segunda-feira, 25 de maio de 2026

Massa e Poder - Elementos do Poder: Força e Poder

Elias Canetti

ELEMENTOS DO PODER

     Força e Poder

          À força [Gewalt], costuma-se associar a ideia de algo que se encontra próximo e presente. Ela é mais coercitiva e imediata do que o poder [Macht]. Fala-se, enfatizando-a, em força física. O poder, em seus estágios mais profundos e animais, é antes força. Uma presa é capturada pela força, e pela força levada à boca. Dispondo de mais tempo, a força transforma-se em poder. Mas no momento crítico que, então, invariavelmente chega — o momento da decisão é da irrevocabilidade —, volta a ser força pura. O poder é mais universal e mais amplo; ele contém muito mais, e já não é tão dinâmico. É mais cerimonioso e possui até um certo grau de paciência. A própria palavra Macht deriva de um antigo radical gótico — magan, significando “poder, capacidade” —, e não possui parentesco algum com o verbo machen [fazer].
     A diferença entre força e poder deixa-se demonstrar de um modo bastante simples: no relacionamento entre gato e rato.
     O rato, uma vez capturado, encontra-se à mercê da força do gato. Este o apanhou, mantém-no cativo e vai matá-lo. Tão logo, porém, começa a brincar com ele um novo elemento se apresenta. O gato o solta novamente e permite-lhe correr um pouco. Mal o rato dá-lhe as costas e põe-se a correr, ele já não se encontra mais à mercê daquela força. O gato, porém, dispõe do poder para apanhá-lo de volta. Se o deixa correr inde nidamente, permite-lhe escapar de sua esfera de poder. Mas até o ponto em que está certo de poder alcançá-lo, o rato estará sob seu poder. O espaço sobre o qual o gato projeta sua sombra; os instantes de esperança que permite ao rato, mas tendo-o sob sua estrita vigilância, sem perder o interesse nele e em sua destruição — tudo isso junto (o espaço, a esperança, a vigilância e o interesse na destruição) poder-se-ia designar como o corpo propriamente dito do poder, ou, simplesmente, como o poder em si.
     Do poder, pois, faz parte — em contraposição à força — uma certa ampliação do espaço e do tempo. Já se expressou aqui a suposição de que a prisão pode ter tido na boca a sua origem; a relação de ambas exprime a relação entre poder e força. No interior da boca já não resta nenhuma esperança real; ali não se tem mais espaço ou tempo. Em ambos esses aspectos, a prisão é como uma ampliação da boca. Na primeira, podem-se dar alguns passos para um lado e para o outro, assim como o rato sob os olhos do gato; e, por vezes, o prisioneiro tem o olhar do carcereiro às suas costas. Ele dispõe de tempo e da esperança de, dentro desse tempo, escapar ou ser solto; e sente continuamente o interesse na sua destruição que tem o aparato em cuja cela se encontra, mesmo quando esse interesse parece temporariamente inexistir.
     Contudo, mesmo numa esfera inteiramente diversa, na das múltiplas nuances da devoção religiosa, a diferença entre poder e força faz-se visível. Todo crente em Deus encontra-se sempre à mercê da força divina e, à sua maneira, ajustou-se a essa situação. Para muitos, porém, isso não é suficiente. Estes esperam por uma severa intervenção, por um ato direto de força divina que possam reconhecer e sentir como tal. Encontram-se na expectativa de uma ordem. Para eles, Deus possui as características mais rudes de um soberano. A vontade ativa de Deus e sua submissão ativa em todas as circunstâncias, em cada manifestação, transformam-se para eles no cerne da fé. As religiões desse tipo tendem a enfatizar a predestinação, sob o comando de Deus; seus adeptos têm, assim, oportunidade de perceber tudo o que lhes acontece como expressão direta da vontade divina. São capazes de submeter-se com maior frequência, e até o m. É como se vivessem já na boca de Deus, a qual, no instante seguinte, vai triturá-los. Nesse seu terrível presente, porém, têm de, impávidos, seguir vivendo e fazer o que é certo.
     O islamismo e o calvinismo são as religiões mais conhecidas por essa tendência. Seus adeptos anseiam pela força divina. O poder de Deus não lhes basta: é demasiado genérico e distante, deixando coisas demais em suas mãos. Decisivo é o efeito que essa expectativa constante por uma ordem produz naqueles que a ela se renderam definitivamente, implicando consequências as mais graves em seu próprio comportamento para com os outros. Ela produz um tipo soldadesco de crente, para o qual a batalha constitui a mais exata expressão da vida — um crente que não teme a batalha, pois sente-se continuamente nela. Abordar-se-á mais detidamente esse tipo na investigação que, mais adiante, será dedicada à ordem.

continua página 428...
____________________

Leia também:

Massa e Poder - Elementos do Poder: Força e Poder
____________________

ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
_______________________

Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

__________________

e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?

Nenhum comentário:

Postar um comentário