Odisseia
Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Parte III
O Relatos de Odisseu
Canto IX
Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope
“Este canto contém o início do grande Relato: como zarpou Odisseu de Ítaca primeiro chegando à terra dos Cíconos, e pilharam a cidade, junto ao mar, chamada Ismaro. Passaram então por Maleia, extremidade da Lacônia, onde um forte vento levou-os para além de um grande pélago e chegam à terra dos Lotófagos. Depois chegam ao Ciclope. A grande parte da tropa permanece junto à Ilha... mas o Ciclope que foi cego, Polifemo, come seis dos doze que o acompanharam.” (Scolie H Q ... E P)
continuando...
“Lume acendemos e aos deuses oferta de queijo fizemos,
do qual comemos depois; dentro do antro a esperá-lo ficamos.
De apascentar o rebanho voltou, carregando nos ombros
de lenha um feixe grandíssimo, para a feitura da ceia,
o qual lançou para dentro da gruta com bulha tão grande
que, apavorados, recuamos para o ângulo extremo da mesma.
Para o interior da caverna espaçosa compele o rebanho,
que pretendia ordenhar, mas deixando do lado de fora
todos os machos, carneiros e bodes, num pátio cercado.
Descomunal pedra agarra e levanta, deitando-a na entrada,
Descomunal pedra agarra e levanta, deitando-a na entrada,
para de porta servir, que do solo incapazes seriam
de remover vinte e dois carros sólidos de quatro rodas;
tal era o peso da pedra, que à entrada ele pôs da caverna!
Logo depois se assentou, porque ovelhas e cabras mungisse,
como de praxe, deixando cada uma com o filho de mama.
Faz que, depois, a metade do cândido leite talhasse,
e o recolheu, comprimindo-o, nuns cestos tecidos com vime;
a outra metade em vasilha guardou, porque sempre pudesse
dele beber e, mais tarde, servisse, também, como ceia.
Tendo concluído todo esse trabalho, acendeu logo o lume.
Vendo que ali nos achávamos, disse-nos, presto, o seguinte:
“‘Ó estrangeiros, quem sois? De onde vindes por úmidas vias?
É por algum interesse, ou à toa cruzais o mar vasto
como piratas, que vagam sem rumo, com risco da vida,
enquanto vão conduzindo a desgraça a pessoas estranhas?’
“Disse. A essas vozes partiu-se-nos o coração no imo peito,
ante o ribombo da voz e ante, ainda, a figura do monstro.
Mas, apesar disso tudo, lhe disse, em resposta, o seguinte:
“‘Somos Aqueus, que da terra dos Troas nos vemos jogados,
por toda sorte de ventos, no abismo infinito das ondas.
por toda sorte de ventos, no abismo infinito das ondas.
Na rota estamos da pátria; mas, outros caminhos sulcando,
vimos aqui; foi, talvez, o desígnio de Zeus poderoso.
É nosso orgulho contarmo-nos entre os do Atrida Agmémnone,
de cuja glória sem par toda a terra se encontra impregnada,
tal foi a grande cidade por ele destruída, bem como
povos sem conta. Ora viemos à tua presença, e te abraço
súplice os joelhos, pedindo que dons hospedais nos concedas,
ou qualquer coisa, tal como é costume aos estranhos fazer-se.
Aos deuses todos respeita, meu caro, pois somos pedintes;
o próprio Zeus é quem vinga e protege os mendigos e estranhos,
Zeus protetor, que acompanha em seus passos os nobres pedintes.’
“Isso lhe disse; ele, logo, me torna com ânimo duro:
‘És bem simplório, estrangeiro, ou de longes paragens chegado,
para exortares-me, assim, a que os deuses acate e os evite.
Nós, os Ciclopes, não temos receio de Zeus poderoso,
nem dos mais deuses beatos, pois somos mais fortes que todos.
Pelo respeito de Zeus, tão somente, não te pouparia,
nem a teus sócios, se a tanto meu peito não fosse inclinado.
Ora me conta onde se acha ancorada tua nave bem-feita,
para que o saiba, se perto, ou num ponto distante da terra.’¹
para que o saiba, se perto, ou num ponto distante da terra.’¹
“Bem compreendi qual seu plano, pois muito sabido me julgo
por tal motivo, com frase engenhosa, lhe disse, em resposta:
“‘Foi por Posido, que a terra sacode, destruída a mui rápida
nave em que eu vinha, de encontro aos rochedos da terra em que habitas
num promontório atirado, que foi, pelos ventos marinhos.
Eu e os meus sócios fugir conseguimos da Morte Precípite.’
“Disse-lhe; o monstro nenhuma palavra me deu em resposta;
mas, levantando-se, as mãos estendeu para meus companheiros
e, segurando dois deles, ao solo, quais dois cachorrinhos,
os atirou; derramaram-se os miolos na terra, molhando-a.
os atirou; derramaram-se os miolos na terra, molhando-a.
Ceia com eles prepara, depois de cortar-lhes os membros,
e os devorou como leão montanhês, sem deixar coisa alguma,
músculos, vísceras e ossos providos de gordo tutano.
Nós, prorrompendo em soluços, a Zeus elevamos os braços,
diante daquele espetác’lo; o desânimo a todos invade.
Quando o Ciclope acabou de entupir a monstruosa barriga
com carne humana e, por cima, bebeu leite níveo sem mescla,
dentro da côncava gruta deitou-se, no meio das reses.
Nesse momento ocorreu-me no peito magnânimo a ideia
de aproximar-me do monstro e sacar do meu gládio cortante,
de aproximar-me do monstro e sacar do meu gládio cortante,
para enterrar-lho no peito, onde o fígado se acha encoberto,
logo que o houvesse apalpado. Mas outras razões me tolheram.
Morte haveríamos todos ali pavorosa, decerto,
pois da alta entrada da gruta jamais remover poderíamos
por nossas mãos esse bloco maciço, que o monstro pusera.
Entre suspiros, portanto, aguardamos a Aurora divina.
“Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina,
lume acendeu na caverna e ordenhou todo o pingue rebanho,
como de praxe, deixando cada uma com o filho de mama.
Tendo assim, pois, com presteza concluído todo esse trabalho,
Tendo assim, pois, com presteza concluído todo esse trabalho,
dois, novamente, apanhou, e o repasto aprestou com seus corpos.
Tendo almoçado, afastou facilmente o penhasco da porta,
e para fora tocou todo o pingue rebanho; após isso,
torna a repô-lo no mesmo lugar, qual a tampa na aljava.
Com assobios levou para os montes o gordo rebanho
o monstro de olho redondo; eu, fiquei com meus planos sinistros
de como dele vingar-me e obter glória, se Atena me ouvisse.
Té que, afinal, tomei um, entre os vários alvitres pensados:
junto da cerca se achava o bordão do Ciclope, do tronco
de uma oliveira ainda verde, que ali a secar fora posto,
para depois ser usado. Ao olhá-lo julgávamos fosse
mastro de negro navio tocado por vinte remeiros,
barco mui largo de carga, que o abismo marinho atravessa.
De tal grandeza e grossura aquela árvore a todos surgia.
Aproximando-me dele, cortei um pedaço da altura
de uma braçada e o passei para os sócios, a quem logo ensino
como o polirem. Depois de isso feito, agucei uma ponta
e, por deixá-lo em bom ponto queimado, o meti entre as brasas.
Logo depois o tirei e o escondi com cuidado no esterco,
que se encontrava amontoado por toda a extensão da caverna.
que se encontrava amontoado por toda a extensão da caverna.
Aos companheiros, depois, ordenei que por sorte tirassem
quem com coragem se achava de alçar esse mastro comigo
e no olho dele enterrar, quando o sono o colhesse agradável.
“Foram por sorte escolhidos os mesmos que eu próprio haveria
de designar, quatro ao todo, entre os quais me incluí como quinto.
Com seu rebanho veloso voltou, pela tarde, do pasto,
e as reses todas tocou para dentro da gruta espaçosa,
sem que deixasse uma só para fora do pátio cercado,
ou por suspeita qualquer, ou por tê-lo avisado um dos deuses.
Descomunal pedra agarra e a levanta, deitando-a na entrada.
Logo depois se assentou, porque ovelhas e cabras mungisse,
como de praxe, deixando cada uma com o filho de mama.
Tendo assim, pois, com presteza, concluído todo esse trabalho,
dois de nós outros, ainda, tomou para novo repasto.
Aproximando-me, então, do Ciclope, começo a falar-lhe
e lhe ofereço a vasilha, que enchera de vinho vermelho:
“‘Toma, Ciclope, exp’rimenta este vinho, uma vez que comeste
carne de gente; hás de ver que bebida se achava no bojo
das nossas naus. Trouxe-a a fim de libar-te, que tenhas piedade
e nos reenvies. Tua fúria, porém, é, de fato, indizível.
e nos reenvies. Tua fúria, porém, é, de fato, indizível.
Quem, insensato, há de vir até aqui procurar-te, dos muitos
homens, se tão em contrário aos costumes conosco operaste?’
“Disse-lhe; o vinho aceitou, e o bebeu revelando tão grande
gosto por essa bebida que logo pediu nova dose:
“‘Dá-me outra vez; sê bondoso; revela-me logo o teu nome,
para que possa ofertar-te um presente que muito te alegre.
As terras férteis dos homens Ciclopes também nos produzem
vinhos em cachos vermelhos, que a chuva de Zeus faz ter viço.
Este, porém, tem sabor de mistura de néctar e ambrósia.’²
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[1] Neste trecho da Odisseia, Ulisses (Odisseu) e seus companheiros já estão presos na caverna do ciclope Polifemo.
Resumo:
- Os gregos encontram a caverna e aguardam o retorno de seu dono.
- Polifemo volta com o rebanho, fecha a entrada com uma pedra gigantesca e começa suas tarefas habituais de ordenhar as ovelhas e preparar alimentos.
- Ao perceber a presença dos estrangeiros, pergunta quem são e por que estão ali.
- Ulisses responde que são aqueus regressando da Guerra de Troia, desviados pelos ventos, e pede hospitalidade, invocando a proteção de Zeus sobre viajantes e suplicantes
- Polifemo rejeita a autoridade dos deuses, afirmando que os ciclopes são mais fortes e não têm obrigação de obedecer a Zeus.
- Em seguida, pergunta onde está ancorado o navio de Ulisses, tentando obter informações que poderão ser usadas contra os visitantes.
Importância do trecho:
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b /
Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c / Canto IV.d /
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto VI.a / Canto VI.b /
Parte III
Canto IX.a / Canto IX.b /
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
[1] Neste trecho da Odisseia, Ulisses (Odisseu) e seus companheiros já estão presos na caverna do ciclope Polifemo.
Resumo:
- Os gregos encontram a caverna e aguardam o retorno de seu dono.
- Polifemo volta com o rebanho, fecha a entrada com uma pedra gigantesca e começa suas tarefas habituais de ordenhar as ovelhas e preparar alimentos.
- Ao perceber a presença dos estrangeiros, pergunta quem são e por que estão ali.
- Ulisses responde que são aqueus regressando da Guerra de Troia, desviados pelos ventos, e pede hospitalidade, invocando a proteção de Zeus sobre viajantes e suplicantes
- Polifemo rejeita a autoridade dos deuses, afirmando que os ciclopes são mais fortes e não têm obrigação de obedecer a Zeus.
- Em seguida, pergunta onde está ancorado o navio de Ulisses, tentando obter informações que poderão ser usadas contra os visitantes.
Importância do trecho:
Esse episódio destaca o contraste entre a civilização grega, que valorizava a hospitalidade (xenia), e a barbárie representada por Polifemo, que despreza as leis divinas e os costumes dos homens. Também prepara o leitor para o conflito que se seguirá entre a inteligência de Ulisses e a força bruta do ciclope.
[2] Esse trecho é da Odisseia, de Homero, no episódio em que Odisseu (Ulisses) e seus companheiros estão presos na caverna do Ciclope Polifemo. Alguns elementos importantes da passagem:
- A situação de perigo: Polifemo já devorou alguns dos companheiros de Odisseu e continua tratando os homens como alimento, ignorando as normas de hospitalidade que os gregos consideravam sagradas.
- A astúcia de Odisseu: Em vez de enfrentar o gigante pela força, ele recorre à inteligência. O vinho aparece como uma arma indireta, destinada a embriagar o Ciclope e criar a oportunidade para a fuga.
- O contraste entre civilização e barbárie: Odisseu menciona que Polifemo agiu “em contrário aos costumes”. A crítica não é apenas à violência do Ciclope, mas ao fato de ele desrespeitar as leis da hospitalidade, fundamentais na cultura grega.
- O simbolismo do vinho: Embora os Ciclopes conheçam vinhos produzidos por suas terras, Polifemo fica impressionado com a bebida oferecida por Odisseu, descrevendo-a como semelhante ao “néctar e ambrósia”, alimentos associados aos deuses. Isso evidencia o poder do vinho e prepara sua embriaguez.
- Preparação para o engano: Quando Polifemo pede que Odisseu revele seu nome, o poema está preparando um dos momentos mais famosos da obra: Odisseu responderá que se chama “Ninguém”, artifício que será decisivo para seu plano.
O trecho marca uma virada na narrativa: até aqui os gregos estão totalmente à mercê do Ciclope; a partir da aceitação do vinho, Odisseu começa a recuperar o controle da situação por meio de sua principal virtude, a métis (inteligência astuciosa, engenho, sagacidade).