terça-feira, 23 de junho de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (1: Estávamos de luto por nossa mãe)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

1

     Estávamos de luto por nossa mãe; falecera no outono precedente e passámos todo o inverno no campo, sós, Macha, Sónia e eu.
     Macha era uma antiga amiga da casa; havia sido nossa preceptora, tinha-nos educado a todas e as minhas recordações, como a minha afeição por ela, iam tão longe quanto eu me lembrava de mim própria.
     Sónia era minha irmã mais nova.
     O inverno decorreu para nós sombrio e triste, na nossa velha casa de Pokrovski. O tempo foi frio, ventoso, a tal ponto que a neve se amontoara ainda para cima das janelas; estas estavam quase continuadamente cobertas de gelo e embaciadas, e não pudemos quase nunca durante toda a estação sair nem passear para parte alguma.
     Era raro que nos viessem ver, e mesmo aqueles que nos visitavam não traziam nem alegria nem distrações a nossa casa. Tinham todos uma fisionomia pesarosa, falavam baixo, como se tivessem medo de acordar alguém, não se riam, suspiravam e muitas vezes choravam ao contemplar-me, e sobretudo ao ver a minha pobre Sónia com o seu vestidinho preto. De qualquer modo, em casa, tudo respirava-se o ambiente da morte; a aflição, o horror do féretro pairavam no ar. O quarto da mamã continuava fechado e eu experimentava ao mesmo tempo um cruel mal-estar e uma invencível atração em lançar furtivamente uma vista de olhos sobre aquele frio e deserto aposento quando por ele passava para me ir deitar.
     Tinha nesta época dezessete anos, e no próprio ano da sua morte a mamã fizera tenção de ir viver na cidade para aí me desenvolver. A perda de minha mãe tinha sido para mim uma grande dor; mas devo confessar que a par deste desgosto, jovem e bela como todos me achavam, sentia um certo pesar em me ver condenada a vegetar um segundo inverno no campo, numa árida solidão. Mesmo antes do termo deste inverno, o sentimento de tédio, de isolamento, e para simplesmente o dizer, de enfado, avolumaram-se no meu íntimo a tal ponto que não saía mais do meu quarto, não abrindo o piano e não pegando sequer num livro. Quando Macha me convidava a ocupar-me disto ou daquilo, respondia-lhe: não quero, não posso; e no fundo da minha alma, perguntava-me uma voz: para que serve isso? Porque não faria eu qualquer coisa, visto que o melhor da minha vida se consumia em pura perda? Porquê? E a este porquê não havia em mim outra resposta senão lágrimas.
     Diziam-me que eu emagrecia e que me tinha tornado mais feia durante todo este tempo, mas não me preocupava de maneira alguma com isso. Para quê e por quem me poderia interessar? Parecia que a minha vida devia deslizar inteira neste deserto, no seio desta angústia sem apelação de onde, entregue aos meus únicos e próprios recursos, não me sentia nem com a força nem mesmo com o desejo de me arrancar.
     Macha, no fim do inverno, começou a inquietar-se a meu respeito e tomou a resolução, antes que acontecesse qualquer coisa, de me levar ao estrangeiro. Mas para isso era preciso dinheiro e nós mal sabíamos o que nos ficaria da herança de nossa mãe; todos os dias esperávamos o nosso tutor, que devia vir examinar o estado dos negócios.
     Até que finalmente ele chegou durante o mês de março.

— Graças a Deus — disse-me Macha um dia que eu vagueava como uma sombra por todos os cantos, ociosa, sem um pensamento no espírito, sem um desejo no coração. — Afinal Sérgio Mikailovitch mandou dizer que vinha jantar conosco. É preciso animares-te, minha querida Katia — acrescentou. — Que pensará ele de ti? Ama-as tanto a ambas!

     Sérgio Mikailovitch era nosso vizinho próximo e tinha sido o amigo de nosso defunto pai, apesar de ser muito mais novo do que ele. Além da mudança favorável que a sua chegada vinha imprimir aos nossos planos de vida, dando nos a possibilidade de deixar o campo, eu estava muito habituada desde a infância a amá-lo e a respeitá-lo para que Macha, aconselhando-me que me animasse, não tivesse adivinhado que se devia operar ainda uma outra mudança e que, de todos os meus conhecimentos, era aquele o único diante do qual me teria sido doloroso aparecer com desfavorável aspecto. Não só tinha uma antiga afeição por Sérgio Mikailovitch, como todos em casa, desde Macha e Sónia, que era sua afilhada, até ao último cocheiro; mas esta afeição tirava um caráter muito particular de uma palavra que a mamã pronunciara diante de mim. Dissera um dia que era um tal marido que me desejava. Naquele momento, semelhante ideia tinha-me parecido muito extraordinária e mesmo bastante desagradável; o herói com que eu fantasiava era completamente diferente. O meu ideal devia ser franzino, magro, pálido e melancólico. Sérgio Mikailovitch, pelo contrário, já não era novo; era alto, vigoroso e, tanto quanto podia imaginar, de génio muito amável. Todavia aquelas palavras da mamã haviam penetrado bastante na minha imaginação; havia seis anos, tinha os meus onze, que ele me tratava por tu, que brincava comigo, que me chamava a violetazinha, e desde então nunca perguntei a mim mesma, sem um certo receio, o que faria eu se, de repente, ele tivesse a fantasia de me querer desposar.
     Sérgio Mikailovitch chegou um pouco antes do jantar que Macha fizera aumentar com um prato de espinafres e um doce. Olhei pela janela no momento em que ele se aproximava de casa num pequeno trenó e, desde que virou a esquina, apressei-me em ir para o salão, não querendo deixar suspeitar de modo algum que o esperava. Mas sentindo movimento na antecâmara, e bem depressa a sua brilhante voz e os passos de Macha, esgotou-me a paciência e fui ao seu encontro. Conservava entre as suas a mão de Macha e falava num tom elevado e sorrindo. Desde que me viu, calou-se e contemplou-me por alguns instantes sem me saudar; fiquei muito embaraçada e senti-me corar.

— Ah, é possível que seja a menina Katia? — disse num tom simples e decidido desprendendo a mão e aproximando-se de mim. — É possível mudar-se tanto? Como tem crescido! Ontem uma violeta, hoje uma rosa desabrochada!

     Pegou-me na mão e apertou-a tanto, com tanta franqueza, que quase me magoou. Tinha pensado que me beijaria e inclinei-me; mas ele, tomando-me pela segunda vez a mão, fitou-me com o seu olhar firme e jovial.
     Havia seis anos que o não via. Tinha mudado muito, envelhecido, estava queimado e deixara crescer os bigodes, o que não lhe ficava muito bem; mas tinha sempre aquelas mesmas maneiras simples, aquela mesma fisionomia franca, honesta, de traços pronunciados, aqueles olhos cintilantes de espírito e aquele sorriso cheio de graça que se diria ser de criança.
     Ao cabo de cinco minutos, havia abandonado a atitude de uma simples visita e tomado a confiança de um íntimo em frente de todos nós, e mesmo diante de todos os que, pela sua solicitude servil a seu respeito, altamente testemunhavam a alegria que a sua chegada lhes fazia experimentar.
     Não se apresentou como um vizinho que vem a uma casa depois da morte de uma mãe, julgando necessário mostrar um rosto compassivo; esteve, pelo contrário, alegre, conversando, e não disse uma única palavra da mamã, tanto que começava a achar esta indiferença estranha e mesmo bastante inconveniente da parte de um homem que tão de perto convivia conosco. Mas bem depressa compreendi que não era indiferença o que havia no seu íntimo, mas que existia no seu pensamento uma intenção pela qual eu lhe devia estar reconhecida.
     À noite, Macha serviu-nos o chá no salão, no lugar habitual em que o tomávamos no tempo da mamã. Sónia e eu sentámo-nos junto dele; o velho Gregório trouxe a Sérgio um antigo cachimbo do papá que havia encontrado e ele, como noutros tempos, começou a andar pela sala de um lado para outro.

— Que terríveis mudanças nesta casa — disse subitamente, parando de passear.
— Sim — respondeu Macha com um suspiro; e tornando a tapar o samovar, encarou Sérgio Mikailovitch já quase a desfazer-se em lágrimas.
— Lembra-se com certeza de seu pai? — perguntou-me ele.
— Alguma coisa.
— Como seria bom para si tê-lo ainda hoje — disse Sérgio lentamente e dirigindo, pensativo, um vago olhar por cima da minha cabeça.

     E mais lentamente ainda acrescentou:

— Fui muito amigo de seu pai...

     Pareceu-me notar no mesmo instante que os seus olhos brilhavam com um vivo fulgor.

— E Deus arrebatou-nos também nossa mãe! — exclamou Macha.

      Depois, colocando muito depressa o guardanapo sobre a chaleira, puxou pelo lenço e pôs-se a chorar.

— Sim, que terríveis mudanças que há nesta casa.

     E a estas palavras Sérgio voltou-se.
     Um instante depois: 

— Katia Alexandrovna — disse elevando a voz — toque alguma coisa.

     Causou-me prazer este pedido feito em termos tão simples e tão amigavelmente imperiosos; levantei-me e acerquei-me dele.

— Olhe, toque isto — disse abrindo um livro de Beethoven no adágio da sonata Quase uma fantasia. — Vamos a ver como toca isso — continuou.

     E foi beber a sua chávena de chá para um dos cantos da sala.
     Não sei porquê, mas senti que me teria sido impossível recusar ou hesitar sob pretexto de que tocava mal; sentei-me, pelo contrário, com submissão diante do piano e comecei a tocar como pude, ainda que tivesse algum medo da sua apreciação, sabendo quanto ele era conhecedor e o gosto que tinha pela música. No tom deste adágio reinava um sentimento que me transportava, por uma espécie de reminiscência, para as nossas conversas antes do chá, e sob esta impressão toquei-o sofrivelmente, pareceu-me. Mas Sérgio não me quis deixar tocar o Scherzo.

— Não, não o tocaria bem — disse aproximando-se de mim. — Fique neste primeiro trecho, que não foi mau. Vejo que compreende a música.

     Este elogio, seguramente moderado, alegrou-me tanto que me senti ruborizar. Era uma coisa tão nova e tão agradável para mim que o amigo, o igual de meu pai, me falasse seriamente e não como a uma criança, como fazia outrora.
     Conversou a respeito de meu pai, contou-me quanto se estimavam um ao outro, como agradavelmente tinham vivido juntos no tempo em que eu não me ocupava senão de brinquedos e de livros de estudo; e nestas narrações, meu pai, pela primeira vez, apareceu-me o homem bom e simples que não havia conhecido até então. Perguntou-me também do que gostava, o que lia, o que contava fazer e dava-me conselhos. Não tinha já junto de mim o homem jovial que apreciava os gracejos e as brincadeiras, mas um homem sério, franco, amigo, por quem sentia ao mesmo tempo um involuntário respeito e simpatia.
     Era-me suave, agradável esta impressão e conjuntamente experimentava em mim uma certa e inconsciente alegria ao falar-lhe. Cada palavra que pronunciava deixava-me receosa; quereria tanto merecer eu mesma a sua afeição que, até ao presente, não me tinha sido concedida senão na qualidade de filha de meu pai.
     Depois de ter deitado Sónia, Macha veio ter conosco e queixou-se a Sérgio Mikailovitch da minha apatia, de que resultava nunca ter coisa alguma para dizer.

— Então a Katia não me contou o mais importante — respondeu ele sorrindo e meneando a cabeça com um certo ar de censura.
 
— Que teria eu para contar? — repliquei. — Que me aborrecia muito, mas isto há de passar. — E efetivamente parecia-me agora não só que passaria o meu enfado, mas que era já coisa decidida e que não mais voltaria.
— Não é positivamente por não saber suportar a solidão; é possível que seja na realidade uma senhora?
— Julgo bem que sim — respondi rindo.
— Não, não, é apenas uma menina má que só vive para ser admirada e que, desde que se acha isolada, se aborrece e nada acha bom; tudo ostentação, coisa alguma de proveitoso.
— Faz uma bela ideia a meu respeito — repliquei para dizer alguma coisa.
— Não — respondeu Sérgio depois de um momento de silêncio —; não é debalde que se assemelha a seu pai; há alguma coisa em si!

     E o seu olhar bom e atento veio de novo exercer o seu encanto sobre mim e encher-me de singular perturbação.
     Só neste momento notei que naquele rosto, que ao primeiro golpe de vista parecia alegre, sob aquele olhar que não pertencia senão a ele e em que não se julgaria primeiro ler senão a serenidade, pintava-se em seguida e sempre mais e mais vivamente um fundo de grande reflexão e um pouco de tristeza.

— Não deve nem pode aborrecer-se — disse ele ainda —, tem a música que sabe compreender, os livros, o estudo; tem diante de si uma vida inteira para a qual chegou o momento de se preparar a fim de não ter depois de que se queixar. Daqui a um ano, será já muito tarde.

     Falava-me assim como um pai ou um tio e compreendi que ele fazia um esforço contínuo para permanecer sempre ao meu nível. Isto ofendia-me alguma coisa por me julgar tanto abaixo dele e, por outro lado, era-me agradável que, por mim, Sérgio julgasse dever fazer aquele esforço.
     O resto da noite foi consagrado a uma conversação sobre negócios entre ele e Macha.

— E agora, boa noite, minha querida Katia — disse-me Sérgio levantando-se, aproximando-se de mim e pegando-me na mão.
— Quando nos tornaremos a ver? — perguntou Macha.
— Na primavera — respondeu ele continuando a conservar entre as suas a minha mão. — Agora vou a Danilovka; verei um pouco o que por lá se passa, arranjarei o que puder, depois passarei por Moscovo por causa dos meus negócios e ver-nos-emos este verão.
— Por que se afasta por tanto tempo? — disse eu muito tristemente.

     Com efeito, habituara-me já a vê-lo todos os dias, pelo que a sua ausência me causaria decerto grande desgosto e me provocaria de novo a minha melancolia. Provavelmente isto deixou-se adivinhar nos meus olhos e no tom da minha voz.

— Então, entretenha-se e expulse o spleen — disse-me Sérgio num modo que me pareceu muito tranquilo e muito frio. — Na primavera, cá voltarei — acrescentou largando-me a mão e sem me olhar.

     Na antecâmara, aonde o havíamos acompanhado, Sérgio, apressou-se a pôr as suas peles e, de novo, o seu olhar pareceu que me evitava.

«Não sei para que está com isso! É bem inútil!», disse eu comigo mesma; «será possível que ele pensasse causar-me já tanto prazer contemplando-me? É um excelente homem, realmente bom... E mais nada.»

     Entretanto, ficámos por muito tempo nessa noite, Macha e eu, sem dormir, falando sempre, não dele, mas do emprego do verão seguinte, do lugar onde passaríamos o inverno e o modo por que o faríamos. Assunto importante; e porquê? Para mim, parecia-me tão simples como evidente que a vida devia consistir em ser feliz e no futuro não me era possível fantasiar com outra coisa senão com a felicidade, como se de repente a nossa velha e sombria habitação de Pokrovski acabasse de se encher de vida e de luz...

continua na página 10...
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Leia também...
1. Estávamos de luto por nossa mãe
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

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Resenha:

FELICIDADE CONJUGAL, de Tolstói (maturidade e relacionamentos)



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