quinta-feira, 11 de junho de 2026

George Orwell - 1984: Parte 1.5b (Alguma coisa em seu tom de voz)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1

5.

continuando...

    Alguma coisa em seu tom de voz parecia acrescentar “aquele rematado idiota”. Parsons, vizinho de Winston nas Mansões Victory, efetivamente dedicava-se a atravessar o salão — um homenzinho rechonchudo, de estatura média, louro e com cara de sapo. Com trinta e cinco anos, já possuía pneus de gordura incipientes no pescoço e na cintura, mas seus movimentos eram enérgicos e juvenis. Tudo em sua aparência evocava um meninozinho em dimensão aumentada, a tal ponto que, embora vestisse o macacão regulamentar, era quase impossível não pensar nele como se estivesse envergando o short azul, a camisa cinza e o lenço vermelho dos Espiões. Ao evocar sua imagem, o que aparecia era sempre uma figura com covinhas nos joelhos e mangas arregaçadas mostrando os bracinhos rechonchudos. Com efeito, sempre que participava de uma caminhada comunitária ou de outra atividade física qualquer, Parsons aproveitava o pretexto para retomar o uso do short. Ao ver Winston e Syme, cumprimentou os dois com um “Alô, alô!” entusiasmado e sentou-se à mesa, exalando um odor intenso de suor. Todo o seu rosto rosado estava coberto por gotículas de transpiração. Sua capacidade de transpirar era fora do comum. No Centro Comunitário, sempre se podia descobrir se ele havia passado por lá para jogar pingue-pongue: era só verificar se o cabo da raquete estava úmido. Syme agora tinha na mão uma tira de papel com uma longa coluna de palavras, que estudava com um lápis-tinta entre os dedos.

“Olhe só como ele trabalha no horário de almoço!”, disse Parsons cutucando Winston. “Dedicado, hem? O que você tem aí, garotão? Alguma coisa cerebral demais para mim, suponho. Smith, meu garotão, deixe eu lhe dizer por que estou atrás de você. É por causa daquela contri que você esqueceu de me passar.”
“Que contri é essa?”, perguntou Winston, enfiando automaticamente a mão no bolso para pegar dinheiro. Cerca de um quarto do salário do indivíduo tinha de ser reservado para contribuições voluntárias difíceis de controlar, de tão numerosas.
“Para a Semana do Ódio. Lembra? Coleta de porta em porta. Sou o tesoureiro do nosso quarteirão. Estamos suando a camisa para produzir um espetáculo sensacional. Escreva o que vou lhe dizer: se nossa querida Mansões Victory não estiver com a maior coleção de bandeiras da rua, não vai ser por falta de esforço da minha parte. Você me prometeu dois dólares.”

     Winston localizou e entregou ao outro duas cédulas imundas e amarrotadas, que Parsons registrou numa caderneta com a letra desenhada dos analfabetos.

“Aliás, garotão” disse ele, “ouvi dizer que aquele delinquente que eu tenho lá em casa acertou você com o estilingue ontem. Não se preocupe que já passei uma bela de uma descompostura nele por causa disso. Na verdade eu disse a ele que se o fato se repetir ele fica sem o estilingue.”
“Acho que ele estava um pouco chateado por ter perdido a execução”, disse Winston.
“Ah, bom... Quer dizer, ele tem razão, não é mesmo? São dois delinquentes muito do sem-vergonha, aqueles meus filhos, mas que são espertos, lá isso são! Só pensam numa coisa: nos Espiões. E na guerra, claro. Você sabe o que a minha menina aprontou no sábado passado, quando o pelotão dela estava fazendo uma caminhada para os lados de Berkhampsted? Convenceu duas outras meninas a acompanhá-la, escapou do grupo e as três passaram a tarde seguindo um homem esquisito. Ficaram na cola dele por duas horas, atravessaram o bosque e depois, quando chegaram a Amersham, entregaram o sujeito às patrulhas.”
“Por que elas fizeram isso?”, perguntou Winston, um tanto surpreso. Parsons prosseguiu, triunfante:
“Minha garota estava convencida de que o cara era algum tipo de agente inimigo. Achou que talvez ele tivesse sido lançado de paraquedas. Mas a questão é esta, garotão. Por que você acha que ela começou a desconfiar do sujeito? É que ela percebeu que ele calçava uns sapatos estranhos — disse que nunca tinha visto alguém usar aquele tipo de sapato. Quer dizer, tudo indicava que ele fosse estrangeiro. Muito esperta para uma moleca de sete anos, hein?
E o que aconteceu com o homem?”, quis saber Winston.
“Ah, isso eu não sei. Mas não ficaria nem um pouco surpreso se...” Parsons imitou o gesto de quem aponta um fuzil e estalou a língua como se desse o tiro.
“Boa!”, disse Syme distraído, sem levantar os olhos de sua tira de papel.
“Claro que não podemos nos dar ao luxo de correr riscos”, concordou Winston, consciencioso.
“O que estou querendo dizer é que estamos no meio de uma guerra”, observou Parsons.

     Como para confirmar a afirmação, um toque de trombeta emitido pela teletela passou por cima da cabeça deles. Só que dessa vez não se tratava da proclamação de uma vitória militar, mas simplesmente de uma declaração do Ministério da Pujança.

“Camaradas!”, gritou uma garbosa voz juvenil. “Atenção, camaradas! Temos novidades gloriosas para vocês. Vencemos a batalha da produção! Os proventos oriundos da produção de todos os tipos de bens de consumo acabam de ser calculados e mostram que o nível de vida subiu nada menos que vinte por cento em relação ao ano passado. Esta manhã, em todo o território da Oceânia, houve manifestações espontâneas incontroláveis, com os trabalhadores retirando-se de fábricas e escritórios, desfilando pelas ruas com bandeiras e exteriorizando sua gratidão para com o Grande Irmão pela vida nova e feliz a que sua sábia liderança nos conduziu. Aqui estão alguns dos totais obtidos. Gêneros alimentícios...”

     A expressão “vida nova e feliz” foi repetida diversas vezes. Ultimamente essa expressão estava na moda no Ministério da Pujança. Parsons, atento desde o toque da trombeta, ouvia, sentado em silêncio, numa espécie de gravidade boquiaberta, numa espécie de tédio edificado. Era incapaz de acompanhar os números, mas percebia que de alguma forma eles justificavam um estado de satisfação. Segurava um cachimbo grande e sujo, cheio até a metade de tabaco carbonizado. Com o tabaco racionado a cem gramas por semana, poucas vezes era possível encher um cachimbo por completo. Winston fumava um cigarro Victory que mantinha cuidadosamente na horizontal. A nova ração só seria distribuída no dia seguinte e restavam-lhe apenas quatro cigarros. Naquele momento tinha os ouvidos fechados para os ruídos mais afastados e estava escutando o que a teletela transmitia. Foi informado de que houvera inclusive manifestações de agradecimento ao Grande Irmão pelo fato de ter elevado a ração de chocolate para vinte gramas por semana. Sendo que ainda ontem, refletiu, fora anunciada a redução da ração para vinte gramas por semana. Seria possível as pessoas engolirem aquela, passadas apenas vinte e quatro horas do anúncio? Sim, engoliam. Parsons engoliu sem dificuldade, com a estupidez de uma besta. A criatura sem olhos da outra mesa engoliu fanática, apaixonadamente, com um desejo furioso de seguir, denunciar e vaporizar todo aquele que viesse a sugerir que na semana anterior a ração era de trinta gramas. Syme também — de uma maneira mais complexa, que envolvia duplipensamento —, Syme engoliu. Winston era o único, então, a possuir memória?
     Estatísticas fabulosas continuavam brotando da teletela. Em comparação com o ano anterior, havia mais comida, mais roupas, mais casas, mais móveis, mais panelas, mais combustível, mais navios, mais helicópteros, mais livros, mais bebês — mais tudo, exceto enfermidade, crime e loucura. Ano após ano e minuto após minuto, toda a gente e todas as coisas subiam rapidamente uma escala ascendente. Como Syme antes dele, Winston, de colher na mão, remexia o molho de cor esmaecida que respingara pela mesa, dando forma regular a uma longa trilha da substância. Meditava, irritado, sobre a textura física da vida. A vida teria sido sempre assim? A comida teria sempre tido aquele gosto? Percorreu a cantina com o olhar. Um salão de teto baixo, apinhado, de paredes encardidas em decorrência do contato com incontáveis corpos; mesas de metal amassadas e cadeiras posicionadas tão perto umas das outras que o sujeito se sentava com os cotovelos encostados nos dos vizinhos. Colheres tortas, bandejas escalavradas, tigelas brancas grosseiras; todas as superfícies engorduradas, sujeira em cada rachadura; e um cheiro azedo que misturava gim de segunda, café de segunda, ensopado com gosto metálico e roupas sujas. O tempo todo, no estômago, na pele, havia uma espécie de protesto, uma sensação de logro: a sensação de que você havia sido despojado de alguma coisa que tinha o direito de possuir. Era verdade que ele não se lembrava de nada que fosse profundamente diferente. Era a mesma coisa em todos os momentos que conseguia evocar com alguma acurácia: não havia comida suficiente, todas as meias e roupas de baixo estavam cheias de buracos, todos os móveis eram bambos e danificados, os aposentos mal aquecidos, o metrô superlotado, as casas caíam aos pedaços, o pão era escuro, o chá uma raridade, o café tinha um gosto asqueroso, os cigarros eram insuficientes — nada era barato e abundante, exceto o gim sintético. E embora, evidentemente, tudo piorasse à medida que o corpo envelhecia, não seria um sinal de que tudo aquilo não era a ordem natural das coisas o fato de que o coração da pessoa ficava apertado com o desconforto e a sujeira e a escassez, com os invernos intermináveis, com as meias grudentas, com os elevadores que nunca funcionavam, a água fria, o sabão áspero, os cigarros que se quebravam, a comida com seus estranhos gostos ruins? Por que razão o indivíduo acharia aquilo intolerável se não tivesse algum tipo de memória ancestral de que um dia as coisas haviam sido diferentes?
     Tornou a percorrer a cantina com o olhar. Quase todos ali eram feios e continuariam feios mesmo que vestissem outra roupa que não os macacões azuis de praxe. Do outro lado da sala, sentado sozinho a uma mesa, um homem miúdo, curiosamente semelhante a um besouro, tomava café com os olhinhos dardejando, cheios de suspeita, para todos os lados. Como era fácil, pensou Winston, se você evitasse olhar ao redor, acreditar que o tipo físico estabelecido como ideal pelo Partido — jovens altos e musculosos e donzelas de peito farto, louras, vigorosas, queimadas de sol, despreocupadas — existia e até predominava. Na realidade, até onde ele era capaz de julgar, a maioria dos habitantes da Faixa Aérea Um era mirrada, escura e pouco favorecida. Era curioso como aquele tipo que lembrava um besouro proliferava nos ministérios: homens baixinhos, atarracados, que ganhavam peso muito cedo na vida, de pernas curtas, movimentos rápidos e esquivos e rostos obesos e inescrutáveis, sempre com olhos muito pequenos. Esse era o tipo que parecia florescer mais facilmente nos domínios do Partido.
     O pronunciamento do Ministério da Pujança chegou ao fim com outro toque de trombeta e foi substituído por uma música metálica. Parsons, em quem o bombardeio de números provocara discreto entusiasmo, retirou o cachimbo da boca.

“Não há dúvida de que o Ministério da Pujança trabalhou bem este ano”, disse, balançando a cabeça com ar entendido. “Aliás, Smith, meu garotão, será que você não tem uma lâmina de barbear para me passar?”
“Não tenho”, disse Winston. “Estou usando a mesma lâmina há seis semanas.”
“Ah... Bom, não custa perguntar, não é mesmo, garotão?”
“Sinto muito”, disse Winston.

     A voz de grasnado da outra mesa, temporariamente interrompida durante o pronunciamento do Ministério, retomara sua cantilena, tão estridente quanto antes. Por alguma razão, Winston de repente se viu pensando na sra. Parsons, com seu cabelo espigado e poeira nos vincos do rosto. Em dois anos mais aquelas crianças estariam denunciando a mãe à Polícia das Ideias. A sra. Parsons seria vaporizada. Syme seria vaporizado. Winston seria vaporizado. O’Brien seria vaporizado. Parsons, por outro lado, jamais seria vaporizado. A criatura sem olhos com voz de grasnado jamais seria vaporizada. Os homenzinhos com jeito de besouro que percorriam com tanta destreza os corredores labirínticos dos ministérios — esses também jamais seriam vaporizados. E a garota de cabelo escuro, a garota do Departamento de Ficção, tampouco seria vaporizada. Ele tinha a impressão de saber, por instinto, quem iria sobreviver e quem haveria de perecer: embora não fosse fácil determinar o que, exatamente, garantia essa sobrevivência.
     Naquele exato momento, foi arrancado de seu devaneio por um violento safanão. A garota da mesa ao lado virara o corpo e olhava para ele. Era a garota de cabelo escuro. Ela lhe dirigia um olhar enviesado, mas de curiosa intensidade. No instante em que os olhos dos dois se encontraram, ela desviou de novo o olhar.
     As costas de Winston ficaram cobertas de suor. Um golpe terrível de horror varou seu corpo. Foi uma coisa que passou quase na mesma hora, deixando atrás de si uma espécie de inquietação torturante. Por que a garota olhava para ele? Por que o seguia? Infelizmente, era incapaz de recordar se ela já estava sentada na outra mesa quando ele chegara ou se aparecera depois. De um modo ou de outro, no dia anterior, durante os Dois Minutos de Ódio, ela estava sentada logo atrás dele, quando não havia uma necessidade aparente de que lá estivesse. Muito provavelmente o verdadeiro objetivo era ouvir o que ele dizia e assegurar-se de que estava gritando com empenho adequado.
     Seu pensamento anterior veio-lhe à mente: talvez ela não fizesse parte da Polícia das Ideias, mas o problema era que o maior perigo estava justamente no espião amador. Ele não sabia por quanto tempo ela ficara olhando para ele, talvez tivesse feito isso por cinco minutos, e era possível que suas feições não estivessem perfeitamente sob controle. Era terrivelmente perigoso deixar os pensamentos à solta num lugar público qualquer ou na esfera de visão de uma teletela. Qualquer coisinha podia ser sua perdição. Um tique nervoso, um olhar inconsciente de ansiedade, o hábito de falar sozinho — tudo que pudesse produzir uma impressão de anormalidade, de que tinha alguma coisa a esconder. Fosse como fosse, ostentar uma expressão inadequada no rosto (parecer incrédulo no momento em que uma vitória era anunciada, por exemplo) era em si uma infração passível de castigo. Havia inclusive uma palavra para isso em Novafala: rostocrime
     A garota voltara a dar-lhe as costas. Talvez não o estivesse seguindo, afinal de contas. Talvez fosse coincidência ter se sentado tão perto dele por dois dias consecutivos. O cigarro de Winston se apagara e ele o depositou com todo o cuidado sobre a borda da mesa. Acabaria de fumá-lo depois do trabalho, se conseguisse evitar que o tabaco caísse do interior do cilindro de papel. Era muito provável que a pessoa da mesa ao lado fosse uma espiã da Polícia das Ideias, e muito provavelmente em três dias ele estaria nos porões do Ministério do Amor, mas isso não era razão para desperdiçar uma bagana. Syme dobrara sua tira de papel e voltara a guardá-la no bolso. Parsons recomeçara a falar.

“Ô garotão, já lhe contei da vez em que aqueles dois delinquentes que eu tenho lá em casa tocaram fogo na saia da velha lá do mercado, porque viram ela embrulhar salsicha num pôster do g. i.?”, perguntou, mordiscando o tubo do cachimbo e soltando uma risada. “Foram atrás dela sem que ela percebesse e tocaram fogo na saia dela com uma caixa de fósforos. Acho que ela ficou bem queimada. Que bandidos, não é mesmo? Mas umas verdadeiras raposas, de tão espertos. O treinamento que essas crianças recebem nos Espiões é de primeira, hoje em dia. Bem melhor que no meu tempo, inclusive. Adivinhe o que deram a eles, um dia desses? Cornetas acústicas para escutar pelas fechaduras! Minha garotinha apareceu lá em casa com o equipamento e fez o teste na fechadura da sala. Sabe que ela consegue ouvir duas vezes mais do que encostando a orelha no buraco? Claro que é um instrumento de brinquedo, mas ensina as crianças a fazer as coisas, não é mesmo?”

     Nesse momento a teletela emitiu um assobio estridente. Era o sinal de que estava na hora de voltar para o trabalho. Os três homens puseram-se em pé de um salto para entrar na disputa pelos elevadores, e com isso o restinho de tabaco caiu do cigarro de Winston.

continua na página 68...
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Parte 1.4 (Com o suspiro profundo) / Parte 1.5a (Na cantina de teto baixo) / Parte 1.5b (Alguma coisa em seu tom de voz) /
Parte 1.6 (Winston escrevia em seu diário:) /                  
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

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