sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O Segundo Sexo - 37. Fatos e Mitos: a masturbação é considerada um perigo e um pecado

Simone de Beauvoir



37. Fatos e Mitos


Terceira Parte
Os Mitos

CAPITULO I


V




"a masturbação é considerada um perigo e um pecado"




Mas a própria esposa é uma presa perigosa. Deméter sobrevive em Vênus saindo das águas, como uma fresca espuma, uma loura seara; apropriando-se da mulher pelo gozo que dela tira, o homem também desperta nela as forças perturbadoras da fecundidade; é pelo mesmo órgão que o macho penetra que o filho é parido. Eis por que, em todas as sociedades, o homem é protegido por tantos tabus contra as ameaças do sexo feminino A recíproca não é verdadeira, porque a mulher nada tem a temer do homem; o sexo deste é considerado laico, profano. O falo pode ser elevado à dignidade de um deus, mas no culto que lhe rendem não entra nenhum elemento de terror e no decurso de sua vida quotidiana a mulher não precisa ser misticamente defendida contra ele; ele só lhe é propício. É notável, aliás que em muitas sociedades de direito materno exista uma sexualidade muito livre, mas isso ocorre somente durante a infância da mulher, na sua primeira juventude, quando o coito não se acha ligado à ideia de geração. Malinowski conta, com algum espanto, que os jovens que dormem juntos livremente "na casa dos celibatários" exibem de bom grado seus amores; porque a jovem não casada é considerada incapaz de conceber e o ato sexual não passa de um tranquilo prazer profano. Quando casada, ao contrário, seu esposo não lhe deve manifestar publicamente qualquer afeição, não deve tocá-la, e qualquer alusão às relações íntimas é sacrílega, pois ela participa, então, da essência temível da mãe e o coito tornou-se ato sagrado. Desde então cerca-se de proibições e precauções. O coito é proibido quando se cultiva a terra, quando se semeia, quando se planta e o é porque não se quer que se desperdicem em relações interindividuais as forças fecundantes necessárias à prosperidade das colheitas e, portanto, ao bem da comunidade; é por respeito aos poderes ligados à fecundidade que se recomenda economizá-los. Mas, na maioria das oportunidades, a continência protege a virilidade do esposo; ela é exigida quando o homem parte para a pesca, para a caça, e principalmente quando se prepara para a guerra; na união com a mulher, o princípio masculino enfraquece-se e, em consequência, é necessário que ele evite essa união sempre que precisa da integridade de suas forças. Perguntou-se se o horror que o homem experimenta ante a mulher provém do que lhe inspira a sexualidade em geral ou se é o inverso. Verifica-se que, no Levítico em particular, a polução noturna é encarada como uma mácula, embora a mulher não esteja presente. E, em nossas sociedades modernas, a masturbação é considerada um perigo e um pecado; muitos das crianças e muitos dos jovens que a ela se entregam só o fazem enfrentando terríveis angústias. E a intervenção da sociedade, e principalmente dos pais, que faz do prazer solitário um vício. Mais de um menino, porém, sentiu-se apavorado com suas primeiras ejaculações: sangue ou esperma, qualquer perda de sua própria substância lhe parece inquietante; é sua vida, é seu mana que lhe escapa. Entretanto, mesmo que subjetivamente um homem possa viver experiências eróticas a que a mulher não está presente, objetivamente ela se acha implicada em sua sexualidade. Como dizia Platão no mito dos andróginos, o organismo do homem pressupõe o da mulher. E a mulher que ele descobre ao descobrir o próprio sexo, ainda que ela não lhe seja dada nem em carne e osso, nem em imagem. E, inversamente, é enquanto encarna a sexualidade que a mulher é temível. Nunca se pode separar o aspecto imanente do aspecto transcendente da experiência viva: o que receio ou desejo é sempre um avatar de minha própria existência, mas nada me acontece senão através do que não é eu. O não-eu está implicado nas poluções noturnas, na ereção, e não na imagem exata da mulher pelo menos enquanto Natureza e Vida. O indivíduo sente-se possuído por uma magia estranha. De modo que a ambivalência dos sentimentos que tem para com a mulher se reencontra em sua atitude para com o próprio sexo: dele se orgulha, dele ri, dele se envergonha. O menino compara, numa espécie de desafio, o próprio pênis com o dos amigos; sua primeira ereção enche-o de orgulho e de pavor ao mesmo tempo. O adulto olha o sexo como um símbolo de transcendência e força; dele se envaidece como músculo estriado, mas também como graça mágica. E uma liberdade rica de toda a contingência do dado, um dado livremente querido; é sob esse aspecto contraditório que se encanta com ele; mas suspeita-lhe a ilusão. Esse órgão com o qual pretende afirmar-se não lhe obedece; intumescido por desejos insatisfeitos, retesando-se inopinadamente, aliviando-se por vezes, em sonhos, manifesta uma vitalidade estranha e caprichosa. O homem pretende fazer o Espírito triunfar sobre a Vida, a atividade sobre a passividade. Sua consciência mantém a Natureza a distância, sua vontade molda-a, mas sob a imagem do sexo ele torna a encontrar em si a vida, a Natureza, a passividade. "As partes sexuais são o verdadeiro centro ativo da vontade, sendo o cérebro o polo contrário", escreve Schopenhauer. O que ele denomina vontade é o apego à vida, que é sofrimento e morte, ao passo que o cérebro é o pensamento que se destaca da vida representando-a o pudor sexual é, na sua opinião, o pudor que experimentamos ante a nossa estúpida obstinação carnal. Ainda que não se aceite o pessimismo inerente a suas teorias, ele tem razão de ver na oposição sexo-cérebro a expressão da dualidade do homem. Enquanto sujeito, ele põe o mundo, e, permanecendo fora do universo que põe, torna-se o soberano desse mundo; ele se apreende como carne, como sexo, não é mais consciência autônoma, liberdade transparente; está empenhado no mundo, um objeto limitado e perecível. E, sem dúvida, o ato gerador ultrapassa as fronteiras do corpo; mas, no mesmo instante, ele as constitui. O pênis, pai das gerações, é simétrico à matriz materna. Saído de um germe desenvolvido no ventre da mulher, o homem é, ele próprio por seu turno, portador de germes e, com essa semente que gera a vida, é também sua própria vida que se renega. "O nascimento dos filhos é a morte dos pais", diz Hegel. A ejaculação é promessa de morte, a afirmação da espécie contra o indivíduo; a existência do sexo e sua atividade negam a singularidade orgulhosa do sujeito. É essa contestação do espírito pela vida que faz do sexo um objeto de escândalo. O homem exalta o falo na medida em que o apreende como transcendência e atividade, como modo de apropriação do outro; mas dele se envergonha quando não vê nele senão uma carne passiva através da qual é o joguete das forças obscuras da Vida. Esse pudor se fantasia de bom grado de ironia. O sexo de outrem suscita facilmente o riso. Pelo fato de imitar um movimento intencional e ser entretanto involuntária, a ereção parece muitas vezes ridícula; e a simples presença dos órgãos genitais, tão-somente evocada, suscita alegria. Malinowski narra que, entre os selvagens com os quais vivia, bastava pronunciar o nome dessas "partes" para provocar risos intermináveis. Muitas piadas grosseiras, ditas gaulesas, não vão muito além desses rudimentares jogos de palavras. Entre certos primitivos, as mulheres têm o direito, durante os dias consagrados à capina do jardim, de violentar brutalmente qualquer estrangeiro que se aventure na aldeia. Atacando-o em grupo, largam-no muitas vezes semimorto: os homens da tribo riem da façanha. Com essa violação, a vítima constitui-se em carne passiva e dependente: ele foi possuído pelas mulheres e através delas pelos maridos; ao passo que, no coito normal, o homem quer afirmar-se como possuidor.
Mas é então que vai sentir, com maior evidência, a ambiguidade de sua condição carnal. Ele só assume orgulhosamente sua sexualidade enquanto modo de apropriação do Outro, e esse sonho de posse redunda tão-somente em malogro. Numa posse autentica, o outro é abolido como outro, é condenado e destruído. Só o sultão das Mil e Uma Noites tem o poder de cortar a cabeça das amantes quando a madrugada as rouba de seu leito; a mulher sobrevive à posse do homem e assim lhe escapa: desde que ele abra os braços, a presa se lhe torna alheia, e ei-la nova, pronta para ser possuída por novo amante, e de maneira igualmente efêmera. Um dos sonhos do homem é "marcar" a mulher de maneira a que permaneça sua para sempre: porém o mais arrogante bem sabe que nunca deixará mais do que recordações e que as mais ardentes imagens são frias ante uma sensação. Toda uma literatura denunciou esse malogro. Objetivam-no na mulher que chamam inconstante e traidora porque seu corpo se destina ao homem em geral e não a um homem particular. Sua traição é mais pérfida ainda: ela é que faz do amante uma presa. Só um corpo pode comover outro corpo. O homem não domina a carne desejada senão tornando-se, ele próprio, carne. Eva foi dada a Adão para que ele realizasse nela sua transcendência e ela o arrasta para a noite da imanência. A mulher reconstitui em torno de seu amante, nas vertigens do prazer, o barro opaco da ganga tenebrosa que a mãe modelou para o filho e de que ele busca evadir-se. Ele queria possuir: ei-lo, ele próprio, possuído. Odor, morno suor, fadiga, tédio, toda uma literatura descreveu essa paixão sombria de uma consciência que se faz carne. O desejo, que muitas vezes elimina a repugnância, volta à repugnância quando satisfeito. Post coitum homo animal triste. "A carne é triste", e, no entanto, o homem não encontrou nos braços da amante um apaziguamento definitivo. Muito breve o desejo renasce nele; e não apenas o desejo da mulher em geral, porém, o da mesma mulher. Esta adquire então um poder inquietante, porque em seu próprio corpo o homem só encontra a necessidade sexual como uma exigência de ordem geral análoga à da fome ou da sede e cujo objeto não é particular. Logo o laço que o amarra a esse corpo feminino singular foi obra do Outro. É um laço misterioso como o ventre impuro e fértil em que deita raízes, uma espécie de força passiva: é mágico. O vocabulário puído dos romances-folhetins em que a mulher é descrita como uma feiticeira, uma sedutora que fascina o homem, que o submete a seus encantos, reflete o mais antigo, o mais universal dos mitos. A mulher é votada à magia. A magia, diz Alain, é o espírito solto nas coisas; uma ação é mágica quando, em lugar de ser produzida por um agente, emana de uma passividade; precisamente os homens sempre encararam a mulher como a imanência do dado; se ela produz searas e filhos, não o faz por um ato de vontade; ela não é sujeito, transcendência, força criadora, e sim um objeto carregado de fluidos. Nas sociedades em que o homem adora esses mistérios, a mulher é, por causa dessas virtudes, associada ao culto e venerada como sacerdotisa; mas quando ele luta para fazer a sociedade triunfar sobre a Natureza, a razão sobre a vida, a vontade sobre o dado inerte, então a mulher é encarada como feiticeira. Conhece-se a diferença entre o sacerdote e o mágico: o primeiro domina e dirige as forças de que se assenhoreou de acordo com os deuses e as leis, para o bem da comunidade e em nome de todos os seus membros; o mágico opera à margem da sociedade contra os deuses e as leis e segundo suas próprias paixões. Ora, a mulher não se acha inteiramente integrada no mundo dos homens; enquanto outro, ela se opõe a eles; é natural que se valha das forças que detém, não para estender a marca da transcendência através da comunidade dos homens e no futuro, mas sim, por estar separada, por ser oposta, a fim de arrastar os homens para a solidão da separação, para as trevas da imanência. Ela é a sereia cujos cantos precipitavam os marinheiros de encontro aos recifes; ela é Circe que transformava os amantes em animais, a ondina que atrai o pescador para o fundo da lagoa. O homem preso a seus encantos não tem mais vontade, projeto e futuro; não é mais cidadão, porém apenas uma carne escrava de seus desejos. Ê riscado da comunidade, encerrado no instante, balouçado passivamente da tortura ao prazer; a mágica perversa ergue a paixão contra o dever, o momento presente contra a unidade do tempo, retém o viajante longe de seu lar, dá o esquecimento. Buscando apropriar-se do Outro, é preciso que o homem permaneça ele próprio; mas, no malogro da posse impossível, ele tenta tornar-se esse outro a quem não consegue unir-se; aliena-se então, perde-se, bebe o filtro que o faz estranho a si mesmo, mergulha no fundo das águas fugidias e mortais. A Mãe destina o filho à morte ao dar-lhe vida; a amante induz o amante a renunciar à vida e a abandonar-se ao sono supremo. Esse laço que une o Amor à Morte foi pateticamente salientado na lenda de Tristão, mas há uma verdade mais original. Nascido da carne, o homem realiza-se como carne no amor e a carne é condenada ao túmulo. Com isso, confirma-se a aliança da mulher com a Morte; a grande ceifadeira é a figura invertida de fecundidade que faz crescerem as espigas. Mas ela se apresenta também como a horrível desposada cujo esqueleto se revela sob tenra carne mentirosa (1).

(1) No bailado de Prévert, Le Rendez-Vous, e no de Cocteau, Le Jeune Homme et la Mort, por exemplo, a morte é representada sob os traços da jovem amada.


Assim, o que o homem ama e detesta antes de tudo na mulher, amante ou mãe, é a imagem imortal de seu destino animal, é a vida necessária à sua existência, mas que a condena à finidade e à morte. Desde o dia em que nasce, o homem começa a morrer: é a verdade que a mãe encarna. Procriando, ele afirma a espécie contra si próprio: é o que aprende nos braços da esposa. Na emoção perturbadora e no prazer, antes mesmo de ser engendrado, ele esquece seu eu singular. Embora tente distingui-las, encontra numa e noutra, amante e mãe, uma só evidência: a de sua condição carnal. Ao mesmo tempo deseja realizá-la; venera a mãe, deseja a amante; ao mesmo tempo rebela-se contra elas na aversão e no terror.




continua...
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O SEGUNDO SEXO
SIMONE DE BEAUVOIR

Entendendo o eterno feminino como um homólogo da alma negra, epítetos que representam o desejo da casta dominadora de manter em "seu lugar", isto é, no lugar de vassalagem que escolheu para eles, mulher e negro, Simone de Beauvoir, despojada de qualquer preconceito, elaborou um dos mais lúcidos e interessantes estudos sobre a condição feminina. Para ela a opressão se expressa nos elogios às virtudes do bom negro, de alma inconsciente, infantil e alegre, do negro resignado, como na louvação da mulher realmente mulher, isto é, frívola, pueril, irresponsável, submetida ao homem.

Todavia, não esquece Simone de Beauvoir que a mulher é escrava de sua própria situação: não tem passado, não tem história, nem religião própria. Um negro fanático pode desejar uma humanidade inteiramente negra, destruindo o resto com uma explosão atômica. Mas a mulher mesmo em sonho não pode exterminar os homens. O laço que a une a seus opressores não é comparável a nenhum outro. A divisão dos sexos é, com efeito, um dado biológico e não um momento da história humana.

Assim, à luz da moral existencialista, da luta pela liberdade individual, Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, agora em 4.a edição no Brasil, considera os meios de um ser humano se realizar dentro da condição feminina. Revela os caminhos que lhe são abertos, a independência, a superação das circunstâncias que restringem a sua liberdade.


4.a EDIÇÃO - 1970
Tradução
SÉRGIO MILLIET
Capa
FERNANDO LEMOS
DIFUSÃO EUROPÉIA DO LIVRO
Título do original:
LE DEUXIÊME SEXE
LES FAITS ET LES MYTHES



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Segundo Sexo é um livro escrito por Simone de Beauvoir, publicado em 1949 e uma das obras mais celebradas e importantes para o movimento feminista. O pensamento de Beauvoir analisa a situação da mulher na sociedade.

No Brasil, foi publicado em dois volumes. “Fatos e mitos” é o volume 1, e faz uma reflexão sobre mitos e fatos que condicionam a situação da mulher na sociedade. “A experiência vivida” é o volume 2, e analisa a condição feminina nas esferas sexual, psicológica, social e política.



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Leia também:







O Segundo Sexo - 35. Fatos e Mitos: A hesitação do macho entre o medo e o desejo

O Segundo Sexo - 36. Fatos e Mitos: "Está cheio de teia de aranha lá dentro..."

O Segundo Sexo - 38. Fatos e Mitos: Mulher! És a porta do diabo


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