lorena. - Porém acredito profundamente sincera a inclinação do imperador por nós. Os imbecis dirão que se trata de um imperador de teatro. Mas, ao contrário, ele é extraordinariamente inteligente. Porém não entende de pintura e obrigou o Sr. Tschudi a retirar os Elstir dos museus nacionais. Mas Luís XIV não gostava dos mestres holandeses, também tinha o gosto pelo aparato e, em suma, foi um grande soberano. E Guilherme II ainda armou seu país do ponto de vista militar e naval, como Luís XIV deixou de fazer, e espero que seu reinado jamais conheça os reveses que escureceram o final do reinado daquele a quem banalmente se chama o Rei-Sol. Na minha opinião, a República cometeu um grande erro ao repelir as amabilidades do Hohenzollern, ou só as retribuindo a conta-gotas. Ele mesmo percebe muito bem isso, e diz, com aquele dom de expressão que possui: "O que desejo é um aperto de mão, e não um cumprimento de chapéu." Como homem, é vil: abandonou, renegou, entregou seus melhores amigos em circunstâncias em que seu silêncio foi tão miserável como grande foi o silêncio deles - continuou o Sr. de Charlus que, sempre arrastado por sua inclinação, deslizava para o Caso Eulenbourg e se lembrava da frase que lhe dissera um dos acusados da mais alta posição: "E preciso mesmo que o imperador tenha confiança em nossa delicadeza para ter ousado permitir semelhante processo! Mas, aliás, não se enganou ao ter tido fé na nossa discrição. Até no cadafalso teríamos calado a boca." - De resto, aquilo tudo nada tem a ver com o que queria dizer, a saber que, na Alemanha, como príncipes mediatizados, somos Durchlaucht, e que, na França, nossa posição de Alteza era publicamente reconhecida. Saint-Simon pretende que a tomamos por abuso, no que se engana redondamente. O argumento que ele apresenta, a saber, que Luís XIV nos proibiu que o chamássemos de Rei Cristianíssimo, ordenando-nos que o tratássemos simplesmente de Rei, apenas prova que dependíamos dele e de modo algum que não tivéssemos a qualidade de príncipe. Sem o que, seria preciso negá-la ao duque de Lorena e a tantos outros. Além disso, vários de nossos títulos provêm da casa de Lorena através de Thérese d'Espinoy; minha bisavó, que era filha do donzel de Commercy. -

     Tendo percebido que Morel o escutava, o Sr. de Charlus desenvolveu mais amplamente os motivos de sua pretensão. 

- Já fiz observar ao meu irmão que não é na terceira parte do Gotha, mas na segunda, para não dizer na primeira, que devem encontrar-se a notícia sobre a nossa família - disse ele, sem se dar conta de que Morel não sabia o que era o Gotha. - Mas isso é com ele, ele é meu chefe de armas e, desde que ache bom assim e deixe correr a coisa, não tenho senão que fechar os olhos. 
- O Sr. Brichot me interessou muito - disse eu à Sra. Verdurin, que vinha a meu encontro, enquanto metia no bolso a carta da Sra. de Cambremer. - É um espírito culto e um bom homem respondeu ela friamente. - É claro que não possui nem gosto nem originalidade; tem uma memória tremenda. Diziam dos "avós" das pessoas que recebemos esta noite, dos emigrados, que eles nada haviam esquecido. Mas pelo menos eles tinham a desculpa - disse ela, fazendo sua uma frase de Swann - de que não haviam aprendido coisa alguma. Ao passo que Brichot sabe tudo e nos atira à cabeça, durante o jantar, pilhas de dicionários. Creio que o senhor já não ignora nada sobre o que quer dizer o nome de tal aldeia ou de tal cidade. -

     Enquanto a Sra. Verdurin falava, eu pensava que me prometera perguntar-lhe algo, mas não conseguia me lembrar do que fosse. 

- Estou certo de que falavam de Brichot - disse Ski. 
- Hein? Chantepie e Freycinet, ele não perdoou nada. Eu bem que a estava observando, minha Patroazinha. - Bem que reparei, só me faltou explodir.

     Hoje eu não saberia dizer como a Sra. Verdurin estava vestida aquela noite. Talvez nem naquele momento o soubesse, pois não tenho espírito de observação. Mas, sentindo que sua toalete não era despretensiosa, disse-lhe algumas palavras amáveis e até de admiração. Ela era como quase todas as mulheres, que imaginam que um cumprimento que lhes façam é a estrita expressão da verdade, e que é um juízo que se declara imparcialmente, irresistivelmente, como se se tratasse de um objeto de arte sem relação com uma pessoa. Assim, foi com uma seriedade que me fez enrubescer pela minha hipocrisia, que ela me fez esta orgulhosa e ingênua pergunta, habitual em tais circunstâncias: 

- Agrada-lhe? 
- Certamente estão falando de Chantepie -disse o Sr. Verdurin, aproximando-se.

     Pensando na minha lustrina verde e num cheiro de mato, eu era o único a não perceber que, enumerando essas etimologias, Brichot fizera com que rissem dele. E, como as impressões que davam às coisas o seu valor para mim eram daquelas que as outras pessoas ou não sentem ou recalcam, sem pensar, como sendo insignificantes, e que, por conseguinte, se eu as pudesse comunicar, ficariam incompreendidas ou teriam sido desdenhadas, eram inteiramente inutilizáveis para mim e, além disso, tinham o inconveniente de me fazer passar por estúpido aos olhos da Sra. Verdurin, que via que eu "engolira" Brichot, como já o parecera aos olhos da Sra. de Guermantes porque gostava de comparecer à casa da Sra. d'Arpajon. No caso de Brichot, entretanto, havia uma outra razão. Eu não pertencia ao pequeno clã. E em todo clã, seja mundano, político ou literário, desenvolve-se uma facilidade perversa de descobrir, numa conversação, num discurso oficial, numa novela, num soneto, tudo o que o leitor honesto jamais teria sonhado ver. Quantas vezes me aconteceu, lendo com certa emoção um conto habilmente escrito por um acadêmico um pouco antiquado, estar prestes a dizer a Bloch ou à Sra. de Guermantes: 

- Como é lindo! quando, antes que tivesse aberto a boca, eles exclamavam, cada qual numa linguagem diferente: 
- Se quiser passar um bom momento, leia um conto de Fulano. A estupidez humana jamais foi tão longe. 

     O desprezo de Bloch decorria principalmente de que certos efeitos de estilo, aliás agradáveis, eram um tanto fanados; o da Sra. de Guermantes, de que o conto parecia provar justamente o contrário do que o autor queria dizer, por motivos de fato que ela engenhosamente deduzia, mas nos quais eu nunca teria pensado. Tão surpreso fiquei ao ver a ironia que se ocultava sob a aparente amabilidade dos Verdurin para com Brichot, como ao ouvir, alguns dias mais tarde, em Féterne, os Cambremer dizerem-me, diante do elogio entusiasmado que eu fazia de La Raspeliere: 

- Não é possível que o senhor esteja sendo sincero, depois do que eles fizeram daquilo. -

     É verdade que confessaram que a baixela era bonita. Como as chocantes cortininhas, eu também não a tinha visto. 

- Enfim, agora, quando voltar a Balbec, o senhor saberá o que Balbec significa -disse ironicamente o Sr. Verdurin.

     O que me interessava eram justamente as coisas que Brichot me ensinava. Quanto ao que chamavam o seu espírito, era exatamente o mesmo que outrora fora tão apreciado no pequeno clã. Falava com a mesma irritante facilidade, mas suas palavras já não possuíam alcance, precisavam vencer um silêncio hostil ou ecos desagradáveis; o que havia mudado era não o que ele narrava, e sim a acústica do salão e as disposições do público. 

- Cuidado! - disse a Sra. Verdurin a meia voz, mostrando Brichot.

continua na página 160...
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Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Ao passo que Brichot sorria)
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