sexta-feira, 10 de abril de 2026

Espumas Flutuantes - Onde estás?

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

ONDE ESTÁS?

É meia-noite... e rugindo 
 Passa triste a ventania, 
 Como um verbo de desgraça, 
 Como um grito de agonia. 
 E eu digo ao vento, que passa 
 Por meus cabelos fugaz: 
 “Vento frio do deserto, 
 Onde ela está? Longe ou perto? 
 Mas, como um hálito incerto, 
 Responde-me o eco ao longe: 
 “Oh! minh’amante, onde estás?... 

Vem! É tarde! Por que tardas? 
 São horas de brando sono, 
 Vem reclinar-te em meu peito 
 Com teu lânguido abandono!... 
 ‘Stá vazio nosso leito... 
 ‘Stá vazio o mundo inteiro; 
 E tu não queres qu’eu fique 
 Solitário nesta vida... 
 Mas por que tardas, querida?... 
 Já tenho esperado assaz... 
 Vem depressa, que eu deliro 
 Oh! minh’amante, onde estás?... 

Estrela — na tempestade, 
 Rosa — nos ermos da vida, 
 Íris — do náufrago errante, 
 Ilusão — d’alma descrida, 
 Tu foste, mulher formosa! 
 Tu foste, ó filha do céu!... 
 ... E hoje que o meu passado 
 Para sempre morto jaz... 
 Vendo finda a minha sorte, 
 Pergunto aos ventos do norte... 
 “Oh! minh’amante, onde estás?”

Bahia


A BOA VISTA

Sonha, poeta, sonha! Aqui sentado 
 No tosco assento da janela antiga, 
 Apoias sobre a mão a face pálida, 
 Sorrindo — dos amores à cantiga. 
Álvarez Azevedo 

Era uma tarde triste, mas límpida e suave... 
 Eu — pálido poeta — seguia triste e grave 
 A estrada, que conduz ao campo solitário, 
 Como um filho, que volta ao paternal sacrário, 
 E ao longe abandonando o múrmur da cidade 
 — Som vago, que gagueja em meio à imensidade —, 
 No drama do crepúsculo eu escutava atento 
 A surdina da tarde ao sol, que morre lento.

A poeira da estrada meu passo levantava, 
 Porém minh’alma ardente no céu azul marchava 
 E os astros sacudia no vôo violento 
 — Poeira, que dormia no chão do firmamento.

A pávida andorinha, que o vendaval fustiga, 
 Procura os coruchéus da catedral antiga. 
 Eu — andorinha entregue aos vendavais do inverno, 
 Ia seguindo triste pra o velho lar paterno.

Como a águia, que do ninho talhado no rochedo 
 Ergue o pescoço calvo por cima do fraguedo, 
 — (Pra ver no céu a nuvem, que espuma o firmamento, 
 E o mar, — corcel, que espuma ao látego do vento...) 
 Longe o feudal castelo levanta a antiga torre, 
 Que aos raios do poente brilhante sol escorre! 
 Ei-lo soberbo e calmo o abutre de granito 
 Mergulhando o pescoço no seio do infinito, 
 E lá de cima olhando com seus clarões vermelhos 
 Os tetos, que a seus pés parecem de joelhos!...

Não! minha velha torre! Oh! atalaia antiga, 
 Tu olhas esperando alguma face amiga, 
 E perguntas talvez ao vento, que em ti chora: 
 “Por que não volta mais o meu senhor d’outrora? 
 Por que não vem sentar-se no banco do terreiro 
 Ouvir das criancinhas o riso feiticeiro, 
 E pensando no lar, na ciência, nos pobres
Abrigar nesta sombra seus pensamentos nobres? 
 .............................................................................. 
 Onde estão as crianças — grupo alegre e risonho 
 — Que escondiam-se atrás do cipreste tristonho... 
 Ou que enforcaram rindo um feio Pulchinello, 
 Enquanto a doce Mãe, que é toda amor, desvelo, 
 Ralha com um rir divino o grupo folgazão. 
 Que vem correndo alegre beijar-lhe a branca mão?...” 

É nisto que tu cismas, ó torre abandonada, 
 Vendo deserto o parque e solitária a estrada. 
 No entanto eu — estrangeiro, que tu já não conheces — 
 No limiar de joelhos só tenho pranto e preces.

Oh! deixem-me chorar!... Meu lar... meu doce ninho! 
 Abre a vetusta grade ao filho teu mesquinho! 
 Passado — mar imenso!... inunda-me em fragrância! 
 Eu não quero lauréis, quero as rosas da infância. 

Ai! Minha triste fronte, aonde as multidões 
 Lançaram misturadas glórias e maldições... 
 Acalenta em teu seio, ó solidão sagrada! 
 Deixa est’alma chorar em teu ombro encostada!

Meu lar está deserto... Um velho cão de guarda 
 Veio saltando a custo roçar-me a testa parda 
 Lamber-me após os dedos, porém a sós consigo 
 Rusgando com o direito, que tem um velho amigo...

Como tudo mudou-se!... O jardim ‘stá inculto 
 As roseiras morreram do vento ao rijo insulto... 

A erva inunda a terra; o musgo trepa os muros 
 A urtiga silvestre enrola em nós impuros 
 Uma estátua caída, em cuja mão nevada 
 A aranha estende ao sol a teia delicada!... 
 Mergulho os pés nas plantas selvagens, espalmadas, 
 As borboletas fogem-me em lúcidas manadas... 
 E ouvindo-me as passadas tristonhas, taciturnas, 
 Os grilos, que cantavam, calaram-se nas furnas... 

Oh! jardim solitário! Relíquia do passado! 
 Minh’alma, como tu, é um parque arruinado! 
 Morreram-me no seio as rosas em fragrância, 
 Veste o pesar os muros dos meus vergéis da infância. 
 A estátua do talento, que pura em mim s’erguia, 
 Jaz hoje — e nela a turba enlaça uma ironia!... 
 Ao menos como tu, lá d’alma num recanto 
 Da casta poesia ainda escuto o canto, 
— Voz do céu, que consola, se o mundo nos insulta, 
 E na gruta do seio murmura um treno oculta.  

Entremos!... Quantos ecos na vasta escadaria, 
 Nos longos corredores respondem-me à porfia!...

Oh! casa de meus pais!... A um crânio já vazio, 
 Que o hóspede largando deixou calado e frio, 
 Compara-te o estrangeiro — caminhando indiscreto 
 Nestes salões imensos, que abriga o vasto teto.

Mas eu no teu vazio — vejo uma multidão 
 Fala-me o teu silêncio — ouço-te a solidão!... 
 Povoam-se estas salas...

E eu vejo lentamente 
 No solo resvalarem falando tenuamente 
 Dest’alma e deste seio as sombras venerandas 
 Fantasmas adorados — visões sutis e brandas... 

Aqui... além... mais longe... por onde eu movo o passo, 
 Como aves, que espantadas arrojam-se ao espaço, 
 Saudades e lembranças s’erguendo — bando alado — 
 Roçam por mim as asas voando pra o passado. 
 
Boa Vista, 18 de novembro de 1867 

continua pag 47...
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No álbum do artista Luís C. Amoêdo / Onde estás? /       
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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