IX
Ia sempre a direito, mas caminhava com dificuldade. Estava tonto de calor, tinha os pés cortados e moídos e as pernas a fraquejarem; estava ansioso por descansar, mas era impossível fazê-lo se queria chegar antes do sol-posto; o sol não espera por ninguém e cada vez ia mais baixo.
“Justos céus! Oxalá não tenha
querido demais! E se chego
tarde?”
Olhou para a colina e para o sol;
Pahóm estava ainda longe do seu
objetivo e o sol perto do horizonte.
Continuou a andar; era custoso a
valer, mas cada vez andava mais
depressa; estugou o passo, mas
estava longe ainda; começou a
correr, atirou fora o casaco, as
botas, o cantil e o barrete e ficou
só com a pá, a que se apoiava, de
quando em quando.
“Santo Deus! Abarquei de mais
e perdi tudo; já não chego antes de
o Sol se pôr”.
O
medo
cortava
a
sua
respiração; Pahóm continuava a
correr, mas a transpiração colava
lhe ao corpo as calças e a camisa;
tinha a boca seca e o peito
arquejava como um fole de
ferreiro; o coração batia que nem
um martelo e as pernas quase nem
pareciam dele; Pahóm sentia-se
aterrorizado com a ideia de morrer
de fadiga. Apesar do medo da
morte, não podia parar.
“Se depois
de ter corrido tudo isto, parasse
agora, chamavam-me doido”.
E
corria mais e mais e já estava mais
próximo e já ouvia os Baquires a
gritar; os gritos mais lhe faziam
pulsar o coração; reuniu as últimas
forças e deu mais uma carreira. O
Sol estava já perto do horizonte e,
envolvido
na névoa, parecia
enorme e vermelho como sangue.
Ia-se a pôr, o Sol! Estava já muito
baixo, mas ele também estava
perto da meta; podia ver os
Baquires na colina, a agitarem os
braços, para que se apressasse;
podia ver o barrete no chão com o
dinheiro em cima e o chefe,
sentado, e de mãos nas ilhargas.
Pahóm lembrou-se do sonho.
“Tenho terra bastante, mas
permitirá Deus que eu viva nela?
Perdi a vida, perdi a vida! Já não
chego àquele lugar”.
Pahóm olhou para o sol que já
tinha atingido o horizonte: um lado
já tinha desaparecido; com a força
que lhe restava atirou-se para a
frente, com o corpo tão inclinado
que
as
pernas
mal podiam
conservar o equilíbrio; ao chegar à
colina, tudo escureceu: o sol
pusera-se; deu um grito:
“Tudo em
vão!”
E ia parar, quando ouviu os
brados dos Baquires e se lembrou
de que eles ainda viam o sol, lá de
cima do outeiro; tomou um hausto
de ar e trepou pela colina; ainda
havia luz: no cimo lá estava o
barrete e o chefe a rir-se, de mãos
na
barriga; outra vez Pahóm
lembrou o sonho; soltou um grito,
as pernas falharam-lhe e foi com
as mãos que agarrou o barrete.
“Grande
homem,
grande
homem!” — gritou o chefe — “A
terra que ele ganhou!”
O criado de Pahóm veio a correr
e tentou levantá-lo, mas viu que o
sangue lhe corria da boca. Pahóm
morrera!
Os Baquires davam estalos com
a língua, para mostrar a pena que
sentiam. O criado pegou na pá, fez
uma cova em que coubesse Pahóm
e meteu-o dentro; sete palmos de
terra: não precisava de mais.
***
_________________
De quanta terra um homem precisa? - I / De quanta terra um homem precisa? - II / De quanta terra um homem precisa? - III /
De quanta terra um homem precisa? - IV / De quanta terra um homem precisa? - V / De quanta terra um homem precisa? - VI /
De quanta terra um homem precisa? - IX.
_________________
Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.
Nenhum comentário:
Postar um comentário