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sábado, 31 de outubro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto IX.b - Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte III
O Relatos de Odisseu 
Canto IX

Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope 

    “Este canto contém o início do grande Relato: como zarpou Odisseu de Ítaca primeiro chegando à terra dos Cíconos, e pilharam a cidade, junto ao mar, chamada Ismaro. Passaram então por Maleia, extremidade da Lacônia, onde um forte vento levou-os para além de um grande pélago e chegam à terra dos Lotófagos. Depois chegam ao Ciclope. A grande parte da tropa permanece junto à Ilha... mas o Ciclope que foi cego, Polifemo, come seis dos doze que o acompanharam.” (Scolie H Q ... E P)

continuando...

Mas para os sócios sua vista haveria tornar-se funesta. 
   “Lume acendemos e aos deuses oferta de queijo fizemos, 
do qual comemos depois; dentro do antro a esperá-lo ficamos. 
De apascentar o rebanho voltou, carregando nos ombros 
de lenha um feixe grandíssimo, para a feitura da ceia, 
o qual lançou para dentro da gruta com bulha tão grande 
que, apavorados, recuamos para o ângulo extremo da mesma. 
Para o interior da caverna espaçosa compele o rebanho, 
que pretendia ordenhar, mas deixando do lado de fora 
todos os machos, carneiros e bodes, num pátio cercado.

Descomunal pedra agarra e levanta, deitando-a na entrada, 
para de porta servir, que do solo incapazes seriam 
de remover vinte e dois carros sólidos de quatro rodas; 
tal era o peso da pedra, que à entrada ele pôs da caverna! 
Logo depois se assentou, porque ovelhas e cabras mungisse, 
como de praxe, deixando cada uma com o filho de mama. 
Faz que, depois, a metade do cândido leite talhasse, 
e o recolheu, comprimindo-o, nuns cestos tecidos com vime; 
a outra metade em vasilha guardou, porque sempre pudesse 
dele beber e, mais tarde, servisse, também, como ceia.

Tendo concluído todo esse trabalho, acendeu logo o lume. 
Vendo que ali nos achávamos, disse-nos, presto, o seguinte: 
   “‘Ó estrangeiros, quem sois? De onde vindes por úmidas vias? 
É por algum interesse, ou à toa cruzais o mar vasto 
como piratas, que vagam sem rumo, com risco da vida, 
enquanto vão conduzindo a desgraça a pessoas estranhas?’ 
   “Disse. A essas vozes partiu-se-nos o coração no imo peito, 
ante o ribombo da voz e ante, ainda, a figura do monstro. 
Mas, apesar disso tudo, lhe disse, em resposta, o seguinte: 
   “‘Somos Aqueus, que da terra dos Troas nos vemos jogados, 

por toda sorte de ventos, no abismo infinito das ondas. 
Na rota estamos da pátria; mas, outros caminhos sulcando, 
vimos aqui; foi, talvez, o desígnio de Zeus poderoso. 
É nosso orgulho contarmo-nos entre os do Atrida Agmémnone, 
de cuja glória sem par toda a terra se encontra impregnada, 
tal foi a grande cidade por ele destruída, bem como 
povos sem conta. Ora viemos à tua presença, e te abraço 
súplice os joelhos, pedindo que dons hospedais nos concedas, 
ou qualquer coisa, tal como é costume aos estranhos fazer-se. 
Aos deuses todos respeita, meu caro, pois somos pedintes;

o próprio Zeus é quem vinga e protege os mendigos e estranhos, 
Zeus protetor, que acompanha em seus passos os nobres pedintes.’
   “Isso lhe disse; ele, logo, me torna com ânimo duro: 
‘És bem simplório, estrangeiro, ou de longes paragens chegado, 
para exortares-me, assim, a que os deuses acate e os evite. 
Nós, os Ciclopes, não temos receio de Zeus poderoso, 
nem dos mais deuses beatos, pois somos mais fortes que todos. 
Pelo respeito de Zeus, tão somente, não te pouparia, 
nem a teus sócios, se a tanto meu peito não fosse inclinado. 
Ora me conta onde se acha ancorada tua nave bem-feita,

para que o saiba, se perto, ou num ponto distante da terra.’¹
   “Bem compreendi qual seu plano, pois muito sabido me julgo 
por tal motivo, com frase engenhosa, lhe disse, em resposta: 
   “‘Foi por Posido, que a terra sacode, destruída a mui rápida 
nave em que eu vinha, de encontro aos rochedos da terra em que habitas 
num promontório atirado, que foi, pelos ventos marinhos. 
Eu e os meus sócios fugir conseguimos da Morte Precípite.’ 
   “Disse-lhe; o monstro nenhuma palavra me deu em resposta; 
mas, levantando-se, as mãos estendeu para meus companheiros 
e, segurando dois deles, ao solo, quais dois cachorrinhos,

os atirou; derramaram-se os miolos na terra, molhando-a. 
Ceia com eles prepara, depois de cortar-lhes os membros, 
e os devorou como leão montanhês, sem deixar coisa alguma, 
músculos, vísceras e ossos providos de gordo tutano. 
Nós, prorrompendo em soluços, a Zeus elevamos os braços, 
diante daquele espetác’lo; o desânimo a todos invade. 
Quando o Ciclope acabou de entupir a monstruosa barriga 
com carne humana e, por cima, bebeu leite níveo sem mescla, 
dentro da côncava gruta deitou-se, no meio das reses. 
Nesse momento ocorreu-me no peito magnânimo a ideia

de aproximar-me do monstro e sacar do meu gládio cortante, 
para enterrar-lho no peito, onde o fígado se acha encoberto, 
logo que o houvesse apalpado. Mas outras razões me tolheram. 
Morte haveríamos todos ali pavorosa, decerto, 
pois da alta entrada da gruta jamais remover poderíamos 
por nossas mãos esse bloco maciço, que o monstro pusera. 
Entre suspiros, portanto, aguardamos a Aurora divina. 
   “Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
lume acendeu na caverna e ordenhou todo o pingue rebanho, 
como de praxe, deixando cada uma com o filho de mama.

Tendo assim, pois, com presteza concluído todo esse trabalho, 
dois, novamente, apanhou, e o repasto aprestou com seus corpos. 
Tendo almoçado, afastou facilmente o penhasco da porta, 
e para fora tocou todo o pingue rebanho; após isso, 
torna a repô-lo no mesmo lugar, qual a tampa na aljava. 
Com assobios levou para os montes o gordo rebanho 
o monstro de olho redondo; eu, fiquei com meus planos sinistros 
de como dele vingar-me e obter glória, se Atena me ouvisse. 
Té que, afinal, tomei um, entre os vários alvitres pensados:
junto da cerca se achava o bordão do Ciclope, do tronco

de uma oliveira ainda verde, que ali a secar fora posto, 
para depois ser usado. Ao olhá-lo julgávamos fosse 
mastro de negro navio tocado por vinte remeiros, 
barco mui largo de carga, que o abismo marinho atravessa. 
De tal grandeza e grossura aquela árvore a todos surgia. 
Aproximando-me dele, cortei um pedaço da altura 
de uma braçada e o passei para os sócios, a quem logo ensino 
como o polirem. Depois de isso feito, agucei uma ponta 
e, por deixá-lo em bom ponto queimado, o meti entre as brasas. 
Logo depois o tirei e o escondi com cuidado no esterco,

que se encontrava amontoado por toda a extensão da caverna. 
Aos companheiros, depois, ordenei que por sorte tirassem 
quem com coragem se achava de alçar esse mastro comigo 
e no olho dele enterrar, quando o sono o colhesse agradável. 
   “Foram por sorte escolhidos os mesmos que eu próprio haveria 
de designar, quatro ao todo, entre os quais me incluí como quinto. 
Com seu rebanho veloso voltou, pela tarde, do pasto, 
e as reses todas tocou para dentro da gruta espaçosa, 
sem que deixasse uma só para fora do pátio cercado, 
ou por suspeita qualquer, ou por tê-lo avisado um dos deuses.

Descomunal pedra agarra e a levanta, deitando-a na entrada. 
Logo depois se assentou, porque ovelhas e cabras mungisse, 
como de praxe, deixando cada uma com o filho de mama. 
Tendo assim, pois, com presteza, concluído todo esse trabalho, 
dois de nós outros, ainda, tomou para novo repasto. 
Aproximando-me, então, do Ciclope, começo a falar-lhe 
e lhe ofereço a vasilha, que enchera de vinho vermelho: 
   “‘Toma, Ciclope, exp’rimenta este vinho, uma vez que comeste 
carne de gente; hás de ver que bebida se achava no bojo 
das nossas naus. Trouxe-a a fim de libar-te, que tenhas piedade

e nos reenvies. Tua fúria, porém, é, de fato, indizível. 
Quem, insensato, há de vir até aqui procurar-te, dos muitos 
homens, se tão em contrário aos costumes conosco operaste?’ 
   “Disse-lhe; o vinho aceitou, e o bebeu revelando tão grande 
gosto por essa bebida que logo pediu nova dose: 
   “‘Dá-me outra vez; sê bondoso; revela-me logo o teu nome, 
para que possa ofertar-te um presente que muito te alegre. 
As terras férteis dos homens Ciclopes também nos produzem 
vinhos em cachos vermelhos, que a chuva de Zeus faz ter viço. 
Este, porém, tem sabor de mistura de néctar e ambrósia.’²
continua página 800...
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Prelúdio
Parte I
Parte II
Parte III
Canto IX.a / Canto IX.b /                                    
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Neste trecho da Odisseia, Ulisses (Odisseu) e seus companheiros já estão presos na caverna do ciclope Polifemo.
     Resumo:
- Os gregos encontram a caverna e aguardam o retorno de seu dono.
- Polifemo volta com o rebanho, fecha a entrada com uma pedra gigantesca e começa suas tarefas habituais de ordenhar as ovelhas e preparar alimentos.
- Ao perceber a presença dos estrangeiros, pergunta quem são e por que estão ali.
- Ulisses responde que são aqueus regressando da Guerra de Troia, desviados pelos ventos, e pede hospitalidade, invocando a proteção de Zeus sobre viajantes e suplicantes
- Polifemo rejeita a autoridade dos deuses, afirmando que os ciclopes são mais fortes e não têm obrigação de obedecer a Zeus.
- Em seguida, pergunta onde está ancorado o navio de Ulisses, tentando obter informações que poderão ser usadas contra os visitantes.
     Importância do trecho:
Esse episódio destaca o contraste entre a civilização grega, que valorizava a hospitalidade (xenia), e a barbárie representada por Polifemo, que despreza as leis divinas e os costumes dos homens. Também prepara o leitor para o conflito que se seguirá entre a inteligência de Ulisses e a força bruta do ciclope.

[2] Esse trecho é da Odisseia, de Homero, no episódio em que Odisseu (Ulisses) e seus companheiros estão presos na caverna do Ciclope Polifemo. Alguns elementos importantes da passagem:
- A situação de perigo: Polifemo já devorou alguns dos companheiros de Odisseu e continua tratando os homens como alimento, ignorando as normas de hospitalidade que os gregos consideravam sagradas.
- A astúcia de Odisseu: Em vez de enfrentar o gigante pela força, ele recorre à inteligência. O vinho aparece como uma arma indireta, destinada a embriagar o Ciclope e criar a oportunidade para a fuga.
- O contraste entre civilização e barbárie: Odisseu menciona que Polifemo agiu “em contrário aos costumes”. A crítica não é apenas à violência do Ciclope, mas ao fato de ele desrespeitar as leis da hospitalidade, fundamentais na cultura grega.
- O simbolismo do vinho: Embora os Ciclopes conheçam vinhos produzidos por suas terras, Polifemo fica impressionado com a bebida oferecida por Odisseu, descrevendo-a como semelhante ao “néctar e ambrósia”, alimentos associados aos deuses. Isso evidencia o poder do vinho e prepara sua embriaguez.
- Preparação para o engano: Quando Polifemo pede que Odisseu revele seu nome, o poema está preparando um dos momentos mais famosos da obra: Odisseu responderá que se chama “Ninguém”, artifício que será decisivo para seu plano.
     O trecho marca uma virada na narrativa: até aqui os gregos estão totalmente à mercê do Ciclope; a partir da aceitação do vinho, Odisseu começa a recuperar o controle da situação por meio de sua principal virtude, a métis (inteligência astuciosa, engenho, sagacidade).

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto IX.a - Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte III
O Relatos de Odisseu 
Canto IX

Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope 

    “Este canto contém o início do grande Relato: como zarpou Odisseu de Ítaca primeiro chegando à terra dos Cíconos, e pilharam a cidade, junto ao mar, chamada Ismaro. Passaram então por Maleia, extremidade da Lacônia, onde um forte vento levou-os para além de um grande pélago e chegam à terra dos Lotófagos. Depois chegam ao Ciclope. A grande parte da tropa permanece junto à Ilha... mas o Ciclope que foi cego, Polifemo, come seis dos doze que o acompanharam.” (Scolie H Q ... E P)

   Disse-lhe, então, em resposta, Odisseu, o guerreiro solerte: 
“Ó rei Alcínoo, entre todos ilustre e ornamento do povo! 
É delicioso, de fato, podermos ouvir tão sublime 
e inolvidável cantor, cuja voz se assemelha à dos deuses. 
Sim, digo mesmo que a nada se pode aspirar de mais alto 
que ver a paz entre o povo e a alegria no rosto de todos, 
e, no interior do palácio, os convivas sentados em ordem, 
todos o aedo a escutar, tendo mesas na frente, repletas 
de pão e carne, no tempo em que o vinho nas grandes crateras

deita o escanção, para os copos de todos encher até as bordas: 
eis o que a mim se afigura a mais bela e inefável ventura. 
Mas ora estás inclinado a fazer-me perguntas acerca 
de meus suspiros e dores, a fim de ainda mais lastimar-me. 
Qual há de ser o primeiro, qual o último que hei de contar-te 
dos sofrimentos, se tantos os deuses celestes me deram? 
Pelo meu nome princípio darei, que a saber venhais todos 
como me chamo e porque hóspede vosso ainda seja, conquanto 
venha da Morte a escapar e por mais que me encontre distante. 
Sou de Laertes o filho, Odisseu, conhecido entre os homens

por toda a sorte de astúcias; bater foi no céu minha glória. 
Ítaca, ao longe visível, é minha morada, onde o monte 
Nérito se alça imponente, coroado de frondes; em torno, 
ilhas em número grande se encontram, bem perto umas de outras, 
Samo não só, mas Dulíquio, também, e a selvosa Zacinto. 
Ela é a mais baixa e se encontra nas ondas num ponto longínquo, 
do lado escuro; as demais, para o lado do Sol e da Aurora. 
Áspera, sim, mas nutriz admirável de moços; mais doce 
vista jamais me foi dado admirar do que a terra nativa. 
Bem me deteve em sua côncava gruta a preclara Calipso,

deusa entre as deusas, que ardia em desejos de que eu a esposasse. 
Circe, também, procurou me reter no interior de sua casa, 
a deusa Eeia, astuciosa, intentando fazer-se-me esposa. 
O coração no imo peito, porém, jamais pôde abalar-me. 
Nada tão doce, sem dúvida, pode existir, como a pátria 
e os próprios pais, muito embora moremos num rico palácio, 
longe, em país estrangeiro, distante dos que nos geraram. 
Seja, se o queres! Dir-te-ei do regresso que fiz, trabalhoso, 
dado por Zeus, quando a costa de Troia deixei, de retorno.¹
   “De Ílio levaram-me os ventos à terra habitada por Cíconos,

onde a cidade de Ismaro saqueei e matei os seus homens; 
mas da cidade as mulheres e o grande tesouro amontoado 
foi dividido, porque nenhum homem sem lote ficasse. 
É bem verdade que aos outros propus que com pés mui velozes 
logo fugíssemos, mas os estultos não me obedeceram. 
Vinho gostoso e abundante beberam, ovelhas sem conta 
sacrificaram na praia, e assim bois que se arrastam tardonhos. 
Nesse entrementes, os Cíconos pedem socorro a outros Cíconos 
circunvizinhos, porém de mais força e bem mais numerosos. 
Na terra firme habitavam; de carro eles todos lutavam

com os imigos, ou mesmo de pé, se assim fosse preciso.
Ei-los que chegam, bem cedo, abundantes quais folhas e flores 
da primavera. Então Zeus sobre nós, infelizes, um fado 
triste, mui triste mandou, porque novos trabalhos sofrêssemos. 
Firmes ao lado das céleres naus of’receram combate 
e se feriram reciprocamente com as lanças de bronze. 
Enquanto o dia sagrado crescia e a manhã não cessara, 
foi-nos possível contê-las, pesar do seu número grande. 
Mas, quando o Sol se inclinou, já no tempo em que os bois vão ser soltos, 
levam os Cíconos grande vantagem, fugindo os Aquivos.

De cada nau pereceram seis homens de grevas bem-feitas; 
todos os mais escapamos da Morte e do triste Destino. 
   “O coração apertado, vogamos dali para diante, 
ledos por termos da Morte escapado, com perdas dos sócios. 
Não se afastaram, porém, do lugar meus navios simétricos, 
sem pelo nome chamarmos três vezes a cada coitado 
dos companheiros, que mortos ficaram na terra dos Cíconos. 
Sobre os navios lançou o poderoso, que as nuvens reúne, 
Zeus, tempestade violenta, fazendo que as nuvens cobrissem 
a terra e o mar juntamente. Do céu baixa a noite, entrementes.

Eis nossas naus a correrem sem rumo, com as proas submersas; 
três, quatro vezes, as velas os ventos furiosos as rasgam, 
o que nos faz amainá-las, receosos de mores desditas, 
e as próprias naus, com bem pressa, remamos no rumo da terra. 
Por duas noites e dias contínuos ali demoramos, 
com o peito apresso não só por fadigas, também pelas dores. 
Mas, quando a Aurora, de belos cabelos, nos trouxe o outro dia, 
logo elevamos os mastros, as cândidas velas soltamos 
e nos sentamos. As naus os pilotos e os ventos dirigem. 
Ao ninho pátria, talvez sem mais dores houvesse eu chegado;

mas, ao querer contornar o Maleia, arrastou-me a corrente, 
bem como Bóreas, do que resultou de Citera afastar-me. 
   “Por nove dias dali me levaram os ventos funestos, 
por sobre o oceano piscoso; somente no décimo à terra 
nos foi possível descer dos Lotófagos que comem flores. 
Nessa paragem descemos, a fim de fazermos aguada. 
A refeição junto às naves velozes os sócios fizeram. 
Mas, tendo assim, a vontade da fome e da sede saciado, 
sócios escolho e os envio, com o fim de notícias obterem, 
sobre que gente aí morava, e se vive de pão, como todos,

tendo escolhido dois homens e o arauto, o terceiro, por sócio. 
Ei-los que vão, sem demora, e se mesclam aos homens Lotófagos. 
Esses Lotófagos não empreenderam fazer nenhum dano 
aos nossos homens, mas logo fizeram que loto comessem. 
Quem quer que viesse a provar uma vez desse fruto gostoso 
nunca a resposta haveria trazer, nem de novo empegar-se; 
desejaria, isso sim, morar sempre com os homens Lotófagos, 
a comer loto somente, esquecido, de vez, do retorno. 
Mas, apesar de suas lágrimas, trouxe-os à força, de novo, 
para as naus côncavas, onde os atei sob os bancos dos remos,

tendo, em seguida, ordenado aos queridos consócios de viagem 
que para as céleres naves, sem perda de tempo, subissem. 
Não fosse a alguém esquecer o retorno por causa do loto. 
Sobem, por isso, os demais para bordo e se sentam nos bancos, 
todos em ordem, batendo com os remos nas ondas grisalhas. 
   “O coração apertado, vogamos daí para diante. 
Fomos, depois, apartar ao país dos soberbos Ciclopes, 
destituídos de leis, que, confiados nos deuses eternos, 
não só não cuidam de os campos lavrar, como não plantam nada. 
Tudo lhes nasce espontâneo, sem uso de arado e sementes

trigo e cevada, bem como videiras, que vinho produzem, 
de cor vermelha; na chuva de Zeus vem a vida dos frutos. 
Leis desconhecem, bem como os concílios nas ágoras públicas. 
Vivem agrestes, somente nos cimos das altas montanhas, 
em grutas côncavas, tendo cada um sobre os filhos e a esposa 
plenos direitos, sem que dos demais o destino lhe importe. 
   “Nota-se uma ilha pequena, que fora do porto se estende, 
nem mui distante nem perto da terra dos homens Ciclopes, 
muito sombreada, onde cabras se encontram em número infindo, 
todas selvagens, que os passos dos homens jamais afugentam.

Nunca, também, caçadores aí chegam, que pelas florestas 
sofrem trabalhos sem conta, ao pisarem os cimos dos montes. 
Grandes armentos, também, não se encontram, nem campos arados, 
mas diariamente produz, sem que seja lavrada ou semeada 
e erma de gentes; só nutre balantes rebanhos de cabras. 
Entre os Ciclopes não se acham navios de frente vermelha, 
nem carpinteiros capazes, que saibam construir segundo a arte 
naves cobertas, como essas que trocas variadas permitem 
pelas cidades dos homens, tal como é costume entre todas 
as demais gentes, que em naves o dorso do mar atravessam.

A ilha teriam deixado, sem dúvida, mais habitável, 
pois não é ruim, mas capaz de gerar toda sorte de frutos. 
Nela se veem, junto à margem do mar pardacento, macios 
e úmidos prados. É certo que a vinha constante daria. 
Para a lavoura há baixada; no tempo oportuno colhera-se 
ótima safra, por ser o terreno, todo ele, mui fértil. 
Porto de boa ancoragem of’rece, onde as naus não precisam 
de lançar âncoras, nem de firmar os calabres em terra. 
Mas, uma vez aí chegados, os nautas ficar poderiam 
por quanto tempo quisessem, ou até lhes soprar um bom vento.

Água mui límpida flui da porção mais interna do porto, 
vinda de gruta que se acha cercada por álamos negros. 
A esse lugar viemos ter, por um deus, certamente, guiados 
na escuridão, que fazia, de noite, em que nada se via, 
pois densa névoa baixara em redor dos navios; a lua 
não nos brilhava no céu, envolvida se achando por nuvens. 
A ilha não foi percebida por homem nenhum dos navios, 
nem mesmo as ondas enormes, que vinham quebrar-se na costa, 
antes de haverem as naves de boa coberta apartado. 
Mas, uma vez aí chegados, as velas, sem mais, amainamos

das naves todas, e à praia sonora do mar nos passamos, 
onde, a dormir, aguardamos que a Aurora divina surgisse. 
   “Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
a percorrer a ilha toda pusemo-nos cheios de espanto. 
Ninfas, as filhas de Zeus poderoso, tocaram montes as 
cabras, que a nossa campanha pudessem servir de repasto. 
Rapidamente das naves tiramos as lanças compridas 
e arcos recurvos; e, tendo disposto em três grupos os sócios, 
logo atiramos; um deus concedeu-nos caçada abundante. 
Doze navios, ao todo, seguiam-me; a cada um tocaram

nove das cabras montesas; a mim, porém, dez foram dadas. 
Dessa maneira, portanto, e até o Sol no ocidente deitar-se, 
nos detivemos sentados, comendo e bebendo à vontade. 
O vinho tinto, de fato, ainda não se acabara nas naves, 
mas provisão ainda havia; pois muito nas ânforas tinham 
todos guardado, ao tocarmos os muros sagrados dos Cíconos. 
Perto dali observamos a terra dos homens Ciclopes 
e percebemos suas vozes, bem como os balidos das cabras. 
Logo que o Sol se acolheu e o crepúsculo baixou sobre a terra, 
fomo-nos todos deitar pela praia, onde as ondas se quebram.

Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
faço reunir a assembleia, e aos presentes arengo desta arte: 
   “‘Vós, companheiros queridos de viagem, ficai aqui todos, 
que eu, no navio em que vim, juntamente com meus companheiros, 
vou ver se obtenho notícias da gente que mora ali perto, 
se, porventura, selvagens violentos, que leis desconheçam, 
se de outras terras e amigos, e afeitos ao culto dos deuses.’ 
   “Isso lhes disse, e subi para a nau, tendo aos sócios mandado 
que se embarcassem, também, e as amarras de trás desprendessem. 
Sobem, por isso, os demais para bordo e se sentam nos bancos,

todos em ordem, batendo com os remos nas ondas grisalhas. 
Em pouco tempo chegamos à terra, que estava bem próxima, 
onde, no extremo, uma gruta avistamos, do mar muito perto, 
ampla e elevada, sombreada por muitos loureiros; inúmeras 
cabras e ovelhas balavam, em torno das quais se elevava 
muro composto todo ele de pedras fincadas no solo 
e altos pinheiros e grossos carvalhos de copas altivas. 
Era essa a casa de um monstro gigante, que ali, solitário, 
só dos rebanhos cuidava, afastado de todos os outros, 
sem com nenhum conviver e ignorando os preceitos divinos.

Era ele um monstro espantoso deveras, que aspecto não tinha 
de homem que vive de pão, mas de um pico, coberto de selvas, 
de alta montanha que, longe, das mais se destaca, isolada. 
   “Dei, nesse passo, instruções aos queridos consócios de viagem, 
para que ali me esperassem, guardando o navio veloce; 
e, tendo doze escolhido dos mais corajosos, nos fomos, 
odre levando comigo de vinho de gosto agradável, 
de cor escura, que Maro me dera, o nascido de Evanto, 
e sacerdote de Apolo, dos muros de Ismaro padroeiro, 
pelo motivo de o haver acatado e poupado, bem como

a esposa e filhos. Morava num bosque sombreado por árvores, 
de Febo Apolo. Magníficos brindes, então, me deu ele: 
de ouro talentos me deu, sete ao todo, mui bem trabalhados, 
uma cratera de prata maciça, bem como doze ânforas, 
de alças ornadas e cheias de vinho gostoso e sem mescla: 
era bebida divina; ninguém tinha disso notícia 
lá no palácio, entre todos os servos e servas da casa, 
com exceção de uma só despenseira, ele próprio e a consorte. 
Quando queriam beber desse vinho melífluo e vermelho, 
era a medida deitar uma taça bem cheia do mesmo

em vinte de água. Do vaso evolava-se aroma inefável, 
coisa divina. Custava a qualquer não poder saboreá-lo. 
Odre bem grande aprontei desse vinho e um surrão com vitualhas, 
pois me dizia uma voz no imo peito valente que iria 
ver-me defronte de um homem dotado de força excessiva, 
bronco selvagem, ignaro das leis e do senso do justo. 
   “Em pouco tempo chegamos à gruta, mas não o encontramos 
dentro; levara a pascer pelo prado suas pingues ovelhas. 
Dentro da gruta, tomados de espanto, admirávamos tudo. 
Os secadouros de queijo se achavam repletos; cabritos

e anhos no estáb’lo apertavam-se, todos mui bem-segregados: 
os que nasceram primeiro, os de idade mediana e, por último, 
os recém-nados. Das muitas vasilhas o soro escorria, 
tarros, não só, mas gamelas bem-feitas, nas quais ordenhara. 
Meus companheiros, então, me pediram voltássemos logo 
com uma boa porção desses queijos; depois cuidaríamos, 
sem perder tempo, de às naves velozes levar alguns anhos 
e cabritinhos, e as ondas salgadas cursar, em seguida. 
Mas não me quis convencer — e bem mais vantajoso me fora! 
pois desejava encontrá-lo e provar hospital gasalhado.
continua página 796...
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Prelúdio
Parte I
Parte II
Parte III
Canto IX.a / Canto IX.b /                                   
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Este trecho marca um momento muito importante da Odisseia: é quando Odisseu finalmente se identifica diante dos feácios, após ter permanecido por algum tempo sem revelar seu nome. Alguns temas centrais aparecem com grande força:
     * A hospitalidade e a convivência civilizada - Odisseu começa elogiando a cena que presencia no palácio de Alcínoo. Para ele, uma das maiores felicidades humanas é a harmonia social: o povo em paz, os convidados reunidos, o poeta cantando, as mesas fartas e o vinho circulando. Essa imagem representa o ideal grego de uma comunidade ordenada, próspera e hospitaleira.
     * A fama (kleos) - Quando revela quem é, Odisseu declara: “Sou de Laertes o filho, Odisseu, conhecido entre os homens por toda a sorte de astúcias”. Na cultura heroica grega, a fama era uma forma de imortalidade. Odisseu apresenta-se não apenas pelo nome, mas também pela reputação conquistada em suas aventuras e na Guerra de Troia.
     * O amor pela pátria - Talvez o aspecto mais emocionante do trecho seja a declaração de amor a Ítaca. Embora reconheça o encanto de Calipso e Circe, ele afirma que nada é mais precioso do que: “a pátria e os próprios pais”. Homero contrasta aqui dois tipos de desejo:
- a tentação da imortalidade e do prazer oferecidos pelas deusas;
- o desejo profundamente humano de regressar ao lar.
     * A humanidade de Odisseu - Mesmo sendo um herói famoso, Odisseu não se apresenta como um guerreiro invencível. Ele fala de seus sofrimentos, suspiros e dores. Sua grandeza não está apenas nas vitórias, mas na capacidade de suportar perdas, tentações e adversidades sem abandonar o objetivo de voltar para casa.
     * O início do grande relato autobiográfico - Este trecho funciona como uma transição narrativa. Após se identificar, Odisseu anuncia que contará toda a história de seu retorno desde a saída de Troia. A partir daí começam os famosos episódios do Ciclope, dos Lestrigões, de Circe, das Sereias, de Cila e Caríbdis e de outras aventuras.
     Em resumo, este é um dos trechos mais emblemáticos da Odisseia porque reúne três valores fundamentais do poema: a fama do herói, a nostalgia da pátria e a perseverança diante do sofrimento. Odisseu rejeita até mesmo o amor de deusas imortais porque considera que nada supera o retorno ao próprio lar.

[2] Este é o episódio do Ciclope Polifemo, um dos mais famosos da Odisseia, e já revela uma característica essencial de Odisseu: sua maior virtude, a curiosidade e a busca pela experiência, é também uma de suas maiores fraquezas.
     * O vinho como arma futura - Antes mesmo de encontrar o ciclope, Odisseu leva consigo o extraordinário vinho dado por Maro, sacerdote de Apolo. Homero dedica muitos versos à descrição dessa bebida porque ela terá um papel decisivo mais adiante: será com esse vinho fortíssimo, diluído normalmente em vinte partes de água para uma de vinho, que Odisseu embriagará Polifemo. 
O herói parece agir por intuição: "me dizia uma voz no imo peito valente que iria ver-me defronte de um homem dotado de força excessiva". Isso sugere a prudência estratégica que o caracteriza. Ele se prepara para um encontro difícil antes mesmo de saber exatamente o que encontrará.
     * O contraste entre os companheiros e Odisseu - Quando entram na caverna vazia, os companheiros propõem algo simples e sensato: pegar os queijos; capturar alguns cabritos e cordeiros; voltar imediatamente ao navio. Seria uma incursão rápida e segura. Mas Odisseu recusa. Esse é um dos momentos em que Homero deixa o leitor perceber a ambiguidade do herói. Sua decisão nasce do desejo de conhecer o dono da gruta e receber dele os presentes de hospitalidade que, segundo os costumes gregos, deveriam ser oferecidos a um visitante.
     * A importância da hospitalidade - Odisseu espera encontrar um homem civilizado, submetido às regras da xenia, a hospitalidade sagrada protegida por Zeus. Na cultura grega: o estrangeiro devia ser acolhido; o anfitrião oferecia alimento e abrigo; só depois perguntava quem era o visitante. Odisseu acredita que essas normas são universais. O erro está justamente aí. Polifemo não pertence ao mundo organizado das cidades gregas. O próprio trecho já o descreve antecipadamente como: "bronco selvagem, ignaro das leis e do senso do justo." A tragédia começa quando Odisseu tenta aplicar valores de civilização a alguém que vive fora dela.
     * A ironia do narrador - O verso: "Mas não me quis convencer — e bem mais vantajoso me fora!" é uma observação retrospectiva de Odisseu narrador. Ele já sabe tudo o que ocorrerá depois: os companheiros devorados, o aprisionamento na caverna e os sofrimentos que virão. Ao contar a história aos feácios, reconhece que deveria ter escutado seus homens. É um raro momento de autocrítica.
     * Significado mais profundo - Este episódio não é apenas uma aventura contra um monstro. Ele opõe dois mundos:

Mundo de OdisseuMundo de Polifemo
leisforça bruta
hospitalidadeegoísmo
convivência socialisolamento
inteligênciaviolência
civilizaçãoselvageria

     Toda a vitória posterior de Odisseu sobre o ciclope será uma vitória da inteligência sobre a força física. Mas Homero também sugere algo importante: se Odisseu não fosse tão curioso e tão confiante em sua própria capacidade de lidar com qualquer situação, talvez jamais tivesse entrado naquela caverna. Sua astúcia o salva, mas seu excesso de confiança frequentemente o coloca em perigo. É uma das características mais humanas e fascinantes do herói.


quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Ilíada: Homero (Canto IX.c - Honra para Aquiles e Preces)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto IX - Honra para Aquiles e Preces
 
“Agamémnone forma um conselho e sugere, desesperado, o retorno à Grécia. Diomedes e Nestor o acusam de covardia e de injustiça com o melhor dos Gregos, Aquiles. Agamémnone concorda e resolve devolver Briseide a Aquiles junto com uma grande recompensa. É enviada uma comissão, composta por Odisseu, Ajaz e Fenice, a Aquiles. Odisseu e Fenice conversam com Aquiles, que se mostra inflexível. Diomedes reanima os Gregos.”

continuando...

onde me acolhe o potente Peleu com benévolo espírito. 
Teve-me grande afeição, como pai poderoso a filho único, 
único herdeiro de infinita riqueza para ele acervada, 
e cumulou-me de bens, sobre dar-me o comando de gentes, 
pois sobre os Dólopes tive o governo, no extremo de Ftia. 
Qual és, Aquiles divino, nesta hora, por mim foste feito, 
por mim, com terna afeição. Ninguém mais ao teu lado querias, 
tanto como hóspede, fora, ou à mesa, nos nossos banquetes,
té que em meus joelhos, alfim, te pusesse, e cortasse os assados 
em pedacinhos, com o que te saciasses e vinho te desse.

Não poucas vezes, de vinho, no peito molhaste-me a túnica, 
que borrifavas por cima de mim, com capricho de criança. 
Por tua causa vê só que trabalhos sofri, que de incômodos! 
Considerando que os deuses um filho me haviam negado, 
como se filho me fosses, Aquiles divino, criei-te, 
para que um dia amparar-me pudesses da ruína e do opróbrio. 
   “Vamos, Aquiles, o orgulho domina; aspereza tão grande 
não fica bem para ti, pois se deixam dobrar até os deuses, 
com terem mais dignidade, poder superior e virtude. 
Apesar disso, conseguem os homens obter-lhes as graças

com libações e gordura queimada, com preces e vítima, 
se, porventura, cometem qualquer infração ou pecado. 
Pois são as Preces, nascidas do Crônida Zeus poderoso, 
coxas, de pele enrugada e de olhar indeciso e desviado, 
as quais se afanam no encalço da Culpa, tentando alcançá-la. 
Esta é, porém, vigorosa e de pés mui velozes; por isso 
a todas elas se adianta, causando, onde quer que se encontre, 
dano aos mortais, ao que as Preces procuram, depois, dar remédio. 
Quem, a estas filhas de Zeus, ao chegarem, demonstra respeito, 
delas obtém só vantagens, por serem seus votos ouvidos.

Mas se, obstinados, os homens ouvidos, acaso, lhes negam, 
as Preces, logo, a Zeus Crônida sobem e, instantes, suplicam 
que sempre a Culpa os torture e que tenham, com o dano, o castigo. 
Por isso, Aquiles, concede a essas filhas de Zeus o devido 
acatamento, que heróis valorosos já têm conquistado. 
Se não te houvesse Agamémnone dons ofertado, além de outros 
que te promete, mas ainda insistisse em mostrar-se zangado, 
não te viria exortar, certamente, a suster a tua cólera 
para ajudar os Acaios, embora careçam de auxílio. 
Dá-te, porém, muitas coisas, e dons mais valiosos promete,

e te mandou, com pedido, em seu nome, os varões mais conspícuos 
do acampamento, escolhendo os Argivos que mais estimavas. 
Não menosprezes, portanto, seus passos e quanto disseram, 
que, antes, a tua atitude nós todos assaz a exculpávamos.¹
   “As próprias gestas de heróis das idades corridas nos dizem 
que, quando, acaso, ficavam possuídos de cólera grande, 
eram sensíveis a brindes, dobrando-se à força suasória. 
Ora, meus caros amigos, me ocorre contar-vos um caso 
nada recente, bem velho, tal como se deu, em verdade. 
De certa vez os Curetes e os fortes Etólios, à volta de

Calidona lutavam, causando recíproco estrago. 
Estes, lutando em defesa da bela cidade; os Curetes, 
só desejosos de que Ares entrar as muralhas lhes desse. 
Foi provocada a contenda por Ártemis do trono de ouro, 
que se indignara por não ter de Eneu recebido as primícias 
dos agros pingues, quando este ofertou hecatombes aos deuses 
todos do Olimpo, excetuando-se a filha de Zeus, tão somente, 
ou por descuido, ou de caso pensado, o que a fez irritar-se. 
Por isso, pois, agastada, a donzela que flechas dispara, 
um javali de alvos dentes, selvagem, envia contra ele,

que, destruidor habitual, as culturas de Eneu danifica. 
Árvores grandes fazia tombar pelo solo e, com elas, 
suas raízes, no tempo em que a flor prometia sementes. 
Foi por Meléagro, filho de Eneu, o animal, então, morto, 
pós haver feito reunir caçadores de muitas cidades 
e seus mastins; impossível a poucos seria vencê-lo, 
tão grande ele era, pois muitos já à pira funesta mandara. 
Entre os Etólios galhardos e os homens Curetes valentes 
a deusa, então, suscitou clamorosa contenda, por causa 
da pele hirsuta do grande javardo e da enorme cabeça.

“Enquanto o forte Meléagro esteve a lutar, o Destino 
para os Curetes foi sempre contrário, pois fora dos muros, 
ainda que em número grande, lhes era impossível manter-se. 
Mas, quando o peito do herói foi tomado pela ira que a muitos 
outros, também, já turvara, dotados, embora, de siso, 
 contra Alteia, sua mãe, irritado ficou o guerreiro, 
foi para junto da esposa legítima, a bela Cleópatra, 
filha da filha de Eveno, Marpessa, dos belos artelhos, 
e do grande Idas, o herói mais robusto de quantos outrora 
na terra extensa viveram, que até contra Febo tomara 

do arco, por causa da noiva estimada, de artelhos venustos. 
A esta, por isso, no belo palácio, o apelido de Alcíone 
os próprios pais lhe puseram, porque o sofrimento dessa ave 
à mãe coubera, também, que profundos lamentos soltava, 
quando se vira raptada por Febo, o frecheiro infalível. 
Junto da esposa, agastado, deixou-se ficar, por motivo 
das maldições de sua mãe, que do irmão tendo a morte sentido, 
aos deuses todos do Olimpo, sem pausa, orações dirigia. 
Vezes sem conta à alma Terra com a mão percutiu, invocando 
o nome de Hades escuro e Perséfone, a deusa tremenda,

posta de joelhos e o seio banhado de lágrimas quentes, 
para que o filho fizessem morrer. Pelas duras Erínias, 
que andam nas trevas, desde o Érebo, foi, logo, a súplica ouvida. 
   “Em torno às portas, entanto, o barulho e o clamor recrudescem; 
as torres foram forçadas. Os velhos Etólios, nessa hora, 
e os sacerdotes sagrados de mais reverência lhe pedem 
que a defendê-los se ponha, ofertando-lhe muitos presentes. 
Em Calidona aprazível, lhe dizem, um campo escolhesse, 
onde terreno mais fértil achasse, podendo cinquenta 
jeiras, ao todo, marcar; para vinha, do chão a metade;

a outra metade, sem árvores, só de terreno lavrável. 
O velho Eneu picador também fez insistentes pedidos. 
De pé, no umbral do aposento de teto elevado, sacode 
as folhas firmes da porta, a chamar pelo nome do filho. 
Muito, também, as irmãs lhe pediram e a mãe veneranda. 
Mais firmemente, porém, se negava Meléagro. Pedem-lhe 
os companheiros, com muita insistência, e os mais caros amigos. 
O coração no imo do peito, porém, ninguém pôde abalar-lhe, 
antes de o fogo lhe haver atingido o aposento e os Curetes 
às altas torres subido e iniciado a conquista dos muros.

Foi nesse instante que a esposa do herói, de cintura bem-feita, 
por entre choro lhe exora, fazendo relato completo 
dos sofrimentos dos homens, se viesse a cair a cidade: 
da morte vil e cruel que teriam, do incêndio das casas, 
a servidão em que iriam ficar as mulheres e as crianças. 
À relação desses males, alfim, comovido se mostra. 
Sem mais detença correu a envergar a armadura brilhante. 
Dessa maneira, afastou dos Etólios o dia funesto, 
por próprio impulso levado. Sem paga os livrou do perigo, 
pois dos presentes de grande valia nenhum lhe foi dado.

“Essa maneira de ver, caro amigo, não deve ser tua. 
Nenhum demônio te instigue. Seria, sem dúvida, inglório 
ir em defesa das naus incendiadas. Aceita os presentes 
que te ofertaram. Os Gregos ter-te-ão como um deus do alto Olimpo. 
Pois se enfrentasses a guerra homicida sem dádivas grandes, 
honra menor te coubera, ainda mesmo que o imigo afastasses.” 
   Disse-lhe Aquiles, de rápidos pés, em resposta, o seguinte: 
“Velho Fenice, nutrido por Zeus, de tais honras não curo; 
são dispensáveis. Confio, isso sim, nos favores do Crônida, 
que me farão demorar junto às naves recurvas, enquanto

sopro no peito tiver e os joelhos puderem mover-se. 
Ora outra coisa te quero dizer; guarda-a bem no imo peito: 
o coração não me venhas turvar com lamentos e queixas, 
para ao Atrida agradares. Não deves amá-lo desta arte, 
se não quiseres em ódio mudar a afeição que te voto. 
Fica-te bem retribuir com ofensa a quem vier a ofender-me. 
Vem partilhar do comando comigo; iguais honras te caibam. 
Estes dirão a resposta. Aqui, pois, permanece, e ao macio 
leito recolhe-te. Logo que a Aurora surgir, pensaremos 
no que convém escolher; se ficar, se voltar para a pátria.”

Com o sobrecenho, depois, sem falar, fez a Pátroclo aceno 
para que o leito mandasse aprontar, de Fenice, que, logo, 
os outros dois no retorno pensassem, Ajaz Telamônio, 
de forma igual à de um deus, proferiu as seguintes palavras: 
   “Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso, 
vamos! Não creio que nosso propósito alcance algum êxito 
por esta via. Ora cumpre, sem perda de tempo, a resposta 
comunicar aos Argivos, embora bem ruim ela seja, 
que eles, por certo, ainda estão reunidos, à espera. O Pelida, 
de ira selvagem, somente inundou o magnânimo peito.

Homem cruel, que não preza a amizade dos fidos consócios, 
essa com que o distinguíamos, junto de nossos navios! 
Sem compaixão! É comum aceitar-se o resgate, até mesmo 
pelo assassínio do irmão, pela morte do filho querido. 
Fica o ofensor no país, quando multa adequada se acorda, 
pois o ofendido refreia no peito a paixão excruciante 
com receber os presentes. Rancor implacável e duro 
no coração te puseram os deuses por causa, tão somente, 
de uma cativa. No entanto, te damos sete outras, belíssimas, 
e muitas dádivas mais. Assossega, portanto, o teu peito,

e tua casa respeita; encontramo-nos sob este teto 
por comissão dos Acaios. Julgávamos, todos, te fôssemos 
os mais prezados amigos no grande arraial dos Argivos.” 
   Disse-lhe Aquiles, dos rápidos pés, em resposta, o seguinte: 
“Dominador poderoso de povos, Ajaz Telamônio! 
Com quase todas as tuas palavras meu peito concorda. 
O coração, porém, sinto indignar-se ao lembrar-me do insulto 
que me atirou Agamémnone, em face do exército Aquivo, 
como se eu fosse adventício de todo o valor destituído. 
Ora fazei-vos de volta, e a resposta, que dei, transmiti-lhe.

Não tomarei decisão de tornar para a guerra cruenta, 
antes que Heitor, o divino, de Príamo sábio nascido, 
chegue até perto das tendas e naus dos heroicos Mirmídones, 
e, a dizimar os guerreiros Aquivos, as naus incendeie. 
Mas quero crer que aqui perto da tenda em que me acho e da nave 
de cor escura há de Heitor valoroso refrear seus propósitos.” 
   Isso disse ele. Então, todos, tomando dos copos, libaram 
junto das naus, regressando; servia Odisseu como guia. 
Pátroclo, então, disse às servas e a seus companheiros que fossem 
o leito cômodo, logo, aprontar para o velho Fenice.

Obedientes às ordens, o leito aprontaram, forrando-o 
com velo e colcha macia e coberta de linho finíssimo. 
O velho ilustre deitou-se, aguardando a chegada da Aurora. 
Deita-se Aquiles, também, no recesso da tenda bem-feita, 
com uma jovem ao lado, que havia trazido de Lesbo, 
filha do grande Forbante, Diomeda de faces rosadas. 
Pátroclo, no lado oposto, também se deitou, tendo ao lado 
Ífis, de bela cintura, que Aquiles divino lhe dera 
quando a cidade de Enieu valoroso, a alta Esciro, saqueara. 
   Logo que os dois emissários chegaram à tenda do Atrida,

viram-se pelos Argivos cercados, que, alçando-se prestes, 
com taças de ouro os saudavam, ansiosos por tudo saberem.² 
Foi o primeiro a falar Agamémnone, rei poderoso: 
   “Dize-me logo, Odisseu meritíssimo, glória da Acaia, 
se ele consente em livrar os navios do fogo inimigo, 
ou se se nega, por ter ainda o peito tomado pela ira?” 
    Disse-lhe, então, em resposta, Odisseu sofredor de trabalhos: 
“Filho glorioso de Atreu, Agamémnone, rei poderoso. 
não só persiste na cólera, como se mostra tomado 
pelo furor, recusando os presentes e tuas propostas.

Acha que deves, com os outros Argivos, pensar na maneira 
de as naus e o exército Acaio salvar do perigo iminente. 
Sim, chegou mesmo a ameaçar de que, logo que a Aurora se eleve, 
há de puxar para as ondas as naves de boa coberta. 
Acrescentou que aconselha aos demais que se façam de volta 
para o torrão de nascença, que o termo jamais acharemos 
de Ílio escarpada, que a mão protetora, sobre ela, Zeus, grande, 
de voz potente, estendeu, reforçando a coragem do povo. 
Meus companheiros, aqui, poderão confirmar o que digo, 
o Telamônio e os arautos dotados de grande prudência.

O venerando Fenice ficou, a conselho de Aquiles, 
para partir, juntamente com ele, amanhã muito cedo, 
caso deseje, que contra a vontade, não há de levá-lo.” 
   Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram, 
estupefatos perante a violência de suas palavras. 
Por muito tempo em silêncio mantêm-se os turvados Aquivos, 
té que, por fim, fala o grande Diomedes, de voz poderosa: 
   “Filho glorioso de Atreu, Agamémnone, rei poderoso! 
Antes nenhuma proposta tivesses ao grande Pelida 
apresentado, nem feito tão grandes promessas. Se já era

insuportável, tornou-se ainda mais insolente com isso. 
Não mais devemos com ele ocupar-nos, quer volte, realmente, 
quer se decida a ficar. Há de, alfim, reingressar nos combates, 
quando lhe o peito ordenar ou algum deus o incitar a fazê-lo. 
Satisfaçamos, primeiro, o desejo, com vinho e alimentos, 
para irmos, logo, dormir, que isso as forças restaura e a coragem. 
E, quando a Aurora, de dedos de rosa, surgir no horizonte, 
a postos põe, junto às naves, os homens e os carros de guerra, 
e para a luta os incita; tu próprio lhes sê alto exemplo.” 
   Todos os chefes presentes romperam em francos aplausos

de assentimento às palavras do forte guerreiro Diomedes. 
As libações completadas, às tendas, depois, se acolheram, 
onde gozaram, deitados, dos gratos presentes do Sono
continua página 258...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto VIII.a / Canto VIII.b / Canto VIII.c / Canto IX.a / Canto IX.b / Canto IX.c /                                       
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] V
ersos 496 a 523, traduzidos de forma clássica.
     Esta passagem do Canto IX da Ilíada (conhecida como a "Alegoria das Preces", ou Litai) é uma das joias filosóficas e retóricas mais fascinantes de toda a poesia homérica. Nela, o velho Fênix tenta dobrar o orgulho irredutível de Aquiles. Nesse trecho, Fênix, o velho mestre e figura paterna de Aquiles, tenta persuadir o herói a abandonar sua ira implacável contra Agamemnon e a aceitar os presentes de reconciliação tr azidos pela embaixada grega. 
* O Mito das Preces (Litai) e da Culpa (Até)
- A Culpa (Até): É descrita como vigorosa, rápida e de pés ligeiros. Ela se adianta e espalha o mal e o dano entre os homens. Representa a impulsividade, a arrogância (hubris) ou o erro que irrompe de forma súbita.
- As Preces (Litai): São filhas de Zeus, mas são retratadas de forma paradoxal — "coxas, de pele enrugada e de olhar indeciso". Elas caminham devagar, arquejando no encalço da Culpa, tentando reparar o estrago.
     Fênix está argumentando que o erro e o conflito (representados pelo atrito entre Agamemnon e Aquiles) são inevitáveis na condição humana. No entanto, o que define a grandeza de um herói não é a infalibilidade, mas sim a capacidade de ceder ao remédio da reconciliação.
- Se o homem acolhe as Preces (as ofertas de paz e pedido de perdão), ele é abençoado.
- Se o homem é obstinado e orgulhoso, recusando-as, as Preces recorrem ao próprio Zeus, fazendo com que a Culpa (Até) retorne para esmagar o transgressor com o castigo.
     Fênix está, na prática, fazendo um alerta profético: a recusa cega de Aquiles em aceitar os presentes e perdoar o comandante grego deixará de ser uma defesa de sua honra e passará a ser uma desmedida (hubris), o que acabará por atrair a desgraça sobre os próprios gregos e sobre o próprio Aquiles (culminando na morte de Pátroclo).

[2] A resposta de Aquiles, contida neste trecho, marca o clímax e o fracasso absoluto da Embaixada a Aquiles.
     Enquanto Ájax Telamônio (que fala logo antes desse trecho) tenta apelar para a solidariedade de Aquiles com os companheiros em sofrimento, Aquiles demonstra que sua ferida é, acima de tudo, narcísica e profunda: o insulto público de Agamemnon fferiu sua honra (timé) de forma irreparável diante de todo o exército.
* A Resposta Irredutível e a Estética da Honra
- O orgulho ferido: Aquiles admite que o raciocínio de Ájax faz sentido, mas o rancor ("o coração... sinto indignar-se") é mais forte. Ele não aceita ser tratado como um pária ("como se eu fosse adventício de todo o valor destituído").
- O limite traçado por Aquiles: Ele cede apenas parcialmente à pressão dos amigos, estabelecendo uma linha vermelha tática e psicológica. Ele não voltará a lutar agora, mas impõe uma condição quase fatal para os gregos: só entrará no combate se Heitor e os troianos avançarem a ponto de incendiar as frotas dos mirmidões e ameaçar suas próprias tendas.
* A Ironia Trágica
- Ao desejar que Heitor avance até as naus para só então agir, Aquiles está, sem saber, selando o destino de seu melhor amigo, Pátroclo (que aparece logo depois mandando preparar a cama para Fênix).
- É justamente quando os troianos chegam às naus e começam a incendiá-las que Pátroclo pedirá a armadura de Aquiles emprestada para conter o inimigo — o que resultará na morte de Pátroclo pelas mãos de Heitor, o evento que finalmente trará Aquiles de volta à guerra sedento de vingança.
* A Calmaria Doméstica em Contraste com a Crise Épica
     É fascinante notar a transição cinematográfica que Homero faz no final do trecho:
- De um lado, temos a alta política, a guerra iminente e a diplomacia frustrada entre os maiores heróis da Hélade.
- De outro, o texto desce para o interior das tendas, mostrando os detalhes cotidianos e humanos daquela noite de trégua tensa: Pátroclo preparando o leito para o velho Fênix, e os heróis recolhendo-se com suas companheiras cativas (como Diomeda e Ífis). Esse contraste realça a tragédia — o silêncio e o repouso antes da tempestade devastadora que o Canto XVI trará.

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Ilíada, de Homero - Canto IX





Ilíada: Homero (Canto IX.b - Honra para Aquiles e Preces)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto IX - Honra para Aquiles e Preces
 
“Agamémnone forma um conselho e sugere, desesperado, o retorno à Grécia. Diomedes e Nestor o acusam de covardia e de injustiça com o melhor dos Gregos, Aquiles. Agamémnone concorda e resolve devolver Briseide a Aquiles junto com uma grande recompensa. É enviada uma comissão, composta por Odisseu, Ajaz e Fenice, a Aquiles. Odisseu e Fenice conversam com Aquiles, que se mostra inflexível. Diomedes reanima os Gregos.”

continuando...

Pede e deseja que a Aurora divina depressa apareça, 
e, ameaçador, já promete cortar os aplustres das naves, 
a estas destruir pelo fogo voraz, e os guerreiros Aquivos, 
pela fumaça estonteados, matar junto às naves simétricas. 
Grande receio de mim se apodera, que os deuses permitam 
que essas ameaças se cumpram, se acaso assentou o Destino 
que longe de Argos fecunda morramos, nos campos de Troia. 
Vamos, levanta-te, caso tenciones salvar os Aquivos, 
ainda que tarde, da grande pressão dos guerreiros Troianos. 
Grande aflição tu, também, hás de ter, que é impossível remédio

para a desgraça passada encontrar. Antes pensa no modo 
como se possam livrar os Acaios do dia funesto. 
Lembra-te, caro, de quanto te disse Peleu no momento 
em que de Ftia te enviou para o filho de Atreu, Agamémnone: 
‘Filho querido, Hera e Atena te deem força ingente, no caso 
de o desejarem; mas seja teu firme propósito o orgulho 
na alma refrear. É melhor que te mostres em tudo mais brando. 
A Ira, fautora de males, de ti sempre afasta que possam 
moços e velhos Aqueus conceder-te atenção respeitosa.’ 
Esse, o conselho do velho, de que te esqueceste. Refreia

a ira que tua alma consome. Agamémnone manda ofertar-te 
dons preciosíssimos, caso aplacares a cólera grande. 
Se te encontrares disposto a escutar-me, dir-te-ei tudo quanto 
ele, hoje mesmo, na tenda nos disse que havia de dar-te: 
   “Trípodes sete, sem uso de fogo, dez áureos talentos, 
vinte caldeiras brilhantes e doze cavalos robustos 
acostumados a prêmios ganhar, campeões de corrida. 
Fora impossível dizer que de campos aráveis carece, 
ou do ouro muito apreciado, o indivíduo que vier a possuí-los, 
tal a importância dos prêmios que os fortes corcéis lhe ganharam.

Dá-te, outrossim, sete escravas prendadas, trazidas de Lesbo, 
quando tu próprio aquela ilha arrasaste; ficaram para ele, 
por serem todas formosas acima das outras mulheres. 
Tuas serão; mais ainda: acrescenta a Briseide, formosa, 
que te tirara, fazendo, de grado, uma jura solene 
de nunca ter ao seu leito subido, nem com ela deitado, 
como é de costume, ó Pelida! varões a mulheres se unirem. 
Isso dar-te-á desde já; mas se os deuses eternos, um dia, 
nos permitirem tomar a cidade altanada de Príamo, 
hás de presente ficar quando a presa os Aqueus dividirmos,

e de ouro e bronze a mancheias prover teu navio bojudo. 
Vinte mulheres Troianas, também, ficarão à tua escolha, 
as mais formosas depois da mais bela de todas, Helena. 
Se para os campos ubérrimos de Argos de Acaia voltarmos, 
genro hás de ser-lhe; honrar-te-á, sem fazer distinção, como a Orestes, 
seu filho amado, que vive cercado de grande opulência. 
Três filhas tem em seu bem-construído palácio: Crisótemis, 
Ifianassa e Laódice. Aquela que for de teu gosto, 
sem que te vejas forçado a pagar dote algum, para casa 
podes levar de Peleu. Preciosíssimos dons te oferece

e em tanta cópia, tal como jamais alcançou filha alguma. 
Sete cidades também te dará, populosas e belas: 
Hira de prados ervosos, Enope e, também, Cardamila, 
Feras divina, a dos prados famosos e pingues, Anteia, 
Pédaso, célebre por suas vinhas, e Epeia risonha, 
todas marinhas, não longe da Pilo de solo arenoso. 
Muitos senhores de gado infinito e de armentos vistosos 
nelas demoram, que, certo, honrar-te-ão qual um deus do alto Olimpo, 
e que, ao teu cetro submissos, tributos dar-te-ão copiosíssimos. 
Tudo isso, disse, dar-te-á, se acalmares tua cólera grande,

mas, se no peito só abrigas rancor contra o Atrida Agamémnone 
e seus presentes, apiada-te ao menos da grande apertura 
de todo o exército. Qual um dos deuses serás venerado 
pelos Aqueus e hás de glória infinita alcançar entre todos. 
Ora te fora possível prender esse Heitor, que funesta 
raiva conduz para perto de ti e se diz, jactancioso, 
muito mais forte que quantos Aqueus nossas naus conduziram.”¹ 
   Disse-lhe Aquiles, de rápidos pés, em resposta, o seguinte: 
   “Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso, 
é necessário dizer-vos, agora, com toda a clareza,

meu pensamento e a intenção em que me acho de em prática pô-lo, 
para evitar que aturdir não me venham de todos os lados. 
Tal como do Hades as portas, repulsa me causa a pessoa 
que na alma esconde o que pensa e outra coisa na voz manifesta. 
Ora pretendo falar como julgo ser mais proveitoso. 
Nem Agamémnone, certo, nem outro qualquer dos Aquivos,
conseguirá convencer-me, pois graça nenhuma me veio 
de meu esforço incessante ao lutar contra os nossos imigos. 
Tanto ao ocioso, que ao mais esforçado, iguais prêmios são dados; 
as mesmas honras se outorgam ao fraco e ao herói mais galhardo.

Morre da mesma maneira o inativo e o esforçado guerreiro. 
Vede! Nenhuma vantagem me veio de tantos trabalhos, 
a pôr em risco a existência nos mais temerosos combates. 
Tal como aos filhos implumes costumava levar a avezinha 
grato alimento depois de o encontrar, sem que em si mesma pense: 
de igual maneira tenho eu muitas noites insones passado 
e dias cheios de sangue no horror dos combates, lutando 
contra inimigos, somente por causa de suas mulheres. 
Com minhas naus destruí doze grandes e fortes cidades, 
e onze por terra, asseguro-o, nos plainos fecundos de Troia

De todas elas voltei carregado de espólio magnífico, 
que, sempre, ao filho de Atreu, Agamémnone, era uso, levava, 
o qual soía ficar para trás, junto às céleres naves. 
Disso, bem pouco entre nós dividia; ficava com tudo, 
do que, depois, presenteava os heróis mais distintos e os chefes. 
Estes, ainda conservam seus prêmios; eu, só dos Aquivos 
fui despojado; tirou-me a querida consorte. Pois goze-a! 
durma com ela! Qual foi o motivo de Aqueus e Troianos 
digladiarem? Por que tanta gente reuniu Agamémnone 
e para cá transportou? Não por causa de Helena formosa?

Ou, porventura, entre os homens, somente os Atridas demonstram 
ter às esposas afeto? Qualquer indivíduo de senso 
e bem-nascido, à consorte demonstra afeição, como o faço, 
que a minha muito adorava, apesar de ser presa de guerra. 
Ora que veio enganar-me, tirando-me o prêmio devido, 
não julgue nunca poder convencer-me, pois bem o conheço; 
mas, juntamente contigo, Odisseu, e os demais comandantes, 
pense no modo de as naves livrar da voragem do fogo. 
Sem meu auxílio já pôde fazer muitas coisas grandiosas; 
sim, conseguiu construir esse muro e, ainda mais, protegido

por fosso largo e profundo, provido de fortes estacas.
Mas nem assim pode a força deter desse Heitor homicida. 
Enquanto parte eu tomava nas lutas, ao lado dos outros, 
nunca ele quis combater muito longe dos muros de Troia. 
Té às Portas Ceias chegava e à figueira que perto lhe fica, 
onde, uma vez, me esperou; por bem pouco escapou de meu ímpeto. 
Ora que nada me induz a lutar contra Heitor, o divino, 
cedo, amanhã sacrifícios farei a Zeus grande e aos eternos, 
e deitarei meus navios nas ondas, depois de providos. 
Tu próprio, certo, hás de ver, se o quiseres e se isso te importa

pelo Helesponto piscoso, bem cedo, eles todos partirem 
e, neles, homens alegres, à força de remo impelindo-os. 
E se Posido, que a terra sacode, nos der ventos prósperos, 
no solo fértil de Ftia estaremos no dia terceiro. 
Quando, por minha desgraça, parti, lá deixei bens inúmeros, 
que aumentarei com o que levo, muito ouro e, também, bronze rubro, 
ferro brilhante e formosas escravas de bela cintura, 
quanto ganhei nas partilhas. O que ele, o possante Agamémnone, 
me tinha dado, valendo-se agora da força, tomou-me. 
Publicamente lhe faze um relato completo de tudo

quanto te disse, porque outros Acaios, também, se revoltem, 
caso ele tenha intenção de enganar mais alguém entre os Dânaos, 
com sua usual imprudência. Contudo, não teve coragem, 
esse cachorro, de olhar-me, apesar de despido de brio. 
Cooperação é impossível haver, por palavras ou obras, 
pois me enganou e ofendeu. Não me venha enganar novamente 
com seus discursos inúteis. Já basta! Sozinho, acompanhe 
o seu destino funesto; do senso o privou Zeus potente. 
São-me seus brindes odiosos e abaixo do mínimo preço. 
Ainda que o décuplo viesse ofertar-me e até mesmo outro tanto,

quanto possui no presente e o que possa ganhar em futuro, 
as coisas todas que afluem para Orcómeno ou para a famosa 
Tebas Egípcia, onde as casas pejadas de bens sempre se acham, 
e que cem portas ostenta, cada uma das quais dá passagem 
a combatentes duzentos, seus carros de guerra e cavalos; 
ainda que mais me ofertasse que a poeira ou que a areia das praias, 
nem mesmo assim poderia a vontade dobrar-me, Agamémnone, 
sem que, primeiro, té o fim, tal ofensa pesada me pague. 
Com a donzela do Atrida jamais firmarei sacras núpcias, 
mesmo que fosse dotada de encantos, como a áurea Afrodite,

e à de olhos glaucos, Atena, igualar-se em trabalhos de preço 
não a quisera esposar. Entre os moços Acaios deve ele 
genro escolher que lhe seja condigno e de igual importância. 
Se eu conseguir, com a ajuda dos deuses, voltar para a pátria, 
há de Peleu, por sem dúvida, esposa saber escolher-me. 
Muitas donzelas Acaias em Ftia se encontram, e na Hélade, 
filhas de grandes heróis, defensores de nossas cidades. 
Da que me for mais do agrado, farei minha fiel companheira. 
O coração generoso já mostra desejos, há muito, 
de que legítima esposa, afinal, a escolher me resolva,

para gozar das riquezas que o velho Peleu tem em casa. 
A minha vida, sem dúvida, vale bem mais do que quanto 
dizem que Troia possuía, a cidade de belo traçado, 
antes, em tempo de paz, sem que houvessem chegado os Aquivos 
e dos tesouros que dentro se encontram da pétrea soleira 
de Febo Apolo, o frecheiro esplendente, na rocha de Pito. 
Arrebanhar bois tardonhos e ovelhas vistosas é fácil, 
trípodes belas comprar ou cabeças de louros ginetes;
mas a alma humana, uma vez escapada do encerro dos dentes, 
não mais se deixa prender, sem podermos, de novo, ganhá-la.

Tétis, a deusa dos pés argentinos, de quem fui nascido, 
já me falou sobre o dúplice Fado que à Morte há de dar-me; 
se continuar a lutar ao redor da cidade de Troia, 
não voltarei mais à pátria, mas glória hei de ter sempiterna; 
se para casa voltar, para o grato torrão de nascença, 
da fama excelsa hei de ver-me privado, mas vida mui longa 
conseguirei, sem que o temor da Morte mui cedo me alcance. 
A todos vós quero dar o conselho, também, de embarcardes 
e para a pátria seguirdes; jamais podereis ver o termo 
de Ílio escarpada, que a mão protetora sobre ela Zeus grande,

de voz potente, estendeu, reforçando a coragem do povo. 
Ide, entretanto, anunciar aos mais nobres guerreiros Aquivos 
minha resposta — que é esse o dever dos anciões do conselho —, 
para que possam pensar noutro plano de mais eficiência, 
que lhes permita salvar os navios e os homens que se acham 
junto das naves recurvas, que o que eles, agora, tentaram, 
é impraticável; não tenho intenção de afrouxar do propósito.
Deixe-se, entanto, Fenice ficar entre nós esta noite, 
para que possa, amanhã, retornar para a pátria, se acaso 
for do seu gosto; a ninguém levarei contra a própria vontade.”

Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram, 
estupefatos perante a violência de sua resposta, 
té que, chorando, a falar começou o ginete Fenice, 
pois tinha muito receio que às naus algum mal sucedesse: 
   “Se, nobre Aquiles, de fato, pretendes voltar para a pátria, 
e te recusas, de todo, a livrar os navios Acaios 
do voraz fogo, uma vez que ainda a cólera o peito te inflama, 
como é possível, meu filho, pensares que eu possa ter vida 
longe de ti? Por Peleu fui mandado seguir-te, no dia 
em que de Ftia te enviou para o filho de Atreu, Agamémnone,

ainda na infância, igualmente inexperto nas guerras penosas 
e nos discursos das ágoras, onde os heróis se enaltecem. 
Sua intenção foi que viesse contido, porque te ensinasse 
como dizer bons discursos e grandes ações pôr em prática. 
Por isso tudo, meu filho, sem ti continuar não desejo, 
ainda que um deus, em pessoa, me viesse fazer a promessa 
de me tirar a velhice e, de novo, o vigor restituir-me 
da mocidade que na Hélade tinha, de belas mulheres, 
quando fugi, por brigar com meu pai, filho de Ormeno, Amíntor, 
que ódio me tinha por causa da amante de belos cabelos.

A essa, afeição dedicava, esquecendo a consorte legítima, 
que me era mãe e vivia a pedir-me, abraçando-me os joelhos, 
que à bela escrava eu me unisse, porque esta voltasse ódio ao velho. 
Obedeci-lhe, alcançando o almejado. Meu pai, quando o soube, 
amaldiçoou-me, e chamou contra mim as odiosas Erínias, 
para que nunca tivesse nos joelhos um neto a brincar-lhe, 
de mim nascido; atenderam-lhe a súplica os deuses eternos, 
Hades, o deus subterrâneo, e Perséfone, deusa terrível. 
Tive o desígnio de a vida tirar-lhe com bronze afiado; 
mas a ira um deus me acalmou, dando-me azo, a que, então, refletisse

na triste fama com que passaria a viver entre o povo, 
se ‘parricida’ ao meu nome juntasse entre os homens da Acaia. 
O coração, no imo peito, não quis que, por tempo mais longo, 
me demorasse na casa em que odioso ao meu pai me tornara, 
ainda que muitos parentes e primos assaz se esforçassem 
à minha volta, com o fim de evitar que deixasse o palácio. 
Muitas ovelhas vistosas e bois que se arrastam tardonhos 
sacrificaram, e infindos cevados de flórido lardo, 
que, para assarem, passavam por cima da chama de Hefesto. 
Quantos pichéis de bom vinho do velho infeliz não beberam?

Por nove noites seguidas dormiram alguns ao meu lado, 
a se alternarem na guarda e mantendo dois fogos constantes, 
um, junto ao pórtico, dentro do pátio de cerca bem-feita, 
e no vestíb’lo, o segundo, defronte da porta do quarto. 
Mas, quando a décima noite, afinal, tenebrosa nos chega, 
uma das sólidas portas do quarto arrombar, enfim, pude, 
e do aposento esgueirar-me, saltando o cercado do pátio, 
sem que o advertissem os guardas nem mesmo as serventes da casa. 
Daí, fugitivo, percorro toda a Hélade de amplas estradas, 
té dar no solo fecundo de Ftia, nutriz de rebanhos,²
continua página 250...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto VIII.a / Canto VIII.b / Canto VIII.c / Canto IX.a / Canto IX.b / Canto IX.c /                                       
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] Trata-se do discurso de Odisseu (Ulisses) quando este, liderando a embaixada enviada por Agamémnone, tenta convencer Aquiles (o Pelida) a depor sua ira (mênis), aceitar os ricos presentes de reconciliação e retornar ao combate para salvar os aqueus (gregos) que sofrem grandes perdas nas mãos de Heitor e dos troianos.
   A Embaixada a Aquiles: O texto reproduz as palavras exatas que Agamémnone prometera dar a Aquiles para aplacar seu orgulho ferido — uma compensação monumental que incluía:
- Riquezas materiais: Trípodes, talentos de ouro, caldeiras e doze cavalos corredores vitoriosos.
- Espólios e prisioneiros: Sete escravas de Lesbo e a própria Briseide (com o solene juramento de que Aquiles jamais havia tocado nela).
- Futuras riquezas em Troia: A promessa de uma parte avantajada do tesouro quando a cidade de Príamo finalmente caísse, incluindo vinte mulheres troianas à sua escolha.
- Aliança familiar e terras: A mão de uma das filhas de Agamémnone (Crisótemis, Ifianassa ou Laódice) em casamento, sem exigência de dote, além da posse de sete cidades costeiras ricas e populosas próximas a Pilos.
   O Apelo Final: O mensageiro apela ao brio e à compaixão de Aquiles pelos companheiros gregos sitiados, lembrando-lhe também a glória imorredoura que ganharia se derrotasse o herói troiano Heitor.
   Para compreender a profundidade deste discurso, vale a pena analisar o seu contexto, o significado dos presentes e a dimensão trágica da recusa de Aquiles.
* O Contexto Dramático
- A Crise dos Aqueus: O exército grego está à beira da ruína. Sem Aquiles em campo — que se retirara ofendido e furioso após Agamémnone lhe ter tomado a cativa Briseide no Canto I —, os troianos, liderados por Heitor, romperam as fortificações e ameaçam incendiar os navios gregos.
- A Desesperação de Agamémnone: Vendo a iminência de uma derrota catastrófica, Agamémnone reconhece finalmente o seu erro (a até, a cegueira ou loucura temporária enviada pelos deuses) e concorda em ceder, enviando uma embaixada composta por Odisseu, Fénix e Ájax para oferecer uma reparação monumental a Aquiles.
* A Oferta Exorbitante
   A lista de bens lida por Odisseu (que reproduz as palavras de Agamémnone) é expressivamente exagerada para os padrões da Idade do Bronze ou mesmo da época homérica. Ela simboliza não só a riqueza material, mas a honra (timé) que Agamémnone tenta devolver a Aquiles:
- Riquezas imediatas: Os tripodes, os talentos de ouro e as caldeiras eram os tesouros de prestígio da aristocracia heroica. Os cavalos rápidos (campeões de corrida) eram particularmente valiosos para heróis que combatiam em carros de guerra.
- A devolução de Briseide: O juramento solene de que Briseide nunca fora tocada por Agamémnone serve para restaurar a integridade física e simbólica de Aquiles, cuja honra fora maculada publicamente.
- A promessa do futuro e o poder político: Oferecer uma filha em casamento sem dote, ligando Aquiles à família real de Micenas, e doar sete cidades costeiras ricas equivalia a transformá-lo num rei com domínios vastos e vassalos próprios.
* O Dilema de Aquiles e a Rejeição
   Apesar da grandeza espantosa da oferta, a resposta imediata de Aquiles no Canto IX é de recusa implacável.
   O Choque de Valores: Aquiles percebe que nenhum tesouro material pode compensar a humilhação pública que sofreu nem o tempo de vida que perderá. Ele vive o famoso dilema do geras (a honra expressa em espólios) e o seu destino profetizado:
- Se ficar em Troia a combater, ganhará glória imortal (kleos asthiton), mas morrerá jovem.
- Se regressar a casa para a Fítia, terá uma vida longa e pacífica, mas o seu nome cairá no esquecimento.
   A Irreversibilidade da Ira: Para Aquiles, as palavras de Agamémnone chegam tarde demais. A sua cólera (mênis) transcende a política ou a ganância; tornou-se uma questão existencial de princípio e de revolta contra a injustiça do próprio comando aqueu.

[2] Este belíssimo trecho dá continuidade ao Canto IX da Ilíada, mudando o foco para o discurso de Fénix, o velho mestre, aia e figura paterna de Aquiles. Enquanto Odisseu apelou à razão e às vantagens materiais da oferta de Agamémnone, Fénix recorre à emoção, à culpa e à biografia pessoal, tentando dobrar o coração irredutível do herói através da força do afeto.
   Principais Aspetos do Discurso de Fénix:
* O Vínculo Afetivo e o Dever Moral: Fénix lembra a Aquiles que foi encarregado por Peleu (pai de Aquiles) de o acompanhar a Troia ainda em criança, para o ensinar a ser um orador de excelência e um homem de ação. Por esse motivo, Fénix afirma categoricamente que não conseguiria viver sem Aquiles, recusando-se a abandoná-lo, mesmo que os deuses lhe rejuvenescessem e lhe devolvessem a mocidade.
* A História Pessoal de Fénix (O Exílio): Para ilustrar a profundidade da lealdade e a gravidade de uma ofensa familiar, Fénix revela a sua própria tragédia:
- Conta como brigou com o seu pai, Amíntor, por causa da concubina deste (a pedido da própria mãe de Fénix, que desejava afastar a rival).
- Devido a isso, foi amaldiçoado pelo pai e votado a nunca ter descendência ("nunca tivesse nos joelhos um neto a brincar-lhe").
- Este paralelo é subtil e poderoso: Fénix, que foi rejeitado e exilado pelo próprio pai, encontrou em Aquiles o filho que nunca pôde criar, tornando-se o seu verdadeiro pai adotivo.
* A Fuga e o Refúgio em Fítia: O relato detalha a sua fuga dramática de casa, a resistência dos familiares para o impedir de partir, e como acabou por chegar ao reino de Peleu, onde foi acolhido de braços abertos.
   A confissão de Fénix é uma das passagens mais humanas de toda a Ilíada. Mostra que a guerra de Troia não é apenas feita de ferro, sangue e glória, mas também de laços de profunda dependência afetiva.
   Apesar de toda esta carga emocional e da confissão de amor paternal, Aquiles continuará, para já, irredutível na sua decisão de não voltar ao combate imediato, demonstrando a dimensão absoluta e trágica da sua cólera.