terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (15)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida



O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR



SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________



CAPÍTULO I
A   MULHER CASADA

continuando...

     Brilhante, culta, inteligente, ardente, Mlle de Tuyle espantava a Europa; assustava os pretendentes; recusou contudo mais de doze, mas outros, talvez mais aceitáveis, recuaram. 0 único homem que a interessava, Hermenches, não havia como pensar em tê-lo por marido. Manteve, com ele, correspondência durante doze anos, mas essa amizade, seus estudos, acabaram não lhe bastando mais; "virgem e mártir" é um pleonasmo, dizia; e as limitações da vida em Zuylen eram-lhe insuportáveis; queria tornar-se mulher, ser livre; com 30 anos, desposou M. de Charrière; apreciava a "honestidade de coração" que encontrava nele, "seu espírito de justiça" e resolveu a princípio fazer dele "o marido mais ternamente amado do mundo". Benjamin Constant contará mais tarde que ela "o atormentara muito para imprimir-lhe um ritmo igual ao seu"; não conseguiu vencer a fleuma metódica dele; encerrada, em Colombier, entre esse marido honesto e melancólico, um sogro senil, duas cunhadas sem encantos, Mme de Charrière começou a entediar-se. A sociedade provinciana de Neufchâtel desagradava-lhe pelo espírito estreito e a chatice; passava os dias lavando a roupa da casa e as noites a jogar comète. Um jovem passou pela sua vida, rapidamente, e deixou-a mais só ainda do que antes. "Valendo-se do tédio como musa", escreveu quatro romances sobre os costumes de Neufchâtel, e o círculo de amigos diminuiu mais ainda. Em uma de suas obras, ela pinta a prolongada desgraça de um casamento de uma mulher viva e sensível com um homem bom mas frio e pesadão: a vida conjugal apresentava-se a ela como uma sequência de mal-entendidos, decepções, mesquinhos rancores. Era visível que ela própria era infeliz; caiu doente, restabeleceu-se, retornou à longa solidão de sua vida a dois. "É evidente que a rotina da vida em Colombier e a doçura negativa e cordata do marido abriam vazios que nenhuma atividade podia encher", escreve seu biógrafo, Foi então que surgiu Benjamin Constant que a ocupou apaixonadamente durante oito anos. Quando, demasiado altiva para disputá-lo a Mme de Staêl, renunciou a ele, seu orgulho consolidou-se. Escrevera-lhe um dia: "Ficar em Colombier era-me odioso e nunca lá voltava sem desespero. Não quis mais deixá-lo e tornei-o suportável". Ali se fechou e não saiu de seu jardim durante quinze anos: assim aplicava ela o preceito estoico: procurar dominar o coração ao invés da sorte. Prisioneira, só podia encontrar a liberdade escolhendo sua prisão. "Aceitava a presença de M. de Charrière a seu lado como aceitava a dos Alpes", diz Scott. Mas era demasiado lúcida para não compreender que essa resignação não passava afinal de uma ilusão; tomou-se tão inacessível, tão dura - adivinhavam-na tão desesperada que assustava. Abrira sua casa aos emigrados que afluíam a Neufchâtel, protegia-os, socorria-os, orientava-os; escrevia obras elegantes e desencantadas que Hüber, filósofo alemão na miséria, traduzia; prodigalizava seus conselhos a um grupo de jovens senhoras e ensinava Locke a Henriette, sua predileta; gostava de desempenhar o papel de providência junto aos camponeses dos arredores; evitando dia a dia mais cuidadosamente a sociedade de Neufchâtel, restringia orgulhosamente sua vida; "esforçava-se tão somente por criar rotina e suportá-la. Mesmo seus gestos de infinita bondade comportavam algo assustador, a tal ponto era enregelante o sangue-frio que os determinava... Deu a impressão aos que a cercavam de uma sombra que passa num quarto vazio" (G. Scott). Em raras ocasiões — uma visita, por exemplo — a chama de vida acendia-se. Mas "os anos passavam de um modo árido. M. e Mme de Charrière envelheciam juntos, separados entretanto por um mundo, e mais de um visitante, dando um suspiro de alívio ao deixar a casa, teve a impressão de escapar de um túmulo fechado... A pêndula batia seu tique-taque, M. de Charrière, embaixo, entregava-se a suas matemáticas; da granja subia o som ritmado dos manguais... A vida continuava embora os manguais lhe tivessem arrancado o grão. .. Uma vida de pequenos fatos, desesperadamente reduzidos a encher as fendas do dia, eis a que chegara essa Zélida que detestava a mesquinharia".  
     Dir-se-á talvez que a vida de M. de Charrière não foi muito mais alegre que a da mulher; escolhera-a, pelo menos; e parece que convinha à sua mediocridade. Imagine-se porém um homem dotado das qualidades excepcionais da Bela de Tuyle: é certo que não se teria consumido na árida solidão de Colombier. Teria conquistado seu lugar no mundo em que houvesse empreendido, lutado, agido, vivido. Quantas mulheres, tragadas pelo casamento, foram, no dizer de Stendhal, "perdidas para a humanidade"! Disseram que o casamento diminui o homem: é muitas vezes verdade; mas aniquila sempre a mulher. O próprio Marcel Prévost, defensor do casamento, o admite:

Cem vezes, ao reencontrar ao fim de alguns anos uma jovem mulher que eu conhecera solteira, ficava impressionado com a banalidade de seu caráter, com a insignificância de sua vida.
 
     São palavras idênticas às que encontramos cm Sofia Tolstoi, seis meses depois das núpcias. 

Minha existência é de uma tal banalidade, é uma morte. Ao passo que ele tem uma vida plena, uma vida interior, talento e imortalidade (23-12-1863). 

     Dias antes deixara escapar outra queixa:

Como poderia uma mulher contentar-se com ficar sentada durante todo o dia, com uma agulha na mão, ou a tocar piano, sozinha, absolutamente só, se pensa que o marido não a ama e a reduziu para sempre à escravidão? (9 de maio de 1863).

     Onze anos mais tarde escreve estas palavras que, ainda agora, muitas mulheres casadas subscrevem (22-10-1875):  

Hoje, amanhã, meses, anos, é sempre a mesma coisa. Acordo de manhã e não tenho coragem de sair da cama. Quem me ajudará a me sacudir? Que é que me espera? Sim, eu sei, o cozinheiro vai chegar e depois será a vez de Niannia. Em seguida vou sentar-me em silêncio com um bordado inglês, depois, gramática e escalas. Ao cair da noite voltarei a meu bordado inglês, enquanto titia e Pierrre farão suas eternas paciências... 

     A queixa de Mme Proudhon tem exatamente o mesmo tom. "Você tem suas ideias, dizia ao marido. Mas eu, quando você trabalha, quando os filhos estão na escola, não tenho nada."
     Muitas vezes, durante os primeiros anos, a mulher cultiva ilusões, tenta admirar incondicionalmente o marido, amá-lo sem restrições, sentir-se indispensável a ele e aos filhos; depois, seus verdadeiros sentimentos se revelam; percebe que o marido poderia viver sem ela, que os filhos são feitos para se desprenderem dela: são sempre mais ou menos ingratos. O lar não a protege mais contra sua liberdade vazia; reencontra-se solitária, abandonada, um objeto; não sabe o que fazer de si mesma. Afeições, hábitos podem ser-lhe de grande auxílio, não uma salvação. Todas as escritoras sinceras notaram essa melancolia que habita o coração das "mulheres de trinta anos"; é um traço comum às heroínas de Katherine Mansfield, de Dorothy Park, de Virgínia Woolf. Cécile Sauvage, que cantou tão alegremente, no início da vida, o casamento e a maternidade, exprime posteriormente uma delicada angústia. É de notar, comparando o número de suicídios femininos perpetrados por celibatárias e mulheres casadas, que estas se acham solidamente protegidas contra o desgosto de viver entre 20 e 30 anos (principalmente entre 25 e 30), mas não nos anos seguintes. "Quanto ao casamento, escreve Halbwachs [1] , protege as mulheres da província tanto quanto as de Paris, principalmente até os trinta anos, mas de menos em menos nas idades seguintes."
     O drama do casamento não está no fato de que não assegura à mulher a felicidade que promete — não há seguro de felicidade — e sim no fato de que a mutila; obriga a mulher à repetição e à rotina. Os vinte primeiros anos da vida feminina são de extraordinária riqueza; a mulher passa pelas experiências da menstruarão, da sexualidade, do casamento, da maternidade; descobre o mundo em seu destino. Com vinte anos, dona de um lar, presa para sempre a um homem, com um filho nos braços, eis a vida acabada definitivamente. As ações verdadeiras, o verdadeiro trabalho são apanágio do homem; ela só tem ocupações que são por vezes exaustivas mas que não a satisfazem. Louvaram-lhe a renúncia, a dedicação; mas parece-lhe muitas vezes inteiramente vão consagrar-se "ao cuidado de dois seres quaisquer até o fim da vida deles". É muito bonito esquecer-se, cumpre porém saber para quem e por quê. O pior é que até sua dedicação se apresenta como importuna; converte-se aos olhos do marido era uma tirania a que ele tenta escapar; é no entanto ele que a impõe à mulher como sua suprema e única justificação. Desposando-a, obriga-a a entregar-se totalmente a ele; não aceita a obrigação recíproca, que é aceitar o dom. As palavras de Sofia Tolstoi: "Vivo por ele, para ele; exijo a mesma coisa para mim", são certamente revoltantes; mas Tolstoi exigia com efeito que ela só vivesse por ele e para ele, atitude que só a reciprocidade pode justificar. É a duplicidade do marido que destina a mulher a uma infelicidade de que ele se queixa de ser vitima em seguida. Assim como na cama ele a quer quente e fria a um tempo, ele a reclama totalmente entregue e no entanto sem peso; pede que o amarre ao chão e que o deixe livre, que lhe garanta a repetição monótona dos dias e que não o aborreça, que esteja sempre presente mas não seja importuna; quer tê-la inteiramente para ele mas não lhe pertencer; viver junto mas continuar sozinho. Assim, desde o momento em que a desposa, mistifica-a. Ela passa a existência medindo a extensão dessa traição; O que diz D. H. Lawrence do amor sexual é geralmente valido: a união de dois seres humanos é destinada ao malogro, se constitui um esforço para se completarem mutuamente, o que supõe uma mutilação original; seria preciso que o casamento fosse a união de duas existências autônomas, não uma abdicação, uma anexação, uma fuga, um remédio. É o que compreende Nora (Ibsen, A Casa das Bonecas) quando decide que, antes de poder ser uma esposa e mãe, precisa tornar-se uma pessoa. Seria necessário que o casal não se considerasse como uma comunidade, uma célula inconsútil, e sim que o indivíduo fosse, enquanto indivíduo, integrado numa sociedade no seio da qual pudesse desabrochar sem ajuda; ser-lhe-ia então permitido, dentro de uma generosidade pura, criar laços com outro indivíduo igualmente adaptado à coletividade, laços que teriam fundamentos no reconhecimento de duas liberdades.
     Esse casal equilibrado não é uma utopia; existe por vezes dentro do quadro do casamento, o mais das vezes fora. Alguns são unidos por um grande amor sexual que os deixa livres em suas amizades e ocupações; outros são ligados por uma amizade que não entrava sua liberdade sexual; há, mais raramente, os que são ao mesmo tempo amigos e amantes, mas sem procurar um no outro sua razão exclusiva de viver. Numerosos matizes são possíveis nas relações de um homem com uma mulher: na camaradagem, no prazer, na confiança, na ternura, na cumplicidade, no amor, podem ser um para o outro a mais fecunda fonte de alegria, de riqueza, de força que se propõe um ser humano. Não são os indivíduos os responsáveis pelo malogro do casamento: é — ao contrário do que pretendem Bonald, Comte, Tolstoi — a própria instituição, desde a origem, pervertida. Declarar que um homem e uma mulher, que não se escolheram sequer, devem bastar-se de todas as maneiras ao mesmo tempo durante toda a vida é uma monstruosidade que engendra necessariamente hipocrisia, mentira, hostilidade, infelicidade.
     A forma tradicional do casamento vem sofrendo modificações, mas o casamento continua ainda a constituir uma opressão que os dois cônjuges sentem de maneira diferente. Considerando-se apenas os direitos abstratos de que gozam, são ambos quase iguais hoje; escolhem-se mais livremente do que outrora, podem muito mais facilmente separar-se, sobretudo na América do Norte onde o divórcio é comum; há entre os esposos menor diferença de idade e de cultura do que antes; o marido reconhece com maior boa vontade a autonomia que a mulher reivindica; algumas vezes partilham em igualdade de condições os cuidados da casa; suas distrações são comuns: camping, bicicleta, natação etc. Ela não passa os dias a aguardar a volta do marido: pratica esporte, filia-se a associações, a clubes, tem ocupações fora de casa, tem até, às vezes, uma pequena atividade que lhe dá algum dinheiro. Muitos jovens casais dão a impressão de uma perfeita igualdade. Mas, enquanto o homem conserva a responsabilidade econômica do casal isso não passa de ilusão. Ele é quem fixa o domicílio conjugai segundo as exigências de seu trabalho: ela acompanha-o da província para Paris, de Paris para a província, às colônias, ao estrangeiro; o nível de vida estabelece-se de acordo com o que ele ganha; o ritmo dos dias, das semanas do ano regula-se em obediência às ocupações dele e de sua profissão dependem as relações e amizades. Estando mais positivamente integrado na sociedade do que a mulher, conserva o marido a direção do casal nas coisas intelectuais, políticas e morais. O divórcio para a mulher é apenas uma possibilidade abstrata, em não tendo ela meios de ganhar a própria vida: se na América do Norte o alimony é um pesado encargo para o homem, em França a sorte da mulher, da mãe abandonada com uma mesada irrisória, é um escândalo. Mas a desigualdade profunda vem do fato de que o homem se realiza concretamente no trabalho ou na ação, ao passo que, para a esposa, enquanto esposa, a liberdade tem apenas um aspecto negativo: a situação das jovens norte-americanas lembra a das romanas emancipadas da decadência. Vimos que estas tinham a escolha entre dois tipos de conduta: umas perpetuavam o modo de vida e as virtudes das avós; outras passavam a vida numa agitação vã; assim também numerosas norte-americanas permanecem "mulheres do lar" segundo o modelo tradicional; outras, em sua maioria, não fazem senão dissipar suas forças e seu tempo. Em França, por maior que seja a boa vontade do marido, os encargos do lar não acabrunham menos que outrora a mulher casada, desde que se torne mãe.
     É lugar-comum declarar que nos lares modernos, e principalmente nos Estados Unidos, a mulher reduz o homem à escravidão. O fato não é novo. Desde os gregos os homens se queixam da tirania de Xantipa; a verdade é que a mulher intervém agora em terrenos que lhe eram outrora proibidos; conheço, por exemplo, mulheres de estudantes que dedicam ao êxito de seu homem uma obstinação frenética; regulam o emprego do tempo, o regime, vigiam o trabalho dele, coíbem-lhe as distrações, pouco falta para que o fechem a chave. É verdade também que o homem se encontra mais desarmado do que outrora ante esse despotismo; ele reconhece direitos abstratos à mulher e compreende que ela só os pode tornar concretos através dele: é a expensas próprias que ele compensa a impotência, a esterilidade a que a mulher é condenada. Para que na associação de ambos se realize uma aparente igualdade, é preciso que seja ele quem dê mais, pelo fato de possuir mais. Porém, precisamente, se ela recebe, toma, exige, é porque é a mais pobre. A dialética do senhor e do escravo encontra aqui sua aplicação mais concreta: oprimindo, torna-se o opressor oprimido. É por sua própria soberania que os homens estão encadeados; é porque só eles ganham dinheiro que a esposa exige cheques, porque só eles exercem uma profissão é que a esposa exige que tenham êxito, porque só eles encarnam a transcendência é que ela a quer roubar-lhe fazendo seus os projetos e os êxitos do marido. Inversamente, a tirania exercida pela mulher não faz mais do que manifestar sua dependência: ela sabe que o êxito do casal, seu futuro, sua felicidade e justificação dependem do outro; se procura com afinco submetê-lo à sua vontade, é porque está alienada nele. É de sua fraqueza que faz uma arma; mas na realidade é fraca. A escravidão conjugal é mais quotidiana e mais irritante para o marido; mas é mais profunda para a mulher; a mulher que retém o marido junto de si durante horas porque se aborrece, cerceia-o e pesa-lhe; mas, afinal de contas, ele pode mais facilmente viver sem ela do que ela sem ele; se a abandona, ela é que fica com a vida arruinada. A grande diferença está em que, na mulher, a dependência é interiorizada: ela é escrava, mesmo quando se conduz com aparente liberdade; ao passo que o homem é essencialmente autônomo e é de fora que se acorrenta. Se tem a impressão de ser a vítima, é porque os encargos que suporta são mais evidentes: a mulher alimenta-se dele como um parasito, e um parasito não é um senhor triunfante. Em verdade, assim como biologicamente machos e fêmeas nunca são vítimas um do outro mas, juntos, da espécie, assim também os esposos suportam juntos a opressão de uma instituição que não criaram. Se se diz que os homens oprimem as mulheres, indigna-se o marido; ele é que se sente oprimido: êle o é. Mas, na realidade, é o código masculino, é a sociedade elaborada pelos homens em obediência a seu interesse, que definem a condição feminina sob uma forma que é, presentemente, uma fonte de tormentos para ambos os sexos.
     É tendo em vista o interesse comum deles que seria preciso modificar a situação, proibindo que o casamento seja para a mulher uma "carreira". Os homens que se declaram antifeministas, a pretexto de que "as mulheres já são bastante infernais, assim como são", raciocinam sem muita lógica: é exatamente porque o casamento faz delas "fêmeas de louva-a-deus", "sanguessugas", "megeras" que é necessário modificar o casamento e, consequentemente, a condição feminina em geral. A mulher pesa tão fortemente ao homem porque lhe proibiram de se apoiar em si mesma: ele se libertará libertando-a, isto é, dando-lhe alguma coisa que fazer neste mundo.
     Há jovens mulheres que já tentam conquistar essa liberdade positiva; mas raras são as que perseveram durante muito tempo em seus estudos ou sua profissão; o mais das vezes sabem que o interesse de seu trabalho será sacrificado à carreira do marido; só trarão para o lar um salário suplementar; só se empenham timidamente numa empresa que não as arranque à servidão conjugal. As que têm uma profissão séria não tiram dela os mesmos benefícios sociais que os homens: as mulheres de advogados, por exemplo, têm direito a uma pensão quando do falecimento do marido, mas recusou-se às advogadas o direito simétrico de uma pensão ao marido no caso de falecimento delas. Isso significa que não se considera que a mulher que trabalha sustente o casal em pé de igualdade com o homem. Há mulheres que encontram em sua profissão uma independência verdadeira; mas são numerosas aquelas para quem o trabalho "fora de casa" não representa no quadro do casamento senão uma fadiga a mais. Aliás, amiúde, o nascimento de um filho obriga-as a confinarem-se em seu papel de matrona; é atualmente muito difícil conciliar trabalho com maternidade.
     É precisamente o filho que, segundo a tradição, deve assegurar à mulher uma autonomia concreta que a dispense de se dedicar a qualquer outro fim. Se como esposa não é um indivíduo completo, ela se torna esse indivíduo como mãe: o filho é sua alegria e sua justificação. É por ele que ela acaba de se realizar sexual e socialmente; é, pois, por ele que a instituição do casamento assume um sentido e atinge seu objetivo. Examinemos, portanto, essa suprema etapa do desenvolvimento da mulher.
   
continua página 240...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (15)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"
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[1] Les Causes du Suicide, págs. 195-239. A observação citada aplica-se a França e à Suíça mas não à Hungria nem ao Oldenburgo.

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