Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn
Parte 1
5.
Na cantina de teto baixo situada na parte subterrânea do edifício, longe
da superfície do solo, a fila do almoço se arrastava, avançando muito devagar.
O ambiente já estava superlotado e o barulho era ensurdecedor. O bafo do
ensopado escapava pela grade do balcão, espalhando um cheiro azedo,
metálico, que não encobria completamente os vapores do gim Victory. No
outro extremo da sala havia um pequeno bar, não mais que um buraco na
parede, onde era possível comprar gim por dez centavos a dose grande.
“Exatamente a pessoa que eu estava procurando”, disse alguém atrás de
Winston.
Winston se virou. Era seu amigo Syme, que trabalhava no Departamento
de Pesquisas. Talvez o termo não fosse exatamente “amigo”. Agora ninguém
mais tinha amigos, só camaradas: mas a companhia de alguns camaradas
era mais prazerosa que a de outros. Syme era filólogo, especialista em
Novafala. Na realidade fazia parte da vasta equipe de especialistas
encarregada de compilar a Décima Primeira Edição do Dicionário de Novafala.
Era um sujeito minúsculo, menor ainda que Winston, de cabelo escuro e
grandes olhos protuberantes ao mesmo tempo tristonhos e zombeteiros, que
davam a impressão de interrogar a fisionomia do interlocutor enquanto
falava com ele.
“Eu queria saber se você tem alguma lâmina de barbear”, disse.
“Nenhuma!”, respondeu Winston depressa, como quem se sente
culpado. “Procurei por toda parte. Não tem em lugar nenhum.”
Todo mundo vivia lhe pedindo lâminas de barbear. A bem da verdade,
Winston tinha duas lâminas sem uso, que estava deixando de reserva. Fazia
alguns meses que as lâminas estavam em falta. Sempre havia algum artigo
necessário que as lojas do Partido não conseguiam fornecer. Às vezes
botões, às vezes lã para cerzir, às vezes cadarço para sapatos; no momento
era lâmina de barbear. Só se podia obter alguma — quando dava — virando
furtivamente do avesso o mercado “livre”.
“Faz seis semanas que uso a mesma lâmina”, acrescentou, faltando com
a verdade.
A fila deu um tranco e voltou a avançar alguns passos. Quando pararam,
Winston se virou e voltou a encarar Syme. Cada um pegou uma bandeja de
metal engordurada de uma pilha na beirada do balcão.
“Você foi ver o enforcamento dos prisioneiros ontem?”, quis saber Syme.
“Eu estava trabalhando”, respondeu Winston com indiferença. “Imagino
que vão mostrar no noticiário.”
“Um substituto muito inadequado”, observou Syme.
Seus olhos zombeteiros perscrutaram o rosto de Winston. “Eu conheço
você”, os olhos pareciam dizer. “Você é transparente para mim. Sei muito
bem por que você não foi ver o enforcamento daqueles prisioneiros.” Num
estilo intelectual, Syme era virulentamente ortodoxo. Mostrando satisfação
malévola, gostava de falar de incursões de helicóptero contra povoados
inimigos, de julgamentos e confissões de criminosos do pensamento, de
execuções nos porões do Ministério do Amor. Conversar com ele era, em
grande medida, tentar desviá-lo desse tipo de assunto e envolvê-lo, se
possível, nos aspectos técnicos da Novafala, que conhecia muito bem e
sobre os quais discorria com interesse. Winston voltou a cabeça um pouco
para um lado para esquivar-se ao exame dos grandes olhos escuros.
“Foi um belo enforcamento”, disse Syme, pensativo. “Acho que estraga
tudo, essa história de amarrar os pés deles. Gosto de ver quando eles
esperneiam. E principalmente, no fim, a língua espichada para fora, azul —
um azul bem vivo. É meu detalhe predileto.”
“Próximo!”, berrou o proleta de avental branco de concha na mão.
Winston e Syme passaram suas bandejas por baixo da grade. Num
instante as duas receberam suas porções de almoço-padrão: uma marmita
de metal de ensopado rosa-acinzentado, um naco de pão, um cubo de queijo,
uma tigela de café Victory sem leite e um tablete de sacarina.
“Tem uma mesa lá adiante, embaixo daquela teletela”, disse Syme.
“Vamos apanhar um gim no caminho.”
O gim foi servido em canecas de porcelana sem asa. Os dois avançaram
em zigue-zague pelo refeitório apinhado e largaram as bandejas na mesa de
tampo metálico a um canto, na qual alguém havia deixado uma poça de
ensopado, uma nojeira líquida com aparência de vômito. Winston apanhou
sua caneca de gim, fez uma pausa para criar coragem e engoliu de uma só
vez a substância com gosto de óleo. Depois de piscar várias vezes para
expulsar as lágrimas dos olhos, constatou de repente que estava com fome.
Começou a engolir o ensopado em grandes colheradas, um caldo aguado
preparado de forma desleixada, com cubos rosados esponjosos que eram,
provavelmente, alguma coisa à base de carne. Nenhum dos dois abriu a boca
enquanto as duas marmitas não ficaram vazias. Na mesa à esquerda de
Winston, quase às suas costas, alguém falava depressa e sem interrupção,
uma algaravia áspera que lembrava o grasnado de um pato e que sobressaía
do tumulto geral da sala.
“Como vai o dicionário?”, perguntou Winston, elevando o tom de voz para
que o outro pudesse ouvi-lo.
“Devagar”, disse Syme. “Estou nos adjetivos. Fascinante.”
Ele se animara todo ao ver Winston mencionar a Novafala. Empurrou a
marmita para um lado, segurou o naco de pão com uma das mãos delicadas e
o queijo com a outra, depois inclinou-se por cima da mesa para conseguir
falar sem ser obrigado a gritar.
“A Décima Primeira Edição é a edição definitiva”, disse. “Estamos dando
os últimos retoques na língua — para que ela fique do jeito que há de ser
quando ninguém mais falar outra coisa. Depois que acabarmos, pessoas
como você serão obrigadas a aprender tudo de novo. Tenho a impressão de
que você acha que nossa principal missão é inventar palavras novas. Nada
disso! Estamos destruindo palavras — dezenas de palavras, centenas de
palavras todos os dias. Estamos reduzindo a língua ao osso. A Décima
Primeira Edição não conterá uma única palavra que venha a se tornar
obsoleta antes de 2050.”
Deu uma dentada faminta no pão e engoliu duas colheradas de
ensopado, depois continuou falando, com uma espécie de paixão pedante.
Seu rosto escuro e afilado se animara, seus olhos haviam perdido a
expressão zombeteira e adquirido um ar quase sonhador.
“Que coisa bonita, a destruição de palavras! Claro que a grande
concentração de palavras inúteis está nos verbos e adjetivos, mas há
centenas de substantivos que também podem ser descartados. Não só os
sinônimos; os antônimos também. Afinal de contas, o que justifica a
existência de uma palavra que seja simplesmente o oposto de outra? Uma
palavra já contém em si mesma o seu oposto. Pense em “bom”, por exemplo.
Se você tem uma palavra como “bom”, qual é a necessidade de uma palavra
como “ruim”? “Desbom” dá conta perfeitamente do recado. É até melhor,
porque é um antônimo perfeito, coisa que a outra palavra não é. Ou então, se
você quiser uma versão mais intensa de “bom”, qual é o sentido de dispor de
uma verdadeira série de palavras imprecisas e inúteis como “excelente”,
“esplêndido” e todas as demais? “Maisbom” resolve o problema; ou
“duplimaisbom”, se quiser algo ainda mais intenso. Claro que já usamos
essas formas, mas na versão final da Novafala tudo o mais desaparecerá. No
fim o conceito inteiro de bondade e ruindade será coberto por apenas seis
palavras — na realidade por uma palavra apenas. Você consegue ver a beleza
da coisa, Winston? Claro que a ideia partiu do “g. i.”, acrescentou, como
alguém que se lembra de um detalhe que não havia mencionado.
Uma espécie de ansiedade inconsistente perpassou o rosto de Winston
ao ouvir falar no Grande Irmão. Mesmo assim, Syme detectou
instantaneamente uma certa falta de entusiasmo.
“Você não sente muita admiração pela Novafala, Winston”, disse ele,
quase triste. “Até mesmo quando escreve, continua pensando em Velhafala.
Li alguns daqueles artigos que você publica no Times de vez em quando. São
muito bons, mas são traduções. No fundo você preferiria continuar usando a
Velhafala, com todas as suas inexatidões e nuances inúteis de significado.
Não compreende a beleza da destruição de palavras. Você sabia que a
Novafala é a única língua do mundo cujo vocabulário encolhe a cada ano?”
Winston sabia, claro. Sorriu com simpatia — esperava —, sentindo-se
inseguro quanto ao que diria, se abrisse a boca para falar. Syme arrancou
com os dentes outro fragmento de pão escuro, mastigou-o depressa e
continuou:
“Você não vê que a verdadeira finalidade da Novafala é estreitar o âmbito
do pensamento? No fim teremos tornado o pensamento-crime literalmente
impossível, já que não haverá palavras para expressá-lo. Todo conceito de
que pudermos necessitar será expresso por apenas uma palavra, com
significado rigidamente definido, e todos os seus significados subsidiários
serão eliminados e esquecidos. Na Décima Primeira Edição já estamos quase
atingindo esse objetivo. Só que o processo continuará avançando até muito
depois que você e eu estivermos mortos. Menos e menos palavras a cada ano
que passa, e a consciência com um alcance cada vez menor. Mesmo agora,
claro, não há razão ou desculpa para cometer pensamentos-crimes. É pura e
simplesmente uma questão de autodisciplina, de controle da realidade. Mas,
no fim, nem isso será necessário. A Revolução estará completa quando a
linguagem for perfeita. A Novafala é o Socing, e o Socing é Novafala”,
acrescentou com uma espécie de satisfação mística. “Alguma vez lhe
ocorreu, Winston, que lá por 2050, no máximo, nem um único ser humano
vivo será capaz de entender uma conversa como a que estamos tendo
agora?”
“Só os...”, começou Winston, vacilante, depois se calou.
Estava a ponto de dizer “Só os proletas”, mas voltou atrás, sem saber com
certeza se o comentário não seria de alguma forma inortodoxo. Syme,
contudo, adivinhou o que ele ia dizer.
“Os proletas não são seres humanos”, disse, despreocupado. “Lá por 2050
— ou antes, talvez — todo conhecimento real de Velhafala terá desaparecido.
Toda a literatura do passado terá sido destruída. Chaucer, Shakespeare,
Milton, Byron existirão somente em suas versões em Novafala, em que, além
de transformados em algo diferente, estarão transformados em algo
contraditório com o que eram antes. A literatura do Partido será outra. Os
slogans serão outros. Como podemos ter um slogan como “Liberdade é
escravidão” quando o conceito de liberdade foi abolido? Todo o clima de
pensamento será diferente. Na realidade não haverá pensamento tal como o
entendemos hoje. Ortodoxia significa não pensar — não ter necessidade de
pensar. Ortodoxia é inconsciência.”
Um dia desses, pensou Winston, assaltado por uma convicção profunda,
Syme será vaporizado. É inteligente demais. Vê as coisas com excessiva
clareza e é franco demais quando fala. O Partido não gosta desse tipo de
gente. Um dia ele vai desaparecer. Está escrito na cara dele.
Winston acabara com sua porção de queijo e pão. Virou-se um pouco de
lado na cadeira para tomar seu café. Na mesa à esquerda o homem de voz
estridente continuava falando sem dar trégua aos companheiros. Uma jovem
que talvez fosse sua secretária e que estava de costas para Winston ouvia o
que ele afirmava e parecia concordar enfaticamente com tudo. De vez em
quando Winston pescava alguma observação do tipo “Acho que você tem
toda a razão; concordo cem por cento com você”, manifestada por uma voz
feminina jovem e um bocado tola. Porém a outra voz nunca se interrompia
por um instante que fosse, nem mesmo quando a garota falava. Winston
conhecia o homem de vista, mas só sabia que ocupava um cargo importante
no Departamento de Ficção. Era um homem de uns trinta anos, de pescoço
musculoso e grande boca móvel. Jogava a cabeça um pouco para trás e,
devido ao ângulo em que estava sentado, seus óculos refletiam a luz e
punham diante de Winston dois círculos opacos no lugar dos olhos. O
detalhe um tanto horrível da cena era o fato de ser praticamente impossível
distinguir uma só palavra na torrente de ruídos que jorrava da boca daquele
homem. Em uma única ocasião Winston entendeu uma frase — “completa e
total eliminação do goldsteinismo” —, cuspida a grande velocidade e,
aparentemente, formando um só bloco, como uma linha de tipos soldados
uns aos outros. O restante era mero ruído, um grasnado ininterrupto. Isso
não impedia, porém, que, mesmo sem conseguir escutar o que o homem
dizia, você se assegurasse do sentido geral de suas palavras. Ele devia estar
denunciando Goldstein e exigindo medidas mais severas contra os
criminosos do pensamento e os sabotadores, devia estar lançando vitupérios
contra as atrocidades do exército Eurasiano, devia estar enaltecendo o
Grande Irmão ou os heróis do fronte malabarense — dava tudo no mesmo.
Fosse o que fosse, de uma coisa você podia estar seguro: cada palavra de seu
discurso era pura ortodoxia, puro Socing. Enquanto fitava o rosto sem olhos
com aquele maxilar que se mexia incansavelmente para cima e para baixo,
Winston teve a estranha sensação de que aquele não era um ser humano de
verdade, mas alguma espécie de simulacro. O que falava não era o cérebro do
homem, era sua laringe. O material que ele produzia era formado por
palavras, contudo não era fala no sentido lato: era um ruído emitido sem a
participação da consciência, como o grasnado de um pato.
Syme silenciara por um momento; usava o cabo da colher para desenhar
na poça de ensopado. A voz da outra mesa continuava grasnando a toda a
velocidade, facilmente audível a despeito do rumor ambiente.“Tem uma palavra em Novafala”, disse Syme, “que não sei se você
conhece. Patofala, grasnar feito um pato. É uma dessas palavras
interessantes com dois sentidos contraditórios. Quando aplicada a um
adversário, é ofensa; aplicada a alguém com quem você concorda, é elogio.”
Syme será vaporizado, sem sombra de dúvida, pensou Winston de novo.
A reflexão estava impregnada de uma espécie de tristeza, embora Winston
soubesse muito bem que Syme o desprezava e não sentia maior afeto por ele,
e que era totalmente capaz de denunciá-lo como criminoso do pensamento
se visse razão para isso. Havia algo de sutilmente errado em Syme. Ele era
desprovido de discrição, de indiferença, de uma espécie de estultícia
salvadora. Ninguém poderia dizer que ele fosse inortodoxo. Acreditava nos
princípios do Socing, venerava o Grande Irmão, se rejubilava com as vitórias,
odiava os hereges, não apenas com sinceridade como com uma espécie de
zelo incansável, com uma atualidade de informações de que os membros
comuns do Partido não chegavam nem perto. Ainda assim, era como se
houvesse algo de suspeito nele. Dizia coisas que teria sido melhor não dizer,
lera livros demais, frequentava o Café da Castanheira, covil de pintores e
músicos. Não havia lei, escrita ou não escrita, que proibisse alguém de ir ao
Café da Castanheira; mesmo assim o lugar aparentemente dava azar. Os
antigos líderes do Partido, agora desacreditados, costumavam reunir-se no
local antes do expurgo final. Diziam que o próprio Goldstein fora visto ali
algumas vezes, anos e décadas atrás. Não era difícil prever o futuro de Syme.
Mesmo assim, não havia dúvida de que se Syme percebesse, nem que fosse
por três segundos, a natureza das opiniões secretas dele, Winston,
imediatamente o entregaria à Polícia das Ideias. Qualquer um faria isso, aliás:
mas Syme seria o primeiro. Não era apenas uma questão de zelo. Ortodoxia
era inconsciência.
Syme ergueu os olhos. “Lá vem o Parsons”, disse.
continua na página 60...
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Parte 1.1a ( Era um dia frio e luminoso de abril) / Parte 1.1b ( Acontecera naquela manhã no Ministério) /
Parte 1.4 (Com o suspiro profundo) / Parte 1.5a (Na cantina de teto baixo) /
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.
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