terça-feira, 23 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 2 (VII. Um seminarista ambicioso)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO II
UMA REUNIÃO INTEMPESTIVA
VII
UM SEMINARISTA AMBICIOSO
    
     Aliócha conduziu o stáríets ao seu quarto de dormir e fê-lo sentar no leito. Era uma peça muito pequena, com o mobiliário indispensável; a cama de ferro estreita tinha apenas uma almofada de feltro à guisa de colchão. A um canto, sobre uma estante, perto dos ícones, repousavam a cruz e o Evangelho. O stáriets deixou-se cair, extenuado. Seus olhos brilhavam, resfolegava. Uma vez sentado olhou fixamente Aliócha, como se meditasse em alguma coisa. 

— Vai, meu caro, vai, Porfíri me basta, apressa-te. Têm necessidade de ti em casa do padre abade, servirás à mesa. 
— Permita-me ficar aqui — disse Aliócha, com voz suplicante. 
— És mais necessário lá. A paz não reina ali. Servirás e tornar-te-ás útil. Vêm os maus espíritos, recita uma oração. Fica sabendo, meu filho (o stáriets gostava de chamá-lo assim), que no futuro teu lugar não será aqui. Lembra-te disto, rapaz. Assim que Deus me tiver julgado digno de comparecer perante ele, deixa o mosteiro. Parte imediatamente.  

     Aliócha estremeceu. 

— Que tens? Teu lugar não é aqui no momento. Abençoo-te tendo em vista uma grande tarefa a cumprir no mundo. Peregrinarás muito tempo. Deveras casar-te, é preciso. Deveras suportar tudo até voltares. Haverá muito que fazer. Mas não duvido de ti. Eis por que te envio. Que o Cristo seja contigo! Guarda-o e ele te guardará. Experimentarás uma grande dor e ao mesmo tempo serás feliz. Tal é tua vocação: procurar a felicidade na dor. Trabalha, trabalha sem cessar. Lembra-te de minhas palavras, doravante, porque entreter-me-ei ainda contigo, mas meus dias e mesmo minhas horas estão contados.

     Viva agitação pintou-se no rosto de Aliócha. Seus lábios tremiam. 

— Que tens de novo? — sorriu docemente o stáriets. — Que os mundanos chorem seus mortos; aqui nos regozijamos quando um padre agoniza. Nós nos rejubilamos e rezamos por ele. Deixa-me. Tenho de rezar. Vai, despacha-te. Fica junto de teus irmãos, e não somente junto de um, mas de ambos.

     O stáriets ergueu a mão para abençoá-lo. Era impossível fazer objeções, muito embora Aliócha tivesse grande vontade de ficar. Queria também perguntar-lhe, estava mesmo com a pergunta nos lábios, o que significava aquela prosternação diante de seu irmão Dimítri, mas não ousou. Sabia que o stáriets lhe teria ele próprio explicado, se tivesse podido. Portanto, não o queria. Ora, aquela saudação até o chão havia enchido Aliócha de estupefação; havia naquilo um sentido misterioso. Misterioso e talvez terrível. Uma vez fora da cerca do eremitério, para chegar ao mosteiro no começo da refeição em casa do padre abade (devia servir à mesa), seu coração se fechou e teve de deter-se: parecia-lhe ouvir de novo as palavras do stáriets predizendo seu fim próximo. O que tinha predito o stáriets com tal exatidão devia cumprir-se sem nenhuma dúvida. Aliócha acreditava naquilo cegamente. Mas como ficaria sem ele, sem vê-lo, nem ouvi-lo? E aonde iria? Ordenavam-lhe que não chorasse e que deixasse o mosteiro. Senhor! Desde muito tempo não sentia Aliócha semelhante angústia. Atravessou rapidamente o bosque que separava o eremitério do mosteiro e, incapaz de suportar os pensamentos que o acabrunhavam, pôs-se a contemplar os pinheiros seculares que orlavam o caminho. O trajeto não era longo, quinhentos passos no máximo; não se podia encontrar ninguém àquela hora, mas à primeira volta avistou Rakítin. Este esperava alguém. 

— Seria a mim que esperavas? — perguntou Aliócha, quando o alcançou. 
— Justamente — respondeu Rakítin, sorrindo. — Apressas-te em ir à casa do padre abade. Sei; oferece um jantar. Desde o dia em que recebeu o bispo e o General Parkhátov — lembras-te? — não houve jantar igual. Lá não estarei, mas tu vais para lá, servirás os pratos. Dize-me, Aliócha, que significa esse sonho? Queria perguntar-te. 
— Que sonho? 
— Mas aquela prosternação diante de teu irmão Dimítri Fiódorovitch. Bateu até com a cabeça no chão!
— Falas do Padre Zósima? 
— Sim, dele. 
— A testa? 
— Ah! exprimi-me irreverentemente! Não tem importância. Pois bem, que significa aquele sonho? 
— Ignoro, Micha, o que ele significa! 
— Estava certo de que ele não to explicaria. Isto nada tem de espantoso, são sempre as mesmas santas frioleiras. Mas o truque foi jogado de propósito. Agora vão os beatos falar na cidade e espalhar na província: "Que significa esse sonho?" Na minha opinião, o velho é perspicaz; farejou um crime. Isso lá na tua casa está de feder. 

     Que crime?
     Rakítin queria evidentemente dizer alguma coisa.

— Será na tua família que ele ocorrerá, esse crime. Entre teus irmãos e teu rico papai. Eis por que o Padre Zósima bateu com a testa para qualquer eventualidade. Depois, que acontecerá? "Ah! Isto fora predito pelo santo eremita, ele profetizou." No entanto, que profecia há nisso de bater com a cabeça? Não, dirão, é um símbolo, uma alegoria, e Deus sabe o quê! Será divulgado e lembrado: ele adivinhou o crime, designou o criminoso. Os "inocentes" agem sempre assim; fazem sobre o botequim o sinal-da-cruz e atiram pedras no templo. Da mesma maneira o teu stáriets: para um sábio, pauladas, mas diante de um assassino curva a cabeça. 
— Que crime? Diante de qual assassino? Que é que estás contando? Aliócha ficou como que pregado no lugar. Rakítin também parou. 
— Que crime? Como se não o soubesses! Aposto que já pensaste nisso. A propósito, é curioso; escuta, Aliócha, tu dizes sempre a verdade, se bem que te assentes sempre entre duas cadeiras; pensaste nisso ou não? Responde. 
— Pensei nisso — respondeu Aliócha em voz baixa. Rakítin per turbou-se. 
— Como, também tu já pensaste nisso? — exclamou ele. 
— Eu... não é que tenha pensado precisamente nisso — murmurou Aliócha —, mas acabas de falar tão' estranhamente a esse respeito que me pareceu tê-lo pensado eu mesmo. 
— Estás vendo? (E como o exprimiste claramente!) Estás vendo? Hoje, ao veres teu pai e teu irmão Mítia, pensaste em um crime. Portanto, não me engano. 
— Espera, espera um pouco — interrompeu-o Aliócha, perturbado. — Donde tiras tudo isso? E, em primeiro lugar, por que isso tanto te interessa? 
— Duas perguntas diferentes, mas naturais. Responderei a cada uma separadamente. Donde tiro tudo isso? De nenhuma parte o teria tirado, se não tivesse compreendido hoje Dimítri Fiódorovitch, teu irmão, dum relance e totalmente, tal como ele é, segundo certa linha. Entre essas pessoas muito honestas, mas sensuais, há uma linha que não se deve transpor. De outro modo, golpeará seu pai até mesmo com uma faca. Ora, seu pai é um bêbedo e um debochado desenfreado, que jamais conheceu a medida em coisa alguma; nenhum dos dois se conterá, e pronto, eis todos dois no fosso. 
— Não, Micha, se é só isso, reconfortas-me. Isso não chegará a esse ponto. 
— Mas por que tremes tanto? Sabes por quê? Pode ele ser um homem honesto, Mítia (é estúpido, mas honesto), apenas é um sensual. Eis sua definição e o fundo de sua natureza. Foi seu pai quem lhe transmitiu sua abjeta sensualidade. A respeito de ti, somente, Aliócha, é que me espanto; como se dá que sejas virgem? És, no entanto, um Karamázov! Na família de vocês, a sensualidade chega até o frenesi. Ora, esses três seres sensuais espiam-se agora... de faca no bolso. Três deram cabeçadas, podes ser o quarto. 
— Enganas-te certamente a respeito daquela mulher. Dimítri a... despreza — disse Aliócha, fremente. 
— Grúchenhka? Não, irmão, ele não a despreza. Já que abandonou publicamente sua noiva por causa dela, não a despreza. Aqui, irmão, aqui há qualquer coisa que não compreendes agora. Que um homem se apaixone por uma beldade qualquer, por um corpo de mulher, até mesmo somente por uma parte desse corpo (um voluptuoso me compreenderia imediatamente), entregará por causa dela seus próprios filhos, venderá pai e mãe, a Rússia e a pátria; honesto, irá roubar; manso, assassinará; fiel, trairá. O cantor dos pés femininos, Púchkin, celebrou-os em versos; outros não os cantam, mas não podem olhá-los a sangue frio. Mas não há somente os pés... Aqui, irmão, o desprezo é impotente. Ele despreza Grúchenhka, mas não pode destacar-se dela. 
— Compreendo isso — disse, de repente, Aliócha. 
 — Deveras? E tu o compreendes, na verdade, para que o confesses desde a primeira palavra — declarou Rakítin com uma alegria maldosa. — Isso escapou-te por acaso. Nem por isso deixa a confissão de ser mais preciosa; por consequência, a sensualidade é para ti um assunto conhecido, já pensaste nela! Ah! o santinho! Tu és santo, Aliócha, convenho, mas és um santinho, e o diabo sabe em que é que já não pensaste, o diabo sabe o que já conheces! És virgem, mas já penetraste bastantes coisas, observo-te desde muito tempo. És tu mesmo um Karamázov, és um completo; portanto, a raça e a seleção significam alguma coisa. És sensual por teu pai e "inocente" por tua mãe. Por que tremes? Será verdade o que digo? Sabes? Grúchenhka me pediu: "Trá-lo aqui (isto é, tu) e eu lhe arrancarei a batina". E como tivesse insistido: "Trá-lo, trá-lo!", disse a mim mesmo: por que está ela tão curiosa dele? Sabes, ela também é uma mulher extraordinária! 
— Dir-lhe-ás que não irei, jura-o — disse Aliócha, com um sorriso constrangido. — Acaba, Mikhail, o que começaste, dir-te-ei em seguida o que penso. Para que acabar? Tudo é claro. Tudo isso, irmão, é uma velha canção. Se tu mesmo tens um temperamento sensual, que será de teu irmão Ivã, filho da mesma mãe? Porque também ele é um Karamázov. Ora, a natureza dos Karamázovi se resume assim: sensuais, ávidos no ganho e malucos! Teu irmão Ivã distrai-se agora escrevendo artigos de teologia por um cálculo estúpido que se ignora, sendo ele próprio ateu, e confessa essa baixeza. Além disso, está a ponto de conquistar a noiva de seu irmão Mítia e parece perto de seu fim. De que maneira? Com o consentimento do próprio Mítia, porque este lhe cede a noiva com o único fim de se desembaraçar dela e ir juntar-se a Grúchenhka. E tudo isso não obstante sua nobreza e seu desinteresse, nota-o. Tais indivíduos são os mais fatais. Como entendê-los, afinal? Tendo plena consciência de sua baixeza, comportam-se baixamente. Escuta agora: um velho barra o caminho a Mítia, seu próprio pai. Porque este está loucamente apaixonado por Grúchenhka, fica com a boca cheia de água somente ao vê-la. Foi unicamente por causa dela que provocou tal escândalo, somente porque Miusov tinha ousado chamá-la de criatura depravada. Está mais amoroso do que um gato. Antes, estava ela somente a seu serviço para certos negócios equívocos e nas suas tavernas; agora, depois de tê-la bem examinado, percebeu ele que ela lhe agradava, encarniça-se após ela e faz lhe propostas desonestas naturalmente; pois bem, o pai e o filho encontram-se nesta estrada. Mas Grúchenhka reserva-se, hesita ainda e mexe com os dois, examina qual é o mais vantajoso, porque se se pode arrancar muito dinheiro do pai, em compensação ele não se casará, tornar-se-á talvez avarento para o fim e fechará sua bolsa. Em semelhante caso, Mítia também tem seu valor; não tem dinheiro mas pode casar-se. Sim, é capaz disso! Abandonará sua noiva, uma beldade incomparável, Catarina Ivânovna, rica, nobre e filha de coronel, para se casar com Grúchenhka, outrora mantida por Samsonov, um velho comerciante, mujique de pravado e prefeito da cidade. De tudo isso, podem verdadeiramente resultar um conflito e um crime. Ora, é o que espera teu irmão Ivã. Dá ele assim um golpe duplo: toma posse de Catarina Ivânovna, pela qual morre de amores, e se apropria de seu dote de 60 000 rublos. Para um pobre diabo como ele, um pobretão, não é coisa de desdenhar, no começo. E nota bem! Não somente não ofenderá Mítia, mas este lhe será grato até a morte. Porque sei de boa fonte que, na última semana, achando-se Mítia embriagado num restaurante com ciganos, exclamou que era indigno de Catarina, sua noiva, mas que seu irmão Ivã era digno dela. A própria Catarina Ivânovna acabará não repelindo um homem encantador como Ivã Fiódorovitch; já hesita entre eles. Mas como pode esse Ivã seduzir-vos para que estejais todos em êxtase diante dele? Ri-se de vós. Estou extasiado, diz ele, e festejo às vossas custas. 
— Donde sabes tudo isso? Por que falas com tal segurança? — perguntou bruscamente Aliócha, franzindo o cenho. 
— Mas por que me interrogas, temendo de antemão a resposta? Isto significa que reconheces que disse a verdade. 
— Não gostas de Ivã. Ivã não se deixa seduzir pelo dinheiro. 
— Deveras? E a beleza de Catarina Ivânovna? Não se trata somente de dinheiro, muito embora 60 000 rublos sejam bastante atraentes.
— Ivã olha mais alto. Milhares de rublos não o deslumbrariam. Não é nem o dinheiro nem a tranquilidade que ele procura. Ivã procura talvez o sofrimento. 
— Que sonho é esse ainda? Ah! vós outros... os nobres! 

     Ora! Micha, sua alma é impetuosa. Seu espírito é cativo. Tem ele um grande pensamento ainda não resolvido. É daqueles que não têm necessidade de milhões, mas de resolver seu pensamento, 

— É um plágio. Alióeha, parafraseias o teu stárieis. Ora! Ivã propôs vos um enigma! — gritou com visível animosidade Rakítin, cujo rosto se alterou e cujos lábios se contraíram. — E um enigma estúpido, não há nele nada a adivinhar. Faze um pequeno esforço e compreenderás. Seu artigo é ridículo e inepto. Ouvi ainda há pouco sua absurda teoria: "Se não há imortalidade da alma, então não há virtude, o que quer dizer que tudo é permitido". Lembras-te de como teu irmão Mítia gritou: "Lembrar-me-ei disso!" É uma teoria sedutora para os tratantes... Mas estou insultando, é uma estupidez... não os tratantes, mas os fanfarrões da escola com "uma profundeza de pensamento insolúvel". É um falastraz e isto quer dizer simplesmente no fundo: "Boné branco e branco boné". Toda a sua teoria não passa duma infâmia! A humanidade encontra em si mesma a força de viver para a virtude, mesmo sem crer na imortalidade da alma! Tira-a do amor à liberdade, à igualdade e à fraternidade...

     Rakítin acalorara-se, tinha dificuldade em conter-se. Mas de repente parou, como se se lembrasse de alguma coisa. 

— Pois bem, basta! — disse ele, com um sorriso ainda mais forçado. — Por que ris? Pensas que sou um casca-grossa? 
— Não, nem mesmo tinha ideia de pensá-lo. És inteligente, mas... deixemos isso. Sorri por estupidez. Compreendo que possas acalorar-te, Micha. Adivinhei pelo teu arrebatamento que tu mesmo não és indiferente para com Catarina Ivânovna. Há muito tempo que duvidava disso, irmão. Eis por que não gostas de Ivã. Tens ciúmes dele. 
— E também do dinheiro dela? Vai até o fim. 
— Não, não falarei do dinheiro, não quero ofender-te. 
 — Creio-o, porque o disseste, mas que o diabo vos leve, a ti e a teu irmão Ivã! Nenhum de vós compreende que, mesmo posta de parte Catarina Ivânovna, ele é muito pouco simpático. Que razão terei para gostar dele, com a breca! Ele me faz a honra de injuriar-me, Não terei o direito de retribuir-lhe? 
— Jamais o ouvi dizer bem ou mal de ti. Não fala absolutamente de ti.
— Pois bem, contaram-me que anteontem, em casa de Catarina Ivânovna, disse boas de mim, tanto se interessava por este teu criado. Depois disso, ignoro qual irmão tem ciúme do outro. Houve ele por bem insinuar que, se eu não resignar à carreira de arkhimandrit e não largar a batina num futuro bem próximo, partirei para Petersburgo, entrarei para uma grande revista na qualidade de crítico, escreverei por uma dezena de anos e acabarei por tornar-me proprietário da revista. Publicá-la-ei então com orientação liberal e ateia, com uma tintura socialista, certo verniz mesmo de socialismo, mas tomando minhas precauções, isto é, nadando entre duas águas e ludibriando os imbecis. Sempre segundo o teu irmão, malgrado essa tintura de socialismo, colocarei minhas rendas em conta corrente, pondo-as no momento em circulação, sob a direção dum judeuzinho qualquer, até que eu consiga construir um grande imóvel em Petersburgo; meus escritórios ocuparão um andar e alugarei os outros. Designou mesmo o local da casa, perto da nova ponte de pedra que se projeta, parece, entre a Rua Litiéinaia e Travessa Vibórskaia... 
— Ah! Micha, isto se realizará talvez de ponta a ponta! — exclamou Alióeha, que não pôde conter um riso jovial. 
— E você também zomba, Alieksiéi Fiódorovitch? 
— Não, não, estou brincando, desculpa-me. Pensava em outra coisa bem diversa. Mas, dize-me, quem pôde comunicar-te tais detalhes, de quem os terias sabido? Porque não estavas em casa de Catarina Ivânovna, quando ele falava de ti. 
— É verdade, mas Dimítri Fiódorovitch ali se achava e ouvi-o repetir isso, isto é, escutei contra a minha vontade, oculto no quarto de dormir de Grúchenhka, donde não podia sair em sua presença. 
— Ah! sim, esquecia-me de que é tua parenta. 
— Minha parenta? Essa Gruchka seria minha parenta? — exclamou Rakítin, todo vermelho. — Perdeste a razão? Tens o cérebro desarranjado. 
— Como? Não é tua parenta? Ouvi dizer isto. 
— Onde pudeste ouvi-lo? Ah! Senhores Karamazovi, tomais ares de alta e velha nobreza, quando teu pai bancava o palhaço na mesa alheia e figurava por favor na cozinha. Admitamos, não passo de filho de pope, um vil plebeu, ao lado de vós, nobres, mas não me insulteis com tão alegre sem-cerimônia. Tenho também minha honra, Alieksiéi Fiódorovitch. Não posso ser parente de Gruchka, uma mulher pública, compreende pois! 

     Rakítin estava violentamente superexcitado. 

— Desculpa-me, pelo amor de Deus, não o teria nunca acreditado, aliás. É ela verdadeiramente... uma mulher pública? — Aliócha ficou completamente rubro. —Repito-te, disseram-me mesmo que era tua parenta. Vais muitas vezes à casa dela e tu mesmo me disseste que não tinhas ligação com ela... Jamais teria crido que a desprezasses tanto! Merece-o ela verdadeiramente?
— Se a frequento, tenho talvez minhas razões para isso, mas basta. Quanto ao parentesco, será antes teu irmão ou mesmo teu pai que a fará entrar na tua família e não na minha. Mas eis-nos chegados. Vai antes à cozinha... Ora! Que é que há? Que está acontecendo? Estaríamos atrasados? Mas não é possível que já tenham acabado de jantar! A menos que os Karamazovi não tenham feito das suas. Deve ser isto. Eis teu pai e Ivã Fiódorovitch que o segue. Fugiram da casa do padre abade. Eis o Padre Isidoro no patamar a gritar alguma coisa na direção deles. E teu pai, que grita, agitando os braços. Decerto está descompondo. Eis Miúsov que parte de caleça, não o vês correr? O proprietário Maksímov corre; é um verdadeiro escândalo,' o jantar não se realizou! Teriam eles batido no padre abade? Ou então foram surrados! Teriam bem merecido uma surra!... 

     Rakítin tinha razão de fazer essas exclamações. Ocorrera de fato um escândalo inaudito e inesperado. Tudo se passara "por inspiração do momento".

continua na página 86...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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