quarta-feira, 1 de julho de 2026

Massa e Poder - Elementos do Poder: O Poder do Perdão

Elias Canetti

ELEMENTOS DO PODER

     O Poder do Perdão. A Misericórdia.

          O poder do perdão é um poder que cada um reserva para si e que todos possuem. Seria notável erigir uma vida com base nos atos de perdão que uma pessoa se permite. O paranoico é aquele que muito dificilmente é capaz de perdoar, ou que absolutamente não o é; aquele que pondera de maneira demorada, que jamais esquece o que tem a perdoar, e que constrói para si atos hostis fictícios com o intuito de não perdoá-los. A principal resistência que pessoas assim apresentam na vida dirige-se contra toda forma de perdão. Se chegam ao poder e, para firmar-se nele, são obrigadas a declarar seu perdão, fazem-no apenas na aparência. O detentor de poder jamais perdoa de fato. Todo ato hostil permanece cuidadosamente registrado; ele o oculta ou armazena. Por vezes, troca-o por genuína submissão; atos generosos da parte dos poderosos ocorrem sempre dessa forma. Anseiam de tal maneira pela submissão de tudo quanto se opõe a eles que amiúde pagam por ela um preço exageradamente alto.
     O impotente, a quem o detentor de poder se a gura imensamente forte, não percebe quão importante para este último é a submissão absoluta de todos. Ele só consegue avaliar um aumento de poder — se é que possui algum faro para isso — com base em seu peso real e jamais compreenderá o que significa para o rei esplendoroso o ajoelhar-se de seu mais ínfimo, esquecido e miserável súdito. Como modelo supremo para todo poderoso pode-se mencionar o interesse do Deus bíblico por todos, a tenacidade e a preocupação que não o deixam esquecer uma única alma. Também ele pratica o complicado comércio do perdão; aquele que a ele se submete é acolhido em sua graça. Mas ele examina minuciosamente o comportamento desse seu servo e, graças a sua onisciência, é-lhe fácil perceber em que medida o estão enganando.
     Não há a menor dúvida de que muitas proibições existem tão somente para dar sustentação ao poder daqueles que podem punir e perdoar-lhes a transgressão. A misericórdia é um ato bastante elevado e concentrado de poder, pois pressupõe a condenação: não tendo havido uma tal condenação, o ato de misericórdia não pode ter lugar. Nela há também uma seleção. Não é costume perdoar-se mais do que um número determinado e restrito de condenados. Quem pune, certamente evitará a brandura demasiada, e mesmo quando o rigor da pena parece ir de encontro a sua natureza mais íntima, ele sentirá a própria necessidade sagrada do castigo como uma pressão para que a pena se cumpra, e assim a justificará. Por outro lado, porém, deixará sempre aberta a porta para a misericórdia — seja decidindo-se ele próprio por ela em alguns casos escolhidos, seja recomendando-a a uma instância superior, dela encarregada.
     Intensificado ao máximo, o poder se apresenta naqueles casos em que o perdão é concedido no último instante. Quando a sentença de morte está para ser cumprida — na forca ou pela salva de tiros de um pelotão designado para o fuzilamento —, o perdão afigura-se como uma nova vida. Que o poder seja incapaz de efetivamente trazer os mortos de volta à vida constitui a sua fronteira; mas, no ato de misericórdia retardado longamente, o detentor de poder tem frequentemente a impressão de tê-la ultrapassado.

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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?

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