sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Liniker: Desmonta o desamor Remonta o amor

Manos e Minas





Desmonta o desamor Remonta o amor










aqui já se mata em nome de Deus!





o Baile da negada com mais de 120 anos! começou nos quilombos porque tinha outro baile em que os pretos não podiam entrar. uma semana de baile. 120 anos de resistência






Lina X


A personalidade dela era um tanto dividida
Parece poliana
Querendo um "quê" de frida
Queria a parte outra da metade
O todo, o tudo, a casualidade
Iih, iih

A personalidade dela era um tanto dividida
Parece poliana
Querendo um "quê" de frida
Queria a parte outra da metade
O todo, o tudo, a casualidade
Iih, iih

A personalidade dela era um tanto dividida
Parece poliana
Querendo um "quê" de frida
Queria a parte outra da metade
O todo, o tudo, a casualidade
Iih, iih

Onde é que tá
Aquela estante amarela
Onde foi parar
Rimei
Versos pra depois
Pra levar, na rua lá do boulevard

Onde é que tá
Aquela estante amarela
Onde foi parar
Rimei
Versos pra depois
Pra levar, na rua lá do boulevard

Até pensa em vir
Mas se calhar
É só parar pra, vir
E mais de mim
Tem mais aqui
(uuhh...)

Oohh





Gente Pobre - 04. Não tem vergonha - Dostoiévski

Fiódor Dostoiévski


04.




9 de abril


Prezado Makar Alexeievitch


Não tem vergonha, meu bom amigo e protetor, de albergar no seu cérebro tais ideias? Sente-se deveras ofendido? Ai! Sou, por vezes, tão irrefletida nas minhas apreciações! Mas desta, pode crer, nem sequer pensei que o senhor pudesse ver nas minhas palavras tom de zombaria. Fique certo de que nunca seria capaz de brincar com a sua idade ou o seu caráter. A culpada de tudo foi a minha cabecinha oca, ou, para melhor dizer, o facto de me aborrecer horrivelmente... E quando o tédio se apossa de nós, de que não somos capazes para conseguirmos combatê-lo? 

Para lhe falar com franqueza, ao ler a sua carta pareceu-me também ver nela um tonzinho de brincadeira; mas agora sinto-me deveras penalizada ao pensar que o senhor estará zangado comigo. Não, meu leal amigo e protetor, será injusto se me julgar, por um momento que seja, insensível e ingrata. Sei apreciar bem tudo o que fez por mim, protegendo-me do ódio e da perseguição de homens abomináveis. hei de sempre pedir a Deus por si, e se Ele ouvir as minhas orações, o senhor será absolutamente feliz. 

Estou hoje muito doente. Ora sinto arrepios de frio, ora um calor que parece abrasar-me, e Fédora mostra-se inquieta com o meu estado. Quanto aos escrúpulos que demonstra em visitar-me, julgo-os destituídos de fundamento. Que importam os outros? O senhor é nosso amigo, e é quanto basta. 

Adeus, Makar Alexeievitch. Não tenho mais que lhe escrever, e mesmo não me seria possível prosseguir; estou muito doente. Mais uma vez lhe peço que não se zangue comigo e creia no respeito e afeto inalteráveis da sua dedicada e agradecida.



Bárbara Dobresselof





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Esse é o tipo de livro que modifica algo na gente. “Pobre gente” foi o primeiro romance de Dostoievski, começou a escrever em 1844 e terminou no ano seguinte. O personagem Makar Dévushkin, um auxiliar administrativo que leva trinta anos copiando documentos, mora numa pensão humilde, seu pequeno quarto fica ao lado da cozinha, é o que pode pagar com o seu salário também minúsculo. O frio e a frieza de uma sociedade que ignora os pobres. Crítica social contundente, comendo pelas beiradas narrativas. Segundo alguns historiadores, uma das obras que mandou o autor para a cadeia siberiana. Eram os 25 anos de um gênio então já se apurando na escrita, despertando assim, para sentir seu tempo e as humilhações da época, desesperos; um olhar sobre todas as coisas da sofrida gente. Triste narrativa pungente da condição humana em torno desses dois personagens, como vítimas de fatalidades da vida numa sociedade onde poucos conseguem realmente sair do ramerão, e onde muitos se movem numa crueldade austera entre si, forçada pelas inóspitas condições em que vivem. Makar e Varenka vivem um amor idílico ensombrado pelo que os circunda (Makar é muito mais velho que Varenka), agravando as suas próprias condições a um nível desesperador e quase doentio, mas sempre com alguma perspectiva de esperança fundadas em ilusões muitas das vezes patéticas, algo falsamente ingênuas, ilustrativas, no entanto, ao alcance do coração humano que tudo pode sonhar, sem se importar com as verdadeiras condições em que se encontra, principalmente nessas condições por assim dizer desprezíveis.


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Fiódor Dostoiévski
GENTE POBRE
Título original: Bednye Lyudi (1846)
Tradução anônima 2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com


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Leia também:

Gente Pobre - 03. Pensar, meu amor, que um dia - Dostoiévski




quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O Brasil nação - v1: § 23 – Moderados: conservadores; exaltados: republicanos... - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim



O Brasil nação volume 1





PRIMEIRA PARTE
SEQUÊNCIAS HISTÓRICAS



capítulo 3
o novo malogro






§ 23 – Moderados: conservadores; exaltados: republicanos... 




Os moderados insistiam em que as reformas exigidas pelos revolucionários fossem feitas legalmente... E como procediam?... “Na Câmara dos deputados, uma ou outra voz se ouvia, pedindo reformas imediatas na constituição, para que cessasse o descontentamento público; alguns oradores declararam, porém, que se deviam primeiro que tudo votar as medidas salvadoras contra os facciosos...”106  Aí está: escamotearam a revolução, e atendiam ao descontentamento público, com medidas de garrote contra os exaltados, ao mesmo tempo que os infamavam tratando-os de facciosos e desordeiros. Não tinham coragem de proclamar-se contra as reformas exigidas pela nação, mas limitavam-se a contemporizar, confiantes de que o senado dos marqueses jamais concordaria com elas.107  O projeto de reforma da constituição, adotado pela Câmara dos deputados, consigna as modificações mais reclamadas; foi enviado ao Senado somente em outubro de 1831, e, ali, foi rejeitado em todas as suas disposições substanciais. O projeto preparado (veremos depois) por ocasião do projetado golpe de Estado, de julho de 1832, consigna essas mesmas reformas...108  Mas tudo se frustrou, porque poucos sinceros e liberais, entre os moderados, estavam inteiramente inibidos pelo mesmo moderatismo. Eram os Feijó, Vergueiro, Lino Coutinho, Martiniano de Alencar... tão empenhados em dar à nação as reformas reclamadas, como em apresentarem-se escoimados da pecha de exaltados e radicais... Pretendiam, antes de tudo, a qualidade de homens de governo, mantenedores da ordem... Daí, o tom veemente e os excessos da luta entre eles e os exaltados, quando não os separava, aparentemente, nenhum programa de ideias. Por isso mesmo, na organização dos esforços, uns e outros organizaram-se em sociedades políticas privadas: os moderados, na sua Sociedade Defensora da Independência, os exaltados no seu Club Federal. Apesar do vazio do primeiro dos títulos, são, 


106 Ibidem, caps. I, II, III. 

107 Bernardo de Vasconcelos confessou, em 1839, que era contra as reformas; transigiu porque era preciso... 


108 A reforma preparada para o golpe de Estado trazia como título – Constituição reformada segundo os votos e as necessidades da nação.


ambos, nimiamente expressivos: os moderados, instintivamente conservadores, apegavam-se, assim, ao que estava feito, e que eles defendiam como se fora em proveito próprio; os outros pediam, desde logo, uma reforma radical – a federação, e, tanto vale dizer – a república. 

É indispensável insistir, ainda, nesses pormenores das lutas de então, porque daí vai sair o quebrantamento do espírito público, e a subsequente degradação da política, do Brasil soberano. Uma nação não pode ser contrariada nas suas aspirações mais vivas, como aconteceu ao Brasil de 1831, sofrendo formalmente no desenvolvimento das suas tradições essenciais, sem que se lhe suplantem as suas energias primeiras, gastas em desilusões, sem que se lhe desnature o caráter, abatido, diluído em covardia, indiferença, ceticismo... Contudo, antes de se deixar anular, a fração radical e exaltada, de 1831-34, deu repetidos esforços, sempre empenhada em realizar um regime democraticamente brasileiro. Os seus últimos espasmos, estorcer de membros distantes, vão até 1942... 48... Vimos que a luta contra o Império foi aberta, desde logo, pelos que falavam em nome de ideais republicanos e federalistas. Numa política representada exclusivamente pelos brasileiros de D. João XI, abatidos os Andradas, reduzidos os liberais de Ledo à pura expressão – José Clemente, parecia a nação brasileira abandonada de todo ideal, no sentido das tradições de 1817. É quando, incontinenti, ressurge Pernambuco. Foi vencida a Confederação do Equador, mas estava dado o alarma, e o sangue dos seus vinte e cinco mártires descolou completamente o Império de Pedro I. Assim como o tratado de reconhecimento, a ferocidade contra os patriotas pernambucanos deu as razões para o primeiro ataque, a que se seguiram outros, que não mais cessaram. E quando veio a Assembleia de 1826, já achou a nação acesa contra o bragantismo. Por isso mesmo, encontrando-a com uma ação política encaminhada, ostensiva e vigorosa pelo apoio da opinião nacional, os futuros moderados foram para ela; por isso mesmo, o primeiro golpe desses moderados foi contra os antigos companheiros que lhes tinham dado a vitória, esses exaltados, praticamente propagandistas da eliminação do Império. Apesar disto, em 1831-32, ainda são eles os mais potentes sobre a opinião pública. Tinham, só no Rio de Janeiro, além do seu clube, os jornais: Luz Brasileira, Exaltado, Jurujuba, a Bússola; em Pernambuco: a Sentinela, o Eco da Liberdade; na Bahia, o Observador... Como nomes, destacam-se, constantes na ação: os Franças, da Bahia, May, na imprensa do Rio de Janeiro, Castro Alvares, Paes de Andrade, Borges da Fonseca, Frias de Vasconcelos e o irmão... Essas criaturas, conduzindo as ondas de sinceros revolucionários, levantaram o pendão das reivindicações nacionais, e só o deixaram cair quando já não havia motivo para esperança e ilusões. Desde que reconheceram o logro, de que fora vítima a nação colhida pelos moderados, tentaram obrigá-los a cumprir as promessas de revolução. Note-se bem: os repetidos levantes, dos dois primeiros anos da Regência, não foram, como noutras partes da América Latina, golpes de caudilhagem para galgar o poder, mas movimentos armados para completar a revolução, e dar verdade às palavras com que haviam levado a nação a revoltar-se contra o Império. 

O primeiro movimento sério dos exaltados é logo a 15 de julho de 1831. Vejamo-lo, nas próprias palavras dos endeusadores dos moderados, quanto era ele lógico e necessário:


... por entre bastas mangas de revoltados se fazia uma representação à assembleia geral dos representantes da nação, exigindo a demissão dos ministros de Estado (que haviam sido ministros de Pedro I), a promulgação imediata de reformas constitucionais no sentido francamente liberal (que Feijó quis fazer com o golpe de Estado de 2 de julho); suspensão dos funcionários de categoria elevada nascidos em Portugal, a deportação de cerca de cem cidadãos, pertencentes ao... e ao senado... e a proibição de emigração portuguesa por espaço de dez anos... A representação fora remetida à Regência para ser presente à assembleia geral, coberta de mais de quinhentas assinaturas.109

Não poderia haver amotinados e desordeiros mais mansos e legalistas que esses. Que é que há de insólito nos seus reclamos? O afastamento dos agentes do lusitanismo? Mas Drumond, genuíno brasileiro de D. João VI, já havia notado: “nas crises reais, o instinto nacional aponta ao brasileiro o português como causa dos seus desastres...” (Anotações). Por isso mesmo, entre 1823 – 1832 – 1848, era esse o motivo constante nas reivindicações nacionais... E continua a história: vai a representação à Câmara:

... Evaristo e Honório Hermeto a estigmatizaram no fundo e na forma, e proclamaram indigna... Os revoltosos tinham que entregar-se ao merecido castigo. Muitos deputados e senadores abundaram em idênticos pensamentos... Aprovou-se uma proposta declarando que se não atendia à representação... um manifesto aos revoltados... que só eram dignos da liberdade os que em paz usavam dos seus direitos, não cometiam perturbações da ordem pública e nem pretendiam violentar os legítimos representantes da nação.110

Tais os sentimentos, tal a linguagem, três meses depois, nos mesmos homens que se apossaram do governo em virtude da desordem suprema – a coação sobre o chefe da nação!... Nesse dia, estava liquidada a revolução: seria preciso refazê-la, precatadamente,


109 Pereira da Silva, De 1831 a 1840 , pág. 24. 

110 Pereira da Silva De 1831 a 1840 , pág. 25.


numa rigorosa triagem de gentes, para evitar futuros desastres. Não o entenderam assim os ingênuos exaltados, e dissiparam todas as forças em repetir tentativas imediatas. Já os adversários ostensivos da liberdade – o senado e mais restauradores – tinham compreendido a situação, e trataram de arregimentar forças, para dar o combate formal aos desfrutadores do poder; manifestam-se os caramurus, e Pinto Madeira, absolutista da escola e da amizade de Andréa, rebela-se francamente. 

Em face dos restauradores em ação, ainda Evaristo tem ênfase para declamar contra as reivindicações populares, vilipendiando-as como – despotismo em mãos de muitos... E como a vitória ficou para esses moderados e oportunistas, os historiadores do segundo Império, que os continuam, cantam-lhes os méritos e consagram-lhes os serviços. Mais indiferente à verdade e ao bom senso do que o Sr. Pereira da Silva, um Sr. Moreira Azevedo retrata nestas palavras a situação pós 7 de abril:

... o partido exaltado, que queria que as mudanças e todos os melhoramentos fossem feitos já e já... mostrava-se tão veemente quanto precipitado. Arrebatado por inspirações ilegais, por paixões violentas, começou a perturbar a ordem pública, a segurança individual, e travou discussão e luta. Hasteou o estandarte da soberania popular, da resistência ao poder. Devotado à república, desejou estabelecer nova organização política, e clamou pela liberdade, mas não pela ordem. Sem aceitar o termo da revolução, julgou ser preciso solapar e destruir tudo, para reorganizar nova ordem de coisas.111

Pobre história!... Pobre Brasil! com tais consagradores!...


111 Op. cit., pág. 16.




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"Morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."

Cecília Costa Junqueira



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O Brasil nação: vol. I / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 332 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 35).


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Download Acesse:

http://www.fundar.org.br/bbb/index.php/project/o-brasil-nacao-vol-i-manoel-bonfim/


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Leia também:


O Brasil nação - v1: § 22 – A insânia da sensatez - Manoel Bomfim

O Brasil nação - v1: § 24 – E o malogro dá em confusão... - Manoel Bomfim

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

22.O Livro dos Abraços - A cultura do terror/3 - Eduardo Galeano

Eduardo Galeano


22. O Livro dos Abraços



A cultura do terror/3    



Sobre uma menina exemplar: Uma menina brinca com duas bonecas e briga com elas para que fiquem quietas. Ela também parece uma boneca porque é linda e boazinha e porque não incomoda ninguém.

(Do livro Adelante, de J. H. Figueira, que foi livro escolar nas escolas do Uruguai até poucos anos atrás).




A cultura do terror/4


Foi num colégio de padres, em Sevilha. Um menino de nove ou dez anos estava confessando seus pecados pela primeira vez. O menino confessou que tinha roubado caramelos, ou que tinha mentido para a mãe, ou que tinha copiado do colega de classe, ou talvez tenha confessado que tinha se masturbado pensando na prima. Então, da escuridão do confessionário emergiu a mão do padre, que brandia uma cruz de bronze. O padre obrigou o menino a beijar Jesus crucificado, e enquanto batia com a cruz em sua boca, dizia:

Você o matou, você o matou... Júlio Vélez era aquele menino andaluz ajoelhado. Passaram-se muitos anos. Ele nunca pôde arrancar isso da memória.




A cultura do terror/5


Ramona Caraballo foi dada de presente assim que aprendeu a caminhar. Lá por 1950, sendo ainda menina, ela estava como escravazinha numa casa de Montevidéu. Fazia de tudo, a troco de nada. 

Um dia, a avó chegou para visitá-la. Ramona não a conhecia, ou não se lembrava dela. A avó chegou vinda do interior, do campo, muito apressada porque tinha que regressar em seguida. Entrou, deu uma tremenda surra na neta, e foi embora. 

Ramona ficou chorando e sangrando. A avó tinha dito, enquanto erguia o rebenque: — Você não está apanhando por causa do que fez. Está apanhando por causa do que vai fazer.




A cultura do terror/6


Pedro Algorta, advogado, mostrou-me o gordo expediente do assassinato de duas mulheres. O crime duplo tinha sido à faca, no final de 1982, num subúrbio de Montevidéu. 

A acusada, Alma Di Agosto, tinha confessado. Estava presa fazia mais de um ano; e parecia condenada a apodrecer no cárcere o resto da vida. 

Seguindo o costume, os policiais tinham violado e torturado a mulher. Depois de um mês de contínuas surras, tinham arrancado de Alma várias confissões. As confissões não eram muito parecidas entre si, como se ela tivesse cometido o mesmo assassinato de maneiras muito diferentes. Em cada confissão havia personagens diferentes, pitorescos fantasmas sem nome ou domicílio, porque a máquina de dar choques converte qualquer um em fecundo romancista; e em todos os casos a autora demonstrava ter a agilidade de uma atleta olímpica, os músculos de uma forçuda de parque de diversões e a destreza de uma matadora profissional. Mas o que mais surpreendia era a riqueza de detalhes: em cada confissão, a acusada descrevia com precisão milimétrica roupas, gestos, cenários, situações, objetos... 

Alma Di Agosto era cega. 

Seus vizinhos, que a conheciam e gostavam dela, estavam convencidos de que ela era culpada*. 

Por quê? — perguntou o advogado. 

Porque os jornais dizem

Mas os jornais mentem — disse o advogado. 

Mas o rádio também diz— explicaram os vizinhos —. E até a televisão!




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Titulo original: El libro de los abrazos Primeira edição em junho 1991. Tradução: Eric Nepomuceno Revisão: Ana Teresa Cirne Lima, Ester Mambrini e Valmir R. Cassol Produção: Jó Saldanha e Lúcia Bohrer ISBN: 85.254.0306-0 G151L Galeano, Eduardo O livro dos abraços / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno. - 9. ed. - Porto Alegre: L&PM, 2002. 270p.:il.;21cm 1. Ficção uruguaia. I.Título. CDD U863 CDU 860(895)-3 Catalogação elaborada por Izabel A. Merlo, CRB 10/329. Texto e projeto gráfico de Eduardo Galeano © Eduardo Galeano, 1989


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Leia também:


21.O Livro dos Abraços - Os índios/3  - Eduardo Galeano




Florbela Espanca - A Mensageira das Violetas 13

Florbela Espanca



13 - A Mensageira das Violetas





CREPÚSCULO



Teus olhos, borboletas de ouro, ardentes 
Borboletas de sol, de asas magoadas, 
Pousam nos meus, suaves e cansadas 
Como em dois lírios roxos e dolentes... 

E os lírios fecham... Meu amor não sentes? 
Minha boca tem rosas desmaiadas, 
E a minhas pobres mãos são maceradas 
Como vagas saudades de doentes... 

O silêncio abre as mãos... entorna rosas... 
Andam no ar carícias vaporosas 
Como pálidas sedas, arrastando... 

E a tua boca rubra ao pé da minha 
É na suavidade da tardinha. 
Um coração ardente palpitando...





EXALTAÇÃO



Viver!... Beber o vento e o sol!... Erguer 
Ao céu os corações a palpitar! 
Deus fez os nossos braços pra prender, 
E a boca fez-se sangue pra beijar! 

A chama, sempre rubra, ao alto a arder!... 
Asas sempre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrelas desprender!...
A glória!... A fama!... O orgulho de criar!...

Da vida tenho o mel e tenho os travos 
No lago dos meus olhos de violetas, 
Nos meus beijos estáticos, pagãos!...

Trago na boca o coração dos cravos! 
Boêmios, vagabundos, e poetas: 
- Como eu sou vossa irmã, ó meus irmãos!...




RÚSTICA



Ser a moça mais linda do povoado, 
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho...
Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho...

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à "terra da verdade"...

Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de princesa,
E todos os meus reinos de ansiedade.



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A Mensageira das Violetas, de Florbela Espanca

Fonte: ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket). 

Texto proveniente de: 
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. 

Texto-base digitalizado por: 


Luciana Peixoto Silva – Divinópolis/MG
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Leia também:


Florbela Espanca - A Mensageira das Violetas 12

Florbela Espanca - A Mensageira das Violetas 14