segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Sarau do Brasil Nunca Mais

Becos sem saída - Penumbras e Descartes



VI
baitasar
Andam por ruelas vazias e escuras, mal iluminadas. Ficamos escondidos. A falta da luz esconde o gato, desaparece com essa gente empurrada para o esquecimento, a infinita privação de tudo, menos do cheiro podre da morte. O Velho e a menina - que continua a me carregar por esquecimento - se apoiam aos pulos e sobressaltos em caminhos retorcidos, enferrujados, malcheiroso de beco, sem saídas para a vida com pretensão de vida. Tudo muito velho e triste, e podre. Caminham subindo ou descendo, quase caindo param no brilho cego do único poste iluminante, enfeitado por feitios inconstantes e perplexos fios que carregam a ligação da luz para as casas de papelão, com remendos de madeira — Vem menina, vamos indo pelo beco, em algum lugar haveremos de sair.
O Velho sabe que ficar por ali era ter o perigo do encontro com a mulher fantasma. Não quer conversa com aquela dama de assombração, mulher estranha, imagem ilusória da piriguara manchada de negro, medindo pouco mais de meio metro de comprimento, com buracos pelo couro e a foice curva de cortar as espigas maduras — Nunca se sabe de onde vem o inimigo. Vamos! — enquanto diz, já tem a moçoinha pela mão e nos carrega pelo beco. Ela ainda tem o tempo de virar atrás, tem os olhos da curiosidade no poste público de luz, único sinal de algum esforço das gentes de longe
—        Como é que chegamos aqui?
—        Enganos a piriguara, menina, mas enfim, mais uma menos um, não faz diferença.
—        Lugar de gente sem saída... igual a nóis.
—        Lugar de sonhos.
—        Gente nascida morta. — já de longe, flutuando, que não tem os pés no chão, vê o malandro de joelhos, sem máscaras. O malandro flutua na luz da encruzilhada dos becos, pertence mais que todos àquele lugar, mas não afeiçoou de tudo, vai tomando o costume de ser morto. Tem os olhos arregalados e parece querer dizer algo, penso que já é muito tarde. A moçoinha toma jeito de pedir — Vai devagar, até parece que o Velho quer chegar antes desta menina. — ela fala sem gritar, sem nenhum rosto, desanuviado de alguma máscara de esgrima ou molde em geléia cosmética, tem, na verdade, o mesmo talhe em gesso retirado dos cadáveres, uma fisionomia desbotada
—        Olha guria, por vez, a alma precisa se acomodar ao corpo da vida.
—        Quando choras é por quê?
—        Por muitas vezes, necessito ensurdecer aos teus lamentos. — ainda não entende os medos da vida, mas, enfim, se deixa levar outra das tantas vezes. Deixam para trás o flutuador que aprende de ser morto, que pra tudo se precisa acostumar neste mundo e no outro, até de ser morto. Ele com o seu destino, eles com a própria sorte. Não têm precisão de sair do anonimato, por ora, vão desse jeito, aos puxões pelas ruelas. Almas vivas não se encontram por elas. Almas mortas espreitam pelos buracos de escuridão. Tudo tão estreito e sujo e escuro.
A menina Alma que já foi Maria Futuro, gosta do apelido que carrega, Alma, não tem o medo da outra não-vida, não é medrica como o Velho, mas estar no labirinto das malocas a sufoca. Fecha os olhos, encolhe uma das pernas e se deixa ir pela mão, em saltos ligeiros de ponta em ponta, foge aos pulos do claustro de pobreza e abandono, não consegue fazer gestos de reconhecer nos outros a bondade de se tornarem gente de verdade. A moçoinha Alma olha no contorno da ruela sem iluminuras e deixa a mão agarrada na tira de pano na cintura do Velho.  Ajeita a ponta do nariz para o cavalete logo à frente dos olhos, aperta-os para procurar algum feitio de gente entre as sombras. A moçoinha não teme por ela, mas o Velho já perdeu muito das atitudes de ataque e defesa, tá sadio, mas sem robustez. A moça-d’alma tem vontade de pegar-lhe pela mão e saírem, mas não movimenta, sabe que o corpo do Velho se entrega em vigília. Existiu um tempo em que falava dos sonhos e comentava do brilho das estrelas. O medo que também empurra, agora invade na intenção de dominar, fazer bonecos de trapo ou de louça. Bonecos de engonço puxados pelo cordel ameaçador das caretas
—        Envelheci nestes anos em que devíamos ter nos reconhecido, enquanto me tornava velho parecendo velho. — um tempo perdido na vida desses dois, hoje e passado não faz caso, e o depois de hoje não tem vivência. A menina tenta se afastar para oferecer intimidades ao velho —         Onde vais, quer saber o Velho
—        Cuido de te deixar a sós, enquanto comes a ti mesmo com as mãos.
—        Não uso as mãos em mim. — a menina dá de ombros e se afasta. Venceu, por ora, o apetite desastrado do amor, quase louco de tão perfeito e ali, no escuro fedorento, possui aquela linda imagem sem dentes, roída, descorada e porosa, uma imagem ácida — Mulher vaga-lume, não me deixa.
A mulher vaga-lume tem nome, Velha Solidão, e sem dentes sorri para a linda imagem de si, enquanto se abraça na mão do corpo trêmulo e quente do velho. Não sabem quem se mantém em pé, gemendo feliz. Não precisam saber além do sentido. Querem estar ali, a efígie e o corpo, fingem que ainda têm sonhos e pesadelos — Velha Solidão, por que fica a te dar por estas estradas escuras e sujas?
—        Velho, quem haveria de me querer nas claridades da belezaria?
—        Não sei.
—        É preciso saber sobreviver...
—        Droga de vida essa que obriga aos escuros.
—        É pura ilusão essa coisa de brigar com a vida.
—        Faz o quê?
—        Continuar caminhando. — diz apontando para o Velho, já composto das carnes moles, acertando botão a botão em cada botoeira da portinhola na calça maltrapilha — Já podes continuar a caminhada?
—        Por quê?
—        Quero saber se já estás seguro da perna. — o amor está onde sempre têm que estar, no inesperado, sem razão de aparência, necessita de um sorriso como do gosto que toma entre lambidas e suspiros. Não são diferentes ou iguais sem razão, apenas precisam estar próximos, longe da solidão. Desistiram de entender essa bagunça de esgoto e paraíso. O Velho não responde, levanta e sai mancando do gramado dos pedalinhos. Para perto de um abacateiro — Esse foi teu pai que plantou. — a menina abraça o abacateiro. Não lembra o abraço de um pai, precisava que aquele abacateiro tivesse braços
—        Qual a serventia de guardar papel velho?
—        É a tua história!
—        A nossa, Velho. É a nossa vida!
—        Tenho vergonha de não ter ficado junto da nossa gente... Pra qual serventia? Desaparecer, também? Talvez, não sei, guria.
—        Quero encontrar esse meu gêmeo.
—        Vai precisar de ajuda. Você sabe por onde a gente começa? Parece que o guri foi mandado pra África...
—        É longe?
—        Nem tanto... nem tanto. — os aclaramentos acabam. Tudo sempre acaba, é inevitável. Agora é a menina que carrega o rolo amarelado, restos de uma história escondida e mantida impune. Arrancada da memória. Os dois seguem na caminhada pelos cantos e refugos dos cantos. Vou aos saltos. Sobem escadarias, passam sob o iluminado passeio do luar, penumbras sem namorados e sem amantes, não têm vista de supositício vivo. A menina vai calada. A cada pouco que caminha é abafada por esse choro de criança abandonada. As gotas no olhar não vêm por fraqueza, estão ali, onde sempre estiveram penduradas. Um choro que não reclama, desce seco. Inconformado — Silêncio, resmunga o Velho, esquecido que não se impõe silêncio a alma
—        O que foi?
—        Quieta, sussurra impaciente, levando o indicador da mão direta aos lábios
—        Quem vai ou vem de lá, pergunta a guria, já impaciente com aquela encenação do Velho
—        Um cavalo... — cavalo não fala, não pensa, apenas carrega a carga pendurada na canga. Mas pela finura da voz do bicho, esse cavalo é uma égua madrinha — Então, sou uma madrinha que fala.
—        Mentira, se dê a conhecer.
—        Menina, vou aos poucos por aqui, por aí, pelo peso que carrego.
—        Ah, uma miserável puxadora de carrinho. — papeleira, soldada catadora do lixo! Mas o que têm a dizer dela um miserável velho perneta e uma guria esfarelada
—        Esse cavalo de carga tem nome?
—        Marijoana...
—        Dona Marijoana, vai indo cedo pra lida.
—        Indo cedo vou longe, vindo de longe, venho me carregando...
—        A senhora trota sozinha?
—        Quem mais haveria de ficar em andadura puxando carroça?
—        Sei lá, alguma alma penada.
—        Essa deixo em casa nos cuidados das crianças.
—        A senhora cavalgadura tem filhos?
—        E por que não?
—        A vida anda muito ruim com todos.
—        Com uns... bem mais do que com outros... ter filhos e filhas e homem nenhum, nesta vida de cavalo e carroceira, só tem a aumentar a miséria, mas tenho fé que tudo tem jeito. — a mulher-cavalo vira-lhes o costado e sai a passo, nada mais a dizer. Vai solitária por desvios escurecidos. Afasta a cada passo no sentido contrário o desenho em sombras do seu corpo mergulhando, já vai entrando na escuridão do não amanhecido. A menina Alma sem futuro cisma com sua parte espiritual e iluminada — Ei!
—        O que foi? — a guria me põe nas mãos, dá uma olhadela de despedida, não tem remorso nem saudade — Pega isto... — e me atira. Sou arremessado ao ar. Flutuo pela escuridão do amanhecer. Resolvo procurar outra ciência que aquela que poderia ser encontrada em mim mesmo ou no grande livro do mundo, emprego o resto de minha juventude em viajar, em ver monarcas e exércitos, pessoas de diversos temperamentos e condições, assim, tombo em pé, recostado na boleia quase vazia, cabine do motorista. A mulher-cavalo vai se indo e me leva, somos engolidos pelo escuro. Num canto, do outro lado vai às caronas outro conhecido, lhe digo em cortesia — Bom dia, senhor.
—        Bom dia. — a velha cavalgadura vai abocada pela barriga de fome, mas agradece o oferecimento — Mais um livro... obrigada, menina.
—        Tem outros?
—        Busquei na escola das crianças, fizeram uma limpa por lá. — a escuridão nunca está vazia de todo. Muitos olhos, muitas bocas e orelhas estão metidas aqui dentro. Então não é justo ter medo do escuro. Continuo minha viaje nas caronas, gosto de companhia. Declaro-me menos um ator do que um espectador, ali ao meu lado, viaja outro companheiro, apanhado por algum descarte estúpido. Chamamos-nos pelo nome, nossa reverência pelos desaparecimentos
—        Boa viagem, senhor Brasil Nunca Mais.
—        Será, senhor Descartes... — desço em socorro da Marijoana e empurro o carrinho. Uma gurizada também desce e ajuda, outros discursam de cima da boleia... jogam panfletos ao vento...

—        Acabou!
Os monstros da história se repetem... tomara que não, mas as próximas gerações precisam lutar para conquistar a própria liberdade... a luta nunca acaba!


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