quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Teatro Pedagógico: biometrias

Parábolas de uma Professora



biometrias


baitasar e paulo e marko




minha intenção não se encontra nesta sala. timidamente pensei. não estou aqui. não quero parecer ser feliz. estacionada. quero ser feliz. não quero esse personagem de uma boa mulher adequada ao cômodo papel da indiferença. obediente. a caverna da neutralidade. a caverna do acolhimento. percebo as conversas nas suas metades, mas entendo os propósitos. não corro riscos desnecessários. sinto vontade de sair. fumar e tragar-me. um jeito natural para o meu afogamento em rolos de fumaça. as folhas de tabaco queimando. afogada em tosse. lágrimas transpiram em meus olhos. me povoam. são dias em que me sinto terrivelmente apaixonada. molhada. em outros, como um imenso castelo na beira do mar esperando a maré ou algo inusitado. no meio de um turbilhão me perco em pensamentos com desejos românticos. e lá está... ele. grande. solitário. guarde um beijo meu ou venha salvar-me

Colegas, a questão dos atrasos no início do turno estão trazendo transtornos e ficando muito difícil justificar para os pais porque os seus filhos estão sem professor. As crianças são atendidas. Não é isso. Ninguém volta para casa. Eu sei que os imprevistos acontecem...

prestar atenção. ordeno a mim mesma. esse é o diretor, sua besta. tento, mas não quero me concentrar. meus segredos continuam apaixonados. não me afastam. desejos secretos colam em meu corpo. obscenos. habitas meus pensamentos. estremeço ao pressentir um abalroamento. os acasos aproximam. acredito que sim. mas me colocam numa situação de dor e alegria. bobagem. eu me coloco assim. minh’alma está impregnada de você. exijo teu colo. uma noite inteira só para descobrir o que o destino já sabe

Não dá para vocês da direção, supervisão, sei lá, as volantes... alguém para levar os alunos em fila até a sala de aula? Só até a chegada do professor da turma.

acemira e a sua sabedoria. tudo que a capacidade da bondade cínica comporta. depois, muito provavelmente, será por ela mesma proclamada vítima. resmungos de atenção pelos corredores. conversas de uns com os outros, sobre o trabalho visto ou não. não importa. reclamações. denúncias. a falta de apoio que estará sentido. o seu abandono às feras. pequenas ferinhas. repetirá que não estão cumprindo o seu pedagógico próprio. e irá soletrar que não é papel da direção, supervisão, e mesmo as volantes, substituir as faltas dos colegas. esquecida das suas boas intenções e sugestões na reunião. uma memória histórica curta e canalha. um cobertor curto. um teatro cínico. um ponto de vista teatral sobre ética

Acemira, pegar a turma é fácil... e fazer o quê? Deixá-la quietinha e acomodada até a chegada da professora? Tudo bem, até seria possível, se, junto a isso, não tivéssemos quinze a vinte por cento dos professores em licença saúde. Ou outro tanto atestando. Os professores não têm saúde de ferro? Não. Os imprevistos acontecem? Acontecem. Não estou discutindo os afastamentos por saúde, mas afirmando que biometrias somadas aos atrasos estão invibializando o início do turno.

silêncio. aproveito estes segundos para violar o mundo com palavras de desejo, paixão e amor. é uma forma de reivindicar minha presença nele. minha saúde também não é de ferro, minha eternidade amadurece e minhas vontades do professor do corredor aumentam. quero tua boca, sinto desejo do teu beijo doce. molhado. quero te amar. a vida vale pelo o amor que a gente tem no coração. permaneço presa ao cativeiro invisível do cotidiano

Puxa, Aguinaldo! Não dá pra exigir professor substituto?

Ofélia, tudo é possível, mas não acredito ser esta a solução mais viável. Mesmo porque esta solução pode inviabilizar nossos salários no presente e no futuro.

Não estou entendendo, Aguinaldo.

resisto com todas as minhas forças para não ir procurar o professor do corredor. ele também se cala. nos calamos. abre seu armário e parece que procura algo que não está lá, O que buscas, perguntaria, Por que me calo, responderia, Vejo-o entrar na sala muito silenciosamente, já estaria em seu colo, Noto você apagada, quase triste, Cansada da repetição e da minha falta de imaginação. ele fica bem com essa tristeza. olhos melancólicos. parece mais jovem. senta-se calado. sinto nele o mesmo cansaço.

Lélia, o raciocínio é simples. Se eu e você precisamos dividir nossas tarefas com outros colegas, deveríamos saber que o salário destes novos colegas que suprem as minhas folgas, os meus atrasos e, inclusive, minhas possíveis biometrias, sairá do mesmo bolo que paga e projeta nossos reajustes salariais. E que no futuro, será mais um aposentado e recebendo da mesma previdência, etc etc etc. Estou sendo muito egoísta? O poço não está secando e continuamos com sede, mas escavando e esgravatando em solo árido. Não adianta apenas falar e reclamar que nada funciona, precisamos fazer a parte que nos cabe neste latifúndio de excluídos. Quem estende a mão aos miseráveis?

novo silêncio e já estou nos braços dele. corri como louca, mas cheguei sonhando. o que me resta é o sonho. invento um modo de reinventar a dor. a dor sem dor. pensar na possibilidade impossível, sei que amo

Pelego!

Aguinaldo, você está me parecendo com a intenção de incutir medo no ânimo dos professores.

Botto, é só uma questão matemática. Aumentamos o número de professores na base salarial. A economia não cresce. A arrecadação não cresce ou não cresce na mesma voracidade da nossa necessidade por professores substitutos. O resultado é negativo. Faça as contas e depois me venha falar de terrorismos e similaridades. Não nos adianta ficar apenas olhando para o chão, empurrando e derrubando.


Pelego!

E o pré-sal?

Ué, você deu seu voto para aqueles que querem tirar a Petrobrás do pré-sal. Lembra? O seu voto oferece o petróleo do pré-sal para empresas estrangeiras! E não sou eu quem diz. Basta ler. Acompanhar o noticiário. Existe proposta no senado.

Aguinaldo, tu não tinhas essa maneira de pensar no ano passado, antes das eleições. O que aconteceu? Quem mudou?

Não sei quem mudou mais, Acemira. O trágico é que tudo sempre muda? Todos estamos mudando todos os dias, a cada instante. Este é o nosso caráter humano, a certeza da renovação. A convicção do renascer da consciência em cada olhar que nos trás o aperto de mão. A solidariedade aproxima e dá início ao abraço fraterno. Sei que consegui sair do meu mundo particular da sala de aula. E me deparei com o nosso mundo da escola com todas as suas necessidades administrativas e pedagógicas e humanas. Imediatas. Percebi que não adianta fazer ameaças, gritar obscenidades, acenar com intolerância, se tudo isso é apenas para manter meus privilégios egoístas. Preciso realizar as tarefas as quais me propus de maneira ética, crítica e engajada. Hoje, e no futuro. Não vejo ninguém me impedindo de realizar meu trabalho. E eu estou com muita vontade de realizá-lo?

Escutaram? A culpa é nossa!

Aguinaldo, quem te ouve vai acreditar que não queremos trabalhar. O que importa mesmo é que está muito difícil ensinar. A gurizada não quer aprender.

Mas aprender o quê, Ofélia? Submissão?

a pergunta do marko invagina a rotina do dia após dia na escola. precisamos fundamentar na prática os nossos desejos. a nossa prática mostra o tamanho da nossa paixão. poderes ou afazeres administrativos. controle ou libertação. a opção por lacrar as portas, os portões, os muros, que deveriam estar permanentemente abertas, para simplesmente dar conta de aspectos administrativos e do medo, é difícil, mas mostra uma concepção de mundo que inicia pelo medo



não chego nem perto de um computador fora da escola, respondi ao professor abá. ele achou um absurdo. professor, somos as realidades do desemprego, subemprego, fome, invasões, ligações de luz clandestinas, bandidos fardados, doenças sanitárias, repetência, até que desistimos da escola. somos todos aqueles que impedidos de morar, invadimos. impedidos de amar, temos os corações afogados no desespero da solidão. impedidos de trabalhar, mendigamos a sobra do teu pão. impedidos da brilhantura na escola, reprovamos e saímos na carona da expulsão aborrecida. viramos suco. impedidos de adoecer, morremos. meu peito incha em silêncio. eu mesma já morri várias vezes. nosso olhar grita, e, apesar de tudo, somos gente de muita sorte, conseguimos retornar e começar tudo de novo. o eterno recomeçar. somos gente. e gente teimosa. paro um instante, reviro para um lado e outro, todos brincam nas máquinas sedutoras do mundo da computação. me pergunto se não somos gente de muito azar porque precisamos voltar. por isso re-morri, não desisto. sou uma aluna insistentemente prolongada. o que têm para nos oferecer são repetições de erros antigos? as mesmas tentativas sem convicção? afinal, quem mudou mais, a escola ou essa gentinha de sorte? azar? esperança? quero gritar. eu não sei! preciso viver e ser feliz. em minha ideia de vida, não me queixo e nem deixo de me re-viver. tento conquistar aquele homem com quem quero sonhar todas as noites e que não consigo tocar. tenho medo. nem lembrar, nem reconhecer. sei que existe esse homem amoroso, delicado, respeitador. ele me surge em sonhos que me queimam a pele, me fazem suar jogada de costas na cama. olhando meu teto sem cor, as marcas de podre e o cheiro de mofo. estou ali, gemendo e cavoucando. não importa, quero-o comigo sentindo seu cheiro de amor por mim, suas marcas da vontade dura pulsando, me fazendo viver aos pulos de chegar correndo e abraçar um amor, pelo menos uma vez. vida sem jeito que levo. eu quero me fazer acreditar que este homem virá, chegará de susto, de repente

Pra quê vai servir... Eu não sei lê. os guris não entendem porque ela não é parecidinha com as gostosonas da televisão. os chinelos não são havaianos, são falsos
 



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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Federico García Lorca (España)

Los Poetas del Amor (32)



Ciudad sin sueño


No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie. 
No duerme nadie. 
Las criaturas de la luna huelen y rondan sus cabañas. 
Vendrán las iguanas vivas a morder a los hombres que no sueñan 
y el que huye con el corazón roto encontrará por las esquinas 
al increíble cocodrilo quieto bajo la tierna protesta de los astros. 

No duerme nadie por el mundo. Nadie, nadie. 
No duerme nadie. 
Hay un muerto en el cementerio más lejano 
que se queja tres años 
porque tiene un paisaje seco en la rodilla; 
y el niño que enterraron esta mañana lloraba tanto 
que hubo necesidad de llamar a los perros para que callase. 

No es sueño la vida. ¡Alerta! ¡Alerta! ¡Alerta! 
Nos caemos por las escaleras para comer la tierra húmeda 
o subimos al filo de la nieve con el coro de las dalias muertas. 
Pero no hay olvido, ni sueño: 
carne viva. Los besos atan las bocas 
en una maraña de venas recientes 
y al que le duele su dolor le dolerá sin descanso 
y al que teme la muerte la llevará sobre sus hombros. 

Un día 
los caballos vivirán en las tabernas 
y las hormigas furiosas 
atacarán los cielos amarillos que se refugian en los ojos de las vacas. 

Otro día 
veremos la resurrección de las mariposas disecadas 
y aún andando por un paisaje de esponjas grises y barcos mudos 
veremos brillar nuestro anillo y manar rosas de nuestra lengua. 
¡Alerta! ¡Alerta! ¡Alerta! 
A los que guardan todavía huellas de zarpa y aguacero, 
a aquel muchacho que llora porque no sabe la invención del puente 
o a aquel muerto que ya no tiene más que la cabeza y un zapato, 
hay que llevarlos al muro donde iguanas y sierpes esperan, 
donde espera la dentadura del oso, 
donde espera la mano momificada del niño 
y la piel del camello se eriza con un violento escalofrío azul. 

No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie. 
No duerme nadie. 
Pero si alguien cierra los ojos, 
¡azotadlo, hijos míos, azotadlo! 

Haya un panorama de ojos abiertos 
y amargas llagas encendidas. 

No duerme nadie por el mundo. Nadie, nadie. 
Ya lo he dicho. 
No duerme nadie. 
Pero si alguien tiene por la noche exceso de musgo en las sienes, 
abrid los escotillones para que vea bajo la luna 
las copas falsas, el veneno y la calavera de los teatros.







José Martí (Cuba)



Cultivo Una Rosa Blanca



Cultivo una rosa blanca
en junio como en enero
para el amigo sincero
que me da su mano franca.

Y para el cruel que me arranca
el corazón con que vivo,
cardo ni ortiga cultivo;
cultivo la rosa blanca.






Mario Benedetti (Uruguay)



No Te Salves



No te quedes inmóvil 
al borde del camino 
no congeles el júbilo 
no quieras con desgana 
no te salves ahora 
ni nunca 
no te salves 
no te llenes de calma 
no reserves del mundo 
sólo un rincón tranquilo 
no dejes caer los párpados 
pesados como juicios 
no te quedes sin labios 
no te duermas sin sueño 
no te pienses sin sangre 
no te juzgues sin tiempo 

pero si 
pese a todo 
no puedes evitarlo 
y congelas el júbilo 
y quieres con desgana 
y te salvas ahora 
y te llenas de calma 
y reservas del mundo 
sólo un rincón tranquilo 
y dejas caer los párpados 
pesados como juicios 
y te secas sin labios 
y te duermes sin sueño 
y te piensas sin sangre 
y te juzgas sin tiempo 
y te quedas inmóvil 
al borde del camino 
y te salvas 
entonces 
no te quedes conmigo.





O que foi feito da vida, O que foi feito do amor

Elis Regina e Milton Nascimento - 1978






O que foi feito, amigo,
De tudo que a gente sonhou
O que foi feito da vida,
O que foi feito do amor
Quisera encontrar aquele verso menino
Que escrevi há tantos anos atrás
Falo assim sem saudade,
Falo assim por saber
Se muito vale o já feito,
Mas vale o que será
Mas vale o que será
E o que foi feito é preciso
Conhecer para melhor prosseguir
Falo assim sem tristeza,
Falo por acreditar
Que é cobrando o que fomos
Que nós iremos crescer
Nós iremos crescer,
Outros outubros virão
Outras manhãs, plenas de sol e de luz
Alertem todos alarmas
Que o homem que eu era voltou
A tribo toda reunida,
Ração dividida ao sol
E nossa vera cruz,
Quando o descanso era luta pelo pão
E aventura sem par
Quando o cansaço era rio
E rio qualquer dava pé
E a cabeça rolava num gira-girar de amor
E até mesmo a fé não era cega nem nada
Era só nuvem no céu e raiz
Hoje essa vida só cabe
Na palma da minha paixão
Devera nunca se acabe,
Abelha fazendo o seu mel
No canto que criei,
Nem vá dormir como pedra e esquecer
O que foi feito de nós








segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Rayuela - Julio Cortázar: Capítulo 3

Capítulo 3


   
El tercer cigarrillo del insomnio se quemaba en la boca de Horacio Oliveira sentado en la cama; una o dos veces había pasado levemente la mano por el pelo de la Maga dormida contra él. Era la madrugada del lunes, habían dejado irse la tarde y la noche del domingo, leyendo, escuchando discos, levantándose alternativamente para calentar café o cebar mate. Al final de un cuarteto de Haydn la Maga se había dormido y Oliveira, sin ganas de seguir escuchando, desenchufó el tocadiscos desde la cama; el disco siguió girando unas pocas vueltas, ya sin que ningún sonido brotara del parlante. No sabía por qué pero esa inercia estúpida lo había hecho pensar en los movimientos aparentemente inútiles de algunos insectos, de algunos niños. No podía dormir, fumaba mirando la ventana abierta, la bohardilla donde a veces un violinista con joroba estudiaba hasta muy tarde. No hacía calor, pero el cuerpo de la Maga le calentaba la pierna y el flanco derecho; se apartó poco a poco, pensó que la noche iba a ser larga.

Se sentía muy bien, como siempre que la Maga y él habían conseguido llegar al final de un encuentro sin chocar y sin exasperarse. Le importaba muy poco la carta de su hermano, rotundo abogado rosarino que producía cuatro pliegos de papel avión acerca de los deberes filiales y ciudadanos malbaratados por Oliveira. La carta era una verdadera delicia y ya la había fijado con scotch tape en la pared para que la saborearan sus amigos. Lo único importante era la confirmación de un envío de dinero por la bolsa negra, que su hermano llamaba delicadamente «el comisionista». Oliveira pensó que podría comprar unos libros que andaba queriendo leer, y que le daría tres mil francos a la Maga para que hiciese lo que le diera la gana, probablemente comprar un elefante de felpa de tamaño casi natural para estupefacción de Rocamadour. Por la mañana tendría que ir a lo del viejo Trouille y ponerle al día la correspondencia con Latinoamérica. Salir, hacer, poner al día, no eran cosas que ayudaran a dormirse. Poner al día, vaya expresión. Hacer. Hacer algo, hacer el bien, hacer pis, hacer tiempo, la acción en todas sus barajas. Pero detrás de toda acción había una protesta, porque todo hacer significaba salir de para llegar a, o mover algo para que estuviera aquí y no allí, o entrar en esa casa en vez de no entrar o entrar en la de al lado, es decir que en todo acto había la admisión de una carencia, de algo no hecho todavía y que era posible hacer, la protesta tácita frente a la continua evidencia de la falta, de la merma, de la parvedad del presente. Creer que la acción podía colmar, o que la suma de las acciones podía realmente equivaler a una vida digna de este nombre, era una ilusión de moralista. Valía más renunciar, porque la renuncia a la acción era la protesta misma y no su máscara. Oliveira encendió otro cigarrillo, y su mínimo hacer lo obligó a sonreírse irónicamente y a tomarse el pelo en el acto mismo. Poco le importaban los análisis superficiales, casi siempre viciados por la distracción y las trampas filológicas. Lo único cierto era el peso en la boca del estómago, la sospecha física de que algo no andaba bien, de que casi nunca había andado bien. No era ni siquiera un problema, sino haberse negado desde temprano a las mentiras colectivas o a la soledad rencorosa del que se pone a estudiar los isótopos radiactivos o la presidencia de Bartolomé Mitre. Si algo había elegido desde joven era no defenderse mediante la rápida y ansiosa acumulación de una «cultura», truco por excelencia de la clase media argentina para hurtar el cuerpo a la realidad nacional y a cualquier otra, y creerse a salvo del vacío que la rodeaba. Tal vez gracias a esa especie de fiaca sistemática, como la definía su camarada Traveler, se había librado de ingresar en ese orden fariseo (en el que militaban muchos amigos suyos, en general de buena fe porque la cosa era posible, había ejemplos), que esquivaba el fondo de los problemas mediante una especialización de cualquier orden, cuyo ejercicio confería irónicamente las más altas ejecutorias de argentinidad. Por lo demás le parecía tramposo y fácil mezclar problemas históricos como el ser argentino o esquimal, con problemas como el de la acción o la renuncia. Había vivido lo suficiente para sospechar eso que, pegado a las narices de cualquiera, se le escapa con la mayor frecuencia: el peso del sujeto en la noción del objeto. La Maga era de las pocas que no olvidaban jamás que la cara de un tipo influía siempre en la idea que pudiera hacerse del comunismo o la civilización cretomicénica, y que la forma de sus manos estaba presente en lo que su dueño pudiera sentir frente a Ghirlandaio o Dostoievski. Por eso Oliveira tendía a admitir que su grupo sanguíneo, el hecho de haber pasado la infancia rodeado de tíos majestuosos, unos amores contrariados en la adolescencia y una facilidad para la astenia podían ser factores de primer orden en su cosmovisión. Era clase media, era porteño, era colegio nacional, y esas cosas no se arreglan así nomás. Lo malo estaba en que a fuerza de temer la excesiva localización de los puntos de vista, había terminado por pesar y hasta aceptar demasiado el sí y el no de todo, a mirar desde el fiel los platillos de la balanza. En París todo le era Buenos Aires y viceversa; en lo más ahincado del amor padecía y acataba la pérdida y el olvido. Actitud perniciosamente cómoda y hasta fácil a poco que se volviera un reflejo y una técnica; la lucidez terrible del paralítico, la ceguera del atleta perfectamente estúpido. Se empieza a andar por la vida con el paso pachorriento del filósofo y del clochard, reduciendo cada vez más los gestos vitales al mero instinto de conservación, al ejercicio de una conciencia más atenta a no dejarse engañar que a aprehender la verdad. Quietismo laico, ataraxia moderada, atenta desatención. Lo importante para Oliveira era asistir sin desmayo al espectáculo de esa parcelación Tupac-Amarú, no incurrir en el pobre egocentrismo (criollicentrismo, suburcentrismo, cultucentrismo, folklocentrismo) que cotidianamente se proclamaba en torno a él bajo todas las formas posibles. A los diez años, una tarde de tíos y pontificantes homilías históricopolíticas a la sombra de unos paraísos, había manifestado tímidamente su primera reacción contra el tan hispanoitaloargentino «¡Se lo digo yo!», acompañado de un puñetazo rotundo que debía servir de ratificación iracunda. Glielo dico io! ¡Se lo digo yo, carajo! Ese yo, había alcanzado a pensar Oliveira, ¿qué valor probatorio tenía? El yo de los grandes, ¿qué omnisciencia conjugaba? A los quince años se había enterado del «sólo sé que no sé nada»; la cicuta concomitante le había parecido inevitable, no se desafía a la gente en esa forma, se lo digo yo. Más tarde le hizo gracia comprobar cómo en las formas superiores de cultura el peso de las autoridades y las influencias, la confianza que dan las buenas lecturas y la inteligencia, producían también su «se lo digo yo» finamente disimulado, incluso para el que lo profería: ahora se sucedían los «siempre he creído», «si de algo estoy seguro», «es evidente que», casi nunca compensados por una apreciación desapasionada del punto de vista opuesto. Como si la especie velara en el individuo para no dejarlo avanzar demasiado por el camino de la tolerancia, la duda inteligente, el vaivén sentimental. En un punto dado nacía el callo, la esclerosis, la definición: o negro o blanco, radical o conservador, homosexual o heterosexual, figurativo o abstracto, San Lorenzo o Boca Juniors, carne o verduras, los negocios o la poesía. Y estaba bien, porque la especie no podía fiarse de tipos como Oliveira; la carta de su hermano era exactamente la expresión de esa repulsa.

«Lo malo de todo esto», pensó, «es que desemboca inevitablemente en el animula vagula blandula. ¿Qué hacer? Con esta pregunta empecé a no dormir. Oblomov, cosa facciamo? Las grandes voces de la Historia instan a la acción: Hamlet, revenge! ¿Nos vengamos, Hamlet, o tranquilamente Chippendale y zapatillas y un buen fuego? El sirio, después de todo, elogió escandalosamente a Marta, es sabido. ¿Das la batalla, Arjuna? No podés negar los valores, rey indeciso. La lucha por la lucha misma, vivir peligrosamente, pensá en Mario el Epicúreo, en Richard Hillary, en Kyo, en T. E. Lawrence... Felices los que eligen, los que aceptan ser elegidos, los hermosos héroes, los hermosos santos, los escapistas perfectos».

Quizá. ¿Por qué no? Pero también podía ser que su punto de vista fuera el de la zorra mirando las uvas. Y también podía ser que tuviese razón, pero una razón mezquina y lamentable, una razón de hormiga contra cigarra. Si la lucidez desembocaba en la inacción, ¿no se volvía sospechosa, no encubría una forma particularmente diabólica de ceguera? La estupidez del héroe militar que salta con el polvorín, Cabral soldado heroico cubriéndose de gloria, insinuaban quizá una supervisión, un instantáneo asomarse a algo absoluto, por fuera de toda conciencia (no se le pide eso a un sargento), frente a lo cual la clarividencia ordinaria, la lucidez de gabinete, de tres de la mañana en la cama y en mitad de un cigarrillo, eran menos eficaces que las de un topo.

Le habló de todo eso a la Maga, que se había despertado y se acurrucaba contra él maullando soñolienta. La Maga abrió los ojos, se quedó pensando.

-Vos no podrías -dijo-. Vos pensás demasiado antes de hacer nada.

-Parto del principio de que la reflexión debe preceder a la acción, bobalina.

-Partís del principio - dijo la Maga-. Qué complicado. Vos sos como un testigo, sos el que va al museo y mira los cuadros. Quiero decir que los cuadros están ahí y vos en el museo, cerca y lejos al mismo tiempo. Yo soy un cuadro, Rocamadour es un cuadro. Etienne es un cuadro, esta pieza es un cuadro. Vos creés que estás en esta pieza pero no estás. Vos estás mirando la pieza, no estás en la pieza.

-Esta chica lo dejaría verde a Santo Tomás - dijo Oliveira.

-¿Por qué Santo Tomás? -dijo la Maga-. ¿Ese idiota que quería ver para creer?

-Sí, querida -dijo Oliveira, pensando que en el fondo la Maga había embocado el verdadero santo. Feliz de ella que podía creer sin ver, que formaba cuerpo con la duración, el continuo de la vida. Feliz de ella que estaba dentro de la pieza, que tenía derecho de ciudad en todo lo que tocaba y convivía, pez río abajo, hoja en el árbol, nube en el cielo, imagen en el poema. Pez, hoja, nube, imagen: exactamente eso, a menos que...


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sábado, 3 de outubro de 2015

Histórias de avoinha: somos um acampamento militar


Ensaio 63B – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar




Sinhô Padre...

aquele chamado manso não deu aviso de importância nem parecia ter risco de nada, mas foi o começo de uma guerra civil. Não é logo, é mais adiante. Mas é inevitável como o vento. Basta conhecer verdadeiramente os homens. Uma luta está se soltando das mãos de homens cautelosos e caindo no colo dos imprudentes. Um vento de matar e morrer. Jovens e velhos. E mulheres de solidão. Esperando homens que jamais voltam. Vestidas de luto escutando o vento. As lágrimas salgando os pés. Depois do seu início e da primeira morte não tem como saber quando acaba nem como termina. Não tem como saber o que voltará. Não é uma brincadeira. Todos sabemos que teremos muitas lágrimas para cada desaparecido do corpo presente. A cancha da luta receberá o nome de campo sagrado. Hipocrisia. Um campo de simulação, traição e desesperança. É o lugar da maldade vestida de enganação. Declamaremos versos das mortes de homens esfarrapados com a dignidade de cavaleiros. Mortes honradas. Destroços perambulando sobre escombros humanos. Vidas que não honramos. Pedaços arrancados de viúvas e filhos que nunca nascerão. E a solidão do luto apodrece e fede para sempre no campo sagrado da morte com honra. Homens que não voltam porque desmancham no campo da honra. O campo da morte. Não tem conversação. O lugar-comum de matar quem está pela frente. Em nome da honra sem dó nem piedade. Resigne-se e mate. Não fuja. Amoleça e morra. Não corra. Cortar. Furar. Acertar. Enfiar. Afogar a terra com o sangue derramado do inimigo. Lanças. Adagas. Canhões. Espadas. Bodes estraçalhados. Esfarrapados. O silêncio da morte. A conversa dos corvos com a carne desarranjada. Estragando. Arranque-se a língua do poeta que canta a honra de quem arranca os pedaços que jamais voltam. A guerra é macabra. O ódio é macilento. A raiva é ensinada pela má-criação

Sim...

quando o sinhô respondeu não sabia que essa maldição descontrolada de matar e morrer estava começando. Afinal, o seu trabalho de lugar-tenente é nos convencer que é melhor rezar. É bom rezar. É importante rezar. Quisera que as palavras evocadas ou sussurradas nas rezas fossem de agradecimento. Ao falar, porém, o seu rebanho mostra uma prática oposta. Egoísta. Enfadonha de tão egoísta. Astutos. As loucuras fortificam, aqui e ali, dobram com ódio e medo as resistências prudentes das pessoas. O egoísmo e a ganância  soltam suas amarras do bom senso, perambulam de mãos dadas na villa. Companheirismo de adesão entre os compadres que saem juntos para matar. A vida de um depende da vida do outro. O noticiarista apenas fez soar o alarme com aquela pergunta despretenciosa

O que o sinhô tem para nos dizer sobre o imposto em benefício da igreja?

pronto, foi dado o alarme. O sinhô não conseguiu responder. Não lhe deixaram. Mas deu para perceber o seu aborrecimento. As assombrações e os caprichos escondidos na loja da irmandade se libertaram. Os logistas explodiam como balões de xingamentos. Infelizes. Descuidados. Arrogantes. Insensatos. Gritavam e mostravam as palavras gritadas com o gosto frio do ódio e da raiva aprendida. Pena que a solidariedade em cima da carreta, na paleteada, no jogo de bocha, na roda de chimarrão não é coisa de bacuri. Jogo do osso. É de pequeno que se entorta o pepino

Outro imposto, não!

no meu feitio de ver, o sinhô estava do lado certo, o lado de construir a obra santa. E com o dinheiro dos fiéis. Acho justo. Eis um princípio excelente. Ser justo. Justiça justa.  A justiça é justa e respeitada quando é para todos. Mas nós sabemos que a justiça depende mais da pólvora do que dos livros. Até que o sinhô tentou esclarecer com um entendimento amistoso. O defeito nessa hora foi a sua fala mais mansa que a oportunidade do esclarecimento. O sinhô demorou para endurecer a voz

Esse imposto não é em benefício da igreja. É para a construção da nova igreja. É em benefício dos cordeiros de Deus. A pergunta do Noticiarista não foi bem formulada. Não sei qual foi a sua intenção. Não é ajuda que vai ficar para sempre, termina com o acabamento da obra. E faço questão do consentimento de vosmecês.

as palavras do sinhô não foram ouvidas, os bodes continuavam cheios de condenação e azedume. Bode é bode e cordeiro é cordeiro. Não era conversa, mas uma desconversa penosa que precisa ser recuperada. Confesso ao sinhô que duvidei da sua competência para lidar com o estouro da tertúlia de bodes

Nada temos contra a igreja, mas mais imposto, não!

não falavam com bondade, a lógica da irmandade se recusa acabar com a fome ou subir as paredes da obra com seu dinheiro. Tanto faz se tem ou não fome na villa. Não tem diferença. o seu discurso intimida. Abominam qualquer conta a ser paga se não for em interesse próprio

Não será aprovado pela Irmandade! Não passa! É injustificável!

zumbiam

Não queremos outra igreja. As famílias de respeito e boa índole da Villa já têm a sua igreja. Cobre dessa gentalha comum e sem gosto. Faça essa sua outra igreja com o dinheiro deles.

zelavam

Ou faça mais horários de missa. Reze mais missas!

zoavam

Isso, a vereança pode votar uma lei estabelecendo os novos atendimentos e quem pode comparecer nos horários aprovados.

a lógica da bondade sem gritos

Mais imposto, nunca!

o mais exaltado engasgou. Foi socorrido pelo sinhô, o padre lembra? Um bom tapa e duas sacudidas. Caso o sinhô padre não se zangue, gostaria de saber se aquele tapa nas costas foi de salvação ou acusação

Chega chega, obrigado obrigado. Lutaremos até à morte! Não é pessoal, sinhô Padre.

mentira de homens e mulheres que lutam até à morte sem poupar vidas. É pessoal, sim. Hienas rondam em bando a carniça, disputam como abutres o despojo da luta. É pessoal e coerente com a prática do palavreado dos bodes

Não iremos pagar essa conta! Chega!

mais fingimento, nunca pagamos ou pagaremos conta alguma. Mas sempre impuseram suas condições. Eu também

Calma, sinhô Duque dos Moinhos de Vento.

Qual é o seu limite, Padre?

bem, chegou a hora do acusado falar. O sinhô foi chamado. E precisou sair debaixo do vestido de viúvo para o bem ou para o mal dos gritos. Até que o sinhô tentou, mas o seu aliado não se apresentou. Acho que a ideia é quanto menos conhecerem o seu Comandante melhor rezam

Que Deus abençoe a vida de todos. E que essa conta a mais seja o instrumento para o milagre de Deus nas vossas vidas. Não olheis para o dinheiro como um fim, mas a oportunidade da manifestação da Glória de Deus!

cada um com as suas armas, o seu deserto e os seus costumes. A sua digestão é o que vosmecê come ou reza

Chega!

Cuidado, sinhô Duque...

o padre não parecia menos disposto para as conversas, mas acho que acertou quando subiu o tom das palavras, tem vez que o palavreado precisa ser carregado com dureza, Não desagradeça ao Sinhô Deus, ele continua fazendo parte da Villa, cuidando de todos que amamos.

os rostos amáveis da degola do bode desapareceram, o duque moinhos de vento subiu ainda mais o tom da desconversa, os dentes rangiam, achei que fosse precisar dos seus tapas nas costas, O quê? Ameaçais todos aqui? Nossas famílias foram ameaçadas?

sem um passo atrás, o sinhô reafirmou as regras e as vontades divinas, A Igreja é Deus e enquanto viveres da Casa de Deus obedecerás as regras de Deus. Quando tiveres tua própria casa estabelecerás tuas próprias leis. Na Casa de Deus não governa o Imperador nem o Governador Presidente da Província. Somos irmãos pela graça de Deus e seu Filho que morreu na cruz para nossa salvação. Eu aceitei o seu chamado e o privilégio da árdua tarefa de conduzir o seu rebanho de ovelhas...

Bodes, sinhô Padre. Rebanho de bodes!

Como queriam. Eu aceitei o privilégio e a tarefa de conduzir os bodes do Sinhô, através deste mundo imundo de pecados e despudor hipócrita. Adquiri assim, as obrigações de pai em nome do nosso único Deus. Não posso ser amigo e complascente nem posso me permitir conversa de comadre ou de jogar fora, ou de pescador, ou fiada, ou mole para boi dormir, ou aquela conversa do tipo que vai e vem, ou com as paredes, ou com a garrafa, muito menos com o travesseiro, sou o pai em nome do Pai Filho e Espírito Santo. E isso é mais importante que ser amigo. Só temos um Deus, amigos podemos ter muitos. Mas Deus é um só. Na casa do pai se faz o que o pai diz, não contestamos nem disputamos sua autoridade porque tudo que eu mando, não sou eu, mas o amor do Deus que é Pai. Poderá ser difícil para vocês, mas assim será. Acreditem na misericórdia e na palavra de Deus. Confiem no seu amor.

o sinhô retomou o seu poder, pelo menos, parte dele. O magistrado tomou a palavra antes que a temática fosse além da trama aceitável, o sinhô tava com empolgação de pai de tudo. Ele precisava lhe colocar um freio e fez uma generalização, não podia lhe esvaziar da política. Mas precisava lembrar a favor de quem e do quê, portanto, contra quem e contra o quê precisamos lutar e rezar, Cavalheiros! Sinhô Padre! Quero lembrar que estamos reunidos para a cerimônia do batismo de mais um bode. E ele já está no meio de nós. Rejubilemos, nós que lutamos ao lado da benquerença. E parem com o descaso e o desrespeito para conversarmos sobre os donativos da nossa igreja. Não é admissível que nossa Villa não tenha outra Casa de Deus com o porte da nossa matriz. Diga-se, a bem da verdade, ela já não comporta todos na domingueira. Não gostaria de lembrar, mas é bom não esquecermos que já tivemos caso de muito desconforto com a falta de assentos reservados para alguns vereadores da Câmara. Mui gente, mui misturança. Vamos convencer os outros das nossas evidentes boas intenções. O Perjuro e o Noticiarista ficarão encarregados da campanha dos esclarecimentos. Afinal, não é essa a função informativa do Noticiarista com o seu pequeno impresso O Realista? Ele é pago por esta associação para informar e convencer a gente valorosa da Villa sobre as nossas boas intenções. Ideias e sentimentos em que todos precisam acreditar e defender e agir em nosso nome. Não esqueçam que a história que existe e importa são os acontecimentos que construímos pela nossa continuidade. Nossas crianças precisam da nossa verdade e o reconhecimento do óbvio, somos a intenção de quem tem o poder.

o pensamento sai e volta a esmo, às vezes é puxado pelo acaso, outras é empurrado sem rumo, encilhado nas águas do lembramento sem fim. É da vida que as coisas da vida sejam com animação ou assombração. As coisas da morte não têm lembrança. Os espíritos não têm lembrança, eles são as lembranças. Não é fácil saber quando destoamos das lembranças. É mais fácil quando a mentira se torna verdade. Procuro evitar a monotonia de escutar e falar as mesmas coisas. Embrabecido. Gosto de negociar. O padre gosta de vigiar e perdoar. É bom variar a coleção de cura com as lembranças dos espíritos. Eles podem ser amparo ou cachaça, nossa dominação está nisso

O quê o Pensavento escuta tão parado com as vistas no rio?

o aconseiadô acordô das preocupação, ele tava com o siô padre na frente e dentro da caixa dos pensamento, voava nas lembrança da reunião da irmandade na otra noite: como as borboleta voa na flô do jardim enflorado com munta cô e perfume. Esvoando. As lembrança indo e voltando

Muito barulho, sinhô Padre. Esse ofício de aconselhador me trás a obrigação de lembrar das conversas e acordos feitos, bem como, saber das outras confabulações escondidas. Traições. Muitas vezes me falta audição, mas não posso me entregar como se não houvesse o depois.

Sempre temos o depois, meu amigo. Entendo a sua preocupação. Temos ofícios parecidos. Mesmo quando o antes não existe mais, não posso esquecer que existiu. O pecado sempre me chega no passado. Algo que existiu e pode continuar nas conversas do pensamento com bisbilhotice, sem compromisso, com exagero, bazófia, entediante, sem solução final, embriagado, para si mesmo, poucos procuram refletir melhor pesando sua responsabilidade. Sem o medo temos a corrupção das boas intenções, o pecado vem antes da mordida

Ele é premeditado como uma técnica? Podemos reconhecer, à primeira vista?

Todos somos culpados.

os dois continuava parado nas borda das água, elas vinha e ia, nunca desistia de chegá e partí. Uma depois a otra. As veiz braba, otras mansa, Padre, somos bons em matar. E não queremos morrer. Somos melhores em embolsar do que oferecer. Quem somos, afinal?

Egoístas, meu amigo. Humanos sem humanidade. Ainda precisamos conceber nossa humanidade. Tudo o que oferecemos só o fazemos porque desejamos a recompensa.

E quando o outro nada tem além da vida para nos oferecer?

Ele paga com a vida. Pegamos o que dizemos que nos pertence. E quase sempre não nos pertence. A vida do outro não nos pertence. Ela pertence à Deus. Somos a indiferença com as mãos nos bolsos. Ordenamos grandes ordens inúteis. Testamos a obediência.

o siô é santo
no reino do pai
o siô é santo
da virgi santa
no reino do pai
o fiô é santo
o defunto da maria
depois de morto
o espritu subido
rei seria

a última renião da irmandade não foi um bom sinal, o padre deve lembrar dos acontecimentos. Os estancieiros do charque e do couro não conseguiam acerto de qualidade com o governo imperial. Os mandantes da villa estávamos reunidos para concentração nos trabalhos de governança. Já era coisa passada a festa para receber com braços abertos o conde da hora e o seu compromisso de bode com as coisas de comportamento e modos de educação dos associados e irmãos. Todos da mesma raça: bode é uma raça de bicho de estimação. Festa concorrida e regada com sangue de bode e vinho. Eu prefiro vinho, o padre também. Beber sangue é coisa de filho-da-puta! Desculpe, padre

os associados estabelecemos e ajeitamos as leis que não andam ou não dão muito certo. O padre sabe dos cuidados para fazermos leis novas. Temos leis que estão adiante dos costumes, não é lá muita coisa, e mesmo assim foi coisa aborrascada de mexer. Não são muitas. Na maioria dos casos, os costumes estão adiante das leis. Coisa mais braba de alterar. O padre sabe que em muitos casos o tamanho dos passos não pode ser maior que o comprimento das pernas nem menor que o jeito de andar. Precisa ter a justeza da necessidade dos associados. Tudo sem muita novidade. Quanto menos mexemos, melhor

a notícia nova foi o batizado desse rapaz, o tal da hora acertou um belo tiro. Foi feito conde pelo casamento com aquela mocinha, filha do conde antão, sinhá casta. Herdeira das terras da fazenda humaitá. Deitar na cama da moça deu ao rapaz posição de prestígio na villa. Assim, ele ganhou também o lugar do conde antão na confraria da paz, sossego e harmonia. A confraria é a villa que é a confraria. O que uma quer a outra também quer, o que uma não quer a outra também não quer. Foi preciso levar mais de uma ano bem cheio, desde a morte do velho antão, mas o rapaz foi chamado para ocupar o lugar do conde humaitá. A morte pega tudo e pegou o antigo posseiro das terras do caminho novo nas margens do rio. O conde antão foi o único dos grileiros da nossa serventia que acreditou naquele banhado. O padre lembra das palavras dele, terra é terra pouco importa se com muita ou pouca água. A dona casta esperou mais que o tempo do luto, depois precisou convencer o padre que o marido era homem mui leal e valoroso, o padre lembra

O amigo Pensavento está se referindo aos donativos para nossa igreja?

Se o Padre diz...

Pensavento, doação é doação, não posso virar as costas. A igreja e a Villa precisam de homens e mulheres de muita fé, desapegados da ganância e dementes de Deus.

Prontos para servirem do contrário de serem servidos: as suas palavras na domingueira.

Foi o que disse, um homem com gosto de servir sem a vontade de se servir das riquezas da Villa.

Essas mesmas palavras o Padre repetiu na domingueira seguinte, na outra seguinte, até que aconteceu o reconhecimento que faltava para o rapaz.

Pensavento, o que está dito está feito.

depois veio o batizado. O bode degolado. O sangue. O vinho. Os juramentos. E a reunião seguiu para frente, era preciso obedecer a ordem do dia. Eu entendo. Tinha os assuntos dos calçamentos, a discussão da iluminação pública, a distribuição do chão para as casas na volta da rua dos pecados, as despesas de lenha e alimentação, a nomeação do tabelião do público, judicial e notas, a abertura de um caminho para as tropas de animais, Só acho que é muita miudeza para a Irmandade examinar ou essas doações estão comprando mais que umas terrinhas no Paraíso?

O amigo Pensavento deve saber, depois que a capela-mor da igreja e os anexos consistórios foram construídos, a imagem da Nossa Senhora foi transladada para a novíssima capela. Uma cerimônia linda com acompanhamento de tropa e procissão. Passaram-se os anos e muito pouco da obra foi além. Instalou-se a Prisão Militar, recebemos a visita pastoral do bispo do Rio de Janeiro, um terreno foi doado para a construção da igreja do Rosário, ali na rua da Bandeira. E veja, a pedra fundamental já foi lançada enquanto a nossa obra avança muito pouco.

Sinhô Padre, uma saída pode ser o aumento de 20 réis da aguardente fabricada ou ampliar um tributo de 20 réis sobre cada alqueire de farinha de mandioca.

Ou os dois, Pensavento.

Pode que sim, pode que não seja preciso.

Meu amigo, vamos caminhar pelo trapiche.

o embarque e o desembarque das mercadorias tinha movimento abundante e animado. A gritaria do comércio dava cobertura para nossa conversa, Belíssima ponte d’alfândega.

Obra-prima. Não há outra em todo esse lado das águas que nos separam e protegem da Corte Portuguesa com suas vontades de continuar a nos subjulgar.

Vinte e quatro pilares de cantaria pelo rio adentro.

Isso mesmo. Um avanço para o desembarque tanto de iates e sumacas com uma carreira de 325 palmos de comprido e 30 de largo.

Sem dúvida, uma bela obra defronte da Casa d’Alfândega.

O amigo acredita que a vereança aprova o aumento destes tributos?

parei meus passos, um negro com um saco de açúcar nas costas me obrigou a parar. O padre parou-se também

É coisa que se ajeita. É uma pena que não temos sol em abundância nas terras da beirada do mar. É uma lástima que não construímos nossos engenhos nem plantamos nossa cana-de-açúcar. Negros temos em abundância.

Pensavento, essa não é a vocação desta terra. Não maltratamos nossos negros. Nos basta os negócios com o charque, o couro e o contrabando de gado.

E a guerra!

É o preço da violência contra os espanhóis.

Isso é assim mesmo, Padre. A apropriação da terra pelos particulares mediante o saque e a violência. Essas disputas e impugnações em torno da posse de Sacramento e das Missões. Danem-se esses castelhanos!

A consequência disto é uma terra em permanete estado de alerta com muitas forças irregulares.

o sol já estava amanhecido e aquecia além do agradável. Já se parecia como um defeito

Na verdade, o amigo sabe que o governo central aprecia esses estancieiros e seus homens. São nossas primeiras tropas de linha. Prontas para soarem o alarme de alguma invasão castelhana.

É isso, somos um acampamento militar. Além das terras que lhes é concedida, os estancieiros ocupam cargos de chefe e guardas da fronteira.

Esse é um arranjo perigoso.

O Governador sabe que os estancieiros têm exercido esse poder, na maior parte das vezes, em defesa de seus interesses particulares. É preciso constantemente contornar o choque com a autoridade dos comandantes militares que defendem os interesses do governo central na Província.


É o começo de uma guerra civil.


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