quarta-feira, 1 de julho de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo V - Da Maturidade à Velhice (2)

 Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO V
DA MATURIDADE À VELHICE
 
continuando...

     As dificuldades da menopausa prolongam-se em certos casos até a morte, na mulher que não se conforma com envelhecer. Senão tiver outros recursos senão a exploração de seus encantos, lutará com unhas e dentes para os conservar; lutará também ferozmente, se seus desejos sexuais continuarem vivos. O caso não é raro. Perguntaram à princesa de Metternich em que ida de uma mulher deixa de ser atormentada pela carne: "Não sei, respondeu, só tenho 65 anos". O casamento que, segundo Montaigne, apenas oferece à mulher "um ligeiro refresco", torna-se um remédio dia a dia mais insuficiente na medida em que ela envelhece; muitas vezes a mulher paga na maturidade as resistências, a frieza da juventude; quando começa a conhecer, enfim, as febres do desejo, o marido de há muito já se resignou à sua indiferença: ele se arranjou. Despojada de seus atrativos pelo hábito e o tempo, a esposa tem bem poucas possibilidades de reacender a chama conjugai. Despeitada, decidida a "viver sua vida", terá menos escrúpulos do que antes — se jamais os teve — em arranjar amantes; mas ainda assim será preciso que eles queiram; é uma caça ao homem. Ela emprega mil ardis; fingindo oferecer-se, impõe-se; faz armadilhas da polidez, da amizade, da gratidão. Não é somente por gosto pela carne jovem que se volta para os rapazes; é deles somente que pode esperar essa ternura desinteressada que o adolescente experimenta por uma amante maternal; ela própria tornou-se agressiva, dominadora; é a docilidade de Chéri que satisfaz Léa, tanto quanto a beleza dele. Mme de Staël, depois dos quarenta, escolhia pajens que esmagava com seu prestígio; e, além disso, um homem tímido, noviço, é mais fácil de ser capturado. Quando sedução e ardis se revelam realmente ineficientes, resta um recurso à obstinada: pagar. O conto dos cannivets, popular durante a Idade Média, ilustra o destino dessas ogras insaciáveis: uma jovem mulher, em paga de seus favores, pedia a cada um de seus amantes um pequeno cannivet que colocava num armário; um dia o armário ficou cheio: mas nesse momento foram os amantes que se puseram a reclamar um cannivet depois de cada noite de amor; dentro de pouco tempo o armário esvaziou-se — todos os cannivets foram devolvidos e foi preciso comprar outros. Certas mulheres encaram a situação com cinismo; já deram o que podiam, cabe--lhes agora devolver os cannivets. O dinheiro pode mesmo desempenhar a seus olhos o papel inverso do que representa para a cor tesã, mas igualmente purificador: transforma o homem em um instrumento e permite à mulher essa liberdade erótica que seu jovem orgulho recusava antes. Porém, mais romanesca do que lúcida, a amante-benfeitora tenta muitas vezes comprar uma miragem de ternura, admiração, respeito; persuade-se mesmo de que dá pelo prazer de dar, sem que nada lhe seja pedido: aqui também um jovem é um amante ideal, porquanto pode ufanar-se com ele de uma generosidade maternal; e depois ele tem um pouco desse "mistério", que o homem também pede à mulher que ele "ajuda", porque assim a crueza do negócio se mascara de enigma. Mas é raro que a má-fé seja clemente durante muito tempo; a luta dos sexos transforma-se em duelo entre o explorador e o explorado no qual a mulher, desiludida, humilhada, se arrisca a sofrer cruéis derrotas. Prudente, resignar-se-á a "depor as armas", sem esperar demasiado, ainda que todos os seus ardores não tenham esmaecido.
     A partir do dia em que a mulher consente em envelhecer, sua situação muda. Até então era uma mulher ainda jovem, encarniçada em lutar contra um mal que misteriosamente a enfeiava e deformava. Ela torna-se um ser diferente, assexuado mas acabado: uma mulher de idade. Pode-se considerar então que a crise da menopausa terminou. Mas não se deve concluir disso que lhe será fácil viver doravante. Quando renuncia a lutar contra a fatalidade do tempo, outra luta se inicia: é preciso que conserve um lugar na terra.
     É em seu outono, em seu inverno, que a mulher se liberta de suas cadeias; invoca o pretexto da idade para obviar as tarefas que lhe pesam; conhece demasiado o marido para se deixar ainda intimidar por ele, evita-lhe os amplexos, ao seu lado na amizade, na indiferença ou na hostilidade, constrói uma vida própria. Se ele declina mais depressa, ela assume o comando. Pode também permitir-se enfrentar a moda, a opinião; furta-se às obrigações mundanas, aos regimes e às preocupações com a beleza: assim é Léa, que Chéri reencontra liberta das costureiras, dos cabeleireiros e beatamente instalada na gulodice. Quanto aos filhos, suficientemente grandes para prescindir dela, casam-se, deixam o lar. Infelizmente, na história de cada mulher repete-se o fato que constatamos durante a história da mulher: ela descobre essa liberdade no momento em que não tem mais que fazer dela. Essa repetição nada tem de um acaso: a sociedade patriarcal deu a todas as funções femininas a figura de uma servidão; a mulher só escapa da escravidão no momento em que perde toda eficiência. Por volta dos cinquenta anos, está em plena posse de suas forças, sente-se rica de experiências; é mais ou menos nessa idade que o homem ascende às mais altas posições, aos cargos mais importantes: quanto a ela, ei-la aposentada. Só lhe ensinaram a dedicar-se e ninguém reclama mais sua dedicação. Inútil, injustificada, contempla os longos anos sem promessa que lhe restam por viver e murmura: "Ninguém precisa de mim!"
     Não se resigna imediatamente. Por vezes apega-se com desespero ao marido; acabrunha-o de cuidados mais imperiosamente do que nunca; mas a rotina da vida conjugal está melhor estabelecida do que jamais; sabe que de há muito não é mais necessária ao marido, ou ele não lhe parece mais bastante precioso para justificá-la. Assegurar a manutenção da vida em comum é uma tarefa tão contingente quanto a de velar solitariamente sobre si mesma. É para os filhos que se voltará esperançosa: para eles o jogo ainda não está feito; o mundo, o futuro oferecem-se a eles; gostaria de precipitar-se com seus filhos nesse futuro. A mulher que teve a sorte de engendrar numa idade avançada acha-se privilegiada: é ainda uma jovem mãe no momento em que as outras se fazem avós. Mas em geral entre 40 e 50 anos a mãe vê seus filhos transformarem-se em adultos. É no instante em que lhe escapam que ela se esforça com paixão para sobreviver através deles.
     Sua atitude é diferente, segundo espere sua salvação de um filho ou de uma filha; é naquele que põe geralmente sua mais ávida esperança. Ei-lo que vem finalmente a ela do fundo do passado, o homem cujo aparecimento maravilhoso ela escrutava no horizonte; desde os primeiros vagidos do recém-nascido, ela esperou esse dia em que ele lhe daria todos os tesouros com que o pai não a soube satisfazer. Entrementes, ela lhe deu bons tabefes e purgantes que esqueceu. O filho que tivera no ventre já era um desses semideuses que governam o mundo e o destino das mulheres: agora ele vai reconhecê-la na glória de sua maternidade. Vai defendê-la contra a supremacia do esposo, vingá-la dos amantes que teve e dos que não teve, será seu libertador, e quem a salvará. Ela reencontra diante dele as condutas de sedução da moça à espera do Príncipe Encantado; pensa, quando passeia ao lado dele, elegante, atraente ainda, que parece "uma irmã mais velha"; fica encantada se — tomando por modelo os heróis dos filmes norte-americanos T— ele brinca com ela e a sacode um pouco, sorridente e respeitoso: é com orgulhosa humildade que reconhece a superioridade viril daquele que carregou em seus flancos. Até que ponto poder-se-á qualificar tais sentimentos de incestuosos? É certo que, quando se imagina complacentemente apoiada aos braços do filho, a expressão "irmã mais velha" traduz pudicamente fantasmas equívocos; quando dorme, quando não se controla, seus devaneios conduzem-na por vezes muito longe; mas já disse que sonhos e fantasmas estão muito longe de exprimir sempre o desejo escondido de um ato real: muitas vezes eles se bastam, são a realização acabada de um desejo que só reclama uma satisfação imaginária. Quando a mãe brinca de maneira mais ou menos velada de ver no filho um amante, trata-se unicamente de um jogo. 0 erotismo propriamente dito ocupa pouco lugar nesse casal. Mas é um casal; é no fundo de sua feminilidade que a mãe saúda no filho o homem soberano; entrega-se nas mãos dele com tanto fervor quanto a mulher apaixonada, e, em troca desse dom, espera ser içada à direita do Deus. Para obter essa assunção, a apaixonada invoca a liberdade do amante: assume generosamente um risco; paga-o com suas exigências ansiosas. A mãe estima que adquiriu direitos sagrados pelo simples fato de conceber; não espera que o filho se reconheça nela para encará-lo como sua criatura, seu bem; é menos exigente do que a amante porque é de uma má-fé mais tranquila; tendo fabricado uma carne, faz sua uma existência de cujos atos, obras e méritos se apropria. E, exaltando seu fruto, é sua própria pessoa que ergue às nuvens.
     Viver por procuração é sempre um expediente precário. As coisas podem não acontecer como se desejam. Ocorre muitas vezes que o filho não passe de um vagabundo, de um moleque, de um falhado, de um ingrato. A mãe tem suas ideias próprias acerca do herói que ele deve encarnar. Nada mais raro do que aquela que respeita autenticamente a pessoa humana no filho, que lhe reconhece a liberdade até nos malogros, que com ele assume os riscos que todo empenho implica. Encontram-se muito mais comumente êmulos daquela espartana demasiado incensada que condena displicentemente o filho à glória ou à morte; o que o filho tem que fazer na terra, é justificar a existência da mãe, apossando-se, em proveito de ambos, dos valores que ela própria res peita. A mãe exige que os projetos do filho-Deus sejam conformes a seu próprio ideal e que o êxito lhe seja assegurado. Toda mulher quer engendrar um herói, um gênio; mas todas as mães de heróis, de gênios, começaram por proclamar que eles lhes partiam o coração. É contra sua mãe que o homem o mais das vezes conquista os troféus com que ela sonhava adornar-se e que ela não reconhece quando ele lhe joga aos pés. Mesmo se aprova em princípio os empreendimentos do filho, ela é atormentada por uma contradição análoga à que tortura a mulher que ama. "ara justificar sua vida — e a de sua mãe — é preciso que ele a supere no sentido de dados fins; para atingi-los, é levado a com prometer a saúde, a correr riscos: mas ele contesta o valor do dom que lhe fez a mãe quando coloca certos objetos acima do simples fato de viver. Ela se escandaliza com isso; ela só reina sobre o homem como soberana se essa carne que engendrou é para ele o bem supremo: não tem o filho o direito de destruir essa obra que ela realizou no sofrimento. "Vais te cansar, vais ficar doente, vai te acontecer uma desgraça", berra-lhe sem cessar aos ouvidos. Entretanto, ela bem sabe que viver não basta, de outro modo até procriar seria supérfluo; ela é a primeira a se irritar se o filho é um preguiçoso, um covarde. Nunca ela descansa. Quando ele parte para a guerra, a mãe quer que volte vivo mas condecorado. Deseja que tenha êxito na carreira, mas receia que se exceda. 0 que quer que ele faça, é sempre com preocupação que ela assistirá, impotente, ao desenrolar de uma história que é a sua própria mas que não comanda. Tem medo de que ele siga por caminho errado, medo de que não vença, medo de que, vencendo, caia doente. Ainda que tenha inteira confiança nele, a diferença de idade e de sexo não permite que estabeleça entre mãe e filho uma verdadeira cumplicidade; ela não está a par dos trabalhos dele; nenhuma colaboração lhe é solicitada.
     Por isso, mesmo admirando o filho com orgulho desmedido, a mãe permanece insatisfeita. Acreditando ter engendrado não somente uma carne mas ainda fundado uma existência absolutamente necessária, ela sente-se retrospectivamente justificada; mas direitos não são uma ocupação: ela precisa, para encher seus dias, perpetuar sua ação benéfica; quer sentir-se indispensável a seu deus; a mistificação da dedicação acha-se neste caso denunciada da maneira mais brutal: a esposa vai despojá-la de suas funções. Descreveu-se muitas vezes a hostilidade que ela experimenta em relação a essa estranha que lhe "toma" o filho. A mãe ergueu a facticidade contingente do parto à altura de um mistério divino: recusa-se a admitir que uma decisão humana possa ter mais peso. A seus olhos os valores são feitos de antemão, procedem da natureza, do passado; ela desconhece o alcance de um livre empenho. Seu filho deve-lhe a vida; que deve a essa mulher que ainda ontem ignorava? Foi através de algum malefício que o persuadiu da existência de um laço que até então não existia; é intrigante, interesseira, perigosa. A mãe espera com impaciência que a impostura se descubra; encorajada pelo velho mito da boa mãe de mãos consoladoras, que pensa os ferimentos infligidos pela mulher má, ela espia no rosto do filho os sinais da desgraça; descobre-os mesmo quando ele os nega; queixa-se então de que ele não se queixa de nada; fiscaliza a nora, critica-a, a todas as inovações dela opõe o passado, o costume que condenam a própria presença da intrusa. Cada qual entende a seu modo a felicidade do bem-amado; a mulher quer ver nele um homem através de quem dominará o mundo; a mãe tenta, para guardá-lo trazê-lo de volta à infância; aos projetos da jovem mulher que espera que o marido se torne rico ou importante, ela opõe as leis de sua imutável essência: ele é frágil, ela não deve esgotá-lo. O conflito entre o passado e o futuro exaspera-se quando a recém-chegada se acha grávida por sua vez. "O nascimento dos filhos é a morte dos pais"; é então que esta verdade assume toda a sua força cruel: a mãe que esperava sobreviver no filho compreende que ele a condena à morte. Ela deu a vida; a vida vai prosseguir sem ela; ela não é mais a Mãe: apenas um elo da cadeia; cai do céu dos ídolos intemporais; não passa mais de um indivíduo acabado, prescrito. É então que nos casos patológicos seu ódio se exaspera até acarretar uma neurose ou a conduz ao crime; foi quando a gravidez da nora se verificou que Mme Lefevbre, depois de a ter detestado durante muito tempo, resolveu assassiná-la¹.

[1] Em agosto de 1925, uma burguesa do Norte, Mme Lefevbre, de 60 anos, que vivia com o marido e os filhos, mata a nora grávida de seis meses durante um passeio de automóvel, enquanto o filho guiava. Condenada à morte, perdoada, terminou a vida numa casa correção sem manifestar nenhum remorso; pensava ter sido aprovada por Deus quando matou a nora "como se arranca erva daninha, coisa que não presta, como se mata uma fera". Dessa selvageria dava como única explicação ter-lhe dito um dia a jovem mulher: "Você me tem agora, portanto será preciso contar comigo". Foi quando suspeitou da gravidez, da nora que comprou um revólver, para se defender contra os ladrões, disse. Depois da menopausa apegara-se desesperadamente à maternidade; durante doze anos sentira incômodos que exprimiam simbolicamente uma gravidez imaginária.


continua página 355...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo V - Da Maturidade à Velhice (2)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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