segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Sementes germinantes

Parábolas e pedagogia

Ensaio

I
baitasar
Uma tarde perfeita, viver uma vida perfeita, outra terça-feira, mas em outro lugar
—        Com licença, peço desculpas pelo atraso. — é o Paulo que se anuncia num atraso, interrompendo a reunião. — Estava fazendo a releitura de um texto com alguns alunos, o tempo foi passando na sua medida, mas enfim, cheguei atrasado para a reunião.
O professor Paulo é possuidor de um carisma muito grande, entre todos, que de alguma maneira, ou por alguma razão, privam da sua palavra e suas reflexões sobre educação. Começa por ser um velhinho de cabelos brancos e longos, um andar calmo e curtinho como se não tivesse pressa em chegar, o que parece lhe interessar é o percurso e o caminho percorrido. Sua voz é tranqüila e clara, não deixa dúvidas sobre a sua intenção ao falar, seus olhinhos parecem sempre em busca de tudo que possa ser visto e aprendido na intenção de unir a ação com o pensamento — Parabéns, professor! Já é muito difícil uma leitura de frases com estes alunos, imagine uma releitura, chamo a isto de magia, o máximo da bruxaria nos dias de hoje. Enfim, temos o nosso mago!
Observo a enferma Ofélia, não é possível que fique calada frente a tamanho disparate! Busco com o olhar o professor do corredor. Não está! Como o necessito. Deus havia sido a minha mais importante carência, mas a ele necessito mais que a Deus. Não é possível que fique calada, sempre acreditei na possibilidade de construção de uma escola diferente, voltada para as práticas da conscientização, da inclusão, da autonomia, da participação, da auto-organização, da libertação, da alegria, da cidadania. Enfim, a construção de uma escola verdadeiramente democrática. Deixo Paulo e Marko sozinhos... Calei e não encontro resposta — Professora Ofélia, então é verdadeira a lenda que comenta ser uma escola vazia, sem suas crianças, um imenso casarão mal-assombrado, onde só ficam as bruxas!
Eis uma reunião que promete, a Lia mostra sua capacidade de combate na ironia que brinca com o deboche, tudo é dito sem ingenuidade. Eis as manobras das forças reacionárias e progressistas durante o combate ou na iminência dele, se posicionam, medem as forças, granjeiam aliados, agrupam-se. Não existe lirismo neste combater nem sangramentos aparentes, as conseqüências estão depositadas no fazer ou deixar de fazer nas aulas, os seus efeitos se concretizam nas maneiras de ensinar arrogante para alguém ou nos desejos humildes de aprender junto
—        Querida professora, a mim parece importante chamar a atenção para quantas e quantas vezes sucumbimos frente a falas destrutivas e desesperançadas, que nos fragmentam e nos implodem em pequeninos pedaços voadores, transformando em poeira nossas tentativas íntimas. Nas muitas e mais tantas oportunidades em que isto acontece, não o sabemos se ocorre por intenção deliberada ou por não sabermos pensar e sentir diferente. Guardamos silêncio para o enfrentamento final quando o bem vencerá definitivamente o mal. Eis o imobilismo na crença que haverá somente um embate e que todos os desgastes dos afrontamentos anteriores se dão sem razão. Ao assumir uma posição critica e não lírica deixamos de assumir os defeitos e dificuldades dos outros para estabelecer parcerias razoáveis de comprometimento com a esperança, dentro de uma práxis libertadora do outro em mim que retorna ao outro que está fora de mim.
Não há fadas ou benfeitores, todos e todas nós precisamos caminhar com as próprias pernas, errando ou acertando, mas nos basta - por agora - o movimento. Parando vez que outra para estabelecer diálogos íntimos, produzindo alguns enfrentamentos pessoais, fixando regras de ação e deixando o coração livre para voar os maiores e melhores sentimentos da esperança, não se deixar vencer pela insônia do medo e ficar escondido. Levantar da cômoda cadeira e retirar o disco do toca-disco, virar o vinil e tocar o lado B, movimento e reflexão, quanta sonoridade no vinil, nem tudo que é novo supera em qualidade o antigo — Não se opta pelo novo apenas como conseqüência da novidade, decide-se pelo novo através da reflexão que temos do velho e do desejo de fazer nascer diferente do antigo.
—        Concordo, Lia, aquilo que é novo, a notícia ou a colheita, não nos embaraça tanto, quanto o novo que chega pelas idéias de fazer diferente. Não se diz querer o novo das ideias por astúcia ou ingenuidade, pois tanto uma como a outra farão da novidade mentiras diárias. Cresceremos com as ideias do novo fazer e pensar, na discussão permanente entre mim e o eu, entre o eu e o nós, entre o nós e o todo, entre o todo e o que repito que é meu, pois sempre retorno ao início que sou eu. Minha dor não é nova, mas meu sorriso está diferente. Estou refletido em mim mesmo, clareando e esclarecendo minhas próprias perguntas - Sou astuto, ingênuo ou progressista? - por ora, já me basta responder por está investigação, permanentemente atento, mesmo que sofrendo muito com o esforço, mas em movimento.
Fico animada e acrescento que superando estes papéis mágicos e autoritários, precisamos de novos olhares sobre o nosso quê fazer na escola, sacudindo a poeira do tempo e descobrindo aos poucos um novo eu que já existia, permanecia escondido pela poeira da imperturbabilidade ingênua ou solércia medrosa. — Professor, por favor, sente-se. Vamos continuar.
O professor Paulo senta-se calmamente na fórmica verde e menos dura e menos fria da sua cadeira pedagógica, se eu pudesse acabaria com a pedagogia. Pior que a possibilidade de matar as pessoas, é a maneira como transforma todos em bonecos de pau — Calma, Anita... isso é apenas parte da contenda, não é traição.
Sinceramente não sei se a pedagogia é uma traição - ou seu uso ou desuso – mas sua intencionalidade desvela as diferentes concepções de mundo que cada pedagogo carrega consigo... — Anita, por acaso somos pedagogos.
—        Por acaso ou por intenção? O que é ser um pedagogo? Qual seu objeto de estudo? O que é afinal a pedagogia? Uma ciência pensada para dar conta de muitas ciências dentro de uma instituição chamada escola? Aí começa o emaranhado, o lio, Como podemos dar conta de todo o saber científico para ensiná-lo na escola? Criamos os programas, os conteúdos, os métodos, as estratégias...
—        Eis o começo da traição aos miseráveis. — olho para o professor Paulo.
Sei, que através dos tempos, de acordo com os diferentes momentos históricos, tivemos construções importantes no campo da pedagogia no sentido de transformar as práticas coercitivas, disciplinadoras, autoritárias. Lembro de citar Gramsci com sua pedagogia crítica, Frenet com a escola nova, Makarenko com a pedagogia socialista, Paulo Freire com a pedagogia libertadora. Outros de agora, outros que virão, mas me interessa perguntar: — Eles foram traidores?
—        Foram traídos... — me responde o professor do corredor — O que pensas deles? — tento envolvê-lo nessa nossa pequena peça de oratória
—        Todos eles pensaram uma nova escola a partir da utopia da construção de sociedade baseada em princípios solidários, onde a pedagogia estaria a serviço da construção desse ideário... — minha provocação está aceita — O que deu errado?
—        Olhamos para o mundo, mas basta olhar para a África, América Latina, veremos a fome, as favelas, as desigualdades extremas e, talvez, tenhamos alguma resposta. As pessoas não estão preocupadas com justiça social, estão treinando recursos humanos nas grandes corporações, amestradores de mentes e adestradoras de corações.
—        Mas que feio, o professor generalizar tanto assim... — a Ofélia não vai nos afastar da discussão com suas provocações. Não deixo que ele se aparte da discussão
—        O que deu certo?
O professor do corredor para e responde com outra pergunta
—        Ou o que poderá dar certo? Uma pedagogia da esperança? Uma pedagogia do possível? O que é possível fazer em uma sociedade onde se duvida da possibilidade de pensar em solidariedade e, principalmente, como construir os conceitos de justiça e ética numa sociedade dominada pelo consumismo e individualismo?
Concordo, mas não basta fazermos a leitura da realidade e dos saberes existentes em determinada comunidade — Até onde precisamos ir?
—        Ao céu e inferno, precisamos compreender como quem interpreta a sua própria realidade, não há outra saída, creio, a qual não seja estar junto das pessoas mais humildes, falar, escutar, dialogar, aceitar, meter a colher, mudar nosso modo de vê-los, deixar que nos ensinem e nos toquem. Fazer, não para teorizar em cima, com relatos em seminários, mas para mudar a nossa vida. Pensando assim a pedagogia não é uma traição, é uma ferramenta de mudança, desde que assim o façamos, ou melhor, desde que assim a entendemos, mas tudo isso exige disciplina e método dialético, com toda certeza.
—        O abismo nos espera, professor?
—        E nós, a quem esperamos? Um cavaleiro inexistente, o último voo do flamingo...
—        Quem sabe...
Paro meus devaneios.

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