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sexta-feira, 3 de abril de 2020

Stanislaw PP - FeBeAPá: Desastre de automóvel

O Festival de Besteira

O Maior Festival de Besteira que já Assolou e voltou Assolar o País


II Parte




Desastre de automóvel




Diz que aconteceu mesmo. O cara que me contou falou que o caso era verídico e ficou até de me apresentar o Cravino, personagem central desta lamentável historinha de cunho conjugal. 

É que esse tal de Cravino tem uma mulher que eu vou te contar: se ele fosse casado com um tamanduá estava mais bem servido. Há uns cinquenta quilos atrás ela ainda era mais ou menos, isto é, tinha um rebolado não de todo desprezível e um rostinho bem razoável. Mas depois que casou, a distinta só fez engordar e embuchar. Hoje em dia — se o Cravino pudesse — dava ela de entrada em qualquer crediário.

E, como se não bastasse, a mulher do Cravino é mais ciumenta que um pierrô. Por qualquer coisinha, parte pra ignorância. A coisa foi num crescendo de amargar. No começo, o Cravino olhava pro lado e levava uma catucada nas costelas, porque a mulher achava que ele estava dando bola para alguma desajustada social. Depois, passou da catucada ao beliscão, que é muito mais doloroso e, ultimamente, diante da complacência do marido (complacência essa ditada por total incapacidade física diante da mulher), iniciou, com bastante êxito, o chamado festival de bolacha. O pobre do Cravino, por qualquer besteira, apanha mais em casa que o time da Portuguesa no campeonato.

O pobre coitado é um conformado de souza. Até já esqueceu como é mulher e a impressão que se tem é a de que — se alguém mandar ele desenhar uma mulher — o Cravino não vai saber desenhar de cor. Para falar francamente, a única coisa que ainda interessa um pouco o Cravino é automóvel. O rapaz é tarado por um carro bacana, um modelo esporte, um carro de corrida.

E foi mais ou menos por causa de um desastre de automóvel que foi parar num hospital. Não que o Cravino estivesse dentro de um carro acidentado; nada disso. O desastre de automóvel dele foi diferente.

O negócio foi o seguinte: o Cravino tem um amigo que comprou a maior Mercedes-Benz. Um carro alinhadíssimo, o fino da máquina e, sabendo que o seu cupincha ama carro assim, telefonou para ele e perguntou se não queria dar uma voltinha no Mercedes.

Ora, tá na cara que o Cravino ficou assanhado e topou logo. Seu entusiasmo foi tal que esqueceu a mulher que tinha. O amigo chegou com o carro na porta da loja onde o Cravino é gerente e entregou-lhe a chave:

— Pode rodar pela aí quanto quiser — falou.

O Cravino, encantado, pegou o carro e saiu rodando pelo asfalto, feliz como um passarinho. Tão entusiasmado estava que esqueceu a hora de voltar. Quer dizer, ele esqueceu, mas a mulher não. Bastou passar cinco minutos da hora normal do marido chegar, que ela começou a pensar o pior:

— Deve estar metido em algum canto, com mulheres! — falou a monstra para si mesma.

Quando já fazia uma hora da hora do Cravino chegar, a mulher já estava queimando óleo 40. Sua indignação era tanta que começou a babar numa bela coloração arroxeada. E o Cravino, nem nada, passeando no Mercedes do amigo.

Só deu as caras em casa duas horas depois. Vinha alegre, de alma lavada, amando o carro do outro. Nem se lembrou do perigo que corria e, ao abrir a porta e dar com a megera indomada à sua frente, ficou estupefato.

— Com que mulherzinha você estava, cretino? — berrou a mulher.

— Eu estava com a Mercedes… — mas nem chegou a dizer Benz. Levou uma traulitada firme por debaixo das fuças e não viu mais nada. Só soube o quanto apanhou no dia seguinte, no hospital, lendo sua ficha médica.

Foi ou não foi um desastre de automóvel?





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SÉRGIO PORTO nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros.




um pouquinho da história do Stanislaw PP...




sábado, 14 de março de 2020

Stanislaw PP - FeBeAPá: Um cara legal

O Festival de Besteira

O Maior Festival de Besteira que já Assolou e voltou Assolar o País


II Parte




Um cara legal




O Carlão era um cara meio trapalhão, desses que cruzam cabra com periscópio pra ver se arrumam um bode espiatório. Vivia confortavelmente instalado num apartamento pequeno, porém indecente, e tinha dinheiro para gastar com o chamado supérfluo. De vez em quando dava umas festinhas em casa e convidava um monte da vida-torta e umas garotinhas dessas que mastigam chiclete de bola com a alegria de retirante quando pega um punhado de farinha. Dessas mocinhas assim no estilo “noiva de Drácula”, isto é, que usam batom branco e estão sempre com uma alegre coloração de defunto.

Aquele dia, era um dia especial, pois o Carlão fazia anos e ia ter festinha de arromba. As armas do crime já estavam todas na geladeira: Coca-Cola, Guaraná, rum, vodca, cervejinha — tudo para tomar com bolinhas fabricadas pelos mais categorizados laboratórios bromatológicos do Brasil. Tinha até uns cigarrinhos diferentes, com cheiro de pano queimado.

Os distintos convidados eram o fino. Pelos apelidos a gente via que a turma era pinta-brava: Bomba-d’Água, Puxa Firme, Sutileza, Julinha Toda Hora, Dedão, Mariazinha Vapor, Odete Prize, Creuza Deixa Pra Mais Tarde etc. etc. O grupo foi chegando e já estava a vitrolinha esquentando, a tocar “Gasparzinho”, “Olha o Brucutu”, “Help” e outras partituras do mesmo valor musical. Na salinha apertada os pares escorregavam o maior surf em trejeitos que só ultimamente são usados na vertical.

A festa já ia pelo meio, quando tocaram a campainha. Era a primeira coisa que se tocava ali que cantor nenhum da Jovem Guarda tinha gravado. Carlão abriu a porta, saiu aquele bafo de fumaça que mais parecia aviso de índio, e quando a fumaça se esvaiu, surgiu por trás dela um velhinho que morava no mesmo andar e que vinha reclamar o barulho. O Carlão mandou o velhinho entrar e a turma envolveu o recém-chegado, que foi logo cumprimentando todos e engrenou um papo-furado muito interessante. Meia hora depois o velhinho estava tão à vontade que rebolava frente a frente com Creuza Deixa Pra Mais Tarde um surf legalérrimo, aos gritos incentivadores de “boa, velhinho”, “dá-lhe, coroa”, “sacode, vovô” e outros que tais. Nisso a campainha tocou outra vez.

Nisso a campainha tocou outra vez.

“Diabo de campainha que tá tocando mais que disco de Roberto Carlos”, pensou o Carlão. E foi abrir. Agora não era um velhinho. Era uma velhinha. Uma velhinha que também morava no mesmo andar, por sinal que no apartamento do velhinho, em suma, pra que fazer suspense, não é mesmo? A velhinha era casada com o velhinho desde o tempo em que Papai Noel tinha barba preta. Foi o Carlão abrir a porta e ela espiar lá pra dentro e ver o folgado ancião badalando firme com a pistoleira acima citada.

Meus irmãos, o pau comeu! A velha até parecia porta-estandarte do Bloco Unidos do Cassetete, conhecida agremiação carnavalesca que, todo ano, desfila junto com as escolas de samba, usando uniforme da polícia e baixando o cacete em jornalista. Entre uma pernada e outra a velhinha abusava do baixo calão com vibrante personalidade. A falecida mãe do velhinho nunca foi tão premiada com xingação.

Foi quando apareceu o síndico do edifício. A coisa já tinha entrado na faixa do escândalo. Gente no corredor, vizinhos nas janelas em frente. Com a sua autoridade no prédio, o síndico agarrou a velha pela saia e separou a briga. Ela protestou:

— Ele é meu marido. Vive dizendo que essas dancinhas modernas deviam ser proibidas e olha só o sem-vergonha. Me larga que eu ensino a ele.

Um dos presentes tratou de esclarecer tudo:

— Espera aí, vovó. A senhora está estragando a festa. Afinal de contas foi aí o velho que nos convidou.

E a velha engoliu em seco, virou-se para o Carlão e quis saber:

— Verdade, Carlinhos?

Era. Mesmo com o olhar súplice do velho, Carlão dedurou o vizinho. Quem tinha planejado tudo fora o velhinho. Carlão dava a festa, ele chegava mais tarde, fingindo que ia reclamar e ficava no pagode. Só não contaram foi com a insônia da velha que, geralmente, dormia como uma pedra.

O Carlão ainda mora no local do crime. Os velhinhos eu ouvi dizer que se mudaram.





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SÉRGIO PORTO nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros.




Samba do Crioulo Doido 
- Stanislaw Ponte Preta (Sergio Porto) 
por Gilberto Bellini






Foi em Diamantina
Onde nasceu JK
Que a Princesa Leopoldina
Arresolveu se casá
Mas Chica da Silva
Tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa
A se casar com Tiradentes

Lá iá lá iá lá ia
O bode que deu vou te contar
Lá iá lá iá lá iá
O bode que deu vou te contar

Joaquim José
Que também é
Da Silva Xavier
Queria ser dono do mundo
E se elegeu Pedro II
Das estradas de Minas
Seguiu pra São Paulo
E falou com Anchieta
O vigário dos índios
Aliou-se a Dom Pedro
E acabou com a falseta

Da união deles dois
Ficou resolvida a questão
E foi proclamada a escravidão
E foi proclamada a escravidão
Assim se conta essa história
Que é dos dois a maior glória
Da. Leopoldina virou trem
E D. Pedro é uma estação também

O, ô , ô, ô, ô, ô
O trem tá atrasado ou já passou




Demônios da Garoa







quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Stanislaw PP - FeBeAPá: O diário de Muzema

O Festival de Besteira

O Maior Festival de Besteira que já Assolou e voltou Assolar o País


II Parte




O diário de Muzema







Muzema é um bairrozinho pequeno e pacato, ali pelas bandas da Barra da Tijuca. Pertence à jurisdição da 32a Delegacia Distrital e nunca dá bronca. Ou melhor, minto… não dava bronca porque esta que deu agora foi fogo. Diz que o delegado da 32a estava em sua mesa de soneca tirando uma pestana, feliz com o sossego, quando um bando de perto de duzentas pessoas invadiu a delegacia, carregando no ar um coitado, baixote e magrinho, com a cara mais amassada que para-choque de ônibus de subúrbio. E a turba fazia um barulho de acordar prontidão.

O delegado, que era o Levi, deu um pulo da cadeira e berrou:

— Chamem a polícia!!! — mas aí percebeu que ele mesmo é que era a polícia e perguntou que diabo era aquilo. Logo todo mundo começou a berrar ao mesmo tempo, o que obrigou o dr. Levi a berrar mais alto ainda, ordenando:

— Um de cada vez, pombas!

Aí um dos que carregavam o pequenino, ordenou que os companheiros pusessem “aquele rato” no chão (a expressão é lá do cara) e começou a explicar:

— Nós somos moradores do bairro de Muzema, doutor delegado.

— Sim. E esse pequenino aí?

— Pois é, doutor. Nós somos todos de lá e esse cretino aí também é. Imagine o senhor que ele tem m caderno grosso, que ele chama de “Meu diário”, onde escreve as maiores sujeiras sobre a gente.

— Como é que é? — estranhou o delegado.

Começou todo mundo a berrar outra vez e, enquanto um guarda dava um copo de água para o diarista arrebentado, o delegado viu-se outra vez a berrar mais alto:

— Calem-se! Um só de cada vez!

Foi aí que deram a palavra pro dono do caderno:

— É o seguinte, doutor: eu tenho um diário. Ando muito lá pela Muzema e ninguém nunca repara em mim. Assim eu posso ver o que os outros fazem sem ser importunado. Mas acontece que eu não sou fofoqueiro. Eu vejo cada coisa de arrepiar. Ainda ontem eu vi a mulher daquele ali (e apontou para um sujeito do grupo) num escurinho da praça, abraçada com aquele lá (e apontou um outro sujeito no canto da delegacia, que, ao ser apontado, encolheu-se todo). Esta informação bastou para que o assinalado marido partisse pra cima do encolhido e o tumulto se generalizasse. Coitado do delegado, já estava quase rouco, quando conseguiu reimplantar a ordem na 32a DD.

— Prossiga! — disse pro pequenino.

O pequenino pigarreou e prosseguiu:

— Como eu dizia, eu tenho o meu diário e anoto nele tudo que vejo. Não faço fofoca com ninguém. Tudo o que está escrito aqui é verídico.

— Como é o seu nome? Onde você mora?

— Edson Soares. Moro lá mesmo na Muzema. Lote A, casa 18.

O delegado Levi pediu o diário e folheou algumas páginas. Havia coisas mais ou menos assim, escritas nele: “D. Jurema, do lote B, casa 75, estava saindo de madrugada da casa 67 do mesmo lote, onde mora o Sebastião, que tem um cacho com ela há muito tempo”. Ou então: “Lilico continua fingindo que é noivo da filha de d. Júlia, mas se aquilo é noivado eu sou girafa. Como eles mandam brasa, atrás do muro da casa dela”.

O delegado Levi tossiu, embaraçado, e quis saber como é que os personagens daquele diário tinham descoberto o que estava escrito ali. O pequenino foi sincero:

— Eu dei azar, doutor. Eu esqueci o diário num banco da pracinha e fui jantar. Quando eu voltei estava todo mundo em volta desse garoto aí — e apontou um garoto sorridente, que se divertia com o bafafá —, e o miserável do garoto lendo em voz alta: “…o seu Osooo… Osorío não: Osório. O seu Osório quando sai pra o tral… tralba… para o trabalho, devia levar a muuu… a mulher dele. Ela é muito assada… assada não… muito assanhada”.

— Eu achei o diário dele — falou o garoto, mas calou-se logo ao levar um cascudo de um gordão que devia ser, na certa, o seu Osório.

Já ia saindo onda outra vez. O pessoal do bairro pacato estava mesmo disposto a beber o sangue de Edson Soares, o historiador da localidade. Sanada, todavia, mais esta tentativa, o delegado Levi perguntou ao dono do diário:

— O senhor também é poeta?

— Mais ou menos, né?

— Eu pergunto — esclareceu o delegado — porque este versinho aqui está interessante, e leu no diário: “Para o José Azevedo/ O futebol não cola/ Pois se for cabecear/ Na certa ele fura a bola”.

Pimba… mais uma bolacha premiou a cara do poeta. Ninguém conseguia segurar José Azevedo, residente na Muzema, lote J, casa 77. O pau roncou solto e só quando chegou reforço é que o delegado conseguiu botar em cana uns quatro ou cinco, inclusive o biógrafo muzemense. O resto mandou embora, aconselhando:

— Vocês vejam se não dão margem ao artista de se expandir tanto, em seu futuro diário, tá?

O pessoal prometeu.






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* As cédulas de um cruzeiro (Pedro Álvares Cabral) e cinco cruzeiros (Tiradentes).

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SÉRGIO PORTO nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros.





segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Stanislaw PP - FeBeAPá: O filho do camelô

O Festival de Besteira

O Maior Festival de Besteira que já Assolou e voltou Assolar o País


II Parte



O filho do camelô





Passava gente pra lá e passava gente pra cá como, de resto, acontece em qualquer calçada. Mas quando o camelô chegou e armou ali a sua quitanda, muitos que iam pra lá e muitos que vinham pra cá pararam para ouvir o distinto. Camelô, no Rio de Janeiro, onde há um monte de gente que acorda mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada, tem sempre uma audiência de deixar muito conferencista com complexo de inferioridade.

Mas — eu dizia — o camelô chegou, olhou pros lados, observando o movimento e, certo de que não havia guarda nenhum para atrasar seu lado, foi armando a sua mesinha tosca, uma tábua de caixote com quatro pés mambembes, onde colocou a sua muamba. Eram uns potes pequenos, misteriosos, que foi ajeitando em fila indiana. Aqui o filho de d. Dulce, que estava tomando o pior café do mundo (que é o café que se vende em balcão de boteco do Rio), continuou bicando a xicrinha, pra ver o bicho que ia dar.

Era bem em frente ao boteco o “escritório” do camelô. Armada a traquitanda, ele olhou outra vez para a direita, para a subversiva, para a frente, para trás e, ratificada a ausência da lei, apanhou um dos potes e abriu.

Até aquele momento, seu único espectador (afora eu, um admirador à distância) era um menino magrela, meio esmolambado que, pelo jeito, devia ser o seu auxiliar. Ou seria seu filho?

Sinceramente, naquele momento eu não podia dizer. Era um menino plantado ao lado do camelô — eis a verdade.

O camelô abriu o jogo:

— Senhoras, senhores… ao me verem aqui pensarão que sou um mágico arruinado, que a crise nos circos jogou na rua. Não é nada disso, meus senhores.
Parou um gordo, com uma pasta preta debaixo do braço, que vinha de lá. Quase que ao mesmo tempo, parou também uma mulatinha feiosa, de carapinha assanhada, que vinha em companhia de uma branquela sem dentes na frente.

— Eu represento uma firma que não visa lucros — prosseguiu o camelô —, visa apenas o bem da humanidade. Estão vendo esta pomada?

O camelô exibiu a pomada, e pararam mais uns três ou quatro, entre os quais uma mocinha bem jeitosinha, a ponto de o gordo com a pasta abrir caminho para ela ficar na sua frente. Mas ela não quis. Olhou pro gordo, notou que ele estava com ideia de jerico e nem agradeceu a gentileza. Ficou parada onde estava, olhando a pomada dentro do pote que o vendedor apregoava.

— Esta pomada, meus amigos, é verdadeiramente miraculosa e fará  com que todos sorriam com confiança.

“Que diabo de pomada era aquela?” — pensei eu. E comigo pensaram outras pessoas, que se aproximaram também, curiosas. Uma velha abriu caminho e ficou bem do lado da mesinha, entre o camelô e o menino.

— É isto mesmo, senhores… ela representa um sorriso de confiança, porque é o maior fixador de dentaduras que a ciência já produziu. Experimentem e verão. A cremilda ficará presa o dia inteiro, se a senhora passar um pouco desta pomada no céu da boca — e apontou para a velhinha ao lado. Todos riram, inclusive a branquela desdentada.

— Uma pomada que livrará qualquer um de um possível vexame, numa churrascaria, num banquete de cerimônia. Mesmo que sua dentadura seja uma incorrigível bailarina, a pomada dará a fixação desejada, como já ficou provado nas bocas mais desanimadoras.

Um cara de óculos venceu a inibição e perguntou quanto era:

— Um pote apenas o senhor levará por cem cruzeiros. Dois potes cento e setenta e mais um pente inquebrável, oferta da firma que represento. Um para o senhor, dois ali para o cavalheiro.

Madame vai querer quantos?

E a venda tinha começado animada, quando parou a viatura policial sem que ninguém percebesse sua aproximação. Os guardas pularam na calçada com aquela delicadeza peculiar ao policial. O guarda que vinha na frente deu um chute no tabuleiro da pomada miraculosa que foi pote pra todo lado. Dois outros agarraram o camelô, e o da direita lascou-lhe um cascudo.

Aí o povo começou a vaiar. Um senhor, cujos cabelos grisalhos impunham o devido respeito, gritou:

— Apreendam a mercadoria mas não batam no rapaz, que é um trabalhador!

— Isto mesmo — berrou uma senhora possante como o próprio Brucutu.

O vozerio foi aumentando e os guardas começaram a medrar.

— Além disso o coitado tem um filho — disse a velha.

E, ao lembrar-se do filho, o camelô abraçou-se ao garoto, que ficou encolhido entre seus braços. Leva não leva. Um sujeito folgadão deu um murro na viatura que, em sendo policial, era velha como a necessidade, e quase desmontou. Os guardas se entreolharam. Eram quatro só, contra a turba ignara, sedenta de justiça.

— Deixe o homem, que ele tem filho! — era a velha de novo.

Os guardas limitaram-se a botar a muamba toda na viatura e deram no pé, sob uma bonita salva de vaia. O camelô, de cabeça baixa, foi andando com o garoto a caminhar ao seu lado, e o bolo se desfez. Era outra vez uma calçada comum, onde passava gente pra lá e passava gente pra cá.

Eu fui andando pra lá e dobrei na esquina. Não tinha dado nem três passos e vi o camelô de novo, conversando com o garoto.

— Que onda é essa de dizer que eu sou seu filho, meu chapa? Eu nem te conheço! — perguntava o menino, para o camelô.

— Cala a boca, rapaz. Toma duzentas pratas, tá bem?

Eu parei junto a um carro, fingindo que ia abri-lo, só para ouvir o final da conversa.

— Eu tenho mais potes naquele café lá embaixo — disse o homem: 
— Queres ficar de meu filho na Cinelândia, eu vou pra lá vender. Quer?

— Vou por trezentos, tá?

O camelô pensou um pouco e topou. E lá foram “pai” e “filho” para a Cinelândia, vender a pomada “que dá confiança ao sorriso”.






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* As cédulas de um cruzeiro (Pedro Álvares Cabral) e cinco cruzeiros (Tiradentes).

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SÉRGIO PORTO nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros.



sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Stanislaw PP - FeBeAPá: Aos tímidos o que é dos tímidos

O Festival de Besteira

O Maior Festival de Besteira que já Assolou e voltou Assolar o País


II Parte



Aos tímidos o que é dos tímidos




Tímido que ele era. Um desses sujeitos assim cujo complexo de inferioridade é tamanho que, ao se olhar no espelho, sente-se mal ao deparar sua própria imagem, por considerá-la superior ao original. Tem uns caras que, francamente: eu — por exemplo — conheci um que o pessoal chegou a apelidar de Zé Complexo. Um dia ele me confessou que, muitas vezes, quando saía de casa, tinha ímpetos de deixar o elevador pra lá e descer pela lixeira. Acabou morrendo por timidez, numa véspera de Natal.

Foi assim: a família tinha engordado um peru para a ceia natalina, e ele ficou encarregado de matar o peru. Na véspera da coisa, e dia do peru, levou-o lá pros fundos e começou a dar cachaça para o condenado, e foi lhe dando aquela tristeza e, então, pra ver se levantava o moral, começou a beber junto com o peru, e foi bebendo e foi piorando, e piorando, baixou nele uma neura bárbara, até que considerou as circunstâncias, olhou para o peru mais uma vez, o peru olhou pra ele com aquele olhar de peru encachaçado, que é pior que olhar de deputado nordestino. Enfim, para encurtar o caso: acabou considerando que o peru merecia mais que ele e se suicidou, deixando o peru sozinho lá no quintal no maior pileque.

Mas não era desse cara que eu queria falar não. Esse morreu, deixa pra lá. O tímido desta história tinha as suas mumunhas, tanto assim que chegou a arrumar uma namorada. Não era nenhum estouro de mulher, mas também não era como aquela que o gato cheirou e cobriu de areia. Na verdade a namorada deste tímido que eu estava falando, e depois passei pro outro que morreu, levava um certo jeito. Pernudinha, nem baixa nem alta, nem magra nem gorda. Engraçadinha, sabe como é?

Pois não é que apareceu um desses bacanos de cabelão, pele tostada no moderno estilo “Castelinho”, folgado às pampas, e cismou com a pequena do tímido?

Como, minha senhora? A pequena do tímido é que deu bola pro bonitão?

Nada disso, madama, nada disso. Embora eu não ponha a mão no fogo por mulher, porque eu não quero ficar com o apelido de maneta, posso garantir à senhora que a pequena do tímido tinha fama de batata. Tanto isto é verdade que foi ela quem inventou o plano.

Quando o namorado descobriu que havia cabrito na sua horta, ficou numa fossa tártara. Dava até pena ver: perto da dele a fossa de qualquer um parecia apartamento de cobertura. Ainda bem não tinha morado no assunto, ficou logo achando que perderia a parada, porque o outro era mais forte, mais frequentador do Le Bateau, sabia dançar surf muito bem, e mais diversas outras papagaiadas que hoje em dia as mulheres consideram predicados masculinos.

Aí a pequena dele ficou tão chateada que lhe deu uma bronca:

— Toma uma atitude, Lelé! (O nome dele era Leovigildo, mas ela chamava de Lelé.) Contrata aí um desses latagões a serviço da bolacha e manda dar uma surra nesse atrevido!

Tá certo, a pequena era um pouco chave de cadeia, mas essa atitude dela provava que, entre o bacanão e o Lelé, ela era mais o Lelé. Foi, aliás, o que o Lelé deduziu, dedução esta que o levou a procurar Primo Altamirando. Ora, o Mirinho vocês conhecem e, se não conhecem, perguntem na polícia, que lá eles sabem. Procurou Mirinho e propôs o negócio: dez “cabrais” ou dois “tiradentes”* — a escolher — para dar um corretivo no cara.

Mirinho achou o negócio legal e saiu em campo. Não demorou muito, encontrou o perseguido badalando num balcão de sorveteria, fazendo presepada no meio das menininhas. Chamou-o num canto, como quem vai pro banheiro, e, agarrando o braço dele, colocou-o a par da conjuntura. O cara foi ficando branco que nem parecia freguês de sol do Castelinho, começou a gaguejar, e o primo viu logo que aquela transação podia render mais. Soltou o braço do cara e meteu a proposta:

— Faz o seguinte. Manda vinte mil aí que eu transfiro o negócio pra outra firma.

O bonitão nem quis ouvir mais nada. Filho de pai rico e coisa e tal meteu a mão no bolso e pagou à vista. Com trinta mil em caixa, o abominável parente resolveu tirar licença-prêmio e foi gastar o lucro.

Deu-se que, ontem, estava ele parado numa esquina, paquerando o ambiente, quando o tímido apareceu de braço com a pequena. Ao passar por ele, fez um gesto largo, sorriu, piscou um olho e berrou:

— Olha! Aquele nosso negócio; perfeito, velhinho! A firma concorrente entrou pelo cano.

Mirinho olhou pra ele, lembrou-se dos vinte mil que o outro lhe confiara e suspendeu a licença. Caminhou em sua direção e tacou-lhe um bofetão em si bemol que o coitado saiu catando cavaco e foi cair sentado no meio-fio.

Tá certo! O fim desta história é meio chato. Mas, é como me explicou Mirinho: onde já se viu tímido bancar o expansivo só porque tá com mulher?





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* As cédulas de um cruzeiro (Pedro Álvares Cabral) e cinco cruzeiros (Tiradentes).

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SÉRGIO PORTO nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros.


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Stanislaw PP - FeBeAPá: O sabiá do almirante

O Festival de Besteira

O Maior Festival de Besteira que já Assolou e voltou Assolar o País


II Parte



O sabiá do almirante




O almirante gostava muito de ir ao cinema na sessão de oito às dez. Era um almirante reformado e muito respeitado na redondeza por ser bravo que só bode no escuro. Naquela noite, quando se preparava para ir pro cinema, a empregada veio correndo lá de dentro, apavorada:

— Patrão, tem um homem no quintal.

Era ladrão. Pobre ladrãozinho. O almirante pegou o .45, que tinha guardado na mesinha de cabeceira, e saiu bufando para o quintal. Lá estava o mulato magricela, encolhido contra o muro, muito mais apavorado que a doméstica acima referida. O almirante encurralou-o e deu o comando com sua voz retumbante:

— Se mexer leva bala, seu safado.

O ladrão tratou de respirar mais menos, sempre na encolha. E o almirante mandou brasa:

— Isto que está apontado para você é um .45. Se eu atirar te faço um furo no peito, seu ordinário. Agora mexe aí para ver só se eu não te mando pro inferno.


O ladrão estava com uma das mãos para trás e o almirante desconfiou:

— Não tente puxar sua arma, que sua cabeça vai pelos ares.

— Não é arma não — respondeu o ladrão com voz tímida: — É o sabiá.

— Ah… um ladrão de passarinho, hem? — vociferou o almirante.

E, de fato, o almirante tinha um sabiá que era o seu orgulho. Passarinho cantador estava ali. Elogiadíssimo pelos amigos e vizinhos. Era um gozo ouvir o bichinho quando dava seus recitais diários.

Vendo que o outro era um covarde, o almirante resolveu humilhá-lo:

— Pois tu vais botar o sabiá na gaiola outra vez, vagabundo. Vai botar o sabiá lá, vai me pedir desculpas por tentar roubá-lo e depois vai me jurar por Deus que nunca mais passa pela porta de minha casa. Aliás, vai jurar que nunca mais passa por esta rua. Tá ouvindo?

O ladrão tava. Sempre de cabeça baixa e meio encolhido, recolocou o sabiá na gaiola. Jurou por Deus que nunca mais passava pela rua e até pelo bairro. O almirante enfiou-lhe o .45 nas costelas e obrigou-o a pedir desculpas a ele e à empregada. Depois ameaçou mais uma vez:

— Agora suma-se, mas lembre-se sempre que esta arma é .45. Eu explodo essa sua cabeça se o vir passando perto de minha casa outra vez. Cai fora.

O ladrão não esperou segunda ordem. Pulou o muro como um raio e sumiu.

O almirante, satisfeito consigo mesmo, guardou a arma e foi pro cinema. Quando voltou, o sabiá tinha desaparecido.





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SÉRGIO PORTO nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros.



segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Stanislaw PP - FeBeAPá: Eram parecidíssimas

O Festival de Besteira

O Maior Festival de Besteira que já Assolou e voltou Assolar o País


II Parte



Eram parecidíssimas




Peixoto entrou no escurinho do bar e ficou meio sobre o peru de roda, indeciso entre sentar-se na primeira mesa vaga ou caminhar mais para dentro e escolher um lugar no fundo. Mas sua indecisão durou pouco. Logo ouviu a voz de Leleco, a chamá-lo:

— Ei, Peixoto, venha para cá!

Estremeceu ao dar com o outro acenando, mas estufou o peito e aceitou o convite com ar muito digno, encaminhando-se para a mesa de Leleco.

— Senta aí, rapaz — disse Leleco, ajeitando a cadeira ao lado: — Você por aqui é novidade.

— De fato — concordou Peixoto, evasivo.

Leleco era todo gentilezas:

— Que é que vais tomar? Toma um Vat, o uísque daqui é ótimo. Você sabe, eu venho a este bar quase todas as tardes. É um hábito bom, este uisquinho antes de ir para casa.

— É. Eu sei que você costuma vir aqui de tarde.

Peixoto aceitou o uísque sugerido, o garçom afastou-se e Leleco não perdeu o impulso. Continuou falando:

— Engraçado você ter aparecido aqui, Peixoto.

— Engraçado por quê? — a pergunta foi feita num tom ansioso, mas o outro não pareceu notar.

— É que, ultimamente, eu toda hora estou me lembrando de você.

Peixoto fez-se sério como um ministro de Estado quando vai à televisão embromar o eleitorado. Apanhou o copo que o garçom colocara em sua frente, deu um gole minúsculo e pediu:

— Explique-se, por favor.

Leleco sorriu:

— O motivo é fútil e eu espero que me perdoe. Mas é engraçado. De uns tempos para cá eu me meti com uma pequena de São Paulo. Moça rica, com facilidade de aparecer aqui no Rio de vez em quando. Sabe como é. A gente vai levando. No princípio eu não notei a semelhança. Mais tarde ela mesma é que me chamou a atenção. Num dos nossos encontros ela me perguntou se eu te conhecia.

— A mim?

— Sim, a você. Ela, aliás, não te conhece. Vai escutando só… Ela perguntou e eu — é lógico — disse que sim. Ela então quis saber se de fato era parecida com sua mulher.

— Alice?

— Isto, a Alice, sua esposa. Disse que pessoas aqui do Rio, que conhecem vocês (ela não me contou quem foi), haviam afirmado que ela se parecia muito com sua mulher. Só então eu notei que, de fato, as duas se parecem bastante, apenas num ou noutro detalhe são diferentes. Por exemplo: a Laís é loura.

— O nome dela é Laís?

— É Laís. Ela é loura e sua esposa, se não me engano, tem os cabelos pretos, não?

— Pretos, não digo. São castanho-escuros.

— Eu não vejo a Alice há algum tempo. Mas que são parecidas, não há dúvida. Lógico, a Laís… eu posso dizer porque é uma simples aventura, entende? … a Laís é meio boboquinha, grã-finoide. Não tem a classe, assim… como direi, a postura da Alice.

Nesta altura Peixoto deu uma gargalhada, deixando o Leleco meio sobre o aparvalhado. Ia perguntar o porquê da risada, mas Peixoto ria e fazia-lhe um sinal com a mão de que ia explicar:

— Leleco, esta é ótima. Você não sabe por que qui eu vim aqui.

— Tomar um uísque, não foi?

— Bem, o uísque era pretexto. Eu vim aqui justamente porque recebi um telefonema anônimo, de alguém que jura que viu minha mulher entrando no seu apartamento.

— O quê??? — Leleco ficou meio embaraçado: — Pelo amor de Deus, você não contou isto à sua esposa, não cometeu esta injustiça por minha causa.

— Claro que não — mentiu Peixoto, que ficou sem graça por um instante, mas o bastante para que qualquer um percebesse que tivera a maior bronca com a mulher e saíra da discussão sem estar convencido de sua inocência.

Mas repetiu:

— Claro que não. Eu vim encontrar você aqui para conversar sobre o assunto. Eu não dei maior importância ao telefonema, mas queria que você tomasse conhecimento dele. Alguém que não gosta de você está querendo metê-lo numa fria.

— Pelo visto não é bem assim.

— Claro — apressou-se Peixoto em dizer: — Quem telefonou tinha uma certa razão — e virando-se para o garçom: — Mais dois aqui — ajeitou-se e com visível satisfação: — Vamos tomar mais um que eu tenho que sair.

Meia hora depois Peixoto saía do bar, rumo ao lar. Ia lépido, fagueiro, como alguém que se livra de um problema chato. Ia pensando em como é bom o sujeito ser calmo e precavido antes de tomar uma atitude.

Quanto a Leleco, assim que Peixoto saiu, foi para o telefone do bar, ligou para Alice e quando ela atendeu, falou:

— Neguinha? Quebrei o galho. A história colou — e, com certa apreensão na voz: — Mas, por favor, joga fora essa peruca loura antes que ele chegue aí.



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* Roberto Campos (1917-2001), ministro do Planejamento do governo Castello Branco. 
** Guilherme Borghoff, secretário de Economia do governo Carlos Lacerda.

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SÉRGIO PORTO nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros.


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Stanislaw PP - FeBeAPá: O paquera

O Festival de Besteira

O Maior Festival de Besteira que já Assolou e voltou Assolar o País


II Parte



O paquera




Conheci o Batalha quando ele ainda era garoto. Aliás, todos os que foram meninos aqui no bairro conheceram o Batalha. Naquele tempo o bairro era calmo, os garotos unidos, havia espaço, era ótimo. O Batalha era um garoto legal, e só depois que foi crescendo é que foi ficando feio. Ao atingir a puberdade, o Batalha já era tão feio que — francamente — eu estava vendo a hora que ele ia acabar presidente da República. 

Talvez tenha sido a feiura dele que o levou ao vício de espiar mulher de longe. Namorava à distância, sem que a moça soubesse de nada, para não estragar o namoro. Uma de suas primeiras experiências amorosas ensinou-lhe esse truque. Laurinha, que era muito bonitinha e muito senhora de sua beleza, que a secura da rapaziada exaltava às pampas, era, por isso mesmo, perversa como só ela. O Batalha namorou-a durante dois anos e, quando ela soube, desfez. Foi até tragicômico: alguém foi dizer pra ela que o Batalha falava pra todo mundo que namorava ela. Laurinha não conversou: telefonou pro Batalha e, no que ele disse “alô”, ela lascou: 

— Escuta aqui, seu nojento, se eu te pegar de novo me olhando com esse teu olhar de garoupa congelada, eu cuspo, tá bem? — e desligou o telefone e as esperanças do rapaz. 

Talvez tenha sido desde aí que o Batalha aprendeu a apreciar mulher de longe. Depois de homem-feito e feio — definitivamente feio — já o bairro estava todo edificado na base de altos edifícios. Batalha especializou-se em espiar mulher da janela. 

Foi quando se deu a história triste que ele me contou como, de resto, me contou esta última, pois sabe que eu não vou sair pela aí esparramando, como fizeram quando ele era paquera oficial da Laurinha. Deu-se, eu dizia, que o Batalha ficou tempos de olho numa mocinha que morava no prédio em frente. Um dia ele pegou e contou pra mim que ela não só já notara o interesse dele como também aderira. Ficava do lado de lá, muitas vezes, debruçada na janela, de olhar na sua direção. Ele achou, inclusive, que a mãe dela não fazia gosto porque, em dado momento, chegava para a mocinha, segurava-a pelo braço e levava lá pra dentro, estragando tudo. A mocinha era muito dócil, e ia. 

Eu nem devia ter contado esse episódio, pois é muito triste, mas serve para ilustrar muito bem o caiporismo do Batalha. Na verdade, a mocinha não era dócil. Era cega, isto sim. E o Batalha só descobriu muito tempo depois, quando teve oportunidade de vê-la de perto, na rua. Ficou sentidíssimo; afinal, a primeira que olhou fixo para ele só o fazia porque não o enxergava. É duro. 

Mas não é à toa que ele se chama Batalha. Há coisa de uns meses, mudou-se para o Leme e andava entusiasmado com uma dona do edifício que dava fundos para a sua rua. É que ela tomava banho de sol no terraço com um biquíni um bocado mini biquíni. 

Isso foi no começo. Com o correr do tempo ele foi me contando mais coisas. Por exemplo: estava certo de que a moça percebera sua paquera, embora a paquera fosse de uma distância considerável. Ela olhava em direção à sua janela e sorria. 

— Ontem ela tomou banho de sol só com a parte de baixo do biquíni — me falou certa vez, com a voz embargada de emoção. E, num recente encontro, dei com o Batalha sobraçando enorme pacotão. Disse-me que a dona do Leme estava se despindo totalmente para ele. 

— De manhã, quando eu vou espiar, ela já tá lá, nuinha no terraço. E fica horas, na mesma posição. Peladinha — garantiu. E ratificou: — Peladinha. 

— E esse pacotão aí? — perguntei. 

— É uma luneta. Ela merece. Meu binóculo nunca foi grande coisa. Ela merece uma luneta. Gastei uma nota para comprar esta luneta, mas ela merece. Vou estrear amanhã, se fizer sol. 

E lá se foi o Batalha e seu pacotão. Eu não o vi mais, até esta semana. Vinha cabisbaixo e meditabundo — adjetivos que sempre se juntam para definir o cara que entra numa fria. 

— Como é, Batalha? E a dona do Leme? 

— Nem me fale — suspirou. 

— Já sei. Mudou-se. 

— Pior. Ela tava me gozando… Você não se lembra que eu falei que ela ficava horas nuinha, na mesma posição? Fiz que sim com um movimento de cabeça. 

— Pois é… Comprei a luneta, e só aí eu reparei. Ela sabia que eu olhava e fez aquilo… 

— Mas fez o quê? 

— Armou no telhado um manequim velho. Botava a peruca dela no manequim e deixava lá, para me enganar. 

— Puxa vida… tem certeza? 

— Absoluta… eu vi pela luneta, na coxa dela tava escrito Made in USA.



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* Roberto Campos (1917-2001), ministro do Planejamento do governo Castello Branco. 
** Guilherme Borghoff, secretário de Economia do governo Carlos Lacerda.

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SÉRGIO PORTO nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros.


quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Stanislaw PP - FeBeAPá: O antológico Lalau

O Festival de Besteira

O Maior Festival de Besteira que já Assolou e voltou Assolar o País


II Parte



O antológico Lalau




Lá vinha eu ladeira abaixo, comendo minhas goiabinhas, quando cruzei com a figurinha entusiástica de Bonifácio Ponte Preta (o Patriota). Mesmo subindo a ladeira ele conseguia marchar, enquanto assoviava baixinho o Hino dos Dragões da Independência. 

— Olá! — exclamei eu, com as goiabinhas na mão. 

Ele parou, reconheceu-me e, após uma reverência, um tanto ou quanto germânica, lascou: 

— Como vai o caro patrício? 

Respondi que ia mais ou menos, enganando pela meia cancha, me defendendo como podia e atacando quando oportuno. Enfim, nem lá nem cá. Vivendo sem maiores sucessos. 

— O caro patrício engana-se — interrompeu-me ele. — Saiba que está de parabéns. É um orgulho para a nossa família ter escritor antológico em seu seio — abraçou-me em postura militar e, vendo as goiabinhas na minha mão, regozijou-se: — Oh… goiabas! Fruta brasileira. Adoro-as — apanhou um punhado delas e seguiu ladeira acima, comendo tudo, o miserável. 

Voltei para casa intrigado. Que história era essa de antológico? Será que o Bonifácio estava me gozando? A resposta obtive logo depois, quando a fogosa mucama veio trazer a correspondência do dia. Entre os avisos de banco e outras cobranças envelopadas, um volume se destacava. Rasguei o papel e dei com um livro: Rio de toda gente: Antologia para o ensino médio de português — Helena Godói Britto, M. Cavalcanti Proença, Maria da Glória Sousa Pinto. Abro o volume e lá está a dedicatória do ilustre polígrafo: “Ao Stanislaw, que honra esta coletânea nas págs. 23 e 100, muito cordialmente o seu admirador — Cavalcanti Proença”. 

Puxa! Então era isto? Aqui o filho de d. Dulce tinha se tornado antológico num livro pedagógico? O que é a natureza, hem? Sinceramente, eu não merecia tantas lantejoulas. 

Começo a folhear a obra e dou com escritos meus: uma “História do Rio de Janeiro” que escrevi há algum tempo. Lá está o primeiro parágrafo: “A coisa começou no século XVI, pouco depois que Pedro Álvares Cabral, rapaz que estava fugindo da calmaria, encontrou a confusão, isto é, encontrou o Brasil. Até aí não havia Rio de Janeiro”. 

Abaixo, o questionário para os estudantes: “CCOISA apresenta significado ‘preciso’, ‘pejorativo’ ou ‘irônico’?”. 

E segue o texto:

Depois de 1512, rapazes lusitanos que estavam esquiando fora da barra, descobriram uma baía muito bonita e, distraídos que estavam, não perceberam que era baía. Pensaram que era um rio e, como fosse janeiro, apelidaram a baía de Rio de Janeiro. Eis portanto, que o Rio já começou errado.

Procuro o questionário: “‘Esquiando fora da barra’ é um anacronismo. Por quê? Que quer dizer anacronismo? E sincronismo?”. 

Nessa altura começou a minha aflição. Que qui é mesmo anacronismo? Se eu cometi um anacronismo, tinha obrigação de saber na ponta da língua que diabo é anacronismo. Será o ponto de semelhança entre coisas diferentes? Não, não… isto é analogia. Ah… deixa pra lá. Sobre o parágrafo transcrito há outra pergunta: “‘Como fosse janeiro’ é uma construção sintática de uso clássico. Qual seria a forma mais corrente na atualidade?”. 

E assim segue o texto, acompanhado do questionário. Num certo trecho eu explico que os portugueses, de saída, não deram muita bola para o Rio de Janeiro e logo o questionário cobra a multa, querendo saber: “‘Não deram muita bola’. A expressão metafórica provém do jogo de futebol e significa não dar atenção. Explique como se compreende a translação do sentido”. 

Coitados dos menininhos que estiverem estudando meu texto. Eu, que escrevi, estou aqui meio sobre o embasbacado com essa tal de translação do sentido, imaginem as crianças do ensino médio! 

De repente, a minha aflição aumenta assustadoramente. Lembro-me que, no tempo de estudante, eu e toda a minha turma odiávamos Camões por causa das análises dos Lusíadas a que nos obrigava o professor de português. Puxa vida… com a minha promoção a antológico, breve vai ter garoto aí me achando o maior chato do ano letivo. 

Preciso abrir os olhos. Camões não o fez porque só tinha um olho, mas eu estou com os dois em dia. É necessário abri-los.



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* Roberto Campos (1917-2001), ministro do Planejamento do governo Castello Branco. 
** Guilherme Borghoff, secretário de Economia do governo Carlos Lacerda.

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SÉRGIO PORTO nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros.


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Stanislaw PP - FeBeAPá: “O general taí”

O Festival de Besteira

O Maior Festival de Besteira que já Assolou e voltou Assolar o País




“O general taí”




Genésio, quando houve aquela marcha de senhoras ricas com Deus pela família e etc., ficou a favor, principalmente do etc. Mesmo tendo recebido algumas benesses do governo que entrava pelo cano, Genésio aderiu à “redentora”, mais por vocação do que por convicção (ele tinha — e ainda tem — um caráter muito adesivo). Porém, com tanto cocoroca aderindo, Genésio percebeu que estavam querendo salvar o Brasil depressa demais. Mesmo assim foi na onda. 

Adaptou-se à nova ordem com impressionante facilidade e chegou a ser um dos mais positivos dedos-duros no ministério. Tudo que era colega que ele não gostava, ele apontou aos superiores como suspeitos. Naquele tempo — não sei se vocês se lembram — não era preciso nem dizer “de quê”. Bastava apontar o cara como suspeito e pronto… tava feita a caveira do infeliz. 

Com isso, Genésio conseguiu certo prestígio junto à administração e pegou umas estias, ganhando um dinheirinho extra. Quando veio a tal política financeira do dr. Campos,* foi dos primeiros a aplaudir a medida. Num desses coquetéis de gente bem, onde foi representando o diretor do departamento, aproveitou um hiato na conversa, para falar bem alto, a fim de ser ouvido pelo maior número possível de testemunhas: 

— A política de contenção do dr. Roberto é simplesmente gloriosa! Breve até as classes menos favorecidas estarão aplaudindo a medida. 

Todos ouviram e, como tava todo mundo com o traseiro encostado na cerca, naqueles dias (e muitos estão até hoje), ninguém contestou. Houve até um certo ambiente de admiração pelo Genésio, que nenhum dos grã-finos presentes sabia quem era, mas que, nem por isso, foi esnobado, pois podia ser algum coronel, enfim, essas bossas! 

O que eu sei é que o Genésio deu o grande durante uns quatro ou cinco meses. Depois, como era um filho de jacaré com cobra-d’água, caiu de novo no seu chatíssimo cotidiano e só ficou elogiando a “redentora” por vício ou talvez por causa de uma leve esperança de se arrumar ainda. 

Mas teso é teso, é ou não é? O tempo foi passando e o boi sumiu; o leite é isso que se vê aí; o feijão anda tão caro que, noutro dia, num clube da ZN, promoveram um jogo de víspora marcando as pedras com caroço de feijão e foi aquela vergonha… alguém roubou os caroços  todos para garantir o almoço do dia seguinte. Genésio começou a desconfiar que tinha entrado numa fria. Aquilo não era revolução pra quem vive de ordenado. Em casa, a mulher dava broncas ciclópicas, porque o ordenado mensal dele estava acabando mais depressa do que a semana. 

Houve um dia em que botou sua bronca: 

— Você é que não sabe fazer economia — disse para a mulher. — Pode deixar que eu vou fazer a feira. 

Ah, rapaziada, pra quê! Genésio foi à feira e só via gente balançando a cabeça; todo mundo resmungando, dizendo coisas tais como “assim não é possível”, “desse jeito é fogo”, “como está não pode ser”. Em menos de cinco minutos do tempo regulamentar, ele também estava praguejando mais que trocador de ônibus. 

Voltou pra casa, arrasado. Daí por diante entrou pro time dos descontentes de souza. Só abria a boca para dizer que é um absurdo, onde é que nós vamos parar, o Brasil está à beira do abismo etc. Mesmo na repartição, onde era visto com suspeita pelos colegas, rasgou o jogo. No dia em que leu aquela entrevista do Borghoff,** dizendo que o povo devia comer galinha, porque boi é luxo, fez um verdadeiro comício, na porta do mictório do ministério, onde a cambada se reúne sempre para matar o trabalho. 

Foi aí que aconteceu: Estava em casa, deitado, lendo um x-9, quando a empregada chegou na porta. A empregada era dessas burríssimas, mas falou claro: 

— Seu Genésio, tem um general aí querendo falar com o senhor! 

Ficou mais branco que bunda de escandinavo! Meu Deus, iria em cana. Não pensou duas vezes. Arrumou uma valise, meteu dentro alguns objetos, uma calça velha e — felizmente morava no térreo — pulou pela janela e está até agora escondido no sítio do sogro, em Jacarepaguá. 

O vendedor é que não entendeu nada. Tinha ido ali fazer uma demonstração do novo aspirador General Electric, falou com a empregada, ficou esperando na sala e — quando viu — o dono da casa estava pulando a janela, apavorado.




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* Roberto Campos (1917-2001), ministro do Planejamento do governo Castello Branco. 
** Guilherme Borghoff, secretário de Economia do governo Carlos Lacerda.

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SÉRGIO PORTO nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros.



quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Stanislaw PP - FeBeAPá: Depósito bancário

O Festival de Besteira

O Maior Festival de Besteira que já Assolou e voltou Assolar o País




Depósito bancário




Coisas ótimas têm ocorrido no estado do Paraná, prenhes de belas demonstrações da ala paranaense do Festival de Besteira que Assola o País. Principalmente depois que o coronel Pitombo resolveu ser crítico cinematográfico de araque e vive de viatura a rodar de um cinema para o outro, apreendendo filme que tem beijo. 

Tem cada cara dodói, que eu vou te contar! 

Mas o episódio para o qual peço espaço foge um pouco ao comum e tem provocado os mais variados comentários em Curitiba, onde o pessoal inscrito no Sindicato de Gozação se diverte a valer. Deu-se que Curitiba tem agora um banco bacanérrimo, todo de vidro, que parece até um aquário com os peixinhos (funcionárias) lá dentro. Claro que é um banco da turma do Nei Braga, conhecido pela plebe ignara e pelos depositantes em geral, pela sigla Banímpar. 

Tão alinhado é o banco que passou a ser até visitado por turistas mixurucas, isto é, curiosos que ficam do lado de fora, olhando pelo vidro o pessoal lá dentro. E eis senão quando — movido por vingança ou simples maluquice (até agora não foi apurado) — um cidadão entrou no banco com vontade de ir ao banheiro mas, ao invés de se encaminhar para o dito, usou o tapete da entrada principal, onde deixou um montículo constrangedor e provocou o maior pânico. Na hora em que produzia o montículo o movimento era intenso, houve correria de senhoras, protesto de senhores, o gerente ficou indeciso e quase dá o alarma de assalto, mas depois recuou porque o que o cara estava fazendo no tapete não era assalto não. Enfim, foi uma confusão dos diabos. 

O cara que fez o estranho depósito no banco da turma do Nei Braga está preso, mas chovem os comentários jocosos. Dizem que, no ato do depósito, telefonaram para o governador contando o fato e usando o verbo vulgar para definir o que o cara fizera “pra o banco”. E o governador gritou: 

— Mas isto é um problema da Sumoc!* — provavelmente achando que o verbo fora usado no sentido figurado. 

Outros gozadores afirmam que o coronel Pitombo está investigando para ver se não é agente comunista o autor da façanha, já que o apelido de Pitombo agora é “007 de Curitiba”. E há quem afirme que o guarda que foi colocado na porta do Banímpar é para impedir que o caso se repita. Há quem afirme que o guarda foi posto ali para fornecer papel aos próximos depositantes. 

De qualquer forma, foi um escândalo danado. Tendo — inclusive — o banco fechado, logo após o acontecimento. Uns dizem que fechou para balanço. Outros dizem que fechou para descarga.




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SÉRGIO PORTO nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros.