quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A Queda - 2

Albert Camus



Camus, Albert, 1913 - 1960
         A queda / Albert Camus; tradução de Valerie Rumjanek. - 6ª edição -
Rio de Janeiro; BestBolso, 2014.



Um advogado francês faz seu exame de consciência num bar de marinheiros, em Amsterdã. O narrador, autodenominado "juiz-penitente", denuncia a própria natureza humana misturada a um penoso processo de autocrítica. O homem que fala em A queda se entrega a uma confissão calculada. Mas onde começa a confissão e onde começa a acusação? Ele se isolou do mundo após presenciar o suicídio de uma mulher nas águas turvas do Sena, sem coragem de tentar salvá-la. Camus revela o homem moderno que abandona seus valores e mergulha num vazio existencial. 












Chegou um dia em que não aguentei mais. Minha primeira reação foi confusa. Já que era mentiroso, iria manifestá-lo e atirar minha duplicidade na cara de todos aqueles imbecis, antes mesmo que a descobrissem. Intimado pela verdade, responderia ao desafio. Para me precaver contra o riso, imaginei então lançar-me à zombaria geral. Em suma, tratava-se ainda de fugir ao julgamento. Queria colocar do meu lado os que riam ou, pelo menos, colocar-me ao lado deles. Pensava, por exemplo, em dar empurrões em cegos na rua, e, pela alegria surda e imprevista que isso me proporcionava, descobria até que ponto uma parte de minha alma os detestava: planejava furar os pneus das cadeiras dos aleijados, e gritar "Trabalha, vagabundo" debaixo dos andaimes onde estavam os operários, esbofetear bebês no metrô. Sonhava com tudo isso e nada fiz ou, se fiz alguma coisa parecida, esqueci. O certo é que a própria palavra justiça me deixava fora de mim. Eu continuava, forçosamente, a utilizá-la em minhas defesas. Mas vingava-me ao amaldiçoar publicamente o espírito de humanidade; anunciava a publicação de um manifesto denunciando a opressão que os oprimidos faziam pesar sobre os homens de bem. Certo dia em que comia lagosta no terraço de um restaurante e um mendigo me importunava, chamei o dono para expulsá-lo e aplaudi com estardalhaço as palavras desse justiceiro: "Você está incomodando", dizia ele. "Enfim, coloque-se no lugar dessas senhoras e desses senhores!" (p.70)





quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Miguel Hernández (España)

Los Poetas del Amor (14)


Miguel Hernández

Me Sobra El Corazón






HOY ESTOY SIN SABER YO NO SÉ CÓMO
hoy estoy para penas solamente,
hoy no tengo amistad,
hoy sólo tengo ansias
de arrancarme de cuajo el corazón
y ponerlo debajo de un zapato.

Hoy reverdece aquella espina seca,
hoy es día de llantos en mi reino,
hoy descarga en mi pecho el desaliento
plomo desalentado.

No puedo con mi estrella,
y me busco la muerte por las manos
mirando con cariño las navajas,
y recuerdo aquel hacha compañera,
y pienso en los más altos campanarios
para un salto mortal serenamente.

Si no fuera ¿por qué?... no se por qué,
mi corazón escribiría una postrera carta,
una carta que llevo ahí metida,
haría un tintero de mi corazón,
una fuente de sílabas, de adioses y regalos,
y ahí te quedas, al mundo le diría.

Yo nací en mala luna.
Tengo la pena de una sola pena
que vale más que toda la alegría.

Un amor me ha dejado con los brazos caídos
y no puedo tenderlos hacia más.
¿No veis mi boca qué desengañada,
que incomformes mis ojos?

Cuanto más me contemplo más me aflijo:
cortar este dolor ¿con qué tijeras?

Ayer, mañana, hoy
padeciendo por todo
mi corazón, pecera melancólica,
penal de ruiseñores moribundos.

Me sobra el corazón.
Hoy descorazonarme,
yo el más descorazonado de los hombres,
y por el más, también el más amargo.

No sé por qué, no sé por qué ni cómo
me perdono la vida cada día.

(Poemas sueltos)




Rafael Amor

y Mercedes Sosa


Corazón Libre





Corazón libre
Mercedes Sosa


Te han sitiado corazón y esperan tu renuncia,
los únicos vencidos corazón, son los que no luchan
no los dejes corazón que maten la alegría,
remienda con un sueño corazón, tus alas malheridas

No te entregues corazón libre, no te entregues
no te entregues corazón libre, no te entregues

Y recuerda corazón, la infancia sin fronteras,
el tacto de la vida corazón, carne de primaveras,
se equivocan corazón, con frágiles cadenas,
más viento que raíces, corazón, destrózalas y vuela

No los oigas corazón, que sus voces no te aturdan,
serás cómplice y esclavo corazón, si es que los escuchas

Adelante corazón, sin miedo a la derrota,
durar, no es estar vivo corazón, vivir es otra cosa


Composição: Rafael Amor




Rafael Amor

No me llames extranjero (1977)







No Me Llames Extranjero


No me llames extranjero, por que haya nacido lejos,
O por que tenga otro nombre la tierra de donde vengo
No me llames extranjero, por que fue distinto el seno
O por que acunó mi infancia otro idioma de los cuentos,
No me llames extranjero si en el amor de una madre,
Tuvimos la misma luz en el canto y en el beso,
Con que nos sueñan iguales las madres contra su pecho.

No me llames extranjero, ni pienses de donde vengo,
Mejor saber donde vamos, adonde nos lleva el tiempo,
No me llames extranjero, por que tu pan y tu fuego,
Calman mi hambre y frío, y me cobije tu techo,
No me llames extranjero tu trigo es como mi trigo
Tu mano como la mía, tu fuego como mi fuego,
Y el hambre no avisa nunca, vive cambiando de dueño.
Y me llamas extranjero por que me trajo un camino,
Por que nací en otro pueblo, por que conozco otros mares,
Y zarpé un día de otro puerto, si siempre quedan iguales en el
Adiós los pañuelos, y las pupilas borrosas de los que dejamos
Lejos, los amigos que nos nombran y son iguales los besos
Y el amor de la que sueña con el día del regreso.
No me llames extranjero, traemos el mismo grito,
El mismo cansancio viejo que viene arrastrando el hombre
Desde el fondo de los tiempos, cuando no existían fronteras,
Antes que vinieran ellos, los que dividen y matan,
Los que roban los que mienten los que venden nuestros sueños,
Los que inventaron un día, esta palabra, extranjero.

No me llames extranjero que es una palabra triste,
Que es una palabra helada huele a olvido y a destierro,
No me llames extranjero mira tu niño y el mío
Como corren de la mano hasta el final del sendero,
No me llames extranjero ellos no saben de idiomas
De límites ni banderas, míralos se van al cielo
Por una risa paloma que los reúne en el vuelo.

No me llames extranjero piensa en tu hermano y el mío
El cuerpo lleno de balas besando de muerte el suelo,
Ellos no eran extranjeros se conocían de siempre
Por la libertad eterna e igual de libres murieron
No me llames extranjero, mírame bien a los ojos,
Mucho más allá del odio, del egoísmo y el miedo,
Y verás que soy un hombre, no puedo ser extranjero.



Composição: Rafael Amor


A chuva


Contos e Lendas de Amor - México


A chuva






Houve, um tempo em que os homens não tinham, como têm hoje, muitas cidades onde nascer, mas apenas duas: cidade do Céu e a cidade da Terra. Por isso só existiam dois reis: o rei do Céu e o rei da Terra.

Os dois reis daquele tempo eram amigos, porque o rei do Céu, apesar de muito poderoso, não era conquistador. Se quisesse ele dominaria o reino da Terra e o teria como escravo. Mas ele se contentava em governar bem o seu reino e, apesar da ajuda dos súditos, ele também trabalhava, para manter tudo em ordem.

O rei do Céu tinha um filho e o rei da Terra uma filha. Não se pode dizer como era o príncipe, mas a princesa – dizem aqueles que a conheceram – era tão bonita que, ao lado dela, até as flores perdiam sua razão de ser.

E a princesa tornou-se moça e o príncipe homem feito. O rei do Céu quis casar o filho e não pensou em nenhuma de suas súditas para nora. Escolheu a filha do rei da Terra para esposa do filho. E como sempre foi lei que o pai escolhesse com quem os filhos deviam se casar, o rei do Céu, sem consultar o príncipe, chamou umas fadinhas, conhecidas como biniguendas, que tinha a seu serviço, para que descessem à Terra a fim de pedir a mão da princesa. Depois de decorarem bem decoradas as palavras do rei, as biniguendas saíram pela porta iluminada de uma estrela e sumiram.

Eram tão rápidas que a própria luz que vinha do céu tinha dificuldade de alcança-las.

E foi junto com a luz da manhã que elas chegaram à única cidade que havia na Terra. Sábias como eram, as biniguendas não precisaram perguntar onde ficava o plácio. Também não necessitaram bater à porta pois, além de rápidas e sábias, eram prodigiosas e assim foram diretamente à sala do trono. Diante do rei, uma das embaixadoras – a mais velha – transmitiu a mensagem do rei do Céu.

O rei da Terra mandou chamar a filha. Muda e com a cabeça baixa, a princesa ouviu o desejo do soberano do Céu e, quando o pai lhe pediu uma resposta, ela disse que amava loucamente um criado do palácio e que não se casaria com nenhum outro homem que não fosse ele. O pai a amava muito e não faria nada que a fizesse infeliz. Depois que ela se retirou, o rei da Terra comunicou às embaixadoras do Céu que ele próprio transmitiria ao soberano celeste a decisão da filha. As biniguendas do céu desapareceram silenciosas.





O rei da Terra também tinha biniguendas misteriosas, rápidas e prodigiosas a seu serviço. Mandou chama-las e colocou-as a par da vontade da filha. As biniguendas terrestres, então, subiram ao Céu levando a resposta. Lá chegando, uma delas – sempre a mais velha – transmitiu a mensagem que traziam da Terra. O rei do Céu levou um choque e ficou furioso. De repente, deu-se conta da força que tinha, e a raiva que sentia levou-o a querer tirar-nos o Sol, a Lua e a levar suas estrelas para muito mais alto. Mas na verdade ele não queria nos castigar e sim realizar os seus propósitos. Depois de pensar muito, descobriu que o único meio de realizar aquele casamento seria levando o namorado da princesa para bem longe. Não se soube como, mas o fato é que o jovem foi tirado do castelo e levado à montanha Danibacuza.

A mãe numa casa da cidade e a noiva no palácio choraram desesperadamente o desaparecimento do jovem plebeu. A mãe lavou com seu pranto a dor da perda do filho. A noiva, depois de chorar muito, desconsolada, abandonou o palácio e saiu pelas montanhas atrás do seu amado.

O rei do Céu acompanhava tudo o que acontecia na Terra. A atitude da princesa enfureceu-o e, agora sim, ele resolveu nos castigar. Manteve o Sol no meio do Céu e seus raios inclementes secaram a terra. Não chovia mais.

Sem vegetação, não havia mais diferença entre estradas, caminhos. E tudo, tudo ficou igual. Alucinada, a princesa andava errante, percorrendo várias vezes os mesmos caminhos. Até que um dia, na hora em que a luz era mais trêmula, ela adivinhou que o seu amado estava em Danibacuza. E, com toda a pressa e determinação que possuía, dirigiu-se para a montanha. Chegou banhada em suor, com um lampejo de alegria saltando-lhe pelos olhos. Mas duas sentinelas armadas com espadas de relâmpagos impediram-na de continuar sua busca. A dor, como uma enorme pedra, caiu sobre o coração da princesa e fez as suas lágrimas transbordarem. De seus olhos brotaram dois fios cheios de nozinhos de água. E essas lágrimas, movidas pelo vento, precipitaram-se sobre a cidade acabando com a seca. Pouco a pouco a filha do rei da Terra foi-se convertendo numa mulher de pedra.





Depois que a chuva parou, os homens saíram à sua procura. Quando a encontraram, nenhum deles quis tocá-la. De volta à cidade, os homens contaram que, em plena montanha, vigiada por sentinelas armadas de relâmpagos, estava a princesa petrificada, de pé. O povo todo aplaudiu o seu reaparecimento.

“É verdade, ela agora é de pedra, mas nos devolveu a chuva”, repetiam.

Certa vez, as chuvas voltaram a ficar escassas. Os homens foram procurar a princesa e a encontraram deitada. A Terra estava bebendo o seu pranto, por isso não chovia. Os homens colocaram a princesa de pé e a chuva voltou a ser intensa e abundante, como quando pela primeira vez deixou de ser dádiva do rei do Céu para ser neta do rei da Terra. Desse dia em diante, os homens passaram a vigiar a posição da princesa para que ela ficasse sempre de pé, até a trazerem para a cidade em que a conheci.

Daí nasceu para esse povo o nome da chuva: nisagié, de nisa, água, e gié, pedra. Como quem diz: água que a pedra chora.



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Contos e Lendas de Amor

Co-edição Latino-americana. Editora Ática. 1986. São Paulo

A chuva (México)

Andrés Henestrosa
Ilustrações de Fuensanta del Cueto Ruiz











Leia também:

A Boitatá (Brasil)

domingo, 2 de novembro de 2014

Imyra Tayra Ipy

Taiguara



Texto do jornalista Marcello Pereira Borghí

Em 1975, o compositor Taiguara gravou seu mais brilhante álbum, intitulado IMYRA, TAYRA, IPY. Entre outras coisas, o disco fazia referência à sua primeira filha. O disco seria lançado no ano seguinte no Rio Grande do Sul, mas o evento foi proibido pela censura federal.

Ainda em 1975, foi lançado um compacto promocional, com 3 canções que estariam no disco. Uma delas teve a exibição vetada e foi retirada do LP. O compacto foi recolhido e hoje é peça de colecionador. A canção vetada não foi mais distribuída, nem nos LP's, nem nos CD's que foram prensados a posteriori. Seu nome: LAR FUTURO.

















Disco censurado de Taiguara, de 1976, é enfim reeditado em CD no Brasil


Blog Notas Musicais







Um dos títulos mais obscuros da discografia do cantor e compositor uruguaio Taiguara (1945 - 1996), Imyra, Tayra, Ipy ganha a primeira edição em CD no Brasil dentro da terceira fornada de reposições do catálogo da gravadora Kuarup, revitalizado com distribuição da Sony Music. A edição chega às lojas em agosto de 2013. Lançado originalmente em 1976 pela gravadora EMI-Odeon, o disco foi recolhido do mercado dias após chegar às lojas por determinação da censura do governo militar de Ernesto Geisel (1907 - 1996). 

Um dos alvos principais dos órgãos de repressão da época, Taiguara tinha sido tão perseguido que se exilara em Londres na primeira metade dos anos 70. Foi na volta ao Brasil, em 1975, que o artista começou a conceber Imyra, Tayra, Ipy, disco de referências indígenas, inspirado pela leitura de Quarup (1967), romance do escritor fluminense Antônio Callado (1917 - 1997) do qual Taiguara extraiu os três termos em tupi que batizam o álbum. Hermeto Pascoal assina os arranjos de seis das oito músicas do disco, gravado por músicos como Jacques Morelembaun (violoncelo), Nivaldo Ornellas (sax e flautas), Novelli (baixo), Toninho Horta (violão) e Zé Eduardo Nazário (bateria e percussão). As regências foram confiadas ao maestro e produtor Wagner Tiso. Formatada em arranjo de pegada nordestina, a mineira Três Pontas (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967) foi a única regravação do disco, de repertório essencialmente autoral.

Assinadas por Taiguara com seu sobrenome Chalar da Silva, para tentar driblar a censura, músicas como Aquarela de um país na lua, Primeira bateria, Sete cenas de Imyra (faixa de tom experimental), Situação e Terra das palmeiras são peças-chaves de repertório de forte cunho ideológico e social. Lançado em CD no Japão, em 2004, Imyra, Tayra, Ipy chega enfim ao mercado brasileiro em CD oportuno que mostra que o cancioneiro engajado e consciente de Taiguara não se limita aos hits gravados pelo cantor em álbuns editados pela Odeon na virada dos anos 60 para os 70.

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Correção:

Prof. Marcello

2 horas atrás  -  Compartilhada publicamente
 
Uma correção no texto. A composição "Três Pontas" é na verdade de autoria de Mílton Nascimento e Ronaldo Bastos e não de Fernando Brant.







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Joana Duah & Bruno Morais 
SETE CENAS DE IMYRA






Wagner Tiso fala sobre o Disco "imyra, tayra, ipy, taiguara"








Composição de Taiguara - Show realizado no SESC Belenzinho intitulado "imyra, tayra, ipy, taiguara" em 31/05/2014, - Lançamento do disco de Taiguara, censurado e recolhido em 1976. Com Wagner Tiso (direção musical e piano), Toninho Horta (violão e guitarra), Jaques Morelenbaum (cello), Nivaldo Ornellas (sax e flauta), Novelli (baixo), Zé Eduardo Nazário (bateria e percussão) - Convidado especial: Toninho





Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara (1976)






Discografia

1965 - Taiguara - Philips LP
1966 - Crônica da cidade amada - Philips LP
1966 - Primeiro tempo 5x0 - Philips LP
1968 - Taiguara, o Vencedor dos Festivais - EMI-Odeon LP
1969 - Hoje - EMI-Odeon LP
1970 - Viagem - EMI-Odeon LP
1971 - Carne e osso - EMI-Odeon LP
1972 - Piano e Viola - EMI-Odeon LP
1973 - Fotografias - EMI-Odeon LP
1974 - Let the children hear the music - KPM LP
1975 - Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara - EMI-Odeon LP
1975 - Lar Futuro/Publico/Primeira Bateria - EMI-Odeon - Compacto Simples parcialmente extraído do LP Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara
1981 - Porto de Vitória/Sol do Tanganica (1981) Alvorada Continental - Compacto simples
1984 - Canções de amor e liberdade - Alvorada Continental Discos LP
1984 - Mais valia/Vos do leste/Guarânia Guaraní/Anita - Alvorada Continental - Compacto duplo extraído do LP Canções de Amor e Liberdade.
1985 - Grandes sucessos de Taiguara - EMI-Odeon LP
1986 - Grandes sucessos de Taiguara volume 2 - EMI-Odeon LP
1987 - A paz do meu amor - EMI-Odeon LP
1988 - O Talento de Taiguara - EMI-Odeon LP duplo
1989 - Teu sonho não acabou - EMI-Odeon LP
1990 - Teu sonho não acabou - EMI-Odeon CD
1990 - O Talento de Taiguara - EMI-Odeon CD
1994 - Brasil Afri - Movieplay CD
2000 - Taiguara, Serie Bis - EMI-Odeon CD Duplo
2004 - Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara - EMI-Toshiba CD





Gente Humilde
Composição: Garoto, Vinicius de Moraes e Chico Buarque

Tem certos dias eu que eu penso em minha gente
e sinto assim todo meu peito se apertar
porque parece que ancontece de repente
como um desejo de eu viver sem me notar
igual a como quando eu passo no subúrbio
eu, muito bem, vindo de trem de algum lugar
e ai me dá uma inveja dessa gente que vai em frente
sem nem ter com quem contar

São casas simples com cadeiras na calçada
e na fachada escrita em cima que é um lar
Pela varanda flores tristes e baldias como alegria que nao tem onde encostar
E ai me dá uma tristeza no meu peito
feito um despeito e eu não ter como lutar
e eu que não creio, peço a Deus por minha gente
É gente humilde que vontade de chorar
É gente humilde que vontade de chorar








Hoje





Hoje
Taiguara


Hoje
Trago em meu corpo as marcas do meu tempo
Meu desespero, a vida num momento
A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo...

Hoje
Trago no olhar imagens distorcidas
Cores, viagens, mãos desconhecidas
Trazem a lua, a rua às minhas mãos,

Mas hoje,
As minhas mãos enfraquecidas e vazias
Procuram nuas pelas luas, pelas ruas...
Na solidão das noites frias por você.

Hoje
Homens sem medo aportam no futuro
Eu tenho medo acordo e te procuro
Meu quarto escuro é inerte como a morte

Hoje
Homens de aço esperam da ciência
Eu desespero e abraço a tua ausência
Que é o que me resta, vivo em minha sorte

Sorte
Eu não queria a juventude assim perdida
Eu não queria andar morrendo pela vida
Eu não queria amar assim como eu te amei.



Composição: Taiguara

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Histórias de avoinha: As Casa do Comércio na Villa 4


Ensaio 29B – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar




O siô Joca não tinha bando de ataque ou defesa: as milícia de proteção dos negócio e da família, tão encontradiça entre as gente superiô preocupada em se resguardá das ideia e da felicidade dos reles vivente. Gente superiô qui gosta qui se baba de usá como trapo de chão os rele vivente. O Joca inté podia tê medo e o medo qui tinha não era medo de perdê a riqueza, mais de sofrê qualqué arranhadura nas carne. Isso ele não suportava, a dor física nele ou nos otros. De todo jeito, não apreciava usá pra mocinho essas milícia qui bem podia sê usada pra bandido. Sabia qui se ocê começa usá as força fora da lei não consegue mais voltá pros trilho dela. Os dormente depois qui entorta, torto fica. As justiça e as injustiça caminha tudo muito junto, é preciso acredita nas pulícia e mostrá o seu gosto de ajudá. Mostrá gosto com as pulícia é bão pro negócio do Joca Lampião.

Ele não tinha terras à venda no Paraíso. Eu sei, ocê sabe e ele sabia: o Paraíso não tá à venda e, pelo qui se sabe, não é feito com as terra da própria terra, são otras terra. Mais tem gente qui aceita confiá em cada coisa, qui é sempre bão avisá qui o Joca não vende as terra do Paraíso, ele só tem relacionamento bão com quem vende.

Nem se podia dizê qui ele tinha influência nas força militá do Império. Apenas, não descuidava de oferecê os cuidado pra iluminá tudo qui era lugá de aquartelamento das tropa, fazia as coisa na sua cobertura de interesse. O Joca não manda nas tropa do Império, ele só tem relacionamento bão com quem manda.

E vez qui otra, pra não ficá desconhecido pela razão do esquecimento ou parecê apartado dos amigo, comparecia na missa domingueira e aparecia no Paço das Casa Política e Militá da Villa. Tinha negócio com toda gente, afinal, depois do escurecimento do dia era os seus lampião qui iluminava as treva, naquele fim de mundo.

Otra das incumbência do Joca com as suas visita era entregá os imposto devido e os donativo qui a bolsa carregava. Não deixava atrasá. Chegava com tempo de sobra pra ficá um pouco mais e alongá os dedo de prosa. Levava e deixava os assunto em dia. Apesá do esforço feito, domingueira após domingueira, imposto devido e pago, já tinha se apercebido qui não ia subí nas graça da fidalguia. Recebeu aconselhamento de explicação qui faltava tê mais vontade de gostá dele mesmo, querê se aparecê como o mais forte, gritá mais alto. Mostrá um ar de aborrecimento com os preto e tédio com os pobre. Fazê vale a sua vontade inté na força se era preciso. Ficava na média entre a nobreza e a escumalha. Não pisava no pescoço, mais também não libertava. Não tinha nome entre as flores do bem pra sê bem visto.

Gostava de contá os causo do tio Biloca qui não era uma recomendação de fidalguia, serviam pra mostrá qui tinha jeito mais criativo de vivê. Mais a nobreza não tem interesse em nada criativo qui não seja pra serví seus impulso de prazê nas aparência da vida. O desgraçado do comerciante lampião, como era reconhecido pela fidalguia, permitia a formação de pecúlio entre os preto da sua casa, assim, os preto tinha os meio pra indenizá o seu valô de alforria. Isso, a fidalguia não perdoava, não era exemplo pra sê dado.

A Casa dos Lampião e Lamparina, propriedade do Joca Lampião, era um casarão de boa altura qui recebia os carregamento feito pelo rio, tinha lampião pra todo gosto e o montante numerário do compradô: sebo, óleo e vela. E os tamanho variava com as necessidade e posse do compradô. Tudo guardado no porão pra modo de meió sê conservado dos óio e das mão dos xereta. Mercadoria guardada com descuido perdia o valô e descumpria a regra capital do comércio: quem compra pra vendê qué tê lucro; então, o bão comerciante tem tino pra ganhá mais do qui perdê, na guerra entre o lucro e o prejuízo, baixa o preço quando compra e sobe o valô na venda. Quanto mais maió essa diferença meió é o negócio. Alguém ainda há de escrevê qui tudo no mundo é música ou reza, o Joca tinha com ele, sem tê muitas leitura, qui tudo no mundo é reza ou pecúlio.

Por causo disso, as mercadoria da casa não ficava guardada no galpão dos fundo. A umidade na beirada da praia da Arsenal se arrastava pelo chão e subia nas parede. No tempo da frieza mais dura, a aragem ficava tão moiada qui escorria nas parede, inté parecia qui brotava. Não era lugá pra conservá guardado os lampião. O galpão ficô desocupado um bão pedaço de tempo, inté o Joca lembrá de fazê ajutório pro siô padre. O galpão recebeu alguns catre de vara. As abertura foi fechada. Mais uma varredura no chão de terra. Depois de tudo pronto, virô o lugá onde ficava hospedado os preto da obra Santa.


O galpão foi construído nos tempo de antes com paredes de barro na grossura de um palmo. Não tinha pedra nem tijolo. A cobertura de telha-vã ficava apoiada no madeiramento do telhado em paus a pique. Ali, o siô Joca hospedava bonançoso os preto do siô padre. Ele considerava como um donativo de pecúlio. Um pequeno negócio qui ele não esperava lucrá, quem sabe, apenas um pequeno ressarcimento na hora de partí pros campo de cima, propriedade vitalícia do Nosso Siô.

Nas reunião com os comerciante da Villa, gostava de repetí qui a única coisa certa, depois da certeza da morte, é qui quem não plantá não vai colhê, mais tem qui sabê escolhê o qui vai plantá, só se colhe o qui se planta

Um luxo de senzala, sinhô Padre.

Deus lhe abençoe, Joca. Tenho certeza da sua boa-venturança e glória no Paraíso do amor do Nosso Sinhô, o siô padre entrô, como vez qui otra entrava, pra fazê averiguação de reconhecimento. Pediu qui fosse estendida algumas rede de dormí. E no chão fosse feita mais cama de vara, mais um qui otro preto tava pra chegá, os negros que não se importam do seu uso na obra Santa merecem um tratamento melhor, o sinhô não acha?

Proibiu o uso de castigo e exigiu um capitão-do-mato desarmado, mais cuidadoso com os qui chegava e saia. Queria os cumprimento das hora marcada, mais sem as marca da chibata. Ele queria dá aparência de lugá livre da escravatura, mais era só um disfarce da realidade. O catre de vara do Josino tava desocupado e mostrava qui ali não dormia nenhum homem livre.

Antes de saí, abençoô o lugá de barro. Os preto continuava deitado com as vista fechada, eles parecia dormí. Um pequeno lampião aclarava de amarelo as parede de barro e o chão de terra. Virô as costa e saiu com o Joca atrás. Na porta se parô pras despedida

Joca, até mais.

Até mais, sinhô Padre.

Que o Senhor o abençoe... em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Amém, e o padre com vestimenta de viúva saiu sem oiá pra trás.

O siô da Hora era um homem livre, mais não achava prudente encontrá o siô padre, naquelas horas de começo da noite. Era mais meió encontrá o siô padre na reunião já marcada. Esperô pelo sumiço do funcionário rezadô das domingueira

Boas noites, Joca, o dono dos lampião arrepiô-se, tava com as vista no sumiço do siô padre, não gostava de sê agarrado desprevenido de cuidado. Virô as vista na direção da trilha qui vinha da Arsenal

Quem vem, daí?

Afonso da Hora, Joca!

Mas o que se passa, sinhô da Hora?

Não interessava ao siô do Josino trocá confidência com o Joca Lampião, de modo qui fez o qui meió sabia fazê: mentiu. Oiô pra trás procurando algum rastro do Josino ou do fio bastardo. Nada. Os dois tava ainda na Arsenal

Estava procurando um bom lugar para jogar algumas linhas de pesca, o otro se mostrô com surpresa

Não sabia que o sinhô gostava desse divertimento...

Pois fique o amigo sabendo que não tem melhor divertimento, depois das distrações e desvios das moças, falava e calculava o trajeto do siô padre. Ia dá um tempo maió pro viúvo tomá o seu rumo. O Joca qui gostava de prosa, e não perdia a conjuntura e a conveniência do momento, alinhavô a voz e fez um convite

Saia da trilha e chegue na luz do lampião, os dois sorriu um do otro, o sinhô da Hora conheceu o tio Biloca?

Não, mas pelo olhar do Joca deveria ter conhecido.

Um vivente mui especial, o Joca começô contá otro causo dos causo acontecido com o tio Biloca, cada vez qui contava as lembrança do tio Biloca, descobria que só morre quem não tem lembrança pra sê lembrada. O tio Biloca inté pareceu tá sentado de lado

O vivente gostava de viver do seu jeito sem procurar atropelo na vida. Ajudava todos que podia e procurava convencer os contrários que era melhor não odiar, caso o ouvinte não se convencia das argumentação e alterava os grito da voz, ele não desistia, continuava os ensinamentos da vida com felicidade, coisa que aprendeu caminhando pela escuridão das pescaria: odiar... só a miséria. Mas no entrevero era bom ter o tio Biloca do seu lado. Gostava da pescaria no esquecimento da noite. Em uma das muitas pescarias de sonâmbulo, o tio Biloca esperou cada pescadô escolher um lugar de acomodação e foi procurar o seu. Então, lançou a linha e sentô no barranco. O restante da tropa dos pescadores já tinha feito o mesmo. E foi uma noite de muitos peixes. Era enfiá a isca no anzol, lançar a linha e o cardume se agarrava como se fosse um só peixe. Uma enorme baleia de peixes famintos. Foram tantos lançamentos que perdemos a contação. Naquele entrevero da escuridão, aos gritos de peguei mais um, peguei outro, o tio Biloca ficô esquecido. Mas ninguém da importância do tio Biloca consegue ficar esquecido por muito tempo, o seu silêncio provocou nossa preocupação. Já passava do meio da noite quando senti falta da movimentação do tio Biloca. Ele era um sujeito esparramado. Não parecia ser dele aquele silêncio. Larguei a linha e mirei meus olhos no seu lugar de pescaria. Lá estava ele, um vulto deitado na barranca. Imóvel. Chamei o seu nome. Não respondeu. Tornei a chamar. Nada. O meu coração primeiro ficô pequeno, quase parado, depois disparou mais que a corredeira das pernas. Senti vontade de vomitar. Corri e saltei rios e montanhas, até chegar no tio Biloca

Tio!

Psiu... foi o que ele disse enquanto levava o dedo fura bolo à boca, todo amarelado do palheiro

O sinhô está bem?

Mais melhó não tem como tá, olhei na volta, nenhum peixe... a linha na água. Quieta. Dormindo. Achei estranho, nenhum peixe agarrado na linha do tio Biloca

Mas tio, como pode o sinhô não ter fisgado nenhum peixe?

Ele sentou. Não tinha pressa de prestar resposta de explicação. Ninguém se importa muito com a aclaração do emburrecimento de guri. O tempo trata de ensinar. Vi que os olhos dele me sorriam. Brilhavam na escuridão estrelada. Estendeu a mão pro lado e agarrô um garrafão de pinga. Passou as costas da mão na boca e tomô um gole. Um gole bonito de escutar

Escuta, guri. Não vim pescá. Vim pelo acompanhamento da parentada, escutá os barulho de ocês e os murmúrios das águas. Não tem maior lindeza que esta noite estrelada e o gosto da pinga mais essa agitação da gurizada.

Mas por que a peixaria do cardume não morde na sua linha?

Deu outro gole e sorriu, gostava de deixar a resposta suspensa com mistério

É simples, guri... é só não colocá isca na linha, tomou outro gole e recostou a cabeça na barranca. Devia tê deitado ao lado do tio Biloca, mas tem coisa que um guri só aprende depois que vira homem com saudade dos tempos de guri. Não deitei. Voltei pra pescaria. Sorrindo. Até hoje, quando vou na barranca deito no lugar de acomodação do tio Biloca. A pinga do lado


O tio Biloca tinha razão, um homem pode se arrebentá por nada. Mais isso já um outro causo.


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