sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)

Simone de Beauvoir



02. A Experiência Vivida




O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR



complementando o livro anterior: O Segundo Sexo...


As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.

Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.

Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.

O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.








O SEGUNDO SEXO
II
A EXPERIÊNCIA VIVIDA




OBRAS DO MESMO AUTOR
Da Librairie Gallimard


ROMANCES

L'invitée
Le sang des autres
Tous les hommes sont mortels
Les mandarins


TEATRO

Les bouches inutiles


ENSAIOS

Pyrrhus et Cinéas
Pour une morale de l'ambiguité.
L'Amérique au jour le jour
Privilèges
La longue marche, essai sur la Chine
Le deuxième sexe:
      I. Les faits et les mythes
      I I . L'expérience vécue


MEMÓRIAS

Mémoires d'une jeune fille rangée
La force de l'age
La force des choses


já traduzidas
pela DIFUSÃO EUROPÉIA DO LIVRO

A Convidada
Todos os Homens são Mortais
Memórias de uma Moça bem Comportada
O Segundo Sexo:
     I. Os Fatos e os Mitos
     II. A Experiência Vivida
Na Força da Idade, 2 vols.
Sob o Signo da História, 2 vols.
Os Mandarins, 2 vols.






Beauvoir, Simone de
O Segundo Sexo
2. A Experiência Vivida
    2.a Edição
    Tradução de Sérgio Milliet
    Capa de Fernando Lemos

Título do original:
L'EXPÉRIENCE VÉCUE

1967








Que desgraça ser mulher! Entretanto,

a pior desgraça quando se é

mulher é, no fundo, não compreender

que sê-lo é uma desgraça. . .

KlERKEGAARD



Metade vítimas, metade cúmplices,

como todo mundo.


J . - P . SARTRE





Introdução 



AS MULHERES de hoje estão destronando o mito da feminilidade; começam a afirmar concretamente sua independência; mas não é sem dificuldade que conseguem viver integralmente sua condição de ser humano. Educadas por mulheres, no seio de um mundo feminino, seu destino normal é o casamento que ainda as subordina praticamente ao homem; o prestígio viril está longe de se ter apagado: assenta ainda em sólidas bases econômicas e sociais. É pois necessário estudar com cuidado o destino tradicional da mulher. Como a mulher faz o aprendizado de sua condição, como a sente, em que universo se acha encerrada, que evasões lhe são permitidas, eis o que procurarei descrever. Só então poderemos compreender que problemas se apresentam às mulheres que, herdeiras de um pesado passado, se esforçam por forjar um futuro novo. Quando emprego as palavras "mulher" ou "feminino" não me refiro evidentemente a nenhum arquétipo, a nenhuma essência imutável; apôs a maior parte de minhas afirmações cabe subentender: "no estado atual da educação e dos costumes". Não se trata aqui de enunciar verdades eternas, mas de descrever o fundo comum sobre o qual se desenvolve toda a existência feminina singular.




PRIMEIRA PARTE

FORMAÇÃO
                              ______________________________________________________




CAPÍTULO I
I N F Â N C I A





NINGUÉM nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro. Enquanto existe para si, a criança não pode apreender-se como sexualmente diferençada. Entre meninas e meninos, o corpo é, primeiramente, a irradiação de uma subjetividade, o instrumento que efetua a compreensão do mundo: é através dos olhos, das mãos e não das partes sexuais que apreendem o universo. O drama do nascimento, o da desmama desenvolvem-se da mesma maneira para as crianças dos dois sexos; têm elas os mesmos interesses, os mesmos prazeres; a sucção é, inicialmente, a fonte de suas sensações mais agradáveis; passam depois por uma fase anal em que tiram, das funções excretórias que lhe são comuns, as maiores satisfações; seu desenvolvimento genital é análogo; exploram o corpo com a mesma curiosidade e a mesma indiferença; do clitóris e do pênis tiram o mesmo prazer incerto; na medida em que já se objetiva sua sensibilidade, voltam-se para a mãe: é a carne feminina, suave, lisa, elástica que suscita desejos sexuais e esses desejos são preensivos; é de uma maneira agressiva que a menina, como o menino, beija a mãe, acaricia-a, apalpa-a; têm o mesmo ciúme se nasce outra criança; manifestam-no da mesma maneira: cólera, emburramento, distúrbios urinários; recorrem aos mesmos ardis para captar o amor dos adultos. Até os doze anos a menina é tão robusta quanto os irmãos e manifesta as mesmas capacidades intelectuais; não há terreno em que lhe seja proibido rivalizar com eles. Se, bem antes da puberdade e, às vezes, mesmo desde a primeira infância, ela já se apresenta como sexualmente especificada, não é porque misteriosos instintos a destinem imediatamente à passividade, ao coquetismo, à maternidade: é porque a intervenção de outrem na vida da criança é quase original e desde seus primeiros anos sua vocação lhe é imperiosamente insuflada.

O mundo apresenta-se, a princípio, ao recém-nascido sob a figura de sensações imanentes; ele ainda se acha mergulhado no seio do Todo como no tempo em que habitava as trevas do ventre; seja criado no seio ou na mamadeira, é envolto pelo calor da carne materna. Pouco a pouco, aprende a perceber os objetos como distintos de si: distingue-se deles; ao mesmo tempo, de modo mais ou menos brutal, desprende-se do corpo nutriz; por vezes reage a essa separação com uma crise violenta [1]. Em todo caso, é no momento em que ela se consuma — lá pela idade de seis meses mais ou menos — que a criança começa a manifestar em suas mímicas, que se tornam mais tarde verdadeiras exibições, o desejo de seduzir a outrem. Por certo, essa atitude não é definida por uma escolha refletida; mas não é preciso pensar uma situação para existi-la. De maneira imediata a criança de peito vive o drama original de todo existente, que é o drama de sua relação com o Outro. É na angústia que o homem sente seu abandono. Fugindo à sua liberdade, à sua subjetividade, ele gostaria de perder-se no seio do Todo: aí se encontra a origem de seus devaneios cósmicos e panteísticos, de seu desejo de esquecimento, de sono, de êxtase, de morte. Ele nunca consegue abolir seu eu separado: pelo menos deseja atingir a solidez do em-si, ser petrificado na coisa; é, singularmente, quando imobilizado pelo olhar de outrem, que se revela a si mesmo como um ser. É dentro dessa perspectiva que cumpre interpretar as condutas da criança: sob uma forma carnal, ela descobre a finidade, a solidão, o abandono em um mundo estranho; tenta compensar essa catástrofe alienando sua existência numa imagem de que outrem justificará a realidade e o valor. Parece que é a partir do momento em que percebe sua imagem no espelho — momento que coincide com o da desmama — que ela começa a afirmar sua identidade [2]: seu eu confunde-se a tal ponto com essa imagem que só se forma alienando-se. Desempenhe ou não o espelho propriamente dito um papel mais ou menos considerável, o certo é que a criança começa, por volta de seis meses, a compreender as mímicas dos pais e a se apreender sob o olhar deles como um objeto. Ela já é um sujeito autônomo que se transcende para o mundo, mas é somente sob uma figura alienada que ela se encontra a si mesma.

(1) Judith Gautier conta em suas recordações que chorou e definhou
de tal maneira, quando a separaram de sua ama, que foi preciso
reuni-las novamente. Só foi desmamada muito depois.
(2) Esta teoria é proposta pelo Dr. Lacan nos Complexes_ farniliaux
dans la formation de l'individu. Esse fato, de importância primordial,
explicaria por que, no curso de seu desenvolvimento, "o eu
conserva a figura ambígua do espetáculo".

Quando cresce, a criança luta de duas maneiras contra o abandono original. Tenta negar a separação: aconchega-se nos braços da mãe, procura seu calor vivo, reclama suas carícias. Tenta fazer-se justificar pelo sufrágio de outrem. Os adultos se lhe afiguram deuses: têm o poder de lhe conferir o ser. Sente a magia do olhar que a metamorfoseia ora em delicioso anjinho, ora em monstro. Esses dois modos de defesa não se excluem: ao contrário, completam-se e penetram-se. Quando a sedução alcança êxito, o sentimento de justificação encontra uma confirmação carnal nos beijos e carícias recebidos: é uma mesma passividade feliz que a criança conhece no colo da mãe e sob seu olhar benevolente. Não há, durante os três ou quatro primeiros anos, diferença entre a atitude das meninas e a dos meninos; tentam todos perpetuar o estado feliz que precedeu a desmama; neles como nelas deparamos com condutas de sedução e de parada: eles desejam tanto quanto elas agradar, provocar sorrisos, ser admirados.

É mais satisfatório negar a dilaceração do que superá-la, mais radical perder-se no coração do Todo do que se fazer petrificar pela consciência de outrem: a fusão carnal cria uma alienação mais profunda do que qualquer demissão perante o olhar alheio. A sedução, a parada representam uma fase mais complexa, menos fácil do que o simples abandono nos braços maternos. A magia do olhar adulto é caprichosa; a criança pretende ser invisível, os pais aceitam o jogo, procuram-na às apalpadelas, riem e depois bruscamente declaram: "Tu nos aborreces, não és invisível". Uma frase da criança divertiu, ela a repete; mas, agora, dão de ombros. Neste mundo tão incerto, tão imprevisível como o universo de Kafka, titubeia-se a cada passo [3]. É por isso que tantas crianças têm medo de crescer; desesperam-se quando os pais deixam de sentá-las nos joelhos, de aceitá-las na cama: através da frustração física, sentem dia a dia mais cruelmente o abandono de que o ser humano nunca toma consciência senão com angústia.

(3) Em L'Orange bleue, Yassu Gauclère diz a propósito do pai: "Seu bom humor parecia-me tão temível quanto suas impaciências porque nada me explica o que o podia motivar. . . Incerta de seus movimentos de humor tanto quanto o fora dos caprichos de um Deus, eu o reverenciava com inquietação. . . Lançava palavras como teria jogado a cara ou coroa perguntando-me que acolhimento lhes seria dado". E mais adiante ela conta o caso seguinte: "Como um dia, depois de ter sido ralhada, começasse minha litania: mesa velha, escovão, forno, bacia, garrafa de leite, frigideira etc, mamãe ouviu e rebentou de rir. . . Dias depois, tentei utilizar a mesma litania para abrandar minha mãe que novamente havia ralhado comigo; triste ideia: ao invés de diverti-la, só consegui dobrar ainda a severidade, o que me acarretou uma punição suplementar. Disse a mim mesma que a conduta dos grandes era decididamente incompreensível".

Nesse ponto é que as meninas vão parecer, a princípio, privilegiadas. Uma segunda desmama, menos brutal, mais lenta do que a primeira, subtrai o corpo da mãe aos carinhos da criança; mas é principalmente aos meninos que se recusam pouco a pouco beijos e carícias; quanto à menina, continuam a acariciada, permitem-lhe que viva grudada às saias da mãe, no colo do pai que lhe faz festas; vestem-na com roupas macias como beijos, são indulgentes com suas lágrimas e caprichos, penteiam-na com cuidado, divertem-se com seus trejeitos e seus coquetismos: contatos carnais e olhares complacentes protegem-na contra a angústia da solidão. Ao menino, ao contrário, proíbe-se até o coquetismo; suas manobras sedutoras, suas comédias aborrecem. 'Um homem não pede beijos. . . um homem não se olha no espelho. . . Um homem não chora", dizem-lhe. Querem que ele seja "um homenzinho"; é libertando-se dos adultos que ele conquista o sufrágio deles. Agrada se não demonstra que procura agradar.



continua página 12...


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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Stanislaw PP - FeBeAPá: O diário de Muzema

O Festival de Besteira

O Maior Festival de Besteira que já Assolou e voltou Assolar o País


II Parte




O diário de Muzema







Muzema é um bairrozinho pequeno e pacato, ali pelas bandas da Barra da Tijuca. Pertence à jurisdição da 32a Delegacia Distrital e nunca dá bronca. Ou melhor, minto… não dava bronca porque esta que deu agora foi fogo. Diz que o delegado da 32a estava em sua mesa de soneca tirando uma pestana, feliz com o sossego, quando um bando de perto de duzentas pessoas invadiu a delegacia, carregando no ar um coitado, baixote e magrinho, com a cara mais amassada que para-choque de ônibus de subúrbio. E a turba fazia um barulho de acordar prontidão.

O delegado, que era o Levi, deu um pulo da cadeira e berrou:

— Chamem a polícia!!! — mas aí percebeu que ele mesmo é que era a polícia e perguntou que diabo era aquilo. Logo todo mundo começou a berrar ao mesmo tempo, o que obrigou o dr. Levi a berrar mais alto ainda, ordenando:

— Um de cada vez, pombas!

Aí um dos que carregavam o pequenino, ordenou que os companheiros pusessem “aquele rato” no chão (a expressão é lá do cara) e começou a explicar:

— Nós somos moradores do bairro de Muzema, doutor delegado.

— Sim. E esse pequenino aí?

— Pois é, doutor. Nós somos todos de lá e esse cretino aí também é. Imagine o senhor que ele tem m caderno grosso, que ele chama de “Meu diário”, onde escreve as maiores sujeiras sobre a gente.

— Como é que é? — estranhou o delegado.

Começou todo mundo a berrar outra vez e, enquanto um guarda dava um copo de água para o diarista arrebentado, o delegado viu-se outra vez a berrar mais alto:

— Calem-se! Um só de cada vez!

Foi aí que deram a palavra pro dono do caderno:

— É o seguinte, doutor: eu tenho um diário. Ando muito lá pela Muzema e ninguém nunca repara em mim. Assim eu posso ver o que os outros fazem sem ser importunado. Mas acontece que eu não sou fofoqueiro. Eu vejo cada coisa de arrepiar. Ainda ontem eu vi a mulher daquele ali (e apontou para um sujeito do grupo) num escurinho da praça, abraçada com aquele lá (e apontou um outro sujeito no canto da delegacia, que, ao ser apontado, encolheu-se todo). Esta informação bastou para que o assinalado marido partisse pra cima do encolhido e o tumulto se generalizasse. Coitado do delegado, já estava quase rouco, quando conseguiu reimplantar a ordem na 32a DD.

— Prossiga! — disse pro pequenino.

O pequenino pigarreou e prosseguiu:

— Como eu dizia, eu tenho o meu diário e anoto nele tudo que vejo. Não faço fofoca com ninguém. Tudo o que está escrito aqui é verídico.

— Como é o seu nome? Onde você mora?

— Edson Soares. Moro lá mesmo na Muzema. Lote A, casa 18.

O delegado Levi pediu o diário e folheou algumas páginas. Havia coisas mais ou menos assim, escritas nele: “D. Jurema, do lote B, casa 75, estava saindo de madrugada da casa 67 do mesmo lote, onde mora o Sebastião, que tem um cacho com ela há muito tempo”. Ou então: “Lilico continua fingindo que é noivo da filha de d. Júlia, mas se aquilo é noivado eu sou girafa. Como eles mandam brasa, atrás do muro da casa dela”.

O delegado Levi tossiu, embaraçado, e quis saber como é que os personagens daquele diário tinham descoberto o que estava escrito ali. O pequenino foi sincero:

— Eu dei azar, doutor. Eu esqueci o diário num banco da pracinha e fui jantar. Quando eu voltei estava todo mundo em volta desse garoto aí — e apontou um garoto sorridente, que se divertia com o bafafá —, e o miserável do garoto lendo em voz alta: “…o seu Osooo… Osorío não: Osório. O seu Osório quando sai pra o tral… tralba… para o trabalho, devia levar a muuu… a mulher dele. Ela é muito assada… assada não… muito assanhada”.

— Eu achei o diário dele — falou o garoto, mas calou-se logo ao levar um cascudo de um gordão que devia ser, na certa, o seu Osório.

Já ia saindo onda outra vez. O pessoal do bairro pacato estava mesmo disposto a beber o sangue de Edson Soares, o historiador da localidade. Sanada, todavia, mais esta tentativa, o delegado Levi perguntou ao dono do diário:

— O senhor também é poeta?

— Mais ou menos, né?

— Eu pergunto — esclareceu o delegado — porque este versinho aqui está interessante, e leu no diário: “Para o José Azevedo/ O futebol não cola/ Pois se for cabecear/ Na certa ele fura a bola”.

Pimba… mais uma bolacha premiou a cara do poeta. Ninguém conseguia segurar José Azevedo, residente na Muzema, lote J, casa 77. O pau roncou solto e só quando chegou reforço é que o delegado conseguiu botar em cana uns quatro ou cinco, inclusive o biógrafo muzemense. O resto mandou embora, aconselhando:

— Vocês vejam se não dão margem ao artista de se expandir tanto, em seu futuro diário, tá?

O pessoal prometeu.






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Leia também:

Stanislaw PP - FeBeAPá: O Festival de Besteira (1)
Stanislaw PP - FeBeAPá: O Festival de Besteira (2)
Stanislaw PP - FeBeAPá: O Festival de Besteira (3)
Stanislaw PP - FeBeAPá: O Festival de Besteira (4)
Stanislaw PP - FeBeAPá: O puxa-saquismo desvairado
Stanislaw PP - FeBeAPá: Meio a meio
Stanislaw PP - FeBeAPá: O informe secreto
Stanislaw PP - FeBeAPá: Nas tuberosidades isquiáticas
Stanislaw PP - FeBeAPá: A conspiração
Stanislaw PP - FeBeAPá: Desrespeito à região glútea
Stanislaw PP - FeBeAPá: Garotinho corrupto
Stanislaw PP - FeBeAPá: Por trás do biombo
Stanislaw PP - FeBeAPá: Depósito bancário
Stanislaw PP - FeBeAPá: “O general taí”
Stanislaw PP - FeBeAPá: O antológico Lalau
Stanislaw PP - FeBeAPá: O paquera
Stanislaw PP - FeBeAPá: Eram parecidíssimas
Stanislaw PP - FeBeAPá: O sabiá do almirante
Stanislaw PP - FeBeAPá: Aos tímidos o que é dos tímidos
Stanislaw PP - FeBeAPá: O filho do camelô
Stanislaw PP - FeBeAPá: Um cara legal

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* As cédulas de um cruzeiro (Pedro Álvares Cabral) e cinco cruzeiros (Tiradentes).

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SÉRGIO PORTO nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e morreu na mesma cidade em 1968. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros.





Julio Verne - A Volta ao Mundo em 80 Dias, Capítulo XV

Júlio Verne


A Volta ao Mundo em 80 Dias





CAPÍTULO XV
EM Q UE A SACOLA COM BANK-NOTES FICA ALIVIADA DE MAIS ALGUNS MILHARES DE LIBRAS




O trem parara na estação. Passepartout foi o primeiro a descer do vagão, e foi seguido por Mr. Fogg, que ajudou sua jovem companhia a colocar o pé na plataforma. Phileas Fogg contava dirigir-se diretamente ao paquete para Hong Kong, para instalar ali confortavelmente Mrs. Aouda, que não queria deixar, enquanto estivesse nesta terra tão perigosa para ela.

No momento em que Mr. Fogg ia a sair da estação um policeman aproximou-se
e disse:

— Senhor Phileas Fogg?

— Sou eu.

— Este homem é seu criado? acrescentou o policeman apontando Passepartout.

— Sim.

— Queiram seguir-me.

Mr. Fogg não fez nenhum movimento que pudesse revelar qualquer surpresa.


Aquele agente era um representante da lei, e, para qualquer inglês, a lei é sagrada. Passepartout, com os seus hábitos franceses, queria discutir, mas o policeman tocou nele com seu bastão, e Phileas Fogg lhe fez sinal para obedecer.


— Esta jovem dama pode acompanhar-nos? perguntou Mr. Fogg.

— Pode, respondeu o policeman.

O policeman conduziu Mr. Fogg, Mrs. Aouda e Passepartout até um palki-ghari, espécie de veículo de quatro rodas e quatro lugares, atrelado a dois cavalos.

Partiram. Ninguém falou durante o trajeto, que durou uns vinte minutos.


O veículo atravessou primeiro a “cidade negra”, com ruas estreitas, bordejada por calçadas em que formigava uma população cosmopolita, imunda e andrajosa; depois passou pela cidade européia, alegrada com casas de tijolo, ensombrada por coqueiros, eriçada de mastros, por entre os quais trotavam, apesar da hora matinal, cavaleiros elegantes e magníficas montarias.
O palki-ghari parou na frente de uma habitação de aparência simples, mas que não deveria se destinar a usos domésticos. O policeman fez descer seus prisioneiros — podemos a rigor lhes dar este nome — e os conduziu a uma dependência com janelas gradeadas, dizendo:

— É às oito horas e meia que comparecerão perante o juiz Obadiah.

Depois retirou-se e fechou a porta.


— Bem! estamos presos! exclamou Passepartout, deixando-se cair numa cadeira.

Mrs. Aouda, dirigindo-se logo a Mr. Fogg, disse-lhe com uma voz da qual procurava em vão disfarçar a emoção:

— Senhor, é preciso me abandonar! É por minha causa que o perseguem! É por me ter salvo!

Phileas Fogg contentou-se em responder que isso não era possível. Perseguido por esse assunto do sati! Inadmissível! Como os queixosos se atreveriam a se apresentar? Havia engano. Mr. Fogg acrescentou que, fosse como fosse, não abandonaria a jovem, e a conduziria a Hong Kong.

— Mas o barco parte ao meio dia! observou Passepartout.

— Antes do meio dia estaremos no navio, respondeu simplesmente o impassível gentleman.

Isto foi afirmado tão assertivamente, que Passepartout não pôde deixar de se dizer:

— Caramba! É mais que certo! Antes do meio dia estaremos a bordo! Mas não estava tão convencido assim.

Às oito e meia, a porta da sala se abriu. O policeman reapareceu, e introduziu os presos na sala ao lado. Era uma sala de audiência, e um público bastante numeroso, composto de Europeus e de nativos já ocupava o pretório.

Mr. Fogg, Mrs. Aouda e Passepartout sentaram-se em um banco defronte aos lugares reservados ao magistrado e ao escrivão.

Este magistrado, o juiz Obadiah, entrou quase imediatamente, seguido pelo escrivão. Era um homem grande todo redondo. Pegou uma peruca pendurada numa chapeleira e se cobriu com ela rápida e decididamente.

— A primeira causa, disse.

Mas, levando a mão à cabeça:

— Epa! Esta não é a minha peruca!

— Com efeito, senhor Obadiah, é a minha, respondeu o escrivão.

— Caro senhor Oy sterpuf, como quer que o juiz possa proferir uma boa sentença com a peruca de um escrivão?

A troca das perucas foi feita. Durante estas preliminares, Passepartout fervia de impaciência, porque o ponteiro lhe parecia andar terrivelmente rápido sobre o mostrador do grande relógio do tribunal.

— A primeira causa, retomou então o juiz Obadiah.

— Phileas Fogg? disse o escrivão Oy sterpuf.

— Estou aqui, respondeu Mr. Fogg.

— Passepartout?

— Presente! respondeu Passepartout.

— Bem! disse o juiz Obadiah. Há dois dias, acusados, que os procuramos em todos os trens de Bombaim.

— Mas de que nos acusam? gritou Passepartout, impaciente.

— Vai saber, respondeu o juiz.


— Senhor, disse então Mr. Fogg, sou cidadão inglês, e tenho direito...

— Faltaram-lhe ao respeito? perguntou Mr. Obadiah.

— De modo algum.

— Ótimo! façam entrar os queixosos.

À ordem do juiz, abriu-se uma porta, e três sacerdotes hindus foram introduzidos por um oficial.

— É isso! murmurou Passepartout, são aqueles velhacos que queriam queimar a nossa jovem dama!

Os sacerdotes perfilaram-se diante do juiz, e o escrivão leu em voz alta uma acusação de sacrilégio, formulada contra o senhor Phileas Fogg e o seu criado, acusados de ter violado um lugar consagrado à religião bramânica.

— Ouviu? perguntou o juiz a Phileas Fogg.

— Sim, senhor, respondeu Mr. Fogg consultando seu relógio, e confesso.

— Ah! confessa?

— Confesso e espero que estes três sacerdotes por sua vez também confessem o que queriam fazer no pagode de Pillaji.

Os sacerdotes se entreolharam. Pareciam não compreender nada das palavras do acusado.

— Sem dúvida! exclamou impetuosamente Passepartout, no pagode de Pillaji, diante do qual eles iam queimar sua vítima!

Nova estupefação dos sacerdotes, e profundo espanto do juiz Obadiah.

— Que vítima? perguntou. Queimar quem? Em plena cidade de Bombaim?

— Bombaim? exclamou Passepartout.


— Sem dúvida. Não se trata do pagode de Pillaji, mas do pagode de Malebar Hill, em Bombaim.

— E como prova, eis os sapatos do profanador, acrescentou o escrivão, pondo um par de calçados sobre sua mesa.

— Meus sapatos! gritou Passepartout, que, extremamente surpreso, não pôde conter esta exclamação involuntária.

Adivinhem a confusão que se operou no espírito do patrão e do criado. O incidente do pagode de Bombaim, eles o tinham esquecido, e era exatamente este que os levava perante o magistrado de Calcutá.

Com efeito, o agente Fix tinha compreendido todo o partido que poderia tirar deste malfadado acontecimento. Atrasando sua partida em doze horas, arvorara-se em conselheiro dos sacerdotes de Malebar Hill; tinha prometido para eles indenizações consideráveis, sabendo bem que o governo inglês se mostrava muito severo para este gênero de delito; depois, no trem seguinte, os tinha lançado na pista do sacrílego. Mas, devido ao tempo empregado no resgate da jovem viúva, Fix e os hindus chegaram a Calcutá antes de Phileas Fogg e seu criado, que os magistrados, prevenidos por despacho, deveriam prender quando descessem do trem. Avaliem o desapontamento de Fix, quando soube que Phileas Fogg não havia chegado ainda à capital da Índia. Deveria ter acreditado que o seu ladrão, parando em uma das estações do Peninsular Railway , tinha se refugiado nas províncias setentrionais. Por vinte e quatro horas, em meio a mortais inquietudes, Fix o aguardou na estação. Qual não foi pois sua alegria quando, naquela manhã, o viu descer do vagão, em companhia, é verdade, de uma jovem cuja presença não podia explicar. Imediatamente lançou sobre ele um policeman, e eis como Mr. Fogg, Passepartout e a viúva do rajá do Bundelkund foram conduzidos perante o juiz Obadiah.

E se Passepartout tivesse estado menos preocupado com seu caso, teria percebido, em um canto do pretório, o detetive, que acompanhava o debate com um interesse fácil de se compreender — porque em Calcutá, como em Bombaim, como em Suez, o mandado de prisão faltava-lhe ainda!

Neste ínterim, o juiz Obadiah fizera constar em ata a confissão que deixara escapar Passepartout, o qual teria dado tudo o que possuía para poder retirar suas palavras imprudentes.

— Confessam os fatos? disse o juiz.

— Confessados, respondeu friamente Mr. Fogg.

— Tendo em vista, retomou o juiz, tendo em vista que a lei inglesa entende proteger igual e rigorosamente todas as religiões das populações da Índia, o delito tendo sido confessado pelo senhor Passepartout, convicto de ter violado com pé sacrílego o pavimento do pagode de Malebar Hill, em Bombaim, no dia 20 de outubro, condeno o supramencionado Passepartout a quinze dias de prisão e a uma multa de trezentas libras (7.500 F).

— Trezentas libras? gritou Passepartout, que só estava verdadeiramente sensível à multa.

— Silêncio! exclamou o oficial com voz esganiçada.

— E, acrescentou o juiz Obadiah, visto que não está materialmente provado que não houve conivência entre criado e o patrão, mas que em todo caso este deve ser considerado responsável pelos gestos de um servidor a seus cuidados, retém o citado Phileas Fogg e o condena a oito dias de prisão e cento e cinqüenta libras de multa. Escrivão, chame outro caso!

Fix, do seu canto, experimentava uma indizível satisfação. Phileas Fogg retido oito dias em Calcutá, era mais que suficiente para dar ao mandado tempo de chegar.


Passepartout estava aturdido. Esta condenação arruinava seu patrão. Uma aposta de vinte mil libras perdida, e tudo porque ele, como um verdadeiro paspalho, tinha entrado naquele maldito pagode!

Phileas Fogg, tão senhor de si como se a condenação não lhe dissesse respeito, nem mesmo franzira a sobrancelha. Mas no momento em que o escrivão ia chamar outro caso, levantou-se e disse:

— Ofereço fiança.

— É seu direito, respondeu o juiz.

Fix sentiu um frio na espinha, mas recobrou a segurança, quando ouviu o juiz, “tendo em vista a qualidade de estrangeiros de Phileas Fogg e de seu criado”, fixar a fiança para cada um deles na enorme quantia de mil libras (25.000 F).

Custaria duas mil libras a Phileas Fogg, se não purgasse sua condenação.

— Pago, disse o gentleman.

E da sacola que Passepartout trazia, retirou um maço de bank-notes que depositou sobre a mesa do escrivão.

— Esta soma lhe será restituída quando sair da prisão, disse o juiz. Enquanto esperam, estão livres sob fiança.

— Venha, disse Phileas Fogg a seu criado.

— Mas, ao menos, me devolvam os sapatos! exclamou Passepartout com um movimento de raiva.

Foram-lhe restituídos os sapatos.

— E olha que custaram caro! murmurou ele. Mais de mil libras cada um! Sem contar que me machucam!

Passepartout, absolutamente pesaroso, seguiu Mr. Fogg, que havia oferecido o braço à jovem. Fix esperava ainda que seu ladrão não resolvesse abandonar esta soma de duas mil libras e cumprisse os oito dias de prisão. Lançou-se pois ao encalço de Fogg.

Mr. Fogg tomou um veículo, para a qual Mrs. Aouda, Passepartout e ele logo subiram. Fix correu atrás do veículo, que logo parou num dos cais da cidade.

A meia milha ao largo, o Rangoon estava ancorado, sua bandeira de partida içada no topo do mastro. Soavam as onze horas. Mr. Fogg estava adiantado uma hora. Fix o viu descer do veículo e embarcar numa canoa com Mrs. Aouda e o criado. O detetive bateu o pé no chão.

— Pilantra! exclamou, parte! Duas mil libras sacrificadas! Pródigo como um ladrão! Ah! segui-lo-ei até o fim do mundo se preciso for; mas no passo que vai, todo o dinheiro do roubo terá acabado!

O inspetor de polícia tinha fundamento em sua reflexão. Com efeito, desde que tinha saído de Londres, tanto em despesas de viagem quanto em gratificações, na compra do elefante, nas fianças e na multa, Phileas Fogg já semeara pelo caminho mais de cinco mil libras (125.000 F), e o tanto por cento da soma encontrada, atribuído aos detetives, ia sempre diminuindo.






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Julio Verne nasceu em Nantes em 8 de fevereiro de 1828. Fugiu de casa com 11 anos para ser grumete e depois marinheiro. Localizado e recuperado, retornou ao lar paterno. Em um furioso ataque de vergonha por sua breve e efêmera aventura, jurou solenemente (para a sorte de seus milhões de leitores) não voltar a viajar senão em sua imaginação e através de sua fantasia. 
Promessa que manteve em mais de oitenta livros. 
Sua adolescência transcorreu entre contínuos choques com o pai, para quem as veleidades exploratórias e literárias de Júlio pareciam totalmente ridículas. 
Finalmente conseguiu mudar-se para Paris onde entrou em contato com os mais prestigiados literatos da época. Em 1850 concluiu seus estudos jurídicos e, apesar insistência do pai para que voltasse a Nantes, resistiu, firme na decisão de tornar-se um profissional das letras. 
Foi por esta época que Verne, influenciado pelas conquistas científicas e técnicas da época, decide criar uma literatura adaptada à idade científica, vertendo todos estes conhecimentos em relatos épicos, enaltecendo o gênio e a fortaleza do homem em sua luta por dominar e transformar a natureza. 
Em 1856 conheceu Honorine de Vyane, com quem casou em 1857. 
Por essa época, era um insatisfeito corretor na Bolsa, e resolveu seguir o conselho de um amigo, o editor P. J. Hetzel, que será seu editor in eternum, e converteu um relato descritivo da África no Cinco Semanas em Balão (1863). Obteve êxito imediato. Firmou um contrato de vinte anos com Hetzel, no qual, por 20.000 francos anuais, teria de escrever duas novelas de novo estilo por ano. O contrato foi renovado por Hetzel e, mais tarde, por seu filho. E assim, por mais de quarenta anos, as Voyages Extraordinaires apareceram em capítulos mensais na revista Magasin D'éducation et de Récréation. 
Em A Volta ao Mundo em 80 Dias, encontramos, ao mesmo tempo, muito da breve experiência de Verne como marinheiro e como corretor de Bolsa. Nada mais justo, também, que o novo estilo literário inaugurado por Júlio Verne, fosse utilizado por uma nova arte que surgia: o cinema. Da Terra à Lua (Georges Mélies, 1902), La Voyage a travers l'impossible (Georges Mélies, 1904), 20.000 lieus sous les mers (Georges Mélies, 1907), Michael Strogof (J. Searle Dawley, 1910), La Conquête du pôle (Georges Mélies, 1912) foram alguns dos primeiros filmes baseados em suas obras. Foram inúmeros. 
A Volta ao Mundo em 80 dias foi filmado em 1956, com enredo milionário, dirigido por Michael Anderson, música de Victor Young, direção de fotografia de Lionel Lindon. David Niven fez Phileas Fogg, Cantinflas, Passepartout, Shirley MacLaine, Aouda. Em 1989, foi aproveitado para uma série de TV, com a participação da BBC, dirigida por Roger Mills. No mesmo ano, outra série de TV, agora nos EE.UU., dirigida por Buzz Kulik, com Pierce Brosnan (Phileas Fogg), Eric Idle (Passepartout), Julia Nickson-Soul (Aouda), Peter Ustinov (Fix). 
Apesar de tudo, a vida de Verne não foi fácil. Por um lado sua dedicação ao trabalho minou a tal ponto sua saúde que durante toda a vida sofreu ataques de paralisia. Como se fosse pouco, era diabético e acabou por perder vista e ouvido. Seu filho Michael lhe deu os mesmos problemas que dera ao pai e, desgraça das desgraças, um de seus sobrinhos lhe disparou um tiro à queima-roupa deixando-o coxo. Sua vida efetiva também não foi das mais tranquilas e todos os seus biógrafos admitem ter tido uma amante, um relacionamento que só terminou com a morte da misteriosa dama. 
Verne também se interessou pela política, tendo sido eleito para o Conselho de Amiens em 1888 na chapa radical, reeleito em 1892, 1896 e 1900. 
Morreu em 24 de Março de 1905


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Leia também:

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A Volta ao Mundo em 80 Dias é um romance de aventura escrito pelo francês Júlio Verne e lançado em 1873. A obra retrata a tentativa do cavalheiro inglês Phileas Fogg e seu valete, Passepartout, de circum-navegar o mundo em 80 dias.

Data da primeira publicação: 30 de janeiro de 1873
Autor: Júlio Verne
Editora: Pierre-Jules Hetzel
País: França
Personagens: Phileas Fogg, Passepartout, Princesa Aouda, Inspetor Fix, James Forster
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"Eu sou todo ser humano que já viveu?" - Um pequeno conto

O ovo





The Egg
Written by Andy Weir
Translated by Carlos Buosi

Você estava a caminho de casa quando morreu.
Foi em um acidente de carro. Nada muito chamativo, mas infelizmente fatal. Você deixou sua esposa e duas crianças. Foi uma morte sem dor. Os para-médicos tentaram de tudo para te salvar, mas em vão. Seu corpo foi completamente destruído, você já esteve melhor, pode acreditar.
E foi aí que você me conheceu.
"O que-... o que aconteceu?" Você perguntou. "Onde estou?"
"Você morreu," Eu disse, com naturalidade. Não fazia sentido conter as palavras.
"Havia um caminhão.. e ele derrapou.."
"Isso aí," Eu disse.
"Eu.. Eu morri?"
"É. Mas não se sinta mal. Todo mundo morre," Eu disse.
Você olhou em volta. Não havia nada. Só eu e você. "Que lugar é esse?" Você perguntou. "Isso é o paraíso?"
"Mais ou menos," Eu disse.
"Você é Deus?" Você perguntou.
"Isso ai," Respondi. "Eu sou Deus."
"Meus filhos... minha mulher," você disse.
"O que tem eles?"
"Eles ficarão bem?"
"É isso que eu gosto de ver," Eu disse. "Você acabou de morrer e sua maior preocupação é a sua família. Isso é mesmo uma coisa boa."
Você olhou pra mim com um certo fascínio. Pra você, eu não parecia com Deus. Eu aparentava ser um homem qualquer. Ou uma mulher. Uma figura autoritária meio vaga, talvez. Mais como um professor de português do que o Todo Poderoso.
"Não se preocupe," Eu disse. "Eles ficarão bem. Seus filhos lembrarão de você como um pai perfeito em todos os sentidos. Eles não tiveram tempo de sentir algo ruim por você. Sua mulher vai chorar, mas vai ficar secretamente aliviada. Pra ser sincero, seu casamento estava desmoronando. Se serve como consolo, ela vai se sentir muito culpada por se sentir aliviada."
"Ah.."Você disse. "Então o que acontece agora? Eu vou para o Céu, pro Inferno ou alguma coisa do tipo?"
"Nenhum dos dois" Eu disse. "Você vai reincarnar."
"Ah," você disse. "Então os Hindus estavam certos,"
"Todas as religiões estão certas de alguma forma," Eu disse. "Venha comigo."
Você me seguiu enquanto caminhavamos pelo vazio. "Aonde estamos indo?"
"A lugar nenhum específico," Eu disse. "Só gosto de andar enquanto conversamos."
"Então que sentido isso faz?" Você perguntou. "Quando renascer, eu vou esquecer tudo, não é?" Um bebê. Então todas as minhas experiências e tudo que fiz nessa vida não significaram nada."
"Não é por aí!" Eu disse. "Você tem dentro de você todo o conhecimento e experiências de todas as suas vidas passadas. Você só não lembra dessas coisas agora."
Eu parei de andar e coloquei as mãos em seus ombros. "Sua alma é mais magnífica, linda e gigantesca do que você possa imaginar. Sua mente humana pode apenas entender uma pequena fração do que você é. É como colocar o seu dedo em um copo de vidro e ver se está quente ou frio. Você coloca uma pequena parte de você em jogo, e quando tira, você percebe que aprendeu tudo que podia por lá.
Você foi um humano nos últimos 48 anos, então ainda não deu tempo de você perceber o resto da sua imensa consciência. Se nós ficarmos aqui por muito tempo, você começará a lembrar de tudo. Mas não faz sentido fazer isso entre cada vida."
"Quantas vezes eu já reencarnei, então?"
"Ah, muitas. Muitas e muitas. E em muitas vidas diferentes." Eu disse. "Dessa vez, você será uma camponesa chinesa no ano 540 D.C."
"Es-espera aí, como?" Você gaguejou. "Você está me mandando de volta no tempo?"
"Bem, tecnicamente. Tempo, da forma como você conhece, só existe no seu universo. As coisas funcionam de outro jeito de onde eu venho."
"De onde você vem?" Você disse.
"Ah claro, " Eu expliquei "Eu venho de algum lugar. Um lugar diferente. tem outros como eu. Eu sei que você quer saber como é lá, mas honestamente, você não iria entender."
"Ah," Você disse, um pouco desanimado. "Mas espera. Se eu reencarno em diferentes lugares no tempo, eu poderia ter interagido comigo mesmo alguma vez."
"Claro. Acontece o tempo todo. E já que as duas pessoas tem apenas consciência da sua própria vivência, você nunca sabe que está acontecendo."
"Então, qual é o sentido?"
"Ta falando sério?" Perguntei. "Sério? Você está me perguntando o sentido da vida? Isso não meio clichê?"
"Bem, é uma pergunta plausível," Você persistiu.
"Eu te olhei nos olhos. "O sentido da vida, motivo pelo qual eu criei todo o seu universo, é para que você amadureça."
"Você ta falando da humanidade? Você quer que nós amadureçamos?"
"Não, somente você. Eu fiz todo esse universo para você. Para que em cada nova vida você cresça, amadureça e se torne um intelecto maior."
"Só eu? E as outras pessoas?"
"Não há mais ninguém," Eu disse. "Nesse universo, só existe você e eu."
Você me olhou com um olhar vazio. "Mas e todas as pessoas da Terra..."
"Todos são você. Diferentes encarnações de você."
"Que? Eu sou todo mundo?"
"Agora você está entendendo, "Eu disse, te dando uma tapinha nas costas.
"Eu sou todo ser humano que já viveu?"
"Ou quem irá nascer, sim."
"Eu sou Abraham Lincoln?"
"E você é John Wilkes Booth, também, " Completei.
"Eu sou Hitler?" Você disse, horrorizado.
"E também é os milhões que ele matou."
"Eu sou Jesus?"
"E também é todos que o seguiram."
Você ficou em silêncio.
"Toda vez que você enganou alguém, " Eu disse, "você estava enganando a si mesmo. Cada ato de bondade que você teve, foi feito para consigo mesmo. Cada momento feliz e triste que você teve com qualquer pessoa foi, e será, aproveitado com você."
Você ficou pensando por um longo tempo.
"Por quê?" Você me perguntou. "Por que fazer tudo isso?"
"Porque algum dia, você será como eu. Porque é isso que você é. Você é um dos meus. Você é meu filho."
"Nossa," você disse, incrédulo. "Quer dizer que sou um Deus?"
"Não, ainda não. Vocé um feto. Você ainda está crescendo. Quando tiver vivido todas as vidas humanas em todas as eras, você terá crescido o suficiente para nascer."
"Então todo o universo," você disse, "é somente..."
"Um ovo." Respondi. "Agora é hora de você ir para sua próxima vida."
E eu enviei você de volta.













Video produzido pela Anima Technica baseado na obra The Egg de Andy Weir.
 Legendado por Divulgação.







The Egg - Dublado/Legendado







Áudio - Boa Noite Internet

O Ovo, um conto de Andy Weir






quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Esquentando(04) a chegada da Elza em Porto Alegre, 08/03/2020

Elza Soares





"Mulher do fim do mundo
Eu sou
Eu vou
Até o fim Cantar

Mil nações moldaram minha cara
Minha voz uso pra dizer o que se cala

O meu país é meu lugar de fala"







A Mulher do Fim do Mundo
Romulo Fróes e Alice Coutinho






Meu choro não é nada além de carnaval
É lágrima de samba na ponta dos pés
A multidão avança como vendaval
Me joga na avenida que não sei qualé

Pirata e super homem cantam o calor
Um peixe amarelo beija minha mão
As asas de um anjo soltas pelo chão
Na chuva de confetes deixo a minha dor

Na avenida deixei lá
A pele preta e a minha voz
Na avenida deixei lá
A minha fala, minha opinião
A minha casa, minha solidão
Joguei do alto do terceiro andar
Quebrei a cara e me livrei do
Resto
Dessa
Dida,
Na avenida,
Dura
Até
O fim

Mulher
do fim
do mundo
Eu sou
Eu vou
Até o fim
Cantar






O Que Se Cala





Mil nações moldaram minha cara
Minha voz uso pra dizer o que se cala
O meu país é meu lugar de fala


Mil nações moldaram minha cara
Minha voz uso pra dizer o que se cala
Ser feliz no vão, no triz, é força que me embala
O meu país é meu lugar de fala
Mil nações moldaram minha cara
Minha voz uso pra dizer o que se cala
Ser feliz no vão, no triz, é força que me embala
O meu país é meu lugar de fala

Pra que separar?
Pra que desunir?
Pra que só gritar?
Por que nunca ouvir?
Pra que enganar?
Pra que reprimir?
Por que humilhar e tanto mentir?
Pra que negar que ódio é o que te abala?
O meu país é meu lugar de fala
O meu país

Mil nações moldaram minha cara
Minha voz uso pra dizer o que se cala
Ser feliz no vão, no triz, é força que me embala

O…


Composição: Douglas Germano






O Tempo Não Para
Arnaldo Brandão / Cazuza



Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados

Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não pára

Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando agulha num palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não para, não, não pára







A Mulher do Fim do Mundo
 - Álbum Completo






Espumas ao Vento







Uma Mulher do começo, meio e fim do mundo. A voz do milênio é a voz de Deus! Cante Elza!