Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
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CAPÍTULO I
A MULHER CASADA
Brilhante, culta, inteligente, ardente, Mlle de Tuyle espantava a Europa; assustava os pretendentes; recusou contudo mais de doze, mas outros, talvez mais aceitáveis, recuaram. 0 único homem que a interessava, Hermenches, não havia como pensar em tê-lo por marido. Manteve, com ele, correspondência durante doze anos, mas essa amizade, seus estudos, acabaram não lhe bastando mais; "virgem e mártir" é um pleonasmo, dizia; e as limitações da vida em Zuylen eram-lhe insuportáveis; queria tornar-se mulher, ser livre; com 30 anos, desposou M. de Charrière; apreciava a "honestidade de coração" que encontrava nele, "seu espírito de justiça" e resolveu a princípio fazer dele "o marido mais ternamente amado do mundo". Benjamin Constant contará mais tarde que ela "o atormentara muito para imprimir-lhe um ritmo igual ao seu"; não conseguiu vencer a fleuma metódica dele; encerrada, em Colombier, entre esse marido honesto e melancólico, um sogro senil, duas cunhadas sem encantos, Mme de Charrière começou a entediar-se. A sociedade provinciana de Neufchâtel desagradava-lhe pelo espírito estreito e a chatice; passava os dias lavando a roupa da casa e as noites a jogar comète. Um jovem passou pela sua vida, rapidamente, e deixou-a mais só ainda do que antes. "Valendo-se do tédio como musa", escreveu quatro romances sobre os costumes de Neufchâtel, e o círculo de amigos diminuiu mais ainda. Em uma de suas obras, ela pinta a prolongada desgraça de um casamento de uma mulher viva e sensível com um homem bom mas frio e pesadão: a vida conjugal apresentava-se a ela como uma sequência de mal-entendidos, decepções, mesquinhos rancores. Era visível que ela própria era infeliz; caiu doente, restabeleceu-se, retornou à longa solidão de sua vida a dois. "É evidente que a rotina da vida em Colombier e a doçura negativa e cordata do marido abriam vazios que nenhuma atividade podia encher", escreve seu biógrafo, Foi então que surgiu Benjamin Constant que a ocupou apaixonadamente durante oito anos. Quando, demasiado altiva para disputá-lo a Mme de Staêl, renunciou a ele, seu orgulho consolidou-se. Escrevera-lhe um dia: "Ficar em Colombier era-me odioso e nunca lá voltava sem desespero. Não quis mais deixá-lo e tornei-o suportável". Ali se fechou e não saiu de seu jardim durante quinze anos: assim aplicava ela o preceito estoico: procurar dominar o coração ao invés da sorte. Prisioneira, só podia encontrar a liberdade escolhendo sua prisão. "Aceitava a presença de M. de Charrière a seu lado como aceitava a dos Alpes", diz Scott. Mas era demasiado lúcida para não compreender que essa resignação não passava afinal de uma ilusão; tomou-se tão inacessível, tão dura - adivinhavam-na tão desesperada que assustava. Abrira sua casa aos emigrados que afluíam a Neufchâtel, protegia-os, socorria-os, orientava-os; escrevia obras elegantes e desencantadas que Hüber, filósofo alemão na miséria, traduzia; prodigalizava seus conselhos a um grupo de jovens senhoras e ensinava Locke a Henriette, sua predileta; gostava de desempenhar o papel de providência junto aos camponeses dos arredores; evitando dia a dia mais cuidadosamente a sociedade de Neufchâtel, restringia orgulhosamente sua vida; "esforçava-se tão somente por criar rotina e suportá-la. Mesmo seus gestos de infinita bondade comportavam algo assustador, a tal ponto era enregelante o sangue-frio que os determinava... Deu a impressão aos que a cercavam de uma sombra que passa num quarto vazio" (G. Scott). Em raras ocasiões — uma visita, por exemplo — a chama de vida acendia-se. Mas "os anos passavam de um modo árido. M. e Mme de Charrière envelheciam juntos, separados entretanto por um mundo, e mais de um visitante, dando um suspiro de alívio ao deixar a casa, teve a impressão de escapar de um túmulo fechado... A pêndula batia seu tique-taque, M. de Charrière, embaixo, entregava-se a suas matemáticas; da granja subia o som ritmado dos manguais... A vida continuava embora os manguais lhe tivessem arrancado o grão. .. Uma vida de pequenos fatos, desesperadamente reduzidos a encher as fendas do dia, eis a que chegara essa Zélida que detestava a mesquinharia".
Dir-se-á talvez que a vida de M. de Charrière não foi muito
mais alegre que a da mulher; escolhera-a, pelo menos; e parece
que convinha à sua mediocridade. Imagine-se porém um homem
dotado das qualidades excepcionais da Bela de Tuyle: é certo
que não se teria consumido na árida solidão de Colombier. Teria
conquistado seu lugar no mundo em que houvesse empreendido,
lutado, agido, vivido. Quantas mulheres, tragadas pelo casamento,
foram, no dizer de Stendhal, "perdidas para a humanidade"!
Disseram que o casamento diminui o homem: é muitas vezes
verdade; mas aniquila sempre a mulher. O próprio Marcel
Prévost, defensor do casamento, o admite:
Cem vezes, ao reencontrar ao fim de alguns anos uma jovem
mulher que eu conhecera solteira, ficava impressionado com a banalidade de seu caráter, com a insignificância de sua vida.
Minha existência é de uma tal banalidade, é uma morte. Ao
passo que ele tem uma vida plena, uma vida interior, talento e imortalidade (23-12-1863).
Dias antes deixara escapar outra queixa:
Como poderia uma mulher contentar-se com ficar sentada durante
todo o dia, com uma agulha na mão, ou a tocar piano, sozinha,
absolutamente só, se pensa que o marido não a ama e a reduziu para
sempre à escravidão? (9 de maio de 1863).
Onze anos mais tarde escreve estas palavras que, ainda agora,
muitas mulheres casadas subscrevem (22-10-1875):
Hoje, amanhã, meses, anos, é sempre a mesma coisa. Acordo de manhã e não tenho coragem de sair da cama. Quem me ajudará a me sacudir? Que é que me espera? Sim, eu sei, o cozinheiro vai chegar e depois será a vez de Niannia. Em seguida vou sentar-me em silêncio com um bordado inglês, depois, gramática e escalas. Ao cair da noite voltarei a meu bordado inglês, enquanto titia e Pierrre farão suas eternas paciências...
A queixa de Mme Proudhon tem exatamente o mesmo tom. "Você tem suas ideias, dizia ao marido. Mas eu, quando você trabalha, quando os filhos estão na escola, não tenho nada."
Muitas vezes, durante os primeiros anos, a mulher cultiva
ilusões, tenta admirar incondicionalmente o marido, amá-lo sem
restrições, sentir-se indispensável a ele e aos filhos; depois, seus
verdadeiros sentimentos se revelam; percebe que o marido poderia viver sem ela, que os filhos são feitos para se desprenderem
dela: são sempre mais ou menos ingratos. O lar não a protege
mais contra sua liberdade vazia; reencontra-se solitária, abandonada, um objeto; não sabe o que fazer de si mesma. Afeições,
hábitos podem ser-lhe de grande auxílio, não uma salvação.
Todas as escritoras sinceras notaram essa melancolia que habita
o coração das "mulheres de trinta anos"; é um traço comum às
heroínas de Katherine Mansfield, de Dorothy Park, de Virgínia
Woolf. Cécile Sauvage, que cantou tão alegremente, no início
da vida, o casamento e a maternidade, exprime posteriormente
uma delicada angústia. É de notar, comparando o número
de suicídios femininos perpetrados por celibatárias e mulheres
casadas, que estas se acham solidamente protegidas contra o desgosto de viver entre 20 e 30 anos (principalmente entre 25 e 30), mas não nos anos seguintes. "Quanto ao casamento, escreve Halbwachs [1] , protege as mulheres da província tanto quanto
as de Paris, principalmente até os trinta anos, mas de menos em
menos nas idades seguintes."
O drama do casamento não está no fato de que não assegura
à mulher a felicidade que promete — não há seguro de felicidade — e sim no fato de que a mutila; obriga a mulher à
repetição e à rotina. Os vinte primeiros anos da vida feminina
são de extraordinária riqueza; a mulher passa pelas experiências
da menstruarão, da sexualidade, do casamento, da maternidade;
descobre o mundo em seu destino. Com vinte anos, dona de
um lar, presa para sempre a um homem, com um filho nos braços, eis a vida acabada definitivamente. As ações verdadeiras,
o verdadeiro trabalho são apanágio do homem; ela só tem ocupações que são por vezes exaustivas mas que não a satisfazem.
Louvaram-lhe a renúncia, a dedicação; mas parece-lhe muitas
vezes inteiramente vão consagrar-se "ao cuidado de dois seres
quaisquer até o fim da vida deles". É muito bonito esquecer-se,
cumpre porém saber para quem e por quê. O pior é que até
sua dedicação se apresenta como importuna; converte-se aos olhos
do marido era uma tirania a que ele tenta escapar; é no entanto
ele que a impõe à mulher como sua suprema e única justificação.
Desposando-a, obriga-a a entregar-se totalmente a ele; não aceita
a obrigação recíproca, que é aceitar o dom. As palavras de
Sofia Tolstoi: "Vivo por ele, para ele; exijo a mesma coisa
para mim", são certamente revoltantes; mas Tolstoi exigia com
efeito que ela só vivesse por ele e para ele, atitude que só a reciprocidade pode justificar. É a duplicidade do marido que destina a mulher a uma infelicidade de que ele se queixa de ser
vitima em seguida. Assim como na cama ele a quer quente e
fria a um tempo, ele a reclama totalmente entregue e no entanto
sem peso; pede que o amarre ao chão e que o deixe livre, que
lhe garanta a repetição monótona dos dias e que não o aborreça,
que esteja sempre presente mas não seja importuna; quer tê-la
inteiramente para ele mas não lhe pertencer; viver junto mas
continuar sozinho. Assim, desde o momento em que a desposa,
mistifica-a. Ela passa a existência medindo a extensão dessa traição; O que diz D. H. Lawrence do amor sexual é geralmente
valido: a união de dois seres humanos é destinada ao malogro, se constitui um esforço para se completarem mutuamente, o que
supõe uma mutilação original; seria preciso que o casamento fosse a união de duas existências autônomas, não uma abdicação,
uma anexação, uma fuga, um remédio. É o que compreende Nora
(Ibsen, A Casa das Bonecas) quando decide que, antes de poder
ser uma esposa e mãe, precisa tornar-se uma pessoa. Seria necessário que o casal não se considerasse como uma comunidade,
uma célula inconsútil, e sim que o indivíduo fosse, enquanto
indivíduo, integrado numa sociedade no seio da qual pudesse
desabrochar sem ajuda; ser-lhe-ia então permitido, dentro de
uma generosidade pura, criar laços com outro indivíduo igualmente adaptado à coletividade, laços que teriam fundamentos no
reconhecimento de duas liberdades.
Esse casal equilibrado não é uma utopia; existe por vezes
dentro do quadro do casamento, o mais das vezes fora. Alguns
são unidos por um grande amor sexual que os deixa livres em
suas amizades e ocupações; outros são ligados por uma amizade
que não entrava sua liberdade sexual; há, mais raramente, os
que são ao mesmo tempo amigos e amantes, mas sem procurar
um no outro sua razão exclusiva de viver. Numerosos matizes
são possíveis nas relações de um homem com uma mulher: na
camaradagem, no prazer, na confiança, na ternura, na cumplicidade, no amor, podem ser um para o outro a mais fecunda
fonte de alegria, de riqueza, de força que se propõe um ser humano. Não são os indivíduos os responsáveis pelo malogro do
casamento: é — ao contrário do que pretendem Bonald, Comte,
Tolstoi — a própria instituição, desde a origem, pervertida. Declarar que um homem e uma mulher, que não se escolheram
sequer, devem bastar-se de todas as maneiras ao mesmo tempo
durante toda a vida é uma monstruosidade que engendra necessariamente hipocrisia, mentira, hostilidade, infelicidade.
A forma tradicional do casamento vem sofrendo modificações,
mas o casamento continua ainda a constituir uma opressão que
os dois cônjuges sentem de maneira diferente. Considerando-se
apenas os direitos abstratos de que gozam, são ambos quase iguais
hoje; escolhem-se mais livremente do que outrora, podem muito
mais facilmente separar-se, sobretudo na América do Norte onde o
divórcio é comum; há entre os esposos menor diferença de idade
e de cultura do que antes; o marido reconhece com maior boa
vontade a autonomia que a mulher reivindica; algumas vezes partilham em igualdade de condições os cuidados da casa; suas distrações são comuns: camping, bicicleta, natação etc. Ela não passa os dias a aguardar a volta do marido: pratica esporte, filia-se a
associações, a clubes, tem ocupações fora de casa, tem até, às
vezes, uma pequena atividade que lhe dá algum dinheiro. Muitos
jovens casais dão a impressão de uma perfeita igualdade. Mas,
enquanto o homem conserva a responsabilidade econômica do
casal isso não passa de ilusão. Ele é quem fixa o domicílio
conjugai segundo as exigências de seu trabalho: ela acompanha-o
da província para Paris, de Paris para a província, às colônias,
ao estrangeiro; o nível de vida estabelece-se de acordo com o que
ele ganha; o ritmo dos dias, das semanas do ano regula-se em
obediência às ocupações dele e de sua profissão dependem as
relações e amizades. Estando mais positivamente integrado na
sociedade do que a mulher, conserva o marido a direção do casal
nas coisas intelectuais, políticas e morais. O divórcio para a
mulher é apenas uma possibilidade abstrata, em não tendo ela
meios de ganhar a própria vida: se na América do Norte o alimony é um pesado encargo para o homem, em França a sorte
da mulher, da mãe abandonada com uma mesada irrisória, é um
escândalo. Mas a desigualdade profunda vem do fato de que o
homem se realiza concretamente no trabalho ou na ação, ao passo
que, para a esposa, enquanto esposa, a liberdade tem apenas um
aspecto negativo: a situação das jovens norte-americanas lembra
a das romanas emancipadas da decadência. Vimos que estas tinham
a escolha entre dois tipos de conduta: umas perpetuavam o modo
de vida e as virtudes das avós; outras passavam a vida numa
agitação vã; assim também numerosas norte-americanas permanecem "mulheres do lar" segundo o modelo tradicional; outras,
em sua maioria, não fazem senão dissipar suas forças e seu tempo.
Em França, por maior que seja a boa vontade do marido, os
encargos do lar não acabrunham menos que outrora a mulher
casada, desde que se torne mãe.
É lugar-comum declarar que nos lares modernos, e principalmente nos Estados Unidos, a mulher reduz o homem à escravidão. O fato não é novo. Desde os gregos os homens se queixam da tirania de Xantipa; a verdade é que a mulher intervém
agora em terrenos que lhe eram outrora proibidos; conheço, por
exemplo, mulheres de estudantes que dedicam ao êxito de seu
homem uma obstinação frenética; regulam o emprego do tempo,
o regime, vigiam o trabalho dele, coíbem-lhe as distrações, pouco
falta para que o fechem a chave. É verdade também que o homem se encontra mais desarmado do que outrora ante esse despotismo; ele reconhece direitos abstratos à mulher e compreende que ela só os pode tornar concretos através dele: é a expensas
próprias que ele compensa a impotência, a esterilidade a que a
mulher é condenada. Para que na associação de ambos se realize uma aparente igualdade, é preciso que seja ele quem dê mais,
pelo fato de possuir mais. Porém, precisamente, se ela recebe,
toma, exige, é porque é a mais pobre. A dialética do senhor e
do escravo encontra aqui sua aplicação mais concreta: oprimindo,
torna-se o opressor oprimido. É por sua própria soberania que
os homens estão encadeados; é porque só eles ganham dinheiro
que a esposa exige cheques, porque só eles exercem uma profissão
é que a esposa exige que tenham êxito, porque só eles encarnam
a transcendência é que ela a quer roubar-lhe fazendo seus os
projetos e os êxitos do marido. Inversamente, a tirania exercida
pela mulher não faz mais do que manifestar sua dependência:
ela sabe que o êxito do casal, seu futuro, sua felicidade e justificação dependem do outro; se procura com afinco submetê-lo à
sua vontade, é porque está alienada nele. É de sua fraqueza que
faz uma arma; mas na realidade é fraca. A escravidão conjugal é mais quotidiana e mais irritante para o marido; mas é
mais profunda para a mulher; a mulher que retém o marido junto
de si durante horas porque se aborrece, cerceia-o e pesa-lhe; mas,
afinal de contas, ele pode mais facilmente viver sem ela do que
ela sem ele; se a abandona, ela é que fica com a vida arruinada.
A grande diferença está em que, na mulher, a dependência é interiorizada: ela é escrava, mesmo quando se conduz com aparente
liberdade; ao passo que o homem é essencialmente autônomo e
é de fora que se acorrenta. Se tem a impressão de ser a vítima,
é porque os encargos que suporta são mais evidentes: a mulher
alimenta-se dele como um parasito, e um parasito não é um senhor
triunfante. Em verdade, assim como biologicamente machos e
fêmeas nunca são vítimas um do outro mas, juntos, da espécie,
assim também os esposos suportam juntos a opressão de uma instituição que não criaram. Se se diz que os homens oprimem as
mulheres, indigna-se o marido; ele é que se sente oprimido: êle
o é. Mas, na realidade, é o código masculino, é a sociedade elaborada pelos homens em obediência a seu interesse, que definem
a condição feminina sob uma forma que é, presentemente, uma
fonte de tormentos para ambos os sexos.
É tendo em vista o interesse comum deles que seria preciso
modificar a situação, proibindo que o casamento seja para a mulher uma "carreira". Os homens que se declaram antifeministas,
a pretexto de que "as mulheres já são bastante infernais, assim como são", raciocinam sem muita lógica: é exatamente porque o
casamento faz delas "fêmeas de louva-a-deus", "sanguessugas",
"megeras" que é necessário modificar o casamento e, consequentemente, a condição feminina em geral. A mulher pesa tão fortemente ao homem porque lhe proibiram de se apoiar em si
mesma: ele se libertará libertando-a, isto é, dando-lhe alguma
coisa que fazer neste mundo.
Há jovens mulheres que já tentam conquistar essa liberdade
positiva; mas raras são as que perseveram durante muito tempo
em seus estudos ou sua profissão; o mais das vezes sabem que
o interesse de seu trabalho será sacrificado à carreira do marido;
só trarão para o lar um salário suplementar; só se empenham
timidamente numa empresa que não as arranque à servidão conjugal. As que têm uma profissão séria não tiram dela os mesmos
benefícios sociais que os homens: as mulheres de advogados, por
exemplo, têm direito a uma pensão quando do falecimento do marido, mas recusou-se às advogadas o direito simétrico de uma
pensão ao marido no caso de falecimento delas. Isso significa
que não se considera que a mulher que trabalha sustente o casal
em pé de igualdade com o homem. Há mulheres que encontram em sua profissão uma independência verdadeira; mas são
numerosas aquelas para quem o trabalho "fora de casa" não representa no quadro do casamento senão uma fadiga a mais. Aliás,
amiúde, o nascimento de um filho obriga-as a confinarem-se em
seu papel de matrona; é atualmente muito difícil conciliar trabalho com maternidade.
É precisamente o filho que, segundo a tradição, deve assegurar à mulher uma autonomia concreta que a dispense de se
dedicar a qualquer outro fim. Se como esposa não é um indivíduo completo, ela se torna esse indivíduo como mãe: o filho
é sua alegria e sua justificação. É por ele que ela acaba de se
realizar sexual e socialmente; é, pois, por ele que a instituição
do casamento assume um sentido e atinge seu objetivo. Examinemos, portanto, essa suprema etapa do desenvolvimento da
mulher.
continua página 240...
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Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (15)
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Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"
[1] Les Causes du Suicide, págs. 195-239. A observação citada
aplica-se a França e à Suíça mas não à Hungria nem ao Oldenburgo.
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