sexta-feira, 5 de junho de 2026

George Orwell - 1984: Parte 1.5a (Na cantina de teto baixo)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1

5.
     
    Na cantina de teto baixo situada na parte subterrânea do edifício, longe da superfície do solo, a fila do almoço se arrastava, avançando muito devagar. O ambiente já estava superlotado e o barulho era ensurdecedor. O bafo do ensopado escapava pela grade do balcão, espalhando um cheiro azedo, metálico, que não encobria completamente os vapores do gim Victory. No outro extremo da sala havia um pequeno bar, não mais que um buraco na parede, onde era possível comprar gim por dez centavos a dose grande. 

“Exatamente a pessoa que eu estava procurando”, disse alguém atrás de Winston.

     Winston se virou. Era seu amigo Syme, que trabalhava no Departamento de Pesquisas. Talvez o termo não fosse exatamente “amigo”. Agora ninguém mais tinha amigos, só camaradas: mas a companhia de alguns camaradas era mais prazerosa que a de outros. Syme era filólogo, especialista em Novafala. Na realidade fazia parte da vasta equipe de especialistas encarregada de compilar a Décima Primeira Edição do Dicionário de Novafala. Era um sujeito minúsculo, menor ainda que Winston, de cabelo escuro e grandes olhos protuberantes ao mesmo tempo tristonhos e zombeteiros, que davam a impressão de interrogar a fisionomia do interlocutor enquanto falava com ele.

“Eu queria saber se você tem alguma lâmina de barbear”, disse. 
“Nenhuma!”, respondeu Winston depressa, como quem se sente culpado. “Procurei por toda parte. Não tem em lugar nenhum.”

     Todo mundo vivia lhe pedindo lâminas de barbear. A bem da verdade, Winston tinha duas lâminas sem uso, que estava deixando de reserva. Fazia alguns meses que as lâminas estavam em falta. Sempre havia algum artigo necessário que as lojas do Partido não conseguiam fornecer. Às vezes botões, às vezes lã para cerzir, às vezes cadarço para sapatos; no momento era lâmina de barbear. Só se podia obter alguma — quando dava — virando furtivamente do avesso o mercado “livre”.

“Faz seis semanas que uso a mesma lâmina”, acrescentou, faltando com a verdade.

     A fila deu um tranco e voltou a avançar alguns passos. Quando pararam, Winston se virou e voltou a encarar Syme. Cada um pegou uma bandeja de metal engordurada de uma pilha na beirada do balcão.

“Você foi ver o enforcamento dos prisioneiros ontem?”, quis saber Syme. 
“Eu estava trabalhando”, respondeu Winston com indiferença. “Imagino que vão mostrar no noticiário.” 
“Um substituto muito inadequado”, observou Syme.

     Seus olhos zombeteiros perscrutaram o rosto de Winston. “Eu conheço você”, os olhos pareciam dizer. “Você é transparente para mim. Sei muito bem por que você não foi ver o enforcamento daqueles prisioneiros.” Num estilo intelectual, Syme era virulentamente ortodoxo. Mostrando satisfação malévola, gostava de falar de incursões de helicóptero contra povoados inimigos, de julgamentos e confissões de criminosos do pensamento, de execuções nos porões do Ministério do Amor. Conversar com ele era, em grande medida, tentar desviá-lo desse tipo de assunto e envolvê-lo, se possível, nos aspectos técnicos da Novafala, que conhecia muito bem e sobre os quais discorria com interesse. Winston voltou a cabeça um pouco para um lado para esquivar-se ao exame dos grandes olhos escuros.

“Foi um belo enforcamento”, disse Syme, pensativo. “Acho que estraga tudo, essa história de amarrar os pés deles. Gosto de ver quando eles esperneiam. E principalmente, no fim, a língua espichada para fora, azul — um azul bem vivo. É meu detalhe predileto.” 
“Próximo!”, berrou o proleta de avental branco de concha na mão.

     Winston e Syme passaram suas bandejas por baixo da grade. Num instante as duas receberam suas porções de almoço-padrão: uma marmita de metal de ensopado rosa-acinzentado, um naco de pão, um cubo de queijo, uma tigela de café Victory sem leite e um tablete de sacarina.

“Tem uma mesa lá adiante, embaixo daquela teletela”, disse Syme. “Vamos apanhar um gim no caminho.”

     O gim foi servido em canecas de porcelana sem asa. Os dois avançaram em zigue-zague pelo refeitório apinhado e largaram as bandejas na mesa de tampo metálico a um canto, na qual alguém havia deixado uma poça de ensopado, uma nojeira líquida com aparência de vômito. Winston apanhou sua caneca de gim, fez uma pausa para criar coragem e engoliu de uma só vez a substância com gosto de óleo. Depois de piscar várias vezes para expulsar as lágrimas dos olhos, constatou de repente que estava com fome. Começou a engolir o ensopado em grandes colheradas, um caldo aguado preparado de forma desleixada, com cubos rosados esponjosos que eram, provavelmente, alguma coisa à base de carne. Nenhum dos dois abriu a boca enquanto as duas marmitas não ficaram vazias. Na mesa à esquerda de Winston, quase às suas costas, alguém falava depressa e sem interrupção, uma algaravia áspera que lembrava o grasnado de um pato e que sobressaía do tumulto geral da sala.

“Como vai o dicionário?”, perguntou Winston, elevando o tom de voz para que o outro pudesse ouvi-lo. 
“Devagar”, disse Syme. “Estou nos adjetivos. Fascinante.”

     Ele se animara todo ao ver Winston mencionar a Novafala. Empurrou a marmita para um lado, segurou o naco de pão com uma das mãos delicadas e o queijo com a outra, depois inclinou-se por cima da mesa para conseguir falar sem ser obrigado a gritar.

“A Décima Primeira Edição é a edição definitiva”, disse. “Estamos dando os últimos retoques na língua — para que ela fique do jeito que há de ser quando ninguém mais falar outra coisa. Depois que acabarmos, pessoas como você serão obrigadas a aprender tudo de novo. Tenho a impressão de que você acha que nossa principal missão é inventar palavras novas. Nada disso! Estamos destruindo palavras — dezenas de palavras, centenas de palavras todos os dias. Estamos reduzindo a língua ao osso. A Décima Primeira Edição não conterá uma única palavra que venha a se tornar obsoleta antes de 2050.”

     Deu uma dentada faminta no pão e engoliu duas colheradas de ensopado, depois continuou falando, com uma espécie de paixão pedante. Seu rosto escuro e afilado se animara, seus olhos haviam perdido a expressão zombeteira e adquirido um ar quase sonhador.

“Que coisa bonita, a destruição de palavras! Claro que a grande concentração de palavras inúteis está nos verbos e adjetivos, mas há centenas de substantivos que também podem ser descartados. Não só os sinônimos; os antônimos também. Afinal de contas, o que justifica a existência de uma palavra que seja simplesmente o oposto de outra? Uma palavra já contém em si mesma o seu oposto. Pense em “bom”, por exemplo. Se você tem uma palavra como “bom”, qual é a necessidade de uma palavra como “ruim”? “Desbom” dá conta perfeitamente do recado. É até melhor, porque é um antônimo perfeito, coisa que a outra palavra não é. Ou então, se você quiser uma versão mais intensa de “bom”, qual é o sentido de dispor de uma verdadeira série de palavras imprecisas e inúteis como “excelente”, “esplêndido” e todas as demais? “Maisbom” resolve o problema; ou “duplimaisbom”, se quiser algo ainda mais intenso. Claro que já usamos essas formas, mas na versão final da Novafala tudo o mais desaparecerá. No fim o conceito inteiro de bondade e ruindade será coberto por apenas seis palavras — na realidade por uma palavra apenas. Você consegue ver a beleza da coisa, Winston? Claro que a ideia partiu do “g. i.”, acrescentou, como alguém que se lembra de um detalhe que não havia mencionado.

     Uma espécie de ansiedade inconsistente perpassou o rosto de Winston ao ouvir falar no Grande Irmão. Mesmo assim, Syme detectou instantaneamente uma certa falta de entusiasmo.

“Você não sente muita admiração pela Novafala, Winston”, disse ele, quase triste. “Até mesmo quando escreve, continua pensando em Velhafala. Li alguns daqueles artigos que você publica no Times de vez em quando. São muito bons, mas são traduções. No fundo você preferiria continuar usando a Velhafala, com todas as suas inexatidões e nuances inúteis de significado. Não compreende a beleza da destruição de palavras. Você sabia que a Novafala é a única língua do mundo cujo vocabulário encolhe a cada ano?”

     Winston sabia, claro. Sorriu com simpatia — esperava —, sentindo-se inseguro quanto ao que diria, se abrisse a boca para falar. Syme arrancou com os dentes outro fragmento de pão escuro, mastigou-o depressa e continuou:

“Você não vê que a verdadeira finalidade da Novafala é estreitar o âmbito do pensamento? No fim teremos tornado o pensamento-crime literalmente impossível, já que não haverá palavras para expressá-lo. Todo conceito de que pudermos necessitar será expresso por apenas uma palavra, com significado rigidamente definido, e todos os seus significados subsidiários serão eliminados e esquecidos. Na Décima Primeira Edição já estamos quase atingindo esse objetivo. Só que o processo continuará avançando até muito depois que você e eu estivermos mortos. Menos e menos palavras a cada ano que passa, e a consciência com um alcance cada vez menor. Mesmo agora, claro, não há razão ou desculpa para cometer pensamentos-crimes. É pura e simplesmente uma questão de autodisciplina, de controle da realidade. Mas, no fim, nem isso será necessário. A Revolução estará completa quando a linguagem for perfeita. A Novafala é o Socing, e o Socing é Novafala”, acrescentou com uma espécie de satisfação mística. “Alguma vez lhe ocorreu, Winston, que lá por 2050, no máximo, nem um único ser humano vivo será capaz de entender uma conversa como a que estamos tendo agora?” 
“Só os...”, começou Winston, vacilante, depois se calou.

     Estava a ponto de dizer “Só os proletas”, mas voltou atrás, sem saber com certeza se o comentário não seria de alguma forma inortodoxo. Syme, contudo, adivinhou o que ele ia dizer.

“Os proletas não são seres humanos”, disse, despreocupado. “Lá por 2050 — ou antes, talvez — todo conhecimento real de Velhafala terá desaparecido. Toda a literatura do passado terá sido destruída. Chaucer, Shakespeare, Milton, Byron existirão somente em suas versões em Novafala, em que, além de transformados em algo diferente, estarão transformados em algo contraditório com o que eram antes. A literatura do Partido será outra. Os slogans serão outros. Como podemos ter um slogan como “Liberdade é escravidão” quando o conceito de liberdade foi abolido? Todo o clima de pensamento será diferente. Na realidade não haverá pensamento tal como o entendemos hoje. Ortodoxia significa não pensar — não ter necessidade de pensar. Ortodoxia é inconsciência.”

     Um dia desses, pensou Winston, assaltado por uma convicção profunda, Syme será vaporizado. É inteligente demais. Vê as coisas com excessiva clareza e é franco demais quando fala. O Partido não gosta desse tipo de gente. Um dia ele vai desaparecer. Está escrito na cara dele.
     Winston acabara com sua porção de queijo e pão. Virou-se um pouco de lado na cadeira para tomar seu café. Na mesa à esquerda o homem de voz estridente continuava falando sem dar trégua aos companheiros. Uma jovem que talvez fosse sua secretária e que estava de costas para Winston ouvia o que ele afirmava e parecia concordar enfaticamente com tudo. De vez em quando Winston pescava alguma observação do tipo “Acho que você tem toda a razão; concordo cem por cento com você”, manifestada por uma voz feminina jovem e um bocado tola. Porém a outra voz nunca se interrompia por um instante que fosse, nem mesmo quando a garota falava. Winston conhecia o homem de vista, mas só sabia que ocupava um cargo importante no Departamento de Ficção. Era um homem de uns trinta anos, de pescoço musculoso e grande boca móvel. Jogava a cabeça um pouco para trás e, devido ao ângulo em que estava sentado, seus óculos refletiam a luz e punham diante de Winston dois círculos opacos no lugar dos olhos. O detalhe um tanto horrível da cena era o fato de ser praticamente impossível distinguir uma só palavra na torrente de ruídos que jorrava da boca daquele homem. Em uma única ocasião Winston entendeu uma frase — “completa e total eliminação do goldsteinismo” —, cuspida a grande velocidade e, aparentemente, formando um só bloco, como uma linha de tipos soldados uns aos outros. O restante era mero ruído, um grasnado ininterrupto. Isso não impedia, porém, que, mesmo sem conseguir escutar o que o homem dizia, você se assegurasse do sentido geral de suas palavras. Ele devia estar denunciando Goldstein e exigindo medidas mais severas contra os criminosos do pensamento e os sabotadores, devia estar lançando vitupérios contra as atrocidades do exército Eurasiano, devia estar enaltecendo o Grande Irmão ou os heróis do fronte malabarense — dava tudo no mesmo. Fosse o que fosse, de uma coisa você podia estar seguro: cada palavra de seu discurso era pura ortodoxia, puro Socing. Enquanto fitava o rosto sem olhos com aquele maxilar que se mexia incansavelmente para cima e para baixo, Winston teve a estranha sensação de que aquele não era um ser humano de verdade, mas alguma espécie de simulacro. O que falava não era o cérebro do homem, era sua laringe. O material que ele produzia era formado por palavras, contudo não era fala no sentido lato: era um ruído emitido sem a participação da consciência, como o grasnado de um pato.
     Syme silenciara por um momento; usava o cabo da colher para desenhar na poça de ensopado. A voz da outra mesa continuava grasnando a toda a velocidade, facilmente audível a despeito do rumor ambiente.

“Tem uma palavra em Novafala”, disse Syme, “que não sei se você conhece. Patofala, grasnar feito um pato. É uma dessas palavras interessantes com dois sentidos contraditórios. Quando aplicada a um adversário, é ofensa; aplicada a alguém com quem você concorda, é elogio.”

     Syme será vaporizado, sem sombra de dúvida, pensou Winston de novo. A reflexão estava impregnada de uma espécie de tristeza, embora Winston soubesse muito bem que Syme o desprezava e não sentia maior afeto por ele, e que era totalmente capaz de denunciá-lo como criminoso do pensamento se visse razão para isso. Havia algo de sutilmente errado em Syme. Ele era desprovido de discrição, de indiferença, de uma espécie de estultícia salvadora. Ninguém poderia dizer que ele fosse inortodoxo. Acreditava nos princípios do Socing, venerava o Grande Irmão, se rejubilava com as vitórias, odiava os hereges, não apenas com sinceridade como com uma espécie de zelo incansável, com uma atualidade de informações de que os membros comuns do Partido não chegavam nem perto. Ainda assim, era como se houvesse algo de suspeito nele. Dizia coisas que teria sido melhor não dizer, lera livros demais, frequentava o Café da Castanheira, covil de pintores e músicos. Não havia lei, escrita ou não escrita, que proibisse alguém de ir ao Café da Castanheira; mesmo assim o lugar aparentemente dava azar. Os antigos líderes do Partido, agora desacreditados, costumavam reunir-se no local antes do expurgo final. Diziam que o próprio Goldstein fora visto ali algumas vezes, anos e décadas atrás. Não era difícil prever o futuro de Syme. Mesmo assim, não havia dúvida de que se Syme percebesse, nem que fosse por três segundos, a natureza das opiniões secretas dele, Winston, imediatamente o entregaria à Polícia das Ideias. Qualquer um faria isso, aliás: mas Syme seria o primeiro. Não era apenas uma questão de zelo. Ortodoxia era inconsciência.
     Syme ergueu os olhos. “Lá vem o Parsons”, disse.

continua na página 60...
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Parte 1.4 (Com o suspiro profundo) / Parte 1.5a (Na cantina de teto baixo) /                
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

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