segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Júlio Verne: Viagem ao Centro da Terra / XLII

Júlio Verne



Viagem ao Centro da Terra/XLII




Suponho que deviam ser dez horas da noite. Meu primeiro sentido que funcionou após a última aventura foi a audição. Quase que imediatamente ouvi - foi um ato de verdadeira audição silêncio voltar à galeria e substituir os mugidos que há muitas horas enchiam meus ouvidos. Finalmente as palavras de meu tio chegaram-me como um murmúrio: 

- Estamos subindo!

- O que o senhor está querendo dizer? - exclamei.

- Estamos subindo, sim, estamos subindo!

Estiquei o braço e toquei a muralha; minha mão ficou ensanguentada. Subíamos com extrema rapidez.

- A tocha! A tocha! - exclamou o professor.

Hans conseguiu acendê-la com bastante dificuldade, e a chama, mantendo-se de baixo para cima, apesar do movimento ascensional, iluminou bastante todo o cenário.

- É exatamente o que eu estava pensando - disse meu tio.

- Estamos num poço estreito, que não tem nem quatro toesas de diâmetro. Tendo chegado ao fundo do abismo, a água está subindo para voltar ao seu nível e faz com que subamos com ela. - Para onde?

- Não sei, e devemos estar preparados para qualquer acontecimento. Subimos a uma velocidade que avalio ser de duas toesas por segundo, ou seja, cento e vinte toesas por minuto e mais de três léguas e meia por hora. A esse ritmo, estamos andando bastante.

- Sim, se nada nos detiver, se houver uma saída nesse poço! Mas se estiver bloqueado, se o ar se comprimir gradualmente devido à pressão da coluna de água, se formos esmagados!

- Axel - respondeu o professor na maior calma -, a situação é quase desesperadora, mas há algumas chances de salvação e faço questão de examiná-las. Se a cada minuto podemos perecer, a cada momento podemos ser salvos. Estejamos prontos para aproveitar as menores circunstâncias.

- Mas o que podemos fazer?

- Recuperar nossas forças comendo.

Olhei para meu tio com um ar desvairado. Devia finalmente dizer o que não quisera confessar:

- Comer? - repetia.

- Sim, imediatamente. O professor acrescentou alguns termos em dinamarquês. Hans balançou a cabeça.

- Como! - exclamou meu tio. - Perdemos nossas provisões?

- Sim, só nos resta um pedaço de carne-seca para três.

Meu tio encarava-me sem querer compreender o que eu dizia.

- Então o senhor continua achando que podemos nos salvar?

Não obtive resposta. Passou-se uma hora. Começava a sentir uma fome violenta. Meus companheiros também sofriam, mas nenhum de nós ousou tocar naquele miserável resto de alimento. Entrementes, continuávamos a subir com extrema rapidez. Por vezes, o ar nos cortava a respiração, como acontece com os aeronautas cuja ascensão é rápida demais. Mas se eles sentem um frio cada vez maior à medida que se elevam nas camadas atmosféricas, sofríamos um efeito absolutamente contrário. O calor aumentava de forma preocupante e com certeza devia atingir quarenta graus naquele momento.

O que significava aquela mudança? Até então, os fatos haviam dado razão às teorias de Davy e Lidenbrock; até então as condições particulares das rochas refratárias, de eletricidade e de magnetismo haviam modificado as leis gerais da natureza, concedendo-nos uma temperatura moderada, pois, na minha opinião, a teoria do fogo central continuava a ser a única verdadeira e explicável. Estávamos voltando para um ambiente onde esses fenômenos aconteciam com todo o rigor e no qual o calor reduzia as rochas a um estado de fusão total? Era o que eu temia e o disse ao professor:

- Se não naufragarmos ou formos despedaçados, se não morrermos de fome, ainda poderemos ser queimados vivos.

Ele contentou-se em dar de ombros e voltar a suas reflexões. Mais uma hora se passou sem que qualquer incidente modificasse a situação, a não ser um leve aumento da temperatura. Finalmente, meu tio rompeu o silêncio:

- Bem, temos de tomar alguma atitude.

- Atitude? - repliquei.

- Sim. Temos de recuperar nossas forças. Se tentarmos prolongar nossas vidas por algumas horas poupando esse resto de comida, ficaremos fracos até o fim.

- Sim, até o fim, que não tardará.

- Muito bem. E se aparecer uma chance de salvar-nos, se for necessário agir, onde encontraremos as forças necessárias, se nos deixarmos enfraquecer pela inanição?

- Ah, meu tio, se devorarmos esse pedaço de carne, o que nos restará?

- Nada, Axel, nada. Mas você se sente mais bem nutrido devorando-a com os olhos? Isso é raciocínio de um homem sem vontade, sem energia!

- Então o senhor está desesperado? - exclamei, irritado.

- Não! - replicou o professor com firmeza.

- O quê! O senhor ainda tem esperanças de salvar-se?

- Claro que sim! Enquanto o coração bater e a carne palpitar, não admito que um ser dotado de vontade ceda lugar ao desespero!

Que palavras! E o homem que as pronunciava em tais circunstâncias tinha com certeza um caráter pouco comum.

- Mas o que fazer? - perguntei.

- Comer até a última migalha o resto da comida para recuperar as forças que perdemos. Mesmo que seja a nossa última refeição! Mas ao menos, em vez de permanecer esgotados, voltaremos a ser homens!

Meu tio pegou o pedaço de carne e os poucos biscoitos que escaparam do naufrágio; dividiu em três porções iguais e distribuiu-as. Dava cerca de uma libra de alimento para cada um. Meu tio comeu com avidez, com uma espécie de arrebatamento febril; eu, sem prazer apesar de minha fome, quase com nojo; Hans, tranquilamente, com moderação, mastigando sem ruído os pedacinhos, saboreando-os com a calma de um homem nada preocupado com os problemas futuros. Depois de muito procurar, encontrara um cantil cheio, até a metade, de genebra; ofereceu-nos, e aquele licor tão benéfico conseguiu reanimar-me um pouco.

- Förtraffkg! - disse Hans, bebendo.

- Excelente! - volveu meu tio.

Voltara a ter alguma esperança. Mas nossa última refeição terminara. Eram cinco horas da manhã.

O homem é feito de tal forma que sua saúde é um efeito puramente negativo. Satisfeita a necessidade de comer, dificilmente consegue imaginar os horrores da fome; precisa senti-los para compreendê-los. Ao final de um longo jejum, alguns bocados de biscoito e carne venceram nossos sofrimentos passados. Após a refeição, cada qual voltou a suas reflexões. Em que pensava Hans, aquele homem do Extremo Ocidente dominado pela resignação fatalista dos orientais? Quanto a mim, só pensava nas lembranças que me faziam voltar à superfície daquele globo que jamais deveria ter abandonado. A casa da Kõnigstrasse, minha pobre Grauben e a boa Marthe passaram como visões diante de meus olhos, e acreditava surpreender os ruídos das cidades da Terra nos grunhidos lúgubres que percorriam o maciço.

Meu tio, sempre em seu posto, tocha na mão, examinava com atenção a natureza dos terrenos. Tentava reconhecer nossa situação pela observação das camadas sobrepostas. Esse cálculo, ou melhor, essa estimativa, só podia ser muito aproximativa. Um cientista, porém, é sempre um cientista quando consegue conservar seu sangue-frio, e, sem dúvida, o professor Lidenbrock possuía essa qualidade num grau pouco comum.

Ouvia-o murmurar palavras da ciência geológica; eu era capaz de compreendê-las, e involuntariamente interessava-me por aquele derradeiro estudo.

- Granito eruptivo - dizia. - Ainda estamos na era primária, mas estamos subindo, subindo cada vez mais. Quem sabe o que encontraremos?

Quem sabe? Continuava a ter esperanças. Tocava a parede vertical e, poucos instantes depois, tornava:

- Gnaisses! Micaxistos! Bem, logo chegaremos a terrenos da era de transição e então...

O que o professor queria dizer? Era capaz de medir a espessura da crosta terrestre suspensa sobre nossas cabeças? Tinha um meio qualquer de fazer esse cálculo? Não. Sem o manômetro, qualquer estimativa tornava-se impossível. A temperatura continuava aumentando, e sentia-me completamente molhado naquela atmosfera ardente. Só conseguia compará-la ao calor dos fornos de uma fundição na hora da moldagem. Gradualmente Hans, meu tio e eu tiráramos nossos paletós e coletes; a menor peça de roupa provocava muito mal-estar e até sofrimento.

- Estamos subindo em direção a um forno incandescente! - exclamei ao sentir o calor aumentar.

- Não - respondeu meu tio. - É impossível! É impossível!

- No entanto - eu disse, apalpando a parede -, essa muralha está fervendo!

No momento em que pronunciei essas palavras, minha mão aflorara a água, e tive de retirá-la o mais depressa possível.

- A água está fervendo! - exclamei.

Dessa vez, a única resposta do professor foi um gesto de cólera. Então um terror invencível tomou conta de meu cérebro e não o abandonou mais. Sentia a aproximação de uma catástrofe de tamanhas proporções que nem a imaginação mais audaciosa seria capaz de concebê-la. Uma ideia, a princípio vaga, transformou-se em certeza para mim. Não ousava formulá-la. Algumas observações involuntárias, contudo, confirmavam minha convicção. À luz duvidosa da tocha, observei alguns movimentos desordenados nas camadas graníticas. Era evidente que ocorreria algum fenômeno ligado à eletricidade. Além disso, o calor excessivo, a água fervente!... Quis consultar a bússola. Ela enlouquecera!



Continua...

_______________


Verne nasceu em Nantes, França, a 8 de Fevereiro de 1828. Com 11 anos começou a estudar no colégio Saint-Stanislas. Em 1848 viajou para Paris para estudar direito. Depois de se formar, persiste na literatura, e decide escrever peças de teatro, conseguindo levar a palco a peça "Les Pailles Rompues", que acabou por ser um enorme fiasco. O mesmo acontece quando tenta a música e a poesia. Entretanto casa com uma jovem viúva, com quem tem um filho, Michel Jean Pierre Verne. Mais tarde descobre o género literário que o fascina, as narrativas de viagens, que constitui o enredo do primeiro livro, “Cinco Semanas no Balão”, publicado na revista “Magazin d'Éducation”. As obras que sucederam esta provaram a imaginação e o talento do autor: “Viagem ao Centro da Terra” (1865), “Da Terra à Lua” (1865), “Vinte mil léguas submarinas” (1869), “Os Ingleses no Pólo Norte” (1870), “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias” (1872), “Miguel Strogof” (1876) e “Um Capitão de 15 Anos” (1878).

As obras do escritor têm como influencia Jonathan Swift, em “Viagens de Gulliver”, Daniel Defoe, em “Robinson Crusoé” e Edgar Allan Poe, nas histórias de terror.

Nas suas obras, Verne descreveu o helicóptero, o cinema, a televisão, a iluminação, o néon, os tanques de guerra, os aviões, os mísseis telecomandados, os caça submarino, a luz e a água do mar para gerar energia, o uso de gases como armas químicas, entre outros. Graças a todas estas possibilidades oferecidas pelas histórias do autor, foi possível tornar realidade muita da ficção descrita, que hoje em dia representam as tecnologias modernas.

No livro “Viagem ao Centro da Terra”, Verne descreve uma expedição científica ao núcleo da Terra, um sonho de muitos geólogos e cientistas. O mesmo aconteceu em “Da Terra à Lua”, uma continuação do livro “À Volta da Lua”, em que o escritor prevê a viagem à Lua pelo Homem.

A criatividade de Júlio Verne está igualmente presente em “A Ilha Misteriosa” e “Vinte Mil Léguas Submarinas”, romance onde um carismático Capitão Nemo profetizava a pirataria submarina alemã na Segunda Guerra Mundial.

Em 1871 instalou-se em Amiens onde, em 1886, sobreviveu a uma tentativa de homicídio por parte do sobrinho. Foi atingido numa perna e ficou coxo para o resto da sua vida. Morre a 24 de Março de 1905.

Conhecido como o pai da ficção científica, Júlio Verne foi autor de obras conhecidas universalmente. Escreveu histórias de aventura, onde descrevia tecnologias e descobertas científicas. Antecipou o que hoje é o mundo atualmente, nomeadamente, as viagens ao espaço, no livro “Da Terra à Lua” (1869), e a invenção do submarino, no livro “Vinte mil léguas submarinas” (1870).

_________________


Leia também:



Nenhum comentário:

Postar um comentário