volume V
A Prisioneira
continuando...
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A morte dos outros é como uma viagem que nós próprios faríamos e durante a qual recordamos, a cem quilômetros de Paris, ter esquecido de duas dúzias de lenços, de deixar uma chave para a cozinheira, de nos despedirmos do tio, de perguntar o nome da cidade onde se acha a fonte antiga que desejamos ver. Enquanto estes esquecimentos que nos acossam e que narramos em voz alta, por pura formalidade, ao amigo que viaja conosco, têm por única resposta o começo da aceitação do banco estofado, o nome da estação gritado pelo chefe do trem só faz afastar-nos ainda mais das realizações dali em diante impossíveis, de maneira que, desistindo de pensar nas coisas irremediavelmente olvidadas, desfazemos o embrulho das comidas e permutamos jornais e revistas.
- Mas não - replicou Brichot-, não era aqui que Swann se encontrava com sua futura mulher; ou,
pelo menos, só foi aqui nos últimos tempos, depois do sinistro que destruiu parcialmente a primeira
residência da Sra. Verdurin.
Infelizmente, com receio de ostentar aos olhos de Brichot um luxo que me parecia deslocado, visto
que o universitário não tomava parte nele, eu havia descido com muita precipitação do carro, e o cocheiro
não compreendera o que lhe recomendara às pressas para ter tempo de me afastar antes que Brichot me
avistasse. O resultado foi que o cocheiro veio ao nosso encontro e perguntou se devia voltar para me
apanhar; disse-lhe rapidamente que sim e redobrei de respeito para com o universitário, que chegara de
ônibus.
- Ah, o senhor está de carro - disse-me ele em tom grave. - Meu Deus, pelo maior dos acasos; isto
não acontece nunca, sempre ando de ônibus ou a pé. Porém, desse modo talvez tenha a grande honra
de levá-lo até em casa esta noite, se o senhor consentir em me acompanhar nesse calhambeque;
ficaremos um pouco apertados. Mas o senhor é tão bondoso comigo. -
Ai de mim; propondo-lhe aquilo não me privo de nada, pensei, visto que serei obrigado da mesma forma a regressar por causa de Albertine. Sua presença em minha casa, numa hora em que ninguém podia visitá-la, permitia-me dispor tão livremente de meu tempo como de tarde, quando sabia que ela ia voltar do Trocadero e eu não tinha pressa em revê-la. Mas afinal, também como de tarde, sentia eu que tinha uma mulher e que, voltando para casa, não conheceria a exaltação revigorante da solidão.
Ai de mim; propondo-lhe aquilo não me privo de nada, pensei, visto que serei obrigado da mesma forma a regressar por causa de Albertine. Sua presença em minha casa, numa hora em que ninguém podia visitá-la, permitia-me dispor tão livremente de meu tempo como de tarde, quando sabia que ela ia voltar do Trocadero e eu não tinha pressa em revê-la. Mas afinal, também como de tarde, sentia eu que tinha uma mulher e que, voltando para casa, não conheceria a exaltação revigorante da solidão.
- Aceito de coração - respondeu Brichot. - Na época a que o senhor alude, aos nossos amigos
moravam na rua Montalivet, num magnífico andar térreo com água furtada dando para um jardim, menos
suntuoso, é claro, e que no entanto prefiro ao palacete da Embaixada de Veneza. -
Brichot contou-me que naquela noite havia o "cais Conti" (era assim que os fiéis denominavam o
salão Verdurin desde que, se mudara para lá), um grande "tra-la-lá" musical, organizado pelo Sr. de
Charly, - Acrescentou que, no tempo antigo de que eu falava, o pequeno núcleo era outro; o tom bem
diferente, não só porque os fiéis eram muito jovens. Contou-me as farsas de Elstir (o que denominava
"puras patacoadas"), como num dia em que este, tendo fingido que roera a corda, viera disfarçado de
mordomo extra e, enquanto passava os pratos, dissera graçolas ao ouvido da muito pudica baronesa
Putbus vermelha de espanto e raiva; depois, desaparecendo antes do fim do jantar, mandara trazer ao
salão uma banheira cheia d'água, de onde, quando saíam todos da mesa, emergira completamente nu
soltando palavrões; e também das ceias onde todos apareciam em roupas de papel, desenhadas,
cortadas e pintadas por Elstir que eram obras-primas, tendo Brichot certa ocasião vestido a de um grande
fidalgo da corte de Carlos VII, com sapatos de bico revirado, e, de outra vez, a de Napoleão, para a qual
Elstir havia feito a grande insígnia da Legião de Honra com lacre. Em suma, recordando Brichot o salão
de outrora, com seus janelões, seus canteiros baixos comidos pelo sol do meio-dia e que fora preciso
substituir, declarava preferi-lo ao de hoje. Por certo, eu bem compreendia que, por "salão", Brichot queria
dizer-como o vocábulo "igreja" não indica apenas o edifício religioso mas a comunidade de fiéis não
apenas a água-furtada, mas as pessoas que a frequentavam em busca de prazeres especiais que vinham
procurar ali e aos quais, em sua memória, tinham dado sua forma aqueles canapés, em que, quando
vinham visitar a Sra. Verdurin de tarde, esperavam que ela se aprontasse, enquanto as flores róseas dos
castanheiros, lá fora, e os cravos nos vasos sobre a lareira pareciam, num pensamento de graciosa
simpatia pelo visitante, traduzido nas risonhas boas-vindas de suas cores rosadas, mirar fixamente a
chegada tardia da dona da casa. Mas se este "salão" lhe parecia superior ao atual, era talvez porque o
nosso espírito é o velho Proteu, não pode permanecer escravo de nenhuma forma e, mesmo no terreno
mundano, desprende-se subitamente de um salão, que chegou lenta e dificilmente a seu ponto de
perfeição, para preferir um salão menos brilhante, assim como as fotografias "retocadas" que Odette
mandara fazer no fotógrafo Otto, nas quais estava elegantíssima em seu rico vestido de princesa e
ondulada por Lenthéric, não agradavam tanto a Swann quanto um cartãozinho postal de Nice, onde,
numa capelinha de pano modesto, os cabelos mal toucados saindo para fora de um chapéu de palha
bordado de amores-perfeitos e com um laço de veludo negro (pois as mulheres em geral parecem mais
velhas quanto mais antigas forem as fotografias), vinte anos mais moça em elegância, parecia uma
criadinha vinte anos mais velha. Talvez Brichot também tivesse a satisfação de me gabar aquilo que eu
não havia conhecido, em mostrar-me que desfrutara de prazeres que eu não poderia ter. Conseguia-o,
aliás, pois, citando apenas os nomes de duas ou três pessoas que já não existiam e a cujo encanto
atribuía algo de misterioso por sua maneira de falar delas e dessas intimidades deliciosas, eu indagava a
mim mesmo sobre o que ele poderia ter sido, sentia que tudo aquilo que me haviam contado acerca dos
Verdurin era excessivamente grosseiro; e até Swann, que eu conhecera, censurava-me por não ter
prestado atenção nele, de não lhe ter prestado atenção com suficiente desinteresse, de não o ter
escutado bem quando, à espera de que sua mulher regressasse para o almoço, ele me recebia e me
mostrava belas coisas, agora que eu sabia que ele era comparável aos melhores conversadores de
antigamente.
No momento de chegar à casa da Sra. Verdurin, avistei o Sr. de Charlus que vinha navegando em
direção a nós com seu corpo enorme, arrastando atrás, sem querer, um desses apaches ou mendigos
que agora a sua passagem fazia infalivelmente surgir até mesmo dos cantos aparentemente mais
desertos, e dos quais aquele monstro poderoso era escoltado bem contra sua vontade, embora a certa
distância, como o tubarão pelo peixe piloto, afinal, contrastando de tal modo com o forasteiro altivo do
primeiro ano em Balbec, de aspecto severo e com sua afetação de virilidade, que me pareceu descobrir,
acompanhado de seu satélite, um astro num período totalmente diverso de sua revolução e que agora se
começa a ver em sua fase cheia; ou um enfermo invadido agora pelo mal que, anos antes, não passava
de uma leve borbulha que ele facilmente dissimulava e de cuja gravidade ninguém suspeitava. Embora
uma operação que Brichot sofrera lhe houvesse restituído um pouquinho da visão que para sempre tinha
perdido, não sei se perceberei, o vagabundo que seguia o barão. Aliás, pouco importava, pois desde La
Raspelier e apesar da amizade que o universitário tinha por ele, a presença do Sr. de Charlus lhe dava
um certo mal-estar. Sem dúvida para cada homem a vida de outrem prolonga na escuridão caminhos de
que não se tem qualquer ideia. A mentira, contudo; tantas vezes enganadora, e pasto de todas as
conversas, esconde menos perfeitamente um sentimento de inimizade ou de interesse, ou uma visita que
desejamos, dar a impressão que não foi feita, ou uma escapada com uma amante de um dia queremos
ocultar à nossa mulher - do que uma boa reputação o segredo dos maus costumes de que ninguém
desconfia. Esses maus costumes podem ficar ignorados a vida inteira; revela-os o súbito acaso de um
encontro à noite, num cais; mas esse acaso é muitas vezes mal compreendido e é preciso que um
terceiro, já, conhecedor do segredo, forneça-nos o seu sentido oculto, que todos ignoram. Porém uma vez
conhecidos, eles impressionam, pois percebemos que raiam pela loucura muito mais do que por serem
imorais. A Sra. de Surgis não possuía um sentimento moral muito desenvolvido e teria admitido qualquer
comportamento; de seus filhos desde que aviltado e explicado pelo interesse, o que é compreensível em
todos os homens. Mas proibiu-lhes que continuassem a frequentar o Sr. de Charlus quando soube que,
por uma espécie de relógio de repetição, o barão era fatalmente levado, em cada visita, a beliscar-lhes o
queixo e a fazer com que ambos, se beliscassem um ao outro. Experimentou aquela sensação de
inquietude do mistério físico, que faz com que nos indaguemos se o vizinho, com quem tem boas
relações, não estará atacado de antropofagia; e às repetidas perguntas ao barão:
- Quando é que verei de novo os rapazes? - respondeu, sabendo os furores que acumularia contra
a sua pessoa, que eles estavam ocupados com os estudos, os preparativos de uma viagem, etc. A
irresponsabilidade agrava as culpas e até os crimes, digam o que disserem. Landru (supondo que ele
tenha de fato matado as mulheres), se o fez por interesse, coisa a que se pode resistir, pode ser
perdoado; mas não se o fez por um sadismo irresistível.
[Henri Désiré Landru (1869-1922) foi preso e acusado da morte de dez mulheres, a quem teria proposto
casamento, e que nunca mais foram vistas. Condenado, sofreu pena de morte na guilhotina sem jamais
ter confessado os crimes (1920). Dos episódios da vida real mencionados na Em Busca do Tempo
Perdido, este é o de data recente. (N. do T)]
Os pesados gracejos de Brichot, no começo de sua amizade com o barão, tinham dado lugar,
quando já não se tratava de dizer lugares-comuns mas de compreender, a um sentimento desagradável
que encobria o contentamento. Ele sossegava recitando páginas de Platão, versos de Virgílio, porque,
igualmente cego de espírito, não compreendia que então amar um rapaz era como hoje (os gracejos de
Sócrates revelam-no melhor do que as teriam de Platão) sustentar uma dançarina e depois arranjar um
bom casamento. O próprio Sr. de Charlus mal o teria entendido, ele que confundia a sua mania com a
amizade, que não se lhe parece a coisa alguma, e os atletas de Praxíteles com dóceis pugilistas. Não
queria ver que há mil e novecentos anos ("um cortesão devoto sob um príncipe devoto teria sido ateu sob
um príncipe ateu", disse La Bruyere) todo o homossexualismo de costume e dos rapazes de Platão como
o dos pastores de Virgílio desaparecera, que sobrenada e se multiplica apenas o involuntário, o nervoso,
o que se oculta aos outros e se disfarça aos próprios olhos. E o Sr. de Charlus teria errado em não
renegar francamente a genealogia pagã. Em troca de um pouco de beleza plástica, quanta superioridade
moral! O pastor de Teócrito que suspira por um rapaz, mais tarde não terá motivo algum para ser menos
duro de coração e mais fino de espírito que o outro pastor, cuja flauta ressoa por Amarílis. Pois o primeiro
não é atacado por um mal, apenas obedece à moda de seu tempo. É o homossexualismo sobrevivente,
apesar dos obstáculos, vergonhoso, desonrado, o único verdadeiro, o único a poder corresponder, num
mesmo indivíduo, um refinamento das qualidades morais. Assusta-nos a relação que o físico possa ter
com estas quando se pensa na pequena aberração de gosto puramente físico, na ligeira tara de um
sentido, que explicam por que o universo dos poetas e dos músicos, tão fechado ao duque de
Guermantes, entreabre-se para o Sr. de Charlus.
Que este demonstre gosto no arranjo de sua residência, como uma dona de casa colecionadora
de bibelôs, não é coisa que surpreenda; mas a estreita fenda que abre para Beethoven e Veronese! Nem
por isso, no entanto, as pessoas sãs de espírito deixam de ter medo quando um louco, que fez um poema
sublime, depois de lhes explicar pelos motivos mais justos que está internado por engano, pela maldade
de sua mulher, pede que intervenham junto ao diretor do asilo, queixando-se das promiscuidades que lhe
impõem, concluindo assim:
- Olhem, este que virá falar-me no pátio, cujo contato sou obrigado a suportar, acredita ser Jesus
Cristo. Ora, isto é o bastante para me provar com que espécie de alienados me prendem; ele não pode
ser Jesus Cristo, pois Jesus Cristo sou eu! -
Um momento antes, estavam prontos para denunciar o erro ao médico alienista. Diante dessas
últimas palavras, e mesmo levando em conta o admirável poema em que esse homem trabalha todos os
dias, as pessoas se afastam, como os filhos da Sra. de Surgis se afastavam do Sr. de Charlus, não que
este lhes tenha feito algum mal, mas devido ao luxo de convites dos quais a finalidade era lhes beliscar
os queixos. É de lamentar que o poeta, que não dispõe de nenhum Virgílio para guiá-lo, precise
atravessar os círculos de um inferno de pez e de enxofre, de se lançar a um fogo que desce do céu, para
dali trazer alguns habitantes de Sodoma. Nenhum encanto em sua obra; a mesma severidade na sua vida
que na daqueles que seguem a regra do mais casto celibato para que não possam atribuir o terem
largado a batina a outra coisa que não a perda da fé. Todavia, não ocorre sempre do mesmo modo com
esses escritores. Qual o médico de loucos que não terá tido, à força de assisti-los, sua crise de loucura?
Feliz ainda se pode afirmar que não se trata de uma loucura anterior e latente que o tivesse feito dedicar
se a eles. O objeto de seus estudos, um psiquiatra, muitas vezes age de novo sobre ele. Mas antes disso,
esse objeta, que obscura inclinação, que terror fascinante o fizera escolhê-lo?
Fingindo não ver o indivíduo suspeito que ajustava seus passos pelos dele (quando o barão se
aventurava pelos bulevares ou atravessava a sala de espera da estação de Saint-Lazare, semelhantes
seguidores se contavam por dúzias que, na esperança de ganhar dinheiro, não o largavam) e com receio
de que, o outro se animasse a dirigir-lhe a palavra, o barão baixava em devotamento os cílios
enegrecidos que, contrastando com as faces cobertas de pó-de-arroz, faziam-no parecer-se a um grande
inquisidor pintado por El Greco. Mas tal padre causava medo e se assemelhava a um padre suspenso
das ordens, pois os diversos expedientes a que tivera de recorrer por necessidade, a fim de satisfazer o
seu vício e proteger seu segredo, tinham tido por efeito trazer à superfície do rosto precisamente aquilo
que o barão tentava ocultar, uma vida crapulosa atestada pela decadência moral. De fato, seja qual for a
sua causa, facilmente se lê, pois não demora a materializar-se, a proliferar sobre um rosto, especialmente
nas faces e ao redor dos olhos, tão fisicamente quanto o amarelo ocre numa pessoa que sofre do fígado
ou os vermelhos repugnantes de uma doença de pele. Aliás, não era apenas nas faces, ou melhor nas
bochechas desse rosto pintado, no peito de mamas salientes, nas nádegas proeminentes desse corpo
entregue à indolência e invadido pela gordura, que sobrenadava agora, espalhado como óleo, o vício
outrora tão intimamente resguardado pelo Sr. de Charlus no ponto mais secreto de si mesmo.
Transbordava agora de suas frases.
- Quer dizer, Brichot, que você anda passeando à noite com um belo rapaz? - disse aos abordar
nos, enquanto que o tal tipo, desapontado, afastava-se - Muito bonito. Vou dizer aos seus alunozinhos da
Sorbonne que você não é tão sério assim. Aliás, a companhia da juventude lhe faz bem, senhor
professor, deixa-o fresco feito uma rosinha. E você, meu caro, como vai?- disse-me ele, abandonando
seu tom de gracejo. - Não é visto muitas vezes no cais Conti, bela juventude. Pois bem, e sua prima,
como está? Não veio com você. Lamentamos, pois é encantadora. Poderemos vê-la esta noite? Oh, ela é
bem bonita. E o seria mais ainda se cultivasse amiúde a arte, tão rara, que possui naturalmente, de bem
vestir-se. -
Aqui devo dizer que o Sr. de Charlus "possuía", o que o tornava o exato oposto, o antípoda de
mim, o dom de observar minuciosamente, de distinguir os detalhes tanto de vestido como de uma tela.
Quanto aos vestidos e chapéus, certas más línguas determinados teóricos radicais dirão que, num
homem, a inclinação pelos atrativos masculinos tem por compensação o gosto inato, o estudo e a ciência
da total feminina. E com efeito, isso ocorre às vezes, como se os homens, tendo açambarcado todo o
desejo físico, toda a profunda ternura de um Charlus, o outro sexo em troca se achasse gratificado com
tudo o que fosse gosto "platônico" (adjetivo bastante impróprio), ou tout court, de tudo que fosse gosto,
com os mais sábios e seguros requintes. Sob tal aspecto, o Sr. de Charlus teria merecido a alcunha que
lhe deram mais tarde, "a Costureira". Mas seu gosto e espírito de observação se estendiam a muitas
outras coisas. Na noite em que fui vê-lo depois de um jantar na casa da duquesa de Guermantes, vimos
que eu só percebera as obras-primas que ele possuía em casa à medida que ele as ia mostrando a mim.
Reconhecia de imediato aquilo a que pessoa alguma jamais prestara atenção, e isso tanto nas obras de
arte como nas iguarias de um jantar (e da pintura à cozinha todo o meio-termo ficava compreendido).
Sempre lamentei que o Sr. de Charlus, em vez de limitar seus dons artísticos à pintura de um leque oferecido de presente à cunhada (vimos a duquesa de Guermantes segurando-o na mão e abrindo o, menos para se abanar do que para gabar-se, fazendo ostentação da amizade de Palamede) e ao aperfeiçoamento de sua execução pianística a fim de acompanhar sem erros o desempenho do violino de Morel, repito, sempre lamentei, e lamento ainda, que o Sr. de Charlus nunca tenha escrito coisa alguma.
É claro que não posso extrair da eloqüência de sua conversação e até de sua correspondência a conclusão de que ele teria sido um escritor de talento. Esses méritos não cabem no mesmo plano. Temos visto obras primas escritas por enfadonhos alinhadores de banalidades, e reis da conversação mostrarem-se inferiores ao mais medíocre quando tentam escrever. Apesar disso, creio que o Sr. de Charlus teria experimentado a prosa, e, para começar com aqueles temas artísticos que ele conhecia bem, o fogo teria irrompido, o clarão brilharia, e o homem mundano se tornaria um senhor escritor. Disse lhe isto várias vezes, e ele jamais quis tentar, talvez apenas por preguiça ou devido ao tempo ocupado com festas brilhantes e divertimentos sórdidos, ou uma necessidade própria de Guermantes de prolongar indefinidamente os falatórios. Tanto mais o lamento porque, em sua mais brilhante conversa, o espírito nunca se separava do temperamento, os achados de um da insolência do outro. Se tivesse escrito livros, em vez de detestá-lo mesmo admirando-o como se fazia num salão onde, em seus mais curiosos instantes de inteligência, ele ao mesmo tempo espezinhava as fábulas, vingava-se de quem não o insultara, procurava de maneira vil fazer que amigos brigassem se tivesse escrito livros, teriam todos avaliado isoladamente o seu valor espiritual, decantado do mal; nada teria perturbado a admiração e muitos aspectos despertariam a amizade.
Em todo caso, mesmo que eu me engane sobre o que ele teria podido realizar na menor página, teria ele prestado um raro serviço escrevendo, pois, se distinguia tudo, de tudo o que ele distinguia conhecia o nome. Certamente, conversando com ele, se não aprendi a ver (meu espírito e meu sentimento tinham tendência a estar alhures), pelo menos vi coisas que, sem ele, teriam-me ficado despercebidas, porém o nome delas, que me teria auxiliado a reencontrar o seu desenho, suas cores, esse nome eu sempre esqueci bem depressa. Se tivesse escrito livros ainda que ruins; e não creio que o fossem -, que delicioso dicionário, que repertório inesgotável! Afinal de contas, quem sabe? Em vez de pôr no livro todo o conhecimento e seu gosto, talvez devido a esse demônio que muitas vezes contraria o nosso destino, ele houvesse escrito folhetins desenxabidos, inúteis narrativas de viagens e de aventuras.
Sempre lamentei que o Sr. de Charlus, em vez de limitar seus dons artísticos à pintura de um leque oferecido de presente à cunhada (vimos a duquesa de Guermantes segurando-o na mão e abrindo o, menos para se abanar do que para gabar-se, fazendo ostentação da amizade de Palamede) e ao aperfeiçoamento de sua execução pianística a fim de acompanhar sem erros o desempenho do violino de Morel, repito, sempre lamentei, e lamento ainda, que o Sr. de Charlus nunca tenha escrito coisa alguma.
É claro que não posso extrair da eloqüência de sua conversação e até de sua correspondência a conclusão de que ele teria sido um escritor de talento. Esses méritos não cabem no mesmo plano. Temos visto obras primas escritas por enfadonhos alinhadores de banalidades, e reis da conversação mostrarem-se inferiores ao mais medíocre quando tentam escrever. Apesar disso, creio que o Sr. de Charlus teria experimentado a prosa, e, para começar com aqueles temas artísticos que ele conhecia bem, o fogo teria irrompido, o clarão brilharia, e o homem mundano se tornaria um senhor escritor. Disse lhe isto várias vezes, e ele jamais quis tentar, talvez apenas por preguiça ou devido ao tempo ocupado com festas brilhantes e divertimentos sórdidos, ou uma necessidade própria de Guermantes de prolongar indefinidamente os falatórios. Tanto mais o lamento porque, em sua mais brilhante conversa, o espírito nunca se separava do temperamento, os achados de um da insolência do outro. Se tivesse escrito livros, em vez de detestá-lo mesmo admirando-o como se fazia num salão onde, em seus mais curiosos instantes de inteligência, ele ao mesmo tempo espezinhava as fábulas, vingava-se de quem não o insultara, procurava de maneira vil fazer que amigos brigassem se tivesse escrito livros, teriam todos avaliado isoladamente o seu valor espiritual, decantado do mal; nada teria perturbado a admiração e muitos aspectos despertariam a amizade.
Em todo caso, mesmo que eu me engane sobre o que ele teria podido realizar na menor página, teria ele prestado um raro serviço escrevendo, pois, se distinguia tudo, de tudo o que ele distinguia conhecia o nome. Certamente, conversando com ele, se não aprendi a ver (meu espírito e meu sentimento tinham tendência a estar alhures), pelo menos vi coisas que, sem ele, teriam-me ficado despercebidas, porém o nome delas, que me teria auxiliado a reencontrar o seu desenho, suas cores, esse nome eu sempre esqueci bem depressa. Se tivesse escrito livros ainda que ruins; e não creio que o fossem -, que delicioso dicionário, que repertório inesgotável! Afinal de contas, quem sabe? Em vez de pôr no livro todo o conhecimento e seu gosto, talvez devido a esse demônio que muitas vezes contraria o nosso destino, ele houvesse escrito folhetins desenxabidos, inúteis narrativas de viagens e de aventuras.
- Sim, ela sabe se vestir ou, mas exatamente, enfeitar-se - continuou o Sr. de Charlus a propósito
de Albertine. - Minha única dúvida é se ela se arruma em conformidade com sua beleza particular, e eu
talvez seja um tanto responsável por isso, por causa dos conselhos não muito ponderados que lhe dei. O
que muitas vezes lhe disse ao ir à Raspeliere e que era antes ditado talvez - e disso me arrependo pela
natureza da região e pela proximidade das praias do que pelo caráter individual de tipo da sua prima, fê-la
acentuar um pouco demais o gênero leve. Reconheço que a vi usar lindas tarlatanas, encantadoras
écharpes de gaze, uma determinada touca cor-de-rosa onde uma pequena pluma rósea não fazia má
figura. Mas acho que sua beleza, que é real e maciça, exige mais do que belos enfeites. Conviria a touca
a essa cabeleira enorme que um kakochnyk (penteado em diadema das mulheres russas) não faria mais
que ressaltar? Há poucas mulheres a quem convenham os vestidos antigos que dão um aspecto de
fantasia de teatro. Mas a beleza dessa moça, já mulher, abre uma exceção e mereceria um vestido antigo
de veludo de Gênova (logo pensei em Elstir - e nos vestidos de Fortuny) que eu não recearia tornar mais
pesado ainda com incrustações ou pingentes de maravilhosas pedras desusadas (é o mais belo elogio
que se pode fazer a tal respeito) como a olivina, a marcassita e a incomparável labradorita. Aliás, ela
mesma parece possuir o instinto do contrapeso, que exige uma beleza um tanto pesada. Lembre-se, para
ir jantar na Raspeliere, de todo esse acompanhamento de belos estojos, de bolsas pesadas, nos quais,
quando se caso ela poderá colocar mais do que a brancura do pó-de-arroz ou o carmim da pintura do
rosto, mas num cofrezinho de lápis-lazúli não muito cor de anil; também pérolas e rubis não
reconstituídos, creio, pois ela pode fazer um casamento rico.
- Ora, ora, barão - interrompeu Brichot, temendo que eu me aborrecesse com essas últimas
palavras, pois tinha dúvidas sobre a pureza de minhas relações e a autenticidade do parentesco de
Albertine comigo -, aí está como você se ocupa com as senhoritas!
- Faça o favor de se calar diante deste menino, língua viperina - troçou o Sr. de Charlus
abaixando, num gesto para impor silêncio a Brichot, a mão que não deixou de apoiar em meu ombro.-
Incomodei-os; vocês pareciam divertir-se como duas louquinhas e não precisavam de uma velha vovó
desmancha-prazeres como eu. Não irei confessar-me por causa disso, pois vocês já estavam quase
chegando. -
O barão estava de muito bom humor, tanto mais que ignorava completamente a cena da tarde, pois Jupien julgara mais útil proteger a sobrinha contra nova ofensiva de Morel do que ir prevenir o Sr. de Charlus. Assim, este sempre acreditava no casamento e se regozijava com isso. Dir-se-ia que é um consolo, para esses grandes solitários, conferir a seu trágico celibato o alívio de uma paternidade fictícia.
O barão estava de muito bom humor, tanto mais que ignorava completamente a cena da tarde, pois Jupien julgara mais útil proteger a sobrinha contra nova ofensiva de Morel do que ir prevenir o Sr. de Charlus. Assim, este sempre acreditava no casamento e se regozijava com isso. Dir-se-ia que é um consolo, para esses grandes solitários, conferir a seu trágico celibato o alívio de uma paternidade fictícia.
- Mas palavra de honra, Brichot - acrescentou ele, voltando-se a rir para nós -, que tenho
escrúpulos em vê-lo em tão galante companhia. Vocês pareciam dois namorados. De braços dados, que
liberdades são essas, hem Brichot? -
continua na página 79...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)A Prisioneira (Para retornar às realidades)
Volume 6
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