quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Brasil nação - v1: § 21 – Revolução deve ser revolução... - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim



O Brasil nação volume 1





PRIMEIRA PARTE
SEQUÊNCIAS HISTÓRICAS



capítulo 2
a reação da nacionalidade






§ 21 – Revolução deve ser revolução... 




Nas atitudes individuais, para ações características, o mais importante vem dos motivos instintivos, profundos. Se há motivos exteriores que obriguem, ou levem, a organizar e conformar as atitudes em oposição com esses motivos íntimos, todo o caráter se desnatura e se perverte. Também as nacionalidades não suportam que as suas solicitações íntimas e necessárias sejam sistematicamente contrariadas por qualquer política ou regime que a elas se oponha. Se o espírito de nacionalidade pôde estimular o Brasil para luta pertinaz e viva, com que abateu o primeiro Império, é porque havia desses motivos profundos e essenciais, na realidade da nação brasileira. Por isso mesmo, a crise de 1831 não se podia reduzir à solução simples e nula que lhe deram. Os verdadeiros revolucionários (exaltados, sim, na consciência desses motivos íntimos) não se podiam contentar com o desfecho írrito e antinacional que os moderados lhe deram, ansiosos de fazer da revolução o simples repasto das suas curtas ambições. Qualquer que seja o resultado de uma revolução liberal, há sempre, conduzindo-a, a intuição de uma conquista a realizar, e de uma classe a substituir revolução está frustrada, se os efeitos não correspondem a essa mesma intuição. 

Para os fins nacionais, antes a derrota definitiva da revolução, do que o seu desvirtuamento e desprestígio, em mãos de moderados. No caso do Brasil – contra o primeiro Império, os efeitos de moderação foram mais do que o malogro de uma revolução: valeram como o desastre definitivo, no refazer de política nacional e democrática, pelo reinfeccionamento do organismo nacional, que, dificilmente, penosamente, lutava contra uma longa e extensa contaminação. Em 1822, a nação, empenhada em afirmar-se livremente, fora ludibriada, pois que todo o resultado do seu esforço pela independência deu em resultado guardar-se o Estado português, armado numa constituição arranjada em beneficio do poder moderador e do Senado vitalício, exercício de uma soberania sem contraste, sobre a soberania nacional, num império monstruosamente centralizado. Daí derivara aquela absoluta necessidade de repetir a revolução – para organizar o país democraticamente, no sentido das tradições esboçadas. Nestas condições, se a nova revolução se anula na covardia interesseira e sensata dos moderados, o país terá esgotado as energias de renovação. 

E foi o que se deu. No Brasil de 1831, como no de 1822, anunciava-se, exigentemente, uma nova ordem de coisas, inassimilável à antiga, e que, para corresponder legítima e sinceramente às aspirações e necessidades nacionais, tinha que se substituir completamente à ordem anterior, eliminando todos os seus fatores. No entanto, não foi o que se fez em 1822, nem, tampouco, em 1831... E, com a agravante, agora, de que o movimento iniciado em 1824, explícito em 1826, culminante em 1831, trazia motivos longamente meditados nas consciências, aspirações já radicadas nos espíritos dos revolucionários, em vista de uma repetida experiência. Daí, esse ímpeto seguro, que não podia ser abafado em moderatismo, sem que toda a obra da revolução se ressentisse. De 1826 em diante, a campanha contra o Império foi uma enchente – de ardor, crença, fé, expansão sentimental, exaltação confiante e juvenil... Sobre esse referver salutar e depurador, os grandes moderados de 1831 se puseram como um tampo: produziram-se, desde logo, as inevitáveis explosões, que, sendo dos vencedores da véspera contra companheiros de campanha, mais enfraquecia a uns e outros, sem meios de ser uma vitória decisiva. Repetem-se os ímpetos dos exaltados, já estramalhados, e que não são facilmente dominados: os vencidos se desmoralizam na derrota; os vencedores se pervertem no uso do poder, e, com isso, derramam-se as desilusões, multiplicam-se os ódios, em proveito, exclusivamente, da reação conservadora, os incorrigíveis instrumentos do bragantismo – os Paranaguá, José Clemente, Calmon, Araújo Lima... Não tarda que com eles se confundam muitos dos lutadores da véspera, almas fortes, mas destituídas de escrúpulos, sem ideais, escravos da ambição rasteira de mando. São os Vasconcelos e os Hermeto, que dão os novos conservadores, agravação do moderatismo, para que neles se constitua a futura política – segundo Império, despejada de preocupações de civismo, e que só não é nula para a nação, porque se converte num amortalhamento em misérias. Lemos os cronistas e comentadores, que foram dos próprios dias, e a nota dominante, neles, qualquer que seja o seu sabor político, é a de uma degradação absoluta das gentes, no universal abandono de convicções, e, mesmo, de princípios confessáveis, se se comparam aos processos e os motivos que conduziram a política de 1829 a 37... As páginas de história, mesmo nos que mais chegam às honras e aos proveitos do trono – Varnhagem, Macedo, Pereira da Silva, Moreira Azevedo... são, em todos eles, o reflexo de uma parábola: a nacionalidade que se desprendeu em surto de gloriosos destinos, alcançando eliminar o que lhe parecia a dificuldade máxima, inclina-se e cai, na confusão inglória e desbriada – dos celebrados dois partidos do segundo Império. Todas essas penas, que se faziam imprimir na maior pujança de Pedro II, são obrigadas a multiplicar as jeremiadas, quando reclamam o brio, o desinteresse, o tom de ação honesta e convencida dos homens de 1826-32... implicando, as mesmas lamúrias, uma comparação deprimente com as chatezas e os aviltamentos, do mundo em que eles, historiadores, viviam

De fato, a convicção, o vigor e a intransigência, com que se faziam as reivindicações contra o primeiro Império, eram de um movimento genuinamente nacional e popular, arrastando a sociedade inteira, inclusive os trôpegos bacharéis de Coimbra, candidatos à política da nação. Era um movimento que dizia com a vida completa da sociedade nacional – sentimentos, instituições, costumes, pensamento... Os homens representativos, mesmo alguns que já pertenciam à camada de dirigentes, eram ânimos que ainda refletiam a alma da nação, e tanto se distinguiam dos figurantes da política imperial que, parecia, não haveria, nunca, encontro de ação entre uns e outros: os democratas de 1827, e os marqueses – esturricados, ou fofos, sem ideias, sem brasileirismo e sem coração para a justiça. Deste modo se explica que a crise de eliminação fosse como o fácil e simples efeito de um drástico, e que a Nação inteira concorresse para esse efeito. No entanto, foi um mal a facilidade e a presteza com que o imperador se deixou expelir: afigurou-se aos ingênuos (para exploração dos velhacos) que tudo estava feito com a simples dejeção. Ora, isto era o mínimo; era apenas o começo. 

Admitir que bastasse o afastamento do príncipe, era fazer o próprio jogo dele, que, verificando a situação, reconhecera a necessidade de, mais uma vez, transigir, a fim de salvar o regime – na sua dinastia. E ele transigiu em 1831, como em 1821. Então, transigira – ficando; agora, transigia – partindo. Desta sorte, a obra da revolução, para atender os reclamos do país iludido em 1822, tinha de ser a reforma dos programas e das instituições, com a substituição completa das gentes, indo-se à República, essência das tradições nacionais. Guardara-se o príncipe, em 1822, para facilitar a Independência; mas, uma vez que ele próprio reconhecia impossível a soberania brasileira com o regime que então se criara, era esse regime que se devia afastar. O critério lógico e justo, para solução da crise, era o dos renitentes revolucionários, a insistir em que a revolução fora frustrada e estava incompleta. Para eles, não era o aventureiro coroado o objeto atacado, mas o Estado português, que com ele se implantara no país, e que só podia ser eliminado com a adoção do regime democrático republicano. A revolução de 1831 vinha fazer o que a de 1822 não fizera: vinha curar o mal que a independência agravara. No momento, nada se obtivera contra os botes das ambições mesquinhas de uns, e o emperramento de outros. Na covardia do grande número, os mais trêfegos e mais destemidos dentre os moderados, no seu acanalhamento, impuseram a sua vontade ao partido, e, em 1832, já era patente que a revolução fora frustrada. Frustrada, sim, porque não havia, razoavelmente, nada a conservar, nem do regime, nem da gente, em que se organizara o bragantismo de 1823-24. É histórico: o Brasil esteve em crise desde o ataque do embusteiro à Assembleia Constituinte. Desse ataque saiu a constituição que anulava a nação para a liberdade; é lógico que o essencial, no ataque ao Império, era eliminar a constituição dos marqueses, A situação resultante dessa oposição intransigente – de dez anos, e que vencera em 1831, era nimiamente, excepcionalmente, salutarmente revolucionária: exigia, pela natureza mesmo das causas, um novo equilíbrio político, em que se eliminasse o bragantismo. Não foi assim: o governo teve que voltar aos restos dos marqueses da de Santos, continuado nos outros marqueses e viscondes, e o Brasil teve que continuar a pregar e pedir revolução.





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"Morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."

Cecília Costa Junqueira



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O Brasil nação: vol. I / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 332 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 35).


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Leia também:

O Brasil nação - v1: § 20 – O novo malogro - Manoel Bomfim

O Brasil nação - v1: § 22 – A insânia da sensatez - Manoel Bomfim

29. Pedro Páramo: - ¿Sabe, don Pedro, que derrotaron al Tilcuate? - Juan Rulfo

Juan Rulfo




29. Pedro Páramo: -¿Sabe, don Pedro, que derrotaron al Tilcuate?





-¿Sabe, don Pedro, que derrotaron al Tilcuate? 

-Sé que hubo alguna balacera anoche, porque se estuvo oyendo el alboroto; pero de ahí en más no sé nada. ¿Quién te contó eso, Gerardo? 

-Llegaron unos heridos a Comala. Mi mujer ayudó para eso de los vendajes. Dijeron que eran de la gente de Damasio y que habían tenido muchos muertos. Parece que se encontraron con unos que se dicen villistas. 

-¡Qué caray, Gerardo! Estoy viendo llegar tiempos malos. ¿Y tú qué piensas hacer? 

-Me voy, don Pedro. A Sayula. Allá volveré a establecerme. 

-Ustedes los abogados tienen esa ventaja; pueden llevarse su patrimonio a todas partes, mientras no les rompan el hocico. 

-Ni crea, don Pedro; siempre nos andamos creando problemas. Además duele dejar a personas como usted, y las deferencias que han tenido para con uno se extrañan. Vivimos rompiendo nuestro mundo a cada rato, si es válido decirlo. ¿Dónde quiere que le deje los papeles? 


-No los dejes. Llévatelos. ¿O qué no puedes seguir encargado de mis asuntos allá adonde vas? 

-Agradezco su confianza, don Pedro. La agradezco sinceramente. Aunque hago la salvedad de que me será imposible. Ciertas irregularidades... Digamos... Testimonios que nadie sino usted debe conocer. Pueden prestarse a malos manejos en caso de llegar a caer en otras manos. Lo más seguro es que estén con usted. 

-Dices bien, Gerardo. Déjalos aquí. Los quemaré. Con papeles o sin ellos, ¿quién me puede discutir la propiedad de lo que tengo? 

-Indudablemente nadie, don Pedro. Nadie. Con su permiso. 

-Ve con Dios, Gerardo. 

-¿Qué dijo usted? 

-Digo que Dios te acompañe. 

El licenciado Gerardo Trujillo salió despacio. Estaba ya viejo; pero no para dar esos pasos tan cortos, tan sin ganas. La verdad es que esperaba una recompensa. Había servido a don Lucas, que en paz descanse, padre de don Pedro; después a don Pedro, y todavía; luego a Miguel, hijo de don Pedro. La verdad es que esperaba una compensación. Una retribución grande y valiosa. Le había dicho a su mujer: 

-Voy a despedirme de don Pedro. Sé que me gratificará. Estoy por decir que con el dinero que él me dé nos estableceremos bien en Sayula y viviremos holgadamente el resto de nuestros días. 

Pero ¿por qué las mujeres siempre tienen una duda? ¿Reciben avisos del cielo, o qué? Ella no estuvo segura de que consiguiera algo: 

-Tendrás que trabajar muy duro allá para levantar cabeza. De aquí no sacarás nada. 

-¿Por qué lo dices? 

-Lo sé. 

Siguió andando hacia la puerta, atento a cualquier llamado: «¡Ey, Gerardo! Lo preocupado que estoy no me ha permitido pensar en ti. Pero yo debo favores que no se pagan con dinero. Recibe esto: es un regalo insignificante». 

Pero el llamado no vino. Cruzó la puerta y desanudó el bozal con que su caballo estaba amarrado al horcón. Subió a la silla y, al paso, tratando de no alejarse mucho para oír si lo llamaban, caminó hacia Comala sin desviarse del camino. Cuando vio que la Media Luna se perdía detrás de él, pensó: «Sería mucho rebajarme si le pidiera un préstamo».



-Don Pedro, he regresado, pues no estoy satisfecho conmigo mismo. Gustoso seguiré llevando sus asuntos. 

Lo dijo, sentado nuevamente en el despacho de Pedro Páramo, donde había estado no hacía ni media hora. 

-Está bien, Gerardo. Allí estáte los papeles, donde tú los dejaste. 

-Desearía también... Los gastos... El traslado... Un mínimo adelanto de honorarios... Algo extra, por si usted lo tiene a bien. 

-¿Quinientos? 

-¿No podría ser un poco, digamos, un poquito más? 

-¿Te conformas con mil? 

-¿Y si fueran cinco?

-¿Cinco qué? ¿Cinco mil pesos? No los tengo. Tú bien sabes que todo está invertido. Tierras, animales. Tú lo sabes. Llévate mil. No creo que necesites más. 

Se quedó meditando. La cabeza caída. Oía el tintineo de los pesos sobre el escritorio donde Pedro Páramo contaba el dinero. Se acordaba de don Lucas, que siempre le quedó a deber sus honorarios. De don Pedro, que hizo cuenta nueva. De Miguel su hijo: ¡cuántos bochornos le había dado ese muchacho! 

Lo libró de la cárcel cuando menos unas quince veces, cuando no hayan sido más. Y el asesinato que cometió con aquel hombre, ¿cómo se apellidaba? Rentería, eso es. El muerto llamado Rentería, al que le pusieron una pistola en la mano. Lo asustado que estaba el Miguelito, aunque después le diera risa. Eso nomás ¿cuánto le hubiera costado a don Pedro si las cosas hubieran ido hasta allá, hasta lo legal? Y lo de las violaciones ¿qué? Cuántas veces él tuvo que sacar de su misma bolsa el dinero para que ellas le echaran tierra al asunto: «¡Date de buenas que vas a tener un hijo güerito!», les decía. 

-Aquí tienes, Gerardo. Cuídalos muy bien, porque no retoñan. 

Y él, que todavía estaba en sus cavilaciones, respondió: 

-Sí, tampoco los muertos retoñan -y agregó-: Desgraciadamente.




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— ESTÁ SABENDO, dom Pedro, que derrotaram o Sucuri? 

— Sei que teve algum tiroteio ontem à noite, porque deu para ficar ouvindo o tumulto; mas daí em diante não sei mais nada. Quem foi que contou isso, Gerardo? 

— Chegaram uns feridos a Comala. Minha mulher ajudou nessa coisa dos curativos. Disseram que eram do pessoal de Damasio e que tinham tido muitos mortos. Parece que se encontraram com uns sujeitos que se dizem de Pancho Villa. 

— Que caralho, Gerardo! Estou vendo tempos ruins chegando. E o que você está pensando em fazer? 

— Eu vou-me embora, dom Pedro. Para Sayula. E lá, vou me estabelecer de novo. 

— Vocês advogados têm essa vantagem; podem levar seu patrimônio a tudo que é lugar, pelo menos enquanto alguém não arrebentar suas fuças. 

— Nem pense nisso, dom Pedro; tem os nossos problemas. Além do mais dói deixar pessoas como o senhor, e as deferências que o senhor teve comigo a gente sempre sente falta. Nosso mundo muda o tempo todo, se é válido dizer assim. Onde o senhor quer que eu deixe os seus papéis? 

— Não deixe os papéis. Leve tudo. Ou será que você não vai poder continuar cuidando de meus assuntos lá onde vai estar? 

— Agradeço a sua confiança, dom Pedro. Agradeço sinceramente. Embora deva fazer a aclaração de que para mim vai ser impossível. Certas irregularidades... Digamos... Depoimentos que ninguém além do senhor deve conhecer. Podem prestar-se a manipulações ruins no caso de cair em outras mãos. O mais seguro é que fiquem aqui com o senhor. 

— Você disse bem, Gerardo. Deixa tudo aqui. Vou queimar os papéis. Com papéis ou sem eles, quem pode discutir comigo a propriedade do que tenho? 

— Sem sombra de dúvida, ninguém, dom Pedro. Ninguém. Com licença. 

— Vá com Deus, Gerardo. 

— O que foi que o senhor disse? 

— Eu disse que Deus o acompanhe. 

O doutor Gerardo Trujillo saiu devagar. Já estava velho; mas não para dar passos tão curtos, tão desanimados. A verdade é que ele esperava uma recompensa. Havia servido a dom Lucas, que em paz descanse, o pai de dom Pedro; depois, e ainda, a dom Pedro; e depois a Miguel, o filho de dom Pedro. A verdade é que ele esperava uma compensação. Uma retribuição grande e valiosa. Dissera à mulher: 

— Vou me despedir de dom Pedro. Sei que ele vai me gratificar. Estou quase dizendo que com o dinheiro que ele vai me dar nos estabeleceremos bem em Sayula e vamos viver com folga o resto dos nossos dias. 

Mas por que as mulheres sempre têm alguma dúvida? Recebem avisos do céu, ou o quê? Ela não pareceu estar segura nem mesmo de que ele receberia alguma coisa: 

— Lá, você vai ter de trabalhar duro e muito para levantar a cabeça. Daqui você não arranca nada.

— Por que está dizendo isso? 

— Eu sei. 

Continuou andando até a porta, atento a qualquer chamado: “Ei, Gerardo! Estou tão preocupado que não me permiti pensar em você. Mas eu lhe devo favores que o dinheiro não paga. Receba isto: um presente insignificante.” 

Mas o chamado não veio. Cruzou a porta e desamarrou o cabresto com que seu cavalo estava amarrado à forquilha. Subiu na sela e, em marcha curta, tratando de não se afastar muito para ouvir se o chamasse, caminhou até Comala sem se desviar do caminho. Quando viu que a Media Luna se perdia atrás, pensou: “Seria me rebaixar demais pedir a ele um empréstimo.”



— DOM PEDRO, voltei, porque não estou satisfeito comigo mesmo. Com prazer vou continuar cuidando de seus assuntos. 

Disse isso sentado novamente no escritório de dom Pedro Páramo, onde havia estado não fazia nem meia hora. 

— Está bem, Gerardo. Aí estão os papéis, onde você deixou. 

— Eu também queria... Os gastos... A viagem... Um adiantamento mínimo de honorários... Algum extra, se o senhor houver por bem. 

— Quinhentos? 

— Não poderia ser um pouco, digamos, um pouquinho mais? 

— Você ficaria conformado com mil? 

— E se fossem cinco? 

— Cinco o quê? Cinco mil pesos? Não tenho. Você sabe muito bem que está tudo investido. Terras, animais. Você sabe disso. Leva os mil. Não acho que você precise de mais. 

Ficou meditando. A cabeça caída. Ouvia o tilintar dos pesos sobre a escrivaninha onde Pedro Páramo contava o dinheiro. Lembrava-se de dom Lucas, que sempre ficou devendo seus honorários. De dom Pedro, que abriu conta nova. De seu filho Miguel: quanta dor de cabeça aquele rapaz tinha dado! 

Livrou-o da cadeia pelo menos umas 15 vezes, se é que não foram mais. E o assassinato que cometeu com aquele homem, como era mesmo o nome?, Rentería, isso. O morto chamado Rentería, em cuja mão puseram uma pistola. O jeito que Miguelzinho estava assustado, embora depois caísse no riso. Só isso, quanto teria custado a dom Pedro se as coisas tivessem ido até lá, até a lei? E a questão das violações, nada? Quantas vezes ele teve que tirar do próprio bolso dinheiro para que elas enterrassem o assunto: “Fique bem e em paz que você vai ter um filhote branquelo!”, dizia a elas. 

— Aqui está, Gerardo. Cuida muito bem deles, porque não geram cria. 

E ele, que ainda estava em suas cismas, respondeu: 

— Pois é, os mortos também não — e acrescentou: — Desgraçadamente.




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Rulfo, Juan Pedro Páramo / tradução e prefácio de Eric Nepomuceno. — Rio de Janeiro: BestBolso, 2008. Tradução de: Pedro Páramo ISBN 978-85-7799-116-7 1. Romance mexicano. I. Nepomuceno, Eric. II. Título

Pedro Páramo – Romance mais aclamado da literatura mexicana, Pedro Páramo é o primeiro de dois livros lançados em toda a vida de Juan Rulfo. O enredo, simples, trata da promessa feita por um filho à mãe moribunda, que lhe pede que saia em busca do pai, Pedro Páramo, um malvado lendário e assassino. Juan Preciado, o filho, não encontra pessoas, mas defuntos repletos de memórias, que lhe falam da crueldade implacável do pai. Vergonha é o que Juan sente. Alegoricamente, é o México ferido que grita suas chagas e suas revoluções, por meio de uma aldeia seca e vazia onde apenas os mortos sobrevivem para narrar os horrores da história. O realismo fantástico como hoje se conhece não teria existido sem Pedro Páramo; é dessa fonte que beberam o colombiano Gabriel Garcia Márquez e o peruano Mario Vargas Llosa, que também narram odisseias latino-americanas.


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Leia também:

28. Pedro Páramo: -¿Quién crees tú que sea el jefe de éstos? - Juan Rulfo

30. Pedro Páramo: Faltaba mucho para el amanecer - Juan Rulfo

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

histórias de avoinha: a sombra predileta

mulheres descalças


a sombra predileta
Ensaio 94B – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar


cansei de perder-me, é difícil viver com alegria quando enxergamos os muros da não vida que erguemos no quotidiano deslambido, sutil e deformador do tempo que não nos resta. foram tantas desistências. são tantos desabamentos. é preciso regar-se ao ensombrar o dia para brotar no clarear com o seu melhor amor pela vida. longe do amor, agora me parece tudo tão inútil, um desperdício de bem-querer, um abatimento do apego, desejo com desconto, devoção com mais alvoroço que amorosidade. o amor se cansa com tanta tristeza. fica frio e distante, não morre, mas precisa saber e se ouvir

quero de volta o mundo das amigas que me perguntavam se precisava de alguma coisa, qualquer coisa, mesmo quando não restava mais nada por fazer ou dizer. elas me fazem falta pra fazer o reencontro de mim mesma: a criança e a mulher. mulheres que foram se dispersando dentro de mim, pelo mar afora. mulheres que fui afugentando até ficar só, corria pra dentro de mim mesma, mar adentro encrespado e furioso

se eu lamento?

lastimo, sim. outra vida não me vai nascer

longe delas, sem as notícias, sem saber, sem pensar, sem perdoar, fui enfraquecendo. vivi na penumbra das lembranças. em cada uma que partia acreditava que estava me esparramando pra voltar um dia. um porto seguro pra quem nunca deixou pra trás tudo. nunca voltaram

em parte, é verdade, estava me espalhando, mas há uma outra parte de mim, feita de carne e osso, essa ficou mergulhada no mesmo poço, todos esses anos, afogando outras vontades, tramando outras memórias. meus ossos se recordam quando o tempo está pra chuva e doem pra me avisar. os músculos reclamam de fadiga pra me lembrar que o coração - já não tão forte - sofre com a agitação do balanço dos quadris, o aviso é pra ter calma quando dançar. caminho mais lenta,  não pinto os cabelos que mais seguido ficam brancos, falo mais baixo e escuto menos, a pele segue encrespando

essa ideia de ficar parada no mesmo lugar me parecia boa: não arriscar outra vida possível, outros movimentos, outros caminhos, outros encontros, se já tinha essa vida não tão boa; até mesmo ruim, mas já tão conhecida: uma suportável adesão à morte. no começo não sabia – ou fingia não saber – que podia ter muitas outras vidas boas; acho que foi o medo de me comprometer depois que fosse tarde demais. então, esperava que fosse tarde demais

hoje, acho que estava com medo de desfazer a mim mesma nas águas de um temporal, ninguém se esparrama sem descoser a própria carne. escolhi as águas plácidas, descansadas e mansas do poço pra ficar longe dos olhos, das mãos e dos corações daquelas mulheres que me assustavam com suas partidas e promessas de voltar que nunca se cumpriam

meu coração reclama as mãos, os olhos e a poeira das amigas. sinto falta deste mundão de mulheres falantes. acreditei que estaríamos sempre juntas. só eu fiquei com as lembranças da vida sem muitos caminhos da villa e as deslembranças traiçoeiras do pensamento

Milagres!

se existe um mundo de amigas, outro de conhecidas e desconhecidas? acredito que o mundo é só dois por fora: aparência e fingimentos, mas por dentro somos muitas coisas que não contamos pra ninguém, irmãs ou amigas, coisas secretas que preferimos deixar anônimas, é isso, somos todas desconhecidas na fundura dos nossos subterrâneos

você e eu, também? sim, milagres. mas somos uma só! uma só? sim, somos a mesma milagres. não, milagres, somos muitas milagres. abanamos a cabeça juntas

Milagres!

vai logo, não faça a moça esperar. eu não, vai você. não, é a tua vez. vai você só mais essa vez, a minha novela não acabou. vai logo, não faça a moça ficar desassossegada. mas que droga. vai vai, precisamos deste emprego

Sim, dona Adelaide.

E o chimarrão, Milagres?

Deixei perto da janela, apontei com a mão mole e frouxa do descaso, lá estava ele, no mesmo lugar, abandonado, sem encanto, anônimo

Isso é lugar, Milagres?

rodei os calcanhares metade da meia-volta e fui até a janela, sem devaneios ou estranheza ou muxoxos. examinei a chaleira e a cuia. a água perdeu a quentura e a erva esfriou, Vou trocar a erva-mate da cuia e aquecer a água.

Obrigada, Milagres.

vai você, eu vou ficar. tá

Sèzar, desde que nasci sou coisa nenhuma.

a moça e o moço continuavam com a mesma conversa do mesmo jogo que separava os contra e os que num é contra. coisa boba. eu continuava a mesma sombra descalça qui oiava desta janela pra pedra da infâmia. estiquei as vista inté furá a barricada dos tempo de tá e num tá, de sê e num sê mais

as rua da terra e barro recebia os pé pretu descalço. o que parece rebeldia ou dureza era só o feitio dos branco marcá seus escravizado. hôme ou muié, piquininina ou véia, escravizado tinha obrigação de cumprí as lei qui mandava andá sempre descalço.
pretu escravizado num podia sê visto usando cuidado de resguardo nos pé. era crime grave desobedecê as lei dos pé no chão. o castigo era recebido na pedra da infâmia, pra tudo qui é gente e num é gente vê. um bão exemplo vale ôro. a conta das chibatada e a força de cada açoite ficava na vontade do dono. os mandamento das lei branca num tem discussão nem pode sê desobedecida

pru qui? us pretu puruguntava

pra modo de num gastá com vestimenta prus pé, um qui otro pretu a respondia

pra modo de marcá us pretu, dizia otro tanto de pretu

pode sê sim e tumbém do otro jeito sê sim, mais, no fim de tudo, é otra meió arrumação pra mostrá qui os pretu num é gente como os branco é, e se num é gente é qualqué coisa qui pode sê escravizado. caminhá com os pé no chão como os bicho inté num tê mais serventia ou coisa nenhuma sê sim

oiava da janela as rua da terra e barro, perto da pedra da infâmia tava uma preta, num lembrava de tê visto antes. aqui do longe, escondida dentro da sombra atrás da janela, sem firmá muntu as vista, dava pra vê a formosura e a firmeza qui ela tinha no tabulêro. tinha veiz qui vozeava pru alto, otras veiz mexericava inté parecê qui num falava, mais parecia qui na volta dela a luz do dia tinha tanto mais atrevimento qui os branco fugia de medo

os branco tinha medo do palavreado dos pretu livre qui vive do otro lado da estrada das água. um palavreado qui num podia se repetido na villa pruqui os branco num sabia entendê, mais a linda muié preta da luz prateada e do tabulêro no chão num aparentava tê medo da covardia e grosseria dos branco. ela fechava os óio e parecia pedí e oferecê ajuda na língua dos pretu livre. um palavreado qui num podia sê dito pruqui os branco ameaçava e urrava qui precisava sê esquecido, Isso é coisa do diabo. É feitiçaria!

num dá pra durumí e num imaginá otra vida sem corrente e sem castigo, sem siô e sem siá pra sempre

Milagres!

Sim, siá.

a siá dona de tudo - qui o siô pedro francisco permitia ela tê - tava parada na porta do quarto do marido. coloquei atenção pra siá. ela oiô com a dignidade qui avisa dos perigo qui as duas vive

Estou esperando o meu café.

A siá Maria Carolina me perdoe, mais o siô Pedro Francisco deixô mandamento pra primêro evacuá todo o quarto e as rôpa da cama usada.

a siá dona de quase tudo – dona de tudo menos do siô pedro francisco qui é dono da siá maria carolina – ficô apertada pelo dito, oiô pra dentro do quarto, E é da janela que a mucama vai fazer a arrumação?

Não, siá, me a desculpe. Abri um lado da janela pra modo de vê meió o serviço e extraviei os óio nos movimento da rua.

ela examinava com cautela o quarto, Nada parece ter acontecido, ou tudo foi apagado ou a siá fez qui num viu o cesto no chão com a trôxa das rôpa e os fruto pegajoso dos jorro de mel qui só num engravida as trôxa branca

continuei parada, nas mão dessa preta as rôpa nova pra cama. a siá num sabia qui o siô dono de tudo – e dela, tumbém  – durumiu na casa. os dois tem quarto separado, assim os horário e as vontade tão diferente um dotro num atrapaiava o descanso qui é merecido um dotro. era as palavra usada pelo siô pedro quando queria fazê as própria vontade de usá a cama com descaso da siá maria, qui parecia num sabê qui nunca ia sê mais qui era, uma sombra. e nunca seria a sombra predileta, mais era a sombra dona de quase tudo. num sei se é só isso qui as muié branca qué, mais é só isso qui os hôme qué tê: uma sombra pra se refrescá sem tormento e com afobação. sê muié é munta sina, mais sê muié escravizada é num tê um destino de sorte, é sê obrigada vivê e morrê sem otra sina qui a servidão. isso é o pió da tristeza qui desatina e entristece o espiritu, inté ele vomitá os tijolo da dô desperdiçada

na noite qui passô, siá maria carolina num desistiu de tê o acompanhamento do siô seu esposo. a escuridão da noite já tinha entrado no sobrado, o acendedô da iluminação das rua já fazia muntu qui acendia as lanterna com sua tocha de fogo, quando a siá ordenô os último arranjo pra uma das preta escravizada da família, eu, Milagres!

Aqui, siá Maria Carolina.

Vou me retirar para o meu quarto. Logo que você e a Sebastiana terminarem as tarefas de limpar e guardar, venha me ajudar.

Sim, siá.

ela se foi pro quarto, eu me fui pra sebastiana. a cantoria se soltô, Cheguei, preta Tiana!

Ué! Pensei qui só um milagre pra fazê ocê se chegá pra cá.

Inté parece... peguei nos pano de secá pra guardá, ela dançava os passo de toque na pia de lavá, eu caminhava os passo de Mãe África pra lá e cá


Oyá tem coroa de lôro
quando sopra
bambu enverga 

Iansã tem uma taça de ôro
quando sopra
bambu num quebra

era lavá e secá e guardá


Toca o barravento
qui Iansã já vai raiá
mistura agerrê
cabula e ijexá 

Venta, venta Iansã
Eparrey Oyá!

era lavá e secá e guardá


Mensagêro veio dizê
Mãe da África que falá com ocê 

Brinca no vento, Oyá
Borboleta de pai Oxalá
Deusa do raio,
Senhora da morte,
Iansã é o vento da sorte

quando entrei no quarto, siá tava oiando um livrório mais grande qui os otro livro. o livrório ficava na cabecêra da cama, junto da lamparina, Você já leu a Bíblia, Milagres?

U qui é essa bíblia?

abriu o livrório e alisô com as mão a gaiada das fôia. a bem da verdade, era munta gaiada, É um livro muito importante que nos fala do caminho até o céu.

U qui é esse céu?

foi a primêra veiz qui oiô pra mim depois qui entrei no quarto, tava oiando sério, Um lugar muito bonito que Deus Nosso Senhor criou para nos receber de braços abertos.

Us pretu tumbém?

apertô bem o livrório nos braço, Não sei. Acho que sim...

Prus pretu continuá escravizado pelos branco?

Não. Acho que não...

Hum... o céu é diferente daqui? É sortido?

Sim.

E pru qui aqui num pode sê como no céu?

Porque no céu Deus não permite maldade.

Hum... e pru qui ele facilita aqui?

Os homens fazem as maldades pelo seu livre arbítrio.

Num é descuido?

Não.

Hum... o céu deve tá abarrotado dos pretu qui sofre as maldade do arbítrio dos branco. O céu é um lugá prus pretu?

Não sei. Deus Nosso Senhor há de reservar um lugar só para vocês.

Hum... u qui é esse deus?

Alguém muito distinto com muitos poderes que, às vezes, parece gostar da própria preguiça e das suas crises com bocejos de sono.

arregaiêi os óio, a siá parecia muntu braba, mais num sei o certo: se tava com brabeza pro lado de deus ou pro lado do siô pedro

Confesso que me irrita tanta prostração. Outras vezes, é preciso escolher com sensibilidade as palavras para não ferir sua cabeça azul, é quando se mostra egoísta, invejoso e ambicioso... homens tarados por qualquer rabo de saia.

E deus tumbém é tarado?  Num quero esse céu qui parece sê o cemitério dos encantamentos e das imaginação.

voltô firmá as vista, direto nos meu ôio, Não estou falando de Deus ou do sinhô Pedro. Estou reclamando de todos os homens, girô os pé e foi na direção do quarto de banho. o único lugá qui juntava os dois quarto

Milagres, não responde se você não sabe o que dizer... escuta.

engoli as palavra qui já ia saindo. achei meió ajudá siá maria carolina no banho com a língua escondida. sô precavida. já escutei história dos pretu qui ficô sem a língua pruqui o gato branco comeu, Exagere no perfume da flor do campo nas águas. Sinhô Pedro Francisco gosta da cama muito cheirosa.

e ficô pronta, caso o siô fosse lhe fazê uso. coisa qui eu duvidava. em todo caso, o chêro da flô do campo qui quase nunca é apanhada ou semeada espaiô pelo quarto. um camisolão branco e solto sobre o corpo quente e esperançoso. uma sombra bunita, Nada acontecerá se você não escovar meus cabelos.

Num seja purisso, siá...

ela sentô oiando pru espêio e escovei mais qui cem veiz os cabelo cumprido e preto. eles descia inté depois da cintura, Milagres!

U qui foi agora, siá Maria Carolina?

a dona de quase tudo se abraçô no livro das ameça e promessa, depois se colocô com os joêio no chão e os braço na cama, Ajoelha aqui, reza junto comigo. Nada acontece se não rezamos.

dobrei as perna e coloquei os dois joêio no chão, Assim?

Isso, Milagres. Repete comigo: Sinhô perdoa os meus pensamentos ruins. Sinhô perdoa os meus pensamentos ruins.

fechei os óio pra dizê as palavra qui a siá num conseguia dizê, Siô Pedro Francisco perdoa as imaginação e as intenção da siá Maria Carolina, é a tentação qui precisa se acalmá e o siô precisa ajudá.

O que você está dizendo?

Rezando pru siô Pedro lhe acudi...

ela ergueu os óio e os jôeio

Milagres! É para Deus que rezamos!

rezei mais qui cem veiz pra deus tê dó dos joêio; a língua ficô adormecida. num apanhei, mais foi um quase de nada qui num deixô ela soltá a raiva em mim. depois, ajudei a siá deitá na cama vazia. otra noite qui durumiu sem sabê notícia do marido

uma lástima tanto rezamento perdido


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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Bem-aventurados Os Que Não Descem

Machado de Assis


Memórias Póstumas de Brás Cubas








CAPÍTULO XXXIII / BEM-AVENTURADOS OS QUE NÃO DESCEM





O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma. O melhor que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no cérebro. Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espírito, deixou novamente entrar o bichinho, e aí fiquei eu a noite toda a cavar o mistério, sem explicá-lo. 

Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã era límpida e azul, e apesar disso deixei-me ficar, não menos que no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Manhãs bonitas, frescas, convidativas; lá embaixo a família a chamar-me, e a noiva, e o Parlamento, e eu sem acudir a coisa nenhuma, enlevado ao pé da minha Vênus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar o estilo; não havia enlevo, mas gosto, uma certa satisfação física e moral. Queria-lhe, é verdade; ao pé dessa criatura tão singela, filha espúria e coxa, feita de amor e desprezo, ao pé dela sentia-me bem, e ela creio que ainda se sentia melhor ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples égloga. D. Eusébia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade com a conveniência. A filha, nessa primeira explosão da natureza, entregava-me a alma em flor. 

— O senhor desce amanhã? disse-me ela no sábado. 

— Pretendo. 

— Não desça. 

Não desci, e acrescentei um versículo ao Evangelho: — Bem-aventurados os que não descem, porque deles é o primeiro beijo das moças. Com efeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugênia, — o primeiro que nenhum outro varão jamais lhe tomara, e não furtado ou arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma dívida. Pobre Eugênia! Se tu soubesses que ideias me vagavam pela mente fora naquela ocasião! Tu, trêmula de comoção, com os braços nos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo esposo, e eu com os olhos de 1814, na moita, no Vilaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, à tua origem... 

D. Eusébia entrou inesperadamente, mas não tão súbita, que nos apanhasse ao pé um do outro. Eu fui até à janela; Eugênia sentou-se a concertar uma das tranças. Que dissimulação graciosa! que arte infinita e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural, vivo, não estudado, natural como o apetite, natural como o sono. Tanto melhor! D. Eusébia não suspeitou nada.




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Texto-fonte: 
Obra Completa, Machado de Assis, 
Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994. 


Publicado originalmente em folhetins, a partir de março de 1880, na Revista Brasileira.


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O Brasil nação - v1: § 20 – O novo malogro - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim



O Brasil nação volume 1





PRIMEIRA PARTE
SEQUÊNCIAS HISTÓRICAS



capítulo 2
a reação da nacionalidade






§ 20 – O novo malogro




O Brasil, traído em 1822, reagiu num irresistível surto de nacionalidade, e, vibrante nas aspirações de democracia, sustentou uma luta de quase dez anos, contra as pretensões do bragantismo aqui implantado. Lutou potentemente; triunfou, e esse triunfo veio a ter, finalmente, na caligem torpe do segundo império: Como se explica tão sinistra monstruosidade de desenvolvimento político? 

Não será exagerada a expressão sinistra, pois que o liquidar da revolução de 1831 teve efeitos tão decisivos na sorte geral da nação, que até nos parecem definitivos. Que é, em suma, esse lodaçal republicano em que se some o Brasil, senão a continuação, agravada, daquela política de apostasias e transigências, que afogou a luz de 7 de abril no maioridadismo de julho de 1840? Abjurando ideais, mentindo aos programas, por entre mentiras e embustes, ela passou a ser a política dos exclusivos motivos e interesses pessoais. Vergonhosos, infames, os processos republicanos são, apenas, a acentuação do bragantismo, já sem D. João VI, ou Pedro II. É um bragantismo nu, despojado de quaisquer escrúpulos, sem veios de pudor, nem recatos de probidade pessoal, porque a República afrouxou o ultimo freio de escrúpulos, aliás, já bambo no Império: a honestidade de dinheiros públicos. Chegamos, então, à miséria atual. Note-se, no entanto: essa honestidade de antanho não vinha da política bragantina. Muito pelo contrário, e assim o demonstraremos. A essência de bragantismo, transportado para o Brasil, é aquela corrupção e venalidade comentadas por Armitage, indo até a concussão e a moeda falsa: “É tradição constante, que em uma fábrica de moeda falsa, descoberta em Paraopeba, bem petrechada, era principal interessado um muito próximo parente de D. João V” (distrito diamantino). Barbacena, Gameiro e Lecor deram, desde logo, a amostra dos processos, na administração já brasileira. Em oposição a isso, a política genuinamente nacional, foi, desde o começo, intransigentemente proba e honesta em assunto de dinheiro. Pode-se, mesmo, dizer que assim se caracterizou a reação do Brasil contra a herança governamental. José Bonifácio, contraste com a escola de Luiz da Cunha e o Conde dos Arcos, foi o prenunciador dessa reação, em que se modelou a conduta dos políticos brasileiros, intrinsecamente severos e honestos, de Feijó, Lino Coutinho... até Floriano, até Prudente de Moraes... até Buarque de Macedo, Cassiano do Nascimento... Foi a fibra que mais resistiu, em meio a corrupção da política imperial. Ligar essa honestidade dos políticos brasileiros à ação de Pedro II, é a maior injúria que se pode fazer a nossa história, sendo, também, a mais deslavada. mentira, porque, na realidade, foi a política do segundo Império que preparou e cultivou a corrupção, cujo último termo é isso de que nos envergonhamos hoje. A República chegou ao estado de abjeção ainda com pessoal educado e preparado na vigência do Império. Se, então, houvesse fé, convicções, verdade, princípios de coerência, probidade política, sinceridade e virtudes de atividade pública, é evidente que, nas mesmas gerações, não teríamos a miséria de quinze anos depois. O Império chegara à situação de que o imperador era a mola de tudo, era o único honesto, timbrando em mostrar que, honesto, era o cinto de castidade dos seus políticos. E a vida pública veio à condição de que, faltando o cinto, os homens não se conteriam mais, em nada. É uma marcha natural: transigir, dissimular, abjurar, mentir, desprezar princípios e ideais; condescender, humilhar-se, trair; sacrificar a pátria a motivos pessoais... fartar-se e furtar. A grande viagem de decadência se fez sob a cúpula do Império. 

A resolução da crise de 1831 degradada na revolução palaciana de 1840, e as subsequentes infâmias contra os restos de verdadeira democracia, mostram-nos como, finalmente, o espírito do Estado português se implantou no Brasil, e venceu o espírito de brasileirismo, em que se fizeram as revoluções de – 1817, 24, 31 37, 42, 48, 89. É fácil compreender o fracasso de então, contanto que se considerem alguns princípios elementares em sociologia, e de que resulta esta verdade: o bragantismo, único regime de governo conhecido no Brasil até 1831, empestara tanto as camadas superiores e as gentes governantes que, mesmo através de uma revolução, os que chegavam até o governo, infeccionavam-se, desnaturavam-se, e já não eram mais expressões legítimas das puras necessidades nacionais, nem vozes próprias às suas aspirações. Empeçonhada, a zona dos governantes comunica aos mesmos revolucionários os defeitos que lhe são próprios, e eles deixam, então, de corresponder aos motivos políticos com que venceram, para transformarem-se em monstruosos instrumentos da tradição dirigente em que mergulham. Tal aconteceu com a queda do primeiro Império: no liquidar da situação revolucionária, em vez de ser a nação uma individualidade social a afirmar qualidades que lhe fossem próprias, e reivindicar novos destinos, era um cerco de coxos desconjuntados, para suínos, só empenhados em conservar o sujo do local de que se apossaram. Temerosa de si mesma, a revolução, consagrada na política dos dominantes, era a negação da véspera revolucionária, torpe atentado conservador – contra tudo que se prometera à nação; nega-se a solidariedade das tradições nacionais e das aspirações democráticas, foge-se ao que deve ser, e quebra-se definitivamente o surto da regeneração, porque, definidos – exaltados e moderados, o que se segue se reduz a um conflito de acampamento, e que é, ao mesmo tempo, desbarato de energias, contestação de parceiros, empenhados, agora, em suplantarem-se mutuamente. E a nacionalidade teve de lutar contra si mesma. Ora, a nacionalidade é a própria alma de um povo capaz de ser soberano; exprime a tradição em que e se orienta, para manter a realidade da sua existência moral. Não é, por conseguinte, coisa abstrata, e que possa ficar esquecida, quando uma sociedade política defende a integridade dos seus interesses. 

A nacionalidade, mesmo por entre revoluções, é a legítima continuidade de um povo; nela está a ordem positiva, que é a ordem ativa, racionalidade na sucessão das crises, identidade dos fins, sucessão dos motivos. Tradição – consciência da nacionalidade – é, para a coletividade, como a consciência lúcida para o indivíduo. Quando a pessoa não chega a reconhecer-se como identidade em desenvolvimento, isso é, como uma pessoa, como uma individualidade moral, isto significa desequilíbrio, quebra da unidade mental. No mundo antigo, onde não havia equilíbrio de nações, também não havia nacionalidades em função: a humanidade eram grupos, conduzidos pelo grande império do momento. Se a vida moderna elevou os conceitos de liberdade e de justiça, é porque colocou os indivíduos em face uns dos outros, em condições de poderem reivindicar a igualdade política, e fez um relativo equilíbrio nos grupos nacionais, de sorte que eles reclamam os mesmos direitos de soberania. Na consciência individual, pode haver contraste de tendências; pode haver, mesmo, conflito de motivos; mas a fórmula de síntese se conserva, e cada ação vem a ser, no momento, a expressão de uma resultante, que é o próprio caráter. Tal acontece na atividade de uma nação moderna: cada agitação é uma realidade de desenvolvimento, em ponderação de motivos, que são as correntes sociais; e a política de cada momento é a expressão resultante das verdadeiras solicitações nacionais. Se, por insistentes desvirtuamentos, não se permite que as tendências íntimas da nacionalidade venham a ter expressão, as suas energias essenciais não se expandem, e o povo está condenado a não manter o caráter em que se definiu nacionalmente: terá de desaparecer noutras tradições políticas. Uma nação evolui, como evolui cada pessoa – mantendo a essência de si mesma. Transformam-se os processos e recursos; sucedem-se os motivos para satisfação de uma virtualidade; e a evolução se faz como o ajuste entre o gênio nacional e a experiência adquirida. Quaisquer que sejam as diferenças, o francês de hoje é aquele mesmo com quem Luiz XI impôs a França aos aristocratas que a abafavam; como o inglês é o mesmo com quem os Tudors construíram a nação que pôde resistir à derrota na Guerra dos cem anos, sem perder o seu lugar no mundo ocidental. A prova definitiva da realidade de uma nação é ter a sua evolução própria, em relação com as suas tradições.




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"Morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."

Cecília Costa Junqueira



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O Brasil nação: vol. I / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 332 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 35).


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O Brasil nação - v1: § 21 – Revolução deve ser revolução... - Manoel Bomfim