Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn
Parte 1
4.
Com o suspiro profundo e inconsciente que nem a proximidade da
teletela o impedia de soltar quando seu dia de trabalho começava, Winston
puxou o ditógrafo para junto de si, soprou a poeira do bocal e pôs os óculos.
Em seguida, desenrolou e uniu com um clipe os quatro pequenos cilindros de
papel que o tubo pneumático já despejara no lado direito de sua escrivaninha.
Nas paredes da estação de trabalho viam-se três orifícios. À direita do
ditógrafo, um pequeno tubo pneumático para as mensagens escritas; à
esquerda, um tubo de maior calibre para os jornais; e na parede lateral, ao
alcance da mão de Winston, uma grande abertura retangular, protegida por
uma grade de arame. Esta última destinava-se aos papéis a descartar.
Aberturas similares se espalhavam aos milhares, ou dezenas de milhares,
por todo o edifício, fazendo-se presentes não apenas em cada sala mas
também, a pequenos intervalos, em todos os corredores. Por algum motivo,
tinham recebido o apelido de buracos da memória. Quando a pessoa sabia que
determinado documento precisava ser destruído, ou mesmo quando topava
com um pedaço qualquer de papel usado, levantava automaticamente a
tampa do buraco da memória mais próximo e o jogava ali dentro, e então o
papel ia torvelinhando numa corrente de ar quente até cair numa das
fornalhas descomunais que permaneciam ocultas nos recessos do edifício.
Winston examinou as quatro tiras de papel que acabara de desenrolar.
Em cada uma delas via-se uma mensagem de apenas uma ou duas linhas,
no jargão abreviado — não era Novafala propriamente dita, mas consistia
sobretudo em palavras extraídas do vocabulário da Novafala — que os
funcionários do Ministério empregavam em suas comunicações internas.
Diziam:
times 17.3.84 retificar discurso gi áfrica imprecisõestimes 19.12.83 checar edição hoje estimativas quarto trimestre pt 83 erros impressãotimes 14.2.84 retificar malcitado minância chocolatetimes 3.12.83 reportagem ordemdia gi duplomaisnãobom ref despessoas reescrever todamente mostrarsup antearquiv.
Com um vago sentimento de satisfação, Winston pôs a quarta mensagem de lado. Tratava-se de um serviço complicado e de muita responsabilidade, e o mais recomendável era deixá-lo para o fim. As outras três eram questões de rotina, ainda que a segunda provavelmente o obrigasse a um exame tedioso de incontáveis listas de números.
Winston discou “edições anteriores” na teletela e solicitou os
exemplares do Times de que precisaria para se desincumbir de suas tarefas,
e poucos minutos depois eles já deslizavam pelo tubo pneumático. As
mensagens que Winston recebera diziam respeito a artigos ou reportagens
que por esse ou aquele motivo fora julgado necessário alterar — ou, no
linguajar oficial, retificar. Por exemplo, a leitura do Times de 17 de março
dava a impressão de que, num discurso proferido na véspera, o Grande Irmão
previra que as coisas permaneceriam calmas no fronte do sul da Índia, mas
que o norte da África em breve assistiria a uma ofensiva das forças
eurasianas. Na verdade, porém, o alto-comando da Eurásia lançara uma
ofensiva sobre o sul da Índia, deixando o norte da África em paz. Assim, era
necessário reescrever um parágrafo do discurso do Grande Irmão, de forma a
garantir que a previsão que ele havia feito estivesse de acordo com aquilo
que realmente acontecera. Ou ainda: o Times de 19 de dezembro publicara as
estimativas oficiais do volume a ser atingido na produção de uma série de
bens de consumo no quarto trimestre de 1983, que ao mesmo tempo era o
sexto trimestre do Nono Plano Trienal. A edição do Times daquele dia trazia a
informação sobre o volume de produção efetivamente atingido no período, e
os números estavam em franco desacordo com os prognósticos anunciados
em dezembro. A tarefa de Winston era retificar os números originais,
fazendo-os corresponder aos resultados de fato obtidos. Já a terceira
mensagem fazia referência a um erro muito simples, cuja correção não
demandaria mais que alguns minutos de trabalho. Em fevereiro último, o
Ministério da Pujança fizera publicamente a promessa (no linguajar oficial:
“assumira o compromisso categórico”) de não promover nenhum corte na
ração de chocolate no decorrer de 1984. Na verdade, como Winston já sabia,
no fim daquela semana a ração de chocolate seria reduzida de trinta para
vinte gramas. Bastava substituir a promessa original pela advertência de que
a ração de chocolate provavelmente sofreria uma redução em abril.
Tão logo se desincumbiu das mensagens, Winston juntou com clipes as
ditografias de suas correções às respectivas edições do Times e as
introduziu no tubo pneumático. Em seguida, com um movimento que ele fez
o possível para que parecesse inconsciente, amassou as mensagens
originais e duas ou três anotações que ele próprio fizera e as atirou todas no
buraco da memória para que fossem devoradas pelas chamas.
Winston não sabia em detalhe o que acontecia no labirinto invisível a
que os tubos pneumáticos conduziam, mas tinha uma visão geral da coisa.
Depois de efetuadas todas as correções a que determinada edição do Times
precisava ser submetida e uma vez procedida a inclusão de todas as
emendas, a edição era reimpressa, o original era destruído e a cópia corrigida
era arquivada no lugar da outra. Esse processo de alteração contínua valia
não apenas para jornais como também para livros, periódicos, panfletos,
cartazes, folhetos, filmes, trilhas sonoras, desenhos animados, fotos —
enfim, para todo tipo de literatura ou documentação que pudesse vir a ter
algum significado político ou ideológico. Dia a dia e quase minuto a minuto o
passado era atualizado. Desse modo era possível comprovar com evidências
documentais que todas as previsões feitas pelo Partido haviam sido
acertadas; sendo que, simultaneamente, todo vestígio de notícia ou
manifestação de opinião conflitante com as necessidades do momento eram
eliminados. A história não passava de um palimpsesto, raspado e reescrito
tantas vezes quantas fosse necessário. Uma vez executado o serviço, era
absolutamente impossível provar a ocorrência de qualquer tipo de
falsificação. A maior seção do Departamento de Documentação, muito mais
ampla do que aquela em que Winston trabalhava, era composta de pessoas
cuja única obrigação era localizar e recolher todos os exemplares de livros,
jornais e outros documentos que tivessem sido substituídos e precisavam
ser eliminados. Alguns números do Times que — devido a mudanças no
alinhamento político ou em virtude de profecias equivocadas do Grande
Irmão — podiam ter sido reescritos uma dúzia de vezes continuavam
arquivados com sua data original de publicação, sem que houvesse outro
exemplar para contradizê-lo. Os livros também eram recolhidos e reescritos
vezes sem conta, e nas reedições jamais se admitia a introdução de
modificações. Tampouco nas instruções que Winston recebia por escrito e
das quais tratava de se livrar tão logo se desincumbia delas, reconhecia-se
ou dava-se a entender que a tarefa solicitada implicava um ato de
falsificação; a referência era sempre a deslizes, equívocos, erros de
impressão ou citações improcedentes, os quais era necessário, em benefício
da exatidão, corrigir.
Se bem que, pensou ele ao reajustar os números do Ministério da
Pujança, aquilo nem falsificação era. Tratava-se apenas de substituir um
absurdo por outro. Quase todo o material com que lidavam ali era desprovido
da mais ínfima ligação com o mundo real — faltava até o tipo de ligação
contido numa mentira deslavada. As versões originais das estatísticas não
eram menos fantasiosas que suas versões retificadas. Na maioria das vezes,
Winston e seus colegas eram simplesmente obrigados a tirá-las da cartola.
As projeções do Ministério da Pujança, por exemplo, indicavam que a
produção trimestral de botas chegaria a cento e quarenta e cinco milhões de
pares. A produção efetiva ficara em sessenta e dois milhões. Ao reescrever
as estimativas, porém, Winston baixara o número para cinquenta e sete
milhões de pares, para dessa forma abrir espaço para as costumeiras
declarações de que a cota de produção fora superada. De todo modo, os
sessenta e dois milhões de pares não se aproximavam mais da verdade do
que os cinquenta e sete milhões ou os cento e quarenta e cinco milhões. Era
bem provável que nem um mísero par de botas tivesse sido produzido. Mais
provável ainda era que ninguém soubesse quantos pares haviam sido
produzidos, nem fizesse questão de saber. O que se sabia sem sombra de
dúvida era que todos os trimestres uma quantidade astronômica de botas era
produzida no papel, enquanto possivelmente metade da população da
Oceania andava descalça pelas ruas. E assim acontecia com todos os tipos de
fatos documentados, importantes ou não. Tudo ia empalidecendo num
mundo de sombras em que, por fim, até mesmo o ano em que estavam se
tornava incerto.
Winston olhou para o outro lado da sala. Na estação de trabalho
correspondente à sua, um homenzinho com ar escrupuloso e cavanhaque
escuro chamado Tillotson trabalhava com perseverança. Tinha um jornal
dobrado sobre os joelhos e os lábios bastante próximos do bocal do ditógrafo.
Dava a impressão de estar preocupado em manter sigilo sobre as coisas que
dizia, mantendo-as somente entre ele e a teletela. Ergueu os olhos, e seus
óculos projetaram um brilho hostil na direção de Winston.
Winston mal conhecia Tillotson, e não fazia a menor ideia do tipo de
trabalho que ele realizava. No Departamento de Documentação as pessoas
não ficavam tagarelando sobre suas atividades. Na sala comprida e
desprovida de janelas, com suas duas fileiras de estações de trabalho, o
farfalhar interminável da papelada e o zum-zum de vozes murmurando
junto ao bocal dos ditógrafos, havia bem umas dez pessoas que Winston não
conhecia nem pelo nome, embora as visse diariamente correndo de lá para cá
pelos corredores e gesticulando durante os Dois Minutos de Ódio. Sabia que
na estação de trabalho vizinha à sua a mocinha de cabelo ruivo se esfalfava
dia após dia tentando simplesmente localizar e eliminar dos jornais e revistas
o nome das pessoas que haviam sido vaporizadas e que, portanto, não
podiam ter existido. Havia certa congruência nisso, visto o marido dela ter
sido vaporizado anos antes. E, algumas estações de trabalho mais à frente,
um sujeito afável, ineficiente e sonhador, de nome Ampleforth, com orelhas
extremamente peludas e um surpreendente talento para manipular rimas e
metros, vivia às voltas com a produção de versões adulteradas —
denominadas textos definitivos — de poemas que haviam se tornado
ideologicamente ofensivos, mas que, por uma ou outra razão, não podiam ser
expurgados das antologias. E aquela sala, com seus cinquenta funcionários
mais ou menos, não passava de uma subseção, de uma única célula, por
assim dizer, da colossal complexidade do Departamento de Documentação.
Mais adiante, acima, abaixo, havia outros magotes de funcionários às voltas
com uma miríade inimaginável de atividades. Havia as imensas tipografias
com seus subeditores, seus tipógrafos especialistas e seus estúdios
altamente sofisticados para a realização de maquiagem de fotografias. Havia
a seção de teleprogramas com seus engenheiros, seus produtores e suas
equipes de atores especialmente selecionados por sua competência na
imitação de vozes. Havia os exércitos de escriturários cujo trabalho consistia
simplesmente na confecção de listas de livros e periódicos a serem
recolhidos. Havia os vastos depósitos onde eram armazenados os
documentos corrigidos, e as fornalhas ocultas em que os originais eram
destruídos. E, em lugares indeterminados, totalmente anônimas, havia as
cabeças dirigentes que coordenavam todo aquele esforço e estabeleciam as
diretrizes políticas que tornavam necessário que este fragmento do passado
fosse preservado, aquele adulterado e aquele outro destituído de toda e
qualquer existência.
E, no fim das contas, o Departamento de Documentação não passava de
um ramo do Ministério da Verdade cuja função primeira não era reconstruir o
passado e sim abastecer os cidadãos da Oceânia com jornais, filmes, livros
escolares, programas de teletela, peças dramáticas, romances — com todo
tipo imaginável de informação, ensino ou entretenimento, de estátuas a
slogans, de poemas líricos a tratados de biologia, de cartilhas de ortografia a
dicionários de Novafala. E ao ministério cabia não apenas suprir as inúmeras
necessidades do Partido como também reproduzir toda essa operação num
nível inferior, em benefício do proletariado. Havia uma série de
departamentos dedicados especificamente à literatura, à música, ao teatro e
ao entretenimento proletário em geral. Ali eram produzidos jornais populares
contendo apenas e tão somente esportes, crimes e astrologia, romances sem
a menor qualidade, curtos e sensacionalistas, filmes com cenas e mais
cenas de sexo, e canções sentimentais compostas de forma totalmente
mecânica por uma modalidade especial de caleidoscópio conhecida como
versificador. Havia inclusive uma subseção inteira — Pornodiv era seu nome
em Novafala — dedicada à produção do tipo mais grosseiro de pornografia,
que era despachado em embalagens fechadas e que nenhum integrante do
Partido, salvo os envolvidos em sua produção, tinha a permissão de ver.
Enquanto Winston trabalhava, o tubo pneumático despejara mais três
mensagens em sua escrivaninha, mas eram questões simples e ele as
resolvera antes de ser interrompido pelos Dois Minutos de Ódio. Findo o Ódio,
voltou à estação de trabalho, tirou da prateleira o dicionário de Novafala,
empurrou o ditógrafo para o lado, limpou os óculos e se dedicou a sua
principal atividade da manhã.
O trabalho era o maior prazer da vida de Winston. Suas tarefas
compunham uma rotina majoritariamente enfadonha, mas vez por outra
apareciam incumbências que, de tão difíceis e intrincadas, faziam-no correr
o risco de perder-se nelas, como nas profundezas de um problema
matemático. Eram obras delicadíssimas de contrafação, sem orientação
alguma além de sua familiaridade com os princípios do Socing e uma ideia
aproximada do que o Partido queria que fosse dito. Winston era bom nesse
tipo de coisa. Uma vez ou outra já fora até encarregado de retificar os
editoriais do Times, inteiramente escritos em Novafala. Desenrolou a
mensagem que deixara de lado no começo do dia. Ela dizia:
times 3.12.83 reportagem ordemdia gi duplomaisnãobom ref despessoas reescrever todamente mostrarsup antearquiv.Isso poderia ser traduzido da seguinte maneira em Velhafala (ou Inglês Padrão):A reportagem sobre a ordem do dia pronunciada pelo Grande Irmão e publicada no Times do dia 3 de dezembro de 1983 ficou péssima e ainda faz referência a pessoas que não existem. Reescreva-a e apresente um rascunho a seus superiores antes de mandá-la para o arquivo.
Winston leu a matéria condenada. Aparentemente, a principal intenção da ordem do dia do Grande Irmão fora elogiar o trabalho da organização conhecida como FFCC, responsável por fornecer cigarros e outros itens para o conforto dos marinheiros das Fortalezas Flutuantes. Um certo camarada Withers, membro insigne do Núcleo do Partido, merecera menção especial e fora condecorado com a Ordem do Mérito Conspícuo, Segunda Classe.
Três meses depois, de uma hora para a outra e sem nenhum motivo
aparente, a FFCC fora dissolvida. Supunha-se que Withers e seus sócios
tivessem caído em desgraça, mas tanto os jornais como a teletela haviam
silenciado sobre o assunto. Nada de extraordinário nisso, pois quase nunca
os transgressores políticos eram levados a julgamento ou mesmo
denunciados publicamente. Os grandes expurgos, que envolviam milhares de
pessoas, com julgamentos públicos dos traidores e criminosos do
pensamento que faziam confissões abjetas e em seguida eram executados,
serviam como punições excepcionalmente exemplares e só aconteciam a
cada dois ou três anos. O mais comum era que as pessoas que caíam em
desgraça no Partido simplesmente desaparecessem e nunca mais se ouvisse
falar delas. Ninguém fazia a menor ideia de que fim teriam levado. Em alguns
casos podiam nem estar mortas. Winston possivelmente havia
testemunhado o desaparecimento de trinta conhecidos seus ao longo dos
anos, isso sem contar seus pais.
Winston acariciou suavemente o nariz com um clipe. Na estação de
trabalho do outro lado da sala, circunspecto, o camarada Tillotson
continuava debruçado sobre seu ditógrafo. Ergueu a cabeça por um
momento: de novo o brilho hostil dos óculos. Winston ficou pensando que
talvez o camarada Tillotson estivesse fazendo o mesmo trabalho que ele. Era
perfeitamente possível. Tarefa tão complicada jamais seria confiada a uma
única pessoa; por outro lado, deixá-la a cargo de uma comissão seria admitir
abertamente que o que se pretendia ali era uma adulteração. Com toda a
probabilidade havia no mínimo uma dúzia de pessoas elaborando versões
rivais daquilo que o Grande Irmão de fato dissera em sua ordem do dia. E em
breve algum mandachuva do Núcleo do Partido escolheria esta ou aquela
versão, faria a reedição do texto e acionaria os indispensáveis e complexos
processos de referência cruzada para que em seguida a mentira selecionada
entrasse para os anais permanentes e se tornasse verdade.
Winston não sabia por que Withers caíra em desgraça. Talvez por
corrupção ou incompetência. Talvez o Grande Irmão estivesse apenas se
livrando de um subordinado popular demais. Talvez Withers ou alguém
próximo a ele estivesse sob suspeita de abrigar tendências heréticas. Ou
talvez — e o mais provável — a coisa acontecera apenas e tão somente
porque expurgos e pulverizações eram elementos indispensáveis à mecânica
governamental. As únicas pistas concretas estavam nas palavras “ref
despessoas”, que indicavam que Withers já estava morto. Não que esse
fosse o desfecho automático sempre que alguém era detido. Às vezes o preso
acabava sendo solto e era autorizado a viver um ou dois anos em liberdade
antes de ser executado. Muito de vez em quando, uma pessoa que todos
julgavam morta havia muito tempo fazia uma reaparição fantasmagórica
num julgamento público, comprometendo centenas de outros com seu
testemunho para então tornar a desaparecer, dessa vez para sempre.
Withers, contudo, já era uma despessoa. Não existia; nunca havia existido.
Winston concluiu que não bastaria simplesmente inverter a tendência do
discurso do Grande Irmão. Era melhor fazê-lo versar sobre algo que não
tivesse nada a ver com o assunto original.
Podia transformar o discurso na habitual cantilena contra traidores e
criminosos do pensamento, mas isso era um pouco óbvio demais; por outro
lado, se inventasse uma vitória no fronte ou um triunfo de superprodução
no âmbito do Nono Plano Trienal, talvez estivesse criando uma complicação
grande demais para os registros. De súbito apareceu na sua cabeça a imagem
sob medida, por assim dizer, de um certo camarada Ogilvy, recentemente
morto em combate em circunstâncias heroicas. Havia ocasiões em que o
Grande Irmão dedicava sua ordem do dia à celebração de algum membro
humilde e insignificante do Partido, cuja vida e morte eram então elevadas à
condição de exemplos dignos de ser seguidos. Era chegada a hora de ele
festejar o camarada Ogilvy. Na verdade nunca existira nenhum camarada
Ogilvy, mas um punhado de linhas impressas e duas ou três fotos forjadas
fariam com que ganhasse vida.
Winston refletiu por alguns instantes, depois puxou o ditógrafo para
junto de si e começou a ditar no conhecido estilo do Grande Irmão: um estilo
ao mesmo tempo militar e pedante e, graças a uma artimanha que consistia
em formular perguntas e prontamente apresentar as respostas para elas
(“Que ensinamentos tiramos desse fato, camaradas? O ensinamento — que
aliás é também um dos princípios fundamentais do Socing — de que” etc.
etc.), muito fácil de imitar.
Aos três anos de idade, o camarada Ogilvy rejeitara todos os seus
brinquedos, exceto um tambor, uma submetralhadora e um helicóptero em
miniatura. Aos seis, graças a uma autorização especial — um ano antes do
que permitia o regulamento —, ingressara nas fileiras dos Espiões; aos nove,
se tornara comandante de tropa. Aos onze, denunciara um tio à Polícia das
Ideias depois de ter escutado às escondidas uma conversa que lhe parecera
conter tendências criminosas. Aos dezessete, fora organizador distrital da
Liga Juvenil Antissexo. Aos dezenove, projetara uma granada de mão adotada
pelo Ministério da Paz e que no primeiro teste matara trinta e um prisioneiros
eurasianos de uma só vez. Aos vinte e três, perdera a vida em combate.
Perseguido por jatos inimigos ao sobrevoar o Oceano Índico com despachos
importantes, amarrara a metralhadora ao corpo, usando-a como lastro, e
saltara do helicóptero em alto-mar com despachos e tudo — um fim, disse o
Grande Irmão, impossível de contemplar sem uma certa inveja. Em seguida, o
Grande Irmão acrescentou algumas observações sobre a pureza e a
determinação que haviam marcado a vida do camarada Ogilvy. Era abstêmio,
não fumava e sua única distração era a hora que passava diariamente na
academia de ginástica. Além disso, fizera voto de celibato, pois acreditava que
o casamento e as preocupações com a família eram incompatíveis com uma
vida de absoluta dedicação ao dever. Quando se dispunha a conversar, era
sempre sobre os princípios do Socing, e sua única aspiração na vida era
derrotar o inimigo eurasiano e perseguir implacavelmente espiões,
sabotadores, criminosos do pensamento e traidores em geral.
Winston ponderou a possibilidade de conceder ao camarada Ogilvy a
Ordem do Mérito Conspícuo; no fim concluiu que não devia fazê-lo,
considerando o trabalho desnecessário de referência cruzada que isso
acarretaria.
Tornou a olhar de relance para o rival na estação de trabalho oposta à
sua. Algo parecia lhe dizer com segurança que Tillotson estava às voltas com
o mesmo trabalho que ele. Era impossível saber qual das versões acabaria
sendo adotada, porém Winston acreditava firmemente que seria a sua. O
camarada Ogilvy, que até uma hora antes não existia nem na imaginação,
agora era um fato. Não deixava de ser curioso, pensou Winston, que fosse
possível criar homens mortos, mas não homens vivos. O camarada Ogilvy,
que nunca existira no presente, agora existia no passado, e tão logo o ato da
falsificação caísse no esquecimento, existiria com a mesma autenticidade e
com base no mesmo tipo de evidência que Carlos Magno ou Júlio César.
continua na página 53...
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Parte 1.1a ( Era um dia frio e luminoso de abril) / Parte 1.1b ( Acontecera naquela manhã no Ministério) /
Parte 1.4 (Com o suspiro profundo) /
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.
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